Falar em distribuir renda, frear corporações e papel ativo do Estado na produção deixou de ser “heresia” — até para parte dos conservadores. Em crise sem fim, neoliberalismo vacila. Abrem-se novas brechas; falta propor outro caminho
Publicado 24/09/2019 às 17:33 - Atualizado 24/09/2019 às 18:40
A cada novo dia que passa, a cada nova semana que avança, percebe-se que algumas das bases de sustentação do modelo em que se apoia o atual sistema do capitalismo global começam a apresentar suas fissuras. Apesar de não oferecer nenhuma novidade para os que sempre denunciamos esse regime injusto e excludente em escala mundial, é importante sim reconhecermos a gravidade da crítica que vem sendo lançada mais recentemente por gente de distintos perfis.
Uma das muitas maneiras para explicar as mudanças reside na identificação das consequências provocadas pela crise financeira internacional, que teve seu início no ambiente econômico dos Estados Unidos em 2008. A eclosão descontrolada de alguns dos principais símbolos da chamada “economia de mercado” teve um efeito tão ou mais devastador, inclusive do ponto de vista icônico, do que o bombardeio das torres do World Trade Center no coração de Manhattan em 2001.
Afinal, o que se viu a partir da quebra em cadeia das principais instituições financeiras que operavam no mercado estadunidense foi a colocação em xeque da própria estrutura de funcionamento da ordem liberal capitalista. Em 15 de setembro de 2008, a falência do banco Lehman Brothers oferece o primeiro susto, logo depois da estatização preventiva de alguns dos gigantes do mercado imobiliário de hipotecas, como Fanni Mae e Freddy Mac. Em seguida, o Tesouro daquele país injeta um volume considerável de recursos públicos para salvar o Bank of America e o Citibank de quebrarem. O argumento para justificar a medida, que se apresentava inclusive na contramão dos dogmas do livremercadismo, era o famoso too big to fail. Ou seja, de acordo com o contorcionismo retórico de nova ordem, elas seriam instituições tão grandes que sua falência deveria ser evitada a todo custo.
Crise de 2008/9: início das mudanças
Ainda na sequência, em 2009, o governo norte-americano injeta bilhões de dólares nas simbólicas corporações gigantes do mercado automobilístico. A estratégia era também salvar da falência empresas do porte de General Motors e Chrysler. É verdade que a narrativa do liberalismo, sempre tão propagada pelo mundo afora pelo establishment ianque, na verdade nunca foi aplicada com todo o rigor no seu próprio território. Para tanto, basta considerarmos as políticas de subsídios aplicados em setores politicamente sensíveis (como agricultura e energia), as políticas especiais oferecidas ao complexo bélico militar ou a proeminência de oligopólios em inúmeros setores da economia norte-americana. Receita de liberalismo é bom para se aplicar na grama do vizinho.
Porém os efeitos da crise operaram como um questionamento profundo de alguns dos dogmas basilares do modelo que vinha funcionando desde o início dos anos 1980. O Estado foi obrigado a intervir no jogo econômico de forma explícita e ultra evidente. A política de austeridade ortodoxa teve de ser revista em uma jogada de “pragmatismo realista”, de forma que as políticas monetária e fiscal foram subvertidas em relação a tudo aquilo que as instituições difusoras do neoliberalismo sempre haviam apregoado nos Estados Unidos e pelo mundo afora. Uma das razões mais importantes para a crise no âmbito financeiro foi identificada como sendo a ausência de regulação das instituições e das operações de risco elevado. Tanto que uma das primeiras medidas consideradas como “saneadora” foi a Lei Dodd Frank, que pode ser considerada a primeira grande regulação do mercado financeiro norte-americano desde a década de 1930.
Essa contradição entre o discurso liberal e a prática de governos e instituições revelou-se insustentável. Estados Unidos, União Europeia, Japão, Canadá e outros países são afetados por essa necessidade de adaptação. Abre-se, assim, uma brecha para o surgimento de visões e propostas alternativas, ainda mesmo no campo do conservadorismo. A hegemonia demolidora exercida pelos dogmas do neoliberalismo começa a perder o vigor que sempre havia caracterizado esse período. Questões como distribuição de renda, desigualdade social e econômica, regulamentação e regulação das atividades na economia, política fiscal contracíclica e outros temas “heréticos” passam a fazer parte do cardápio dos próprios economistas que defendiam o modelo da ortodoxia até poucos meses antes.
Piketty e Lara Rezende – críticas ao modelo
Um dos formuladores que ganhou mais notoriedade ao longo dos últimos anos foi o francês Thomas Piketty e seu livro O capital no século XXI, lançado em 2013. Oriundo de uma escola conservadora no ambiente universitário francês, ele foi um dos criadores e dirigentes da polêmica Paris School of Economics (PSE), iniciativa claramente inspirada no modelo da coirmã britânica, London School of Economics (LSE). Mas o fato é que a emergência da crise e a investigação de assuntos como concentração de renda e patrimônio levaram o economista a apontar o dedo para a necessidade de mudanças profundas na questão da tributação e da regulação da economia, entre outros aspetos.
Por outro lado, a brecha aberta no debate pós-crise 2008 permitiu também a recuperação de debates do campo da macroeconomia. Voltaram à baila questões que haviam ficado no esquecimento, em razão do esmagamento ideológico promovido pelo establishment neoclássico há décadas. Essa foi a oportunidade para o ressurgimento de vários pesquisadores agrupados em torno daquilo que passou a ser chamado de “Teoria Monetária Moderna” (MMT, da sigla em inglês). De acordo com tal interpretação do fenômeno econômico, faz-se necessário um repensar a respeito de dogmas como déficit público, função da moeda e capacidade de endividamento do Estado.
Apesar da relevância do tema, as elites do financismo tupiniquim não parecem nada entusiasmadas em oferecer espaço para esse tipo de autocrítica. Um dos poucos pensadores e operadores da economia que ousaram furar a bolha e trazer luz a esse importante debate tem sido André Lara Rezende. Apesar de toda a sua formação no campo do conservadorismo, bem como sua atuação no mercado financeiro e sua participação como formulador de política econômica nos governos de FHC, ele teve a coragem política e intelectual de reconhecer os equívocos. Em seus artigos mais recentes, o economista carioca traz informações sobre o andamento do debate da MMT nos fóruns internacionais e aponta os enganos da continuidade da opção pela austeridade em nossas terras. Essa nova abordagem proposta por um importante formador de opinião postula uma forte crítica à política monetária de juros altos praticada há duas décadas e também a essa verdadeira obsessão do financismo com o corte generalizado de despesas como sendo a única saída para a crise fiscal.
Draghi, Martin Wolf e o Reino da Dinamarca
No espaço europeu a polêmica também avança, uma vez que a política de austeridade levada a cabo pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Comissão Europeia (CE) não produziu os efeitos desejados pela maioria da população da maior parte dos países da região. A sequência interminável de planos de ajuste recessivos e destruidores (como ocorreu com Espanha, Grécia, Irlanda e Portugal no passado recente) parece que agora cede espaço para uma reflexão de matriz diferente. O próprio presidente do BCE, o economista italiano Mario Draghi, reconheceu há poucos dias a necessidade de abrir um diálogo para examinar as propostas da MMT como alternativas para o aperfeiçoamento dos mecanismos de política monetária no espaço europeu. Vindo de quem vem e do cargo que ocupa, esse gesto não é nada desprezível.
Outra iniciativa relevante foi um artigo de autoria de Martin Wolf, importante jornalista e economista conservador, que é conhecido por suas atividades como editor do jornal Financial Times (FT). Ali também se identifica um desconforto do autor com os rumos da própria economia capitalista nos tempos atuais. Nesse caso mais recente, o autor chega ao ponto de identificar na natureza rentista do capitalismo contemporâneo uma ameaça para a sobrevivência da democracia liberal. Ora, chegamos a uma situação em que um dos maiores baluartes de defesa da ordem capitalista como FT se vê obrigado a reconhecer a necessidade de mudanças de rota. Talvez seja mesmo o caso de recordarmos o que escreveu há mais de 4 séculos atrás outro inglês, William Shakespeare, em sua peça “Hamlet”: há algo de podre no Reino da Dinamarca.
É bem possível que estejamos mesmo vivendo um momento de mudança de paradigma. Esses períodos de transição podem oferecer espaços para o novo ainda em gestação. Às forças progressistas cabe uma intervenção nesse processo de disputa de ideias. Com isso, assegurar que o novo caminho seja na direção de um mundo mais justo, menos desigual e que esteja assentado na sustentabilidade.
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Aprendemos a separar corpo e alma, espírito e matéria, pensamento e ação, feminino e masculino, brancos e pretos, oriente e ocidente, centro e periferia. Não há nenhuma justificativa lógica ou ética suficiente para sustentar essas separações. Elas são meras classificações produzidas ao longo dos séculos por processos hermenêuticos. Devemos considerar a hipótese de que haja motivações ideológicas para que sejam sustentadas.
Por meio dessas separações que opõem algo de positivo e algo de negativo se garante a divisão do trabalho como a verdade profunda de um sistema que define que uns serão privilegiados em detrimento de outros. Ricos em relação a pobres, homens em relação a mulheres, brancos em relação a pretos, europeus a não europeus, e assim por diante sempre em conformidade com exigências ideológicas em vigência dentro do sistema de interesses. A sustentação ideológica mascara a verdade e sustenta a docilidade dos prejudicados. Trabalhadores em geral, operadores das mais ingratas tarefas ao longo de sua vida útil são vítimas da descartabilidade, quando seus corpos já não servem para o fim a que foram destinados pela ideologia em ação. Essa ideologia primeiro os marcou como úteis, depois como objetos descartáveis. A descartabilidade depende da marcação produzida pela ideologia: em que mulher/preto/pobre se justapõem.
No Brasil de hoje, a exemplo de outros países do mundo, os trabalhadores perdem seus direitos e são jogados à mercê da vida e da morte quando se tornam incapazes de trabalhar por falta de condições físicas. O Estado, que antes tinha o papel de proteger sua vida e sua dignidade, cancela a lei e abandona as pessoas à sua própria sorte. A falsa “abolição da escravidão” escondia esse descarte do ser humano como acontece hoje com a destruição da Previdência Social. O caráter serviçal da vida das mulheres é parte essencial da divisão do trabalho à qual elas servem.
Sabemos que, se as vítimas da divisão do trabalho se rebelarem, o sistema ruirá. Seja como racismo, seja como machismo, afinal, são faces de uma mesma moeda, é o capitalismo que ruirá. Por isso, aqueles que administram a divisão do trabalho tentam evitar a todo custo que os administrados percebam o que se passa. Controlar teorias que defendam o bem comum, evitar questionamentos e aniquilar críticos, bem como esconder seus interesses pessoais, é essencial para a sustentação do sistema.
O neoliberalismo como ideologia
Não é difícil entender por que o neoliberalismo precisa evitar a todo custo ser reconhecido em sua ideologia. Se a ideologia é um conjunto de ideias prontas que visa evitar a busca da verdade e se a filosofia é a busca da verdade, as ideologias não são filosofias porque não são questionamentos que poderiam levar à busca da verdade. Como foi dito, ideologias são conjuntos de ideias prontas. Podemos falar em ideologias de partidos, do mesmo modo que podemos dizer que todas as religiões possuem algo de ideológico justamente no elemento dogmático que lhe é inerente.
O capitalismo se torna ideologia ao não ser questionado, seja por opção, seja por imposição. O neoliberalismo é a forma do capitalismo que mais oculta sua própria estrutura ideológica para poder valer sem limitações. Nesse sentido, ele é a autoconsciência do capitalismo em sua fase mais avançada e perversa. Por não agir na contramão dessa consciência, mas se aproveitando dos seus piores ensinamentos, o neoliberalismo se torna uma espécie de perversão na segunda potência do capitalismo. A falta de ética pela desvalorização do ser humano e de sua dignidade é a sua marca fundamental.
O neoliberalismo se apresenta como natural e, portanto, isento de interesses. Se ele revelasse no discurso o seu objetivo, se ele não escondesse o seu verdadeiro propósito anti-humano, que é a eliminação da vida humana na Terra em nome dos privilégios de uns poucos, ele seria rechaçado e a humanidade inteira estaria preocupada com o seu próprio destino.
“O nível de predomínio do capital financeiro
na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação
contemporânea, até praticamente reduzir a produção de objetos materiais
ou imateriais à periferia na busca de rentabilidade. O semiocapitalismo
[capitalismo semiótico] se tornou o ponto máximo de abstração do
capital, impactando direta e fulminantemente sobre indivíduos que vivem,
cada vez mais, no interior de realidades virtuais e sob o signo da
desmaterialização dos vínculos intersubjetivos”, escreve o filósofo Ricardo Forster, analisando a obra Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva, de Franco “Bifo” Berardi, filósofo, escritor e agitador cultural italiano.
A análise é publicada por Página/12, 28-07-2017. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
O semiocapitalismo se tornou o ponto máximo de
abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre
indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e
sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos
Leio, não sem começar a me perguntar algumas coisas que me remetem a nossa atualidade, o último livro de Franco “Bifo” Berardi, Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva,
no qual esmiúça a época da digitalização e do predomínio da
financeirização do mundo, não sem derramar, ao menos sobre mim, uma
sutil dose de pessimismo civilizatório, que conduz mais à melancolia que
à rebelião.
Não por isso, deixa de ser um livro valioso e agudo
em sua tentativa de cartografar a obscura complexidade de nossa época.
Detenho-me em um dos tantos parágrafos de um texto inquietante: “O ponto
crucial da crítica de Baudrillard
é o fim da referencialidade e a (in)determinação do valor. Na esfera do
mercado, as coisas não são consideradas a partir do ponto de vista de
sua utilidade concreta, mas, ao contrário, a partir de sua
permutabilidade e seu valor de troca. De maneira similar, na esfera da
comunicação, a linguagem é comercializada e valorizada como performance.
É a efetividade, e não o valor de verdade, a regra da linguagem na
esfera da comunicação. É a pragmática, e não a hermenêutica, a
metodologia para compreender a comunicação social, especialmente na era
dos novos meios de comunicação” (pág. 175).
Nestas reflexões de Berardi
se manifesta o processo que, no interior da modernidade burguesa,
chegou, séculos depois, ao que ele denomina “semiocapitalismo”
[capitalismo semiótico], esta etapa na qual o signo linguístico se
emancipou plenamente de qualquer referencialidade para se deslocar por
uma espacialidade na qual a abstração domina.
Citando Jean Baudrillard
– que não costuma ser citado, ultimamente, para além do valor
antecipatório de muitas de suas análises -, diz que o filósofo francês
“propôs uma semiologia geral da simulação baseada na premissa do fim da
referencialidade, tanto na economia como no campo linguístico. Em O espelho da produção,
escreve: ‘[...] a necessidade, o valor de uso e o referencial ‘não
existem’: não passam de conceitos produzidos e projetados em uma
dimensão genérica pelo próprio desenvolvimento do sistema de valor de
troca’. O processo de autonomização do dinheiro, que é a principal
característica do capitalismo financeiro, pode se inscrever no marco
geral da emancipação da semiose da referencialidade” (págs. 172-173).
Os sujeitos sujeitados no interior desta
lógica do capital são, agora, falados por esta configuração feita de
algoritmos, figuras e diferenças digitais. A armadilha já foi construída
e caímos em suas redes. Seremos capazes de romper seus nós?
O capital financeiro não só constitui o ponto mais avançado da “abstração”, já destacado por Marx,
como também, na perspectiva da comunicação, introduz, de forma radical,
a autonomização do signo e de seu impacto na produção artificial de
conteúdos imateriais que, no entanto, definem o vínculo com a realidade
determinando a busca de rentabilidade por parte de um capital que
abandonou a esfera da produção para se centrar na esfera financeira. Ao
se evaporar a referencialidade, o que também se encerra é a vinculação
argumentativa, abrindo passagem à fabricação de sujeitos impulsionados
por signos vazios e abstratos que impactam de cheio na dimensão afetiva e
sensível.
“Todos os signos – escreve Baudrillard, em “A troca simbólica e a morte”
– se permutam entre si, daqui por diante, sem se permutar por algo real
(e não se permutam bem, não se permutam perfeitamente entre si, a não
ser na condição de não se permutar por algo real)”. Pensar as
estratégias comunicacionais é adentrar nesta hipérbole do signo, na qual
a operação de deslocamento se consumou de forma definitiva, impactando
de cheio na subjetivação de indivíduos que estabelecem vínculos com “a
realidade” por meio desta “emancipação do signo de sua função
referencial”. Na era da “pós-verdade”, tudo pode ser dito e convertido
em “verdade irrefutável”. Romper esta nova forma de feitiço constitui o
desafio mais árduo e difícil de qualquer projeto de libertação.
O
perigo é que a dimensão real e imaginária deste ‘transtrocamento’ da
materialidade em abstração acabe por ser aceita pelos sujeitos como a
efetiva “realidade”, sem chances de se subtrair desta colonização cada
vez mais profunda. “A virtualização financeira – diz Berardi
– é o último passo na transição para a forma do ‘semiocapital’. Nesta
esfera, aparecem dois novos níveis de abstração, como fruto da abstração
do trabalho, a respeito da qual Marx escreveu (...). A
abstração digital soma uma segunda camada à abstração capitalista. A
transformação e a produção já não acontecem no campo dos corpos, da
manipulação material, mas, sim, no da pura interação autorreferencial
entre máquinas informáticas. A informação toma o lugar das coisas e o
corpo fica eliminado do terreno da comunicação (...). Depois, há um
terceiro nível de abstração, que é o da abstração financeira. As
finanças (...) se desvincularam da necessidade da produção. O processo
de valorização do capital, ou seja, aquele que aumenta o dinheiro
investido, já não passa pela instância da produção do valor de uso ou,
inclusive, pela produção física ou semiótica de bens” (págs. 176-177).
De qualquer modo, Giovanni Arrighi, em seu livro O longo século XX,
já havia destacado que em cada uma das etapas ou ciclos atravessados
pelo capitalismo, desde sua primeira estação genovesa, era possível
constatar um traço comum a todas: que em seus períodos de declive se
produzia, no centro hegemônico de cada época, um deslocamento do capital
comercial e produtivo para o capital financeiro (isso aconteceu com
Gênova, Holanda, Grã-Bretanha e, atualmente, com Estados Unidos que,
segundo Arrighi, constituem os quatro ciclos de
acumulação que definem o percurso histórico da economia-mundo
capitalista). Traço mais que interessante – aquela condição de hegemonia
financeira nas épocas de decadência, em cada etapa do capital – que nos
permite antecipar a crise, talvez terminal, do ciclo dominado pelos
Estados Unidos. É como se no corpo imaterial do capitalismo já estivesse
escrito, desde seus começos no século XVI, a significação decisiva da
financeirização como núcleo último de seu desdobramento histórico e como
marca de sua condição crepuscular.
O nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e constitui o eixo central da acumulação contemporânea
Claro que, e nisto é preciso dar razão a Berardi, o
nível de predomínio do capital financeiro na atualidade é esmagador e
constitui o eixo central da acumulação contemporânea, até praticamente
reduzir a produção de objetos materiais ou imateriais à periferia na
busca de rentabilidade. O semiocapitalismo se tornou o ponto máximo de
abstração do capital, impactando direta e fulminantemente sobre
indivíduos que vivem, cada vez mais, no interior de realidades virtuais e
sob o signo da desmaterialização dos vínculos intersubjetivos.
Berardi
acrescenta que a depredação do mundo real se tornou possível, em toda a
sua extensão, no exato momento em que o capital pôde prescindir da
produção de coisas úteis para se centrar, quase com exclusividade, na
dimensão abstrata da circulação e investimento monetário. “A separação
do valor de um referencial conduz à destruição do mundo existente” (pág.
178). O domínio da abstração generalizada como traço decisivo da etapa
neoliberal não só avança sobre uma depredação do mundo real, como também
deixa sem capacidade de reflexão e, portanto, de crítica, a uma
humanidade que é incapaz de compreender os mecanismos que definiram uma
atualidade demolidora, sobre a qual parece impossível intervir em um
sentido político.
Slavoj Zizek,
por sua vez, também insiste neste caráter desmaterializador e
supostamente não ideológico do capitalismo contemporâneo, um caráter que
se torna indecifrável para o indivíduo presos nas volumosas, mas
invisíveis malhas do consumo e da virtualidade, a trama de dominação que
segue exercendo seu grande poder sobre os corpos e a natureza, ao mesmo
tempo em que promove uma “verdade-sem-significado que se adapta, sem
inconvenientes, à era da digitalização e da comunicação de massas.
Não existe nenhuma ‘cosmovisão capitalista’,
nenhuma ‘civilização capitalista’ propriamente dita: a lição fundamental
da globalização consiste precisamente em que o capitalismo consegue se
adaptar a todas as civilizações, desde a cristã até a hindu ou a
budista, do Oriente ao Ocidente
Em Problemas no paraíso. Do fim da história ao fim do capitalismo, [Zizek]
destaca que talvez “seja aqui onde deveríamos localizar um dos
principais perigos do capitalismo: ainda que seja global e abarque todo o
mundo, mantém uma constelação ideológica stricto sensu sem mundo,
privando a grande maioria das pessoas de qualquer mapa cognitivo
significativo. O capitalismo é a primeira ordem socioeconômica que destotaliza
o significado: não é global em nível de significado. Além do mais, não
existe nenhuma ‘cosmovisão capitalista’, nenhuma ‘civilização
capitalista’ propriamente dita: a lição fundamental da globalização
consiste precisamente em que o capitalismo consegue se adaptar a todas
as civilizações, desde a cristã até a hindu ou a budista, do Oriente ao
Ocidente. A dimensão global do capitalismo só pode ser formulada em
nível de verdade-sem-significado, como Real do mecanismo global de
mercado” (pág. 16). Essa destotalização do significado
corresponde ao abandono da ação reflexiva de parte de sujeitos carentes
daqueles instrumentos promovidos pela ilustração e que permaneceram como
restos arqueológicos de uma história vazia de conteúdo.
Há uma
asfixia da compreensão que é proporcional à complexidade tecnológica, a
partir da qual se deslocam os infinitos fluxos do capital financeiro
pela abstração do éter informacional. É como se aquele sujeito da
ilustração tivesse se transformado em um indivíduo passivo, que é falado
por uma realidade desmaterializada, na qual só parece imperar o reino
da ficção e da artificialidade. Nada permanece da aposta kantiana que
postulava indivíduos autônomos e soberanos. O semiocapitalismo se move,
sem inconvenientes, no interior de uma sociedade presa nas redes do
binarismo digital.
O semiocapitalismo se move, sem inconvenientes, no interior de uma sociedade presa nas redes do binarismo digital.
Bifo Berardi disse isto de um modo direto e
preocupante: “Hoje em dia, a tecnologia digital se baseia na inserção de
memes neurolinguísticos e dispositivos automáticos na esfera da
cognição, na psique social e nas formas de vida. Tanto metafórica com
literalmente, podemos dizer que o cérebro social está sofrendo um
processo de cabeamento, mediado por protocolos linguísticos imateriais e
dispositivos eletrônicos. Na medida em que os algoritmos se tornam
cruciais na formação do corpo social, a construção do poder social se
desloca do nível político da consciência e a vontade, ao nível técnico
dos automatismos localizados no processo de geração de intercâmbio
linguístico e na formação psíquica e orgânica dos corpos” (pág. 34).
Fenomenologicamente,
isto pode ser observado nas estratégias desenvolvidas pelos meios de
comunicação na hora de construir dispositivos que operam sob a lógica
dos memes neurolinguísticos, aos quais Berardi faz
referência, buscando, justamente, saltar a cristalizada capacidade
reflexiva dos telespectadores ou dos usuários da internet e de redes
sociais, até atingir sua mais profunda sensibilidade, onde as respostas
se vinculam ao gesto automático que se manifesta como um antes e, por
que não, como um bloqueador de qualquer ação argumentativa.
Chamo de semiocapitalismo a atual configuração
da relação entre linguagem e economia. Nesta configuração, a produção
de qualquer bem, seja material ou imaterial, pode ser traduzida a uma
combinação e recombinação de informação (algoritmos, figuras, diferenças
digitais)
Mais adiante, e seguindo sua desconstrução da era digital, Berardi
especifica melhor sua definição da atual etapa da sociedade dominada
pela confluência do semiológico e do financeiro: “Chamo de
semiocapitalismo a atual configuração da relação entre linguagem e
economia. Nesta configuração, a produção de qualquer bem, seja material
ou imaterial, pode ser traduzida a uma combinação e recombinação de
informação (algoritmos, figuras, diferenças digitais). A semiotização da
produção social e do intercâmbio econômico implica uma profunda
transformação no processo de subjetivação. A infosfera atua diretamente
no sistema nervoso da sociedade, afetando a psicoesfera e a
sensibilidade em particular. Por esta razão, a relação entre economia e
estética é crucial para entender a atual transformação cultural” (pags.
127-128).
A massa dos cidadãos-consumidores se movimenta no interior deste processo de estetização do mundo, que corresponde ao que Nicolás Casullo
chamava de “culturalização da política”, perspectiva que nos leva
diretamente à influência decisiva que se estabeleceu entre as esferas da
linguagem e da economia no interior do semiocapitalismo, uma categoria
perturbadora que busca decifrar a fabricação de subjetividade e os novos
dispositivos da servidão voluntária, que já não se desdobra na dimensão
exclusiva da imagem, mas penetra nos interstícios da linguagem até
atingir seu núcleo mais profundo e inconsciente. Os sujeitos sujeitados
no interior desta lógica do capital são, agora, falados por esta
configuração feita de algoritmos, figuras e diferenças digitais. A
armadilha já foi construída e caímos em suas redes. Seremos capazes de
romper seus nós?
Certa esquerda ainda nega o aquecimento global. Mas tanto a história da consciência ecológica quanto suas implicações estão profundamente ligadas ao ecossocialismo
Por John Bellamy Foster*, na Monthly Review| Tradução: Antonio Martins
E é por nos mantermos na obscuridade sobre a natureza da sociedade humana – entendida como oposta à natureza em geral – que agora nos deparamos (assim me asseguram os cientistas implicados) com a possível destruição completa deste planeta, mal ele se converteu no lugar em que vivemos.
O Antropoceno, visto como uma nova Era geológica que substituiu o Era Holocena nos últimos 10 a 12 mil anos, representa o que tem sido chamado uma “brecha antropogênica 2” na história do planeta. Introduzido formalmente no debate científico e ambiental contemporâneo pelo climatologista Paul Crutzen em 2000, ele surge da noção segundo a qual os seres humanos tornaram-se a força emergente primária a afetar o futuro do sistema Terra. Embora normalmente identificado com as origens da Revolução Industrial, no final do século XVIII, é provável que o Antropoceno tenha eclodido no final dos anos 1940 ou 50. Evidências científicas recentes sugerem que o período a partir de 1950 mostra um grande pico e marca a Grande Aceleração nos impactos humanos sobre o ambiente, e que os traços mais dramáticos da brecha antropogênica são encontrados na chuva de radionuclídeos desencadeada pelos testes com armas nucleares 3.
Proposto desta forma, o Antropoceno pode ser visto como correspondente, grosso modo, à emergência do movimento ambientalista moderno, cujas origens estão nos protestos liderados por cientistas contra os testes nucleares sobre a superfície, após a II Guerra Mundial – e que emergiu como um movimento mais amplo em seguida à publicação de Primavera Silenciosa [Silent Spring], de Rachel Carson, em 1962. O livro de Carson foi logo seguido, nos anos 1960, pelos primeiros alertas, de cientistas soviéticos e norte-americanos, sobre um aquecimento global acelerado e irreversível 4. É esta inter-relação dialética entre a aceleração ao Antropoceno e o avanço de um imperativo ambientalista radical, em resposta, que constitui o tema central do maravilhoso livro novo de Ian Angus. Sua capacidade de oferecer perspectivas sobre o Antropoceno como um novo patamar de interação entre sociedade e natureza, produzido por uma mudança histórica; e sobre como os novos imperativos ecológicos tornaram-se uma questão central diante de nós no século XXI são o que faz Facing the Anthropocene [Diante do Antropoceno, em tradução provisória] tão indispensável.
Hoje parece provável que o Antropoceno será associado em particular, na ciência, à era pós-II Guera Mundial. Apesar disso, como em todas os grandes pontos de virada da História, houve sinais de picos menores, em etapas anteriores do percurso, a partir da Revolução Industrial. Isso reflete o que o filósofo marxista István Mészáros chama de “dialética da continuidade e descontinuidade”, que caracteriza todos os processos emergentes na história 5. Embora o conceito de Antropoceno tenha emergido completamente apenas com a concepção científica moderna de sistema Terra, e que suas bases físicas sejam cada vez mais identificadas com a Grande Aceleração após a II Guerra Mundial, esta era foi prefigurada por noções anteriores, que surgiram de pensadores cujo foco estava nas mudanças dramáticas provocadas, na interface entre seres humanos e natureza, a partir do capitalismo – entre elas, a Revolução Industrial, a colonização do mundo e a era dos combustíveis fósseis.
“A natureza, a natureza que precedeu a história humana”, destacaram Karl Marx e Frederik Engels já em 1845, “não existe mais (exceto talvez em algumas ilhas de coral de origem recente)”6. Visões similares foram apresentadas por George Perkins Marsh, em Man and Nature, de 1864, dois anos antes de que Ernst Haeckel cunhasse a palavra ecologia, e três anos antes de Marx publicar o primeiro volume de O Capital, com sua advertência sobre o abismo metabólico na relação entre humanidade e natureza 7.
Foi apenas no último quarto do século XIX e no início do XX, porém, que apareceu o conceito chave da biosfera, a partir do qual nossa noção moderna de sistema Terra iria se desenvolver. O marco mais notável é a publicação de A Biosfera, do geoquímico soviético Vladimir I Vernadsky, em 1926. “Vernadsky desmantelou, de maneira notável, a fronteira rígida entre organismos vivos e um ambiente não vivo, descrevendo a globalidade da vida bem antes que o primeiro satélite enviasse fotografias da Terra a partir de sua órbita”, escrevem Lynn Margulis e Dorian Sagan em What is Life 8.
A aparição do livro de Vernadsky coincidiu com a primeira introdução do termo Antropoceno (junto com Antropogene), por seu colega, o geólogo soviético Aleksei Pavlov, que costumava se referir a um novo período geológico no qual a humanidade seria a principal condutora da mudança geológica planetárias. Como Vernadsky observou em 1945, “A partir da noção do papel geológico do ser humano, o geólogo A.P. Pavlov (1854-1929) costumava falar, nos últimos anos de sua vida, da era antropogênica, na qual vivemos agora. (…) Ele enfatizou com razão que o ser humano, sob nossos próprios olhos, está se tornando uma força geológica poderosa e crescente. (…) No século XX, o ser humano conheceu e abarcou toda a biosfera, pela primeira vez na história da Terra, completou o mapa geográfico do planeta e colonizou toda a sua superfície” 9.
Simultaneamente ao trabalho de Vernadsky sobre a biosfera, o bioquímico soviético Alexander Oparim e o biólogo social britânico J.B.S Hadane desenvolveram independentemente, nos anos 1920, a teoria da origem da vida, conhecida como a “teoria da sopa primitiva”. Conforme sintetizado pelos biólogos Richard Levins e Richard Lewontin, da Universidade de Harvard, “a vida emergiu originalmente de matéria inanimada [o que Haldane descreveu, de mondo notório, como uma “sopa quente diluída”], mas esta origem tornou impossível sua ocorrência contínua, porque os organismos vivos consomem as moléculas orgânicas complexa necessárias para recriar a vida de novo. Além disso, a atmosfera rarefeita (desprovida de oxigênio livre) que existia antes do início da vida foi convertida, pelos próprios organismos vivos, em outras, rica em oxigênio reativo”. Deste modo, a teoria de Oparin-Haldane explicou pela primeira vez como a vida pode ter-se originado de matéria inorgânica, e por que o processo não poderia se repetir. Igualmente significativo, a vida, que emergiu desta maneira bilhões de anos atrás, poderia ser vista como criadora da biosfera, por meio de um complexo processo de co-evolução.10
Foi Rachel Carson, em seu discurso paradigmático “Our Polluted Environment” [“Nosso Ambiente Contaminado”], que introduziu o conceito de ecossistema entre o público norte-americano. Ela expressou de forma eloquente a perspectiva ecológica e a necessidade de levá-la em conta em todas as nossas ações. “Desde o início do tempo biológico”, escreveu ela, “estabeleceu-se a interdependência mais próxima possível entre o ambiente físico e a vida que ele sustenta. As condições na jovem Terra produziram a vida; então, a vida modificou imediatamente as condições da Terra, de forma que este único ato extraordinário de geração espontânea não poderia se repetir. De uma forma ou de outra, a ação e interação entre a vida e seus entornos mantém-se desde então”.
Penso que este fato histórico tem significado não apenas acadêmico. Uma vez que o aceitemos, percebemos que não podemos fazer, impunemente, ataques repetidos ao ambiente como os atuais. Qualquer estudante sério da história do planeta sabe que nem a vida, nem o mundo físico que a mantém, existem em pequenos compartimentos isolados. Ele reconhece, ao contrário, a extraordinária unidade entre os organismos e o ambiente. Por esta razão, sabe que substâncias danosas liberadas no ambiente retornam com o tempo, para criar problemas para a humanidade.
O ramo da ciência que lida com estas inter-relações é a Ecologia.. Não podemos pensar no organismo vivo isolado; nem podemos pensar no ambiente físico como um ente separado. Os dois existem juntos, cada um agindo sobre o outro para formar um ecossistema ecológico complexo.11
No entanto, apesar da visão ecológica integrada apresentada por figuras como Carson, os conceitos de Vernadsky sobre a biosfera e os ciclos biogeoquímicos foram por muito tempo subestimadas no Ocidente – devido às concepções reducionistas que prevaleciam na ciência ocidental e, também, ao fundo soviético que havia nestes conceitos. Os trabalhos científicos soviéticos eram bem conhecidos dos cientistas do Ocidente e foram frequentemente traduzidos, nos anos da Guerra Fria, por publicações científicas e mesmo pelo governo dos EUA – ainda que, de modo incompreensível, A Biosfera, de Vernadsky não tenha sido traduzido ao inglês até 1998. Era uma necessidade, já que, em alguns campos como a climatologia, os cientistas soviéticos estavam bem à frente de seus pares norte-americanos. Porém, este intercâmbio científico mais amplo, que atravessava as fronteiras da guerra Fria, foi raramente transmitido ao público mais amplo, entre o qual o conhecimento das conquistas soviéticas em tais áreas praticamente inexistia. Ideologicamente, portanto, o conceito da biosfera parece ter caído, por largo período, sob uma espécie de interdição.
Ainda assim, a biosfera assumiu o centro do palco em 1970, com uma edição especial da revista Scientific American sobre o tema 12. Mais ou menos à mesma época, o biólogo socialista Barry Commoner advertiu, em The Closing Cicle, sobre asa vastas mudanças na relação humana com o planeta, a partir da era atômica e da emergência dos processos modernos na química sintética. Commoner chamou a atenção novamente para os alertas precoces sobre a ruptura ambiental dos ciclos da vida, expressa na discussão de Marx sobre a quebra do metabolismo do solo13.
Em 1972, Evgeni Fedorov, um dos principais climatologistas do mundo e membro do Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, assim como o principal apoiador soviético da análise de Commoner (autor das “Notas de Conclusão” à edição russa de seu livro) declarou que o mundo teria de livrar-se dos combustíveis fósseis. “Um aumento na temperatura da Terra é inevitável se não nos decidirmos a usar, como fontes de energia, a radiação solar direta e a energia hidráulica das ondas e do vento, e preferirmos obter energia de combustíveis fósseis” ou reações nucleares.14 Para Fedorov, a teoria de Marx sobre o “metabolismo entre a humanidade e a natureza” constituía a base metodológica para uma abordagem ecológica da questão do sistema Terra 15. Foi nos anos 1960 e 70 que os climatologistas na União Soviética e Estade os Unidos encontraram as “evidências” – nas palavras de Clive Hamilton e Jacques Grinevald – de um “metabolismo mundial”.16
O avanço das análises do sistema Terra nas décadas seguintes sofreu também o forte impacto das visões de fora, que emanavam das primeiras missões espaciais. Conforme escreveu Howard Odum, um dos principais responsáveis pela criação da ecologia dos sistemas, em Environment, Power and Society:
Podemos iniciar uma visão dos sitemas da Terra por meio do telescópio de um astronauta muito acima do planeta. A partir de um satélite em órbita, a zona de vida da Terra parece muito simples. A fina camada de água e ar que cobre o planeta – a biosfera – está limitadea no interior por sólidos densos e no exterior pelo quase vácuo do espaço… A partir do céu, é fácil falar de equilíbrios gasosos, balanços energéticos ao longo de milhões de anos, e da magnífica simplicidade do metabolismo total da delgada casca exterior da Terra. Com a exceção do fluxo de energia, a biosfera é, em sua maior parte, um sistema fechado em que os materiais circulam e são reutilizados. 17
“O mecanismo de mega-crescimento” que ameaça este “metabolismo total”, continuou Odun, “é o capitalismo”18. O conceito atual de Antropoceno reflete portanto, por um lado, um reconhecimento crescente do papel – em rápida aceleração – dos motores antropogênicos, na ruptura dos processos biogeoquímicos e dos limites planetários do sistema Terra; por outro um duro alerta de que o mundo está sendo catapultado, sob as lógicas atuais, para uma nova etapa ecológica – bem menos capaz de manter a diversidade biológica e uma civilização humana estável.
Ao articular estes dois aspectos do Antropoceno – o geológico e o histórico, o natural e o social, o clima e o capitalismo – num visão única e integrada, é a principal conquista de Facing the Antrhopocene. Ian Angus demonstra que, se não interrompido, o “capitalismo fóssil”, é um trem desgovernado, que conduzirá a um apartheid ambiental planetário e ao que o grande historiador marxista E.P. Thompson chamava de um possível estágio histórico do “extremismo”. Neste, as condições de existência de centenas de milhões, ou bilhões de pessoas, mudarão dramaticamente, a as próprias bases da vida como a conhecemos serão ameaçadas. Além disso, tudo isso tem como fonte o que Odum chamou de “capitalismo imperial”, que ameça as vidas das populações mais vulneráveis do planeta num sistema de desigualdade global forçada 19.
Tamanhos são os perigos, diz Angus que apenas um enfoque novo, radical das ciências sociais (e, portanto da própria sociedade) – uma abordagem que leve a sério a advertência de Carson sobre o risco de solapar os processos vivos da Terra e receber o troco – pode nos oferecer as respostas de que precisamos na era do Antropoceno. No que diz respeito a esta mudança, fazê-la “amanhã é tarde demais”20.
Mas a ciência social dominante, que serve à ordem social dominante e aos grupos no poder, ajudou até agora a obscurecer estes temas, preferindo jogar seu peso em favor de medidas paliativas, e soluções mecanicista como os mercados de carbono e a geoengenharia. É como se a resposta à crise do Antropoceno pudesse ser consistente – dos pontos de vista econômico e tecnológico – com um novo avanço da hegemonia do Capital sobre a Terra e seus habitantes. Isso, a despeito do fato de a acumulação presente do capital estar na raiz do problema. O resultado é projetar o mundo em direção a perigos ainda maiores.
O necessário, como alternativa é reconhecer que a lógica de nosso modo de produção atual – o capitalismo – é o que bloqueia o caminho para a criação de um mundo de desenvolvimento humano sustentável, que transcenda o desastre em espiral que, de outra forma, aguarda a humanidade. Para salvar-nos, precisamos criar uma lógica socioeconômica distinta, que conduza a diferentes fins humano-ambientais – uma revolução ecossocialista em que as grandes multidões da humanidade participem.
Mas não há riscos implícitos numa mudança tão radical? Todas as tentativas de derrocar o sistema de produção atual, e o uso de energia associado a ele não resultarão em grandes batalhas e sacrifícios? Há alguma certeza de que seremos capaes de criar uma sociedade de desenvolvimento humano sustentável, como concebem os socialistas do tipo de Ian Angus? Não seria melhor equivocar-se pelo negacionismo que pelo “catastrofismo”? Não deveríamos esperar para agir, até que saibamos mais?
Aqui pode ser útil citar o grande dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht, num poema didático:
A parábola de Buda sobre a casa em chamas
Gautama, o Buda, ensinou A doutrina da roda da cobiça, à qual estamos atados, e aconselhou Livrar-se de toda cobiça e assim Sem ambição penetrar no Nada, que ele denominou Nirvana. Perguntaram-lhe então um dia seus alunos: Como é esse Nada, mestre? Todos nós queremos Livrar-nos de toda cobiça, como nos aconselhas, dize-nos porém Se esse Nada, no qual então penetraremos É talvez como o ser-um com tudo criado Ao deitar-se alguém na água, corpo leve, ao meio-dia Sem pensamentos quase, com preguiça deitado na água, caindo No sono, mal sabendo então que puxa a coberta Afundando rapidamente. Se esse Nada, portanto É assim contente, um bom Nada, ou se esse teu Nada É simplesmente um Nada, frio, vazio, sem sentido. Longamente silenciou o Buda, e disse então displicente: Nenhuma resposta para vossa pergunta. Mas à noite, quando haviam partido Sentado ainda sob o pé de fruta-pão, contou o Buda aos outros Aos que não haviam perguntado, a seguinte parábola: Há pouco tempo vi uma casa. Queimava. A chama Lambia o telhado. Aproximei-me e notei Que ainda havia pessoas dentro. Cheguei à porta e gritei-lhes Que o telhado estava em fogo, incitando-as assim A sair rapidamente. Mas as pessoas Pareciam não ter pressa. Uma delas me perguntou Enquanto o calor lhe chamuscava a sobrancelha Se não soprava o vento, se não havia uma outra casa E coisas assim. Sem responder Afastei-me novamente. Estes, pensei Têm que queimar, até parar de fazer perguntas. Em verdade, amigos Àquele que ainda não sente o chão bastante quente Para trocá-lo por qualquer outro, em vez de lá ficar, a este Nada tenho a dizer. Assim fez Gautama, o Buda. Mas também nós, não mais ocupados com a arte de suportar Antes ocupados com a arte de não suportar, e apresentando Sugestões várias de natureza terrena, e aos homens ensinando A desvencilhar-se dos tormentadores humanos, achamos que àqueles que À vista dos iminentes esquadrões de bombardeiros do Capital gastam tempo a perguntar Como pensamos em fazer isto, como imaginamos aquilo E o que será de suas economias e de seus trajes de domingo após uma reviravolta Nada temos a dizer.(Tradução de Paulo César Souza)21
O capitalismo e o meio ambiente global alienado que o sistema produziu constituem hoje nossa “casa em chamas”. Os ecologistas hegemônicos em geral preferem, diante deste dilema monstruoso, ir pouco além de contemplá-lo, observando e fazendo pequenos ajustes ao que os rodeia, enquanto as chamas lambem o telhado e toda a estrutura ameaça entrar em colapso. Trata-se, em vez disso, de mudar, de reconstruir a casa da civilização com princípios arquitetônicos diferentes, criando um metabolismo mais sustentável entre a humanidade e o planeta. O nome do movimento para conseguir isso, que surge dos movimentos socialistas e ecologistas radicais, é Ecossocialismo, e Facing the Anthropocene é seu manifesto mais atualizado e eloquente
1 Bertolt Brecht, Brecht on Theatre (New York: Hill and Wang, 1964), 275
2 Clive Hamilton e Jacques Grinevald, “Was the Anthropocene Anticipated?”Anthropocene Review 2, no. 1 (2015): 67.
3 Paul J. Crutzen e Eugene F. Stoermer, “The Anthropocene,”Global Change Newsletter, 1º/5/2000, 17; Paul J. Crutzen, “Geology of Mankind,”Nature 415, no. 6867 (2002): 23; Colin N. Waters et al., “The Anthropocene Is Functionally and Stratigraphically Distinct from the Holocene,”Science 351, no. 6269 (2016): 137, 137, 2622-1–2622-10.
4 Spencer Weart, “Interview with M. I. Budyko: Oral History Transcript,” March 25, 1990, http://aip.org ; M. I. Budyko, “Polar Ice and Climate,” em J. O. Fletcher, B. Keller, and S. M. Olenicoff, eds.,Soviet Data on the Arctic Heat Budget and Its Climatic Influence (Santa Monica, CA: Rand Corporation, 1966), 9–23; William D. Sellars, “A Global Climatic Model Based on the Energy Balance of the Earth Atmosphere System,”Journal of Applied Meteorology 8, no. 3 (1969): 392–400; M. I. Budyko, “Comments,”Journal of Applied Meteorology 9, no. 2 (1970): 310.
5 István Mészáros,The Power of Ideology (New York: New York University Press, 1989), 128.
6 Karl Marx and Frederick Engels,Collected Works, vol. 5 (New York: International Publishers, 1976), 40
7 George P. Marsh, Man and Nature (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965); Frank Benjamin Golley,A History of the Ecosystem Concept in Ecology (New Haven, CT: Yale University Press, 1993), 2, 207; Karl Marx,Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 636–39;Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 949.
8 Lynn Margulis and Dorion Sagan, What Is Life? (New York: Simon and Schuster, 1995), 47; Vladimir I. Vernadsky,The Biosphere (New York: Springer, 1998). O conceito de biosfera, introduzido originalmente pelo geólogo francês Edward Suess em 1875, foi muito mais desenvolvido por Vernadsky e acabou associado basicamente a ele.
9 Vladimir I. Vernadsky, “Some Words about the Noösphere,” en Jason Ross, ed.,150 Years of Vernadsky, vol. 2 (Washington, D.C.: 21st Century Science Associates, 2014), 82; E. V. Shantser, “The Anthropogenic System (Period),” enThe Great Soviet Encyclopedia, vol. 2 (New York: Macmillan, 1973), 140. O artigo de Shantser introduziu a palavra “Antropoceno” no idioma inglês.
10 Richard Levins and Richard Lewontin, The Dialectical Biologist (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985), 277; A. I. Oparin, “The Origin of Life,” en J. D. Bernal,The Origin of Life (New York: World Publishing, 1967), 199–234; and J. B. S. Haldane, “The Origin of Life,” en Bernal,The Origin of Life, 242–49.
11 Rachel Carson, Lost Woods (Boston: Beacon, 1998), 230–31
12 G. Evelyn Hutchinson, “The Biosphere,”Scientific American 233, no. 3 (1970): 45–53.
13 Barry Commoner,The Closing Circle: Nature, Man, and Technology (New York: Knopf, 1971), 45–62, 138–75, 280.
14 E. Fedorov citado em Virginia Brodine,Green Shoots, Red Roots (New York: International Publishers, 2007), 14, 29. Ver também E. Fedorov, Man and Nature (New York: International Publishers, 1972), 29–30; John Bellamy Foster, ” Late Soviet Ecology and the Planetary Crisis ,”Monthly Review 67, no. 2 (June 2015): 9; M. I. Budyko, The Evolution of the Biosphere (Boston: Reidel, 1986), 406. Os apelos de figuras proeminentes, como Fedorov, a uma resposta mais rápida e radical diantes dos problemas ambientais foram basicamente ignorados pelo Estado soviético, com resultados trágicos.
19 E. P. Thompson, Beyond the Cold War (New York: Pantheon, 1982) 41–80; Rudolf Bahro,Avoiding Social and Ecological Disaster (Bath, UK: Gateway, 1994), 19; Odum,Environment, Power, and Society, 276–78.
20 Rolf Edburg and Alexei Yablokov,Tomorrow Will Be Too Late (Tucson, AZ: University of Arizona Press, 1991).
21Bertolt Brecht, Poemas (1913-1956), Editora Braziliense, São Paulo, 1986. *