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Friday, 15 May 2020

“Temos que construir a utopia no dia a dia", diz a boliviana Julieta Paredes


“Temos que construir a utopia no dia a dia", diz a boliviana Julieta Paredes

https://apublica.org/2020/05/temos-que-construir-a-utopia-no-dia-a-dia-diz-a-boliviana-julieta-paredes/

Fonte: Agência Pública

Resumo:

Em entrevista exclusiva à Pública, a ativista boliviana de origem indígena explica o que é feminismo comunitário e denuncia a violência do governo interino que assumiu o poder após a queda de Evo Morales

Por Texto: Giulia Afiune, Anna Beatriz Anjos | Fotos: José Cícero da Silva

Alguns minutos conversando com Julieta Paredes são suficientes para você olhar tudo por uma nova perspectiva, desde o conceito de feminismo até a história da América Latina.

Em tom sereno, com argumentos realistas, ela explica, por exemplo, que o feminismo “tradicional” nasceu na Europa em meio à Revolução Francesa de 1789. Por isso, as mulheres indígenas que lutaram com seus povos contra os colonizadores europeus nas Américas, mais de 200 anos antes, não são consideradas parte desse feminismo. Esse foi um dos motivos que estimularam Julieta e outras mulheres bolivianas a desenvolver o feminismo comunitário, uma prática política que floresceu durante o governo Evo Morales (2006-2019) na Bolívia e hoje tem adeptas em todo o continente.

“O feminismo comunitário é a luta de qualquer mulher, em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo da história, que luta e se rebela contra um patriarcado que a oprime ou pretende oprimir”, define. Julieta ressalta que o feminismo comunitário não é uma corrente que deriva do feminismo tradicional eurocêntrico, e sim a forma única como ela e outras mulheres latino-americanas, principalmente de povos originários, passaram a enxergar e se posicionar. “Nós somos feministas comunitárias, e não feministas porque somos mais velhas do que as feministas, que ainda são jovenzinhas, surgiram em 1789 [risos]. Nós estamos lutando desde 1500.”

Julieta veio ao Brasil no início de março para divulgar seu novo livro, Para descolonizar o feminismo. A Agência Pública conversou com ela na Aldeia Jaraguá, território do povo Guarani Mbya no extremo norte da cidade de São Paulo. Sentada em uma rede, cercada de árvores, ela falou sobre diversos temas do ponto de vista de quem esteve no epicentro de muitas das lutas recentes na Bolívia: desde práticas para coibir as altas taxas de violência contra a mulher até a atual situação política do país após a renúncia do ex-presidente Evo Morales, em 2019, motivada por suspeitas de fraude nas eleições. Julieta é categórica ao dizer que não houve fraude, que Morales sofreu um golpe e que o autoritarismo tomou conta do país vizinho: “Há uma ditadura na Bolívia hoje”.

A ativista boliviana, Julieta Paredes, foi escolhida pelos Aliados da Pública para a Entrevista do mês

O que é o feminismo comunitário?

Feminismo comunitário é o nome da nossa organização, que também produziu uma prática política das mulheres em toda a Abya Yala [palavra de origem kuna que quer dizer América]. O feminismo comunitário, hoje em dia, também é uma corrente de pensamento. Mas nós não nascemos da academia, da teoria, da intelectualidade. É muito diferente. Nós nascemos como uma prática social que nomeia seus sonhos, suas propostas, suas lutas, e vamos encontrando na construção teórica a explicação do que estamos fazendo.

Quando você, como povo originário – ou indígena, como nos chamam – ou como mulher, é oprimido, você está preocupado em procurar comida, água, uma casa. Você não tem tempo, espaço, tranquilidade e saúde para poder pensar, ler, escrever.

Mas foi o processo de mudança na Bolívia [que nos deu] essas condições para refletir sobre o que estamos fazendo, para refletir sobre o que significam nossos próprios corpos, nossa própria história. Não que [o governo de Evo Morales] tenha sido maravilhoso, assim como o de Lula também não foi. Eles tiveram suas contradições. Mas eram condições favoráveis.

E quais eram as práticas que embasaram o nascimento do feminismo comunitário?

O grupo Mujeres Creando surgiu nos anos 1990. Nos anos 2000, Mujeres Creando se dividiu por causa da relação com o povo. Para o grupo que hoje mantém o nome de Mujeres Creando eram muito importantes a performance política e a arte, e elas consideravam que o povo era muito machista, lesbofóbico, estava muito atrasado para compreender o feminismo das Mujeres Creando.

Já para nós – que adotamos o nome de Mujeres Creando Comunidad – o relacionamento com o povo é essencial, mesmo que ele seja sexista, mesmo que sejam estupradores, que sejam pedófilos, que sejam assassinos de mulheres. Quer dizer, é doloroso que seu próprio povo seja assim, mas é o nosso povo. Nós não dizemos que eles não são responsáveis ​​pelo que fazem, “pobrezinhos”… Não, não, não. Nós também somos fruto de uma sociedade racista e machista, mas não queremos ser machistas ou racistas. Trabalhamos todos os dias para não ser. Então eles também podem trabalhar.

O fundamental para nós é que, para fazer revoluções, mudanças, transformações, tem que ser com os nossos povos, com nossas organizações sociais, com nossos irmãos e irmãs que fazem parte da nossa sociedade. Senão, com que povo vamos fazer a revolução? Quatro gatos-pingados, quatro iluminadas em um café ou em uma festa ou em um 8M (8 de março, dia internacional das Mulheres)? A marcha e o discurso são importantes, mas também são importantes a orgânica, a formação política e até a espiritualidade.

Como o feminismo comunitário se diferencia do feminismo eurocêntrico?

O feminismo nasceu na Europa, a partir da Revolução Francesa, em 1789, e do Estado moderno. Como, a partir de 1500, há um domínio colonialista transnacional e eurocêntrico em todo o planeta, existe também um domínio no plano dos conceitos, dos paradigmas de luta. Não há outro pensamento revolucionário possível para analisar o capitalismo senão o marxismo. Não há luta mais vanguardista para as mulheres do que o feminismo. Mas isso é mentira. Precisamos reconceitualizar o feminismo, porque, se o feminismo se define como a luta das mulheres após 1789, e nós, que não nascemos nem na Europa nem em 1789? Para nós, o feminismo comunitário é a luta de qualquer mulher, em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo da história, que luta e se rebela contra um patriarcado que a oprime ou pretende oprimir.

Em 1500, 1600, nossas avós, nos territórios de Abya Yala, já estavam se rebelando contra o patriarcado. Quando os portugueses chegaram aqui ou os espanhóis chegaram na Bolívia, quando percebemos que eles eram invasores e dominadores, o povo resistiu e as mulheres também se levantaram. Muitas mulheres indígenas guerreiras lutaram contra os portugueses, mas são esquecidas.

Na Abya Yala, até 1492 ou 1500 havia uma cultura, uma língua, um modo de vida que não veio da Europa, que nós não conhecíamos. Então, essa primeira concepção de tempo e espaço – lá Europa, aqui Abya Yala – nos produz como lutadoras para posicionar nossos corpos, nossa história, nossos pensamentos e desejos. Nós não somos alunas da Europa.

Mas precisamos entender que estamos em um mundo globalizado e, se não levarmos isso em conta, podemos cair em uma folclorização, em um reducionismo do nosso próprio pensamento. Por exemplo, se nós dissermos “as europeias têm o feminismo, e nós, em nosso território, temos Q’amasa Warminanaka”, que no idioma aimará significa “a força das mulheres” – mas isso quem sabe somos nós –, o mundo eurocêntrico, colonialista e racista, pode ouvir isso e dizer: “Ah, indígenas, folclore. Então vocês vão cantar? Dançar? Vender artesanato?”. Nós poderíamos nos nomear assim, mas quem nos entenderia?

