Tuesday, 2 March 2021

Soa o alarme da ONU: “Alerta vermelho para o clima”

 http://www.ihu.unisinos.br/607157-soa-o-alarme-da-onu-alerta-vermelho-para-o-clima

Soa o alarme da ONU: “Alerta vermelho para o clima”

Ainda estamos muito longe dos objetivos, e já há um alerta vermelho, para um mundo que vai se aquecer mais de 1,5°C em comparação com o período pré-industrial, se não conseguirmos cortar as emissões mundiais rapidamente.

A reportagem é de Giacomo Talignani, publicada por La Repubblica, 01-03-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

ONU voltou a soar o alarme: apenas 75 países de um total de 200 apresentaram até agora planos de redução das emissões, e os compromissos assumidos até aqui são insuficientes para alcançar os objetivos fixados para 2030. Nesse ritmo, com muito poucos países concretamente comprometidos com a redução das emissões que modificam o clima, aplicando políticas de corte severas, de acordo com as Nações Unidas, o aumento das temperaturas será inevitável.

Como informou o secretário-geral Antonio Guterres, os primeiros que deverão se comprometer mais com a redução das emissões são, sobretudo, os países mais poluentes, incluindo os EUA, que recentemente voltaram a entrar oficialmente no Acordo de Paris.

“Em 2021, ou vai ou racha, no que diz respeito à emergência climática mundial. A ciência é clara: para limitar o aumento das temperaturas a 1,5 grau, devemos reduzir as emissões poluentes em 45% até 2030 em comparação com 2010”, reiterou o secretário, que falou de “alerta vermelho para o planeta”, se não conseguirem conter as emissões.

Acordos de Paris: o que os jovens pensam

Até o fim de 2020, os cerca de 200 países signatários dos Acordos de Paris de 2015, aqueles que firmaram o compromisso para conter o aquecimento global possivelmente até 1,5 grau, deveriam ter apresentado seus planos e objetivos concretos para combater o aquecimento global.

No entanto, apenas 75 países, que representam 30% das emissões poluentes mundiais, incluindo todos os da União Europeia, apresentaram os planos. Por enquanto, segundo a ONU, o impacto geral dos compromissos de quem cumpriu o prazo representaria menos de 1% da queda das emissões até 2030 (em comparação com 2010).

Para a responsável da ONU para o clima, Patricia Espinosa, “é incrível pensar que, diante de uma emergência que pode acabar com a vida humana no planeta, e apesar de todos os estudos, os relatórios e as advertências dos cientistas do mundo inteiro, muitos países mantêm a sua abordagem de "status quo”.

De acordo com Guterres, “os mais importantes poluidores devem apresentar objetivos de redução das emissões muito mais ambiciosos para 2030 nos seus planos nacionais” e devem fazer isso “muito antes da COP-26, a conferência sobre o clima de Glasgow em novembro”.

Países mais poluentes

Entre os países mais poluentes em termos de emissões, além dos EUA e da Índia, também se encontra a China, que se comprometeu a alcançar a neutralidade de carbono até 2060, mas que ainda está aquém em relação aos volumes das suas emissões para uma mudança real. Vários países, aliás, estão justificando a não apresentação dos planos com outra prioridade, a emergência sanitária ligada à pandemia.

Para Espinosa, porém, “a emergência climática não parou por causa da pandemia e não vai desaparecer porque há outra emergência. Os grandes poluidores e, em particular, os países do G20 são os que devem dar o exemplo”.

Por isso, todos os governos, principalmente os que estão à frente de países com forte impacto em termos de emissões, são convidados pela ONU a reduzir as emissões pela metade nos próximos 10 anos, se quiserem garantir um futuro para a Terra. Caso contrário, o alerta vermelho, como reiterou Guterres, dificilmente deixará de “soar”: “Os principais produtores de emissões devem intensificar os objetivos de redução das emissões e ser muito mais ambiciosos”, defende o secretário-geral.

Em particular, entre os países que preocupam pela lentidão ou pela inadequação de seus planos climáticos, está a Austrália, que até agora não apresentou planos oficiais, e cuja contribuição substancial para a luta contra o aquecimento global é considerada, pela maioria dos especialistas, como fraca demais, e também, por exemplo, o Brasil ou o México, apontados por estarem muito atrás na aplicação concreta de políticas para o clima.

