Tuesday, 7 April 2015

'Matamos nossos rios, não há partido que resolva'

carta capital
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Cultura

Fotografia

'Matamos nossos rios, não há partido que resolva'

O fotógrafo Sebastião Salgado fala de crise hídrica e denúncias de corrupção às vésperas do lançamento do documentário 'O Sal da Terra', que concorreu ao Oscar
por Pedro Castro — publicado 24/03/2015 04:29, última modificação 25/03/2015 14:15
Fotos Jackson
"Matamos os nossos rios e as nossas florestas, e não há partido ou político que vá resolver isso sozinho", atesta Sebastião Salgado. Para ele, o problema da crise hídricabrasileira é “de toda a sociedade. Todos somos seres políticos e temos responsabilidades sociais".
As ações do fotógrafo de 71 anos vão além do discurso afinado. Desde 1998, ele e sua esposa, Lélia Wanick, mantém o Instituto Terra, responsável pelo plantio de mais 2 milhões de árvores em Aimorés, no interior de Minas Gerais. De acordo com Salgado, a falta de água tem sido mais sentida agora, “mas esse problema já vem acontecendo há muito tempo. Se estivéssemos cuidando dos rios e das florestas, não estaríamos tão dependentes das chuvas para encher os reservatórios".
É este Sebastião Salgado engajado que o filme O Sal da Terrarevela. Dirigido pelo alemão Wim Wenders e por Juliano Ribeiro Salgado, filho do casal, o filme concorreu ao Oscar na categoria documentário. Com lançamento no Brasil previsto para o dia 26, o longa vai além da obra do artista e mostra o agente social, o ambientalista. Para Lélia, o documentário "é mais do que um filme sobre a fotografia ou sobre a história de um homem, é um filme que mostra um ponto de vista sobre o mundo".
Ao falar para mais de mil pessoas no projeto Sempre um Papo, que leva escritores e artistas para conversarem com o público em Belo Horizonte, Sebastião Salgado arrancou aplausos. "A solução para a crise hídrica é simples: não medir esforços. O Brasil é um País incrível, mas parece que o brasileiro não percebe isso. Ainda somos muito pessimistas em relação à nossa própria gente”, alertou.
Salgado afirma que "hoje temos um Brasil moderno, mas que foi construído sobre as florestas e os rios". Por isso, devemos repensar o consumo. "Depois do segundo governo do PT, há um acesso de 40 milhões de pessoas à classe média. Isso nunca aconteceu e é positivo, mas gera demanda de água", explica. "A solução para o problema é preservar nossas nascentes. É absolutamente necessário que todas as instituições, sejam públicas ou privadas, façam sua parte."
É nesse sentido que o projeto Olhos d’Água pretende revitalizar todas as nascentes da bacia do Rio Doce, que tem o tamanho de Portugal. O fotógrafo contou ao público que a iniciativa do Instituto Terra "é um projeto que custa bilhões, mas, comparativamente, sai mais barato do que comprar aviões caça da Suécia".
Mesmo com a atual crise, Salgado mostra otimismo com o País. Em entrevista antes da palestra, ele afirmou que "pela primeira vez, os que estão no governo [federal] não são os mesmos que dominam os meios de comunicação, e por isso há informação sobre corrupção. Pela primeira vez, os corruptores estão pagando. Antes, só alguns intermediários eram acusados de corrupção. O Brasil já é um grande País e está cada vez mais sério".
Não é de hoje que Sebastião e Lélia estão ligado às causas sociais. "Depois de 64, participamos de todas as manifestações e ações de resistência à ditadura e estávamos determinados a defender nossos ideais. Isso era muito perigoso", conta.
Em agosto daquele ano, com pouco mais e 20 anos de idade, o casal se sentiu como as pessoas que ele viria a retratar anos mais tarde em Êxodos, que mostra aqueles que abandonam a terra natal.
Doutor em economia, Salgado conheceu Lélia enquanto fazia universidade em Vitória. "São 50 anos de sonhos realizados juntos", ela afirma sorridente. Um desses sonhos é o reflorestamento da fazenda herdada da família do fotógrafo que estava totalmente degradada e deu origem ao Instituto.
"Tinha acabado de lançar o Êxodos e estava profundamente deprimido, afundava no pessimismo. Vi coisas terríveis na África e na antiga Iugoslávia. Pensei então em um projeto para denunciar a destruição e a poluição das florestas", conta o fotógrafo. Foi nesse momento que Lélia surgiu com a ideia de replantar.