Mas por que, então, vocês se colocam como feministas?

Nós escolhemos como estratégia política, histórica e de posicionamento, por sermos mulheres de hoje e de agora, diante deste mundo globalizado e colonizado, chamarmos a nós mesmas de feministas. Entendemos que essa palavra nos permite falar de igual para igual com qualquer feminista. É uma estratégia semântica. Mas nós temos nossos conceitos, nossas palavras, nossos argumentos e nossa narrativa para nos apresentar ao mundo.

Não queremos que sejam todas feministas comunitárias, mas que se posicionem diante da redefinição da conceitualização do feminismo. Por exemplo, as irmãs alemãs, espanholas que posição têm como feministas diante da constante migração e da chegada dos corpos de meninas e meninos mortos no Mediterrâneo? De quem é a responsabilidade? Pergunto a essas irmãs feministas o que elas fazem em relação ao racismo em seus territórios, o racismo de mulheres contra outras mulheres? Silêncio, né?

Nós respeitamos as feministas, mas somos mais velhas, mais antigas do que as feministas, que ainda são jovenzinhas, surgiram em 1789 [risos]. Nós estamos lutando desde 1500. E vou lhes dar outro dado: nós já lutávamos muito antes disso. Meu último livro se chama Para descolonizar o feminismo e fala sobre um patriarcado ancestral que nada tem a ver com o patriarcado colonialista.

Muitos de nossos irmãos indígenas dizem “sim, irmã, eu sou machista, é lamentável, mas esse mal veio com os colonialistas”, como se tivéssemos sido uma sociedade inteiramente pura até a chegada dos europeus. E não era assim. Sim, eram sociedades muito mais comunitárias, não havia propriedade privada. E, sim, comparado com o que veio com esse patriarcado colonialista, aqui havia melhores condições para o desenvolvimento da vida, havia melhores condições para as mulheres. Mas nem tudo era perfeito. Nos Andes houve um Império Inca, e a sociedade inca era uma sociedade hierárquica, havia um grupo de dominação. O mesmo no México, os astecas também dominavam outros povos e os faziam trabalhar para uma elite. Então isso deve ser reconhecido.

Então, alguns irmãos querem ouvir até aquela parte em que dizemos que não somos da Revolução Francesa, que estamos lutando contra o colonialismo. “Sim, bravo!” Mas nós também resgatamos as lutas muito mais antigas das mulheres dos nossos povos contra os grupos de poder entre nós mesmos, antes da chegada do maldito colonizador. Aí já não caímos bem para nossos irmãos. Com as feministas, enquanto nos chamávamos de feministas, elas pensavam: “Oba, agora temos índias para colonizar. Vocês querem ser feministas como nós?”. E nós dizemos: “Não, não somos feministas, somos feministas comunitárias”. Ops, pronto, já não gostam de nós. É por isso que há tanta perseguição a mim e ao feminismo comunitário.

O que vocês entendem como patriarcado?

O feminismo de hoje confunde patriarcado com machismo. Esse é um enorme erro político que interessa a esse sistema de dominação. Uma coisa são comportamentos e modos de pensar, outra é a construção histórica de um sistema de domínio.

Para o feminismo comunitário, o patriarcado é o sistema de todas as opressões, discriminações e violências que oprime a humanidade e a natureza. Mas é um sistema construído historicamente sobre os corpos das mulheres. Então, daí vem a necessidade de fazer o feminismo comunitário, porque nós não lutamos só contra o machismo, que são condutas e formas de pensar individuais que dizem que as mulheres são inferiores aos homens. Machistas podem ser homens e também mulheres.

Os machistas são esses estupradores, esses pedófilos que, poxa, estão na sua família, estão na sua comunidade. Ele pode ser um índio de merda que comete crimes, mas é um índio empobrecido e discriminado por um sistema. Não estou criando desculpas para o comportamento dele, até porque ao seu lado está uma índia empobrecida que é vítima desse índio. Mas precisamos entender essa diferença.

O feminismo hoje assume posições puristas, atacam os machistas, como se nós e nossas comunidades não fôssemos também responsáveis. Você não é feminista ou feminista comunitária para se tornar a nova Inquisição. Trata-se de curar o mundo, de resolver problemas, porque esses homens cresceram no meio de nós. Então é preciso diferenciar: uma coisa é o patriarcado como sistema, outra é o machismo como condutas e formas de pensar, coisas que nós podemos mudar.

E o que significa “gênero” para o feminismo comunitário?

Já o gênero são os condicionamentos, as prisões que esse sistema patriarcal impõe sobre os corpos da humanidade. Na humanidade, nós entendemos que há três corpos, não gêneros: mulheres, homens e pessoas intersexuais. Não lutamos para afirmar o gênero de ninguém. Queremos abolir o gênero, assim como também queremos abolir as classes sociais. Nós não lutamos por mais burgueses, não lutamos para que todos sejam proletários. Da mesma maneira, não lutamos para que todos sejam masculinos ou todos sejam femininos. Nós queremos que os gêneros desapareçam para que os corpos possam emergir em liberdade. Para que você seja como quer ser, vista-se como quiser, seja chamado como quiser.

E lutamos contra os comportamentos machistas que os gêneros produzem, como a violência ou as injustiças econômicas.

Então, veja, o machismo interage com as relações de gênero, e ambos estão relacionados a um sistema patriarcal, mas não são a mesma coisa. E isso quem esclareceu foi o feminismo comunitário. Podemos compartilhar algumas reflexões sobre o corpo com outras feministas aqui e ali, mas repito que essa posição se deve a um processo político de mudança na Bolívia, a uma vertente do feminismo anarquista de onde viemos e, também, ao fato de sermos, fundamentalmente, de povos originários.

Entendo que o feminismo comunitário é uma forma completamente diferente de entender a história e as opressões. Como se dá a luta do feminismo comunitário na prática, no cotidiano?

Vamos construindo pouco a pouco, em meio à luta de nossos povos, em todas as lutas dos povos originários. Uma parte é a disseminação de ideias. O mais difícil é como dedicar sua vida a isso.

Para levar adiante um movimento revolucionário, homens e mulheres querem que os homens liderem e, dentro do feminismo, querem que liderem suas fundadoras, as intelectuais. Mas nós somos gente do povo que pensa e crê. É difícil que as próprias mulheres do povo queiram construir uma organização orgânica que é levada adiante por assembleias de mulheres feministas comunitárias, onde tudo o que temos são porta-vozes.

Não adianta só dar like na internet e acreditar que você está fazendo uma revolução. Não serve só sair com sua bandeirinha no 8M ou na Parada Gay. A revolução é um questionamento diário de como somos, de como fomos construídos, de como construímos a nossa feminilidade dentro de um mundo patriarcal, em meio a relações hierárquicas de força, poder, dinheiro, propriedade privada, de posse da Pachamama. Então, isso é todo dia. Você não fará isso sozinha. Você precisa se afastar do conforto da sua cama, da sua televisão e do seu computador e caminhar para encontrar suas companheiras, encontrar suas irmãs e ter isso em sua vida como algo sagrado.

Nós nos organizamos por tecidos. Cada tecido em cada território tece o feminismo comunitário. Mas, nos momentos de decisão, elas são tomadas por aquelas que dedicaram sua vida a isso. Estamos no Chile, Bolívia, Peru, Colômbia, Brasil, México.

De que forma a entrada de Evo Morales no poder permitiu que vocês desenvolvessem o feminismo comunitário?

No processo de mudança revolucionária do povo boliviano, nós utilizamos a figura do irmão e companheiro Evo Morales dentro do uso que também fazemos da democracia burguesa.

A democracia não é a nossa maneira de governar, mas ela nos é imposta. A democracia nasce em 1789, na Revolução Francesa, para legitimar o governo da burguesia sobre todos os povos. No entanto, ao longo da história, a democracia se torna um bem para o povo diante do outro braço da burguesia e do colonialismo racista, que é a ditadura. Portanto, frente à ditadura, a democracia é melhor, mesmo que seja burguesa, ainda que não respeite a vontade do povo.

É como se fosse uma partida de futebol onde o juiz está comprado, a quadra foi adaptada para favorecer o time adversário, e mesmo assim você os vence. Eles não esperavam que o povo boliviano, o Evo Morales, o MAS [Movimiento al Socialismo, partido de Evo Morales], os índios vencessem, de forma decisiva, as eleições controladas por eles. Eles não esperavam que tivéssemos dois terços do Parlamento.

Nesse processo político, tivemos que enfrentar todos esses elementos, e outros dentro do próprio governo e das nossas próprias organizações sociais: a falta de formação política, a falta de escuta, por exemplo, das mulheres. Então o machismo continuou. Sim, nós, mulheres, ganhamos força e lá estávamos brigando. Mas era uma disputa em que os machistas venciam. Não era uma maravilha, mas estávamos em melhores condições. Nós havíamos conseguido, por exemplo, fazer planos para as mulheres que foram reconhecidos, assinados, mas depois não houve financiamento.

Em 2008, o governo boliviano assinou o Plano Nacional para a Igualdade de Oportunidades, chamado “Mujeres Construyendo la Nueva Bolivia para Vivir Bien”, que tinha como objetivo alcançar a igualdade de oportunidades e eliminar a violência de gênero. O que aconteceu com ele?

Não fizeram. Eles saíam internacionalmente dizendo “Oh, que lindo, temos este plano”, mas não havia dinheiro [para implementá-lo].

Em 2008, 2009, foi feita uma primeira unidade de despatriarcalização, mas os próprios homens indígenas do governo colocaram a palavra “despatriarcalização” só como um rótulo sem conteúdo para calar a boca das feministas comunitárias. Porque esses são métodos manipuladores que os próprios irmãos revolucionários também usam.

Mas, a partir de 2014, implantamos a política de despatriarcalização e eles a aceitaram. Com o Plano Nacional de Despatriarcalização, conseguimos introduzir uma reflexão sobre o patriarcado em uma política pública. Tanto Evo como as organizações sociais estavam começando a entender que o patriarcado não é o mesmo que o machismo, porque essa mudança não é da noite para o dia. Em 2019 começou a ser implementada a Secretaria de Despatriarcalização. E aí sofremos o golpe.

Houve muitos erros, irmãs. Em um primeiro momento, Evo lidou com os problemas. Mas depois o poder subiu à sua cabeça.

Agora, o maior erro que cometemos foi não ter produzido irmãos e irmãs com uma liderança forte, capazes de substituir a proposta para as eleições de 2019. Os próprios movimentos sociais não queriam estudar, não queriam se reunir, não queriam vir às Assembleias para discutir. Não foi um erro só do Evo – ele é só uma pessoa e esse processo político pertence ao povo. Nós nunca fomos do partido MAS, sempre do processo de mudança, mas dentro do próprio partido havia gente muito mais de direita e corrupta que queria substituir Evo Morales. Então, quando tivemos que escolher o binômio como povo, dissemos: “É melhor escolher o que já conhecemos e radicalizar a luta do que os que estão por trás”. Mas é claro que o erro não foi só no ano passado, foi no processo.

Julieta Paredes é uma feminista comunitária aimara

Quais foram os avanços e retrocessos durante o governo Evo Morales? O que vocês conquistaram e o que não conseguiram fazer ainda que ele estivesse no poder?

Em termos gerais, podemos dizer que hoje o mundo conhece a Bolívia por causa de Evo Morales. Como povos e como pessoas, já não temos vergonha de ser índios, aimaras, quéchuas, guaranis. É uma dignidade para nós. Esse é um processo histórico que temos que ensinar a nossas filhas e a nossos filhos, porque isso não foi automático. Temos que continuar e aprofundar isso.

Por outro lado, o trabalho foi mais valorizado, as condições de vida melhoraram. Ainda não era o “Viver Bem”, mas tínhamos melhores condições do que antes. Comíamos melhor, não bem, mas melhor. A moradia melhorou. A saúde falhou, ele não fez trabalhos na saúde. As condições materiais melhoraram – estradas, ruas, quase todo o país passou a ter acesso à água. Eles construíram escolas em áreas rurais, que meninas e meninos podiam frequentar, e havia incentivos, bônus para eles irem estudar. Antes, quem não ia para escola eram as meninas. Agora, meninas e meninos já terminaram o ensino médio e poderiam entrar na universidade. Já havia gerações de meninas e meninos indígenas entrando na universidade. Universidades indígenas também em áreas rurais gerenciadas com o conteúdo de nossos povos.

Mas os bancos também multiplicaram seus ganhos, engoliram as poupanças. Não se atendeu à ideia de ter um banco do povo. Os bancos em geral eram privados, cresceram e deram o golpe.

Apesar de termos conquistado os direitos da Mãe Terra em 2012, nos últimos anos começaram as negociações com a agroindústria para acabar com a proibição a transgênicos, aos agrotóxicos. E isso foi um retrocesso para nós.

Ter uma nova Constituição escrita pelo povo foi uma conquista, em que representantes do povo foram eleitos como constituintes e o povo pode apresentar suas propostas. Não foi uma Constituição escrita por um grupo de doutores.

Na Constituição havia, por exemplo, a Justiça Comum e a Justiça Comunitária, e elas tinham que ser valorizadas da mesma maneira. Mas depois foram feitas mudanças, disseram: “Então vamos regulamentar”. Armadilha. A Justiça Comunitária ficou para problemas com galinhas, com vacas. Mas podemos retomar isso. O que queremos é que seja uma Justiça com a participação das comunidades para assumir responsabilidades da comunidade por crimes. Por exemplo, se houver um estuprador em nossa comunidade. Por que o deixamos crescer? Por que nós o deixamos agir? A nossa proposta de Justiça Comunitária é também como pensamos em resolver os problemas de violência contra as mulheres em nossas organizações, em nossos bairros, em nossas famílias.

Uma parte importante do feminismo comunitário é o Bem Viver…

Nós dizemos “Viver Bem”. O “Bem Viver” era dito no Equador pelo ex-presidente Rafael Correa, em que primeiro vinha o “bem” e depois o “viver”.

Para nós, primeiro é preciso cuidar da vida. Porque às vezes é preciso calar-se, e, como povo, sabemos disso. Nós estávamos nas ruas [protestando] contra a ditadura atual, mas já tínhamos 36 mortos. Qual é a utilidade de enfrentar as armas se você vai morrer? Nós tivemos que voltar para casa, mas com muita raiva porque havia uma ditadura e queríamos continuar lutando na rua. Mas às vezes você tem que retroceder, calar-se e aceitar o chicote para conservar a vida. Essa é a sabedoria.

O “viver” envolve a água, o pão, a tapioca, como dizem aqui. Primeiro é necessário cuidar da vida. E depois, construir o “bem”, que é com todos e com todas, não somente com a humanidade, mas também com a mãe e irmã natureza. E não é o “Viver Bem” de uma pessoa. Você não pode viver bem se ao seu lado tiver uma comunidade, um vizinho, um irmão ou pessoas na rua passando fome.

Por que é tão importante que o “Viver Bem” seja uma prioridade para o feminismo comunitário neste momento de crise climática?

No mundo de pensamentos paradigmáticos que são hoje hegemônicos no mundo, as propostas de mudança social estão concentradas, de um lado, no desenvolvimento sustentável e, de outro, na revolução, que é o que pregam os marxistas contra o capitalismo transnacional.

Então, a esquerda – revolucionária, proletária e de classe – lida com o conceito de planeta e da mãe e irmã natureza da mesma forma que o capitalismo: como recursos a serem explorados. Uns dizem que esse recurso deve ser explorado por quem tem capital e que vai torná-lo sustentável, outros dizem que deverá ser explorado pelo proletariado, pelo povo, ou pela humanidade. Mas o centro é a humanidade. Mesmo as propostas dos “verdes”, por exemplo, quando falam em “meio ambiente”, este é um conceito equivocado. O ambiente não é um meio para viver, é a própria vida.

Então estão doidos, como dizem aqui, os capitalistas, os verdes e os marxistas revolucionários se pensam em “desenvolvimento”, se pensam que é necessário desenvolver as forças produtivas para garantir a vida e que, para isso, haverá “efeitos colaterais” [na natureza]. Nós, povos originários que propomos o “Viver Bem”, entendemos a mãe e irmã natureza como parte da nossa vida. Não está separada e não é um recurso. Estamos falando da “não propriedade”, e assim cai o conceito de “desenvolvimento”. Para mim, é uma proposta “antidesenvolvimentista”. Não precisamos de desenvolvimento, precisamos de vida.

É preciso que tanto os verdes, quanto os vermelhos, quanto os capitalistas, questionem isso. E, dentro disso, o feminismo comunitário está radicalizando – não no sentido de “extremar”, mas de aprofundar, criar raízes –, questionando nossos irmãos em relação à reforma agrária, por exemplo. Temos que lutar para libertar a Mãe Terra da propriedade privada, não pela reforma agrária. Tudo bem, nossos avós lutaram, nos anos 1950, pela reforma agrária, numa época em que as condições políticas do capitalismo estavam lá e não havia tempo para refletir. Nossos avós estavam apressados, não sabiam se eram camponeses, se eram trabalhadores ou se eram indígenas. Mas nós já somos os filhos. Na Bolívia, já temos um processo político em que usamos a democracia e fizemos muito mais. Não é maravilhoso, mas é mais. É outro momento.

É isso que o feminismo comunitário propõe. Somos mais radicais. E, por isso, quem vai gostar de nós? Ninguém. [risos]

Por que, na sua opinião, o que aconteceu na Bolívia foi um golpe?

Eu acho que nós deixamos a mística revolucionária de realizar profundas transformações se apagar um pouco nas organizações sociais. Também deixamos grande parte da gestão da vida das pessoas se concentrar no governo, tirando responsabilidades que precisam ser do povo. Além disso, a falta de treinamento político. Não preparamos novas mulheres e homens, novas autoridades. E assumo isso como parte do povo.

Acredito que aqueles que administraram o governo e o poder confiaram mais nos burgueses e capitalistas bolivianos. Eles deram mais importância a querer conquistar a classe média racista, convencê-los a fazer parte do MAS. Alguns setores do governo estavam mais preocupados em mostrar-se cultos perante a burguesia e a classe média do que trabalhar com o povo, aprofundar no processo de mudança, com as irmãs, com os irmãos, na área rural, nas comunidades, nas organizações sociais.

Eles estavam em seus hotéis, em seus espaços de honra, querendo se cercar dos empresários, e não das pessoas. Agora, aqueles empresários com quem eles bebiam vinho, tomavam café e almoçavam, foram eles que deram o golpe. E existe outro erro: ter fortalecido as Forças Armadas e a polícia com armas, carros, dinheiro, aposentadorias integrais, quando o que deveriam ter feito era desarmar. Porque os exércitos e a polícia nunca estarão a favor do povo. E contra eles o povo nunca vai vencer. Nós só vamos vencer com a força das nossas ideias e com a luta nas ruas.

Esses foram os erros que se voltaram contra o processo de mudança.

Você acredita que Evo se distanciou do povo e não havia mais tanta força para combater o golpe?

Houve força. Saímos, mas saímos desorganizados. Estávamos nas ruas, mas não estávamos defendendo o Evo. Estávamos defendendo nosso processo. O Evo é um símbolo. As pessoas não são descartáveis, não é que nós o usamos como presidente e agora vamos botá-lo na lixeira. Não, ele é um irmão, um companheiro, e cometeu erros assim como nós.

Mas nós saímos mais fortemente quando mataram nossos irmãos, quando queimaram as casas de nossos companheiros, quando queimaram e pisotearam a Whipala [bandeira multicolorida típica dos povos andinos], que é um símbolo ancestral.

Agora estamos recuperando a força. Não creio que precisávamos do golpe, mas lamentavelmente aconteceu e creio que este momento está servindo para refletirmos. Não precisávamos de 36 mortos.

Mas esse movimento, no processo de mudança, já estava acontecendo. Nós mesmas dizíamos: “Bom, vamos votar [em Evo Morales] no dia 20 de outubro e no dia 21 já estamos aí, contra”. Porque nós sabíamos que íamos ganhar. E ganhamos as eleições. Não houve fraude. Mas nos tiraram aquelas eleições, como vai acontecer com a próxima eleição [inicialmente prevista para maio, mas que foi adiada devido à pandemia]. Vamos ganhar as eleições porque estamos em primeiro [nas pesquisas], mas não vão nos dar o governo.

Muitos dos que saíram às ruas contra Evo Morales, inclusive intelectuais e feministas, hoje se arrependem, hoje dizem que há uma ditadura. Primeiro diziam que não havia ditadura, que não havia golpe. São uns irresponsáveis. É que esses intelectuais, essas feministas são racistas. Foram às ruas por seu racismo contra os índios, contra o índio, e agora olha o que temos, uma ditadora.

Você acredita que há uma ditadura na Bolívia hoje?

Claro. Quais são os elementos de uma ditadura? Há a formalidade, o fato de que não é legal nem constitucional que essa mulher [Jeanine Áñez], que era senadora seja hoje a presidente. Além disso, há o aspecto simbólico. Os militares e a polícia [estão no poder], não o Parlamento nem o povo. Os meios de comunicação estão censurados e controlados.

Não há legalidade institucional, nem justiça, nem processos devidos. Te prendem nas ruas, ou usam os mecanismos legais para te pôr na prisão. Todos sabemos o que é uma ditadura: vem o militar, chuta a porta e entra na sua casa, e te tira de lá pelos cabelos. Agora é uma nova forma de ditadura: vem um fiscal ou um juiz, e não chutam a porta, mas batem na porta, te mostram um papel e te levam para a prisão da mesma forma.

Há massacre. Há tortura nas ruas, nas prisões, nas delegacias. Existe tortura física, tortura e perseguição psicológica, e ameaças à sua família, a você.

Em termos da administração da economia, também é uma ditadura porque eles definem quem vai ou não ganhar dinheiro. Então colocam gente corrupta que hoje está administrando as grandes empresas que são do povo e estão fazendo com que falhem, para que possam vendê-las aos empresários.

“Há uma ditadura na Bolívia hoje”, afirma a ativista Julieta Paredes

O que você contou sobre o que aconteceu com Evo Morales, tanto os avanços quanto as “traições” em relação ao povo e agora a ruptura, soa muito como o que aconteceu no Brasil. Quais são as semelhanças e diferenças entre o que ocorreu no Brasil com o PT e o que está acontecendo na Bolívia?

Creio que são processos parecidos, mas não iguais. Acredito que a diferença entre o PT e o MAS é que o MAS é uma coordenação de organizações sociais do povo, havia um pacto de unidade. Não é um partido com uma direção como o PT.

O Lula é um irmão proletário. Ele não traz a memória da ancestralidade. Então, ele usa os conceitos de classe que têm suas raízes na Europa. E, portanto, o governo geriu os territórios e a mãe e irmã natureza como um recurso. Na Bolívia, tentamos criar os direitos da mãe natureza, ela não era um recurso, embora também tenham sido feitas concessões.

A intenção de estar com o povo, de tirar da pobreza a maior quantidade de gente possível, isso era comum ao Evo e ao Lula. Ambos fizeram políticas para investir no povo, repartir o dinheiro, políticas de inclusão.

Mas aqui creio que os índios ainda são vistos mais ou menos como os “macaquinhos”. Então não é preciso levá-los muito a sério. Mas quem sai desde o primeiro dia às ruas para lutar por seus direitos? Quem está conservando a esperança? Os povos originários, que em todos os territórios estão morrendo.

Aqui mesmo no Jaraguá. Quantos ecologistas vieram apoiar o povo guarani na recuperação contra esta imobiliária Tenda, que derrubou árvores? Onde estavam o PT ou os irmãos sem-terra? Na porta, com cartazes, gritando junto com os índios? Não.

Lá na Bolívia, da mesma maneira, quem está defendendo o MAS? Quem está indo para a rua? Organizações indígenas, camponesas, originárias, o povo. Onde estão os que eram do governo, aqueles que faziam parte dos intelectuais do MAS? Estão perdidos.

Agora, acredito que é importante que o Brasil e os povos originários daqui aprendam com a memória das lutas que ocorreram e ocorrem na Bolívia. Não é à toa que defendemos a Whipala, que é um símbolo da unidade na diversidade não só da Bolívia, mas de toda a Abya Yala.

Então, acho que o golpe aqui no Brasil é um golpe mais dissimulado, não é tão evidente. O golpe aconteceu por via eleitoral, por meio das igrejas, dos partidos, do marketing político. Mas aqui também houve um golpe.

Na Bolívia houve um golpe e há uma ditadura que não teve medo de matar, de reprimir, de levar tanques e militares às ruas. Lá não é dissimulado, sabe por quê? Porque é um governo índio. Fizeram isso porque não há respeito, não há vergonha. Aqui há respeito porque não é um governo índio. É um governo proletário.

Como é possível conciliar a construção a longo prazo do feminismo comunitário com as necessidades urgentes do povo? A Bolívia é o país da América do Sul com a mais alta taxa de feminicídio. Como o feminismo comunitário combate isso?

Na Bolívia, foram feitas leis para tentar garantir às mulheres uma vida livre de violência. Mas a mudança de comportamento não se resolve com leis, prisão, punição. Você pode dizer “é errado mentir”, mas as pessoas mentem.

A Lei Maria da Penha e a 348 na Bolívia servem para que, em nível sistêmico e institucional, se diga “isto é um delito”, porque antes o patriarcado admitia a violência contra a mulher. Mas só a cultura e a educação podem mudar as condutas machistas – que é quando dizem “cale-se” para uma mulher – e aí não houve propostas.

Essa é nossa tarefa como feministas comunitárias e com as companheiras que queiram construir junto: temos que criar nas escolas, nas igrejas, em todo lugar, mecanismos, metodologias didáticas, formas de educar de não violência. Se o patriarcado, o sistema de opressões que oprime as mulheres, homens, pessoas intersexuais e a mãe e irmã natureza, foi construído nos corpos das mulheres, se trabalharmos com essa violência contra o corpo das mulheres, estamos influenciando a raiz, é radical. Isso começa a subir a todos os tecidos sociais. Não é aceitável bater nas mulheres nem em ninguém, nem nos cachorros, nem homens em homens, nem crianças em crianças, nem meninas em meninos.

Como vamos parar os feminicídios? Trabalhando nas escolas, nas igrejas, nas aldeias, nas comunidades. Organizando-nos.

Mas não podemos viver com medo. E por isso é ruim a maneira como o feminismo se organiza. As feministas se organizam pelo aborto e contra a violência contra as mulheres, ou seja, é pelo medo. Mas nós queremos viver a utopia aqui, na comunidade. Agora lutamos pelo direito de decidir por nós mesmos e vamos decidir, mas também queremos comer uma boa refeição, vamos nos divertir, vamos brincar, vamos dançar, tomar uma cervejinha, vamos curar, vamos cuidar de nós mesmos quando estamos doentes, vamos celebrar aniversários. Isso é a utopia.

Mas isso não pode se limitar em nós mesmas. É preciso que o mundo esteja bem. A utopia não é o que vem, mas o que estamos construindo. E a força, a radicalidade, a criatividade e a inteligência com as quais estamos construindo. É o que estamos vivendo, porque estamos construindo da forma que sonhamos. A utopia não é o que não pode ser, mas o melhor que se pode ser.

Créditos de imagens

 José Cícero da Silva/Agência Pública
 José Cícero da Silva/Agência Pública
 José Cícero da Silva/Agência Pública
 José Cícero da Silva/Agência Pública
 Agência Pública
 José Cícero da Silva/Agência Pública


Esta entrevista foi sugerida e escolhida pelos nossos Aliados. Quer participar? Seja Aliado da Pública!

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

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Tuesday, 19 August 2014

Povos e comunidades tradicionais do Centro Oeste se reuniram para reflexão e mobilização

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Povos e comunidades tradicionais do Centro Oeste se reuniram para reflexão e mobilização

Encontro de Povos e Comunidades Tradicionais do Centro Oeste ocorreu de 12 a 15 de agosto de 2014 em Cuiabá/MT

Por Maíra Ribeiro/AXA

Pantaneiros, retireiros, indígenas, raizeiras, morroquianos, quilombolas, pescadores, ciganos, povos de terreiro e extrativistas. Cada um com sua cultura, cada um com sua riqueza. Imagine agora, todos eles juntos num encontro? O resultado desta diversidade foi muita troca e beleza, mas também discussão e reivindicação. O Encontro de Povos e Comunidades Tradicionais (PCT) da Região Centro-Oeste terminou na sexta-feira passada (15) em Cuiabá, após três dias intensos de plenárias, reuniões e grupos de trabalho. Ao todo, estavam reunidos 120 representantes da sociedade civil, incluindo a juventude e os membros da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT). Todos os três estados do Centro Oeste e o Distrito Federal estavam presente.
O tema do encontro foi Territórios, discutidos nos quatros eixos norteadores da Política Nacional de Desenvolvimento para Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT): Acesso a territórios e recursos naturais; Infraestrutura; Inclusão social; e Produção e fomento. O encontro contou também com momentos de acolhida, como as místicas e com apresentações artísticas. Estes espaços trouxeram para o encontro os seus símbolos e a exuberância da diversidade cultural presente.
Da região do Araguaia Xingu, estiveram presentes representantes dos Retireiros do Araguaia, do município de Luciara. Os Retireiros do Araguaia praticam pecuária de subsistência em pastagens nativas das áreas inundáveis do Rio Araguaia. Sua principal reivindicação é a proteção do território utilizado tradicionalmente através da criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Rubem Sales, liderança entre os retireitos e membro da CNPCT, participou de uma mesa junto ao Ministério Público Federal e a Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (SPU/MP). Rubem apresentou, nessa mesa, os conflitos territoriais da região Centro Oeste. Em sua luta, os Retireiros do Araguaia tem sofrido ameaças e violência por parte de fazendeiros e comerciantes da região.
A mesa de abertura do Encontro contou com representantes da sociedade civil, do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), da SPU/MP e Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH/MT). Na mesa de abertura, os pescadores entregaram ao ICMBio um pedido de reserva de pesca na região de Cáceres.

Discussão e mobilização

Viola de cocho é música tradicional do Centro-Oeste!
Através dos Grupos de Trabalho e reuniões, o encontro cumpriu as metas de avaliar a atuação da CNPCT – formada por 15 representantes da sociedade civil e 15 do governo – e eleger representantes e delegados para participar do II Encontro Nacional, que ocorrerá de 24 a 27 de novembro em Brasília. Além destas, um objetivo do encontro era refletir e gerar recomendações sobre o Projeto de Lei (PL) 7.447/2010. Este PL estabelece diretrizes para as políticas públicas de desenvolvimento sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais.
Porém, foi outro PL que gerou maior mobilização no encontro. O Projeto de Lei 7.735/2014 regula o acesso ao patrimônio genético e os conhecimentos tradicionais associados. Entretanto, foi avaliado que o PL apresenta falhas significativas e não protege de fato os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Neste sentido, os participantes foram enfáticos deliberando que a CNPCT peça não só o cancelamento do pedido de urgência de votação do PL, como retire por completo o Projeto de Lei do Congresso Nacional. Para tanto, foi produzida durante o encontro uma carta à Presidência da República que pode ser lida aqui. Foi solicitada também audiência pública com o Secretário Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que já tem conhecimento do pedido de suspensão do PL. O processo será acompanhado por membros da Comissão Nacional indicados no encontro.
Além desta carta, o encerramento foi marcado pela leitura de outros documentos produzidos durante o encontro, como moções de repúdio e as cartas de manifesto sobre os impactos de hidrelétricas e da soja. O documento principal foi a Carta da Região Centro-Oeste, elaborada durante o encontro e com participação de vários representantes dos segmentos.
Para Cláudia Regina Sala de Pinho, da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras, a avaliação do encontro foi muito positiva. “O encontro foi um momento de conquista para a visibilidade da diversidade dos segmentos que sempre resistiram na região Centro Oeste. Esperamos que as reivindicações feitas aos orgãos competentes, seja por meio das cartas, seja nas colocações diretas das representações, sejam atendidas”. Em Mato Grosso, o foco é construir espaços institucionais no âmbito estadual. “Estamos reivindicando que seja aberto espaço de discussão para formar o Conselho Estadual de PCT e a Política Estadual de PCT” afirma Cláudia. O movimento já iniciou uma conversa neste sentido com a SEJUDH, e espera realizar uma primeira reunião, este ano ainda, com o Grupo de Trabalho de representantes de PCT para começar os debates.
Este é o terceiro encontro regional preparatório para o nacional. Os anteriores foram em Belém e Salvador, e o próximo será em Curitiba, de 25 a 29 de agosto. No Encontro Nacional que ocorrerá em novembro em Brasília,  serão apresentados os resultados dos encontros regionais, por meio de avaliação e sugestão de aprimoramento da Comissão Nacional e da PNPCT. Pela Política Nacional, são considerados povos e comunidades tradicionais: indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores, seringueiros, castanheiros, quebradeiras de coco-de-babaçu, fundo e fecho de pasto, povos de terreiro, ciganos, faxinalenses, ribeirinhos, caiçaras, praieiros, sertanejos, jangadeiros, açorianos, campeiros, varjeiros, pantaneiros, geraizeiros, veredeiros, caatingueiros e barranqueiros.

Imagens: Cláudia de Pinho
Por Maíra Ribeiro/AXA

Saturday, 9 November 2013

Ribeirinhos sofrem impactos de mudanças climáticas

IHU
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/525399-ribeirinhos-sofrem-impactos-de-mudancas-climaticas

Ribeirinhos sofrem impactos de mudanças climáticas

Belém recebeu no mês de outubro cientistas da Ásia, África e Américas discutindo impactos das mudanças climáticas nas zonas costeiras do mundo. Foi durante o Workshop Internacional sobre Mudanças Climáticas, evento foi promovido peloNúcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Um dos temas mais discutidos foi como as populações estão enfrentando impactos ambientais que já podem ser percebidos. Na região do estuário do Amazonas, em Abaetetuba, a situação é preocupante, afirma Oriana Almeida, doutora em Ciências Socioambientais pela University of London, que tem realizado pesquisas com os ribeirinhos da região.
Nesta entrevista aos repórteres Ismael Machado e Iaci Gomes, e publicada pelo jornal Diário do Pará, 05-11-2013, a professora adjunta do Naea, que soma experiência na área de economia de recursos naturais e pesqueiros, fala ainda das soluções que os ribeirinhos encontram para enfrentar essas mudanças – e como isso pode ser visto a longo prazo. Confira:
Eis a entrevista.
Sobre mudanças climáticas, é comum ver um conflito de opinião entre pesquisadores: alguns dizem que não é tão absurdo assim e outros falam o contrário, que estamos vivendo um período quase catastrófico. Como você avalia isso?
O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que saiu recentemente, mostra que em menos de um século o nível do mar já subiu vinte centímetros. A estimativa é de que até o fim de 2100 aumente mais um metro, ao todo. Você imagina o impacto que é. No relatório do IPCC eles não fazem pesquisa básica, e sim, uma sistematização de todas as pesquisas que estão sendo feitas sobre o tema. Então, as pesquisas indicam que vamos ter sim um aumento de temperatura e do nível do mar. Olhando os dados desse último relatório já podemos afirmar que houve o aumento de 20%. A quantidade de carbono na atmosfera tem aumentado e já temos uma redução das calotas polares.
Um dos principais assuntos discutidos durante esse workshop foi a questão das comunidades ribeirinhas e como elas já são afetadas por essas mudanças climáticas. Como isso acontece?
O nosso projeto começou há pouco tempo. Ele tem apenas um ano. O workshop envolveu a apresentação de seis projetos que trabalham com mudanças climáticas e adaptações. Como é que a população vai se adaptar? Esse é um trabalho em longo prazo, olhando para o futuro.
Tivemos a apresentação de um trabalho muito interessante da África do Sul em que eles calcularam uma estimativa de quanto o nível do mar deve subir por lá. Com base nesse trabalho o governo já fez uma estrutura proibindo construções a partir de agora naquela área. Também teve o trabalho de um professor do Egito sobre o delta do Nilo, mostrando que lá também vai ter uma grande inundação com o aumento de temperatura. O nosso trabalho ainda está bem no início e temos posições um pouco diferentes. Dentro do estuário amazônico, na região de Abaetetuba, onde trabalhamos, ainda não conseguimos ter uma resposta consistente de que está havendo mudanças. Mas, quando você entra mais para o Marajó e chega ao Amapá, que são dois outros sítios de trabalho, em termos de percepção, os ribeirinhos têm sentido.
No projeto vocês falam sobre estratégias que os ribeirinhos usam para “escapar” ou mesmo se adaptar a essas mudanças que já vêm acontecendo. Quais?
Por exemplo, se você tem uma economia diversificada, então eles estão acostumados a mudar de atividade. Se há uma mudança no sentido de ampliar a pesca do camarão e reduzir um pouco o açaí, várias famílias têm começado a plantar as espécies frutíferas nas suas áreas, nos seus quintais, como o cupuaçu. Então, se você tem isso dentro da estrutura produtiva deles, de estar sempre se adaptando, então tem potencialmente uma população com mais capacidade de fazer essa adaptação.
Você mencionou o exemplo do Nilo e da África do Sul. Neste último houve uma parceria dos pesquisadores com o governo. Historicamente, não temos essa parceria funcionando de forma integrada no Brasil e ainda mais na Amazônia. Um trabalho desse tipo de aplicabilidade seria muito produtivo e prático para o planejamento municipal e estadual, mas nós não temos a tradição de que os governos olhem para o que os pesquisadores estão fazendo. Como você acha que isso pode ser melhorado?
Há um trabalho que a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) faz sobre esse impacto de emergência extrema que tem uma estrutura bem interessante. Eles fazem uma estimativa de onde é mais provável ter inundações e, portanto, se exija suporte da Defesa Civil. Nesse projeto a gente tem intenção de que a nossa climatóloga faça um modelo de previsão de grandes marés. No futuro, pensamos em integrar isso com esse sistema de controle de emergências e prevenção que há na Sudam.
Mas vocês estão confiantes de que serão aceitos e ouvidos?
Eu acho que quando realmente forem notados impactos grandes, sim. Nesse sentido, eles têm uma parceria interessante. A Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (Sectam), a UFPA e a Sudam, para esse aspecto, que afeta a população diretamente. Se você está pensando em mudanças climáticas, aí realmente precisa de dados de qualidade para mostrar que as cidades ribeirinhas realmente estão no nível do mar, por exemplo, e que se tiver uma inundação vai ter um custo alto. Eu acho que isso é um fator de preocupação.
Vamos pensar nos dois cenários: um mais negativista e outro mais positivo. No pessimista, o que poderia ocorrer com a Amazônia por causa dessas mudanças?
O nosso projeto fala sobre adaptação da população ribeirinha a ambientes extremos. O que temos achado interessante nesses estudos iniciais é que essa população vive sob o efeito de mudanças anuais e muito grandes. Ela tem mudanças de preços de produtos, de estoque pesqueiro, mudanças por causa de hidrelétricas construídas. Então o que temos observado é que essa população tem uma capacidade grande de se adaptar. Também notamos que ao longo do tempo a estrutura de renda dessas famílias mudou bastante. Por exemplo, temos simulações que mostram que há vinte anos, 90% dessa renda era proveniente de atividades produtivas.
Agora, cerca de 45% da renda vem de transferências do governo,. Aposentadoria, bolsa família, seguro defeso e salário. Isso é interessante por que de um lado reduz a dependência dos recursos naturais. Você vai ter uma população grande e densa como a do Estuário afetada por mudanças climáticas que, pelo relatório do IPCC, têm efeitos que só vão aumentando. De um lado é bom por que como eles têm essa economia diversificada que permite que se tenha uma estratégia de maior adaptação. Não significa que eles não vão sofrer com isso. Mas eles têm estratégias históricas que permitem que se adaptem melhor.
Sabemos que há toda uma pressão externa sobre o desmatamento nessas comunidades ribeirinhas. Como está a situação nesse sentido?
Nesta comunidade ribeirinha na região do estuário o que acontece é um sistema de substituição de floresta nativa por açaí. Um processo que o Hiraoka chamava de “açaízação” da região do estuário. Dessa forma, eles vão reduzindo as espécies da mata de várzea mesmo, cortando principalmente as que têm valor econômico e expandindo a mata de açaí. Você chega a regiões em que só se tem praticamente um açaizal, o empobrecimento da floresta. Por outro lado, há uma fonte de renda para a população. Para a diversidade e a estrutura florestal primária é negativo, para população que utiliza o recurso e o vende é melhor.
Corremos o risco dessas populações ribeirinhas serem expulsas de onde estão com essas mudanças e irem para as periferias das cidades?
A situação de quem mora na região do estuário é bem crítica, por que eles não têm muitas alternativas. Praticamente o que vemos é que são dependentes do açaí e um pouco da pesca, mas essa já nem é tão forte quanto era no passado. Alguns grupos dependem do artesanato na região de Abaetetuba, mas não é maior parte da população. Acho que eles estão, em longo prazo, numa situação crítica, já que as alternativas de renda deles serão limitadas. Acho que é bem preocupante, por que é uma população muito densa. Se você pensar no estado do Amazonas, tem 0.3 pescadores por quilômetro quadrado, em Santarém você já tem três pescadores por quilômetro quadrado. A população tem que se preparar pra isso. Numa linha de tempo de 20, 30 anos, já se começa a sentir como eles têm pouca possibilidade por causa das inundações de áreas, poucas alternativas econômicas. Eles não têm áreas para agricultura e as poucas que existem podem ser inundadas. Aí, quem vivia da agricultura muda pra produção do açaí, quem tem um terreno mais alto e plantava mudou para produzir açaí. Se essas áreas são inundadas, há uma perda grande para a população do Estuário em partes mais baixas.

Monday, 27 May 2013

escola,comunidade e educação ambiental - SEDUC, 2013


SATO, Michèle; GOMES, Giselly; SILVA, Regina (Orgs.). Escola, comunidade e educação ambiental: reinventando sonhos, construindo esperanças. Cuiabá: Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT), 2013, 356p. [ISBN 9788586422386].



O livro possui 6 clusters: 
I. Cluster HUMANIDADES
(1) CLUSTER DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL: DO EU ISOLADO AO NÓS COLETIVO
Michèle Sato

Este é o primeiro capítulo porque trata-se de uma breve introdução à educação ambiental, além de apresentar os demais capítulos.

(2) O QUE É ISSO DE FILOSOFIA HONESTA E DECENTE?
Luiz Augusto Passos

É um denso convite à filosofia, com especial foco na fenomenologia. É um passeio geral nas teorias filosóficas com linguagem mais simples e bastante importante às reflexões necessárias à educação ambiental, às pessoas, ao mundo e à vida.

(3) TEXTO E IMAGEM DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Michèle Sato e Imara Quadros

Originalmente foi concebido para contar a educação ambiental por meio de imagens, mas depois as autoras acabaram mudando de ideia, trazendo um histórico imagético bastante elucidativo da dimensão ambiental; desde o seu surgimento, alguns eventos e fenômenos que foram marcantes na trajetória da educação ambiental.

(4) ARTE-EDUCAÇÃO-AMBIENTAL
Ivan Belém, Herman Hudson, Imara Quadros, Michèle Sato

Neste capítulo, trouxemos o corpo, o som e a imagem nos enredos da arte-educação-ambiental, buscando trançar a arte como um componente essencial da educação ambiental. Não apenas no lúdico, nas dinâmicas ou na mera “instrumentação pedagógica”, mas de forma intrínseca e orgânica.



II. Cluster LINGUAGENS
(5) EDUCAÇÃO AMBIENTAL E LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO
Sonia Palma

Quando o assunto é a língua portuguesa, diversas atividades são possíveis no contexto da educação ambiental: poesia, contos, narrativas, atividades extraclasses ou vários enredos que tornem as diversas linguagens conectadas ao mundo expressivo da educação ambiental.

(6) LA LENGUA ESPAÑOLA Y SUS APLICACIONES PARA EDUCACIÓN AMBIENTAL EN ENSINO MEDIO
Itziar Fernández Cortés, Sonia Palma, Aitana Salgado Carmona, José Miguel Vicente Espinosa

Brasileira e espanhóis de uniram neste enredo que traz o surrealista Salvador Dalí na introdução de um texto cheio de atividade e criação para que a língua espanhola consiga fazer parte desta grande orquestra da educação ambiental. Inúmeros exemplos e boas práticas são considerados neste capítulo de idioma estrangeiro.

(7) A EDUCOMUNICAÇÃO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO ESPAÇO ESCOLAR
Benedito Diélcio Moreira, Maria Liete Alves Silva

Rompendo com a tradicional forma da comunicação de privilegiar o emissor da notícia, a educomunicação chega dando a ênfase no receptor da mensagem, aliando a formação com a informação. Para a educomunicação ser belamente concretizada, é essencial as intervenções participativas com os sujeitos envolvidos.



III. Cluster DIVERSIDADES
(8) INCLUIR A DIVERSIDADE: COMPROMISSO ÉTICO DA EDUCAÇÃO
Angela Maria dos Santos, Débora Eriléia Pedrotti-Mansilla

Ambas são professoras da SEDUC, e elas conversam sobre a importância das diversidades (no plural), no respeito à autonomia dos povos, comunidades tradicionais ou grupos sociais diversos que necessitam ser incluídos nos processos das tomadas de decisão de forma igualitária e justa.

(9) EDUCAÇÃO QUILOMBOLA: UMA EXPERIÊNCIA EM MATA CAVALO
Denize Amorim, Imara Quadros, Ivan Belém, Liete Alves, Michelle Jaber, Regina Silva

Por meio de um estudo de caso em Mata Cavalo, projeto de pesquisa do GPEA, os autores tecem as considerações sobre a comunidade quilombola, o indesejado racismo ambiental, a noção de justiça ambiental e a proposta da educação quilombola.

(10) EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA
Adriana Werneck Regina e Artema Lima

Iniciando um belo trajeto histórico da educação escolar indígena, inclusive com fotografias da época, o texto se desloca no tempo à atualidade, revelando os limites e os potenciais da educação indígena, na tradição e inovação de uma educação que sempre manteve intrínseca conexão com a natureza.

(11) EDUCAÇÃO AMBIENTAL EMANADA COM A EDUCAÇÃO DO/NO CAMPO
Ronaldo Senra e Giseli Dalla Nora

O campo merece especial consideração no contexto da educação ambiental, não apenas porque a paisagem natural é mais presente, mas também porque as pessoas que habitam esta paisagem têm diferentes modos de vida e que a proposta educativa deve ser moldada com as características da educação do campo.

(12) YO NO CREO EN LAS BRUJAS, PERO…
Adriana Werneck Regina, Artema Lima, Ivan Belém, Michèle Sato

Não existe um país sem mitos e eles se fazem intensamente interessantes à educação ambiental, já que os fenômenos da mitologia constantemente associam a natureza humana aos elementos da natureza. Destacando o mito africano e o indígena, o texto narra sobre as origens, fenômenos sociais e naturais.



IV. Cluster EDUCAÇÕES
(13) A EDUCAÇÃO INCLUSIVA E OS PRINCÍPIOS DA CARTA DA TERRA: UM PROFÍCUO DIÁLOGO NA BUSCA DA JUSTIÇA SOCIAL
Edna Lopes Hardoim, Debora E. Pedrotti-Mansilla, Giselly Rodrigues Gomes; Tatianne F. Lopes Hardoim

Incluir todas as pessoas, inclusive os deficientes físicos é também a proposta da educação ambiental inclusiva, que além de ancorar as perspectivas na belíssima Carta da Terra, narra o histórico, dá pistas, informações e conceitos gerados na construção das políticas públicas que sejam, de fato, para todos.

(14) EDUCAÇÃO INFANTIL EM DIÁLOGO COM O TRATADO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA SOCIEDADES SUSTENTÁVEIS E RESPONSABILIDADE GLOBAL
Lúcia Shiguemi Izawa Kawahara

A beleza do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e de Responsabilidade Global alia-se à educação infantil, tornando o vigor da educação ambiental necessária desde a tenra idade, em processos pedagógicos da ética do cuidado.

(15) EDUCAÇÃO FÍSICA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: REFLEXÕES SOBRE A EDUCAÇÃO DO CORPO E A NATUREZA
Beleni Salete Grando, Marcia Cristina Rodrigues da Silva Coffani, Cleomar Ferreira Gomes

O corpo está em evidência neste capítulo sobre a educação física, que traz a corporeidade para além da noção física, entrelaçada no bojo das discussões interdisciplinares que envolvem a cultural, o esporte e o lazer nos enredos da educação ambiental.



V. Cluster SOCIAIS
(16) SOCIOLOGIA
Adriana Werneck Regina, Camila Emanuella Pereira Neves, Edson Caetano, Ema Maria Silveira

Estará a cultura separada da natureza? Esta é uma pergunta frequente na educação ambiental, que tem o legado do pensamento Moderno em segregar corpo e mente, buscando decodificar a complexidade da realidade social. Sem a pretensão de esgotar o debate, o texto em sociologia traz ainda outras questões práticas muito interessantes.

(17) HISTÓRIA: SEU CAMINHAR AO LADO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Ivan Belém e Rosana Manfrinate

O sujeito histórico atuante no campo da educação ambiental busca conciliar os temas ecológicos com os aportes sociais. Deste diálogo, os autores fazem emergir a importância da história na constituição dos sujeitos, na construção da sociedade, nos avanços científicos, nas cirandas artísticas e nas dimensões ambientais.

(18) A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O POT-POURRI DA GEOGRAFIA URBANA
Giseli Dalla Nora, Valdiney Vieira da Silva

Os geógrafos se intitulam “administradores do espaço” pela prerrogativa de terem em sua formação o forte enfoque do planejamento e da organização territorial. Percebendo o espaço como ambiente, a geografia dá sua contribuição à educação ambiental, com especial destaque à região urbana.

(19) IDENTIDADES, TERRITÓRIOS E CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS DO ESTADO DE MATO GROSSO
Michelle Jaber, Regina Silva e Michèle Sato

Uma vez que estamos nos referindo ao estado de MT, quem são as pessoas que habitam este território? Como vivem? Quais problemas e sonhos carregam? Estas são algumas perguntas respondidas pelo texto por meio da metodologia do mapeamento social, que une identidade, território e educação ambiental.


VI. Cluster NATUREZAS
(20) O DIÁLOGO DO ENSINO DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL, UM OLHAR SOBRE AS MUDANÇAS AMBIENTAIS GLOBAIS
Giselly Gomes, Michelle Jaber e Regina Silva

A porta de entrada a este complexo mundo das ciências ocorre pelas mudanças ambientais globais, em especial à mudança climática. Alicerçando o discurso em todas as áreas das ciências naturais, as autoras transcendem esta dimensão incorporando também a sociedade como proposta da educação ambiental.

(21) MODELAGEM MATEMÁTICA: UMA PERSPECTIVA METODOLÓGICA PARA INTEGRAR QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS À MATEMÁTICA EM SALA DE AULA
Evilásio José de Arruda, Ivo Pereira da Silva, Jacqueline Borges de Paula

Se alguém considerava que a matemática não tinha relação com o ambiente, os autores deste capítulo sugerem diversas experiências possíveis por meio da modelagem matemática. Simulando a realidade, a matemática mantém suas características e dialoga com as dimensões socioambientais nas longas páginas das vivências pedagógicas.

(22) A FÍSICA DO OPRIMIDO
Guilherme Tomishiyo Teixeira de Sousa

O capítulo inicia com a crítica de que a ciência esteve sempre atrelada aos interesses do capital e da elite, dando exemplos clássicos como a bomba nuclear. No paralelo com Paulo Freire (pedagogia do oprimido), o autor reivindica por uma física cotidiana, capaz de subverter a ordem hegemônica e ousar uma física do oprimido.

(23) EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE BIOLOGIA
Regina Silva, Michelle Jaber e Giselly Gomes

Entre tantos temas possíveis, principalmente à guisa das revoluções genéticas, a escolha pela biodiversidade foi acertada nas considerações da biologia no ensino médio. Tecendo considerações sobre o ensino médio, as autoras fazem emergir o ensino da biologia no contexto das responsabilidades socioambientais.


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