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Saturday, 16 February 2019

Ameaçado por cortes na cultura, cinema negro brasileiro é reconhecido fora do país

https://www.brasildefato.com.br/2019/02/15/ameacado-por-cortes-na-cultura-cinema-negro-brasileiro-e-reconhecido-fora-do-pais/

AVANÇOS E RETROCESSOS

Ameaçado por cortes na cultura, cinema negro brasileiro é reconhecido fora do país

Mostra de filmes protagonizados e dirigidos por negros foi destaque no Festival de Roterdã

Brasil de Fato | São Paulo (SP)
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Alma no Olho (1973), é o filme de estreia do diretor brasileiro Zózimo Bulbul / Reprodução
Invisibilizado e muitas vezes ignorado pelos festivais brasileiros, o cinema negro desempenha uma função de reivindicação da cultura afro-brasileira e resiste em meio à falta de incentivos, algo que pode se intensificar com o governo de Jair Bolsonaro. Na contramão dos cortes, filmes protagonizados e dirigidos por negros ganham reconhecimento em mostras e festivais como o de Roterdã.
Ainda durante a campanha, Jair Bolsonaro havia prometido a transformação do Ministério da Cultura em uma pasta do Ministério da Cidadania, o que se concretizou após sua eleição. Com a extinção do ministério, a Ancine ficou sob o comando de Osmar Terra (MDB), deixando a classe artística desamparada e sem perspectiva de novas políticas afirmativas, o que se soma a outras decisões anticultura do governo como a reavaliação dos patrocínios de incentivo à produção cultural da Petrobras.
"Reconheço o valor da cultura e a necessidade de incentivá-la, mas isso não deve estar a cargo de uma petrolífera estatal", afirmou Bolsonaro em seu Twitter. De acordo com ele, o Estado tem maiores prioridades.
Em 2016, ano em que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) começou a registrar dados sobre raça no audiovisual, nenhuma mulher negra dirigiu ou escreveu nenhum dos 142 longas-metragens brasileiros lançados, e apenas 2,1% dos longas foram comandados por homens negros. Já em 2017, somente 16% dos 160 filmes lançados foram dirigidos exclusivamente por mulheres, e nenhum por uma mulher negra. No Brasil, onde 54% da população é negra, dos filmes lançados em 2016, apenas 13,3% do elenco era negro.
São exceções os longas e curta-metragens dirigidos e protagonizados por pessoas negras que ganham maior destaque em mostras nacionais. Um exemplo é o filme baiano Café com Canela (2017), de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que participou do Festival de Roterdã em 2018. O longa ainda venceu através do juri popular a categoria de Melhor Filme, do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o que rendeu o Prêmio Petrobras de Cinema e sua distribuição em circuito nacional.
No festival, o cinema negro foi contemplado por um número maior de inscrições em 2018 e de uma premiação destinada à temática negra: o Prêmio Zózimo Bulbul. Ainda assim, apenas 11% dos filmes da edição foram dirigidos por negros.
A mostra Soul in the eye — Zózimo Bulbul’s legacy and the contemporary black Brazilian cinema [Alma no Olho - O legado de Zózimo Bulbul e o cinema brasileiro negro contemporâneo, em tradução livre] teve destaque no 48º Festival de Roterdã, que aconteceu, entre 23 de janeiro e 3 de fevereiro, e levou ao público holandês o cinema negro brasileiro.
Partindo do legado de Zózimo Bulbul — ator, cineasta, produtor, roteirista e um dos maiores nomes do cinema negro —  o Festival exibiu filmes como Abolição (1988), de BulbulIlha (2018), de Ary Rosa e Glenda NicácioMeu amigo Fela (2019) de Joel Zito Araújo e Temporada (2018), de André Novaisvencedor do Festival de Brasília de 2018. A mostra, misturando clássicos com produções atuais, também contou com 22 curtas, como Alma no Olho (1973), produção pioneira de Bulbul, e Kbela(2015), de Yasmin Thayná.
O Festival de Roterdã, um dos maiores da Europa, procurou nesta edição ampliar a divulgação de produções invisibilizadas, segundo Janaína Oliveira, curadora da mostra. Ela explica que o evento buscou apoiar as produções do cinema contemporâneo negro brasileiro através das projeções nas salas de cinema holandesas, lotadas, colocando sob o holofote o trabalho de negras e negros que atuam na frente e atrás das câmeras, e, consequentemente, trazem a discussão das pautas raciais abordadas em suas obras. Mas ela ressalta que a produção contemporânea vai além do retrato dos problemas socioeconômicos, atentando às possíveis soluções.
“Festivais como Roterdã são importantes porque criam possibilidades de novos circuitos de exibição e circulação dos filmes. Os longas acabam entrando na indústria, e os curtas, em uma escala menor, também têm essa possibilidade de projeção, circulando em outros espaços e sendo vistos por outras pessoas”, afirmou.
Além de colocar os filmes em evidência, a mostra foi uma oportunidade também para que os criadores tivessem contato com a indústria cinematográfica internacional.
A ideia da mostra surgiu dos programadores Tessa Boerman e Peter Van Hoof após conhecerem a obra de Bulbul e entrarem em contato com Yasmin Thayná, diretora do curta-metragem Kbela, e Bruno F. Duarte, diretor de comunicação do filme. O curta traz um olhar sensível sobre o racismo cotidiano sofrido por mulheres negras e retrata a força ancestral dos cabelos crespos, mas foi ignorado e recusado pelos festivais nacionais. Posteriormente, foi descoberto na internet pela programadora do Festival de Roterdã, Tessa Boerman que, impactada, convidou Yasmin para o programa Black Rebels, em 2017, e foi surpreendida pelo filme levado pela diretora: Alma no Olho, de Zózimo Bulbul.
Cenário
A realidade da produção audiovisual brasileira é carregada de dificuldades, principalmente quando se trata de negritude. De acordo com dados da Ancine, o público dos filmes nacionais foi quase dez vezes menor que o de filmes estrangeiros em 2017 - 17.358.513 contra 163.867.894 pessoas. No ano, apenas 34,56% dos filmes que estrearam eram nacionais.
O racismo no cinema reverbera também na produção internacional, como mostra a pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA), que mostrou que dos 218 filmes de maior bilheteria entre 2002 e 2014, 45% dos protagonistas eram homens brancos, seguido por 35% mulheres brancas, 15% homens negros e apenas 5% mulheres negras.
Poucos são os filmes comerciais que conseguem transpassar essa barreira e levar a causa racial para as telas de cinema. Pantera Negra (2018) é um exemplo disso, e arrecadou U$ 1,3 bilhão com um elenco predominante negro e um enredo antirracista. Moonlight (2017) também ultrapassou essa linha e, também com elenco e diretor negro, alcançou U$ 65,3 milhões de faturamento com um enredo sobre a vida de um homem negro gay.
Para a curadora, o cenário atual é de apreensão. “O cinema brasileiro é feito majoritariamente a partir de recursos públicos como os incentivos fiscais. O que tornou possível, em parte, essa geração de realizadores e realizadoras negras que estão ganhando destaque no cenário nacional, foram as políticas globais de educação”.
Ela enfatiza que grande parte das realizadoras e realizadores são oriundos de regiões periféricas, e tiveram acesso às universidades e cultura através das políticas de acesso e permanência, além dos editais de incentivo e financiamento ao audiovisual brasileiro.
Edição: Mauro Ramos