Mesmo com o inicio problemático (60% das mudas plantadas não "vingaram" no primeiro plantio), hoje o programa é um modelo para o País. Cerca de 700 projetos de educação ambiental que atingiram mais de 65 mil pessoas e o maior viveiro de plantas nativas de Minas Gerais são alguns exemplos da grandiosidade do projeto. "O Instituto é um de nossos filhos", afirma Lélia. "Plantar é como cuidar de uma criança, é preciso proteger, alimentar e dar condições para que, ao crescer, ela se torne independente", completa Salgado.
Lélia Wanick e Sebastião Salgado
Foi neste momento de reaproximação com a natureza que o fotógrafo começou a pensar em fazer outro livro. "Foi vendo a vida nascer na floresta que surgiu o Gênesis", conta para o público. "Antes, eu havia fotografado apenas uma espécie: o homem. Para este projeto, precisei aprender a conviver com outras espécies".
Para ele, reaproximar da natureza é fundamental para compreendermos nosso lugar na Terra. "Hoje somos extraterrestres no nosso próprio planeta, não conhecemos nada sobre pássaros e plantas. Não temos a noção de que somos apenas uma espécie no meio de milhares. As árvores, por exemplo, são as responsáveis em manter a água no solo e o oxigênio no ar. Mas a cada dia cortamos mais árvores e poluímos mais a água e o ar. Temos que voltar em direção à Terra."
Mundo do Café
O fotógrafo não demonstra cansaço. Em maio ele inaugura a mostra Perfumes de Sonho – Uma Viagem ao Mundo do Café na Expo Universal de Milão 2015 e cinco dias depois leva o trabalho para Bienal de Veneza. "Resolvi fotografar a história das pessoas que trabalham com café. Tomar café é um coisa tão comum que não nos damos conta do tanto de gente envolvida no processo", explica Sebastião. Na mostra, ele registrou a relação do homem com o fruto na Etiópia, Guatemala, Índia, China, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Indonésia, Tanzânia e Brasil.

Saturday, 4 April 2015

Em ThuleTuvalu, as primeiras vítimas da mudança climática

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Em ThuleTuvalu, as primeiras vítimas da mudança climática

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Exibido em mostra brasileira, documentário de Matthias Von Gunten expõe de forma poética tragédia de povos sem futuro no Ártico e Pacífico. Diretor pergunta: “queremos fazer algo”?
Por Vinicius Gomes
Desembarcando de um monomotor no pequeno aeroporto de Thule, no norte da Groenlândia, um jovem casal traz consigo seu filho recém-nascido. Essa é a primeira vez que Rasmus, um caçador inuit, coloca os olhos em seu neto. Ali, na imensidão branca e inóspita do Círculo Polar Ártico, o sorriso de Rasmus em ver a felicidade de sua família é logo substituída pelo característico franzir no cenho do caçador de 40 anos.
Milhares de quilômetros ao sul, em Nanumea, ilha que faz parte do país-arquipélago de Tuvalu, o pescador Patrick finalmente termina de construir a primeira canoa para seu filho mais velho. Uma vez dentro da água, na imensidão azul do Pacífico Sul, o sorriso de Patrick ao ver a felicidade da criança que quer seguir os passos do pai, é logo substituído pelos olhos semicerrados observando o horizonte infinito.
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Assim como todo pai ou avô, mãe ou avó, em qualquer lugar do mundo, Rasmus e Patrick desejam um futuro melhor para sua família. Porém, diferente de outros lugares do mundo, as famílias do caçador e do pescador estão entre aquelas que já sofrem em primeira mão os efeitos perversos do aquecimento global e das mudanças climáticas: enquanto em Thule, o problema já se manifesta com o derretimento do gelo, em Tuvalu é o avanço da água com o aumento do nível do mar que ameaça engolir todo o arquipélago, como se fosse uma Atlântida do século 21.
Em ThuleTuvalu, que esteve recentemente em exibição na 4ª Mostra de Cinema Ambiental Ecofalante, em São Paulo, o documentarista suíço Matthias von Gunten filma com maestria poética como os povos de dois lugares — tão distantes geograficamente e tão próximos pelas incertezas de seus futuros – estão sendo forçados a abandonar suas culturas e modos de vida seculares por conta do aquecimento do planeta. A situação de Thule e Tuvalu, em vias de se converter em exemplo trágico, encaixa-se perfeitamente na Teoria do Caos, com o degelo ártico sendo o “bater de asas da borboleta” e o aumento no nível do mar, ameaçando as ilhas do Pacífico Sul, sendo o “tufão” subsquente.
Von Gunten estava presente na sessão no cine Reserva Cultural, em São Paulo, em 23/3. Por ironia, falou que as filmagens ocorreram em 2012, e que, por conta do Ciclone Pan, que poucas semanas atrás atingiu diversos países no Pacífico Sul, incluindo Tuvalu, muito do que a platéia estava prestes a assistir já não existia mais. O suíço disse que não tinha muitas informações sobre a situação em Nanumea, nem mesmo o embaixador de Tuvalu nas Nações Unidas lhe respondia há dois dias . “Ele geralmente me responde em poucos horas, então imagino que eles estejam com muito trabalho”. Curiosamente, durante a roda de discussão que se seguiu após o término do filme, o suíço finalmente recebeu um e-mail de uma representante da comunidade em Nanumea. Sem se pronunciar a respeito, von Gunten leu que todas as casas na ilha haviam sido praticamente destruídas. Catorze famílias estavam vivendo em um centro comunitário, “como refugiados, sem paredes nem banheiros”. Outras 63 famílias tiveram de ficar na casa de parentes em outras ilhas tuvaluanas. Nenhuma morte foi relatada, mas hortas comunitárias foram destruídas, muitas árvores foram derrubadas e todas as estradas que davam acesso à criação de galinhas e porcos, estavam bloqueadas.
Outras Palavras conversou um pouco com o diretor sobre como foi filmar e conviver com esses povos desconhecidos por boa parte do planeta, que além de enfrentar as difíceis condições de seus ambientes – seja no inóspito frio de Thule, ou nas extremamente isoladas ilhas tropicais de Tuvalu – ainda correm o risco de ser as primeiras vítimas do aquecimento global. Seus povos, em mais uma irônica tragédia, não têm responsabilidade alguma pelo processo. Sobre o que o mundo pode fazer a respeito desses e de outros povos ameaçados pelas mudanças climáticas, o suíço nos provoca com uma reflexão: “A questão não é ‘o que se pode fazer?’. A pergunta é, simplesmente, ‘nós queremos fazer alguma coisa?’. Pois, até o momento, nós decidimos todos os dias que não queremos fazer nada”.
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Além do fato de estarem na linha de frente dos efeitos da mudança climática no planeta, o que mais você acredita que conecta os povos, tão distantes entre si, como de Thule e Tuvalu?
Isso foi algo que não havia sido previsto por mim, porque eu os conectava, primeiramente, pelo fato de que estes serem alguns dos lugares mais sensíveis e expostos aos efeitos do aquecimento global. E o meu interesse não era apenas sobre as mudanças climáticas, era muito mais nos seres humanos e em suas condições. Então, eu estava muito interessado em filmar como eles viviam, pois quando você observa como as pessoas vivem, isso lhe faz refletir sobre sua própria vida – o que é algo que eu gosto em um filme: ele te convida a uma reflexão a sua própria maneira, sem te impor nada. Então, com o tempo, eu comecei a enxergá-los [os povos de Thule e Tuvalu] sendo muito próximos um do outro, e isso se deve, principalmente a duas coisas: uma são suas histórias. Ambos começaram sua história exatamente onde estão há 2 mil anos atrás. Os inuit chegaram ao norte da Groenlandia há dois mil anos, assim como os tuvaluanos se estabeleceram naquelas ilhas – e ninguém sabe como eles chegaram lá, é um mistério. Mas uma vez lá, eles desenvolveram suas habilidades de sobrevivência em condições extremamente difíceis.
Então esse é um ponto. O outro é a relação com a natureza. Eles conseguem sobreviver apenas por serem extremamente hábeis em ler e conversar com a natureza, em dialogar com os animais e com o clima, e se inserir nesse contexto. Então, os dois povos não apenas desenvolveram suas habilidades de sobrevivência, mas também desenvolveram uma espécie de compreensão de fazerem parte da natureza, de fazerem parte de uma coisa muito maior.
Além disso, suas vidas consistem em, basicamente, conseguir alimentos – que é algo que nós nos esquecemos. Nossa vida é sobre ser o melhor jornalista ou ser o melhor documentarista, sobre conseguir dinheiro. Então nós nos esquecemos que a vida é, em sua maior parte, sobre conseguir comida (risos). Nós não nos importamos mais com isso, nós apenas compramos [alimentos]. Inclusive, isso foi algo muito importante, pois seria muito difícil eu conseguir fazer esse filme se os dois povos vivessem de maneiras totalmente diferentes um do outro. Porque eu queria que o filme fosse apenas uma história, apesar de serem sobre dois lugares. E o fato de ambos possuírem tão similares necessidades e compreensão sobre a vida e a existência, me ajudou muito em fazer o filme como uma só história.
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Entre as muitas tragédias sobre a situação de ambos os povos, uma delas é o fato de eles não serem responsáveis por ela: sua taxa de emissão de gases estufa na atmosfera é praticamente nula, mas ao mesmo tempo, eles não aparentam culpar ninguém.
Eles não culpam, você está certo. Eles não fazem isso porque… (longa pausa) Essas pessoas são muito humildes e modestas, de certa maneira, mas ao mesmo tempo são orgulhosas. Como eu disse, eles conseguiram sobreviver em condições terrivelmente difíceis e eles têm orgulho disso. Esse é o mundo deles, essa é sua riqueza que possuem – eles sabem sobreviver com suas próprias capacidades junto à natureza.
Eles não estão em uma competição política [sobre as mudanças climáticas]: “esses são os malvados e esses são os bonzinhos” e eles não responsabilizam ninguém, especialmente os caçadores em Thule. O orgulho que eles possuem na vida é que são capazes de resolver qualquer problema que apareça em seus caminhos, pois do contrário eles morrem – e eles estão sempre prontos para morrer.
Mas culpar alguém seria, para eles, humilhante. Seria admitir que eles não são capazes de lidar com um problema. Como Lars (um caçador inuit de 71 anos), disse, “nós vemos que os animais se adaptam, então nós temos que nos adaptar também”.
E o mesmo ocorre em Tuvalu. Eles sabem o que é mudança climática, mas eles não estão em constante fluxo de informação. [Em Nanumea], eles não têm televisão, não têm jornal, possuem apenas um rádio. Então sua capacidade de ter notícias é reduzida e o estilo de vida que eles têm não é orientado por notícias. Eu não consigo viver sem notícias, mas eles não precisam. Eles precisam saber onde estão os peixes, como está o vento, se há nuvens se aproximando, e coisas assim. Essas são as “notícias” que eles precisam. Então eles não estão nessa [de responsabilizar outros] também.
Apesar das similaridades, é possível observar no filme um certo contraste: os inuit de Thule, como você disse, apenas seguem em frente não importa o que aconteça. Em Tuvalu acontece o mesmo, mas alguns deles ainda se agarram à religião, na esperança de que nada lhes aconteça, além do fato de terem um engajamento mais político junto à ONU, por exemplo para que o resto do mundo tome ações decisivas contra o aquecimento global.
A Groenlandia não é muito ativa politicamente, isso é verdade. E lá existe algo de diferente em relação a Tuvalu: suas perspectivas sobre a mudança climática são, vamos dizer, ambivalentes. Por um lado, [com o degelo] eles estão perdendo algo e eles não sabem o que esperar do futuro, por outro lado, eles têm uma chance de ficar extremamente ricos. Pois com o derretimento polar, novos recursos naturais podem se tornar acessíveis. Sim, isso pode significar muito dinheiro para o país, ou pode significar muitos problemas – se você olhar para a Nigéria, por exemplo, o petróleo, seu principal recurso natural, não tornou o país rico, apenas alguns nigerianos são ricos. E os inuit também não têm experiência com esses tipos de negociações.
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Então existe um medo sobre as mudanças climáticas, mas também existe uma certa esperança – o que não é o caso de Tuvalu. Basta ver o que aconteceu duas semanas atrás com o Ciclone Pam. (Ele para ler o e-mail que recebeu na noite anterior relatando toda a destruição que ocorreu na ilha de Nanumea). Então você vê, Patrick (um dos pescadores de Tuvalu), perdeu sua casa. Eu tenho certeza que ele irá reconstruí-la, mas quantas vezes mais ele terá de fazer isso e com que estado de espírito? Ele reconstrói sua casa, mas talvez dentro de alguns anos ou apenas semanas, eles são atingidos por outro ciclone.
É isso que está ocorrendo ali em Tuvalu, a mudança climática está acontecendo bem em cima deles. A questão é quando eles atingirão o limite onde eles sintam que aquilo é insuportável. Naquelas condições… para construir sua família e manter a coragem…
Durante o debate você disse que foi difícil conversar com eles sobre essas coisas, que eles tinham uma barreira…
É porque eles querem falar sobre a vida. Eles têm de viver, eles têm que arrumar comida todos os dias e para ter força e motivação é necessário ter uma atitude positiva. Então você não pode ficar falando o tempo inteiro sobre problemas, do contrário você não quer sair para caçar – e ser caçador é uma profissão muito difícil. Ela requer muita paciência, requer saber lidar com o fracasso, pois muitos tiros não são certeiros, e você não pode perder seu humor, senão você continuará não acertando nada. Então se você tem esses pensamentos ruins, como “eu estou perdendo minha existência”…se você sai da cama pensando isso, você não quer sair para caçar. Então eles têm de focar em suas necessidades, que são diárias.
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Eu acho que é por isso que eles tinham uma certa barreira em discutir essas coisas. Não era porque eles eram covardes ou cegos. Eles têm de viver, de sobreviver, de conseguir alimento, de estar de bom humor para suas crianças. Você não pode dizer a seus filhos, todos os dias, “oh, vocês não têm um futuro”. Eu vejo dessa maneira e por isso é bem delicado lidar com esses assuntos sem forçá-los a falar. Mas claro, isso pertence a essa profissão [de documentarista]. Você tem que sempre saber “ler” as pessoas e compreender quem são elas, como elas pensam e o que as deixa confortável ou inconfortável, e o porque disso. E isso não apenas por serem pessoas em uma condição vulnerável, quem quer que seja que você tenha em frente a sua câmera, é necessário observar cuidadosamente e abordar da maneira correta.
E eles te aceitaram em suas vidas, como você os seguindo nas caças em Thule.
Bem, nós tivemos que pagar. Nós sempre pagávamos quando os estávamos filmando. Mas eles ficavam felizes quando os seguíamos nas caças, porque sim, eles ganhavam um pouco de dinheiro, mas nós sabíamos que eles gostavam de nós. Eles entenderam o que estávamos fazendo e eles gostaram muito da ideia de relatar o que estava acontecendo tanto em Thule, como em Tuvalu – e eles também estavam muito curiosos sobre Tuvalu. Toda vez que eu estava lá [em Thule], fazendo minhas pesquisas, eu perguntava o que eles queriam que eu trouxesse da próxima vez (risos). Então alguns deles me pediam alguns instrumentos tecnológicos que eles não tinham. Lars me pedia cigarros e Rasmus me pediu por uma pedra coral de Tuvalu. Eu trouxe uma e ele ficou muito, muito feliz. Ele realmente queria estar conectado com os tuvaluanos.
Como está sendo a repercussão do seu filme?
Até o momento muito boa. Em Thule eles gostaram muito, assim como o governo [da Groenlandia]. Eles assistiram o filme e ficaram muito orgulhosos. O governo de Tuvalu colocou imediatamente o pôster do filme em seu site oficial. Os dois primeiro-ministros se conheceram em uma conferência sobre o clima em Nova York por causa do filme, eles ainda não se conheciam. Então ambos os representantes na ONU organizaram uma exibição do filme na sede da organização em Nova York para todos os diplomatas da ONU, então eles estão muito felizes que esse filme exista, pois mostra algo que ainda não havia sido mostrado. Há muitas pessoas fazendo relatos sobre as mudanças climáticas [em Thule e Tuvalu], mas elas geralmente o fazem de maneira científica ou em um nível estatístico. Nada havia sido feito em nível pessoal, até então. Por isso eles se sentem muito bem representados nesse filme, dentro de seus ambientes e com seus pensamentos.
Como o mundo pode fazer algo para Thule e Tuvalu?
Eu conscientemente não abordei essa questão. Eu só queria fazer uma descrição da situação dessas pessoas, pois todas as outras questões – quem é responsável, quem é culpado, o que podemos fazer – nós temos todos os dias na mídia e todos nós já sabemos. Então, eu não queria focar nisso, pois senão se tornaria um filme ativista e não era isso que eu queria fazer. Eu queria um filme mais reflexivo e poético.
Eu acho que a questão não é “o que se pode fazer?”. A pergunta é, simplesmente, “nós queremos fazer alguma coisa?”. Pois até o momento, nós decidimos todos os dias que não queremos fazer nada. Todo mundo sabe o que deve ser feito, há muito tempo e em muitos detalhes, o problema é que nós não queremos fazer nada. Muitas pessoas assistem o filme e dizem, “oh, essas pobres pessoas em Thule e Tuvalu”. Mas aí eu pergunto: quem é que quer reduzir o seu consumo de gasolina, quem está pronto para deixar de lado seus carros, em viajar menos e outras coisas do tipo?

Um caminho para o Outro e sua escuta

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Um caminho para o Outro e sua escuta

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Diálogos de David Bohn — ou o que a Física Quântica pode ensinar sobre a possibilidade de nos vermos não como meros indivíduos, mas como partes singulares de um todo fascinante
Por Ruben Bauer Naveira* | Imagem: Paul Delvaux, Missa Vespertina (1934)
Pode-se falar da vida de David Bohm (1917-1992) pelo prisma acadêmico (um dos maiores físicos quânticos de todos os tempos) ou político (foi perseguido pelo macarthismo), mas prefiro enaltecê-lo como o grande humanista que foi. Bohm deixou como legado para a humanidade a sua metodologia dos Grupos de Diálogo, ainda não compreendida decorridos mais de trinta anos, e necessária mais do que nunca nesses tempos tormentosos que atravessamos.
