Thursday 9 December 2021

Nas fronteiras da roboética

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Nas fronteiras da roboética

09 Dezembro 2021

 

A disseminação dos robôs em contextos industriais, mas também a presença mais invasiva de plataformas e aplicativos que utilizamos todos os dias nos nossos celulares, levanta uma série de problemas que têm relação com a esfera ética. A roboética, portanto, é aquela parte da ética das tecnologias que estuda as implicações advindas da interação homem-robô, que, como explica o Pe. Paolo Benanti, professor de Teologia Moral e Ética das Tecnologias na Pontifícia Universidade Gregoriana, estão ligadas à própria natureza dessa interação.

 

A reportagem é publicada por Italia 4.0, 01-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

“Na interação homem-robô, é preciso fazer uma grande distinção preliminar – explica Benanti –, ou seja, enquanto a máquina funciona, o ser humano vive e tem uma experiência da interação com o robô, que não é apenas de natureza racional, mas também emocional. A experiência da interação com a máquina, portanto, pode ser positiva e também negativa: a user experience intervém aqui para estudar, projetar e minimizar os possíveis efeitos negativos que podem derivar da relação com a máquina.”

 

As implicações éticas, portanto, tornam-se ainda mais importantes quando as máquinas adquirem autonomia própria, e isso graças ao desenvolvimento de algoritmos que lhes permitem elaborar resultados sobre os quais decisões são tomadas, orientando os nossos comportamentos.

 

 

“Nesse sentido, os algoritmos se aproximam muito daquela que é a própria definição de lei, como ‘dispositivo feito por uma instituição para orientar o comportamento das pessoas’”, observa Benanti. “Aqui surge uma tensão entre a sociedade dos algoritmos e o Estado de direito em que gostaríamos de viver, cujos pressupostos são que a lei seja conhecível, universal e geral. Entretanto nenhuma das três condições vale para os algoritmos, pois um algoritmo não é conhecível nas modalidades nas quais ele realmente elabora os dados – e aqui é forte a tendência rumo à explainable AI – nem é universal quando faz perfis, nem é geral, pois só obedece aos padrões dos servidores.”

 

Outro argumento notável está ligado à disseminação das plataformas de software, que hoje adquirem aqueles dados que as pessoas oferecem em troca de serviços pelos quais não pagam. Dados que, tomados individualmente, não têm valor, mas que, agregados a outros, representam uma fonte inconsumível para os algoritmos extraírem valor, levando a uma espécie de capitalismo de dados. Que envolve um problema ético, exigindo uma espécie de “algorética”, além da roboética, quando se torna necessário fazer um equilíbrio entre o respeito aos direitos fundamentais da pessoa e os objetivos de otimização do lucro e da rentabilidade de um processo.

 

Foto: Pexels

 

“Um aspecto ético igualmente relevante é o declínio cognitivo que a adoção cada vez mais difundida de robôs e plataformas pode trazer consigo”, explica Benanti. “Pensemos, por exemplo, na inteligência artificial do módulo GPT-3, que, a partir de uma solicitação em linguagem natural, é capaz de desenvolver o código para gerar a aplicação desejada, por exemplo, um certo tipo de site. Trata-se, naturalmente, de um instrumento muito poderoso, mas também uma skill-killer application, pois quem vai querer lidar com desenvolvimento de software se no futuro houver sistemas desse tipo que podem fazer isso automaticamente?”

 

Para dar um exemplo mais próximo do cotidiano de todos, basta pensar no fato de que, antigamente, a memória das pessoas era treinada para lembrar todos os números de telefone das pessoas mais queridas, enquanto hoje muitas vezes não nos lembramos mais de nenhum deles, já que temos um assistente digital nos nossos telefones que faz isso por nós. E aqui a tecnologia induz a uma espécie de antropomorfismo, um curioso evento em que nós somos a própria causa de uma mutação da espécie.

 

 

Por isso, é importante também antecipar e prever os possíveis desenvolvimentos e efeitos a longo prazo das tecnologias, intervindo também do ponto de vista normativo sobre aqueles aspectos que devem ser governados para proteger os direitos fundamentais das pessoas, e talvez até a sua própria natureza.

 

Intimamente ligado a isso, portanto, está também a questão de como o trabalho está mudando, à luz da entrada dos robôs nas empresas, como explica Marco Bentivogli, coordenador e cofundador da BASE Italia.

 

“Hoje, precisamos de uma nova narrativa dos robôs, que faça com que as pessoas saibam que entramos na segunda era dos robôs”, afirma Bentivogli. “Os robôs de hoje não são mais os velhos robôs industriais, vistos como algo que tirava o trabalho do ser humano e que ainda hoje são os que normalmente estão envolvidos quando se trata de acidentes de trabalho. Um elemento que deve ser narrado, por sua vez, é acima de tudo que as máquinas de hoje podem coexistir com o ser humano, e que, desse modo, o trabalho se hibridiza com a máquina, segundo um perímetro da operação e da atividade que é decidido pelo próprio ser humano e em sua vantagem.”

 

Foto: Pexels

 

Dentro dessa nova narrativa dos robôs atuais, segundo Bentivogli, também devem as formas de pensar os negócios e o trabalho, libertando-se de velhas categorias como as do controle e da exploração. “O relato dessa nova realidade deve ser acompanhado por uma visão positiva – continua Bentivogli –, abandonando ideias como a de que a tecnologia traz catástrofes e anula o trabalho. Por exemplo, um wearable vestido por um funcionário em um depósito, nesse sentido, é um instrumento que o ajuda a completar com segurança o seu trabalho com segurança, sem cometer erros nem ter que repetir operações para remediar. Ele não deve ser visto como algo que torna o trabalhador não mais autônomo, mas heterodirigido. Se, depois, olharmos para as tecnologias digitais hoje na empresa, elas descongelam o espaço e o tempo, tornando muito mais fluida e flexível a disposição dos horários de trabalho e dos dedicados ao tempo livre para as pessoas. Quanto mais cresce a presença de robôs e o IoT na empresa, mais a proximidade física se torna um requisito cada vez menos indispensável, também no smart working industrial.”

 

Um fato evidente e muito importante de como os conceitos de trabalho e empresa estão mudando nesta segunda era dos robôs é, portanto, o fato de que, para os empresários, o esforço hoje é percebido como um desperdício, enquanto o que se busca é um maior engajamento cognitivo por parte das pessoas, no momento em que os robôs assumem as tarefas mais desgastantes e repetitivas.

 

“O trabalho deve ser cada vez mais centrado como uma experiência que qualifica e faz as pessoas se realizarem”, conclui Bentivogli. “É claro também que a adoção de robôs e tecnologias digitais envolve um deslocamento, que deixa um vazio que deve ser preenchido desenvolvendo novas competências e capacidades cognitivas.”

 

 

Nesse sentido, é fundamental que, no desenvolvimento de robôs cada vez mais inteligentes, se pense também em preservar o trabalho, levando-o a um nível superior que valorize a pessoa, assim como paralelamente, em um nível social mais amplo, aquilo que deve ser protegido é a relação entre as pessoas. Pois a interação com o robô pode trazer enormes vantagens, em termos de segurança, de maior eficiência, mas não poderá e nunca deverá ser substitutiva da dimensão relacional entre as pessoas. Um valor fundamental que coloca o princípio do antropocentrismo no coração do desenvolvimento de robôs avançados e de plataformas inteligentes, para que a tecnologia esteja sempre a serviço do ser humano, e nunca o contrário.

 

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Humanismo digital: o oxímoro de hoje. Artigo de Derrick de Kerckhove

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Humanismo digital: o oxímoro de hoje. Artigo de Derrick de Kerckhove

09 Dezembro 2021

“A inteligência artificial é compatível com o humanismo? Tenho motivos para duvidar disso, pelo menos na sua versão ocidental, mas não necessariamente na chinesa. Tudo depende se estamos falando de seres humanos como indivíduos ou como coletividade.”

 

A opinião é de Derrick de Kerckhove, ex-diretor por mais de 20 anos do Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto, consultor científico da Tutti-Media e professor no Politécnico de Milão, na Itália.

 

O artigo foi publicado em NewsMedia4Good, 02-09-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“No princípio era a palavra, e a palavra se fez carne.” As palavras foram os primeiros algoritmos humanos. Na sua “Scienza Nuova”Giambattista Vico fornece a explicação mais confiável e simples ainda de como as palavras nasceram a partir de enunciados, gritos e grunhidos que acompanhavam e estendiam gestos e movimentos.

 

Antes do aparecimento e do desenvolvimento das palavras, os sentidos eram os principais algoritmos que guiavam a ação e o comportamento, não somente do ser humano, mas também de todos os animais. Para os animais, em geral, os sentidos eram suficientes; eles guiavam e produziam a ordem social. Com os sentidos, há pouca ou nenhuma separação entre experiência e interpretação. Sentir algo já é uma interpretação desse algo.

 

Foram as palavras que introduziram uma separação entre experiência e interpretação (de significante a significado), mas as palavras permaneceram subordinadas aos sentidos até serem escritas, como também observou Vico. Ao formalizar e estabilizar as relações entre palavras e significado, a escrita estreitou a gama dos significados possíveis. E as palavras, assim, assumiram a função algorítmica dos sentidos.

 

Mas as palavras ainda são algoritmos muito soltos, tão soltos que, da exegese bíblica e da hermenêutica a Wittgenstein, a filosofia – e depois a semiótica – fez esforços desesperados para torná-las mais circunscritas. Agora, a digitalização poderia conseguir eliminar totalmente a interpretação, concentrando-se não no significado, mas nas próprias palavras.

 

É por isso que a transformação digital e a inteligência artificial que a está guiando estão destronando o significado, tornando-o mais ou menos inútil para fazer o mundo funcionar.

 

O que eu entendo por algoritmo é qualquer coisa que induza um comportamento – técnico, social ou pessoal – em uma ordem coerente. Ele não é infalível – nem a inteligência artificial o é – mas, em geral, parece funcionar melhor do que o caótico mundo das palavras.

 

A batalha de palavras está perdida? Com as fake news e a negação das ciências, a objetividade e o bom senso foram afugentados, as opiniões disseminadas como manchas de óleo no mar do significado criam redemoinhos envolventes. Chama-se isso de “pós-verdade”, como se a verdade sempre tivesse estado disponível antes.

 

“Finnegan’s Wake”, de Joyce, soou o grito de guerra, o primeiro festival de superposições quânticas de significados. A física quântica e as figuras tecnológicas que ela já está produzindo se tornarão o próximo campo da cultura. A pergunta é: ele incluirá o humanismo?

 

Para responder a essa pergunta, é importante conhecer a base, o campo que temos debaixo dos nossos pés: the ground, como dizem os ingleses. Assim como a terra faz flores, o nosso modo de vida produz comportamentos. A humanidade já experimentou dois grandes sistemas e se prepara para explorar um terceiro.

 

O primeira está ligado à linguagem, cujo propósito e princípio era – e ainda é – produzir significado. A partir desse princípio, surgiram inúmeras figuras que dão ou buscam um significado. O logocentrismo, outra palavra para estabelecer a linguagem como fundamento, é a base de algumas das maiores narrativas do mundo. A busca de sentido, desde o início, leva à divindade, primeiro da natureza, depois da cultura, depois do “povo”, depois das pessoas.

 

O cristianismo era a religião das pessoas nascidas da alfabetização, que colocava a própria linguagem – não só as ideias e a imaginação – sob o controle pessoal. Eis quando e por que o humanismo ocidental começou (Deus dá o input à própria produção de sentido, mas depois o seu mundo se seculariza rapidamente...).

 

Com as religiões, os seres humanos se submeteram de bom grado às ficções que criaram para consolidar um significado global, o arquialgoritmo, se poderia dizer. O campo da linguagem produziu diversos corolários, ou subcampos, dependendo de como condicionou e modelou os sistemas de escrita; por exemplo, as línguas polissilábicas, como o indo-europeu, eram todas orientadas para representações fonológicas, enquanto as monossilábicas, como o chinês mandarim, eram obrigadas a recorrer à pictografia para eliminar a ambiguidade entre miríades de homônimos.

 

O fato interessante que pode estar relacionado à sua relação diferente com o significado é que os chineses, embora não totalmente desprovidos de religiões (taoísmo, confucionismo e as religiões estrangeiras, como o cristianismo, o budismo e o Islã, que eles toleram com relutância), na realidade não têm deuses. Ao longo dos milênios, eles respeitaram profundamente a sabedoria, mas não cederam à necessidade de divinizar os seus sábios, como fizeram os cristãos ou budistas com Cristo e Buda. Assim, pode-se argumentar que uma forma genuína de humanismo começou na China muito antes do Ocidente.

 

Haveria muito mais a dizer no campo da língua e sobre as suas consequências, incluindo o humanismo e, de fato, até mesmo a própria ideia de distinguir e privilegiar radicalmente os “humanos” sobre os outros animais, mas sigamos em frente.

 

O novo não é a palavra, mas a cifra e, entre os seus princípios está o de traduzir todas as línguas, todos os sentidos, toda a matéria no menor denominador comum possível, o código binário de 0 e 1. E mesmo essa condição binária pode ser parcialmente reduzida a um, simplesmente ligando e desligando um. Isso coloca um pouco todos os significados no mesmo nível, todos engolidos pelo ambiente digital único: ligados e desligados, dependendo da demanda.

 

Para as operações digitais, o significado é apenas um acessório, ocasionalmente útil, mas geralmente não necessário. Um dos efeitos mais irônicos da digitalização é que ela pode traduzir todas as línguas do mundo sem conhecer sequer uma delas. Outro princípio é combinar o hardware com o software, ou seja, tornar inteligentes tanto os objetos inanimados quanto os animados.

 

E é aí que entra em jogo a inteligência artificial. Por uma questão de ordem, tudo deve se tornar ciente e responder a tudo, inclusive humanos e instrumentos. Se há uma possibilidade para a humanidade de regular as mudanças climáticas e sobreviver, é aí que ela se encontra. Mas, por enquanto, não estamos nem um pouco próximos disso. Provavelmente será preciso esperar pelo próximo campo.

 

Dito isso, a inteligência artificial é compatível com o humanismo? Tenho motivos para duvidar disso, pelo menos na sua versão ocidental, mas não necessariamente na chinesa. Tudo depende se estamos falando de seres humanos como indivíduos ou como coletividade. Ao priorizar o bem-estar social sobre o bem-estar individual, os chineses se sentem perfeitamente à vontade sendo dirigidos por algoritmos e “créditos sociais”.

 

O humanismo ocidental está comprometido com o individualismo, com o direito à liberdade de consciência e à privacidade da sua mente, condições de que a democracia não pode prescindir. Embora os ocidentais em geral ainda acreditem que têm liberdade de consciência, ignorando não sinceramente que as suas escolhas são feitas para eles pelos algoritmos, a sua privacidade está “over”, como Mark Zuckerberg observou alegremente alguns anos atrás.

 

No Ocidente – assim como no Oriente, mas por razões diferentes e de modos diferentes – os movimentos e as ações de todos, dentro e fora, on e offline, são rastreados, registrados e catalogados. Tais movimentos e ações ainda são a base para fazer inferências sobre o que e como essas mentes “privadas” pensam, mas é apenas uma breve questão de tempo antes que se invente alguma engenhoca inteligente para entrar nessas mentes para prever e controlar melhor o comportamento.

 

O humanismo ocidental requer uma separação nítida entre as pessoas, permitindo-lhes não apenas criar e desenvolver opiniões individuais, teorias, produtos e formas de arte, mas também respeitar o campo comum dos significados como “objetivos”, o que significa “independentes das suas opiniões”, e o reconhecimento de que tais opiniões subjetivas são permitidas desde que sejam apenas propostas, não impostas aos outros.

 

Não é o que ocorre hoje. A opinião de todos é imposta a todos os outros nas mídias sociais, sem a menor consideração por quaisquer referências consensuais.

 

É hora de enfrentar esta questão: a transformação digital não está mais – nem menos – interessada nos humanos do que no significado. Os humanos são um acessório ainda útil, porque, como McLuhan sugeria espirituosamente, “o ser humano se torna, por assim dizer, o órgão sexual do mundo das máquinas, como a abelha do mundo vegetal, permitindo-lhe fecundar e evoluir para formas sempre novas”.

 

Sabemos o que está acontecendo com as abelhas, e isso serve de alerta. A tecnologia precisa da biologia para seguir em frente e precisa de ideias, invenções e desenvolvimento, mas não se preocupa muito com os valores. O humanismo, por outro lado, é fundamentalmente um sistema de valores. Ele ainda pode ser proposto como um baluarte contra a racionalidade enlouquecida da inteligência artificial? Pode ser. Ele ainda está funcionando razoavelmente bem como dispositivo de frenagem, inspirando os programadores de inteligência artificial a analisarem os preconceitos automáticos.

 

Assim como os ocidentais devem continuar alimentando a ilusão cristã de serem “autodirigidos”, eles também devem manter em suspenso os valores humanistas, pelo menos até que estejamos bem dentro do terceiro campo, o da “ecologia quântica”, que tem o poder global de tornar tudo consciente de tudo ao mesmo tempo.

 

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Monday 25 October 2021

Madagascar poderá ter situação de fome por mudança climática

 https://www.climatempo.com.br/noticia/2021/10/25/madagascar-podera-ter-situacao-de-fome-por-mudanca-climatica-2496

Madagascar poderá ter situação de fome por mudança climática

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Redação

25/10/2021 às 03:35 | Atualizado 25/10/2021 às 03:57

6 min de leitura

Foto: iStock


Mais de 1 milhão de pessoas no sul do Madagascar estão batalhando para conseguir o suficiente para comer. O país africano poderá ter a primeira situação de fome causada pela mudança climática, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA

O Madagascar é a quarta maior ilha do mundo e tem um ecossistema único, com plantas e animais que não são encontrados em mais nenhuma outra parte do planeta. Geralmente, a temporada de secas vai de maio a outubro, e a de chuvas começa em novembro.  

 

 

Rotina interrompida  


Mas a mudança climática vem alterando este ciclo, afetando pequenos agricultores e seus vizinhos. Quem confirma é a porta-voz do PMA na capital do país, Antananarivo.  

Alice Rahmoun foi entrevistada pela ONU News e declarou:

 

“É claro que há menos chuva, então quando acontecem as primeiras chuvas, eles ficam com esperança e plantam algumas sementes. Mas um pouquinho de chuva não é uma temporada de chuvas apropriada.” 

 

Segundo a representante do PMA, é possível afirmar que “os impactos da mudança climática são cada vez mais fortes. As colheitas falham constantemente, e as pessoas não têm o que colher nem nada para renovar seus estoques de alimentos.” 

 

 

Impactos que variam  


Alice Rahmoun esteve recentemente em Madagascar, onde PMA e parceiros estão apoiando centenas de milhares de pessoas. Ela explica que o impacto da seca varia de lugar para lugar. Enquanto algumas comunidades não tem uma temporada apropriada de chuvas há 3 anos, a situação é bem pior em zonas a 100 km de distância.  

 

A especialista lembra de ter visto vilarejos com campos completamente secos e tomateiros “totalmente amarelados ou até mesmo marrons” devido à falta de água.  

 

 

Sobrevivendo à base de gafanhotos 

 

“Em algumas áreas as pessoas até conseguem plantar alguma coisa, mas não é nada fácil, então estão tentando plantar batata doce. Mas em outras regiões, absolutamente nada está crescendo agora, então as pessoas estão comendo gafanhotos para sobreviver, comendo frutas e folhas de cactos”, afirma Rahmoun.  

 

A representante do PMA explica que as folhas de cacto geralmente servem para o gado e não são para consumo humano. A situação é ainda pior porque segundo ela, “até os cactos estão morrendo com a seca”.  

 

 

Famílias não estão aguentando  


O peso desta situação para as famílias é muito perturbador. Alice Rahmoun declara que “as pessoas já começaram a desenvolver mecanismos para sobreviver. Estão vendendo o próprio gado para ter dinheiro para comprar comida, sendo que deveriam poder obter comida da sua própria produção agrícola. 

 

Terrenos e até casas estão sendo vendidas. Há famílias que tiraram seus filhos das escolas, numa “estratégia para conseguir atividades rentáveis onde as crianças possam estar envolvidas”, explica a especialista do PMA.  

 

 

Fornecimento de assistência vital  


O PMA está colaborando com parceiros humanitários e com o governo do Madagascar para fornecer dois tipos de resposta à crise. Cerca de 700 mil pessoas estão recebendo ajuda alimentar, incluindo suplementos para prevenir a desnutrição. 

 

“A segunda resposta é mais de longo prazo, com o objetivo de permitir que as comunidades estejam bem preparadas para responder aos choques climáticos”, afirma Rahmoun.  

 

O PMA auxilia com canais de irrigação, reflorestamento e pequenos seguros para ajudar os agricultores quando perdem uma colheita, por exemplo. 

 

A agência da ONU também espera apoiar 1 milhão de pessoas até abril e para isso, busca US$ 70 milhões para financiar suas operações.

 

“Estamos também envolvendo mais parceiros para encontrar e financiar soluções para que as comunidades se adaptem aos desafios causados pela mudança climática.” 

 

 

COP-26: Priorizar a adaptação  


Daqui a uma semana, os líderes mundiais estarão reunidos em Glasgow, na Escócia, para a COP-26, a Conferência da ONU sobre Mudança Climática. Segundo o secretário-geral António Guterres, esta poderá ser a última chance de “mudar a corrente” para alinhar o planeta.

  

A representante do PMA explica que a agência pretende usar a conferência para mudar o foco de resposta à crise para gestão de riscos. Segundo Alice Rahmoun, os países precisam estar preparados para os choques climáticos, e devem agir em conjunto para reduzir os impactos severos às pessoas mais vulneráveis, incluindo os moradores do sul de Madagáscar. 

 

A COP-26 é uma oportunidade de pedir aos governos e aos doadores para priorizarem o financiamento relacionado a programas de adaptação climática, e para ajudar os países a controlarem melhor os riscos, até mesmo em Madagascar, pois se nada for feito, a fome aumentará de forma exponencial nos próximos anos devido à mudança climática. E não apenas em Madagascar, mas em outros países”, afirma Alice Rahmoun.

 

 

Fonte: ONU  News

Saturday 23 October 2021

Lula, o mais perigoso dos líderes

 https://revistacult.uol.com.br/home/lula-o-mais-perigoso-dos-lideres/?unapproved=102617&moderation-hash=34d6de8b65beaa9101624122c5c4e4bd#comment-102617


Lula, o mais perigoso dos líderes

Lula, o mais perigoso dos líderes
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O ex-presidente Lula, condenado a 9 anos de prisão nesta quarta (12) pelo juiz Sérgio Moro (Arte Andreia Freire / Foto Sérgio Lima)

 

Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.

Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.

Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.

Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Entrará Rodrigo Maia em seu lugar para confirmar a trilha do rebaixamento, deixando claro que não é de democracia, nem de dignidade que se trata, ou qualquer desses valores que contavam na época em que política era algo fundamental. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.

Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.

Anti-Temer

Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os direitos trabalhistas vazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.

Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.

neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.

Raduan Nassar recebe o ex-presidente Lula na fazenda Lagoa do Sino, 2016
Raduan Nassar recebe o ex-presidente Lula na fazenda Lagoa do Sino, 2016 (Foto Ricardo Stuckert)

O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.

Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.

Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.

O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem a compreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.

Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.

Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.

O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…

A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas.