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Thursday, 10 July 2014

O Modernismo visto por Oswald em 1945

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O Modernismo visto por Oswald em 1945

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Duas décadas após Semana de Arte Moderna, escritor revê movimento, ressalta seu papel literário-político e vê Antropofagia em diálogo com ideias de Marx e Nietzsche
Por Oswald de Andrade | Imagem: Tarsila do AmaralBatizado de Macunaíma
Quereis saber com certeza como é que se produziu a Semana de Arte de 22?
Vou dizer:
Oswald de Andrade

“Informe sobre o Modernismo” de Oswald de Andrade, é o texto de uma conferência realizada em São Paulo, em 15 de outubro de 1945, em que o escritor traça o longo percurso dos princípios que nortearam a nossa vanguarda.
Naquele novo contexto do pós-guerra e nas vésperas da deposição de Getúlio Vargas[i], com o fim do Estado Novo, assistimos ao surgimento de uma nova geração de poetas e escritores.
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Por seu lado, Oswald de Andrade, na condição de um artista e agitador cultural profundamente familiarizado com a irreverência peculiar aos novos, sentia-se “à vontade para adverti-los, uma vez que não admitia, sob qualquer pretexto, o desconhecimento da contribuição oferecida pela tradição”.[ii] Assiste-se aí a um curioso movimento de rotação, que agora incluía os modernistas numa outra perspectiva cultural.
O artigo nos traz ainda um Oswald de Andrade completamente consciente do papel atribuído à sua geração: “Nós fizemos paralelamente às gerações mais avançadas da Europa todas as tarefas intelectuais que nos competiam”.
Além disso, o escritor revê o clima cultural anterior à Semana de 22, recuperando a participação do seu velho amigo e editor, Monteiro Lobato, através do episódioenvolvendo a pintura de Anita Malfatti.
Essa conferência persegue, numa outra chave, as grandes questões desenvolvidas em “O movimento modernista”, por Mário de Andrade, publicado no Outras Palavras, em duas parte: [aqui] e [aqui]. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60″)
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Informe sobre o Modernismo

TRÊS SÉCULOS DE LITERATURA AO PAR
A palavra “moderno” pertence a qualquer época. Foram modernos os iniciadores de todos os movimentos estéticos e filosóficos, de todos os movimentos científicos e políticos. O tempo encarrega-se de tornar os modernos clássicos ou de destruí-los. Da primeira esperança viveu mais um modernista de São Paulo, esperança expressa naquele verso:
“Seremos os clássicos do futuro.”[iii]
O crítico do Renascimento Giorgio Vasari não exaltava o classicismo dos seus contemporâneos, ao contrário, punha em relevo a “maneira moderna” de Giotto e Leonardo.
O poeta, o pensador e o artista são as vozes da sociedade. Quem não o sabe? São os semáforos cujas antenas captam o ar dos tempos novos. São muitas vezes procelárias na tempestade. Assim, nada mais fomos no Brasil de 22 do que os anunciadores das transformações que o século testemunhava.
De 1914 a 1918 o mundo mudara. Desmascarara-se o pacifismo em que se acobertavam os interesses das últimas dinastias e dos primeiros imperialismos. Em 14 abre-se a era das conflagrações mundiais. Em 17 consuma-se o primeiro ato da revolução bolchevista. Com a queda das forças residuais da Santa Aliança – as dinastias do Direito Divino que eram os Romanov, os Hohenzolern e os Habsburgo – triunfa o espírito liberal do ocidente. Consolida-se a revolução burguesa de que são pioneiros os países industrializados: a Inglaterra, a França e a América do Norte. E já um mundo que a Comuna de Paris anunciara planta o seu marco na Rússia de Lênin.
O Brasil possui três séculos de literatura ao par. Desde Gregório de Matos através dos inconfidentes e dos românticos, nos mantemos com segurança, respondendo com Castro Alves a presença de Whitman na América e produzindo no deserto inicial do século XX as duas figuras que fazem o pórtico da nossa era moderna – Machado de Assis e Euclides da Cunha. Deles e de alguns outros como Raul Pompéia e Aluísio, longinquamente decorreria o que até hoje realizamos.
Ao desaparecimento desses mestres sucede um clima de servidão intelectual e adesismo político que estiola a Academia e empesta os salões e os cafés. É a era dos Bilac exaltando o marechal Hermes e Frinéia [iv] e de Coelho Neto levando até a Câmara de Deputados as suas ninfas e os seus centauros para pregar o reflorestamento. O cronista João do Rio é um gênio desses galãs do Chiado e da Avenida. E só arrasta anônimo a sua dignidade e a sua cachaça. Eis quando paradoxalmente o Modernismo pinga da pena de um de seus maiores opositores. Como se diz que a literatura russa começou com O Capote de Gogol, pode-se também afirmar que a nossa modernidade começou no Jeca Tatu de Lobato. Aí havia duas cousas evidentemente novas – o tema e a expressão –, o homem vítima da terra e a escrita nova. Qualquer estética vos dirá que nada se produz em literatura ou arte sem alguns elementos essenciais: o impulso, a técnica, a expressão, a crítica. Faltava a Monteiro Lobato a técnica atual que vinha através das sugestões da mecanicidade (o rádio, o cinema, o jazz) abolir a literatura explicativa. Faltava-lhe também a crítica, antes sobrava-lhe o mofo em que se consolidara a sua formação de bacharel. Eis aí o paradoxo. Ele, que produz o primeiro estilo novo sobre o tema novo do brasileiro, é quem ataca e quase destrói a primeira manifestação de arte moderna que tivemos com Anita Malfatti, na sua exposição no ano de 17.
COMO SE PRODUZIU A SEMANA DE ARTE MODERNA
Quereis saber com certeza como é que se produziu a Semana de Arte de 22? Vou dizer: Antônio foi à casa de Paulo, que o levou ao quarto de José, que lhe mostrou os versos de Pedro, que lhe contou que João era um gênio e que Carlos pintava. E saíram todos para descobrir Maricota. Apenas, esses indivíduos entre outros chamavam-se Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Anita Malfatti.
Em fevereiro de 22, Paulo Prado e Graça Aranha enquadram o nosso grupo e o do Rio de Janeiro. E manifestamos no Teatro Municipal, ao lado de músicos e artistas. Somos vaiados num dilúvio. Resistimos. O “terror” modernista começa. É preciso chamar Antônio Ferro de gênio e Carlos Gomes de burro. Chamamos.
Curiosa nota cronológica. Nesse mesmo ano de 22, que marca o primeiro centenário da nossa independência política, o brigadeiro Eduardo Gomes está entre os dezoito oficiais e soldados que revoltaram o Forte de Copacabana. E Astrojildo Pereira funda o Partido Comunista do Brasil.
Até o ano de 28 vai tudo em estado de noivado. Em São Paulo, depois da ação do comando, que é a Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade, o movimento “Pau-Brasil” anuncia o slogan “Poesia de exportação contra poesia de importação”. E Gilberto Freyre abre o seu apostolado nacional em Recife, criando para o Brasil uma sociologia afetiva e totêmica.
Os elementos que utilizamos contra os velhos recursos da poesia sabida e metrificada são a plena liberdade da criação, a valorização do inconsciente, do cotidiano e do mecânico. Do cotidiano que vai até o vulgar estão o popular e o revolucionário. No inconsciente escondem-se o primitivo, o nativo, o geográfico e o telúrico. Nesses caminhos se cria a poesia nova do Brasil.
O romance que começara em 22 com Os Condenados tem agora Erico Veríssimo. A crítica está com Tristão de Athayde, Prudente de Morais Neto e Sérgio Buarque de Hollanda.
Chamei de divisor das águas do Modernismo à crise que nos separou em 28, prenunciando as agitações econômicas e políticas que dariam a era revolucionária de 30.
AS SUBDIVISÕES DO MODERNISMO
De fato, data de 28 o movimento que lancei com o nome de Antropofagia e que inicialmente não passava dum aprofundamento do sentimento nacional de “Pau-Brasil”. Tendo dado a direção da Revista de Antropofagia a Antônio de Alcântara Machado, eu e o grupo que comigo fazia o movimento com ele nos desavimos. Fundamos então uma segunda Revista de Antropofagia que se publicou no suplemento do Diário de São Paulo. Houve ainda uma terceira fase com a participação de Flávio de Carvalho, mas isso depois de 30. Tanto “Pau-Brasil” como a Antropofagia tiveram ao seu lado, desde os primeiros instantes, a colaboração de Tarsila.
No começo de 25, havia penetrado um autêntico clandestino no Modernismo. Era o sr. Plínio Salgado, que exibia o passaporte falso do seu romance O Estrangeiro, plagiado das Memórias Sentimentais de João Miramar, segundo a opinião de Prudente de Morais Neto. Ele encabeça a reação e prepara o fascismo nacional. Unidos, os senhores Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia haviam fundado o grupo “Verde-Amarelo”. É o centro. Do lado oposto, forma-se o grupo liberal. Estão à frente Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Couto de Barros, Paulo e Fernando Mendes de Almeida. Dirigem-se para a revolução paulista de 32. Na extrema esquerda ficariam os que vão ter pequenos aborrecimentos como cadeia, fome e ilegalidade. São os antropófagos. Chamam-se: Osvaldo da Costa, Pagu, Jaime Adour da Câmara, Clóvis de Gusmão e Geraldo Ferraz. Eu me acho com eles, e segue também conosco para tomar depois o caminho solitário de Rimbaud o poeta Raul Bopp.
Estamos em 30, em 35. Já se pode falar em pós-modernismo. O sr. José Américo de Almeida publicou A Bagaceira. Aparece o nordeste e seus romancistas. José Lins do Rego, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Afirma-se na poesia Carlos Drummond de Andrade, na prosa Aníbal Machado. Aparece Vinícius de Morais. Na pintura vem Cândido Portinari, na música Mignoni, na arquitetura Warchavchik e Oscar Niemeyer. O ensaio e a crítica têm Astrojildo Pereira e Álvaro Lins.
Com a ditadura Vargas, acentuam-se as tendências esboçadas — a dos integralistas de Plínio Salgado, a dos estado-novistas e uma terceira ala que, unida, se bate pela democracia. Nela se encontram antropófagos, comunistas e liberais. E o Modernismo atinge suas últimas consequências políticas no I Congresso de Escritores[v], que, com a sua declaração de princípios, precede e encabeça a luta pela anistia e a subsequente queda da ditadura. E também chegam às suas últimas consequências estéticas a prosa de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, o romance de Otávio de Faria e o balé “Yara”, que reúne em equipe a música de Mignoni, o cenário de Portinari e a fábula de Guilherme de Almeida. Nesse longo período a pintura criou seus jovens e seus mestres no caminho aberto por Anita Malfatti, Tarsila, Segall e Portinari. Faz-se na crítica o nome de Antonio Candido. O teatro teve um renovamento com Décio de Almeida Prado. E aparecem os chatoboys, de que é um grande exemplar o sr. Lourival Gomes Machado.
NIETZSCHE RECUSA SUBIR AS ESCADAS DA CHANCELARIA DO REICH
O fim da guerra e a derrota do fascismo, longe de apaziguar, carregaram de nuvens o horizonte próximo. E a inquietação do intelectual dos tempos modernos está longe de se ter acomodado. Aparece por toda parte uma senha nova — o existencialismo. Que é o existencialismo? Que consequência pode trazer para nós? Qual a posição a tomarmos diante dele?
Não se trata de nenhuma escola nova. Antes, é o coroamento filosófico e estético duma velha corrente que podemos chamar de intuitivista ou de irracionalista, a qual se opõe com uma vitalidade crescente às soluções teóricas e à ideia de um homem conformado e pacífico habitando mais um presepe do que a terra. A primeira precaução que devemos ter ao entrar neste assunto é evitar a fácil acusação de que o existencialismo é uma máscara do fascismo. Na verdade, o fascismo bebeu muito nas fontes do existencialismo e procurou turvar suas águas. Mas uma coisa é certa: se Hitler visitou a casa de Nietzsche — um dos patronos do existencialismo –, Nietzsche nunca subiria as escadas da Chancelaria do Reich. E teria sempre preferido a altitude solitária de Sils-Maria [vi] às alturas blindadas e turvas de Berchtesgaden [vii]. E na Itália habitaria o azul da Marina Pizzana e não a corte do conde Ciano [viii].
Porque Nietzsche foi sobretudo um grande honesto. Nele se consubstancia historicamente a primeira consciência do homem autônomo que o individualismo iria dar. Com ele e o dinamarquês Sören Kierkgaard inicia-se a desagregação de um pesado processo histórico intelectualmente iniciado por Sócrates nas ruas de Atenas. Só no século XIX e no ápice do Romantismo um homem poderia denunciar a moral de escravos que vinha há milênios realizando a marcha técnica da história. Quando já de outro lado, Carlos Marx previa e analisava a catástrofe da sociedade baseada na escravatura do trabalho.
NIETZSCHE, KIERKEGAARD, MARX E O EXISTENCIALISMO
Em Nietzsche e Kierkegaard, inicia-se no século XIX um dramático protesto humano contra o mundo lógico de Hegel e a sua terrível afirmação de que tudo que é racional é real. Hegel, que completa a metafísica clássica de Kant, promete e sagra a imagem dum mundo hierarquizado e autoritário que terminará nas delícias do Estado Prussiano e dialeticamente em Nüremberg. Com ambos tudo acabaria azul e legal, em catecismo e presepe. Dialeticamente, de Hegel iam brotar porém duas poderosas reações — o marxismo e o existencialismo que hoje nos ocupa.
No paroxismo a que atingiu a filosofia existencial, processa-se apenas uma exaltação do primitivo. É no fundo uma revalorização do homem natural que se produz contra os quadros esclerosados do homem histórico, do homem civilizado, do homem vestido, enfim, do homem cartesiano. E não poderia isso se dar em outra fase, pois que somente agora, com a física nuclear e o gigantismo potencial da era atômica, deve realizar-se a síntese que a marcha do homem procura.
“O homem, transformando a natureza, transforma a sua própria natureza”, já ensinava Marx. Vejamos isso em termos dialéticos. Havia qualquer coisa antes da queda do homem, antes da árvore do bem e do mal — tema existencialista, caro a Kierkegaard e a Chestov. Essa qualquer coisa foi turbada pelo conhecimento, conceituado nas ruínas da Pólis grega pelos achados de Parmênides e Pitágoras e organizado por Aristóteles. Daí a origem do progresso científico e do progresso técnico. Na Alexandria do século II anterior a nossa era fizera-se a tradução da Bíblia pelos setenta. E é nesse Egito helenístico que se produz o grande encontro dos mitos mosaicos com o pensamento platônico. Está fundado o Cristianismo. É a doutrina da domesticação do homem cujo destino é o céu, prossegue na escravatura, na sociedade solidamente dividida em classes e na justificação do Estado, cujo primeiro modelo sacerdotal, guerreiro e legislador tinha sido dado a Moisés de dentro das nuvens do Sinai. A necessidade exigia. “A escravidão naquelas circunstâncias foi um grande progresso”, afirma Frederico Engels no Anti-Dühring. A opressão e a liberdade em marcha dialética têm a sua mecânica. “Cada benefício para uns foi necessariamente um prejuízo para outros; cada grau de emancipação conseguido por uma classe, um novo elemento de opressão para outra”, acrescenta o companheiro de Marx.
A MODERNA POSIÇÃO DA ANTROPOFAGIA
Na moral de escravos se forjaria a técnica e se desenvolveriam as forças produtivas da sociedade e, por oposição, suas forças libertárias.
Hegel, no que tem de excelente, dizia que a contradição existe na raiz do próprio movimento. Vida é contradição, vida é conflito. E, na formulação dos atuais temas da Antropofagia, é a dialética o seu maior instrumento. O russo Chestov, depois de constatar que havia qualquer coisa antes da árvore do bem e do mal, isto é, que havia a Idade de Ouro, pergunta se o homem não vive um mau sonho e se não será possível que um dia acorde e redescubra o que perdeu. A Antropofagia responde que sim, dialeticamente. Ela vê na tese o homem primitivo, na antítese o homem histórico e na síntese o homem atômico com a capacidade adquirida pelo milagre da técnica de jogar fora a opressão mítica do Sinai junto com as opressões econômicas que o afligem. É ainda Chestov quem afirma que Aristóteles está mais próximo da verdade do que Bergson porque está mais próximo dos deuses, isto é, da Idade de Ouro, onde justamente se situa a Antropofagia como comunhão do valor adverso. Pois é evidentemente primordial que se restaure o sentido de comunhão do inimigo valoroso no ato antropofágico. O índio não devorava por gula e sim num ato simbólico e mágico onde está e reside toda a sua compreensão da vida e do homem. Trata-se apenas de transformação do tabu em totem, isto é, do limite e da negação em elemento favorável. Viver é totemizar ou violar o tabu. O outro lado da operação, a criação do tabu, isto é, da limitação, do metro, do nomos, da lei e em geral de toda a adversidade que nos encara, é dada à Antropofagia pelo inglês Edington, recentemente morto, o qual em seu admirável estudo sobre o mundo físico situa-se, no limiar da era atômica, com o problema essencial da transformação do mundo, não métrico em mundo métrico.
Aí está a operação de Parmênides criando a primeira lógica, a de Pitágoras achando a matemática. Para a totemização que foi a marcha histórica do homem, no Sinai houve a totemização de Jeová, o tabu terrível de Moisés a favor de seu povo. Apenas aí entram os elementos que constituíram mascarados até a psicanálise a psique do homem histórico, baseada numa consagração do suborno e da nulificação da pessoa humana. Deus que, antes do êxodo, os povos primitivos sabiam que era inimigo – o Deus inventado de Feuerbach e de Dostoiévski – foi subornado no Sinai pela moral de escravos. Passou a ser o capanga do povo eleito à custa da humilhação cega que daria o drama de Jó. Era preciso salvar a opressão. Trinta séculos depois do Sinai, um pequeno dinamarquês renova a angústia de Hamlet, e exige a repetição do milagre bíblico de Job e quer que Deus lhe restitua a namorada perdida e acaba concluindo que a divindade é o nosso inimigo mortal.
É este o lado pessimista do existencialismo, pois o filósofo, o teólogo e o místico de Copenhague não descrê, angustia-se, espera sempre e atrás do absurdo coloca sempre Deus. Em Jean-Paul Sartre já o existencialismo evolui. Da sua primeira visão negativista da vida que não admite conexão nem lógica e dá ao próprio progresso do homem um sentido de coincidência, Sartre passou a um humanismo mais doce, em que faísca uma disponibilidade para a Idade de Ouro anunciada pela Antropofagia.
A FALA DO HOMEM DO EQUADOR
Foi isso o que mais ou menos eu disse no recente Congresso de Escritores realizado em Limeira.
Numa conferência também recente Gilberto Freyre muito bem distinguiu modernidade de modernismo, isto é, o que houve no movimento de 22 de realmente renovador e o cacoete, a repetição e o papel-carbono que tanta gente utilizou e utiliza.
Hoje há os coronéis do modernismo, os usufrutuários da Semana. Mas há também a voz curta e poderosa do autor de Casa Grande, afirmando que a Antropofagia salvou o movimento de 22. Diz Heidegger que toda filosofia autêntica é no seu começo imatura. A Antropofagia ainda balbucia, mas propõe-se a depor no tumulto dramático de hoje. Ela leva às suas conclusões o que há de vivo no existencialismo e no marxismo. De um velho caderno que tem cerca de vinte anos tiro o seguinte: “Pela primeira vez o homem do Equador vai falar!”
Conferência realizada em São Paulo
em 15 de outubro de 1945; (IEL-Unicamp)
Notas
[i] É interessante observar, conforme podemos constatar na cronologia de O Brasil no tempo de Oswald, algumas coincidências nas biografias desses dois personagens: Getúlio Vargas e Oswald de Andrade.
[ii] Boaventura, Maria Eugenia. “Do órfico e mais cogitações”. In: Andrade, Oswald. Estética e política. São Paulo: Globo, 1992, p. 10.
[iii] “Porque somos os clássicos do futuro”, verso do poema “Boxe”, de Sérgio Milliet, dedicado a Oswald; Poesias, Porto Alegre, Globo, 1944, p. 44.
[iv] Frinéia, cortesã grega, amante e modelo do escultor Praxíteles.
[v] Congresso de Escritores, São Paulo, 1945.
[vi] Sils-Maria, estação suíça de esportes de inverno e verão, onde Nietzsche viveu uma boa temporada.
[vii] Berchtesgaden, estação de inverno nos Alpes, onde Hitler tinha sua residência predileta — o Berghof.
[viii] Conde Ciano (1903-1944), político italiano, genro de Mussolini e seu ministro.

Monday, 16 June 2014

Os Condenados, novo capítulo da trilogia de Oswald

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Os Condenados, novo capítulo da trilogia de Oswald

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Outras Palavras lança série de textos para celebrar escritor cuja obra parece cada vez mais atual, na Cultura e Política
“Um asco aumentara pelo telegrafista. Oh! os homens! Ela conhecia-os bem! Tinha assistido, na sua crucificação, ao desfile em pelo de todos os exemplares”
Por Oswald de Andrade | Imagem: Pablo Picasso
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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados
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Na sequência anterior, Alma termina os sonhos de infância. O avô a aguarda para assistir à passagem do Ano Novo. Enquanto isso, ela está sozinha naquela noite ruidosa. Dagoberto e João discutem sobre literatura e trocam confidências. Alma novamente fica grávida e decide ter o filho. Mauro reage com violência. Abandonada, a jovem passa a se encontrar com o telegrafista. O velho Lucas sofre ameaça de perder seus bens. João está num idílio, quando sabe da gravidez da jovem. Ele viaja a Santos. O velho está em crise. Mauro é denunciado à polícia. João mente para Alma dizendo que o cáften foi preso. Ela desaba em prantos. O avô decide expulsá-la de casa. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60”)
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Saíra pelas ruas, obedecendo o anátema da véspera. A manhã era toda cinza no ar, no céu, na gente.
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Chegou à estação da Luz. Teve uma vaga repulsa em pensar que podia encontrar a figura importuna do telegrafista. Queria estar só, com a sua tragédia estalada.
No Jardim Público aberto, a natureza, despenteada e matinal, arfava ao vento. Atravessou-o em reta; saiu. Encaminhou-se por esquinas populosas e pobres. Estava no Bom Retiro. Desceria até lá embaixo, até as várzeas finais da cidade. Levava, no seu bojo crescido, o filhinho que vivia, que seria seu amigo.
Bondes passavam pejados de populares, garotos brincavam em bandos maltrapilhos, carroças iam lentamente.
Chegara a uma rua sem calçamento que se perdia no campo. Penetrou numa estrada terrosa aberta na relva pisada. Em sua frente, desenhou-se a sinuosidade do terreno onde corria o Tietê. Num porto quieto, carroças recolhiam areia. E o rio apareceu de vidro, à flor das margens calvas.
Vacas paravam, na distância. Um cãozinho ladrou.
A cidade mudara de silhueta. Um vento ríspido agrediu-a. O grande Jesus da torre tutelar do Sagrado Coração dava-lhe as costas. Pensou vagamente em se matar, por vingança, em aparecer boiando nas águas glaciais, como uma Ofélia de gravura.
As carroças enchiam-se lentamente de areia peneirada. O quadro simples de rude trabalho atraiu-a. Teve uma vontade de viver assim, entre animais soltos e gente descalça.
Um cheiro malsão, vindo da embocadura dos esgotos citadinos, persistia.
Voltou. Refez o caminho andado. Não iria mais para casa. Uma mão persuasiva afastava-a do refúgio antigo, como uma condenação, pelos ombros. Não tornaria mais. Alcançou as ruas populosas. Estava perto do Jardim.
*-*-*-*-*
E, de repente, sobre um imenso muro vermelho, desenhou-se, na palidez do dia, uma silhueta lépida de soldado. Trazia uma carabina a tiracolo e andava para cá e para lá. Logo, além, na continuidade intérmina do muro, outro soldado apareceu como o primeiro, caminhando também, vigilante e sólido. Eram os fundos da cadeia da Luz.
Aqueles dois soldados renovavam-se ali, dia e noite, para atirar, implacavelmente, sobre os condenados que quisessem fugir.
*-*-*-*-*
Tomou depressa um bonde que passava para a cidade. E partiu à procura do bordel onde Mauro decerto estaria dormindo com aquela viciada da Marguerite.
*-*-*-*-*
Ele fê-la entrar no quarto elegante em que morava, sobre o tumulto de um restaurante noturno na rua Conselheiro Crispiniano.
À claridade fechada, ela viu sobre o leito exíguo, recoberto por uma colcha felpuda e multicor, um cãozinho cinzento e enorme, estirado nas duas patas tranqüilas. O animal, sem erguer a cabeça, balançou a cauda contente.
Mauro foi acariciar-lhe a pele luzida e grossa.
Ela examinou retratos seminus de mulheres, em leque, sobre o leito. Sentada a um canto, os seus olhos esfomeados pediam. Ele deu-lhe duas pratas para ir almoçar.
*-*-*-*-*
Passaram o dia juntos, fazendo malas. Ele partia na manhã vindoura para a casa de um tio materno em Guaratinguetá. E, para dormirem, tomou um outro quarto da casa de cômodos mobilados.
Havia apenas uma lâmpada perdida num desmesurado abat-jour. O quarto atufava-se de estofos, de móveis, de pequenos nadas sutis e amáveis. Sobre o penteador de três espelhos, fazia parada todo um arsenal de mistificações da beleza. Ela apreciou, num vago deslumbramento, as escovinhas para maquilagens, de diversos tamanhos, os pentes recurvos, os cosméticos de todas as cores, os boiões de perfume de todos os estilos, os cremes, os aparadores complicados das unhas.
– Nada disso presta – comentou Mauro deitado, em cuecas de seda. – Só há de bom artigo alemão. E, durante a guerra, não vem.
Ele conservava o seu prestígio integral de belo macho, feito na intimidade das prostituições.
E Alma, vendo-o tranqüilo, forte, como se nenhuma sombra pesasse sobre os seus dias, ficou acordada, pensando.
Um pendulozinho oculto palpitava na sombra. Os seus olhos haviam-se habituado ao escuro. Ela percebia a dobra longa das cortinas, as portas talvez. Claridades estilizavam-se pouco a pouco.
Vinham do interior da casa risos macabros. Eram os fregueses que chegavam e partiam. O relogiozinho pulsava, regular, impressionante, como uma voz de outro mundo. A noite andava lá fora de muletas.
Um braço ficara preso sob a cabeça pesada de Mauro e doía-lhe. Que bom correrem as horas! A terra andava levando o enterro dos vivos. O enterro começava no dia do nascimento de cada um. Um dia vencido era um passo para a morte, para a libertação.
Entravam num tropel, lá dentro, os retardatários. E a noite andava de muletas e olhos fechados.
Acompanhou-o, risonhamente, até a gare, pelas ruas. Um carregador seguia-os. O trem partiu, levando-o num sobretudo cintado de esporte.
Rodava agora, feliz e sem destino. Penetrou no Jardim Público. Nos canteiros matinais, florescia toda uma natureza postiça e nova: rosas de bazar, margaridas de pano.
Uma noite mal dormida descabelava as árvores. Havia lampiões altos, semi-acesos. Uma fonte de inexpressivos tritões pingava água, rusticamente.
Sentou-se a um banco e ficou pensando no telegrafista, no filho que pulava lá dentro, e em Camila que pusera para fora, num hospital, a sua última asneira.
*-*-*-*-*
João do Carmo, num velho pijama descorado, pensou que era sonho. Fê-la entrar, como Rodolfo na Boêmia, como quem mais? Procurava inutilmente, na cabeça literária, comparações, quadros líricos idênticos, estados de alma irmãos. Como estava magra sob o chapéu de tafetá!
Partiu num desvanecido anseio, voou sem rumo certo, para servi-la, para salvá-la. Era preciso arranjar um quarto onde ela morasse. Fora expulsa por sua causa. Era urgente, era urgente!
Lembrou-se de correr à delegacia de São Caetano, ali mesmo, onde Dagoberto Lessa trabalhava. Era ele o homem capaz de indicar-lhe o necessário ninho. Penetrou. Uma alegria comovida prendia-lhe o peito forte.
Dagoberto ouviu-o. Depois, uma gargalhada sarcástica estalou na sala ocupada de mesinhas desertas. O calvo havia aberto um livro enorme e preto de assentamentos. Ia continuar o serviço. E repetia:
– Você está louco, homem! Louco furioso! Dou já parte à autoridade.
Mas João insistia, numa cara sofredora e enérgica.
– É um caso em que ponho a minha honra de homem.
– Qual honra, nada! Bota o gado numa pensão e fica sendo o gigolô!
O namorado gritou rubramente:
– Não admito torpezas! Não admito!
Ia sair. O outro chamou-o, medroso.
– Bom! Não precisa se zangar. Mas ouça o que lhe digo. Você se arrepende desse passo, Seu João!
E levantando-se e buscando a farta capa espanhola num prego:
– Estou às suas ordens. Vamos. Não se discute.
João do Carmo, desarmado, procurava desculpar-se para com o serviçal, que exagerava, desarticulado em gestos pontiagudos:
– Não se discute! Não-se-dis-cu-te.
Sem outro assunto, o apaixonado foi dizendo pela rua populosa:
– Trata-se de um caso triste. Você sabe…
*-*-*-*-*
Reconciliaram-se na caminhada para a Luz.
Dagoberto envaidecia-se de aventuras, ante a benevolência exaltada de João. Conhecia uma mulher ótima para o caso. Fora até parteira.
– De quantos meses? – indagou.
– Que meses?
– De quantos meses ela está?
– Não sei. Não perguntei.
Dagoberto continuou o elogio das virtudes da mulher:
– D. Genoveva é um anjo que usa chinó.
Tinham tomado um bonde do Bom Retiro. Apearam na Rua Aimorés. Bateram a uma casa baixa de porta e janela. Houve um arrastar de pés vagarosos, lá dentro. E D. Genoveva abriu.
Foi uma festa. João sorria satisfeito. A mulher tinha um quarto desalugado. Havia brigado com o casal que morava nele e o homem – um porquera! – saíra espalhando que lá era casa de rende-vu. Por isso não aceitava mais mulheres. Olhassem aquele sossego. Na sala da frente, morava o Seu Julinho, da Secretaria da Fazenda; no primeiro quarto, um capitão da polícia. E ela costurava.
Mas a intervenção de Dagoberto foi convincente. Era um caso diverso. A menina estaria ali só durante a gravidez.
A mulher piscou e riu com dentes de velho marfim. Depois, pediu que lhe adiantassem dois meses de aluguel.
*-*-*-*-*
Um navio destaca-se do cais… a vida. Um navio destaca-se do cais…
*-*-*-*-*
Na manhã indecisa, D. Genoveva bateu à porta do quarto. Trazia, numa bandeja de reclamo, o café diferente e fatias cortadas de pão. Uma touca de rendas recobria-lhe a cabeça curva.
Combinaram mandar um carregador buscar as roupas que haviam ficado no refúgio distante do avô, na Rua dos Clérigos.
*-*-*-*-*
O sol banhava numa festa o sobrado pobre do velho Lucas, cristalizando os vidros, pondo trêmulas irisações nos canteiros da frente.
O carregador apareceu às dez horas.
A cozinheira gorda que fora ao quarto tinha voltado, dizendo pela casa:
– Hum! Hum! Sinhô tá ruim. Eu hoje sonhei cum sapato. Vai vê…
Foi à porta atender.
– Que roupa nada! O véio tá morreno. Bastião, óia vai com esse homem buscá sinhazinha. Diga pr’ela que o véio não dura nem esta noite.
*-*-*-*-*
De fato, a vizinhança invadiu a casa entragicada pela anunciação da morte.
A mulher roliça que fazia trou-trou e vendia roupas, ofereceu-se prestimosa e sorridente. Apareceu o Seu Quincas do lado, ereto e hirto, glória de irmandades e repartições. Cumprimentara o doente durante vinte anos.
O velho tivera um colapso. Deitado, a barba crescida no rosto cor-de-terra, fazia uma dobra no pequeno leito desconjuntado.
Chamaram um médico moço. Ele chegou à tarde e disse rapidamente, na sala de jantar, aos circunstantes, que era do coração – um caso perdido.
*-*-*-*-*
Seu Quincas esperava ficar só. Quando a mulher gorda partiu, fez o moleque sair e exortou o moribundo a tomar as últimas resoluções.
O desgraçado tinha os olhos humildes e grandes nos lençóis sujos. Estava sem camisa, no paletó azul. Teve uma crise ao saber que morria. A voz encanudou-se-lhe na boca sem dentes.
E, tétrico e solene, pediu ao outro, impávido e sombrio, a vela com que se transpõe a eternidade.
*-*-*-*-*
O sobrado pálido passou por tabelião solenemente, no alvoroço do bairro, para o patrimônio da Sociedade Defensora e Benemerente dos Empregados Públicos.
Seu Quincas, que trouxera a Sabedoria ao fundo da rua pacata, consumou tudo. O agonizante não podia mais mexer-se. Pregado ao leito pela inércia branca que lentamente lhe tomara os membros, olhava num começado delírio. Perguntou enroladamente pela netinha.
Numa transmutação, a cor verde e doentia de tudo fixou-se, ganhou a paisagem larga e escura que se despejava do quarto.
A Amazônia dormia sob um calor de naufrágio. Em redor dele, o rio cantava e a floresta e o vento, povoando o silêncio de fogo.
Havia parado trinta e sete anos à beira da caudal faquirizante, onde nas noites o luar residia, laminando as águas puras dos igarapés. Idália vinha de Belém do Pará, ele subira de Goiás.
Alma crescera órfã, numa seminudez de pequena Ariel propícia, pelas matas imóveis e incendiadas. E, com ele, nadava nas madrugadas diluvianas do rio solitário. Jacarés lodosos e sucuris tentaculares vinham no rolo amarelo das águas.
Na sombra do leito, o corpo vencido iniciava a desorganização final, antes de ir purificar-se no filtro imenso da terra. Pelos caminhos escleróticos das veias, o sangue impotente coalhava-se.
Uma ânsia de comodidade e de repouso, movimentava-lhe os estertores. Pediu a vela num ruído da boca aflita. Queria transpor, de círio simbólico em punho, a porta da eternidade.
Apareceu sorrateiramente um padre gordo. O quarto ficou uma capela de rogos.
A glacialidade do fim estacou-lhe para sempre as canelas magras e juntas. Bastião urrou à porta um choro bárbaro que pôs calafrio de ódio na impassibilidade de Seu Quincas.
E trouxeram-lhe a vela afinal, uma grande vela acesa e direita.
*-*-*-*-*
Alma não acreditara. E apareceu no chapéu de tafetá, para ver o corpo no caixão preto, ante o espevitamento sensacional da rua.
Os seus olhos eram dois lagos verdes. Tinha o gesto apalermado, os passos hesitantes.
Num espetáculo mudo de sofrimento, caiu a uma cadeira do corredor, sem coragem de entrar, e teve uma crise recurva de lágrimas.
Em redor, havia um mutismo choroso. Levantaram-na pelos ombros, levaram-na para a sala de jantar, em silêncio.
Mas, súbito, ergueu-se suplicante, sufocada.
– Quero ver meu avô.
Foram com ela. Um cheiro de flores e de cera espalhava-se entre gente.
Na meia-luz da câmara mortuária, os seus olhos inundados buscaram o caixão cheio de dálias vermelhas. Quedou-se ali, segura por braços compassivos. Mas, de repente, agitou-se, estremeceu e pediu meigamente ao vovô que falasse… para perdoá-la…
Arrastaram-na para um sofá. E ela continuou aos brados sonoros, numa declamação rogatória, a suplicar.
Mas um padre chegou. Era outro – frio, metálico, magro e impassível. Levou-a para dentro intimativamente.
*-*-*-*-*
Haviam-lhe tirado tudo. Deixaram-na transportar a roupa, a boneca quebrada, a cama sem lençóis.
Ela sabia que não se pode parar com a mão a roda-gigante do destino.
Mas, dentro dela, estuava uma compensação de mocidade farta. Nas suas lágrimas, havia sorrisos de saúde. Foi-se esquecendo de tudo, pelas ruas, sob o céu azul e benéfico, até a casa de D. Genoveva.
Um moço passou por ela namorando. Atrás, uma carroça levava vitoriosamente a sua fortuna.
*-*-*-*-*
Houve um pequeno guignol na missa de 7º dia.
*-*-*-*-*
Trouxera o cãozinho peludo. A cozinheira levara o moleque, cestas e panelas.
*-*-*-*-*
D. Genoveva sofria da aorta e, pedalando a máquina de costura, a seu lado, na sala, queixava-se.
O capitão saía sempre num faiscar de galões. E Seu Julinho, grosso e baixote, enternecia o ambiente com os seus olhos de homem batido e as cordas soluçantes do seu pinho. Ante a miraculosa aparição, fulva e fina, na casa enegrecida, redobrara a sua intuição de poesia das coisas. Agora, do quarto da frente vinham nas manhãs, sons bambos, sons quentes, sons inquietos.
Calava-se o violão dorido. Seu Julinho partia para a Secretaria, onde era contínuo. Ia jantar com pinga, num restaurante baixo da Rua Formosa.
E nas noites estreladas lá em cima, quando o telegrafista vinha para o casto noivado com Maria Madalena, na sala atravancada de roupinhas augurais, o violão dizia a dor e o milagre e a ardência daquela pobre gente, naquela pobre rua.
*-*-*-*-*
O ventre aumentava. Lá dentro a vida criada pulava, num trapézio inquieto. E a sua carnação aleitara-se, ameigara-se o seu trágico sorriso: num reconhecimento, os seus olhos eram da cor sentimental da esperança.
O telegrafista não gostava que ela lhe falasse da criança que ia nascer. Amuava-se num ciúme instintivo. Ela compreendia, desviava o curso das idéias, curava-o.
Passou a vender serviços de costura. O telegrafista pagava dedicadamente o quarto.
*-*-*-*-*
Por um cair violento de tarde, ela sentiu, com a vista escura, as primeiras dores.
João do Carmo avisado, acorreu, desesperou-se e partiu para não escutar nem saber. No trabalho noturno, tinha ouvidos longe, na casa, onde o drama da criação se passava entre cobertas, ajudado pela paciente experiência de D. Genoveva.
*-*-*-*-*
– Aaaaaaa! Aaaaaaaaaaaaaa!
Na penumbra amarela de lamparina, o canto materno ressoou, bateu as paredes altas, ecoou.
A mulher de festivo chinó, com os dentes para fora da boca, tinha preparado tudo. E disse:
– É agora. Força, minha filha! Coragem!
Alma suava na geladeira dos lençóis. Tinha a cabeça vermelha virada, a boca entreaberta, os olhos roxos.
– Aaaaa! Aaaaaaaaaaaaa!
E lá no âmago, no profundo do corpo, junto às costas, arrancavam-lhe ossos vivos.
– Força! Faça força!
Puxavam-lhe os rins, esticavam-lhe a coluna vertebral, estraçalhavam-lhe as cadeiras, implacavelmente.
– Tenha paciência…
E a mulher de mão veludosa, passou o óleo bento que trouxera, pela montanha empedernida e alva.
Pouco a pouco, a dor se foi amortecendo, entrando. E ela sentiu a consoladora vontade de avistar o ser martirizante que ia vir. Ia nascer o seu filhinho…
– Aaa! Aaaaa! Aaaaaaaaaaaaaa!
A dor cresceu de novo, avassalou a natureza que criava… Era a dor decisiva, inevitável, firme, sem respiração, sem descanso, sem trégua.
– Faça força! Faça força!
Alma estagnara-se, as pernas em tesoura, num ímpeto indizível, teso, de todas as suas vontades dispersas. Queria afrouxar como nos intervalos anteriores, parar: não podia… Uma imperativa energia macerava-lhe as entranhas numa concentração violenta de caminhos abertos.
– Aaaaaaaaaaaaaaaaaa!
O canto materno cresceu pelas paredes acima, em busca do céu noturno.
– Se-nho-ra-do-par-to! Fa-zei com que ele nasça…
Os ganchos lá de dentro, como os da flor simbólica de Jerusalém, se haviam desgarrado um a um, estalando os ossos e as carnes. A dor inundava-a. A mulher curvara-se ansiosa. Houve um choque rascante. O céu lá em cima desabou sobre a casa, o teto sobre a cama.
Deus enviou depressa um anjo, trazendo como uma hóstia pequenina, nas mãos de luz, a alma nova, a vontade nova, a alegria nova.
Escutou-se um eco de bolsa aquosa que rebenta. Um chumaço ensopado de cabelos escureceu sob a montanha branca. E uma figurinha convulsa, numa sufocação congestionada, lançou o primeiro grito terrível da vida.
Era homem. E trazia a estrangular-lhe o pescoço aplásmico, a fita umbilical dos malsinados. Mas gritava, querendo tomar conta do presídio do quarto, do presídio do mundo.
A mãe, rasgada pelo meio, entre lágrimas ouviu o imperativo choro. E sorriu indizivelmente na sombra, onde grandes asas estacavam.
*-*-*-*-*
Diante do pequenino ser, magricela, cabeçudo e de lábios expressivos, cegado ainda pelo fulgor das eternidades anteriores, Alma viu congelar-se-lhe no peito um sentido rancor para com todos os homens.
Mas pôs-se a escutar enfraquecida. E, de repente, os olhos inundaram-se-lhe. Ouvira sons lestos e vivos de bordões, numa incansável toada montante e vitoriosa. No seu quarto, como os antigos pastores de Belém, Seu Julinho celebrava o Natal.
*-*-*-*-*
Vieram os reis magos trazer-lhe presentes. O capitão, luzido como um séquito, deu-lhe uma camisinha branca de cambraia. Seu Julinho comprou uma grande touca de nanzuque. E o telegrafista trouxe humildemente uma medalha de Cristo menino.
*-*-*-*-*
D. Genoveva discutira longo tempo com João do Carmo e vencera. Um berço não serviria senão para os primeiros meses.
Compraram uma pequenina cama a prestações num negociante da Rua Santa Efigênia.
*-*-*-*-*
Quando a deixaram só, no quarto escuro e pobre, tendo ao seu lado, no leito viril, o rapaz das suas esperanças, soluçou desabaladamente.
Da sombra veio um esguicho trêmulo de choro. Ela tomou-o numa carinhosa dificuldade. Pôs-lhe o seio branco na boca invisível. Queria amamentá-lo, ela mesmo, com o seu sangue materno.
Ele calara-se de bracinhos duros num casaco de crochet azul, a touca enorme de Seu Julinho tapando-lhe os olhos.
E ficaram ali, à luz pequena da lamparina, escondidos do mundo que rodava lá fora aos cachões.
*-*-*-*-*
João vinha numa tristura. Casmurrava no quarto.
A chegada intempestiva do outro, o que dormia quieto, desvalorizara-o, perdera-o.
A mãe era só inquietações e desvelos, cuidados e narrativas. O pequeno de vinte dias tinha uma vida anedótica capaz de bibliotecas. Era inteligente, era belo, era rei.
*-*-*-*-*
O telegrafista forçava um interesse hipócrita, ria um riso caceteado, dizia asneiras melancólicas, numa acentuada incompetência de amabilidades.
Ela um dia, percebendo, insultou-o. Ele saiu, entontecido de angústia nova, pelas ruas hostis.
Agora que, libertada, podia ser sua, somente sua, Alma emperrava numa santificação excessiva, irritante, da criança aplásmica, dos seus gritos moles, dos seus olhares inertes.
*-*-*-*-*
De fato, ela ficava só com o seu reizinho, com o seu príncipe, com o seu valete de copas.
Todas as histórias de fadas eram verdadeiras, todas as maravilhas eram possíveis. Ele estava ali, na caminha viril. Ela achegava-se cautelosamente. Uma respiração flébil vinha da penumbra, de sob as cobertas. Lágrimas gratas subiam-lhe aos olhos enternecidos e bons.
*-*-*-*-*
E um asco aumentara pelo telegrafista. Oh! os homens! Ela conhecia-os bem! Tinha assistido, na sua crucificação, ao desfile em pelo de todos os exemplares. Diante dela, haviam-se desabotoado, numa confissão de torpezas, professores da cidade, chefes de confrarias, zeladores de hospitais, grandes nomes, representativos da moral citadina, da educação, da finança e da família.
*-*-*-*-*
Uma salpingo-ovarite ficara vigilante no ventre dolorido – do parto malfeito, da vida sexual irregulada e criminosa. D. Genoveva acudia-lhe as crises, com toalhas ensopadas em água-fria. E indicou-lhe cascarina sagrada.
*-*-*-*-*
Como nesse dia, ele, o seu filho, completasse quatro meses, quatro magros meses, em que o esqueletinho persistia em esticar a pele morena do tronco, e não houvesse dinheiro para comprar uma chupeta nova, ela fez flutuar sobre a caminha pendente de um fio, como uma bandeira, um rico trapo vermelho.