Tuesday, 5 February 2013

Todorov e os inimigos íntimos da democracia

adital
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=73423


05.02.13 - Mundo
Todorov e os inimigos íntimos da democracia
 
Fernando de la Cuadra
Doutor em Ciências Sociais. Investigador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) e da Rede Universitária de Pesquisadores sobre América Latina (Rupal)
Adital

[Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, 215 p].
Há poucos dias o jogador Josy Altidore foi vítima de insultos racistas na Holanda. Cada vez que tocava na bola os torcedores da equipe contrária começavam a imitar um macaco. A resposta do jogador a tais manifestações de racismo foi a seguinte:
"O que você pode fazer? Apenas espero que esses torcedores encontrem um meio de melhorar (como pessoas). Você só pode rezar por elas. Eu sinto como se tivesse uma obrigação com o meu clube e minha família, de não reagir a coisas como essa e mostrar que o clube é melhor do que isso e que eu fui muito bem criado para responder a tão ridículo comportamento. A gente devia esperar que a humanidade pudesse crescer, mas isso ainda está vivo, o racismo. Tudo o que podemos fazer agora é nos educar e educar as crianças para serem melhores do que isso. Eu não vou combatê-los (os torcedores racistas). Eles têm seus problemas e precisam de ajuda. Vamos rezar por eles e esperar que eles melhorem”.(1)
A declaração de Altidore nos coloca no centro de uma das teses levantadas por Tzvetan Todorov no livro em questão: o racismo. No seu breve e incisivo ensaio, este filólogo, historiador das ideias e intelectual búlgaro radicado na França, expõe com proverbial claridade sobre quais seriam os principais riscos que enfrentam as democracias no mundo contemporâneo, a saber, o messianismo, o ultraliberalismo e o populismo.
O mais assustador deste perigo é que ele nasce da própria esfera democrática, quando os valores e mecanismos mutuamente compartilhados adquirem um "descomedimento” (húbris), ou seja, um uso excessivo e distorcido de tais valores. Isso resulta quando os ideais da vida democrática como progresso, liberdade ou povo são absolutizados a tal ponto que se transformam em elementos de coerção das comunidades e dos indivíduos. Nas palavras de Todorov "O povo, a liberdade, o progresso são elementos constitutivos da democracia; mas se um deles se emancipa de suas relações com os outros, escapando assim a qualquer tentativa de limitação e erigindo-se em único e absoluto, eles transformam-se em ameaças: populismo, ultraliberalismo, messianismo, enfim, esses inimigos íntimos da democracia.” (Todorov, op. cit.: 18).
No inicio do livro, Todorov tenta demonstrar que à diferença do que é difundido permanentemente pelos políticos, experts e mídia em geral, o islamismo integrista e os grupos terroristas jihadistas (como a Al-Qaeda) não representam uma ameaça significativa para as democracias ocidentais se comparada com aquelas formas totalitárias ocorridas durante o século XX, tais como o comunismo ou o nazifascismo. Aquela é uma perspectiva errada, construída intencionalmente para ocultar os verdadeiros riscos que enfrentamos atualmente, pois o perigo realmente imperante consiste nas forças deletérias internas que a própria democracia produz e, desta maneira, combatê-las e neutralizá-las é tanto mais difícil, pois elas invocam o espírito democrático quando na realidade se encontram corroendo seus mesmos pilares: o Mal surgindo do Bem.
Na historia humana a procura do Bem frequentemente se ergueu a partir do convencimento de que os outros precisam de ajuda e "salvação”, razão pela qual me transformo na encarnação dessa missão de construir a redenção universal(2). Este messianismo que se expressou em diversos momentos históricos - nas guerras revolucionarias e coloniais, bem como no projeto comunista-, mas na forma contemporânea ele se veste com as roupagens dos valores democráticos universais, quando na são simplesmente desejos de poder e riqueza travestidos de humanismo.
Assim, surge em primeiro lugar o chamado "direito de ingerência”, quer dizer, se num determinado país se realizam violações aos direitos humanos, outros países podem decidir utilizar a força para evitar que ditas violações se continuem consumando (Kosovo). Outra modalidade deste novo messianismo tem sido cunhada com o nome de "guerra contra o terrorismo” em que se torna válida e imprescindível a ocupação de um determinado país em caso de que ele se encontre sendo utilizado como base de operações de grupos terroristas (Afeganistão). Por sua vez, a guerra preventiva considera legitima a utilização da força para livrar ao conjunto da humanidade de algum perigo iminente. Finalmente, existe a formula da chamada "guerra humanitária”, em que também se produz a imposição pela força a outros países ou nações dos valores universais, utilizando para isso intervenções militares com ocupação territorial, como tem sido evidente nos casos de Iraque ou da Líbia.
De fato, o conceito de guerra humanitária representa uma contradição fragrante, dado que dificilmente se pode pensar que as ações decorrentes de uma guerra possam trazer algo de humanidade no seu seio. No entanto, o que é passível de apreciar trás todos estes conceitos é que a grande maioria das intervenções tem sido motivada por razões de orgulho e de poder e que sua justificação aduzindo pretextos humanitários representa um tipo de messianismo interessado que provoca mais danos que benefícios para os povos que se pretende proteger. Efetivamente, o resultado desses empreendimentos somente conduziu a um aumento dos desastres da guerra com sua enorme sequela de vitimas inocentes.
A outra forma que a democracia possui para converter-se em sua própria inimiga, diz respeito à perda do equilíbrio que deveria existir entre o poder consagrado ao povo e a liberdade dos indivíduos. Portanto, o vinculo que se estabelece entre a soberania do povo e a autonomia da pessoa –nos adverte Todorov- precisa ter uma limitação mutua em que "o individuo não deve impor sua vontade à comunidade, e esta não deve interferir nos assuntos privados de seus cidadãos.” (Todorov, op. cit.: 16).
A oposição entre populismo e ultraliberalismo convoca-nos então a pensar nos limites que é indispensável estabelecer para que as duas dimensões se mantenham em equilíbrio, ainda que, parafraseando Norbert Elias, isto se dê através de um "equilíbrio móvel de tensões”. Sempre existe o perigo de que a consagração do popular possa se tornar na encarnação do bem coletivo e, consequentemente, alimentar a ideia de que certos valores como a pátria, a raça ou a comunidade, devem ser compartilhados pela totalidade dos seres humanos. Na verdade, se o equilíbrio é instável, isto implica que se pode transitar facilmente para expressões de autoritarismo, xenofobia, racismo e intolerância à diversidade, quando o diferente é rejeitado por constituir ameaça à essência de determinado povo.
Geralmente este populismo se apresenta sob a forma de demagogia, prometendo dar soluções fáceis a problemas complexos sem existir nenhuma certeza de que as poderá cumprir. O populismo representa uma política de curto prazo que se limita a propor saídas tangíveis a uma audiência massiva ávida de respostas – geralmente através de um contato direto em espaços públicos – e cujos medos são exacerbados. Na experiência recente, o populismo europeu tem atacado o multiculturalismo argumentando que ele encarna uma ameaça para a identidade nacional(3).
Desta maneira, o populismo hipertrofiado impede reconhecer a humanidade dos outros e dissemina a intolerância daquilo que é diferente. Por isso a democracia corre um grave risco quando é substituída pelo populismo, "que ignora a diversidade interior da sociedade e a exigência de visar, para além das satisfações imediatas, as necessidades do país em longo prazo.” (Todorov, op. cit.: 195).
Contrariamente, no conflito com o populismo e suas formas autoritárias, a hipervalorização dos indivíduos pode acarretar o desprezo por tudo aquilo que visa ao coletivo. Sendo assim, a liberdade individual e a vontade do individuo se superpõe a qualquer intento de construir o bem-estar geral, em que finalmente as pessoas são movidas por um repertorio de preferências individuais, especialmente econômicas, veem-se isoladas umas das outras e rejeitam a tessitura social. Sabemos por toda a tradição sociológica que a sociedade não se resume à mera soma dos indivíduos que fazem parte dela: diferentemente disso, ela é um produto das interações precedentes e constantes que se estabelecem entre seus membros.
Sendo a liberdade individual um aspecto fundamental da democracia, esta pode também constituir-se numa ameaça quando se cinde do todo social, quando consagra a vontade dos indivíduos por sobre o resto da coletividade, quando adquire um poder ilimitado acima da vontade geral. No intento de libertar às pessoas das ataduras e da subordinação do Estado, o ultraliberalismo deixa aos indivíduos a mercê do mercado e as empresas. Opondo-se a toda medida de regulação por parte dos poderes públicos, o ultraliberalismo deixa a humanidade órfã de proteção, entregada ao livre jogo da oferta e da procura, dos mercadores, dos financistas e dos poderosos.
Estamos finalmente ante a presença de uma tríade (messianismo, populismo, ultraliberalismo) que vai corroendo os fundamentos da própria promessa democrática, de sorte que os princípios essenciais do discurso democrático se transformam em ameaças concretas: "a liberdade torna-se tirania, o povo se transforma em massa manipulável, o desejo de promover o progresso se converte em espírito de cruzada. A economia, o Estado e o direito deixam de ser meios destinados ao florescimento de todos e participam agora de um processo de desumanização.” (Todorov, op. cit.: 197).
Que podemos fazer para superar este cenário aparentemente irreversível? Acredito que Todorov concordaria com o teor do discurso de Josy Altidore citado no começo. Quiçá se uma resposta semelhante possa ser procurada nas suas palavras finais do autor, quando assinala que um remédio para nossos males contemporâneos deveria consistir numa evolução das mentalidades que permita "recuperar o entusiasmo do projeto democrático” e tentar construir um melhor equilibro entre seus princípios fundamentais, progresso, povo e liberdade.
Nelson Mandela costumava dizer que, assim como a escravidão e o apartheid, a pobreza não é um acidente. É uma criação do homem e pode ser eliminada com as ações dos seres humanos. Talvez as aspirações e esperanças de Todorov passem longe dos desafios que temos pela frente, mas seu diagnóstico das sociedades modernas e seu apelo incontestável à força da vontade humana são um primeiro intento válido de avançar no esforço coletivo para fazer do mundo um espaço de convivência mais plural, afetuoso e fraterno.

Notas:
(1) Allan Caldas, "Racismo interrompe jogo na Copa da Holanda”, O Globo, 29/01/2013.
(2) As referencias teológicas se devem precisamente ao caráter missioneiro da empresa, que como todo ato religioso se incumbe de um profundo voluntarismo e Fe derivado da Graça Divina, aspectos que o autor recupera no debate entre Pelágio e Santo Agostinho a respeito da dualidade entre a vontade humana e a predestinação divina.
(3) A consequência mais dramática desta ideologia são os assassinatos em serie cometidos na Noruega em que um nacionalista fanático matou a 84 pessoas em nome de uma suposta proteção ou resguardo da identidade cultural tradicional.

Tuesday, 4 December 2012

Racismo y violencia en Brasil

el país
http://blogs.elpais.com/contrapuntos/2012/11/racismo-y-violencia-en-brasil.html


Racismo y violencia en Brasil

Por:  30 de noviembre de 2012
Uno de los mayores mitos sobre los que se ha fundado la construcción del Estado en Brasil, reside en la presunción de que la enorme diversidad de la sociedad brasileña se traduce en un trato cordial y generoso con sus ciudadanos, independientemente del color de su piel y su origen étnico. Desde este punto de vista, las múltiples inequidades existentes, tan evidentes como la diversidad de la nación, no pueden ser atribuidas a otro factor que a la persistencia de desigualdades de clase y no a estructurales procesos de discriminación racial o étnica. Así las cosas, Brasil es un país injusto, pero no racista; socialmente desigual, pero no segregacionista con los portadores de ciertos atributos que los transforman en racialmente discriminados.
Contra esta visión, que ha estado lejos de ser un patrimonio exclusivo de las derechas más conservadoras, se han levantado un significativo número de organizaciones, activistas e intelectuales, particularmente del movimiento negro, ya desde comienzos del siglo XX. Las disputas, sin embargo, no han sido siempre favorables a estos sectores que, durante décadas, debieron enfrentarse al “racismo cordial” como una ideología en apariencia inquebrantable y que ofusca las evidencias de profundos procesos de discriminación basados en el color de la piel o en el origen étnico de millones de brasileños y brasileñas, generalmente pobres o muy pobres. Poner en la agenda del debate público la existencia delracismo institucional, ha constituido uno de los mayores esfuerzos y logros de estos movimientos combativos y democráticos. Una aspiración que, durante la última década, se ha consolidado, dejando caer la máscara de una nación supuestamente tolerante y acogedora con todos sus hijos. El racismo ha estructurado el Brasil moderno, como lo hizo con el Brasil colonial e imperial.
Racismo y violencia 1
Sin lugar a dudas, los avances en la lucha contra el racismo en la sociedad brasileña han sido inmensos. Entre tanto, algunos procesos y mecanismos de discriminación racial y étnica sigue profundizándose en algunas esferas de la vida social, limitando los alcances de políticas públicas destinadas a combatirlos. Las tasas de homicidios y, particularmente, los homicidios en la población juvenil son una evidencia ineludible de esta tendencia. La violencia contra la población negra sigue siendo una de las marcas indelebles de un racismo que nunca tuvo nada de cordial. En el Brasil, la celebración de la diversidad y la convivencia pacífica entre las razas ha sido mucho más una coartada ideológica que la descripción etnográfica de una sociedad tolerante, pacífica y generosa con sus ciudadanos y ciudadanas. La muerte, como siempre, pone en evidencia nuestras fragilidades. La muerte, como siempre, desenmascara, revela, denuncia.
Por este motivo, los datos del nuevo Mapa de la Violencia, “A cor dos homícidios no Brasil”(El color de los homicidios en Brasil), constituyen una inexcusable señal de alerta y atención al conjunto de la sociedad brasileña y, particularmente, a los responsables de todos los ámbitos de la gestión pública. El estudio, coordinado por destacado investigador Julio Jacobo Waiselfisz y promovido por FLACSO BrasilCEBELA y la Secretaria de Promoción de Políticas de Igualdad Racial de la Presidencia de la República revela que, durante la última década, aún en el marco de progresivas acciones de lucha contra el racismo, los homicidios de la población blanca han disminuido tendencialmente, mientras que los de la población negra no han parado de crecer. De 10 asesinatos cometidos en Brasil, 6,5 tienen como víctimas a hombres o mujeres negras. En el año 2002 se habían cometido 18.867 homicidios entre la población blanca y 26.952 entre la población negra. En el 2010, los primeros habían disminuido a 14.047 (-25%), mientras que los segundos habían crecido a 34.983 (+30%). Una realidad que esconde enorme diferencias regionales. En efecto, en el Norte y el Nordeste brasileño, los homicidios en la población negra crecieron 125% y 97%, respectivamente. El Estado de Alagoas, por ejemplo, posee una tasa de 80,5 homicidios cada 100.000 habitantes entre la población negra. Un valor tres veces mayor que la tasa general de homicidios del país, situada en 27,4, y una de las más altas del mundo.
Los datos ganan mayor relevancia en su dimensión comparativa. Las tasas de homicidio cada 100.000 habitantes en algunos de los países más violentos del planeta son:
  • Malawi – 36,0
  • Zambia – 38,0
  • Costa de Marfil – 56,9
  • Jamaica – 52,2
  • Belize – 41,4
  • El Salvador – 69,2
  • Colombia – 33,4
  • Venezuela – 45,1
  • El Salvador – 69,2
  • Honduras – 91,6
En el año 2002, murieron asesinados en Brasil 65% más negros que blancos, en el año 2006, 91%, en el 2010, 132%. En el Estado de Paraíba, por cada persona blanca asesinada, mueren asesinados 19 negros. Un dato espeluznante si consideramos que fue justamente a partir del inicio del año 2000 que comenzaron a desarrollarse algunas de las más activas políticas antirracistas en el país. La lucha contra el racismo, que ha tenido efectos considerables en la legislación nacional y ha comenzado a generar cambios significativos en algunos campos, particularmente la educación y los medios de comunicación, en nada ha revertido la violencia homicida que en Brasil amenaza la vida de muchos ciudadanos, pero especialmente de la población negra e indígena. No deja de ser elocuente que esta espiral de violencia no sólo no se ha detenido, sino por el contrario, ha aumentado día tras día.
Jóvenes negras
Al mismo tiempo, aunque las tasas de homicidios son particularmente altas en toda la población juvenil, son significativamente más elevadas entre los jóvenes negros. Se comenten 31,9 asesinatos cada 100.000 habitantes entre los jóvenes blancos de 20 años y 89,3 entre los jóvenes negros de la misma edad. Durante los últimos ocho años, en Brasil han disminuido los asesinatos de jóvenes blancos en 33%, mientras que han aumentado 23,4% entre los jóvenes negros. En Maceio, capital del Estado de Alagoas, la tasa de homicidios entre los jóvenes negros es de 328,8, o sea, 12 veces más alta que la tasa de homicidios registrada en todo el país. Los datos no dejan de ser aterradores en otras capitales: João Pessoa (321,8), Vitória (274,2), Recife (199,1), Salvador (190,3) y Belém (163,8).
Existe hoy en Brasil un intenso debate acerca de cómo aumentar las oportunidades educativas de la población más pobre, especialmente, la de los jóvenes negros y de los indígenas. Un camino que debe ser profundizado y ampliado. Sin embargo, suponer que el aumento en el nivel educativo de la población más pobre disminuirá los índices de violencia contra y entre la población juvenil negra puede ser una perversa trampa que nos lleve a desconsiderar la urgente importancia de políticas de seguridad ciudadana que limiten la violencia policial contra las poblaciones más pobres, que generen mejores condiciones de vida y muchas más oportunidades en la población juvenil. Se trata de no reducir la atención a la juventud a las casi siempre ineficientes políticas de empleo o a deteriorados cursos de formación profesional basados en vanas promesas de ingreso exitoso a un mercado de trabajo que también es racista, sexista y discriminador. Oportunidades de acceso al deporte, a los bienes y a la producción cultural, al consumo, al derecho a vivir la juventud sin opresiones ni humillaciones de ninguna especie.
Hay aún un largo camino por recorrer en la lucha contra el racismo en Brasil. Sumar a más y más jóvenes a la necesaria movilización contra todas las formas de discriminación y exclusión es uno de los grandes desafíos políticos que deberemos enfrentar para que la diversidad y la igualdad tiñan con sus múltiples colores el horizonte de la justicia social.

Desde Río de Janeiro
Genocidio juventude negra

Friday, 28 September 2012

Artes da cultura popular

revista fapesp
http://revistapesquisa.fapesp.br/2010/08/10/artes-da-cultura-popular/


Artes da cultura popular

REDAÇÃO | Edição 174 - Agosto de 2010

O artigo “Artes de musicar e de improvisar na cultura popular”, de José Machado Pais, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explora bases de sustentabilidade do valor patrimonial das chamadas culturas marginais, tomando como referência as artes de musicar e de improvisar. Aos preconceitos que associam a cultura popular à frivolidade se contrapõem evidências da sua criatividade. Para isso, o autor compara tendências e influências musicais de Portugal e do Brasil, na base de uma matriz partilhada de repentes e improvisações. Os exemplos do fado e do samba são usados para ilustrar as variações simbólicas, no decurso do tempo, das produções culturais: dos antros de marginalidade podem emergir ícones de nacionalidade.
Cadernos de Pesquisa – vol. 39 – nº 138 – São Paulo – set./dez. 2009

Ossos que falam

revista fapesp
http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/12/24/ossos-que-falam/


Ossos que falam

Escavações na zona portuária do Rio de Janeiro revelam retrato pouco conhecido da escravidão
CARLOS HAAG | Edição 190 - Dezembro de 2011
© MERCADO DE ESCRAVOS NA RUA DO VALONGO, DEBRET, AQUARELA SOBRE PAPEL, C. 1816-1828. REPRODUÇÃO DO LIVRO DEBRET E O BRASIL – OBRA COMPLETA, ED. CAPIVARA, 2009
Uma das “casas de carne” do mercado do Valongo na visão algo otimista de Debret ao mostrar poucos escravos vigiados pelo comerciante
O Instituto Nacional de Criminalística estabelece uma série de procedimentos para se investigar um crime: o reconhecimento, que delimita a extensão da cena do crime e a preserva; a documentação cuidadosa e a observação científica do lugar; a procura de provas e evidências a serem coletadas; a análise científica num laboratório das provas recolhidas pelo perito. É na junção dessas áreas que se encontra a solução de, por exemplo, um assassinato. Seria possível usar os mesmos procedimentos para “desvendar” um crime cometido há vários séculos, com milhões de vítimas? Pesquisas recentes feitas em universidades brasileiras indicam que a adoção da mesma interdisciplinaridade, reunindo historiadores, arqueólogos, geneticistas (paleogenéticos) e patologistas, poderá, enfim, dar conta de um dos maiores crimes já cometidos: a escravidão.
“Para se entender a realidade da escravidão é preciso devassar arquivos, desencavar o passado e submeter as evidências materiais aos analistas nos laboratórios. É preciso superar a mera historiografia documental ou a visão economicista que só vê o escravismo do ponto de vista dos modos de produção. A escravidão deve ser materializada”, diz Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Museu Nacional, no Rio, e coordenadora do projeto de escavação do Cais do Valongo, porto por onde passaram, entre 1811 e 1831, 1 milhão de africanos. Foram as obras do Porto Maravilha, a revitalização da área portuária carioca iniciada neste ano tendo em vista as Olimpíadas de 2016, que permitiram aos arqueólogos reabrir a “cena do crime” oculta desde 1843, quando foi recoberta com 60 centímetros de pavimento e se transformou no Cais da Imperatriz, lugar de recepção para Teresa Cristina, a futura mulher de Pedro II. “Havia outros lugares, mas se optou pelo Valongo como forma de apagamento das manchas passadas da escravidão”, diz Tânia. Essas cercavam todo o cais, formando o complexo do Valongo. Casas próximas armazenavam e comercializavam os negros (veja vídeo sobre as escavações). Quem ficava doente era levado ao lazareto vizinho, onde o tratamento se reduzia a “sangrias” feitas por barbeiros negros. Os que não resistiam eram enterrados, com total descaso, em valas comuns a poucos metros do cais. Logo, o sítio é o sonho de qualquer arqueólogo, trazendo à luz, diariamente, pilhas de objetos pessoais e rituais dos chamados “pretos novos”, cativos recém-chegados da África: contas, búzios, cachimbos, brincos com a “meia-lua” islâmica, miçangas e até “pedras de assentamento de orixás”. Sacerdotes e especialistas na cultura e religião africanas ajudam a reconhecer e catalogar os achados.
“O complexo do Valongo foi criado para tirar os negros do centro do Rio, pois eles eram vistos como ameaça à saúde, ‘carregadores de doen-ças’ e um perigo à ordem pública”, explica o historiador Cláudio Honorato, autor do estudo Valongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro (Universidade Federal Fluminense, UFF, 2008). “O Valongo era parte do projeto ‘civilização nacional’, intensificado com a transformação do Rio em sede do Império. Mas resultou de um paradoxo: criar uma Corte ‘europeia’ com multidões de negros soltos pelas ruas. Pensou-se que a solução seria usar os escravos para criar a cidade à altura do rei. Esse movimento, porém, aumentou a demanda por mais escravos e, assim, a cidade não conseguia perder as ‘feições do atraso’. Era preciso diminuir um pouco daquela promiscuidade e, assim, tirou-se o mercado escravista da região do Paço, levando-o para um lugar distante e desabitado: o Valongo, um porto natural na Gamboa”, construído por ordem do vice-rei, o Marquês de Lavradio. Em pouco tempo, o comércio de escravos atraiu a população e o local virou um dos mais movimentados do Rio. Além do cais, o complexo do Valongo abrigava 50 “casas de carne”, onde os negros recém-chegados eram negociados. “A primeira loja de carne em que entramos continha 300 crianças. O mais velho podia ter 12 anos e o mais novo, não mais de 6. Os coitadinhos ficavam agachados num armazém. O cheiro e o calor da sala eram repugnantes. O termômetro indicava 33ºC e estávamos no inverno!”, escreveu o inglês Charles Brand em 1822.
Após 60 dias a bordo de um “tumbeiro”, os africanos, exauridos e doentes, enfrentavam a falta de alimentação, de roupas e moradias apropriadas. A combinação com os castigos os deixava propensos a contrair vírus, bacilos, bactérias e parasitas que floresciam na população densa do Rio. Mais de 4% dos escravos morriam no primeiro momento, entre o desembarque, a quarentena e a exposição no mercado. Era preciso um lugar para enterrar tantos mortos e assim criou-se nas proximidades o Cemitério dos Pretos Novos. “A mortalidade alta justificaria lugar na lógica de importação de mão de obra em números crescentes, onde mais mortes significava trazer mais escravos. Nos seus últimos seis anos, o cemitério superou uma média anual de mil enterros”, afirma o historiador Júlio César Pereira, da Fiocruz, autor de À flor da terra (Garamond, 2007). A vinda da Corte aumentou a chegada de cativos pelo porto do Rio: se em 1807 entraram menos de 10 mil, em 1828 foram 45 mil. O ano também marcou um recorde no cemitério com o enterro de mais de 2 mil pretos novos. “Sem esquife e sem a menor peça de roupa são atirados numa cova que nem tem dois pés de profundidade. Levam o morto e o atiram no buraco como a um cão morto, põem um pouco de terra em cima e se alguma parte do corpo fica descoberta, socam-no com tocos de madeiro, formando um mingau de terra, sangue e excrementos”, descreveu o viajante Carl Seidler em 1834. O lugar, porém, obedecia à lógica e às regras que engendraram o complexo: “Os escravos que não forem vendidos não sairão do Valongo nem depois de mortos”.
Estima-se que o cemitério abrigou mais de 20 mil corpos até ser fechado em 1830, por causa de reclamações dos vizinhos, temerosos dos “miasmas” exalados pelos cadáveres “à flor da terra”, bem como da suspensão do tráfico, não obstante sua continuidade ilegal. O lugar caiu no esquecimento, vindo a ser coberto pela malha urbana que se expandiu na região portuária em fins do século XIX. Só foi redescoberto em 1996 durante uma reforma numa casa, quando operários abriram sondagens para alicerce e encontraram milhares de dentes e fragmentos de ossos humanos. Como uma “cena do crime” era preciso saber quem eram as vítimas. Determinar a origem geográfica dos 5 milhões de escravos forçados a vir ao Brasil é fundamental para várias áreas do conhecimento, já que dá pistas da constituição genética e cultural dos brasileiros, muito impactados pela mestiçagem. “O tráfico negreiro provocou um dos maiores deslocamentos populacionais da humanidade. Entre os séculos XVI e XIX mais de 12,5 milhões de africanos foram escravizados e levados para a América e Europa. Desses, cerca de 10,7 milhões chegaram vivos ao fim da travessia”, afirma o historiador Manolo Florentino, da UFF, autor de Em costas negras (Companhia das Letras, 1997). “Os registros dos navios negreiros não são confiáveis sobre a origem dos africanos, porque o porto de embarcação, registrado nos arquivos, nem sempre refletia a origem geográfica dos negros, por vezes capturados no interior, a quilômetros do litoral”, observa.
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Arcada dentária recuperada no cemitério com os cortes rituais feitos nos dentes pelos africanos
Nessa tarefa os historiadores recebem grandes contribuições dos geneticistas, como mostra a reportagem “A África nos genes do povo brasileiro” (Pesquisa FAPESP, nº 134) sobre a pesquisa do geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que comparou o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Com isso, Pena ajudou a revisar a versão histórica de que a maior parte dos escravos era da região centro-ocidental africana, deixando de lado a participação relevante de negros vindos da África Ocidental. “Por isso a transdisciplinaridade é fundamental para entender a escravidão. Cada enfoque é limitado para dar conta das perguntas e nenhum é suficiente. As pesquisas genéticas são muito informativas, mas partem da análise de brasileiros que são descendentes dos escravos”, diz Pena. Daí a importância do Cemitério dos Pretos Novos, que abrigava primordialmente escravos africanos recém-chegados ao Brasil.
Registros feitos pela igreja de Santa Rita, que administrava o lugar,  permitem afirmar que 95% dos corpos são de pretos novos (os outros 5% seriam de escravos “ladinos”). O sítio privilegiado deu origem à  pesquisa bioarqueológica Por uma antropologia biológica do tráfico de escravos africanos para o Brasil: análise das origens dos remanescentes esqueletais do Cemitério dos Pretos Novos, coordenada pelo bioantropólogo Ricardo Ventura Santos, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz), concluída recentemente. Foi feita a análise da composição isotópica de estrôncio de esmalte dentário presente nas amostras colhidas em 1996, com a finalidade de determinar a origem geográfica dos vestígios. “Os dentes são formados na infância e não se remodelam, o que permite descobrir onde alguém viveu seus primeiros anos. O estrôncio é como um DNA geoquímico e existe como dois isótopos, de números 86 e 87. As proporções entre eles são assinaturas geoquímicas ligadas às características das rochas de uma região”, explica Sheila de Souza, integrante do projeto. A pesquisa revelou uma grande diversidade de valores dessas proporções, o que indica (e confirma) que os escravos trazidos ao Rio vieram de múltiplas regiões da África. Confirmou-se também que se tratava de negros africanos, jovens e recém-chegados.
Para estabelecer essa delimitação foram detectadas “modificações intencionais dos dentes”, cortes feitos na arcada de motivação cultural, característicos de regiões africanas como Moçambique, o que, de certa forma, corrobora a tese de Pena. “Vimos também o polimento dos dentes, que geram ranhuras microscópicas e são características da higiene bucal de grupos africanos, que usavam gravetos nos dentes e mastigavam plantas como ‘pasta dental’. É uma prática restrita de pretos novos, pois, uma vez aqui, não havia como mantê-la. Dentes de ‘ladinos’ não têm essas marcas”, diz Sheila. A variabilidade de razões de estrôncio observada contrasta com o encontrado em outros cemitérios de escravos das Américas, sendo maior, por exemplo, do que a medida nos africanos enterrados no New York Burial Ground, cemitério de escravos americanos encontrado em Manhattan em 1991.
“Na contramão da América do Norte e de outras regiões do Brasil, o Rio recebia uma quantidade mais expressiva de cativos com uma maior diversidade étnica e genética”, afirma Santos. Pode-se identificar que a base alimentar desses indivíduos na infância não continha itens de procedência marinha. “Faz todo o sentido. A chegada da família real aumentou a demanda por escravos, culminando na fase áurea do tráfico, que acabou legitimando uma situação de fato: a Coroa não tinha mais o monopólio, o que dava livre acesso ao comércio. Logo, poucas partes do continente ficaram ilesas aos traficantes e, entre 1760 e 1830, o Rio, revelam os registros, efetivamente recebeu negros de muitas regiões africanas”, nota Florentino. “Também se confirma um padrão do tráfico, que agia da costa para o interior, em busca dos que haviam migrado do litoral.”
É possível comprovar até o caminho da ilegalidade, que não rendeu documentação. Em 1815, Portugal e Inglaterra assinaram um acordo que proibia a compra e tráfico de escravos ao norte do equador. “As pesquisas de Pena e Santos demonstram, na prática, que, apesar da proibição, os contrabandistas atuavam na área. Dizendo navegar até Angola, desviavam para a Nigéria, onde pegavam escravos, que registravam como angolanos”, diz o historiador. A análise sobre o cemitério igualmente comprovou uma faceta pouco conhecida do tráfico: a baixa faixa etária dos cativos. “Os vestígios são de negros muito jovens”, fala Santos. Cerca de 780 mil crianças foram escravizadas para o Brasil a partir de meados do século XIX, porque eram mais “maleáveis” que os adultos e suportavam melhor as travessias. Nos estertores do tráfico, em especial no Rio, um em cada três escravos era criança. “A elite escravocrata ao sentir que o fim do tráfico estava próximo passou a buscar mais mulheres, ou seja, mais úteros para gerar escravos; e crianças, que trabalhariam por mais tempo após o fim do tráfico”, explica Florentino.
Novas escavações no cemitério corroboram essa prática pela presença de crânios e arcadas de jovens. As prospecções foram retomadas pela equipe de Tânia Lima, que, temerosa das consequências da especulação imobiliária em torno do sítio, por causa do Porto Maravilha, encarregou o arqueólogo Reinaldo Tavares, do Museu Nacional, da pesquisa O Cemitério dos Pretos Novos: delimitação espacial, que até o final do ano traçará o mapa do cemitério. O seu tamanho é uma incógnita. Segundo relatos da época, teria 50 braças, algo como um campo de futebol. O arqueólogo desconfia da medida, exígua demais para abrigar tantos corpos. Abrindo valas no entorno do sítio ele busca os seus limites. “Não é preciso cavar mais do que 70 centímetros para deparar com restos de corpos”, diz. O lugar era uma vala comum onde os corpos eram jogados, após ficarem dias amontoados num canto. Quando a fossa enchia, era reaberta e os vestígios eram incinerados e destruídos para dar lugar a novos corpos. “Encontramos também lixo urbano misturado aos ossos: comida, vidros, material de construção, animais mortos, dejetos. A tese inicial era que o cemitério fora transformado em ‘lixão’ da vizinhança após seu fechamento. As escavações apontam que ele ainda funcionava quando os detritos foram jogados com os corpos.”
A genética só aumenta o peso simbólico provocado por esse desprezo. “Os escravos entravam no Brasil pelo Nordeste ou pelo Rio. A própria proximidade geográfica levou escravos da África Ocidental para o Nordeste e os da África Central para o Rio. Desses, a grande maioria era de bantos”, diz Pena. Seriam, portanto, corpos desse grupo étnico que lotam o cemitério. Do cais e dos armazéns era possível ver como os seus mortos eram tratados. “Para os bantos, o sepultamento indigno impossibilita a reunião entre o morto e seus antepassados, crença central da etnia. Pode-se imaginar que se sentiam condenados a uma ‘segunda morte’, cientes de que se apagara da memória o lugar de seu repouso final”, observa Júlio César. Os vivos, porém, não tinham grandes chances: só um terço dos pretos novos viveria como escravo mais do que 16 anos.
A causa dessas precocidades dos óbitos eram as muitas doenças com que conviviam, como comprovam as pesquisas paleogenéticas de Alena Mayo, do Laboratório de Genética Molecular de Microrganismos da Fiocruz, que rastreia, via DNA, as moléstias do Rio colonial. No cemitério de escravos da praça XV, por exemplo, verificou-se pelas ossadas que 7 em cada 10 cativos estavam infectados com protozoários ou helmintos. “Era resultado da péssima nutrição dos escravos, aliada às condições impróprias de higiene em que viviam”, diz Alena. A descoberta genética comprova vários aspectos do estudo clássico da historiadora americana Mary Karasch, A vida dos escravos no Rio de Janeiro (Companhia das Letras, 2000). Como a afirmação de que “as condições de vida dos escravos e as doenças matavam mais do que a violência física do cativeiro”.
A pesquisadora estudou o Cemitério dos Pretos Novos, onde encontrou traços de tuberculose, um total de 25% de amostras positivas. “As condições desumanas em que eram transportados faziam os escravos suscetíveis a contrair, já na chegada, a doen-ça, então difundida pela cidade.” Isso também remete à pesquisa documental da americana: “A mortalidade dos africanos recém-chegados ao Valongo não se relacionava apenas às condições terríveis dos ‘tumbeiros’. Mesmo sobrevivendo à travessia, no cais eles enfrentavam um desafio maior: adaptar-se às novas, e péssimas, condições de vida para não sucumbir, de cara, às doenças do Rio”.
Uma escavação em particular trouxe revelações importantes. “Ossadas encontradas na igreja Nossa Senhora do Carmo, no Rio, de sepulturas do século XVII, destinadas a pessoas de ascendência europeia, apesar de muito degradadas, deram positivo para tuberculose em 7 das 10 costelas analisadas”, afirma Alena. No local foram também encontradas ossadas de índios e negros. Na comparação dos vestígios, a pesquisadora concluiu não só que a tuberculose já grassava na cidade no século XVII, mas que, na medida em que apenas os europeus deram positivo para tuberculose, foram os colonizadores os responsáveis pela introdução da doença no Rio. “Em estudos que fiz sobre material pré-colombiano, encontrei helmintíases intestinais e registros da doença de Chagas. Concluímos que eram doenças que não vieram com os europeus. No Brasil colonial, ao contrário, evidencia-se o papel de europeus na introdução e disseminação de doenças epidêmicas como a tuberculose.” Logo, os temores das “doenças dos negros” que levaram à criação, exatos 200 anos atrás, do Cais do Valongo, seriam infundados. Não há crime perfeito quando os conhecimentos se reúnem.