Wednesday, 9 January 2013

flores do pantanal

flores pantaneiras
autoria: mimi sato
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mimi: Pantanal flower, April-2011

Marco Civil da Internet: a disputa pela rede

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/marco-civil-da-internet-a-disputa-pela-rede-entrevista-especial-com-sergio-amadeu/516826-marco-civil-da-internet-a-disputa-pela-rede-entrevista-especial-com-sergio-amadeu


Marco Civil da Internet: a disputa pela rede. Entrevista especial com Sérgio Amadeu

“As teles querem fazer com a internet o que acontece com a televisão a cabo. Além de pagar diferenciadamente, querem oferecer pacotes premium, ou seja, para acessar determinadas aplicações, você terá de pagar mais”, alerta o sociólogo.

Confira a entrevista.
 

“As empresas de telecomunicações que atuam no Brasil, diferentemente de suas matrizes em outros países, não postulam abertamente contra a neutralidade da rede. Elas lutam para quebrar a neutralidade na regulação das exceções”. A observação é do sociólogo Sérgio Amadeu (foto), que acompanhou a elaboração do Marco Civil da Internet. Ele critica as alterações feitas no texto em relação à neutralidade na rede, assim como a medida que permite retirar um conteúdo da internet sem ordem judicial. Na avaliação dele, as alterações – no artigo 15 e no parágrafo 1o do artigo 9º do Marco Civil – sinalizam a influência política das empresas de telecomunicações e copyright no Brasil. “Uma quer controlar os fluxos de informação, e a outra não quer reconhecer que uma prática corriqueira das pessoas na internet é o compartilhamento de arquivos digitais”, assinala em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Para ele, as teles querem “transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo. Acham que, por controlarem os cabos, por estarem em uma situação estratégica de controle da infraestrutura da sociedade da informação, podem controlar os fluxos”. E dispara: “Quando a operadora tiver poder de filtrar o tráfego e dizer que tipo de conteúdo poderá passar nesses cabos, ou qual será a velocidade de determinado pacote de informação de uma empresa, quer dizer, quando ela puder pedagiar o ciberespaço, irá matar a criatividade da internet”.

Caso o Marco Civil seja aprovado, adverte, as pessoas jamais poderão “se conectar à internet sem ser através de uma operadora de telecom. (...) As operadoras querem poder arquivar os IPs que acessamos, os sites que visitamos, para poder depois, com esse banco de dados, fazer dinheiro, fazer negócio”.

Sérgio Amadeu, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo – USP, participou da implementação dos Telecentros, na América Latina, e da criação do Comitê de Implementação de Software Livre – CISL. Também foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação – ITI da Casa Civil da Presidência da República. É professor na Universidade Federal do ABC – UFABC. É autor de, entre outros, Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento; de Exclusão digital: a miséria na era da informação (São Paulo: Perseu Abramo, 2001); e de Comunicação Digital e a Construção dos Commons: redes virais, espectro aberto e as novas possibilidades de regulação.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – O Projeto de Lei do Marco Civil era considerado avançado, mas o texto foi modificado. Quais as razões de alterar o texto e como avalia as mudanças feitas de última hora no artigo 15, e no parágrafo 1o do artigo 9o que trata da responsabilidade dos provedores em relação aos conteúdos postados? 

Sérgio Amadeu da Silveira
 (foto) – Entre as alterações do texto, duas são muito significativas. A primeira diz respeito à neutralidade da rede. A alteração do texto joga a questão da neutralidade para o governo sem especificar qual órgão do governo fará o controle da internet. Então, obviamente a responsabilidade será da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, que não tem distanciamento para legislar, fiscalizar ou regularizar a respeito das teles, porque tem tido uma prática de atendimento e de ligação muito grande com os interesses das grandes empresas de telecomunicação. Na ideia de neutralidade, quem controla os cabos não pode ter interferência no fluxo de informações nem por IP (protocolo de internet) de origem nem por IP de destino, e por nenhum tipo de aplicação.