*-*-*-*-*
Mas a amamentação fora-se tornando mais e mais insuficiente. Num ridículo heroísmo, Alma rachara os seios sobre a boquinha ávida e chorosa.
Era um drama diário e obscuro, com sangue vazado e lágrimas rolando. Consolava tudo um pequenino sorriso desdentado, no escuro do quarto.
D. Genoveva um dia interveio, fez chamar o médico grisalho que lhe dava injeções.
No quarto alvoroçado, puseram Luquinhas nu. O exame foi minucioso, foi terrível.
Os olhos maternos se haviam aflitivamente fixado na esmeralda sábia da mão, que corria as costelas à mostra, apalpava, sentia.
Ameaçava-o uma leucemia perigosa. O tratamento imposto transfigurou, num sobressalto, a casa pacata da rua Aimorés.
João do Carmo não foi mais admitido no quarto. Permanecia horas na sala de jantar, onde fora feliz durante o período da gravidez e sofria lancinantemente a injustiça do seu abandono.
Lá dentro, Alma empolgava-se no rigor clínico das prescrições.
(Continua na próxima semana.)

Sunday, 8 June 2014

Os Condenados: novo capítulo da trilogia de Oswald

op
http://outraspalavras.net/destaques/os-condenados-novo-capitulo-do-trilogia-de-oswald/


Os Condenados: novo capítulo da trilogia de Oswald

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“João palpitava de profundas esperanças. Oh! Se fosse possível tê-la afinal só para ele, mesmo assim, prostituída, desmoralizada, vendida à cidade…”
Por Oswald de Andrade | Imagem: Toulouse Lautrec
No âmbito da série “Oswald60″, “Outras Palavras” publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados
Na sequência anterior, João do Carmo se sente desgraçado por não saber agir diante da nova condição vivida por Alma. A jovem agora se veste com elegância. Numa manhã, no entanto, retorna com o rosto marcado. Mauro recolhe todo o dinheiro arranjado. Os vadios da sociedade chique, os arrivistas comerciais, querem conhecer a desvirginada do bairro distante. Alma espera um filho. Mauro obriga a jovem a realizar um aborto e ela quase morre. Tempos depois, Mauro volta a procurá-la. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60”)
______
Eram sete horas. Ficara no rendez-vous o dia todo e não aceitara ninguém. Tinha fome. No bairro distante, o velho avô havia jantado o seu pequeno jantar, dando de comer ao cachorro.
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*-*-*-*-*
Ela agora não sonhava mais, como em criança, ter um marido, uma casa com criados, bebês de cachos e laços de fita na cintura.
Foi procurar Mauro no bordel da Yvette, para pedir-lhe cinco mil-réis.
*-*-*-*-*
João do Carmo tomara-se de uma suprema inquietação amorosa.
Ante o espelho quadrado que servia para a toilette improvisada dos seus dias, achava-se macerado como um suave peregrino. E repetia fitando Baudelaire:
L’amoureux pantelant, incliné sur sa belle,
A l’air d’un moribond caressant son tombeau
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Quando percebia Alma, num procurado encontro, sentia cem trombones funerários tocarem-lhe aos ouvidos escancarados. Tinha um sincero pasmo pela coragem lendária de Otelo. Se fizesse um fim de drama como ele!
Vinha-lhe uma sensação de frio no peito. Queimavam-se-lhe as pernas. Tinha uma dor física de cicatriz aberta no coração. Lágrimas corriam à-toa e brutalidades estrangulavam-se-lhe nos punhos.
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Alma trouxera um charuto havano para o velho Lucas. Mauro tomou-o.
E o telegrafista abordou-a resolutamente de novo, numa áurea tarde do bairro populoso.
*-*-*-*-*
Dagoberto Lessa, andando com João, encontrara-a de vestido ligeiro, sapatos de pelica branca, num canotier insolente e manifestara por ela um culto apaixonado e cínico.
De modo que não fora difícil, para o namorado, tê-lo por conviva no festim de imaginação que se oferecia continuadamente, com um possível futuro, fulvo e ridente, onde entrava resignado o necessário de pouca vergonha. O grande assunto de ambos era ela. João mentia ao outro, desviando para horizontes líricos, a história da sua perdição. Repetia-lhe os antigos diálogos. E contava-lhe como amava apesar de tudo, animando o deserto noturno dos viadutos.
*-*-*-*-*
O velho esperava que a neta viesse. Ela prometera assistir à entrada do Ano Novo, em casa, diante das imagens antigas acompanhando o terço, como nos anos passados.
Num cortiço vizinho, haviam improvisado uma orquestra de negros.
O avô, tendo o cão deitado ali, rezou sozinho o rosário precatório, com o moleque de olhos brancos, escutando, ante uma vela vacilante.
Na cidade extensa, as fábricas anunciaram sonoramente que a crosta velha do ano se despegava da terra juvenil. Os mil apitos cantaram, cantaram. O velho imprecava, o moleque respondia devagar, o cão adormecera da melopéia religiosa.
São José, de dentro do velho oratório, olhava impassível, tendo o menino ao colo – o mundo simplificado em azul nas mãos polpudas, com uma cruz em cima.
Lá fora, tocava a orquestra melancólica de negros.
*-*-*-*-*
Alma ficara tomando champagne na casa de D. Rosaura. Saiu à-toa pelas ruas encantadas de movimento noturno.
Na esperança do ano melhor, um bar do Triângulo atravancava-se de gente feliz. Ela sentou-se a uma mesa esquiva.
Ficou diante de um cálice, ouvindo a música emocional, na noite ruidosa.
A seu lado, em outra mesa, um moço sórdido discutia com um velho pontiagudo, de olhos canalhas. Súbito, o velho piscou para ela.
A madrugada citadina escoava-se. Foi para casa num táxi. Encontrou tudo escuro e fechado.
*-*-*-*-*
– O Lobão é uma vela apagada no altar da inteligência humana.
João do Carmo desfranziu a carranca sentimental, sorriu. Estavam na confusão ruidosa da noite de janeiro de uma taverna central.
Sob as luzes espirradas, Dagoberto Lessa parecia mais calvo no contraste dos pontudos bigodes ruivos. Valorizava-o um imperturbável ar sério.
E, de dentro de João, vinha por vezes uma insensata vontade de acariciá-lo.
– O Lobão, o Teles Aguilar e o Pinto Pé de Anjo recusaram-se a subir ao segundo andar da inteligência humana. Têm medo de que desabe o elevador.
garçon achegara-se, com o guardanapo sob o braço de alpaca, num grande aspecto afarado.
– Cognac! – gritou o desiludido. — E você?
– Kirsch… para evocar.
– Outro dia, reli o Jardin d’Epicure e quebrei a caneta. Prefiro escrever um volume sobre estrumes humanos. Imagine você se eu escrevesse um livro como esse! A res-pon-sa-bi-li-da-de! Que seria de meus filhos? Você sabe que tenho cinqüenta.
Houve um silêncio, no barulho. E o homem continuou:
– Nasci para fazer a grande arte, mas resolvi fazer a pequena. Vou só responder aenquêtes.
Emborcaram cálice sobre cálice e o palrador chegou ao caminho ensombrado das confidências.
– O triste, o trágico de tudo é que me casei por amor! Tinha vinte anos e prendi-me pelos primeiros olhos que me chamaram a atenção, sem indagar se eles diziam: “somos inteligentes”, “somos compassivos”, “somos idiotas”. A criatura era pobre como o Lobão. E quando pretendi tirar-lhe faíscas da alma, nada! Escuro como o cérebro de um tenente de cavalaria.
E depois de um tempo, consolando-se:
– Enfim essa história do meu casamento foi imbecil, mas foi de artista, de grande artista, foi que nem a história de Jean-Sébastien Bach.
Esvaziou mais um cálice de um trago e sorriu com um sorriso físico de músculos relaxados. E como recrudescesse em torno a balbúrdia do bar, largou da boca um insulto grosseiro e coletivo. Depois, fitando no outro os grandes olhos sérios:
– João, aqui nesta sala há cinquenta homens, quarenta e nove são infames! O que resta sou eu ou é você…
Voltou ao casamento, discutiu mulheres e, de repente, lembrou-se de Alma.
– Essa sim! É a única! Se fosse comigo… Do tesouro de Creso que tens, tiras duzentos-réis e te contentas! Eu me extremaria, me arruinaria. Porque aceito tudo, o trágico e o cômico, com dignidade. Desejo, em amor, apenas isto – o sacrifício integral do meu próprio indivíduo. Imagina, João, fazer chorar sobre o meu desastre todos: os empregados dos bancos e das confeitarias, as senhoras caseiras e as horizontais…
Diante do outro que se crucificava na cadeira, o calvo prosseguiu, às braçadas, o seu sermão de lágrimas.
*-*-*-*-*
– Estou grávida, sim…
Ela estacara com o tapa teso, as duas mãos mantendo as têmporas, chamejante e imóvel.
– Esta cabeça que já é tão dolorida!
Depois, crescendo, transfigurada:
– Estúpido! Gritarei até vir gente! Gritarei…
O cáften saltou, derrubou-a, quis pôr-lhe um pé no ventre importuno. Ela debatia-se. Largou-a desmantelada e foi-se.
*-*-*-*-*
Permaneceu até tarde naquele quarto claro de D. Rosaura. Queria ter o seu filho, fosse como fosse. Viu ao espelho o rosto machucado, sob a raiva cabeleira, dispersa e mal junta, o olhar enfaixado no luto das olheiras.
Deitou-se humildemente. E de súbito, no escuro, acendeu-se a entrada luminosa da pensão da Odete. Mauro já estaria chegando lá. As outras estariam correndo para ele, como pavões, aos gritos…
*-*-*-*-*
No fundo nunca analisado de João do Carmo, uma honestidade engrossava, como o rio nas enchentes.
Por aquele fim morno de dia, ele tinha-a afinal ali, no seu quarto de telegrafista, abrindo a janela única para a paisagem medíocre de quintais, que o perturbava.
Ela viera com ele, num saltitar ligeiro de tacões, a gostosa nudez apenas disfarçada pela saia preta e pela blusa de seda.
Numa sinceridade de confiança, acolhera-se na cama, ao lado dele, a cabeça vermelha recostada ao seu largo peito atlético que fremia. E contava-lhe histórias da vida.
– Conheces Camila Maia? Esteve lá em casa hoje, outra vez. É uma criatura alegre, esperta. Mas não tem cabeça, arranjou um filho. O filho foi para Tremembé. Esteve lá em casa, desde o meio-dia.
Depois, refletindo:
– É verdade o que você me disse? Que vai para o Rio? Não, você não pode me deixar. Eu não tenho ninguém…
Debatia-se, num carinho pedinte. O peito do moço arfava. Ele vencera, afinal, de tanta esperança, a dolorosa partida. E num confuso labirinto de sensações e raciocínios, não sabia crer.
– Eu gosto tanto de você! – murmurava Alma, quase chorosa. – Não quero que você vá…
Vinham à cabeça de João madrigais inúteis. Ele não sabia tê-la ali, como um bom macho. Rimava obscuramente o seu amor triunfal. E ela, na sua cabeça tonta de ouro ruivo, ia pensando que faria com ele a burrada definitiva. Ele era bom e não a deixaria nunca mais.
Um sentimento recuado para as reservas mais longínquas do seu ser de menina, vinha enternecer-lhe os gestos leves. Ela enroscava-se toda no homem forte e bom.
– Você conhece aquele?
Alma levantou a cabeça surpresa, olhou: João mostrava a fotografia arrancada do livro que se suspendia a um prego, na parede sobre o leito.
– É Baudelaire.
– Seu amigo?
– Não. Um poeta. Um grande poeta…
– Parece um padre.
– Você sabe francês?
– Um pouco.
Ele ficou numa lástima vexada, certo de que um soneto de Baudelaire, cantado pela sua voz cava, resolveria, melhor que tudo, a hora tentadora.
Ela estava ali, ela, ao seu lado, no seu quarto. E como parecia diferente desse mesmo ser, que o obcecava a ponto de acompanhá-lo em todas as silhuetas esbeltas, que passavam nas ruas agitadas. Era ela, a que ele sonhava ter diante do clube aquático, numa incontida vaidade de noivo gigolô, por um ocaso sobre a Ponte Grande, quando o sol líquido nadasse, ao ritmo de um barco que os seus braços levariam…
 Car j’eusse avec ferveur baisé ton noble corps…
Ficara quieto, esperando. Ela perguntou-lhe com olhos
cortantes, se estava caçoando.
– Ora essa! que ideia…
Uma frieza passara entre os dois corpos. Alma deu um pulo do leito, voltou-se para um canto, subiu a seda frouxa das meias.
– Preciso ir, vamos?
Ele refizera-se todo já pronto, cavalheiresco e sólido, disposto a acompanhá-la, a obedecer-lhe, a morrer por ela.
E foram em silêncio, baudelairianamente, pelas ruas geladas.
*-*-*-*-*
O velho Lucas queria liquidar o seu antigo débito hipotecário da Lapa.
Os homens da Companhia de Desenvolvimento tomar-lhe-iam as duas casinhas que lhe rendiam a vida.
Tirou do guarda-roupa um velho fraque, vestiu-o. Estava com as mangas curtas, teve a impressão de que crescera. E ficou ali, sem ânimo de sair, festivamente vestido.
*-*-*-*-*
Pela manhã, vinha-lhe aquela aguaceira áspera, amarga e inútil à boca salivosa.
O avô não desconfiava de nada. Se pudesse dormir sempre, sempre. Mas o sono fugia-lhe num galope como a vida. Fazia imensas madrugadas nulas. E uma suave angústia tinha-se lentamente obstinado no seu antigo peito calmo.
Alma gelava-se toda ao imaginar que ele viria, mais dia menos dia, a saber.
O pretexto de encontrar-se com Mauro a tinha salvo até aí. Mas o cáften havia de deixá-la também.
Foi numa loucura, que ela começou a autorizar o telegrafista a definitivos compromissos. Agora, todas as noites, era ele, como Mauro antigamente, quem passava a horas certas. Fiel, humilde, como quem nada espera e nada merece, falhava só nos dias de plantão.
O moleque, espionando do balcão, dizia à ruiva cabeça inquieta que o Carlito estava na venda da esquina.
De modo a ser um irreprimível sorriso a saudação de início, quando ela descia.
Punham-se a falar de tudo. A vizinhança não notava mais, como outrora. Forçada a todos os cinismos, Alma soubera penetrar em casa da mulher de frente, do lojista, da vizinha do sobrado. Resistia-lhe, ao lado, um funcionário magro, de bigodes baixos que se chamava Quincas e tinha encardidas filhas curiosas.
– Sabes? Camila deixou o Matos…
– Ele não era correto?
– Corretíssimo. Não há homem como aquele! Mas a paixão dela agora são os meninos do Mackenzie. Está farta das roupas e das jóias que o Matos lhe deu…
João sentiu um vexame de não lhe poder oferecer também aquilo. Se ela quisesse compreender-lhe o tesouro de amor. Esse era seu, fora sempre seu…
Perguntou-lhe despeitadamente por Mauro que deixara de aparecer. Se não voltasse nunca mais… se morresse…
João palpitava de profundas esperanças. Oh! Se fosse possível tê-la afinal só para ele, mesmo assim, prostituída, desmoralizada, vendida à cidade…
*-*-*-*-*
Ao encontro dos seus inconfessados desejos ela veio uma noite, tímida, suave, transfigurada.
A sua vida não tinha sido como diziam: ela não era a debochada que pensavam.
Na sombra tropical, sob o peso lascivo dos jasmins, rescendia-lhe o corpo claro aYvonette.
E o coração do homem bom badalava que sim, que ela não era a debochada que queriam: era santa, era santa, era santa!
*-*-*-*-*
Foi assim que João veio a saber da relação romantizada do dia a dia pobre daquela vida, que devia ter sido salva pelos seus braços musculosos.
Ele tinha acompanhado de pressentimentos inertes o demorado martírio.
E por que não interviera antes, não gritara à polícia, aos que passavam, à vigilante inquisição terrena? Por que?
Entanto, Mauro aparecia, naquele romance, santificado. Nem uma queixa raivosa contra ele, nem uma dor magoada contra os seus processos terrificantes, nem um insulto.
Uma vez, exigiu que ela dissesse mal dele.
E Alma recusou-se, estagnada, no jardim.
Ele partiu, gesticulante, pelas ruas do bairro. Passou, de novo, meia hora depois. Ela havia ficado sentada aos degraus da entrada, pensando. Quando percebeu a silhueta longa, sob o chapéu-de-palha, correu nos tacões, gritou. Ele veio. Ela estava disposta a dizer todo o mal insincero de Mauro, para que a salvassem da final cólera do velho… Mas o passeio, o ar da noite, o tropel das reflexões e o amor o tinham dissuadido suavemente. Ele não pediu mais nada. Ficaram até tarde amorosamente se perdoando.
*-*-*-*-*
Alma tomou nas duas mãos, que tinha grudadas às grades, a resolução sobre-humana de explicar-lhe tudo. E ele não compreendia, embevecido no idílio em que se lhe apodrecia beneficamente a vida.
Como ela lhe tivesse telefonado para o emprego, interpelou-a chegando. Alma sorria numa malícia visível e triste.
Ele ficou supondo que se tratasse de uma reaparição intempestiva de Mauro, de um retorno amoroso ao velho par.
Mas, súbito, a um gesto largado e proposital dela, percebeu o ventre saltar, como uma cobra que morde, na roda frouxa do vestido. Uma suspeita enlouqueceu-o. Seria possível… ele andava tão longe!
Interrogou-a empalidecido como um morto que falasse. Ela permaneceu linda e quieta, de cílios baixados.
*-*-*-*-*
Era verdade! Alma estava grávida, agora que o amava, que era o seu futuro, quase que a sua noiva redimida! Estava grávida de outro.
Tão visível fora a expressão de horror na máscara do moço namorado, que Alma, de alvas escancaradas, falou num salvador instinto:
– Sei que sou indigna do teu amor. Sou uma infame.
Ele partira sem dizer nada. Fora andando. Ela ficara presa ao portão, numa resignada e trêmula angústia. Sorria da sua negra sorte invencida.
*-*-*-*-*
Ele caminhava sobre as ruínas do seu sonho desfeito. Todos os seus gestos eram desencontrados e pediam piedade para o alto. Oh! a idéia fixa de jogar um dramalhão definitivo – matá-la e matar-se, encher de sangue os jornais!
Recapitulou tudo pela noite aasvérica. Deitou-se às três horas raciocinando sempre, de olhos enormes. Chegara à porta infernal de um dilema: o amor perdoa tudo, resgata tudo – ele não podia perdoar.
E caiu ao leito antigo e duro, até o sol vir a espancar o pesadelo da terra.
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Dagoberto Lessa fechara com ele a camaradagem diária.
Andavam ao léu pela cidade, ou paravam no escuro ambiente das cervejarias do centro.
Uma noite, João do Carmo penetrou, sob a capa de borracha inundada de chuva, na casa que o outro habitava, com a família numerosa, 46 Rua Monsenhor Anacleto.
Resolvera contar-lhe tudo, pedir-lhe conselho, direção, auxílio, salvamento.
Num pijama de listras, o calvo ria-se muito de o ver assim, naquela primeira visita, vindo nervosamente a pé, sob o aguaceiro que lavava as ruas.
João atirou a capa encharcada ao chão. Sentou-se e desabafou.
Do quarto vizinho, a liturgia da casa vinha num vago trá-lá-lá de adormecer.
O apaixonado, falou, falou, até despejar a alma intumescida de segredo. E perguntava repetidamente, de olhos fixos, se ainda devia crer na honestidade dela.
O outro distraíra-se, pensando. De repente, abriu uma canta que se dissimulava entre livros e tirando um caderno branco:
– Vou corresponder à tua confiança.
Tinha um aspecto de revelação. Numa cautela, abriu um maço de páginas escritas, acendeu um cigarro:
– É uma coroa de lembranças tecidas no aniversário de um primeiro beijo…
E, de olhos medrosos para a porta interior, leu soturnamente, evocando uma luta, uma resistência, uma cabeleira virginal e um vestido branco.
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Não queria ir. Mas cedeu.
Foram passar juntos o dia 13 de Maio, em Santos. Dagoberto recitou versos, depois do almoço, na praia de sol.
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O comboio saiu lentamente da penumbra da gare. João do Carmo fechou a vidraça e atirou-se ao lado do companheiro no sofá do carro.
Deixavam Santos pela extensa chapa de vegetação rasteira, que a circunda. Passaram o pântano tropical e a ponte de ferro sobre a água cor-de-aço. E o trem abalou em demanda da serra, que se calafetava de neblina no fim da tarde de outono.
João tocava, no fundo de um bolso, o lencinho rendado de Alma, em que, na véspera, ela pusera o grande beijo mudo da despedida. E apertava-o na mão segurando nele a dádiva inteira do ser estremecido.
Tinha regressado ao portão e sentira que uma espécie de compromisso oculto, de trevoso noivado, desafiara e vencera o enxovalhamento máximo. Agora, tudo predizia a aliança imortal dos dois desgraçados destinos.
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Sim, ele podia crer no amor definitivo de Alma. Ela tivera duas lágrimas silentes ao vê-lo voltar. E na véspera, naquele ermo da rua, ao contar que ia a Santos, a sua angústia nervosa crescera de ver os belos olhos verdes e magoados dizerem a tristeza indizível das separações.
O trem parou em Piassaguera. E, mais lento manobrou para apanhar a engrenagem da rude escalada. Na noite que baixava, envolvendo a natureza, olhos claros de locomotiva focavam trechos de chão, sob os limpa-trilhos negros, de onde saíam até perder-se no escuro as fitas afiadas dos rails. E, de longe em longe, sucediam-se as luzes baças dos sinais.
Um barulho rascante de rodas começou, ao mesmo tempo que o trem era levantado molemente na primeira ladeira da serra.
Alma contara-lhe apreensiva que tinha notado uma acentuação de mau humor no velho. Que iria suceder? Era impossível casarem-se logo. João afastava essa ideia para um futuro longínquo, como as grandes redenções dos últimos atos. E o avô? Havia de saber mesmo a verdade inteira. Mas a possibilidade de precipitar-se a catástrofe de uma expulsão era visível.
As rodas cantavam, levando o trem montanha acima. Às vezes, havia uma imprevista parada na noite avassalante. E ficavam ali os passageiros, sentindo subitamente morta a gigantesca engrenagem. Mas um outro troço de vagões iluminados passava no sentido contrário. E recomeçava a lenta viagem.
Alma amava-o, sim. A notícia da separação ligeira de um dia tivera como ilustração deliciosa a reconciliação truncada pelo sentimento do abandono. Agora, quando chegasse, ainda passaria por lá.
De novo o trem parou ao lado de uma usina caída sob a linha. O fôlego robusto de um respiradouro soprou, fazendo montar na treva golfadas brancas de fumaça. E, de novo, o comboio moveu-se.
Passaram a noite dupla dos túneis. E as primeiras luzes do Alto da Serra anunciaram-se com a mudança favorável de nível. Passageiros levantavam-se, falando em jantar. Ao lado de João, Dagoberto olhava-o, dizendo:
Que silêncio!
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Um asco voltava no entanto, fundo, avassalador, horrível. João queria ainda repeli-la, desresponsabilizar-se daquilo tudo, fugir. Mas ao vê-la nas noites prolongadas do portão, chorosa e entregue, o seu triste coração centuplicava-lhe os perdidos gestos.
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O avô mudara lentamente, num prenúncio de crise tétrica.
Esperava a entrada das estações num incontido nervoso.
A Companhia de Desenvolvimento anunciou-lhe, numa bela carta escrita a máquina, que não reformaria a hipoteca vencida. O cãozinho peludo quase perdera a vista.
Passou a fumar decuplicadamente, em silêncio. Se fosse possível embriagar-se ou então morrer, acabar! Pensou uma noite em atirar-se da Ponte Grande. A neta, havia de ir buscar o seu velho cadáver, encalhado numa margem do Tietê… E os jornais falariam bem dela.
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Mauro, depois de uma escandalosa briga de cabaré, fora denunciado à polícia.
E João do Carmo ansiava pelo desenlace esperado do drama lancinante de seu sonho.
Uma noite, Alma evocou-o numa suave lembrança. Então, num despeito, João mentiu que ele fora preso.
Ela teve um repentino espanto. Depois, deixou as grades e um choro rebentou-lhe pelos olhos, pela boca, pelo nariz. Buscou um lenço nervosamente na abertura clara dos seios. E ficou soluçando baixo entre os canteiros.
João estacara numa surpresa desolada e muda. Conversaram ainda, quase hostis, numa ternura que soava falso e vazio.
E o telegrafista foi visitar de novo os cem caminhos doloridos da cidade.
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O velho ficou à espera da neta, no paletó remendado, até dez e meia daquela noite, sem se deitar.
Pressentia lá fora o idílio. Não iria desmanchá-lo, recordando um insulto, que levara no rosto, do outro: o maldito, o casado, o aranha vermelha.
Aquela casa que ainda palpitava das recordações da esposa santificada pela morte, aquela casa fora o teatro da sua revoltante desonra. Alma era indigna do seu obstinado amor. Antes a tivesse abandonado à gula ricaça de Antero d’Alvelos.
A porta da entrada rangeu. Alma penetrara num vento sutil. Percebeu, surpreendida, que estavam acesas as luzes. Ouvira um arrastar precipitado de chinelas. Estagnara geladamente na passadeira do corredor. O espectro doméstico apareceu. Chamou-a sem voz. A cabeça tremia-lhe incontidamente. Apertava um cigarro apagado na mão.
Alma tinha os olhos redondos, a boca imóvel. Uma inexprimível tortura sufocava-a, no vestido humilde e antigo.
O velho descobrira decerto tudo. E ia falar-lhe, dizer-lhe o crime horrendo, o crime de ter um filhinho. Porque o seu passado torpe desaparecera: a prostituição, o aborto, a vida canalha entre braços desconhecidos que pagavam. O crime era ser solteira e deixar viver no seu âmago a centelha humana, e defendê-la, e amá-la.
– Vá para a rua! Procure caminho! Esta casa é minha, sempre foi minha. Faça a sua mala e desapareça! A casa é minha!
Então, do peito que se oprimira espedaçado, saltou a inocência de tanta miséria. Ela era uma coitada que ninguém soubera defender. O que lhe acontecera era o resultado do seu desamparo. As filhas que não têm mãe nem pai são assim mesmo.
O velho quis discutir, gritar. Mas como ela continuasse, ficou escutando: Baixou a cabeça ante a eloquência imprevista que pulava aos golfões da boca trêmula e rubra. Terminara.
Houve um silêncio. E ela disse ainda que não sabia, porque não tinha dinheiro e não tinha onde dormir.
Do ser convulso as lágrimas saltaram naquela confissão de desgraça. O velho desnorteara-se choroso. Talvez devesse perdoar. Ficou andando para cá e para lá, envenenando-se de fumo e de lágrimas grossas, enquanto ela foi sentidamente se deitar.
(Continua na próxima semana.)