“Diálogo”, no senso comum, significa conversa, mas no sentido que Bohm o emprega (nota: usaremos a palavra Diálogo, inicial maiúscula, somente no sentido de Bohm) é um modo específico de conversação que a imensa maioria das pessoas não emprega… nunca. Ou seja, se poderia dizer que se trata um modo antinatural de conversação – na medida em que “natural” seja somente o nosso modo habitual de conversarmos uns com os outros, que fazemos instintivamente e tomamos como o único possível.
Senão, vejamos: o que acontece quando, ao conversarmos, nos é dito algo de que discordamos? Continuamos a ouvir? Não. Nós ou interrompemos para de pronto manifestar nossa discordância, ou então começamos a ensaiar mentalmente uma contra-argumentação para quando chegar a nossa vez de falar – só que aí direcionamos nossa atenção para a nossa própria “voz interior” (o nosso pensamento), não mais para aquilo que continua a ser dito. Interromper, ou começar a pensar naquilo que iremos falar enquanto o outro ainda está falando, são, para nós, coisas tão instintivas, tão naturais, que quase ninguém conseguiria não fazê-las mesmo se assim o quisesse.
Se assim é, não se poderia então dar instruções às pessoas sobre como conversar por esse modo específico que Bohm chama de Diálogo? Não, não se pode. O Diálogo não tem como ser descrito ou explicado, porque somente pode ser aprendido na experiência. Só se aprende a dialogar dialogando.
O Diálogo pode ser empregado em toda e qualquer conversação. Bohm, contudo, viu-o como ferramenta para uma superação construtiva dos conflitos, por mais graves que sejam. Por exemplo, os chamados Acordos de Oslo entre palestinos e israelenses foram obtidos em grupos de Diálogo (ainda que tais acordos tenham sido posteriormente destruídos por aqueles que não tomaram parte no Diálogo). Ou ainda, o seguinte artigo discorre sobre os processos (estes, bem-sucedidos) de conciliação nacional na África do Sul e na Guatemala (ainda que o autor enfatize um outro instrumento, os cenários; no caso da Guatemala, o Diálogo está melhor abordado neste outro artigo).
O Diálogo é especialmente indicado para o tratamento de problemas complexos, porque problemas complexos são necessariamente considerados de formas diferentes pelas diferentes pessoas envolvidas, e assim os inevitáveis choques entre essas múltiplas perspectivas são também uma espécie de conflito, mesmo que inexistam animosidades de natureza pessoal.
O Diálogo acontece por meio de uma paulatina “dissolução” das individualidades na coletividade, com surgimento de um “ser” coletivo (o grupo). Essa dissolução conduz não a uma cessação dos conflitos mas, paradoxalmente, ela leva a um aprofundamento desses conflitos. Isso porque o conflito já não é mais entre as individualidades daquelas pessoas, e sim apenas entre os pensamentos delas (é isso mesmo: o método propicia uma dissociação entre as pessoas e os seus pensamentos). A partir daí, a exploração dos conflitos permite tomá-los como diversidade, a ser aproveitada pelo grupo como um rico manancial para a construção de soluções inovadoras. No final das contas, aquele que “descobre” a inovação que solucionará o problema não será ninguém em particular, mas o grupo como um todo.
Essa transição do individual para o coletivo é tudo menos abrupta: de uma forma sutil – e que necessariamente toma tempo – o próprio processo do dialogar vai aos poucos “assumindo controle”, como se dotado de vida própria fosse. É quando os resultados começam a ser colhidos pelo grupo como se espontaneamente brotassem.
A chave para essa passagem consiste na instauração de uma primazia do ouvir (a coletividade como referência última para a conversação) com arrefecimento do falar (as individualidades, e sua expressão, como as referências para a conversação).
O nosso modo costumeiro de conversação é tomado como o único possível porque nós já nos encontramos tão condicionados à primazia do falar sobre o ouvir que sequer imaginamos que poderia ser o contrário. Mas, ao longo da História, foi o contrário, com essa primazia do falar tendo se firmado apenas mais recentemente.
Pensemos na vida numa aldeia medieval. O que era o “mundo” para o aldeão? Era sua aldeia, sua família, seus costumes e tradições, a natureza circundante… e mais nada. A individualidade do aldeão (sua vida interior) provinha por completo desse seu mínimo mundo exterior. Ele não necessitava de muita autonomia, mesmo porque não teria para onde expandi-la, lhe faltariam referenciais para tanto.