As empresas de telecomunicações que atuam no Brasil, diferentemente de suas matrizes em outros países, não postulam abertamente contra a neutralidade da rede. Elas lutam para quebrar a neutralidade na regulação das exceções, onde o Marco Civil determina que só pode haver uma quebra da neutralidade para garantir a qualidade dos serviços numa situação específica, técnica. Então, quando se joga esse debate para a presidência da República, se tem de escutar vários ministérios e a sociedade civil, o que implica se fazer uma interpretação da questão técnica, correndo-se o risco de deixar a questão sob controle da Anatel, onde se poderia quebrar a neutralidade por interesses comerciais, econômicos, políticos, dizendo se tratar de uma questão técnica. 

A segunda grande alteração diz respeito a uma inclusão, no artigo 15, de um mecanismo de retirada de conteúdo sem ordem judicial, quando esse conteúdo for acusado por alguém de violar o direito autoral. O problema todo é que se se permitir que se retire uma foto, um post, um texto da internet, sem uma devida análise técnica de um organismo independente, como é o poder Judiciário, pode-se criar uma censura instantânea. Além disso, pode haver denúncias infundadas e criar uma indústria da denúncia infundada no caso de violação de propriedade intelectual. Imagine, no Maranhão, onde há desafeto político, um provedor que hospeda um post recebendo um pedido de retirada de conteúdo. O provedor não vai querer se confrontar com a lei e irá retirar o conteúdo do ar. Aí se tem a inversão do ônus da prova, ou seja, quem acusa não tem que provar, e aquele que teve o conteúdo retirado do ar terá de recorrer ao Judiciário para publicar novamente o conteúdo. Então, essas duas grandes alterações no Marco Civil são extremamente nefastas.

IHU On-Line – Quais as razões dessas alterações? Por que o Marco Civil contraria os interesses das operadoras de telecomunicações e da indústria do copyright? 

Sérgio Amadeu da Silveira – 
Nós acreditamos que as alterações no texto são fruto de dois grandes lobbies: da indústria de telecomunicações e da indústria de copyright. Uma quer controlar os fluxos de informação, e a outra não quer reconhecer que uma prática corriqueira das pessoas na internet é o compartilhamento de arquivos digitais. A pesquisa do Comitê Gestor da Internet aponta que 52% dos internautas fazem download de músicas, por exemplo. Mas quando se tem uma lei que transforma mais de 30 milhões de pessoas em criminosas, tem que avaliar se a lei deve ser mantida. 

Marco Civil, que era uma das leis mais avançadas do mundo, por causa desses dois aspectos fica comprometido. Uma das mudanças irá comprometer a criatividade, dará um poder descomunal às operadoras de telecom; e a outra, coloca a censura na rede. 

IHU On-Line – Como a alteração do texto vem sendo discutida pelos defensores da neutralidade e pelos órgãos do governo envolvidos nessa questão? Há um retrocesso na discussão acerca da liberdade na internet?

Sérgio Amadeu da Silveira – 
As pessoas que defendiam o Marco Civil tiveram um momento de ingenuidade. Achamos que iria prevalecer o bom senso e não fizemos lobby e pressão, como os outros setores, que reuniram deputados e fizeram ações que nós não fizemos. Iremos retomar as discussões esse ano, e os setores democráticos terão de esclarecer que é inaceitável essa situação. 

Não é o caso de ter havido um retrocesso, mas esses segmentos são muito poderosos e conseguiram ter os seus interlocutores. Os pesquisadores, ativistas, democratas subestimaram o poder dos lobbys da indústria de telecom e da indústria do copyright.

IHU On-Line – Como foi a Reunião da União Internacional de Telecomunicações em Dubai? As discussões da reunião da União Internacional de Telecomunicações têm algum peso no Marco Civil da Internet?

Sérgio Amadeu da Silveira –
 Não poderão influenciar, porque houve uma divergência muito grande na reunião e ficou nítido que a China e demais países autoritários querem impor controles políticos e culturais na internet. Isso é inadmissível. Atendendo a interesses de grandes empresas de telecom, em Dubai aprovou-se uma resolução que foi gestada antes da reunião da União Internacional de Telecomunicações, sobre o DPI, um mecanismo utilizado para poder rastrear o fluxo de informações que passa na rede das operadoras de telecom. Essa inspeção profunda de pacotes de dados mostra claramente que as empresas estão se preparando para quebrar a neutralidade da rede, interferir no fluxo de informação, e privilegiar o tráfego de dados para empresas que fizeram acordos. Então, essa falta de consenso em Dubai, a discussão sobre o DPI, que foi levada às delegações, acabaram prejudicando o setor mais conservador e menos democrático. 

IHU On-Line – Na prática, como se daria a quebra da neutralidade? Qual a proposta das teles?

Sérgio Amadeu da Silveira – 
As teles querem fazer com a internet o que acontece com a televisão a cabo. Além de pagar diferenciadamente, querem oferecer pacotes premium, ou seja, para acessar determinadas aplicações, você terá de pagar mais. Hoje as teles já cobram diferenciadamente pela conexão. Quem tem uma conexão de 1 MB paga menos do quem tem conexão de 10 MB. E a quebra de neutralidade não é a respeito disso, é a respeito do acesso. Quer dizer, para as duas pessoas que têm conexão de 1 e 10 MB poderem acessar vídeos, terão de pagar mais, do contrário, não poderão acessar. As teles querem transformar a internet em uma grande rede de TV a cabo. Acham que, por controlarem os cabos, por estarem em uma situação estratégica de controle da infraestrutura da sociedade da informação, podem controlar os fluxos.

As teles perceberam que dez grandes oligopólios do mundo controlam o fluxo da informação digital – e reparem que tudo está se digitalizando efetivamente. Tirando a comunicação face a face, as demais modalidades de comunicação estão se digitalizando, ou seja, vão utilizar a infraestrutura de teles. Aí tem um embate concreto. Tem de se evitar que esse controle da infraestrutura vire um controle sobre a economia, sobre a política, sobre a cultura. Uma das grandes qualidades da internet é o fato de ela ser uma rede aberta; ela não é propriedade de ninguém, ela permite que as pessoas exerçam sua criatividade, sem a necessidade de permissão de governo, de companhias, de corporações, com exceção dos países autoritários.

Reparem: quando a operadora tiver poder de filtrar o tráfego e dizer que tipo de conteúdo poderá passar nesses cabos, ou qual será a velocidade de determinado pacote de informação de uma empresa, quer dizer, quando ela puder pedagiar o ciberespaço, irá matar a criatividade da internet. Usamos vários protocolos na internet; então, imagine se eu estiver criando um protocolo novo e, na hora de passar na rede da operadora, ela impeça porque tem poucos adeptos a esse protocolo. Para aprovar o protocolo, terei de fazer um acordo com ela. Não podemos permitir que um segmento de telecom, que controla os cabos por onde passa a internet, tenha o poder sobre a internet.

IHU On-Line – Mas a proposta de controle das teles pode se efetivar, considerando a popularidade da internet no mundo?

Sérgio Amadeu da Silveira –
 Sim. As teles podem quebrar essa neutralidade, basta conseguir conjunto de legislações que assegure a elas o poder de filtragem. As pessoas que desconhecem a dinâmica da internet e não foram alertadas aceitarão esse tipo de mudança, e eu temo que precisamos esclarecer as pessoas sobre a liberdade de navegação, interação e liberdade de criação na rede. Se as pessoas forem alertadas disso, será difícil as teles vencerem essa batalha.

Os chamados “inimigos da liberdade” são muito poderosos. Os setores econômicos querem, entre outras coisas, poderem filtrar o nosso tráfego para venderem informações. Outra face dessa discussão é a respeito das operadoras: elas estão mandando ao Congresso Nacional suas reivindicações dizendo o seguinte: “O Google tem muitas informações sobre as pessoas, vendem essas informações e ganham muito dinheiro com isso. Nós, operadoras, também queremos poder guardar informações sobre a navegação dos internautas”. Hoje isso é proibido. Nós revidamos a esse discurso dizendo que ninguém é obrigado a acessar o Google. Entenda bem, eu provo para qualquer pessoa que lê essa entrevista que ela pode navegar um dia todo sem acessar nenhum site ou serviço do grupo Google. Agora, caso o Marco Civil seja aprovado, ela jamais poderá se conectar à internet sem ser através de uma operadora de telecom. São situações muito diferentes. Imagine você: as operadoras querem poder arquivar os IPs que acessamos, os sites que visitamos, para poder, depois, com esse banco de dados fazer dinheiro, fazer negócio. O Marco Civil proíbe isso também em outro artigo. 

IHU On-Line – A tentativa de quebrar a neutralidade da rede tem sido uma tendência mundial?

Sérgio Amadeu da Silveira – 
Tem uma tendência mundial de filtragem de tráfego, de pedágio desse tráfego de dados na internet. Por outro lado, isso tem gerado uma reação mundial em defesa da neutralidade. Nos Estados Unidos há um movimento poderoso que se chama Save the Internet. são milhares de pessoas que lutam pela aprovação de uma lei que garanta a neutralidade da rede, que denuncia a filtragem de tráfego, o bloqueio de pacotes. Por exemplo, a Holanda aprovou uma lei nacional específica em defesa da neutralidade. O parlamento europeu também aprovou uma resolução defendendo a neutralidade da rede. Quem controla a infraestrutura tem que ser neutro em relação ao fluxo de informação que passa por ela. Estamos vivendo um despertar da sociedade civil mundial em defesa da neutralidade da rede, e não o contrário.

Tuesday, 8 January 2013

Estado social, estado providência e de bem-estar

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21456&boletim_id=1479&componente_id=25185


Estado social, estado providência e de bem-estar

O estado social é o resultado de um compromisso histórico entre as classes trabalhadoras e os detentores do capital. Este compromisso foi a resposta a uma dolorosa história recente de guerras destrutivas, lutas sociais violentas e crises econômicas graves. Este modelo de estado e de capitalismo começou a ser atacado a partir dos anos 1970 até a seu cume nos anos 1990 por um modelo alternativo, designado por neoliberalismo. É um ataque ideológico, ainda que disfarçado de uma nova racionalidade econômica. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos.

A designação “estado social” tem várias genealogias. Foi com esta designação que Marcello Caetano tentou rebatizar o Estado Novo. No virar do século XIX para o século XX foi a designação usada pelos socialistas para marcar a forma política do estado que faria a transição para o socialismo. É esta também a designação que consta da Constituição Portuguesa de 1976. Nas ciências sociais, e consoante as filiações teóricas, as designações mais comuns têm sido a de estado-providência ou estado de bem-estar. É tendo em mente estas últimas designações que falo do estado social, um tipo de estado cuja melhor concretização teve lugar nos países europeus mais desenvolvidos depois da segunda guerra mundial. O estado social é o resultado de um compromisso histórico entre as classes trabalhadoras e os detentores do capital. Este compromisso foi a resposta a uma dolorosa história recente de guerras destrutivas, lutas sociais violentas e crises econômicas graves. 

Nos termos desse compromisso ou pacto, os capitalistas renunciam a parte da sua autonomia enquanto proprietários dos fatores de produção (aceitam negociar com os trabalhadores temas que antes lhes pertenciam em exclusividade) e a parte dos seus lucros no curto prazo (aceitam ser mais fortemente tributados), enquanto os trabalhadores renunciam às suas reivindicações mais radicais de subversão da economia capitalista (o socialismo e, para o atingir, a agitação social sem condições face à injustiça da exploração do homem pelo homem). 