Ações imediatas e concretas

Em geral, a União Europeia está melhor. Entre todos, ela deu um grande passo, ao estabelecer para si o objetivo do corte de 55%. De acordo com alguns especialistas, são ótimos os objetivos de redução de mais de 60% que, por exemplo, o Nepal, a Argentina ou o Reino Unido definiram para si mesmos.

Para todos os países do mundo, porém, será fundamental que haja uma relação real entre os objetivos anunciados e a efetiva redução das emissões. Por exemplo, a Alemanha, um dos Estados que, como reiterou Angela Merkel repetidamente, está na vanguarda da batalha contra a crise climática, chamou a atenção por suas ações contraditórias, como o recente início de usinas de carvão ou o não abandono concreto de diversos sistemas de suprimento a partir de fontes fósseis. O mesmo é verdade, em alguns casos, para o Japão.

Para salvar o planeta da ameaça da emergência climática, portanto, é preciso que os compromissos assumidos não permaneçam apenas como anúncios, mas se tornem realidade. Como aponta Guterres, “os compromissos de longo prazo devem ser acompanhados de ações imediatas e concretas para iniciar a década de transformação da qual as pessoas e o planeta precisam tão desesperadamente”.

Leia mais

 

Comunicar erro

Experts warn Brazil facing darkest days of Covid crisis as deaths hit highest level

 https://www.theguardian.com/world/2021/mar/01/brazil-coronavirus-deaths-highest-level?utm_term=fcc0a06f67c65d7fa0231fc8d8b76dc2&utm_campaign=GuardianTodayUK&utm_source=esp&utm_medium=Email&CMP=GTUK_email


Experts warn Brazil facing darkest days of Covid crisis as deaths hit highest level

Intensive care units in 17 of the country’s 26 states were near capacity, while six states and the capital had run out of ICU beds

A patient receives treatment in a hospital in Oriximina, state of Para, Brazil on 5 February.
A patient receives treatment in a hospital in Oriximiná, state of Pará, Brazil on 5 February. Photograph: Tarso Sarraf/AFP/Getty Images
 in Rio de Janeiro

Health experts and lawmakers have warned Brazil is steaming into the darkest days of its coronavirus catastrophe, as fatalities soared to new heights and one prominent politician compared the crisis to an atomic bomb.

Politicians from across the spectrum voiced anger and exasperation at the deteriorating situation on Monday, after Brazil’s weekly average of Covid deaths hit its highest level since the epidemic began last February and hospitals around the country reported being swamped.

According to the newspaper O Globo, intensive care units in 17 of Brazil’s 26 states were near capacity, while six states and the capital Brasília had run out of intensive care beds altogether.

“We are living through one of the worst moments in our history,” said Tasso Jereissati, an influential centre-right politician who is among a group of senators demanding a congressional investigation into President Jair Bolsonaro’s globally condemned handling of the pandemic.

Renato Casagrande, the leftwing governor of Espírito Santo state, told the news website UOL he believed Bolsonaro’s irresponsible behaviour had cost Brazilian lives.

“We’ve lost the war … It’s as if an atomic bomb has landed on Brazil,” Casagrande said, pointing to Brazil’s soaring death toll which, at more than 255,000 people, is the world’s second highest after the US.

Luiz Henrique Mandetta, who was Bolsonaro’s health minister until he was fired last April, told O Globo that Brazil’s failure to launch a rapid vaccination scheme meant the average daily death toll could soon rise to over 2,000.

“I don’t know where this will end … The country is running the risk of becoming one big Manaus,” Mandetta warned in reference to the Amazonian capital which made international headlines in January after hospitals ran out of oxygen because of a Covid surge.

It has now been just over a year since Brazil registered its first official Covid case, on 26 February. Brazil’s first death was recorded in mid-March.

Mandetta, who was fired after challenging Bolsonaro over Covid, has claimed that before leaving government he warned the president the death toll could reach 180,000 before a vaccine was found.

But Bolsonaro, who has trivialized Covid as “a bit of a cold”, ignored those appeals, resisted quarantine measures and, one year into the outbreak, continues to undermine lockdown efforts by disparaging masks and promoting crowded public events.

In December Bolsonaro falsely claimed his country had reached “the tail end of the pandemic”.

Last Friday, as Brazil reported its highest daily number of deaths, Bolsonaro travelled to the north-eastern state of Ceará – where the leftwing governor had imposed a Covid curfew – to hold a Trump-style rally at which he railed against such measures before a throng of supporters and claimed people could no longer bear to stay at home.

That appearance sparked outrage among political opponents and fuelled calls for an inquiry into Bolsonaro’s actions.

Jereissati, who represents Ceará in the senate, said Bolsonaro’s “reckless” undermining of containment measures “bordered on insanity”.

“In my opinion, what he did here was a crime against public health,” he said.

“It was one of the most irresponsible acts that I’ve ever seen from a Brazilian president. We experienced a tough period of military rule here, which I lived through, but I’ve never seen anything so irresponsible and foolish as what happened here in Ceará.”

Jereissati added: “The president seems to believe that he can behave however he likes without facing any kind of consequences himself. With an inquiry, we hope to show the president that he must be held legally, and even criminally, responsible for his actions … These actions have consequences – and they need to have consequences for him too.”

Jean Paul Prates, a Workers’ party senator, said an inquiry could prevent the death toll soaring further.

“There is still time to save lives and to pressure the government into changing its behaviour so it doesn’t keep clinging to certain positions just because of dogmatism or pseudo-ideology,” Prates said.

Bolsonaro’s political standing was bolstered last month after candidates he had backed were elected to the presidencies of the senate and lower house. Analysts believe that is likely to free Bolsonaro from the threat of impeachment, for now at least.

However, the far-right populist is facing mounting public anger over the soaring death toll and its spluttering vaccination drive.

So far just 3.8% of Brazil’s population has been vaccinated with state capitals such as Rio, Salvador, Cuiabá, Porto Alegre and Florianópolis among the cities forced to temporarily suspend immunisation for lack of shots.

Calls for the impeachment of a man critics call “Bozo” can be seen graffitied on to walls across major cities while propaganda hoardings promoting the far-right populist have been vandalised with red paint. Both left- and rightwing detractors have taken to the streets in protest in recent weeks.

The outlook appeared bleak in many of Brazil’s states on Monday, as an association of state health secretaries called for an immediate nationwide curfew from 8pm until 6am to curb infections.

“We are facing our worst moment, with the worst president for this moment,” said Jereissati. “It didn’t need [to be like this] at all – on the contrary.”

... as you join us today from Brazil, we have a small favour to ask. You’ve read 

 in the last year. And you’re not alone; through these turbulent and challenging times, millions rely on the Guardian for independent journalism that stands for truth and integrity. Readers chose to support us financially more than 1.5 million times in 2020, joining existing supporters in 180 countries.

For 2021, we commit to another year of high-impact reporting that can counter misinformation and offer an authoritative, trustworthy source of news for everyone. With no shareholders or billionaire owner, we set our own agenda and provide truth-seeking journalism that’s free from commercial and political influence. When it’s never mattered more, we can investigate and challenge without fear or favour.

Unlike many others, we have maintained our choice: to keep Guardian journalism open for all readers, regardless of where they live or what they can afford to pay. We do this because we believe in information equality, where everyone deserves to read accurate news and thoughtful analysis. Greater numbers of people are staying well-informed on world events, and being inspired to take meaningful action.

In the last year alone, we offered readers a comprehensive, international perspective on critical events – from the Black Lives Matter protests, to the US presidential election, Brexit, and the ongoing pandemic. We enhanced our reputation for urgent, powerful reporting on the climate emergency, and made the decision to reject advertising from fossil fuel companies, divest from the oil and gas industries, and set a course to achieve net zero emissions by 2030.

If there were ever a time to join us, it is now. You can power Guardian journalism and help sustain our future. Support the Guardian from as little as $1 – it only takes a minute. If you can, please consider supporting us with a regular amount each month. Thank you.

Monday, 1 March 2021

Coletivo TEKOHA

 

Coletivo TEKOHA

É um coletivo de jovens preocupados com a Terra e que somam suas forças com a Coalização do Clima de MT para o enfrentamento do colapso climático. Nome de origem Guarani, com significado do bem-viver de nosso território, TEKOHA expressa "O lugar onde somos".

YOUTUBE

Sem chuva, Pantanal teme nova catástrofe ambiental

https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/sem-chuva-pantanal-teme-nova-catastrofe-ambiental,901d59e8040e5fe8f1808917214d39c127o8b1s0.html

TERRA
Sem chuva, Pantanal teme nova catástrofe ambiental


Moradores da região se preparam para incêndios ainda mais devastadores do que em 2020

1 MAR2021
07h23
atualizado às 08h13

Quem chega ao Pantanal em fevereiro, normalmente está preparado para encarar um tempo molhado. Nesta época do ano, tudo costuma estar submerso, com grande parte da região transitável apenas a cavalo ou de barco. Traga roupa de chuva, dizia-se por telefone.




Imagens como esta contrastam com o esperado da estação de chuvas no PantanalFoto: DW / Deutsche Welle


Mas, em vez disso, a poeira queima no nariz e nos olhos quando se dirige por uma estrada de terra de Mutum até a maior reserva natural privada do Brasil, no interior do Pantanal. E no lugar de nuvens escuras, o sol brilha no céu.


É época de chuvas no Pantanal, mas simplesmente não chove. Há meses que o tempo está demasiadamente seco. Rios que normalmente transbordam pelas margens nesta época do ano hoje não são mais do que poças e bancos de areia. Em vários lagos ao longo do caminho a água se tornou tão escassa que já não há mais espaço e nem alimento para os jacarés. Eles começaram a se atacar, e alguns já morreram. Suas carcaças servem agora de alimento para os urubus.

Pior estiagem em décadas


Segundo cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), o Pantanal vive atualmente a pior seca dos últimos 60 anos. Os pesquisadores alertam também que a seca ainda deverá durar mais alguns anos e ter graves consequências para a fauna, a flora e as pessoas, a exemplo do aumento de grandes incêndios.

As causas da atual seca não estão claras. Pode ser tanto em decorrência das mudanças climáticas como do desmatamento da bacia amazônica - menos floresta por lá, significa menos formação de nuvens e, portanto, menos chuva por aqui. Um ciclo natural também não está descartado: entre 1968 e 1973, o Pantanal também passou por uma seca extrema. Provavelmente é um misto dos três fatores.

No Pantanal, teme-se agora que a catástrofe de 2020 se repita neste ano. Entre agosto e outubro de 2020, grandes incêndios devastaram cerca de um quarto do bioma. Por mais contraditório que possa parecer: foram os piores incêndios na história da maior zona úmida da Terra.

O inferno de 2020

"Este ano é muito mais seco que 2020", diz Alessandro Amorim, de 34 anos, guarda-florestal da maior reserva natural privada do Brasil, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

A RPPN foi fundada em 1997 pelo Sesc e é considerada uma das reservas naturais mais bem administradas do Brasil. Com quase 110 mil km², ela abriga uma imensa variedade de animais, entre eles a arara-azul, o lobo-do-rio, o tamanduá-bandeira, a onça pintada, o lobo-guará, a ema e a anta. Alessandro Amorim se diz feliz em trabalhar aqui e ajudar a proteger a flora e fauna. Nascido no Pantanal e filho de um pequeno agricultor, ele atualmente gerencia, junto com outros dois colegas, um dos seis postos de guarda-florestal da RPPN.

No ano passado, quando os incêndios queimaram quase 95% da reserva do Sesc, Amorim lutou durante 50 dias e noites contra as chamas. Investigações apontam que o fogo foi desencadeado por um pecuarista e por indígenas de uma aldeia de fora da reserva. Já em outras partes do Pantanal, segundo a Delegacia de Meio Ambiente (Dema), os responsáveis foram coletores de mel, acidentes automobilísticos, incêndios e pecuaristas criminosos.

A vegetação ressecada transformou o fogo num inferno, com chamas avançando por mais de 50 quilômetros, queimando até mesmo debaixo da terra. "Nunca vi nada igual", disse Amorim. "O calor, a fumaça, o vento quente, as paredes de fogo. Os animais vinham correndo da floresta, carbonizados."

Fogo controlado

Para conter as chamas, os guardas-florestais traçaram corredores na floresta e atearam fogo de maneira controlada. Do ar, eles tinham o apoio de aviões de combate a incêndios. Quando os incêndios acabaram, no final de setembro, foram instalados 165 tanques de água para alimentar os animais que sobraram, e frutas foram distribuídas a eles. "Isso salvou a vida de muitos animais debilitados", lembra Amorim.

Agora ele e seus colegas se preparam para os próximos incêndios. Com a ajuda de tratores, eles traçam mais corredores ao redor da reserva para parar o avanço de possíveis incêndios. Além disso, o Sesc também busca conscientizar a população dos entornos da reserva sobre o perigo das tradicionais queimadas de campos.

A visão dos fazendeiros

A 350 quilômetros e seis horas de carro do posto da guarda-florestal, José Dorilêo repete a frase que se ouve tantas vezes: "Não chove".

Dorilêo vive na Transpantaneira, uma estrada de terra que percorre o norte do Pantanal ao longo de 150 quilômetros entre Poconé e Porto Jofre. Hoje ele recebe a visita do sobrinho Raúl Costa, que, como ele, é criador de gado - já estão na quarta geração, como ambos orgulhosamente salientam. A Fazenda de Dorilêo compreende cerca de 12 mil hectares, um vasto campo por onde são conduzidas cerca de 3 mil cabeças de gado por vaqueiros.

Tanto ele quanto Costa resistem a serem retratados pela mídia como vilões do Pantanal. "Quando teve o incêndio, disseram que nós, os fazendeiros, tínhamos começado o fogo para criar pastagens", conta Costa. "Isso é um absurdo! O Pantanal é enorme e um ou dois malucos podem ter feito isso, mas atear fogo aqui seria suicídio. Nossa própria fazenda queimou quase toda no ano passado. Não dá para colocar todos os fazendeiros no mesmo saco".

Pastagens naturais

Costa está sentado na cozinha do casarão centenário, que dá os ares de um museu local. Fotos antigas, esporas e laços decoram as paredes. É a hora do café da manhã, e um dos vaqueiros traz uma cabeça de gado que ficou assando por 9 horas num forno de barro no quintal da casa.

Após morder um pedaço de língua de boi, o homem de 43 anos diz que nunca houve derrubada de mata na fazenda. Pelo contrário, aponta, os fazendeiros dependem das árvores, pois elas protegem os lugares elevados onde o gado fica durante os dilúvios. O que o incomoda é que, de acordo com a lei, não é permitida nem a retirada de plantas invasoras - arbustos, por exemplo, que se reproduzem de forma veloz e acabam alimentando ainda mais as chamas.

O Pantanal, na verdade, tem suas próprias regras ao longo da Transpantaneira. Ao contrário da Amazônia, muitas pastagens aqui não são produto do desmatamento, mas surgem naturalmente através de enchentes. É por isso que pecuaristas locais como Costa e Dorilêo se sentem injustiçados ao serem acusados de vilões do meio ambiente. Eles dizem ter consciência ambiental e querem combater o clichê de fazendeiros exploradores. Parecem ter entendido que, no Pantanal, só se pode obter lucros com a natureza.

Só que a natureza se torna cada vez mais imprevisível. Devido à falta de chuvas, Costa teme que os tanques sequem neste ano. "Aí não teríamos água suficiente para o gado e teríamos que vendê-lo", afirma.

Economia baseada no turismo sustentável

Já a vários quilômetros dali, um homem na Transpantaneira acredita saber como lucrar com o Pantanal e protegê-lo ao mesmo tempo. Mas a primeira coisa que André Thuronyi diz à reportagem é que está chocado com a seca. "Aqui deveria haver água por toda parte", lamenta, apontando para os prados secos.

Filho de uma família nobre de imigrantes húngaros, Thuronyi veio para o Pantanal em meados da década de 1970. Ele se apaixonou pela região e começou a espalhar a ideia do ecoturismo - algo que ninguém no Pantanal conhecia na época. "Fui pioneiro", diz ele.

Hoje, o homem magro de 66 anos, cuja marca registrada é uma ondulante cabeleira de um louro acinzentado, é dono da exclusiva Araras Eco Lodge. O conceito inclui imersão na natureza: observação de animais silvestres, excursões noturnas e passeios a cavalo.

"Mostrei às pessoas que uma onça ou uma arara-azul tem muito mais valor viva do que morta ou em cativeiro", diz Thuronyi. "Quem quer atrair turistas precisa da natureza." Mas levou muito tempo para que seus vizinhos entendessem essa máxima. "Eu fui considerado o gringo maluco."

Mas com os anos, o sucesso da pousada de Thuronyi inspirou imitadores. Hoje, no lugar de antigas fazendas, existem 18 eco-lodges ao longo da Transpantaneira.

Ao anoitecer, Thuronyi sobe em uma torre de observação de 25 metros de altura no meio de uma floresta que faz parte do terreno da eco-lodge. Enquanto um grupo de macacos-pregos macaqueia no andaime da torre, nuvens escuras aparecem no horizonte. Em alguns lugares, é possível ver a chuva caindo sobre a terra plana. "Isso me alegra muito", diz André Thuronyi. "Mas temo que seja tarde demais."

Pantanal teve pior seca em 50 anos

 12/02/2021

https://www.oc.eco.br/pantanal-teve-pior-seca-em-50-anos-revela-estudo/

Pantanal teve pior seca em 50 anos, revela estudo

Cientistas alertam para fim do bioma “como o conhecemos” em cenário de mudança climática e desmatamento sem controle

Tuiuiís em área queimada no Pantanal (Foto: Iberê Périssé/Projeto Solos)

DO OC – A seca que castigou o Pantanal entre 2019 e 2020 e armou o cenário para a pior temporada de queimadas da história do bioma foi a mais grave em 50 anos. E o mês de abril do ano passado foi o mais seco desde que as medições começaram no local, há 120 anos. A constatação é de um estudo inédito liderado pelo Cemaden (Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e pela Unesp, que será publicado na revista Frontiers in Water.

Os pesquisadores José Marengo, Ana Paula Cunha e seus colegas fizeram um raio-X climatológico da seca, analisando índices de precipitação e nível dos rios. Descobriram que o nível do rio Paraguai foi o mais baixo desde 1971 e a região como um todo recebeu entre 50% e 60% menos chuva do que o normal. Um dos índices de precipitação analisados foi o mais baixo da história.

A seca anormal tornou a região pantaneira excepcionalmente sensível a queimadas possivelmente feitas por produtores rurais para abrir novas áreas de pastagem, segundo investigação da Polícia Federal. No ano passado, esses fogos saíram do controle e 30% do Pantanal ardeu em chamas. Mais de 22 mil focos de incêndio foram detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – um número 76% maior do que em 2005, ano até então recordista na série histórica iniciada em 1988.

Segundo Marengo, é possível atribuir a seca em parte ao aquecimento anormal do Atlântico tropical, que impediu que os chamados “rios voadores” – a umidade reciclada pela Amazônia que é exportada para o sul da América do Sul – irrigassem as bacias do Paraguai e do rio da Prata. O mesmo fenômeno está por trás da temporada de furacões de 2020 no Caribe, uma das mais ativas em registro, e da seca que fez o norte da Argentina ter uma das piores temporadas de incêndios de sua história.

Um bloqueio atmosférico – uma área de pressão do ar muito alta sobre o Pantanal, que repeliu a entrada da umidade – se formou. “Nem a umidade da Amazônia pelo norte nem as frentes frias do Sul conseguiram chegar, e essa estabilidade sobre a região foi favorecida por um Atlântico subtropical Sul mais quente que o normal”, afirmo. Marengo disse que não é possível cravar a impressão digital da mudança climática nesse extremo, “mas também não posso dizer que não é”.

Uma coisa, porém, os cientistas afirmam: não fossem as mudanças intensas de uso da terra no Pantanal nas últimas décadas, a seca dificilmente teria provocado incêndios como os de 2020. “Se as tendências climáticas e de manejo da terra atuais persistirem, o Pantanal como o conhecemos deixará de existir.” (CLAUDIO ANGELO)