Eis que surge um novo personagem, o comerciante medieval, que necessitava viajar para comprar mais barato e vender mais caro os seus artigos. Ao se deslocar, ele entrava em contato com novas realidades, mundos desconhecidos, onde costumes estranhos lhe pareciam desprovidos de sentido e de história. Ele necessitava encontrar meios de se “encaixar” nesse novo mundo, no qual, para ser bem sucedido, a sua individualidade e a sua autonomia lhe seriam cada vez mais preciosas. Ia ele assim se dissociando das suas raízes, sem tampouco fincá-las nesse seu “mundo novo”, um mundo que lhe parecia cada vez mais neutro e exterior: uma emancipação da individualidade. Cada vez mais o seu referencial de vida seria buscado interiormente, na sua individualidade singular.
Nas sociedades atuais o significado da vida de cada um provém de dentro, dessa sua individualidade singular. É devido a isso que, nas conversações, somos movidos muito mais pela necessidade de nos expressar perante os demais do que pelo desejo de ouvi-los.
Diálogo, no fundo, não é a descoberta de algo inédito, mas o resgate de uma sabedoria do viver humano há muito tempo esquecida, e que hoje em dia somente subsiste em sociedades tribais.
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Obviamente ninguém advogará por uma regressão à vida tribal. Mas podemos (re)aprender a dialogar, algo que se encontra enclausurado na nossa natureza mais profunda – desde que nos disponhamos a uma reconexão com ela.
Conexão é uma ideia cara a Bohm. Numa obra até hoje referencial para a Física Quântica, A Totalidade e a Ordem Implicada, Bohm estabeleceu uma teoria do Universo que distingue duas realidades, a “ordem implicada” (no sentido de implícita) e a “ordem explicada” (no sentido de explícita). A ordem implicada é o mundo quântico das partículas subatômicas, ao qual não temos acesso. Já a ordem explicada é a realidade tal qual a conhecemos, com pessoas, árvores, bichos, pedras, estrelas, planetas etc. etc.
A ordem implicada abrange a Totalidade (Wholeness) do Universo – por isso o título do livro. Ao nível das partículas subatômicas, tudo no Universo é completamente interconectado, não existindo nada que possa ser chamado de uma “parte independente”: cada partícula pode, potencialmente, deter informação a respeito de todas as demais partículas, ainda que à distância de galáxias.
A Totalidade é descrita por Bohm como um todo indivisível, dotado de total coerência e preenchido por completo por campos de energia e informação que se movem em fluxo perpétuo e que, nesse movimento, compõem infinitas formas. Tomemos como analogia o fluxo de um rio, em que também há infinitas formas: ondulações, torvelinhos, respingos etc. Cada uma dessas “partes” não existe em si, elas somente existem com relação à totalidade do fluxo d’água do rio.
A ordem explicada (a realidade que se manifesta perante os nossos sentidos) são essas formas constituídas pelo fluxo da ordem implicada, ou seja, das partículas subatômicas. Com efeito, tudo no Universo é composto de partículas subatômicas. Um dia, todos nós iremos morrer, nossos corpos irão se decompor, mas as partículas que nos constituem não irão desaparecer, elas tomarão parte em novas formas. O mesmo ocorre com as estrelas, as montanhas, os animais, as plantas e com tudo o mais no Universo. Tudo isso são variadas formas que, em relação à Totalidade (a ordem implicada), contam com uma autonomia apenas relativa (apesar da nossa ilusão de que cada um de nós seja estanque, separado, uma unidade em si e por si). As partículas que constituem tais formas, que são para nós as “partes” do mundo, ciclicamente se dissolvem na ordem implicada e se recristalizam como novas formas de autonomia relativa.
Como nós não temos acesso ao mundo das partículas subatômicas, nós não temos como verificar nada disso – a não ser em casos extremamente raros e considerados inexplicáveis, como o do cachorro que, no exato momento em que sua dona, a quilômetros de distância, toma a decisão de regressar para casa, invariavelmente “fica sabendo” disso e se desloca até a porta para esperá-la (conforme documentado nestevídeo, legendado em inglês).
Bohm teve o seu insight ao assistir na TV a um experimento da BBC britânica: dois cilindros de vidro concêntricos eram colocados um dentro do outro e o espaço entre eles preenchido com glicerina, que é um fluido translúcido e muito viscoso. Uma gota de tinta insolúvel era então pingada na glicerina. Ao ser girado o cilindro externo, a gota de tinta ia aos poucos sendo “esticada” tomando o formato de um fio cada vez mais fino até finalmente desaparecer da visão – como se houvesse sido diluída na glicerina. Mas, ao se girar de volta o cilindro, a tinta (que sempre esteve lá, apenas não podia mais ser vista), reaparecia na forma de linha fina que ia aos poucos “encurtando” e ganhando espessura, até voltar ao seu formato original de gota na exata posição em que fora pingada.
Aquela gota de tinta havia sido “envolta” (enfolded) e depois “des-envolta” (unfolded) pela glicerina. Bohm compreendeu então que o movimento perpétuo de fluxo da ordem implicada, ciclicamente, envolve e des-envolve “partes” que, quando des-envoltas, constituem a ordem explicada. Cada uma das “partes”, a um só tempo, por um modo des-envolto, expressa sua autonomia e afirma a sua individualidade singular, enquanto que por um modo implicado opera como parte integrada e dependente do Universo na sua totalidade.
E o Diálogo nisso?
Para um físico quântico não é difícil conceber os pensamentos como configurações de interrelacionamentos entre partículas subatômicas (já um neurofisiologista é capaz de descrever em termos físicos um dado estado mental, por exemplo um pensamento, como uma reconfiguração das interconexões nas redes de neurônios do cérebro).
Ademais, as partículas subatômicas podem ser descritas tanto como entes materiais quanto como manifestações energéticas – imateriais, assim como os pensamentos.
Bohm chegou ao Diálogo ao ver os pensamentos individuais (aos quais se tem acesso) como as “partes” da ordem explicada, com autonomia apenas relativa – ou seja, dependentes – em relação a sucessivos níveis implicados de “pensamento coletivo” (aos quais não se tem acesso). O Diálogo seria então um método para a investigação e descoberta desse pensamento coletivo, oculto a nós mas que condiciona os nossos pensamentos individuais.
Vamos a um exemplo, a mobilidade urbana. Em cada grande metrópole do planeta, o perfil da mobilidade urbana resulta das escolhas dos indivíduos daquela sociedade para sua locomoção (lógico que uns têm maior poder de escolha do que outros). Esse perfil varia bastante conforme a sociedade em questão, ou seja: ele varia conforme a incidência dos condicionamentos culturais locais (pensamento coletivo) sobre as escolhas (pensamentos) individuais.
A imagem a seguir reúne flagrantes do perfil de mobilidade urbana na Alemanha (onde há maior consciência ecológica), China (onde há maior subordinação dos indivíduos aos ditames da sociedade), Estados Unidos (onde se espera que todo mundo tenha carro) e Brasil (onde o transporte individual por carro é símbolo de distinção social). O leitor seguramente não necessita de legendas para distinguir cada um deles.
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cultura, que condiciona o comportamento (e o pensamento) das pessoas, compõe assim o pensamento coletivo. Ocorre que, como não detemos consciência da maior parte dos condicionamentos culturais a que estamos submetidos, nós somente conseguimos discernir aquelas características mais evidentes da cultura (como por exemplo essas sobre mobilidade urbana). Algo como a “ponta do iceberg”.
Todas as convivências humanas geram acomodações comportamentais coletivas – ou seja, culturas – que passam a incidir sobre o pensar das pessoas. Mesmo uma relação afetiva a dois gera uma microcultura (o “casal”) que afeta a ambos (isso é facilmente percebido sempre que uma pessoa encerra um relacionamento e ingressa em outro). O mesmo se pode dizer das famílias, e assim por diante. Cada um de nós, imerso em uma multiplicidade de convivências (família nuclear, família expandida, ambiente de trabalho, empresa, círculos de amizades, redes sociais na web, vizinhança, cidade, país etc.) não tem como se manter à margem dos efeitos desses pensamentos coletivos.
O Diálogo é um modo de conversação em grupo voltado à investigação e descoberta de pensamento coletivo, num esforço que requer perseverança e tempo. Somente quando trazido à tona, ou seja, tornado consciente no grupo, o pensamento coletivo se aperfeiçoa, com reforço dos seus aspectos positivos e reversão dos seus aspectos deletérios. É quando os conflitos são transcendidos de forma inovadora, trate-se de conflitos derivados das diferentes leituras de um problema complexo pelas diferentes pessoas, trate-se de conflitos propriamente ditos.
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O processo do Diálogo é gratificante porém árduo, na medida em que demandará engajamento psíquico dos participantes. Mas o principal obstáculo ao sucesso de um grupo de Diálogo reside em como as pessoas se relacionam com o tempo. Se a minha experiência ao longo de vinte anos como facilitador de grupos de Diálogo me mostrou algo foi que pessoas incapazes tanto de relaxar o controle que elas acreditam poder exercer sobre o tempo, quanto de, ao contrário, permitir-se deixar o tempo agir sobre elas, acabarão por se mostrar também incapazes de suportar o processo do Diálogo pelo tempo necessário a auferir seus resultados.
Para os interessados em orientações metodológicas recomenda-se a leitura dos textos de William Isaacs, do MIT (Massachusetts Institute of Technology).
*Ruben Bauer Naveira tem 52 anos, é pai de dois filhos, tricolor de coração e cidadão brasileiro.