Esta dupla renúncia é gerida pelo estado, o que confere a este alguma autonomia em relação aos interesses contraditórios em presença. O estado tutela a negociação coletiva entre o capital e o trabalho (a concertação social) e transforma os recursos financeiros que lhe advêm da tributação do capital privado e dos rendimentos salariais em “capital social”, ou seja, num vasto conjunto de políticas públicas e sociais. As políticas públicas traduzem-se num forte intervencionismo estatal na produção de bens e serviços que aumentam a médio prazo a produtividade do trabalho e a rentabilidade do capital (formação profissional, investigação científica, aeroportos e portos, autoestradas, política industrial e de desenvolvimento regional, parques industriais, telecomunicações, etc., etc.). 

As políticas sociais são as políticas públicas que decorrem dos direitos económicos e sociais dos trabalhadores e dos cidadãos em geral (população ativa efetiva, crianças, jovens, desempregados, idosos, reformados, “domésticas”, produtores autônomos). Traduzem-se em despesas em bens e serviços consumidos pelos cidadãos gratuitamente ou a preços subsidiados: educação, saúde, serviços sociais, habitação, transportes urbanos, atividades culturais, atividades de tempos livres. 

Algumas das políticas sociais envolvem transferências de pagamentos de vária ordem financiados por contribuições dos trabalhadores ou por impostos no âmbito da Segurança Social (bolsas de estudo, abono de família, rendimento social de inserção, pensões, subsídios por doença e por desemprego). As transferências ocorrem, por via da solidariedade social institucionalizada pelo estado, dos mais ricos para os mais pobres, dos empregados para os desempregados, da geração adulta e ativa para as gerações futuras e os reformados, dos saudáveis para os doentes.

O conjunto das políticas públicas e sociais tem uma tripla função. Primeiro, cria condições para o aumento da produtividade que, pela sua natureza ou volume, não podem ser realizadas pelas empresas individuais, abrindo assim o caminho para a socialização dos custos da acumulação capitalista, razão por que a redução dos lucros a curto prazo redundará, no médio prazo, em expansão dos lucros. Segundo, as despesas em capital social aumentam a procura interna de bens e serviços através de investimentos e consumos coletivos e individuais. Terceiro, garante uma expectativa de harmonia social porque assenta na institucionalização (isto é, normalização, desradicalização) dos conflitos entre o capital e o trabalho e porque proporciona uma redistribuição de rendimentos a favor das classes trabalhadoras (salários indiretos) e da população carenciada, fomentando o crescimento das classes médias, em todos criando um interesse na manutenção do sistema de relações, políticas, sociais e económicas que torna possível essa redistribuição. 

Enquanto gestor global deste sistema, o estado assume grande complexidade porque tem de garantir uma articulação estável entre os três princípios de regulação do estado moderno propícios a tensões entre si: o estado, o mercado e a comunidade. A estabilidade exige que o estado tenha certa primazia sem asfixiar o mercado ou a comunidade. Se, por um lado, o estado garante a consolidação do sistema capitalista, por outro lado, obriga os principais atores do sistema a alterarem o seu cálculo estratégico: os empresários são levados a trocar o curto prazo pelo médio prazo e os trabalhadores são levados a trocar um futuro radioso mas muito distante e incerto por um presente e um futuro próximo com alguma dignidade. O estado social assenta, assim, na ideia da compatibilidade (e até complementaridade) entre desenvolvimento econômico e proteção social, entre acumulação de capital e legitimidade social e política de quem a garante; em suma, entre capitalismo e democracia.

Este modelo de estado e de capitalismo começou a ser atacado a partir dos anos 1970 até a seu cume nos anos 1990 por um modelo alternativo, designado por neoliberalismo, que assenta na substituição da primazia do estado pela do mercado na regulação social. É um ataque ideológico, ainda que disfarçado de uma nova racionalidade econômica. São muitas as razões para a crescente agressividade deste ataque, mas todas elas têm em comum o serem fatores que favorecem a transformação da ideologia em pretensa racionalidade. 

Eis algumas delas: o modelo neoliberal está centrado na predominância do capital financeiro (sobre o capital produtivo) e para ele só há curto prazo; ou o médio prazo é, quando muito, alguns minutos mais; com o tempo, os trabalhadores e seus aliados transformaram a opção socialista, de incerta e distante, em opção esquecida, e passaram a aceitar, como vitórias, perdas menores, que só são menores porque vão sendo seguidas por outras maiores; o trabalho assalariado alterou-se profundamente e transformou-se num recurso global, sem que entretanto se tenha criado um mercado globalmente regulado de trabalho; o “compromisso histórico” gerido pelo estado nacional transforma-se num anacronismo quando o próprio estado passa a ser gerido pelo capital global.

O estado social português nasceu em contraciclo, depois da revolução do 25 de Abril de 1974. Em parte por isso, nunca passou de um estado muito pouco ambicioso (quando comparado com os outros estados europeus), um quase-estado-providência, como o designei nos anos 1990, e nunca deixou de depender de uma forte sociedade-providência. Mas, mesmo assim, foi essencial na criação e consolidação da democracia portuguesa da terceira república. É este o sentido da sua consagração constitucional. E porque entre nós a democracia e o estado social nasceram juntos, não é possível garantir a sobrevivência de qualquer deles sem o outro. 

(*) Publicado orginalmente no Diário de Notícias

O melhor do ano em ((o))eco: Rio+20

eco
http://www.oeco.com.br/retrospectiva-2012/26761-o-melhor-do-ano-em-oeco-rio20?utm_source=newsletter_594&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco


Blá, blá, blá, blá, blá. Vamos confessar, foi essa a sensação de cobrir a esperada Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Tirando o desfile de políticos e diplomatas de alta estirpe que passaram pelo Riocentro, local do encontro, o resto foi um tédio. Ao final de uma semana de negociações, os líderes mundiais aprovaram um texto sem ambição e que, em essência, é uma carta de intenções e decisões postergadas. Felizmente, as atividades paralelas ao evento principal foram mais dinâmicas. Abaixo, a nossa seleção de textos para entender a conferência e sua conclusão, as melhores colunas que publicamos sobre ela e fotos que marcaram o evento.

Rio+20: não o fim, mas um novo começo

É legítima a revolta contra os resultados oficiais, mas o encontro também rendeu 700 acordos voluntários que somam 513 bilhões de dólares.
A Rio+20 foi um fracasso? Depende de nós

O texto aprovado foi pouco ambicioso, mas a Rio+20 não pode ser considerada uma derrota, devido às iniciativas e debates que catalizou.
"Humanidade" celebra união como solução para o planeta

Mostra que expressou contrastes, a babel de línguas e a variedade de nacionalidades e etnias atraiu 200 mil pessoas ao Forte de Copacabana.
Plenária da Rio+20 aprova texto sem ambição

Texto difuso transfere para o futuro acordos mais consistentes. A delegação brasileira, líder da negociação, comemorou como vitória.
Os 20 anos entre a ECO92 e a Rio+20: parte I, o processo

Entre as duas conferências que marcaram o Rio de Janeiro, a primeira foi palco de grandes acordos e a segunda indica uma decepção anunciada.
A lista dos melhores sites sobre a conferência

Montamos uma lista com boas fontes brasileiras de informação jornalística e acadêmica sobre o encontro. Confira as nossas dicas.
Os melhores textos para entender a Conferência

Preparamos uma lista de documentos oficiais e dica de livro para ficar por dentro dos debates e histórico do mega encontro.