Monday, 16 September 2019

As fazedoras de saberes


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“As fazedoras de saberes”


Lançamento do livro As fazedoras de saberes: Diálogos das Mulheres Quilombolas do Mutuca com a Educação Ambiental, Gênero e Justiça Climática em Mutuca, Livramento, MT será neste sábado, 10.
A comunidade quilombola Ribeirão do Mutuca, na zona rural de Nossa Senhora do Livramento, situada às margens da Rodovia MT 060, entrada à direita no km 26, no sentido Poconé – tem histórias de resistências e nos encanta com sua cultura e saberes da vida. Herdeira de tradições tão ricas ao povo mato-grossense como a dança do congo, comemoram com inúmeras festas comunitárias o ano inteiro as dádivas da natureza e da vida, envolvendo pessoas nos municípios de Livramento, Poconé, Várzea Grande e Cuiabá.
A energia de sua gente contagia sobremaneira todo o viver cuiabano, contribuindo para a formação de nosso modo de ser, viver e sentir nesta terra.
Na comunidade Mutuca habitam 130 famílias e sua produção da agricultura familiar abastece muitos locais, entrelaçando diversos os pratos culinários dos municípios lindeiros com seu modo ancestral de cultivar e de viver neste lugar.
Comunidade assim tão arraigada à terra e a seus valores nos dão a esperanças de que há modos de ser e de viver em que é possível sentir a vida sem desconectar totalmente da natureza, nos alertando que não podendo ignorá-la de sua força sobre nós. Contudo, nestes tempos de crise climática, tais povos e comunidades precisam conhecer mais informações que os órgãos de pesquisa estão produzindo sobre o tema e se preparem para mais este enfrentamento com o cuidado que elas já têm com a vida e com planeta.
Diante deste contexto, durante o ano de 2016, duas pesquisadoras do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte, do Instituto de Educação, da Universidade Federal de Mato Grosso (GPEA/UFMT), em plena fase de pesquisa no doutorado e tendo o quilombo como local de suas reflexões, apresentaram à Diretoria da Associação da Comunidade Negra Rural do Quilombo Ribeirão do Mutuca – Acorquirim, em sua sede no quilombo de Mutuca, em Nossa Senhora do Livramento, uma proposta de curso de extensão de Educação Ambiental e Justiça Climática para as mulheres do quilombo, tendo em vista às mudanças climáticas em curso no Planeta, já alertado pelos mais importantes órgãos de pesquisas mundiais sobre o assunto.
De imediato e atenta a esta questão, a diretora Laura Silva aceitou a proposta do curso com a recomendação que o resultado desse processo pedagógico se transformasse em um livro publicado.
Desafio aceito pelo GPEA, a proposta foi apresentada e aprovada pela UFMT como curso de extensão, sendo realizado todos aos sábados entre os meses de agosto a outubro de 2016 no barracão da Acorquirim, em Mutuca. Os temas da formação versaram sobre os saberes das mulheres quilombolas e como elas podem utilizá-los para o fortalecimento de suas identidades, tendo em vista o enfrentamento às mudanças climáticas em curso. Traz também seus conhecimentos sobre o cuidado com a terra, a casa, as plantas, as crianças, a família e a comunidade. O livro discorre do que elas relataram durante o curso e o que elas decidiram que deveriam constar como seus saberes quilombolas. Daí resulta que elas participantes do curso são autoras do livro, uma parceria com as pesquisadoras do GPEA/UFMT.
As mulheres foram escolhidas porque é o grupo social mais vulnerável aos efeitos drásticos do colapso climático uma vez que delas dependem todo o cuidado da casa, das crianças e dos idosos e estão quase sempre com renda econômica mais baixa que os homens, sofrendo com os efeitos de uma sociedade patriarcal e machista, enfrentando violências de várias formas. Mulher negra quilombola, portanto, devem estar preparadas para o colapso climático pois são elas que sofrerão as maiores consequências deste acontecimento.
O livro As fazedoras de saberes: Diálogos das Mulheres Quilombolas do Mutuca com a Educação Ambiental, Gênero e Justiça Climática traz a beleza de que foram os encontros pedagógicos, tornando as 32 mulheres quilombolas autoras do mesmos e os membros do GPEA como autoras e organizadoras do livro.
Neste sábado, dia 10/08, no barracão da ACORQUIRIM, às 9h, as autoras mulheres quilombolas receberão um exemplar do livro que elas escreveram, assim também como as demais autoras do GPEA, e comemoram este importante trabalho que agora está disponível e acessível para qualquer pessoa que quiserem conhecer mais sobre elas.
Mais Informações:
Profa. Giseli Dalla-Nora – GPEA/UFMT: (65) 9-9977-0742
Profa. Laura Silva -ACORQUIRIM: (65) 9-9330-0589

O novo mundo que tarda a nascer

https://diplomatique.org.br/o-novo-mundo-que-tarda-a-nascer/

por Gustave Massiah
12 de Fevereiro de 2017

O novo mundo que tarda a nascer


A situação atual parece desesperadora. A ofensiva das direitas e das extremas direitas ocupa o espaço e as mentes. Ela se exibe nos meios de comunicação e pretende expressar a direitização das sociedades. Contudo, o jogo ainda está sendo jogado. As sociedades resistem e as contradições estão atuando; são elas que determinam o futuro

novo mundo


Para compreender a conjuntura atual, vamos partir novamente da citação de Antonio Gramsci em Cadernos do cárcere: “O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”.
Nesse contexto, a estratégia dos movimentos sociais que querem carregar um projeto de emancipação deve articular uma resposta às demandas urgentes com a construção de um projeto alternativo de futuro. Eles devem ao mesmo tempo lutar contra os monstros e se inscrever na construção de um mundo novo.
O velho mundo morre
Os choques financeiros de 2008 confirmam a hipótese do esgotamento do neoliberalismo. O aquecimento climático, a diminuição da diversidade e as poluições globais confirmam o desgaste do produtivismo. Hipóteses são aventadas sobre o esgotamento do capitalismo como modo de produção hegemônica. Entenda-se que aquilo que sucederia ao capitalismo não seria forçosamente um modo justo e equitativo; a história não é escrita e não é linear.
No Fórum Social Mundial de Belém, em 2009, uma convergência de movimentos – de mulheres, camponeses, ecologistas e dos povos da Amazônia – expressou fortemente um novo ponto de vista. Eles afirmaram que, se a questão é redefinir as relações entre a espécie humana e a natureza, não se trata somente de uma crise do neoliberalismo ou do capitalismo, mas de uma crise da civilização, aquela que há cinco séculos colocou em primeiro lugar a modernidade ocidental e levou a algumas das formas da ciência contemporânea.
A situação é marcada pela permanência das contradições. A crise estrutural articula cinco contradições principais: econômica e social, com as desigualdades sociais e as discriminações; ecológica, com a destruição dos ecossistemas, a limitação da biodiversidade, a mudança climática e a colocação em perigo do ecossistema planetário; geopolítica, com as guerras descentralizadas e a ascensão de novas potências; ideológica, com o questionamento da democracia, as arremetidas xenófobas e racistas; e política, com a corrupção nascida da fusão do político e do financeiro, que alimenta a desconfiança em relação ao político e acaba por abolir sua autonomia. A direita e a extrema direita encampam uma batalha pela hegemonia cultural desde o final dos anos 1970, contra os direitos fundamentais e particularmente contra a igualdade e a solidariedade, pelas ideologias de segurança e pela desqualificação ampliada pós-1989 dos projetos progressistas. Elas realizaram ofensivas contra o trabalho por meio da precarização generalizada; contra o Estado social por meio da mercantilização, da privatização e da corrupção generalizada das classes políticas; e pela subordinação do digital à lógica da financeirização.
Os novos monstros
A partir de 2011, os movimentos quase insurrecionais de ocupação das praças testemunham a resposta dos povos à dominação da oligarquia. A partir de 2013, a arrogância neoliberal fica novamente por cima e confirma as tendências que emergiram desde o final dos anos 1970. As políticas dominantes, de austeridade e de ajuste estrutural, foram reafirmadas. A desestabilização, as guerras, as repressões violentas e a instrumentalização do terrorismo se impõem em todas as regiões. Correntes ideológicas reacionárias e populismos de extrema direita são cada vez mais ativos. Os racismos e os nacionalismos extremos alimentam as manifestações contra estrangeiros e migrantes. Eles assumem formas específicas, como o neoconservadorismo libertário nos Estados Unidos, as extremas direitas e as diversas formas de nacional-socialismo na Europa, o extremismo jihadista armado, as ditaduras e as monarquias do petróleo, o hinduísmo extremo etc. Mas, a médio prazo, o jogo ainda está sendo jogado.
É preciso interrogar-se sobre esses monstros e as razões de sua emergência. Eles se apoiam em medos em torno de dois vetores principais e complementares: a xenofobia e o ódio aos estrangeiros; e os racismos em suas diferentes formas. É preciso destacar uma ofensiva em especial que as formas de islamofobia assumem; depois da queda do Muro de Berlim, o “islã” tendo sido erigido como inimigo principal no “choque das civilizações”.
Essa situação resulta de uma ofensiva conduzida com constância há quarenta anos pelas direitas extremas para conquistar a hegemonia cultural. Ela se detém principalmente em dois valores. Contra a igualdade, afirmando de início que as desigualdades são naturais; e pelas ideologias de segurança, considerando que apenas a repressão e a restrição das liberdades podem garantir a segurança.
O endurecimento das contradições e as tensões sociais explicam o surgimento das formas extremas de enfrentamento. Tal endurecimento começa pelo da luta de classes e se estende a todas as relações sociais. O bilionário Warren Buffet declara tranquilamente que “alguns duvidam da existência de uma luta de classes; com certeza existe uma luta de classes, e é a minha que a está vencendo”. A financeirização aprofundou as desigualdades, e a casta dos muito ricos ficou mais restrita. As chamadas classes médias incharam, mas a precarização atinge uma parte delas e a torna insegura.
O desejo de acumulação de riquezas e de poderes é insaciável. Diante desse excesso, assistimos a um refúgio no retorno do religioso esperando que ele conseguirá amenizar as derivas insuportáveis. A confiança numa regulação pelo Estado é fortemente esperada. A classe financeira conseguiu subordinar os Estados. E o projeto de socialismo de Estado se afundou nas nomenclaturas e nas novas oligarquias. A situação é instável. Como acreditar que um mundo onde 62 pessoas, das quais 53 homens e nove mulheres, possuem o mesmo que 3,5 bilhões de indivíduos possa durar indefinidamente? A vontade de impor a reprodução da situação e o medo das revoltas se traduzem pelo crescimento da violência, por repressões e guerras.
No entanto, existe também outra razão para a situação: é o medo do nascimento de um novo mundo. Os novos monstros sabem que seu mundo está sendo questionado; para salvaguardar suas posições e seus privilégios, instrumentalizam o medo do futuro, o temor da perturbação das sociedades que vai marcar o futuro.
O novo mundo que tarda a nascer
Qual é esse novo mundo que tarda a nascer? Um novo mundo que pode amedrontar os ricos e que os movimentos sociais hesitam em perceber.
A proposta é estar atento às revoluções em curso. Há várias, mas elas estão inacabadas. E suas consequências são incertas. Nada permite afirmar que não serão esmagadas, desviadas ou revertidas. No entanto, elas sacodem o mundo; são também portadoras de esperanças e marcam o futuro e o presente. São revoluções de longa duração, cujos efeitos se inscrevem em várias gerações.
Para ilustrar essa proposição, vamos partir de cinco revoluções em curso, que estão, vale lembrar, inacabadas. Trata-se da revolução dos direitos das mulheres, da revolução dos direitos dos povos, da revolução ecológica, da revolução digital e da revolução do povoamento do planeta.
A revolução dos direitos das mulheres é a mais impressionante. Ela questiona relações milenares. As lutas pelos direitos das mulheres sempre existiram. O reconhecimento avançou enormemente nos últimos quarenta anos. Medimos progressivamente as turbulências que essa luta provoca. A revolução está inacabada e engendra resistências bastante violentas. Pode-se medir isso pela violência das reações de certos Estados a qualquer ideia de libertação das mulheres e pela resistência em todas as sociedades ao questionamento do patriarcado. A revolução dos direitos das mulheres já provocou grande mudança na estratégia dos movimentos; é a recusa a subordinar a luta contra a opressão das mulheres a outras. A recusa de considerar sua reivindicação uma contradição secundária foi retomada por todos os movimentos e traduz o reconhecimento da diversidade dos movimentos sociais e cidadãos.
A revolução dos direitos dos povos também é significativa. Ela está inacabada e envolvida com as tentativas de reconfiguração das relações imperialistas. A segunda fase da descolonização começou. A primeira, a da independência dos Estados, atingiu seu limite. A segunda é a da libertação dos povos. Ela coloca novas questões relativas aos direitos dos povos que assumem diferentes denominações; indígenas, primeiros, autóctones. Estas renovam a questão das identidades com a irrupção das identidades múltiplas, como as qualificou o poeta Édouard Glissant. Ela questiona a relação entre as liberdades individuais e as coletivas.
A revolução ecológica está em seu início. Ela já abala a compreensão das transformações e do senso da mudança e introduz a noção do tempo finito e a dos limites em relação ao crescimento ilimitado. Questiona todas as concepções do desenvolvimento, da produção e do consumo. Recoloca a discussão sobre a relação entre a espécie humana e a natureza. Discute os limites do ecossistema planetário. A revolução ecológica é uma revolução filosófica que abala as certezas mais bem estabelecidas.
A revolução do digital é parte determinante de uma nova revolução científica e técnica, combinada sobretudo com a das biotecnologias. Ela dá ensejo a fortes contradições sobre as formas de produção, de trabalho e de reprodução. Impacta a cultura começando a sacudir campos tão vitais quanto os da linguagem e da escrita. De momento, a financeirização conseguiu instrumentalizar as turbulências do digital, mas as contradições permanecem abertas e profundas.
A revolução do povoamento do planeta está em gestação. Todos os grandes abalos históricos têm consequências no povoamento do planeta. Considerar isso permite evitar qualificar as questões das migrações e dos refugiados como uma crise migratória que se poderia isolar e que acabaria por ser absorvida. As mudanças no povoamento do planeta prolongam as rupturas precedentes. A da urbanização e da estrutura urbana mundial, com a multiplicação dos bairros precários. A mudança climática não vai apenas acentuar as migrações ambientais. A elevação do nível da água do mar poderá chegar a 1 metro no final do século. Segundo as Nações Unidas, 60% das 450 áreas urbanas com mais de 1 milhão de habitantes em 2011 – ou seja, cerca de 900 milhões de indivíduos – estariam expostas a um risco natural elevado. A escolarização das sociedades modifica os fluxos migratórios. Os diplomados que partem permanecem em contato com sua geração por meio da internet. Os outros alimentam os desempregados diplomados, nova aliança entre as crianças das camadas populares e as das camadas médias. Os movimentos sociais tentam articular as lutas pelos direitos à liberdade de circulação e de instalação com aquelas pelo direito de permanecer, viver e trabalhar no país. Eles verificam que o desejo de ficar é indissociável do direito de partir. A própria noção de identidade é questionada pela evolução dos territórios e pela mestiçagem das culturas.
O necessário pensamento estratégico
Os movimentos sociais e cidadãos devem adaptar sua estratégia à nova situação. Todo pensamento estratégico se constrói sobre a articulação entre a urgência e a construção de um projeto alternativo. A urgência é a resistência aos novos monstros. Mas, para resistir, um projeto alternativo se faz necessário.
O projeto alternativo começa a emergir. Desde 2009, no Fórum Social Mundial de Belém, ao qual nos referimos anteriormente, a proposta que emerge é a de uma transição ecológica, social, democrática e geopolítica. Essa proposta combina a tomada de consciência sobre as grandes contradições e a intuição em relação às grandes revoluções inacabadas em curso.
É preciso insistir na ideia de transição, que é com frequência utilizada contrariamente à lógica, como uma proposta de temporização. A proposta de transição não se opõe à ideia de revolução; ela está em ruptura com uma das concepções da revolução, a do limbo entre a velha e a nova sociedade; ela inscreve a revolução no tempo longo e descontínuo.
O projeto alternativo sublinha que novas relações sociais emergem já no mundo atual, como as relações sociais capitalistas emergiram, de maneira contraditória e inacabada, no período feudal. Essa concepção confere um novo sentido às práticas alternativas que são buscadas e que permitem, também de maneira inacabada, definir e preparar um projeto alternativo.
Uma das dificuldades deste período tem a ver com essa articulação entre a resistência e o projeto alternativo. A luta de classes é, sem contestação, o elemento determinante da resistência e da transformação. É preciso ainda redefinir a natureza das classes sociais, de sua relação e das lutas de classes. Na concepção dominante dos movimentos sociais, a revolução social deveria preceder e caracterizar as outras revoluções e liberações. A importância das cinco outras revoluções em curso questiona a revolução social, e o atraso da revolução social por sua vez questiona as outras revoluções.
Precisamos voltar à urgência e à resistência contra os monstros, sempre destacando a importância e a necessidade de construir um projeto alternativo. Não é de menor importância compreender como o medo de um novo mundo age sobre o surgimento dos monstros. Tomemos como exemplo um eleitor de Donald Trump, de classe média, branco, do interior dos Estados Unidos; olhando em torno de si, ele vê que os indígenas continuam lá, que os negros não suportam mais o racismo, que os latinos são cada vez mais numerosos e por vezes majoritários e que as mulheres não querem deixar de tomar posição. Ele acaba vendo que sua América sonhada não vai mais existir e está pronto a pegar em fuzis para atirar!
De fato, as sociedades resistem mais do que se pensa à direitização das elites e dos meios de comunicação. Podemos comprovar isso. Na Hungria, o referendo contra os estrangeiros não pôde ser validado, porque, apesar das pressões, apenas 37% dos húngaros foram votar na consulta. Na Polônia, as manifestações maciças fizeram recuar aqueles que queriam proibir qualquer tipo de aborto. Na França, dois terços se opuseram à revogação das leis para o casamento para todos. Uma pesquisa em cinco países europeus mostra que, dependendo da nação, 77% a 87% dos entrevistados são a favor de reforçar as leis contra as discriminações e que, apesar do delírio anti-imigrantes, 55% a 69% dos entrevistados são favoráveis à regularização daqueles que não têm documentação e disponham de um contrato de trabalho. Uma pesquisa da Anistia Internacional em 27 países mostrou que, apesar do discurso antirrefugiados, em vinte dos 27 países mais de 75% dos entrevistados são a favor de acolher os refugiados.
Quando elas podem se expressar, as sociedades são mais abertas e mais tolerantes do que o que querem fazer crer as correntes de extrema direita e os meios de comunicação que difundem suas ideias. Mas essa resistência não aparece, não se traduz por uma adesão a um projeto progressista, demonstrando a ausência de um projeto alternativo digno de credibilidade. É menos “a direita” que triunfa do que “a esquerda” que desmorona.
Precisamos, portanto, resistir no imediato, passo a passo, e aceitar se envolver a longo prazo. Essa resistência passa pela aliança mais ampla com todas aquelas e todos aqueles – e eles e elas são numerosos – que pensam que a igualdade vale mais que as desigualdades, que as liberdades individuais e coletivas devem ser ampliadas ao máximo, que as discriminações conduzem ao desastre, que a dominação leva à guerra, que é preciso salvar o planeta. Essa batalha sobre os valores passa pelo questionamento da hegemonia cultural do neoliberalismo, do capitalismo e do autoritarismo. Podemos demonstrar que resistir é criar. Para cada uma das revoluções inacabadas, por meio das mobilizações e das práticas alternativas, podemos lutar para evitar que sejam instrumentalizadas e sirvam para reforçar o poder de uma elite, antiga ou nova.
Os anos que estão por vir serão sem dúvida alguma muito difíceis, e as condições se mostrarão muito duras. Mas, na escala de uma geração, nada está jogado, tudo se torna possível.
Gustave Massiah é membro do conselho internacional do Fórum Social Mundial e do Centro de Pesquisa e de Informação para o Desenvolvimento (Crid/França).






(Crid/França).

Sunday, 15 September 2019

GREVE GERAL PELO CLIMA

Planeta em chamas. Artigo de Eliane Brum

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591976-planeta-em-chamas-artigo-de-eliane-brum?fbclid=IwAR3ICDJHRMHQHQHPcSFQWeJbX1B_VjHUZyqkbNFVA3z2atUHH3dIvZIwwZc

"Enquanto bombeiros tentam apagar fogo na Europa, no Brasil fazendeiros queimam a Amazônia", escreve Eliane Brum, jornalista e documentarista, em artigo pulicado por El País, 23-08-2019.

Eis o artigo.

Imagem captada pelo satélite Aqua, da NASA, mostra vários incêndios nos Estados de Rondônia, Amazonas, Pará e Mato Grosso em 13 de agosto de 2019.
A ativista adolescente Greta Thunberg costuma afirmar, na tentativa de acordar os adultos para a emergência climática: “Nossa casa está em chamas”. No momento, a sueca de 16 anos atravessa o oceano num barco à vela rumo à Conferência da ONU, em Nova York. O que Greta pode não ter imaginado, porém, é ainda mais assustador: fazendeiros e grileiros atearem fogo na floresta, deliberadamente, como manifesto político. É o que aconteceu na Amazônia, em 10 de agosto, segundo foi anunciado no jornal de Novo Progresso.
Fazendeiros e grileiros do entorno da BR-163, uma das regiões de maior conflito na Amazônia brasileira, programaram o “Dia do Fogo”. Na data, queimaram áreas de pasto e em processo de desmatamento. Segundo uma das lideranças, entrevistada pelo jornal Folha do Progresso, setores do agronegócio se sentem “amparados pelas palavras de Jair Bolsonaro”, que estimula a abertura das áreas protegidas da floresta para exploração agropecuária e mineração. Disseram também que desejavam mostrar ao presidente do Brasil “que querem trabalhar e o único jeito é derrubando, e para formar e limpar nossas pastagens é com fogo”.
Tudo indica que conseguiram. Anunciaram, pelo jornal, cinco dias antes. E cinco dias depois a Amazônia queimou — mais. Segundo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, na data marcada Novo Progresso teve um número 300% maior de “queimadas”, com 124 focos de incêndio. No dia seguinte, o número saltou para 203. Em Altamira, as estatísticas mostraram uma realidade ainda mais assustadora: 743% de aumento, com 194 focos de incêndio. No domingo, chegaram a 237.
Enquanto Greta Thunberg navega para Nova York, sua frase se literaliza: há incêndios em diferentes partes do planeta, da Gran Canária, na Espanha, a Sibéria, na Rússia. A conexão com a crise climática pode ser mais ou menos direta. Na Europa, os focos apareceram depois do julho mais quente da história. No Ártico, os incêndios recordes criaram um ciclo vicioso: o fogo libera CO2 para a atmosfera e agrava o colapso climático. O trabalho dos bombeiros, em todas as partes, está sendo dificultado pelas ondas de calor e pela falta de umidade. Na América Latina, a Amazônia queima, assim como pedaços da Bolívia e do Paraguai.
As más notícias para superaquecer o planeta não param. Diante da explosão do desmatamento no Governo de BolsonaroAlemanha e Noruega suspenderam quase 300 milhões de reais destinados à proteção da AmazôniaBolsonaro respondeu ao Governo alemão: “A Alemanha vai parar de comprar a Amazônia a prestações”. E, aos noruegueses: “Pega a grana e ajude a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha".
Bolsonaro não é apenas estúpido — e muito mal educado. As declarações servem para acirrar a paranoia de seus seguidores: o antipresidente e seu clã defendem que a preocupação com a floresta é uma desculpa para tomar a Amazônia do Brasil. O curioso nacionalismo pregado por Bolsonaro amaldiçoa a Europa em nome da soberania e se curva até a cueca aparecer diante dos Estados Unidos de Donald Trump. Para setores do empresariado brasileiro, porém, a única boa notícia no atual governo foi o acordo entre União Europeia e Mercosul, costurado durante 20 anos pelos governos anteriores e hoje ameaçado pela escandalosa destruição da Amazônia. A Europa precisa decidir: se continuar comprando carne de desmatadores e produtos empapados de agrotóxicos, o agronegócio predatório vai continuar se sentindo à vontade para ampliar os dias de fogo, estimulado pelo perverso que hoje lidera o Brasil.

Thursday, 12 September 2019

Prepara-se a Greve Mundial pelo Clima

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591338-prepara-se-a-greve-mundial-pelo-clima
Prepara-se a Greve Mundial pelo Clima


Marcada para 20/09, ela promete reforçar a face contemporânea da luta ambiental: muito jovem, indignada, claramente anticapitalista. Pode ser maior que nunca. Brasil – onde Bolsonaro lança ataque inédito à natureza – participará?
A reportagem é publicada por Outras Palavras, 01-08-2019. A tradução é de Simone Paz.

Foto: Reprodução
A estranha ausência do Brasil nas mobilizações globais em defesa do planeta – contra a mudança climática e as corporações que a promovem – pode ter fim em breve. Está marcada para o próximo 20 de setembro uma nova greve em defesa do ambiente. Será, provavelmente, a maior já realizada. É convocada, em 125 países, por milhares de organizações, redes internacionais, coletivos locais, grupos de cidadãos indignados. Sua preparação coincidirá, em nosso país, com um momento de efervescência entre a juventude. A partir de 13 de agosto, recomeçarão as grandes manifestações em defesa da Educação, da Universidade e da Ciência, ameaçadas pelo governo obscurantista e reacionário. É uma chance de articular as lutas de oposição a Bolsonaro com uma agenda igualmente política – porque capaz tanto de aprofundar a crítica ao capitalismo quanto de expor o atraso patético dos grupos que controlaram ao poder em Brasília.
As greves pelo clima são um fenômeno recente e em rápida expansão. Estão marcadas por duas características: fortíssima presença de adolescentes e jovens – que parecem não se conformar nem com a inação dos governos, nem com o amortecimento dos adultos… – e politização crescente. Um movimento precursor ocorreu às vésperas da Conferência sobre o Clima em Paris, em novembro de 2015. Em mais de cem países, cerca de 50 mil pessoas foram às ruas, já defendendo bandeiras que articulavam o ambiental com o social. Havia, então, três reivindicações básicas: redução drástica do uso de combustíveis fósseis, desenvolvimento de fontes energéticas alternativas e garantia dos direitos dos refugiados climáticos – em oposição à xenofobia hoje crescente no mundo eurocêntrico.
Mas uma nova fase, muito mais densa, teve início no final do ano passado. Foi desencadeada por uma garota sueca – Greta Thumberg – então com 15 anos. Em agosto de 2018, Greta, cuja história e formação mental singulares podem ser conhecidas na Wikipedia, iniciou um protesto pessoal. Durante as três semanas que precederam as eleições legislativas de seu país, ela dirigiu-se todos os dias ao Parlamento, no horário de aulas, portando um cartaz onde se lia “greve estudantil pelo clima”. Passado o pleito, anunciou que manteria a ação todas as sextas-feiras, e denominou-as Fridays for Future.
Num mundo interconectado e intranquilo, também as ações de crítica ao sistema podem espalhar-se rapidamente. Já em novembro, ações semelhantes (porém coletivas) espalharam-se por diversos países europeus – mas também pela ÍndiaÁfrica do SulRuanda e Colômbia. Em dois momentos, neste ano – 15/3 e 24/5 – houve greves estudantis globais. Nelas, os estudantes não se limitam a deixar as aulas: ocupam as ruas, em atos sempre indignados, porém criativos e esperançosos. Em países como a Inglaterra, o movimento adquiriu características próprias e autonomia: surgiu daí a Extinction Rebellion, cuja multiplicidade de ações parou Londres, em abril.
O foco central de tais greves não é o sistema social, e sim o risco de destruição do planeta. Mas o caráter anticapitalista que o movimento rapidamente assume é claro. Basta ver os cartazes das manifestações, que claramente se voltam contra as corporações transnacionais e os governos lenientes a elas. Ou, então, ouvir as falas de Greta. “Nosso futuro foi entregue para que um pequeno número de pessoas possa acumular quantidades inimagináveis de dinheiro (…) Agora, as pessoas estão aos poucos se tornando mais conscientes, mas as emissões [de CO²] continuam a crescer. Não podemos nos contentar com pouco. No essencial, nada mudou (…). Não se trata apenas de gente jovem cansada de políticos. É uma crise existencial. É algo que afetará o futuro de nossa civilização”, disse ela em Londres, durante os protestos da Extinction Rebellion.
Assim como os protestos anteriores, a próxima, em setembro, não tem uma coordenação central. As atividades – que começam no dia 20, mas se estenderão por uma semana – podem ser registradas num site, traduzido em diversos idiomas, inclusive o português. Lá é possível atualizar-se, recolher material de divulgação, obter um interessante guia prático para organização de eventos e registrar atividades programadas. Elas podem ser múltiplas: de grandes manifestações de rua a debatesaulas públicas, pressão sobre os políticos, pequenas intervenções de conscientização local.
O mais interessante, é claro, é organizar de forma coletiva. O texto abaixo é um exemplo disso. Na Espanha, um leque vasto de organizações, articuladas por quatro redes (Juventud por el ClimaFridays for future Espanha2020 Rebelión por el ClimaAlianza por el clima e Emergencia climática ya) juntou-se, organizou uma agenda comum, lançou um manifesto. Está publicado a seguir. Basta sua leitura para compreender a radicalidade possível da luta (A.M.)

27 de Setembro: Greve Mundial pelo Clima

Os relatórios mais recentes sobre a situação da biodiversidade, do IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos), e sobre o aquecimento global de 1,5ºC, do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), alertam sobre os rumos que levam ao desgaste de um grande número de ecossistemas — terrestres e marinhos — e à extinção de um milhão de espécies que se encontram gravemente ameaçadas pela atividade humana. Também, estamos quase chegando ao ponto de não retorno das mudanças climáticas.
Uma crise climática que é consequência de um modelo de produção e consumo que já demonstrou que não é o mais adequado para satisfazer as necessidades de muitas pessoas, que põe em risco a nossa sobrevivência e afeta de maneira injusta, principalmente, as populações mais pobres e vulneráveis do mundo. Não responder com rapidez e força suficientes à emergência ecológica e civilizatória, suporia a morte de milhões de pessoas, além da extinção irreversível de espécies imprescindíveis para a vida na Terra, considerando as complexas inter-relações do ecossistema.
A solidez dos dados demonstra como as regiões mediterrâneas são as mais vulneráveis às mudanças climáticas, portanto, não limitar o aquecimento global em 1,5ºC sairá bem caro para as gerações presentes e futuras. A responsabilidade das instituições europeias e do governo espanhol, bem como dos governos das diversas comunidades autônomas e das prefeituras alinhadas com todos os grupos políticos, é de estar à altura das necessidades que o momento exige.
As organizações signatárias pedem que, na nova etapa política, seja declarada de forma imediata a emergência climática e que sejam tomadas as medidas efetivas necessárias para reduzir rapidamente até o ponto zero as emissões dos gases de efeito estufa, alinhados com os critérios estabelecidos pela ciência e pela justiça climática. Evitar que a temperatura aumente mais de 1,5ºC deve ser a prioridade da humanidade. É preciso reduzir urgentemente as emissões de CO²eq, reajustando o rastro ecológico à biocapacidade do planeta.

Para conquistar esses objetivos, eis os requerimentos necessários:

Honestidade: assumir a urgência da situação atual, reconhecendo o diagnóstico, as indicações e os caminhos de redução indicados no último relatório sobre os 1,5ºC, com o aval da comunidade científica. Reconhecer o hiato de carbono existente entre os compromissos espanhóis e as indicações científicas. Os meios de comunicação possuem um papel fundamental para transmitir essa realidade.
Compromisso: declarar a emergência climática, assumindo compromissos políticos reais e efetivos, muito mais ambiciosos do que os atuais, com a conjunta designação de recursos para encarar a crise. Garantir as reduções dos gases de efeito estufa, respeitando o relatório do IPCC, o qual estabelece uma faixa de redução das emissões globais entre 40% e 60% para 2030, em comparação com 2010 — para que o aumento da temperatura global não ultrapasse os 1,5ºC. Além disso, é fundamental deter a perda da biodiversidade para evitar um colapso de todos os sistemas naturais, inclusive o do humano.
Ação: abandonar os combustíveis fósseis, apostar numa energia 100% renovável e reduzir a zero as emissões líquidas de carbono, com urgência e prioridade, o antes possível. Exigimos que os governos analisem formas de cumprir com esse objetivo e que proponham os planos de atuação necessários: impedindo novas infraestruturas fósseis (centrais, escavações, grandes portos, etc); reduzindo os níveis de consumo de materiais, a energia e as necessidades de mobilidade; mudando o modelo energético sem soluções falsas, como a energia nuclear; reorganizando os sistemas de produção; educando e adotando outras medidas eficazes. Tudo isso deve ficar registrado na Lei de Mudança Climática e Transição e no Plano Nacional Integrado de Clima e Energia.
Solidariedade: o desgaste ambiental das condições de vida é sentido de formas desiguais, dependendo da classe social, do sexo, da origem e das capacidades. Defendemos que a transição enfrente essas hierarquias e defenda e reconheça de forma diferenciada a população mais vulnerável.
degradação do planeta e a crescente desigualdade têm uma origem em comum e se alimentam entre elas. Assim, por exemplo, muitas grandes empresas e bancos obtêm enormes benefícios por meio da especulação imobiliária, dos despejos, da gentrificação e da turistificação que expulsa famílias de suas casas e vizinhos de seus bairros. Embora existam cada vez mais investimentos em tecnologia para realizar a transição energética, continuam existindo muitos fundos que sustentam e financiam as grandes empresas do oligopólio energético que exploram o planeta — cujo resultado acaba num aumento da pobreza, inclusive da energética.
Não podemos deixar que a situação dos coletivos mais desfavorecidos continue a piorar, portanto, a transição deve se dar com justiça social. No caso dos territórios e trabalhadores e trabalhadoras afetados, é preciso adotar medidas para garantir empregos alternativos em setores sustentáveis, enfrentar a crise energética, reduzir a jornada de trabalho, melhorar a distribuição dos empregos e do desenvolvimento de outros mecanismos, em torno de uma Transição Justa que consiga que ninguém fique para trás.
Democracia: a justiça e a democracia devem ser os pilares fundamentais de todas as medidas aplicadas, motivo pelo qual devem ser criados mecanismos adequados de participação e controle, do ponto de vista da cidadania, para abordar as questões sociais mais complexas e ser parte ativa da solução, mediante a democratização dos sistemas energéticos, alimentares, de transporte, etc. Nestes processos deve-se garantir a igualdade de gênero na tomada de decisões.
Dar um giro de 180º nas políticas comerciais internacionais, acabando com os tratados de comércio e investimento que aprofundam o problema do aumento dos gases de efeito estufa, por incrementarem o transporte marítimo interoceânico, bem como o da aviação civil, que dificulta a luta contra as mudanças climáticas através das cláusulas de proteção aos investimentos (ISDS). As medidas do mercado não devem interferir no planejamento adequado da transição ecológica.
Os países pobres são que têm a menor responsabilidade sobre a degradação do planeta. Porém, são os mais vulneráveis às consequências da violação dos limites. Os países mais ricos são os que mais acumulam dívida ambiental, por isso, e atendendo aos critérios da justiça climática, devem ser países como os europeus os que devem adquirir os maiores compromissos. É imperioso reverter o fato de que 20% da população mundial consuma o 80% dos recursos naturais.
Em defesa do futuro, de um planeta vivo e de um mundo justo, as pessoas e coletivos signatários aderimos à convocatória internacional de Greve Mundial pelo Clima, uma mobilização que será greve estudantil, do consumo, de mobilizações nos centros de trabalho e nas ruas, com fechamentos em apoio à luta climática… e convidamos todos os cidadãos, agentes sociais, ambientais e sindicais para apoiarem esta chamada e para se somarem às diversas mobilizações que acontecerão no dia 27 de setembro.

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