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Saturday, 4 April 2015

O familiar Homo ignorans

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O familiar Homo ignorans

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Que será a racionalidade? Um caminho para o conhecimento? Ou a busca de suposta superioridade moral, para disfarçar preconceitos e busca e privilégios?
Por Ladislau Dowbor
homo sapiens todos conhecemos. Inclusive a maior parte da teoria econômica e das teorias das transformações sociais se baseia numa compreensão otimista de que o homem absorve conhecimentos, confronta-os com os seus objetivos racionalmente entendidos, e procede de acordo. Quando erra, analisa os erros e corrige a sua visão para não repeti-los.
Naturalmente, é agradável pensarmos que somos, conforme aprendi na escola, animais racionais, racionalidade que nos separaria confortavelmente dos animais. As minhas dúvidas aumentam proporcionalmente à minha idade, o que significa que são elevadas. Pensar que somos mais do que somos é uma atitude muito difundida. A bíblia já abre com o tom adequado: Deus nos criou à sua imagem e semelhança, o que implica por virtude dos espelhos que somos semelhantes nada mais nada menos que a Ele. O tamanho desta pretensão, e o fato de passar tão desapercebida e natural, já mostra a que ponto a nossa racionalidade pode ser adaptada ao que é agradável, mas não necessariamente ao que é verdadeiro.
TEXTO-MEIO
Pensar na dimensão irracional da nossa inteligência, ou nas raízes interessadas e ideologicamente deformadas do que nos parece racionalmente verdadeiro, é muito interessante. Existe um termo simpático para isto, que é a racionalização. Fazemos uma construção racional em cima de fundamentos profundamente enterrados na confusão de paixões, medos, ódios e sentimentos contraditórios. Quanto maior o preconceito – no sentido literal, raiz emocional que assume a postura antes do entendimento – maior parece ser a busca do sentimento de superioridade moral.
Devemos lembrar como foram denunciados e massacrados ou ridicularizados os que lutaram pelo fim da escravidão, pelo fim da discriminação racial, pelos direitos de organização dos trabalhadores, pelo voto universal, pelos direitos das mulheres? Hoje é a mesma luta pela redução das desigualdades, pelo fim da destruição do planeta, pela democratização de uma sociedade asfixiada por interesses econômicos. Aqui precisamos de muito bom senso e generosidade. Ou seja, emoções e indignações sim, mas apoiadas na inteligência do que acontece no mundo e visando o interesse maior de todos, e não no interesse particular de defesa dos privilégios.
Aqui realmente é preciso de muita ignorância, ou seja, desconhecimento (voluntário ou não), para não se dar conta dos desafios reais. O aquecimento global é uma ameaça real, mas a direita tende a negar, como se o termômetro e a medida dos gazes de efeitos de estufa fossem de esquerda. O desmatamento generalizado do planeta está levando a perdas de solo fértil em grande escala, quando iremos precisar de mais área de plantio. A vida nos mares está sendo esgotada pela sobrepesca e em 40 anos, segundo o WWF, perdemos 52% da vida vertebrada no planeta. É um desastre planetário espantoso, mas não aparece na mídia comercial. Os dados sobre a inviabilização ambiental do planeta são hoje amplamente comprovados. Mas as opiniões se dividem: é questão de opinião ou de conhecimento dos dados?
No plano social é mais impressionante ainda: até Davos escuta e divulga as pesquisas da Oxfam, do Banco Mundial e das Nações Unidas, dos inúmeros institutos de pesquisa estatística em todos os países sobre a desigualdade crescente da renda. Pior, temos agora os dados da desigualdade do patrimônio acumulado das famílias – 85 famílias são donas de mais riqueza acumulada do que 3,5 bilhões de pessoas na base da pirâmide social – gerando tensões insustentáveis, mas em Wall Street enchem a boca e declaram “greed is good”, é bom ser ganancioso. Sobre esta desigualdade de patrimônio uma das principais fontes é o Crédit Suisse, que tem boas razões para entender tudo de fortunas familiares. Vamos tampar os olhos e fazer de conta que acreditamos que é possível manter a paz política e social num planeta onde 1,3 bilhões não têm acesso à luz elétrica, 2 bilhões não têm acesso a fontes decentes de água, 850 milhões passam fome. Tem sentido acreditar no bom pobre¸ que se resigna e aceita, quando hoje até no último degrau da pobreza há uma consciência do direito a ter uma escola decente para o filho, saúde básica para a família? Aqui já não são apenas os olhos e os ouvidos que estão tapados, e sim a própria inteligência.
E porque toda esta riqueza acumulada no topo não serve para as reconversões tecnológicas que nos permitam salvar o planeta, e para financiar as políticas sociais e inclusão produtiva capaz de reduzir as desigualdades? Basicamente porque está situada em paraísos fiscais, aplicada em sistemas de especulação financeira, sequer interessada em investimentos produtivos tradicionais. Os 737 grupos que controlam 80% das atividades corporativas do planeta são essencialmente grupos financeiros. Fonte? O Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica. São recursos que não só se aplicam em especulação financeira em vez de investimento produtivo, como migram para paraísos fiscais onde não pagam impostos. O Economist estima que sejam 20 trilhões de dólares, um pouco menos de um terço do PIB mundial.
O Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais, da ordem de 25% do PIB. O HSBC que o diga. Mas no Brasil a grande vitória é a eliminação da CPMF que cobrava ridículos 0,38% sobre movimentações financeiras. No Brasil a direita identifica o culpado pelas dificuldades atuais: não o desvio de recursos através da máquina financeira, mas os excessos de gastos sociais do governo. Ainda bem que temos a corrupção para canalizar a atenção e os ódios. O uso produtivo dos recursos não seria mais inteligente?
Não há nenhuma confusão sobre as dimensões propositivas: se estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria que pouco produz e muito especula, trata-se de tributar a riqueza improdutiva para financiar as políticas tecnológicas, ambientais e sociais indispensáveis aos equilíbrios do planeta. Com Ignacy Sachs e Carlos Lopes apontamos rumos básicos no documento Crises e Oportunidades em Tempos de Mudança, não são ideias que faltam: falta muita gente que tampa o sol com a peneira dos seus interesses se dar conta dos desafios reais que enfrentamos.
Confesso que ando preocupado. Parece que quanto maior a bobagem declarada, maior o sentimento de superioridade moral. E o ódio, esta eterna ferramenta dos preconceituosos, é um sentimento agradável quando se consegue encobrir o interesse com um véu de ética. Nesta nossa guerra permanente entre o frágil homo sapiens e o poderoso e arrogante homo ignorans, a olhar pelo mundo afora, e pelos gritinhos histéricos de extremistas por toda parte – sempre em nome de elevados sentimentos morais e com amplas justificações racionais – o direito ao ódio parece superar todos os outros. Pobre Deus, nosso semelhante.

Tuesday, 4 September 2012

O paradigma: Teoria sobre revoluções científicas faz 50 anos

IHU - UNISINOS
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/513121-o-paradigma-teoria-sobre-revolucoes-cientificas-faz-50-anos-


O paradigma: Teoria sobre revoluções científicas faz 50 anos

Desenvolvida pelo físico Thomas Kuhn no clássico A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), a teoria de paradigmas que são compartilhados pela comunidade científica até que sejam superados tornou-se um lugar-comum em discussões intelectuais e corporativas, mas permanece brilhante e atual.
A reportagem é de John Naughton, publicada no jornal The Guardian e reproduzida pelo jornal Folha de S.Paulo, 02-09-2012.
Eis o artigo
Há 50 anos, a editora da Universidade de Chicago lançou um dos livros mais influentes do século 20: A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn. Para tirar a prova, basta pensar se você já ouviu ou empregou a expressão "mudança de paradigma", provavelmente a mais usada -e abusada- nas discussões contemporâneas sobre mudança organizacional e progresso intelectual.

A sacada de Kuhn surgiu da compreensão de que, se alguém deseja entender a ciência aristotélica, precisa conhecer a tradição intelectual na qual Aristóteles trabalhava. Para ele, o termo "movimento" queria dizer mudança em geral - não só a mudança de posição de um corpo, hoje.

Essa percepção é o propulsor do livro de Kuhn, que foi lançado em 1962, com 172 páginas. O autor se referia à edição como "um simples rascunho". Sem dúvida preferiria ter escrito um tijolo de 800 páginas. A legibilidade e a relativa brevidade do tal "rascunho" foram cruciais para o seu sucesso.

A proposição central é que um estudo cuidadoso da história da ciência revela que o desenvolvimento, em qualquer campo científico, acontece em fases. A primeira é a "ciência normal". Nessa fase, uma comunidade de pesquisadores que compartilha uma estrutura intelectual - "paradigma" ou "matriz disciplinar" - se envolve na solução de enigmas gerados por discrepâncias (anomalias) entre o que o paradigma prevê e o que a observação ou experimento revela.

Em geral, as anomalias são resolvidas por alterações graduais de paradigma ou pela constatação de erros de observação ou nos experimentos. Como define o filósofo Ian Hacking em seu prefácio para a nova edição de AEstrutura das Revoluções Científicas, "a ciência normal não busca novidade, mas limpar o status quo. Tende a descobrir o que espera descobrir".

O problema é que em períodos mais longos as anomalias não resolvidas se acumulam e a situação força os cientistas a questionar o paradigma. Quando isso acontece, a disciplina entra em crise, caracterizada, nas palavras de Kuhn, por "uma proliferação de articulações convincentes, a disposição de tentar qualquer coisa, a expressão de descontentamento explícito, o recurso à filosofia e ao debate de preferência aos fundamentos".

A crise é resolvida por uma mudança revolucionária de visão do mundo, na qual o paradigma deficiente é substituído por um novo. É a "mudança de paradigma" que se tornou clichê, e depois que ela acontece o campo científico retorna à ciência normal, mas com nova estrutura. E o ciclo recomeça.

O que mais incomodou os filósofos foi o argumento segundo o qual paradigmas concorrentes são "incomensuráveis", ou seja, não há modo objetivo de avaliar seus méritos. