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Sunday, 13 April 2014

O Brasil no tempo de Oswald

op
http://outraspalavras.net/destaques/o-brasil-durante-a-vida-de-oswald/


O Brasil no tempo de Oswald

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Centro de São Paulo em 1920 -- pouco antes da Semana de Arte Moderna (1922) e da publicação do Manifesto Pau-Brasil (1924)
Centro de São Paulo em 1920 — pouco antes da Semana de Arte Moderna (1922) e da publicação do Manifesto Pau-Brasil (1924)
Uma cronologia a partir do ponto de vista do Teatro Oficina, em folheto da peça “O Rei da Vela” (1967)
Para ele, a História do Brasil teve começo em 1554,
quando da deglutinação do 
Bispo Sardinha,
invasor estrangeiro devorado pelos índios
1889
15 de novembro: Proclamação da República.
1890
11 de janeiro: nasce, em São Paulo, José Oswald de Souza Andrade.
1894
Floriano Peixoto sufoca revolta armada chefiada por Custódio de Mello.
1896
Revolta de Canudos
1900
Passagem do século — o Brasil tem 17.380.000 habitantes; São Paulo tem 239.820.
1909
É publicado manifesto do futurismo de Marinetti (Manifesto-Fundação). Oswald, jornalista, acompanha o presidente Afonso Penna em excursão ao sul.
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1910
Revolta do marinheiro João Cândido (“Assisti, no Rio, à primeira revolução política que o Brasil teve neste século”, afirma Oswald, comparando-a com a revolta do Potemkin, na Rússia).
1911
Oswald auxilia a pregação civilista, apoiado por Washington Luiz, então secretário do governo paulista.
1912
Primeira viagem de Oswald à Europa (onde voltaria mais 14 vezes). Oswald rasga seu primeiro livro de poemas.
Marinetti publica o “Manifesto Técnico”.
1914
Início da I Guerra Mundial.
Emissões desenfreadas no Brasil.
Início de um tímido processo de industrialização do país.
1916
Oswald começa a publicar “uns palminhos de futurismo”.
Oswald começa a elaborar “Memórias Sentimentais de João Miramar” (versão final em 1923).
Oswald Publica seu primeiro livro (com Guilherme de Almeida — duas peças em francês).
1917
Revolução russa.
Primeira greve geral em São Paulo: tomam parte 70 mil operários.
Oswald começa a escrever o romance “Os Condenados”.
1918
Fim da I Guerra Mundial
Brasil: aumenta o choque entre a burguesia industrial e a aristocracia rural (café, monocultura, em crise).
1919
Epitácio Pessoa é eleito (última tentativa de política anti-industrial, pró café).
1920
Crise da produção do café.
1922
25 de março: fundação do Partido Comunista do Brasil.
Oswald publica “Os Condenados”.
Fevereiro: Semana de Arte Moderna, em São Paulo.
Julho: Levante do Forte de Copacabana.
Novembro: Artur Bernardes eleito presidente (desde então o país vive em estado de sítio, sob regime policial).
Mussolini, após a “Marcha sobre Roma”, toma poder na Itália.
1923
Oswald redige versão final de “João Miramar”.
Após eleições, em janeiro, revolta no Rio Grande do Sul.
1924
Oswald publica coletânea de poesia “Pau Brasil”.
Levante militar em São Paulo: coluna paulista (Isidoro Lopes e Miguel Costa).
Início, no Rio Grande do Sul, da marcha da Coluna Prestes.
Oswald começa a preparar “Serafim Ponte Grande” (romance).
Oswald publica o “Manifesto Pau Brasil” (Correio da Manhã).
1925
Oswald publica coletânea de poesia “Pau Brasil”.
1926
Mário de Andrade publica “Macunaíma”
Novembro: posse de Washington Luiz.
Revolução do Rio Grande do Sul.
1927
Oswald publica “Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade”.
A Coluna Prestes termina sua marcha. Seus últimos integrantes se exilam na Bolívia.
Astrojildo Pereira, em nome do PC, procura Prestes.
1929
Organização da Aliança Liberal.
Crise econômica em todo o mundo (exceção da URSS).
1930
Revolução conduz Getúlio Vargas ao poder.
1932
Revolução Constitucionalista em São Paulo, contra Getúlio.
1933
Oswald publica “Serafim Ponte Grande”.
Oswald começa a preparar “Marco Zero” (romance inacabado), cujas duas primeiras partes concluirá em 1945.
Oswald começa a preparar a peça “O Rei da Vela”.
1934
Oswald escreve a peça “O Homem e o Cavalo”.
Getúlio é oficialmente eleito presidente, legalizando sua permanência no poder. (um dia antes é aprovada nova Constituição).
Na Alemanha, Hitler é chanceler.
1935
Novembro: revolta comunista.
1936
Guerra Civil na Espanha contra o fascismo.
1937
Golpe: início do Estado Novo.
Oswald escreve a peça “A Morta” e conclui “O Rei da Vela”.
1938
Fracassa tentativa de golpe integralista.
1939
Início da II Guerra Mundial.
1942
Oswald celebra a resistência de Stalingrado com o poema “Cântico dos Cânticos”.
O Brasil entra na Guerra.
1943
Oswald colabora no “Estado”, “Diário de São Paulo”, “Folha da Manhã”.
1944
A FEB luta na Itália.
1945
Fim da II Guerra Mundial. Bomba atômica em Hiroshima.
Getúlio cai em outubro.
Oswald publica a tese “A Arcádia e a Inconfidência”.
1946
O país tem nova Constituição.
1950
Oswald publica a tese para Concurso de Cadeira de Filosofia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo: “A Crise da Filosofia Messiânica”.
1951
Getúlio é novamente eleito presidente.
1952
Morte de Stalin. Eisenhower no governo dos Estados Unidos.
1953
Oswald escreve “A Marcha das Utopias”.
1954
Suicídio de Getúlio Vargas (24 de agosto). Morte de Oswald de Andrade (outubro).

