Tuesday, 4 November 2014

A bandeira da Festa do Senhor Menino – a força da coletividade

A bandeira da Festa do Senhor Menino – a força da coletividade
Relatório de Pesquisa em São Pedro de Joselândia
Lucia Shiguemi Izawa Kawahara
Período: 29/10 a 02/11/2014

O Pantanal vestido de verde recém-brotado cintilava vida e alegria, dando-nos boas vindas em sintonia com o processo de enchente que se iniciou em outubro. A energia contagiante da aproximação do tempo das chuvas  parecia fortalecer os moradores a preparar a terra para o plantio da roça.
Como diz o Sr. Paulo Silva, agricultor de São Pedro de Joselândia:  “é a hora de garantir o ano que vem!”.

Figura 1 Boas vindas do verde molhado em São Pedro de Joselândia
FOTO – Lucia Kawahara

São Pedro de Joselândia é um pequeno distrito de Barão de Melgaço - MT, localizado a 180 quilômetros de distância da capital mato-grossense, formada por um complexo de sete comunidades: São Pedro; Mocambo; Pimenteira; Retiro São Bento; colônia Santa Isabel; Capoeirinha e Lagoa do Algodão com uma população de aproximadamente 2.562 habitantes[1], cercada pelas águas dos rios Cuiabá e São Lourenço.
Além da roça, São Pedro de Joselândia estava preparando também a Festa do Senhor Menino Deus com a saída da bandeira pelos domicílios para arrecadar a esmola que proverá a celebração do dia 24/25 de dezembro.

Figura 2 A bandeira do Senhor Menino em um dos domicílios
FOTO  - Giseli Nora
Segundo os números de uma pesquisa realizada pelo GPEA em 2012[2], a maioria de seus moradores é católica:
Tabela 1 Religião dos Entrevistados em São Pedro de Joselândia
Igreja
%
Católica
86,15
Evangélicos (outras denominações)
6,15
Assembleia de Deus
3,08
Adventista
1,54
Congregação Cristã
1,54
Não tem uma específica
1,54
Fonte: Pesquisa do GPEA realizada em Março de 2012

Os moradores das longínquas terras de São Pedro de Joselândia sustentam devoção, gratidão e fé nos santos que salvaram e salvam seus familiares. A falta de estruturas de saúde, transporte e segurança, além da enorme distância da capital ou das cidades com melhores infraestruturas, marca profundamente o modo de vida de sua comunidade. Um dos costumes locais é a existência de festas ao longo de todo o ano que são realizadas em agradecimento aos milagres alcançados.  
As observações em São Pedro de Joselândia nos reafirmam a convicção de que as festas nesta comunidade fazem parte da estrutura do cotidiano e estão integradas na sua cultura como espaço concreto de construções e fortalecimento das relações sociais. (SANTOS, 2000; ÁGUAS, 2012). Em São Pedro de Joselândia todo mês tem pelo menos uma festa, houve tempo em que mais celebrações eram realizadas por devotos que hoje já são falecidos.

Tabela 9 Lista das Festas Comunidade de São Pedro de Joselândia
Mês
Festa
Dia
Realização
Janeiro
São Sebastião
20
Particular (Pimenteira)
Fevereiro
Carnaval
-
Particular (São Pedro)
Março
São Bento
21
Particular (Pimenteira)
Abril
São Benedito
03
Particular (não faz mais)
Maio
Coração de Maria
-
Só novena sem festa
Junho
São Pedro
29
Comunidade  (São Pedro)
Julho
Sant’Ana
26
Particular (São Pedro)
Agosto
São Roque
16
Particular (não faz mais)
Setembro
“Parelha” corrida de cavalo
07
Comunidade

São Cosme e Damião
25
Particular (São Pedro)
Outubro
Nossa Senhora Aparecida
12
Particular (Pimenteira)
Novembro
Santa Catarina
25
Particular (não faz mais)
Dezembro
Santa Luzia
12
Particular (Pimenteira)

Senhor Menino
25
Comunidade (São Pedro)
Fonte:  Entrevista com os festeiros

Geralmente o festeiro escolhido ou sorteado “tira a bandeira” pedindo as doações, passando nas sete comunidades do complexo.  No dia em que chegamos (29/10) a bandeira estava em Pimenteira. A bandeira passa de casa em casa, anotando a doação prometida numa caderneta que será consultada para a coleta às vésperas da festa. A esmola, como é conhecida o rito em questão, pode ser doações em espécie ou em produtos diversos para a realização da festa santa.

Figura 3 - Festeiro Sr. Jair e a Dona Lucia da última residência entrando na igreja

FOTO - Lucia Kawahara

Os foliões saem com a bandeira para esmolar e distribuem bênçãos de gratidão pela doação por meio da presença da bandeira do Senhor Menino Deus, acompanhada pela reza ou “cantorio” celebrados em cada residência.  A comunidade oferece hospedagem e alimentação para a delegação santa, pois receber a bandeira é uma honra e bênção aos moradores.

Figura 4 Os músicos foliões da delegação da Bandeira de Senhor Menino Deus
FOTO - Lucia Kawahara

Percebemos que os tempos e espaços das festas tradicionais possibilitam o fortalecimento da coletividade, pois pela prática do trabalho comunitário e solidário da organização e realização das festas, observamos o prevalecimento do coletivo sobre o individualismo tão fortemente disseminado nos moldes do mundo capitalista. O aprendizado sobre a importância do trabalho coletivo e nas práticas de aprendizagens que se alcança na celebração comunitária pode desconstruir a lógica meritocrática que visa o ganho pessoal e individual. 

O desafio em questão é o da produção de “espaços de locução” ou “instancias de reflexividade”, que redescobrem os caminhos da desejabilidade e possibilitam uma Política Ambiental. Uma política engajada em processos da (re) construção intencional da organização humana e do futuro em seus diferentes espaços de vida. (FERRARO, JR. & SORRENTINO, 2013, p. 271)

Após passar por todas as sete comunidades, os foliões retornam para a igreja onde são recebidos pelos devotos.

Figura 5 - Recepção da bandeira do Senhor Menino Deus na Igreja
FOTO – Lucia Kawahara

Ultimamente, com o processo da globalização e dissolução das fronteiras, quando tudo parece ser varrido pela universalização dos valores ocidentalizados e modelos ditados pelo capital, existe ao mesmo tempo, um fortalecimento e reconhecimento de diferentes culturas e identidades diversas. Como Stuart Hall registra, há um movimento de valorização das identidades, culturas, subjetividades, das “minorias” e do “multicultural”, vivenciamos uma grata “proliferação subalterna da diferença”:

De fato, há dois processos opostos em funcionamento nas formas contemporâneas de globalização, o que é em si mesmo algo fundamentalmente contraditório. Existem as forças dominantes de homogeneização cultural, [...]. Mas, bem junto a isso estão os processos que vagarosa e sutilmente estão descentrando os modelos ocidentais, levando a uma disseminação da diferença cultural em todo o globo. (HALL, 2009, p. 44).

Tal contexto nos traz o desafio de compreender o panorama educacional para além das relações econômicas e de classes, colocando em xeque as diversas referências curriculares e sociais até hoje suficientes para explicar o nosso mundo. Vivemos tempos de mudanças paradigmáticas, precisamos reconstruir nossos conceitos para além do engessamento moderno.

Entendemos que a compreensão da cultura da Festa nos proporcionou uma vivência de Educação Ambiental Fenomenológica. Testemunhamos o saber da comunidade de São Pedro de Joselândia que, no seu terreno sociocultural, revelou o valoroso conhecimento tradicional tecido com o ambiente em que vivem e, que, atualmente, criam táticas diversas de comunicação e fortalecimento dos elos entre as gerações. Percebemos que as festas são práxis educativas que possibilitam a manutenção e criação de saberes na vivência coletiva, onde cada um experiencia a importância da sua existência e dos outros no contexto ao qual pertence.  Cada um faz história, como pondera Paulo Freire:

Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da História mas seu sujeito igualmente.  (1996, p. 76-77).

A festa permite garantir a experiência subjetiva pelo corpo vivo, leigo e transcendental, onde cada membro tem a possibilidade de criar e recriar na convivência e na negociação no bojo da coletividade. A festa é um espaço sagrado, não por ser religioso, mas também por ser um lugar que possibilita a vivência de integração das relações perdidas ao longo da modernidade: entre o ser humano com a natureza e com eles próprios.  Ela é um espaço de possibilidade de aprendizagem da solidariedade, do cuidar, da partilha do amor. Emprestando as palavras de Brandão: “Sim, uma vida regida pelo primado do amor é possível. E esse amor que nos pode transformar e às nossas vidas é também algo que se aprende a viver.” (2005-a, p.36).
Cuiabá, 04/11/2014





[1] Dados IBGE - Censo 2010. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e estatística. Censo demográfico de 2010. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm. Acessado em 22 de abril de 2013.

[2] Conforme dados do IBGE 2010, a comunidade de São Pedro registra 118 domicílios e o GPEA conseguiu entrevistar 65 residências, perfazendo 60% do universo de pesquisa. Entendemos desta forma, que o levantamento censitário do nosso grupo atingiu uma amostragem expressiva para a compreensão do contexto desta comunidade.  

Monday, 3 November 2014

"Estamos indo direto para o matadouro”, diz Antonio Nobre


01/11/2014

Antonio Donato Nobre é um dos nossos melhores cientistas, pertence ao grupo do IPCC que mede o aquecimento da Terra e um especialista em questões amazônicas. É  mundialmente conhecido como  pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Sustenta que o desmatamento para já, inclusive o permitido por lei sem prejuízo do agronegócio que de vê incorporar fatores novos da falta de água e das secas prolongadas. Enfatiza: ”A agricultura consciente, se soubesse o que a comunidade científica sabe, estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo proteção das florestas e plantando árvores em sua propriedade”. Publicamos aqui sua entrevista aparecida no IHU de 31 de outubro de 2014, dada a urgência do tema e seus efeitos maléficos notados no Sudeste, especialmente na metrópole de São Paulo. Temos que divulgar conhecimentos para assumirmos atitudes corretas e organizarmos nosso desenvolvimento a partir destes dados inegáveis: Lboff

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Eis a entrevista.

Quanto já desmatamos da Amazônia brasileira?

Só de corte raso, nos últimos 40 anos, foram três Estados de São Paulo, duas Alemanhas ou dois Japões. São 184 milhões de campos de futebol, quase um campo por brasileiro. A velocidade do desmatamento na Amazônia, em 40 anos, é de um trator com uma lâmina de três metros se deslocando a 726 km/hora – uma espécie de trator do fim do mundo. A área que foi destruída corresponde a uma estrada de 2 km de largura, da Terra até a Lua. E não estou falando de degradação florestal.

Essa é a “guilhotina de árvores” que o senhor menciona?

Foram destruídas 42 bilhões de árvores em 40 anos, cerca de 3 milhões de árvores por dia, 2.000 árvores por minuto. É o clima que sente cada árvore que é retirada da Amazônia. O desmatamento sem limite encontrou no clima um juiz que conta árvores, não esquece e não perdoa.

O sr. pode explicar?

Os cientistas que estudam a Amazônia estão preocupados com a percepção de que a floresta é potente e realmente condiciona o clima. É uma usina de serviços ambientais. Ela está sendo desmatada e o clima vai mudar.

A mudança climática…

A mudança climática já chegou. Não é mais previsão de modelo, é observação de noticiário. Os céticos do clima conseguiram uma vitória acachapante, fizeram com que governos não acreditassem mais no aquecimento global. As emissões aumentaram muito e o sistema climático planetário está entrando em falência como previsto, só que mais rápido.

No estudo o sr. relaciona destruição da floresta e clima?

A literatura é abundante, há milhares de artigos escritos, mais de duas dúzias de projetos grandes sendo feitos na Amazônia, com dezenas de cientistas. Li mais de 200 artigos em quatro meses. Nesse estudo quis esclarecer conexões, porque esta discussão é fragmentada. “Temos que desenvolver o agronegócio. Mas e a floresta? Ah, floresta não é assunto meu”. Cada um está envolvido naquilo que faz e a fragmentação tem sido mortal para os interesses da humanidade. Quando fiz a síntese destes estudos, eu me assombrei com a gravidade da situação.

Qual é a situação?

