Conheça 10 poemas incríveis de Manoel de Barros para crianças
Laura Aidar
Arte-educadora, fotógrafa e artista visual
A poesia de Manoel de Barros é feita de singelezas e coisas "sem nome".
O escritor, que passou sua infância no Pantanal, foi criado em meio à natureza. Por conta disso, trouxe para seus textos todo mistério dos bichos e plantas.
Sua escrita encanta pessoas de todas as idades, tendo uma conexão, sobretudo, com o universo infantil. O escritor consegue exibir de forma imaginativa e sensível suas reflexões sobre o mundo através das palavras.
Selecionamos 10 poemas desse grande autor para você ler para os pequenos.
1. Borboletas
Borboletas me convidaram a elas. O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu. Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens e das coisas. Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta seria, com certeza, um mundo livre aos poemas. Daquele ponto de vista: Vi que as árvores são mais competentes em auroras do que os homens. Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças do que pelos homens. Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do que os homens. Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que os cientistas. Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do ponto de vista de uma borboleta. Ali até o meu fascínio era azul.
Manoel de Barros publicou esse poema no livro Ensaios fotográficos, lançado em 2000. Nele, o escritor nos convida a imaginar o mundo através do "olhar" das borboletas.
E como seria esse olhar? Segundo o autor seria enxergar as coisas de uma forma "insetal". Essa palavra não existe na língua portuguesa, é um termo inventado e dá-se o nome de neologismo a esse tipo de criação.
Manoel de Barros utiliza bastante esse recurso em sua escrita para conseguir dar nome a sensações que ainda não foram definidas.
Aqui, ele chega a algumas "conclusões" por meio de seu olhar subjetivo e quase etéreo. Podemos dizer que o autor, basicamente, exibe uma inteligência e sabedoria da natureza muito maior do que a dos seres humanos, que se esquecem muitas vezes que são parte da natureza.
2. O menino que carregava água na peneira
Arte feita por bordadeiras de Minas Gerais, grupo Matizes Dumont, que ilustra o livro Exercícios de ser criança
Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta! Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens, e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Esse lindo poema faz parte do livro Exercícios de ser criança, publicado em 1999. Por meio do texto, adentramos o universo psicológico, fantástico, poético e absurdo de uma criança.
O menino que carregava água na peneira narra as peraltagens de um garoto que gostava de fazer coisas consideradas ilógicas, mas que para ele tinham um outro significado. Para ele, tais despropósitos eram parte de um sistema maior e fantasioso de brincadeiras que o ajudavam a compreender a vida.
No poema, percebemos a relação amorosa da mãe com sua cria. Ela, a princípio, argumenta que "carregar água na peneira" era algo sem sentido, mas depois, se dá conta da potência transformadora e imaginativa dessa ação.
A mãe então, incentiva o filho, que com o passar do tempo também descobre a escrita. Ela diz que o menino será um bom poeta e fará diferença no mundo.
Nesse poema, podemos considerar que, talvez, o personagem seja o próprio autor, Manoel de Barros.
3. Um bem-te-vi
O leve e macio raio de sol se põe no rio. Faz arrebol… Da árvore evola amarelo, do alto bem-te-vi-cartola e, de um salto pousa envergado no bebedouro a banhar seu louro pelo enramado… De arrepio, na cerca já se abriu, e seca.
O poema em questão integra o livro Compêndio para uso dos pássaros, lançado em 1999. Nesse texto, Manoel nos descreve uma cena bucólica e bastante habitual de um bem-te-vi a banhar-se em um fim de tarde.
O autor, por meio da palavras, nos conduz a imaginar e contemplar um acontecimento corriqueiro, mas incrivelmente belo.
Esse pequeno poema pode ser lido para as crianças como um maneira de incentivar a imaginação e valorização da natureza e das coisas simples, nos colocando como testemunhas das belezas do mundo.
4. Mundo pequeno I
O mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores. Nossa casa foi feita de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves. Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio. Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa. Ele me rã. Ele me árvore. De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.
Mundo Pequeno está contido no Livro das Ignorãças, de 1993. Mais uma vez, Manoel de Barros nos convida, nesse poema, a conhecer seu espaço, sua casa, seu quintal.
É um universo natural, cheio de simplicidade, plantas e bichos, que o autor consegue converter em um ambiente mágico, de contemplação e até mesmo gratidão.
No texto, o personagem principal é o próprio mundo. O menino em questão, se apresenta amalgamado à natureza, e o autor depois aparece também imerso nesse lugar, afetado intensamente pela força criadora dos animais, das águas e das árvores.
As crianças podem se identificar com o cenário proposto e imaginar a avó, o menino e o velho, figuras que podem trazer um resgate e sugestão para uma infância simples e descomplicada.
5. Bernardo é quase uma árvore
Bernardo é quase uma árvore Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe E vêm pousar em seu ombro. Seu olho renova as tardes. Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho; 1 abridor de amanhecer 1 prego que farfalha 1 encolhedor de rios - e 1 esticador de horizontes. (Bernardo consegue esticar o horizonte usando três Fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.) Bernardo desregula a natureza: Seu olho aumenta o poente. (Pode um homem enriquecer a natureza com a sua Incompletude?)
No Livro das Ignorãças, de 1993, Manoel de Barros incluiu o poema Bernardo é quase uma árvore. Nele, o personagem Bernardo carrega uma intimidade tão grande com a natureza e um senso de percepção do todo, que é quase como se ele próprio se transformasse em árvore.
Manoel traça uma relação fecunda entre o trabalho e a contemplação, dando a importância devida ao ócio criativo e à sabedoria adquirida do contato com as coisas naturais.
No poema, temos a sensação de que o personagem é uma criança. Entretanto, na realidade, Bernardo era um funcionário da fazenda de Manoel. Um homem simples do campo que conhecia estreitamente os rios, os horizontes, o amanhecer e os passarinhos.
6. A menina avoada
Foi na fazenda de meu pai antigamente Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de goiabada. A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote: Uma olhava para a outra. Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado de fora. De forma que o carro se arrastava no chão. Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas encolhidas. Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira. Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois: - Puxa, Maravilha! - Avança, Redomão! Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos. Meu irmão desejava alcançar logo a cidade - Porque ele tinha uma namorada lá. A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele. Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um rio inventado. Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados. Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal E meu irmão nunca via a namorada dele - Que diz-que dava febre em seu corpo."
A menina avoada compõe o livro Exercícios de ser criança, publicado em 1999. Ao ler esse poema, viajamos juntos com a menina e seu irmão e adentramos as memórias de sua primeira infância.
Aqui, é narrada uma brincadeira imaginativa em que a menininha é conduzida em um caixote por seu irmão mais velho. O poeta consegue compor uma cena de divertimento infantil ao retratar o imaginário das crianças, que vivem verdadeiras aventuras em seus mundos interiores, mas na realidade estavam apenas atravessando o quintal de casa.
Manoel de Barros eleva, com esse poema, a capacidade criativa das crianças a um outro patamar. O escritor exibe também o sentimento amoroso de forma ingênua, com uma beleza sutil, através da namorada do irmão.
7. O fazedor de amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina. Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis. Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas Como sejam: Uma pequena manivela para pegar no sono. Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão. Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca. Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio. Pelo que fiquei um tanto soberbo. E a glória entronizou-se para sempre em minha existência.
Nesse poema, publicado no livro O fazedor de amanhecer, em 2011, o poeta subverte o sentido das palavras e exibe orgulhoso seu dom para coisas "inúteis".
Ele nos conta que suas únicas "invenções" foram objetos fantasiosos para fins igualmente utópicos. Manoel consegue conciliar o caráter prático de ferramentas e máquinas com uma aura imaginativa e considerada supérflua.
Entretanto, a importância que o autor dá para essas inutilidades é tão grande que considera elogioso ser intitulado como "idiota" nessa sociedade.
8. O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar. Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo. Entendo bem o sotaque das águas Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim um atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Poema extraído de Memórias Inventadas: As Infâncias de de Manoel de Barros, de 2008. O apanhador de desperdícios exibe um poeta que tem como característica "colecionar" as coisas sem importância.
Ele valoriza essas coisas, considerando osacontecimentos banais da natureza como verdadeiras riquezas. Assim, rejeita a tecnologia em prol dos animais, plantas e elementos orgânicos.
Outro ponto importante do texto versa sobre a preciocidade do silêncio, tão raro nos grandes centros urbanos. Aqui, ele exibe sua intenção de fazer das palavras ferramentas para dizer o "indizível", criando nos leitores um espaço interno de contemplação da existência.
9. Deus disse
Deus disse: Vou ajeitar a você um dom: Vou pertencer você para uma árvore. E pertenceu-me. Escuto o perfume dos rios. Sei que a voz das águas tem sotaque azul. Sei botar cílio nos silêncios. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Só não desejo cair em sensatez. Não quero a boa razão das coisas. Quero o feitiço das palavras.
O poema em questão consta no projeto A biblioteca de Manoel de Barros, coleção com todas as obras do poeta, lançado em 2013.
No texto, o autor manipula as palavras, trazendo novos significados e surpreendendo o leitor ao aliar sensações díspares em uma mesma frase, como no caso de "escutar o perfume dos rios". Manoel utiliza-se bastante desse recurso de sinestesia em suas obras.
O poema se aproxima do universo das crianças, pois sugere fantasiosas cenas que o aproximam da natureza, tendo uma relação até mesmo com brincadeiras, como no verso "sei botar cílios nos silêncios".
10. Exercícios de ser criança
Bordado de mulheres de Minas Gerais, que ilustra a capa do livro Exercícios de ser criança
No aeroporto o menino perguntou: -E se o avião tropicar num passarinho? O pai ficou torto e não respondeu. O menino perguntou de novo: -E se o avião tropicar num passarinho triste? A mãe teve ternuras e pensou: Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso? Ao sair do sufoco o pai refletiu: Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças. E ficou sendo.
Esse poema integra o livro Exercícios de ser criança, de 1999. Aqui, Manoel de Barros expõe de forma incrível a ingenuidade e curiosidade infantil através do diálogo entre uma criança e seus pais.
O menino faz uma indagação muitopertinente na imaginação dele, mas que por ser algo que não se constitui uma preocupação para os adultos, acaba sendo recebida com surpresa.
Entretanto, a criança insiste, querendo saber o que aconteceria se um avião trombasse com um pássaro triste em pleno voo. A mãe então, entende que aquela curiosidade trazia também uma grande beleza e poesia.
Manoel de Barros musicado para crianças
Alguns poemas do escritor foram transformados em canções para crianças através do projeto Crianceiras, do músico Márcio de Camillo. Ele passou 5 anos estudando a obra do poeta para a elaboração das músicas.
Confira um dos clipes do projeto feito com a técnica de animação.
Quem foi Manoel de Barros?
Manoel de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916 em Cuiabá, no Mato Grosso. Formou-se em direito no Rio de Janeiro em 1941, mas já em 1937 havia publicado seu primeiro livro, intitulado Poemas concebidos sem pecado.
Na década de 60 passa a dedicar-se à sua fazenda no Pantanal e, a partir dos anos 80, tem o reconhecimento do público. O escritor teve uma produção intensa, publicando mais de vinte livros ao longo da vida.
Em 2014, depois de se submeter a uma cirurgia, Manoel de Barros falece, em 13 de novembro, no Mato Grosso do Sul.