Tuesday, 12 November 2013

O rosto do outro

adital
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?boletim=1&lang=PT&cod=78639

Artigos - Opinião
11.11.2013
[ Mundo ]
O rosto do outro

Marcelo Barros
Adital

Nesses dias, a imprensa brasileira discute se artistas e pessoas famosas têm ou não direito de impedirem a publicação de biografias suas não autorizadas. Também aparecem na mídia projetos de leis que criminalizam manifestantes de rua que usam máscaras em seus protestos.

Pode se pensar que os dois assuntos nada tenham em comum. Entretanto, nos dois casos, discute-se o direito às máscaras, sejam aquelas feitas de pano e coladas ao rosto, sejam máscaras sociais que cada um vai tecendo no próprio corpo, ao longo da vida. Sem dúvida, todo ser humano tem direito à sua intimidade, como também à sua honra. No entanto, a sociedade do espetáculo cobra sempre mais. E quem, um dia, fez tudo para aparecer, certamente, agora que é famoso, vai ter mais dificuldade para evitar uma exposição indevida da sua vida privada.
De certo modo, toda pessoa convive com alguma máscara. Os antigos chamavam de "persona” a máscara usada no teatro grego. Foi a origem das personagens de romances e mitos modernos da vida social. Em uma sociedade das aparências, o grande desafio é o da viagem interior em busca do mais profundo do ser. Um mito grego dizia que Deus (Júpiter), espantado com a capacidade do ser humano de usar seus atributos divinos para dominar e destruir, escondeu o segredo da divindade em um lugar que julgava inacessível ao ser humano. Assim, mesmo que as pessoas o buscassem no espaço sideral ou no mais fundo do mar, nunca podiam encontrá-lo. Júpiter escondeu o segredo da divindade no mais fundo do próprio coração humano. Se as pessoas não são capazes de mergulhar no mais íntimo de si mesmas, jamais descobrirão a capacidade de ser tão humanas que se tornam divinas.
Emmanuel Levinas foi um dos maiores filósofos do século XX. Discípulo de Martin Heidegger, do qual se separou por causa do nazismo e do judeu Franz Rosenzweig, a quem muito admirou, exilou-se na França, onde, até a sua morte no Natal de 1995, exerceu o ministério de professor e ajudou o mundo como pensador original e instigante. No mundo inteiro, a cada ano, nesse mês do seu nascimento (novembro de 1906), círculos filosóficos de todo o mundo recordam o essencial do seu pensamento. Levinas é o filósofo da alteridade. Ele ensinava que o ser humano se descobre como alguém chamado a viver a justiça e a solidariedade ao ter a coragem de ver o rosto do outro como ele é: diferente de si e ao mesmo tempo, merecedor de nossa responsabilidade. Para Levinas, a Ética e não a Ontologia é a filosofia mais importante. E todo ser humano se torna ético ao ser defrontado e levar a sério o rosto do outro. É o rosto do outro que revela a cada um como o ser humano é levado a crescer a partir da descoberta da alteridade. O outro é o diferente e essa diferença é irredutível e irremissível. Não é possível reduzi-lo à imagem interior que temos dele ou dela em nós mesmos. Só quando vamos ao encontro dessa alteridade, expressa no rosto do outro, podemos encontrar sentido para a vida e podemos nos realizar profundamente. É claro que ele não falava de uma sociedade na qual as pessoas fazem operações plásticas que tornam o rosto uma máscara que pode ser mais bela, mas não é mais verdadeira. Todo mundo tem, sim, direito a se embelezar, mas há uma identidade do rosto que é mais profunda e ali se torna necessário assumir as rugas da dureza nossa de cada dia. Inclusive, a própria descoberta do mistério mais profundo (Deus) só pode ser feita a partir dessa peregrinação ao verdadeiro rosto do outro. É no rosto do outro que descobrimos o infinito (do seu livro "O infinito e a totalidade”).
No mundo atual, há certa crise nas religiões institucionais. Mas, prolifera uma busca profunda de caminhos espirituais, alguns religiosos e outros, não. Seja nas tradições espirituais, seja fora delas, o caminho para a intimidade com o mistério consiste exatamente na pessoa tornar-se capaz de superar o amor egocêntrico e voltado para si mesmo e ir além do sentimento de pertença etnocêntrica ao clã, à Igreja, à nação e a qualquer outra entidade coletiva que se defina como "nós” para chegar à dimensão cósmica do amor aberto, universal e incondicional. Aí sim, a pessoa se torna divina. Todos somos chamados/as para esse modo de amar. Como escreveu São João: "cremos no amor e temos a experiência de viver esse amor, porque Deus é amor e quem vive o amor, vive em Deus e Deus vive naquela pessoa” (1 Jo 4, 16).