A situação é de realidade, não mais de previsões. No arco do desmatamento, por exemplo, o clima já mudou. Lá está aumentando a duração da estação seca e diminuindo a duração e volume de chuva. Agricultores do Mato Grosso tiveram que adiar o plantio da soja porque a chuva não chegou. Ano após ano, na região leste e sul da Amazônia, isso está ocorrendo. A seca de 2005 foi a mais forte em cem anos. Cinco anos depois teve a de 2010, mais forte que a de 2005. O efeito externo sobre a Amazônia já é realidade. O sistema está ficando em desarranjo.

A seca em São Paulo se relaciona com mudança do clima?

Pegue o noticiário: o que está acontecendo na Califórnia, na América Central, em partes da Colômbia? É mundial. Alguém pode dizer – é mundial, então não tem nada a ver com a Amazônia. É aí que está a incompreensão em relação à mudança climática: tem tudo a ver com o que temos feito no planeta, principalmente a destruição de florestas. A consequência não é só em relação ao CO2 que sai, mas a destruição de floresta destrói o sistema de condicionamento climático local. E isso, com as flutuações planetárias da mudança do clima, faz com que não tenhamos nenhuma almofada.

Almofada?

A floresta é um seguro, um sistema de proteção, uma poupança. Se aparece uma coisa imprevista e você tem algum dinheiro guardado, você se vira. É o que está acontecendo agora, não sentimos antes os efeitos da destruição de 500 anos da Mata Atlântica, porque tínhamos a “costa quente” da Amazônia. A sombra úmida da floresta amazônica não permitia que sentíssemos os efeitos da destruição das florestas locais.

O Sr. fala em tapete tecnológico da Amazônia. O que é?

Eu queria mostrar o que significa aquela floresta. Até eucalipto tem mais valor que floresta nativa. Se olharmos no microscópio, a floresta é a hiper abundância de seres vivos e qualquer ser vivo supera toda a tecnologia humana somada. O tapete tecnológico da Amazônia é essa assembleia fantástica de seres vivos que operam no nível de átomos e moléculas, regulando o fluxo de substâncias e de energia e controlando o clima.

O Sr. fala em cinco segredos da Amazônia. Quais são?

O primeiro é o transporte de umidade continente adentro. O oceano é a fonte primordial de toda a água. Evapora, o sal fica no oceano, o vento empurra o vapor que sobe e entra nos continentes. Na América do Sul, entra 3.000 km na direção dos Andes com umidade total. O segredo? Os gêiseres da floresta.

Gêiseres da floresta?

É uma metáfora. Uma árvore grande da Amazônia, com dez metros de raio de copa, coloca mais de mil litros de água em um dia, pela transpiração. Fizemos a conta para a bacia Amazônica toda, que tem 5,5 milhões de km2: saem desses gêiseres de madeira 20 bilhões de toneladas de água diárias. O rio Amazonas, o maior rio da Terra, que joga 20% de toda a água doce nos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia. Esse fluxo de vapor que sai das árvores da floresta é maior que o Amazonas. Esse ar que vai progredindo para dentro do continente vai recebendo o fluxo de vapor da transpiração das árvores e se mantém úmido, e, portanto, com capacidade de fazer chover. Essa é uma característica das florestas.

É o que faz falta em São Paulo?

Sim, porque aqui acabamos com a Mata Atlântica, não temos mais floresta.

Qual o segundo segredo?

Chove muito na Amazônia e o ar é muito limpo, como nos oceanos, onde chove pouco. Como, se as atmosferas são muito semelhantes? A resposta veio do estudo de aromas e odores das árvores. Esses odores vão para atmosfera e quando têm radiação solar e vapor de água, reagem com o oxigênio e precipitam uma poeira finíssima, que atrai o vapor de água. É um nucleador de nuvens. Quando chove, lava a poeira, mas tem mais gás e o sistema se mantém.

E o terceiro segredo?

A floresta é um ar-condicionado e produz um rio amazônico de vapor. Essa formação maciça de nuvens abaixa a pressão da região e puxa o ar que está sobre os oceanos para dentro da floresta. É um cabo de guerra, uma bomba biótica de umidade, uma correia transportadora. E na Amazônia, as árvores são antigas e têm raízes que buscam água a mais de 20 metros de profundidade, no lençol freático. A floresta está ligada a um oceano de água doce embaixo dela. Quando cai a chuva, a água se infiltra e alimenta esses aquíferos.

Como tudo isso se relaciona à seca de São Paulo?