Livros de Manoel de Barros direcionados ao público infantil
Manoel de Barros escrevia para todo tipo de pessoa, mas sua maneira tão espontânea, simples e fantasiosa de enxergar o mundo acabou cativando o público infantil. Dessa forma, alguns de seus livros ganharam reedições direcionadas para as crianças. Entre eles:
O poeta e jornalista Thiago de Mello morreu nesta sexta-feira (14), aos 95 anos, em Manaus, onde residia com a família. A causa da morte ainda não foi informada.
Nascido na cidade de Barreirinha, interior do Amazonas, em 1926, Mello é um dos maiores poetas de sua geração: suas obras foram traduzidas para mais de 30 idiomas e, em 70 anos de produção literária, acumulou prêmios e reconhecimentos pelo seu trabalho. Foi também editor, jornalista, tradutor, artista gráfico, roteirista e diplomata.
Com sua obra, o poeta ajudou a difundir a luta pela preservação da floresta Amazônica e a expor os problemas que a região enfrenta.
Um de seus poemas mais conhecidos é “Os Estatutos do Homem”, escrito logo após a instauração da ditadura militar no Brasil.
“Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas marcharemos todos pela vida verdadeira”
(Os Estatutos do Homem)
Quando volta do exílio, após residir 10 anos fora do Brasil, Mello retorna à sua cidade natal, Barreirinha, de onde tinha saído ainda criança. Residindo em uma localidade do Rio Andirá chamada Ponta da Gaivota, o poeta volta a ter contato direto com a natureza, a vida ribeirinha e a realidade do homem interiorano, experiência que influencia diretamente em sua obra. Em “Mormaço na Floresta” e Amazonas – Pátria da água”, Mello expressa de forma direta essa sua relação com a natureza.
“Tem consistência física, espessamente doce, o silêncio noturno da floresta … Sozinho no centro da noite amazônica escuto o poder mágico do silêncio, agora quando os pássaros conversam com as estrelas, e recito silenciosamente o nome lindo da mulher que eu amo.” (O silêncio da floresta)
O poeta era membro da Academia Amazonense de Letras e recebeu o destaque de Personalidade Literária do Prêmio Jabuti em 2018. No ano passado, em celebração aos seus 95 anos de vida, a prefeitura de Manaus realizou a exposição virtual “Thiago de Mello – 95 anos de vida, poesia e amor por Manaus”, que conta com fotos, vídeos e entrevista do autor e sobre ele.
O governador Wilson Lima e o prefeito de Manaus, David Almeida, decretaram luto oficial de três dias pelo falecimento do poeta. O velório de Thiago de Mello ocorrerá no Palácio Rio Negro, Centro Histórico de Manaus, em horário ainda a ser definido.
Quero dizer, antes de tudo, do prazer que é estar aqui partilhando um momento que tem como tecto duplo a noite e a Biologia. A noite sugere o lugar encantado dos contadores de histórias. Uma biologia nocturna sugere um saber mais feminino, sob uma luz lunar em contraste com uma certa arrogância de um outro conhecimento que se apresenta como fonte solar.
Os encontros designados Biologia na noite sugerem a possibilidade de recriar uma fogueira imaginária em redor da qual podemos fazer aquilo que creio ser tão necessário nos nossos dias. E que é reencantar o mundo. Uma constrangedora aridez foi-se instalando como nossa condição comum. A culpa não é evidentemente nossa. Mas nós herdámos uma ideia de ciência que vive de costas para a necessidade de trazer leveza e construir beleza. Alguma coisa que se pretenda científica deve-se apresentar de trajes cinzentos, solenes. Para merecer credenciais científicas as nossas acções precisam de ter uma seriedade quase ascética. As cerimónias de graduação das universidades em Portugal e Moçambique parecem rituais medievais, com professores e estudantes envergando assustadoras túnicas escuras que quase sugerem um culto satânico.
A cidade de Aveiro só pode suscitar um sentimento oposto a estes cultos sombrios de glorificação do saber. A luminosidade da cidade é tão intensa que cria a ilusão de nos dissolvermos no espaço. E lembrei-me de uma pequena lição que aprendi este ano, numa pequena aldeia de Moçambique. Quando fui recebido pelos chefes tradicionais eles quiseram saber de mim, da minha viagem. “Cheguei há três dias”, comecei por dizer. E logo o régulo me corrigiu: “Não, você só chegou agora, agora que estamos abrindo o coração do lugar”. De outro modo, o que esse homem me dizia era que os lugares não são coisas. São entidades vivas, possuem um coração que está nas mãos daqueles que falam com as vozes do chão. Por isso eu agradeço às pessoas que me estão abrindo o coração de Aveiro. Sem eles eu não teria ainda chegado a este lugar.
Quando me convidaram para participar neste ciclo de conferências confesso que resisti. E fiz-lhes recordar os meus argumentos que eu já havia invocado quando me pediram para falar na sessão de abertura do Primeiro Encontro de Biólogos da CPLP, em setembro de 2004. É que realmente não se pode confiar em mim, não pertenço a esse respeitável círculo de colegas que fazem do pensamento científico a sua profissão de fé, a sua crença única e exclusiva. Sou um biólogo mas não moro, a tempo inteiro, na casa da ciência.
Já nessa altura, perante essa outra conferência, eu me desculpei dizendo: mais do que uma disciplina, a Biologia é para mim uma indisciplina científica, um modo de estar mais próximo das perguntas do que das respostas. Acredito na ciência, sim, mas apenas como um dos caminhos do saber. Existem outros caminhos e quero estar disponível para os percorrer. Uma parte da nossa formação científica confunde-se com a actividade de um polícia de fronteiras, revistando os pensamentos de contrabando que viajam na mala de outras sabedorias. Apenas passam os pensamentos de carimbada cientificidade.
A Biologia é um modo maravilhoso de emigrarmos de nós, de transitarmos para lógicas de outros seres, de nos descentrarmos. Aprendemos que não somos o centro da Vida nem o topo da evolução. Aprendemos que as bactérias são seres sofisticados que fizeram mais do que nós, espécie humana, pela existência da Terra como um organismo vivo. O dr. Amadeu Soares sabe lidar com seres complexos como as cianobactérias e, por isso, está, automaticamente, habilitado a lidar com escritores em apuros. O meu amigo Soares encontrou a resposta rápida para as minhas sucessivas hesitações: “Pois vens falar ao mesmo tempo como escritor e biólogo”. Uma sugestão simbiótica: como se pode resistir?
Não gosto propriamente de falar. Prefiro conversar. Combinámos, assim, que eu não traria comigo uma comunicação académica. “Trazes uma notas soltas e eu até invento um título para a conferência” (este título Mitos e pecados de uma indisciplina científica é da autoria do Amadeu). Com este acordo viajei tranquilo pensando que as tais notas soltas surgiriam de forma simples. Não surgiram. Houve um momento em que me arrependi de não trazer uma comunicação mais formal. Rabisquei este breve texto e se pudesse rebaptizar o nosso encontro eu dar-lhe-ia este outro título: Rios, cobras e camisas de dormir.
Dentro de duas semanas lançarei em Portugal o meu último romance que se chama O outro pé da sereia. Nesse texto, refiro de passagem um povo do norte de Moçambique, os chamados achikundas, descendentes de escravos, que se especializaram na travessia do rio Zambeze. Esta gente dizia de si mesma ser “o povo do rio” e, ao fazer as suas juras e rezas, invocava o nome do rio. Ainda hoje há quem, naquela região, empenha a palavra dizendo: “juro pelo rio”. E dizem “o Rio” sem que nunca lhes tivesse ocorrido dar um outro nome, pois era como se nenhum outro rio houvesse no mundo.
Faço um parêntese, tendo chegado à primeira baliza do título da minha intervenção. Acreditamos que todos sabemos o que é um rio. No entanto, essa definição é quase sempre redutora e falsa. Nenhum rio é apenas um curso de água, esgotável sob o prisma da hidrologia. Um rio é uma entidade vasta e múltipla. Compreende as margens, as áreas de inundação, as zonas de captação, a flora, a fauna, as relações ecológicas, os espíritos, as lendas, as histórias. É uma rede de entidades vivas, um assunto mais da Biologia que da Engenharia. Habituados a olhar as coisas como engenhos, esquecemos que estamos perante um organismo que nasce, respira e vive de trocas com a vizinhança.
Regresso aos nossos amigos Achikundas. Durante o final do século XIX, o vale do Zambeze foi alvo de frequentes ataques, e os sucessivos ocupantes queriam fazer uso das habilidades de navegadores dos tais achikundas. A dado passo, este povo começou a sentir-se inseguro e, sempre que sabia da chegada de estranhos, a primeira coisa que fazia era amarrar a canoa nas pedras do fundo das águas. Depois, quando eram abordados, os achikundas apresentavam-se do seguinte modo: “Nós não somos quem vocês esperam”. Eles eram sempre outros, os do outro lado, da outra margem.
Pois eu também, de vez em quando, afundo a minha canoa e me apresento como o da outra margem. Quando estou em ambientes demasiado literários, puxo do meu chapéu de biólogo. Quando estou entre biólogos que se levam muito a sério, rapidamente puxo do chapéu de escritor.
Não é este o caso, estou num ambiente familiar e posso assumir a minha condição não dividida mas repartida, a exemplo do russo Anton Tchekhov, que dizia que entre medicina e literatura não havia um caso de traição, pois a esposa e a amante eram uma mesma e única pessoa.
Uma das perguntas que mais frequentemente me fazem é a seguinte: “Como concilia literatura e Biologia?”. A pergunta é curiosa, mas mais curioso ainda é saber por que razão me fazem tanto essa pergunta. O que leva as pessoas a pensar que existe um problema de compatibilidade entre os dois fazeres?
Vou contar-vos um episódio estranho mas verídico que sucedeu recentemente em Moçambique, no distrito do Dondo, perto da minha cidade natal, a Beira. Este caso mereceu durante semanas o maior destaque na imprensa nacional. Sucedeu o seguinte: uma cobra, uma mamba preta, fez moradia no edifício da Administração. Um número não definido de mortes (que nunca se confirmaram) foi reportado. As vítimas não tinham sido mordidas. Morriam, diz-se, porque pisavam a sombra da serpente. Não deixa de ser interessante que alguém possa pisar a sombra de uma serpente. Mas o mais misterioso era que, todas as noites, a cobra entoava o hino nacional.
Pelas janelas sem vidros do edifício se espalhavam os afinados acordes. Os residentes escutavam em perfilado respeito, e alguns faziam mesmo coro com a patriótica serpente. O pânico espalhou-se na vila e as autoridades convocaram os cientistas. Poucas vezes chamam os cientistas e aquela repentina subida de divisão era um momento vivido com exaltação. Foram desenhadas tácticas e estratégias: derrubou-se um morro de muchém e as árvores em redor da Administração, que se pensava serem o habitat do perigoso réptil. Durante dias, o jornal governamental deu conta das atribulações da caça à serpente. O sector privado foi chamado a financiar as operações de captura. Um colega meu esteve dois dias no chamado “centro dos acontecimentos”, para fazer sessões de esclarecimento sobre a necessidade de proteger répteis em perigo de extinção.
Como sempre, acreditamos que a tecnologia nos salva de todos os embaraços e esse colega herpetólogo muniu-se de todos os apetrechos: câmara de vídeo, projector de diapositivos, indicador de raios laser. (Existe, meus amigos, uma espécie de loja do Coronel Tapioca montada para os cientistas que trabalham nos trópicos.) Quando terminou a campanha de sensibilização, as autoridades locais agradeceram do seguinte modo: “Gostámos muito do que nos mostrou; só é pena que não tenha falado desta cobra”. “Como não falei?”, reagiu ele. “Então não falei da mamba negra?” E os camponeses responderam: “Falou sim, mas não é esta”. Desesperado, o biólogo só queria uma derradeira confirmação: “Digam-me só uma coisa: isso que tem aparecido aqui é realmente uma cobra?”. E a resposta final foi: “Quase é, doutor. Quase é”.
Shakespeare proclamou a existencial dúvida do “ser ou não ser” porque, certamente, não estava avisado desta categoria do “quase ser”. Nem eu sabia dessa possibilidade. Pois se soubesse, quando me perguntassem se me considero mais um escritor ou um biólogo eu responderia: “Quase considero, quase considero”.
A verdade é que para mim não existe conflito. Pelo contrário, hoje não sei como poderia ser escritor caso eu não fosse biólogo. E vice-versa. Nenhuma das actividades me basta. O que me alimenta é o diálogo, a intersecção entre os dois saberes. O que me dá prazer é percorrer como um equilibrista essa linha de fronteira entre pensamento e sensibilidade, entre inteligência e intuição, entre poesia e saber científico.
Um poeta chamado Zhu Xi escreveu o seguinte há cerca de 1200 anos: “No topo das altas montanhas vejo conchas que me dizem que antigos lugares de baixa altitude se elevaram para os céus e moram agora nos mais elevados picos. Estas conchas dizem-me também que materiais vivos de animais se converteram nas mais duras e inertes rochas”.
Estas palavras foram durante séculos lidas como se fossem versos. Mas Zhu Xi não era apenas um poeta: era um cientista, aquilo que, até há pouco, se chamava um naturalista. As suas palavras referiam claramente o processo de fossilização. O chinês falava de animais que se haviam extinguido num mundo em que montanhas e mares continuamente se deslocavam. A sua dedução parece simples. Mas a ciência nem sempre se fez por métodos muito científicos. E foram precisos mais de mil anos depois da sua morte para que a ciência aceitasse a existência e o significado dos fósseis como testemunho da dinâmica da Vida. Preconceitos ideológicos e religiosos impediam de olhar a Terra e a Vida como estando em constante mudança. A ideia de que espécies tivessem falhado e extinções maciças tivessem ocorrido chocava com a noção de uma obra perfeita e acabada do Criador.
Nos finais de 1700, barcos que regressavam da América do Norte trouxeram ossadas de um animal gigantesco. Sugeriu-se que esses restos provinham de um elefante. Mas era pouco provável que esses mamíferos tropicais ocorressem naquelas regiões geladas. Havia os ossos, não havia o animal. Os nossos colegas da época designaram o estranho bicho de INCÓGNITO. Por um tempo, mantiveram a esperança de que algum explorador avistasse o monstro. Mas isso nunca aconteceu. Até que Georges Cuvier — um anatomista e paleontologista francês — sugeriu que o tal INCÓGNITO seria um animal extinto que ele designou por mastodonte. Teriam, afinal, existido cataclismos que conduziram ao desaparecimento de espécies vivas.
É importante dizer que as conclusões de Cuvier só foram aceites porque ele as apresentou como consistentes com as teses bíblicas das pragas e das cheias. Durante séculos, o desejo do conhecimento tinha sido cerceado pela ameaça da punição. Sucessivos mitos como o de Prometeu, o de Pandora, o de Adão e Eva (castigados por comer o fruto da árvore do conhecimento), actuaram como travões para a curiosidade que está na base do conhecimento. Quando Cuvier apontou as ossadas fósseis como prova de um animal extinto, esse clima de censura já estava mais aliviado. Eram tolerados os conhecimentos que nos aproximassem de Deus. Mas não eram apenas os pecados de pensamento que se procurava prevenir. A vida privada estava sujeita, mesmo no Renascimento, a pesadas interdições. Durante todo esse tempo, os casais estavam proibidos de dormirem nus. As camisas de dormir que ainda hoje conhecemos não são apenas uma peça de vestuário. São também uma herança das cruzadas puritanas contra os pecados do corpo e da paixão.
As ciências sempre foram policiadas e manipuladas pelos poderes. Hoje não vivemos uma situação de excepção. Esses poderes não têm um rosto definido. Um deles chama-se mercado. Cabe-nos a nós interrogarmo-nos se não nos estamos convertendo em funcionários desse gigantesco laboratório sem nome. É verdade que já não nos impõem restrições de uma forma clara. Mas existem preconceitos que subjazem ao nosso trabalho científico. A ciência e a literatura podem pôr em causa as ideias arrumadas que apresentam a Terra, a Vida e o Ambiente como entidades feitas, exteriores ao Homem. Tanto a Terra como a Vida são produções contínuas, são redes de interacções feitas de inacabados processos, de irresolúveis desequilíbrios.
O Meio Ambiente foi hoje convertido numa bandeira, numa entidade mistificada. Eu sou biólogo e preocupo-me evidentemente com as causas ambientalistas. Não é isso que está em jogo. O que está em causa é podermos questionar a noção de Ambiente. Não podemos deixar que as noções sejam construídas como conceitos de moda, uma espécie de fait-divers do jornalismo de ocasião.
Na realidade, não existe ambiente como uma entidade única, fixa e exterior à sociedade humana. O ambiente é múltiplo e com significados contextuais diversos — os incêndios florestais em Portugal têm implicações bem diversas dos fogos da savana. O ambiente (que deve ser dito no plural) tem dinâmicas de mudança cuja complexidade nós nem sempre entendemos. Este céu límpido e azul de que hoje desfrutamos já foi naturalmente espesso e castanho. Este azul celestial que associamos à pureza foi resultado de uma das maiores catástrofes ecológicas que atingiu a Terra. O oxigénio que hoje nos sugere um ar puro e respirável surgiu como um dos mais mortíferos poluentes da história do nosso Planeta. Se houvesse, na altura, um Ministério do Ambiente e normas ambientais da União Europeia correríamos o risco de viver sob um céu de metano, terroso e triste. O chamado Meio Ambiente é uma co-produção de cuja equipa produtora fazemos parte.
Não é tanto de “defesa” que o ambiente necessita. Precisa, primeiro, de um melhor entendimento. Depois, precisa de uma produção menos centrada nos interesses de lucro de uma pequena elite que fala em nome do mundo.
Um dos princípios que nos guiam estabelece que as ciências se ocupam de verdades e não de beleza. Essa parede divisória foi muitas vezes violada. Quem ergueu esta parede divisória não saberá da aptidão para ser feliz. Em rigor, não existem “coisas” belas. Para ser bela, a “coisa” deixa de ser coisa. Passa a ser entidade viva, passa a ser parte da Vida. Porque ela só é bela enquanto produtora de sentimento de beleza. Só é bela enquanto nos fala e nos conduz secretamente para reavivar uma relação de parentesco com o Universo.
Watson e Crick, quando imaginavam a arquitectura do ADN, foram guiados também por princípios estéticos. Como se uma voz lhes murmurasse: “A dupla hélice está certa porque é bonita”. Sei que estou simplificando. Mas as moléculas sabem mais de poesia do que nós podemos imaginar. E as conchas fósseis que há 1200 anos comoveram o chinês Zhu Xi eram ciência escrita em versos. O poeta apenas reconheceu o casamento entre beleza e verdade.
Afinal, a ciência e a arte são como margens de um mesmo rio. A Biologia não é diurna nem nocturna se não se assumir como autora de uma espantosa narração que é o relato da Evolução da Vida. Podem ter a certeza de que a História da Evolução é tão extraordinária que só pode ser escrita juntando o rigor da ciência ao fulgor da arte.
A fechar, quero dizer o seguinte: poesia e ciência são entidades que não se podem confundir, mas podem e devem deitar-se na mesma cama. E quando o fizerem espero bem que dispam as velhas camisas de dormir.
* Conferência no Ciclo Biologia na noite, Universidade de Aveiro, Aveiro, 2006