No quarto segredo. Estamos em um quadrilátero da sorte – uma região que vai de Cuiabá a Buenos Aires no Sul, São Paulo aos Andes e produz 70% do PIB da América do Sul. Se olharmos o mapa múndi, na mesma latitude estão o deserto do Atacama, o Kalahari, o deserto da Namíbia e o da Austrália. Mas aqui, não, essa região era para ser um deserto. E no entanto não é, é irrigada, tem umidade. De onde vem a chuva? A Amazônia exporta umidade. Durante vários meses do ano chega por aqui, através de “rios aéreos”, o vapor que é a fonte da chuva desse quadrilátero.

E o quinto segredo?

Onde tem floresta não tem furacão nem tornado. Ela tem um papel de regularização do clima, atenua os excessos, não deixa que se organizem esses eventos destrutivos. É um seguro.

Qual o impacto do desmatamento então?

O desmatamento leva ao clima inóspito, arrebenta com o sistema de condicionamento climático da floresta. É o mesmo que ter uma bomba que manda água para um prédio, mas eu a destruo, aí não tem mais água na minha torneira. É o que estamos fazendo. Ao desmatar, destruímos os mecanismos que produzem esses benefícios e ficamos expostos à violência geofísica. O clima inóspito é uma realidade, não é mais previsão. Tinha que ter parado com o desmatamento há dez anos. E parar agora não resolve mais.

Como não resolve mais?

Parar de desmatar é fundamental, mas não resolve mais. Temos que conter os danos ao máximo. Parar de desmatar é para ontem. A única reação adequada neste momento é fazer um esforço de guerra. A evidência científica diz que a única chance de recuperarmos o estrago que fizemos é zerar o desmatamento. Mas isso será insuficiente, temos que replantar florestas, refazer ecossistemas. É a nossa grande oportunidade.

E se não fizermos isso?

Veja pela janela o céu que tem em São Paulo – é de deserto. A destruição da Mata Atlântica nos deu a ilusão de que estava tudo bem, e o mesmo com a destruição da Amazônia. Mas isso é até o dia em que se rompe a capacidade de compensação, e é esse nível que estamos atingindo hoje em relação aos serviços ambientais. É muito sério, muito grave. Estamos indo direto para o matadouro.

O que o Sr. está dizendo?

Agora temos que nos confrontar com o desmatamento acumulado. Não adianta mais dizer “vamos reduzir a taxa de desmatamento anual.” Temos que fazer frente ao passivo, é ele que determina o clima.

Tem quem diga que parte desses campos de futebol viraram campos de soja.

O clima não dá a mínima para a soja, para o clima importa a árvore. Soja tem raiz de pouca profundidade, não tem dossel, tem raiz curta, não é capaz de bombear água. Os sistemas agrícolas são extremamente dependentes da floresta. Se não chegar chuva ali, a plantação morre.

O que significa tudo isso? Que vai chover cada vez menos?

Significa que todos aqueles serviços ambientais estão sendo dilapidados. É a mesma coisa que arrebentar turbinas na usina de Itaipu – aí não tem mais eletricidade. É de clima que estamos falando, da umidade que vem da Amazônia. É essa a dimensão dos serviços que estamos perdendo. Estamos perdendo um serviço que era gratuito que trazia conforto, que fornecia água doce e estabilidade climática. Um estudo feito na Geórgia por uma associação do agronegócio com ONGs ambientalistas mediu os serviços de florestas privadas para áreas urbanas. Encontraram um valor de US$ 37 bilhões. É disso que estamos falando, de uma usina de serviços.

As pessoas em São Paulo estão preocupadas com a seca.

Sim, mas quantos paulistas compraram móveis e construíram casas com madeira da Amazônia e nem perguntaram sobre a procedência? Não estou responsabilizando os paulistas porque existe muita inconsciência sobre a questão. Mas o papel da ciência é trazer o conhecimento. Estamos chegando a um ponto crítico e temos que avisar.

Esse ponto crítico é ficar sem água?

Entre outras coisas. Estamos fazendo a transposição do São Francisco para resolver o problema de uma área onde não chove há três anos. Mas e se não tiver água em outros lugares? E se ocorrer de a gente destruir e desmatar de tal forma que a região que produz 70% do PIB cumpra o seu destino geográfico e vire deserto? Vamos buscar água no aquífero?

Não é uma opção?

No norte de Pequim, os poços estão já a dois quilômetros de profundidade. Não tem uso indefinido de uma água fóssil, ela tem que ter algum tipo de recarga. É um estoque, como petróleo. Usa e acaba. Só tem um lugar que não acaba, o oceano, mas é salgado.

O esforço de guerra é para acabar com o desmatamento?

Tinha que ter acabado ontem, tem que acabar hoje e temos que começar a replantar florestas. Esse é o esforço de guerra. Temos nas florestas nosso maior aliado. São uma tecnologia natural que está ao nosso alcance. Não proponho tirar as plantações de soja ou a criação de gado para plantar floresta, mas fazer o uso inteligente da paisagem, recompor as Áreas de Proteção Permanente (APPs) e replantar florestas em grande escala. Não só na Amazônia. Aqui em São Paulo, se tivesse floresta, o que eu chamo de paquiderme atmosférico…

Como é?

É a massa de ar quente que “sentou” no Sudeste e não deixa entrar nem a frente fria pelo Sul nem os rios voadores da Amazônia.

O que o governo do Estado deveria fazer?

Programas massivos de replantio de reflorestas. Já. São Paulo tem que erradicar totalmente a tolerância com relação a desmatamento. Segunda coisa: ter um esforço de guerra no replantio de florestas. Não é replantar eucalipto. Monocultura de eucalipto não tem este papel em relação a ciclo hidrológico, tem que replantar floresta e acabar com o fogo. Poderia começar reconstruindo ecossistemas em áreas degradadas para não competir com a agricultura.

Onde?

Nos morros pelados onde tem capim, nos vales, em áreas íngremes. Em vales onde só tem capim, tem que plantar árvores da Mata Atlântica. O esforço de guerra para replantar tem que juntar toda a sociedade. Precisamos reconstruir as florestas, da melhor e mais rápida forma possível.

E o desmatamento legal?

Nem pode entrar em cogitação. Uma lei que não levou em consideração a ciência e prejudica a sociedade, que tira água das torneiras, precisa ser mudada.

O que achou de Dilma não ter assinado o compromisso de desmatamento zero em 2030, na reunião da ONU, em Nova York?

Um absurdo sem paralelo. A realidade é que estamos indo para o caos. Já temos carros-pipa na zona metropolitana de São Paulo. Estamos perdendo bilhões de dólares em valores que foram destruídos. Quem é o responsável por isso? Um dia, quando a sociedade se der conta, a Justiça vai receber acusações. Imagine se as grandes áreas urbanas, que ficarem em penúria hídrica, responsabilizarem os grandes lordes do agronegócio pelo desmatamento da Amazônia. Espero que não se chegue a essa situação. Mas a realidade é que a torneira da sua casa está secando.

Quanto a floresta consegue suportar?

Temos uma floresta de mais de 50 milhões de anos. Nesse período é improvável que não tenham acontecido cataclismas, glaciação e aquecimento, e no entanto a Amazônia e a Mata Atlântica ficaram aí. Quando a floresta está intacta, tem capacidade de suportar. É a mesma capacidade do fígado do alcoólatra que, mesmo tomando vários porres, não acontece nada se está intacto. Mas o desmatamento faz com que a capacidade de resiliência que tínhamos, com a floresta, fique perdida.

Aí vem uma flutuação forte ligado à mudança climática global e nós ficamos muito expostos, como é o caso do “paquiderme atmosférico” que sentou no Sudeste. Se tivesse floresta aqui, não aconteceria, porque a floresta resfria a superfície e evapora quantidade de água que ajuda a formar chuva.

O esforço terá resultado?

Isso não é garantido, porque existem as mudanças climáticas globais, mas reconstruir ecossistemas é a melhor opção que temos. Quem sabe a gente desenvolva outra agricultura, mais harmônica, de serviços agroecossistêmicos. Não tem nenhuma razão para o antagonismo entre agricultura e conservação ambiental. Ao contrário. A agricultura consciente, que soubesse o que a comunidade científica sabe, estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo proteção das florestas. E, por iniciativa própria, replantaria a floresta nas suas propriedades.

http://leonardoboff.wordpress.com/2014/11/01/estamos-indo-direto-para-o-matadouro-diz-antonio-nobre/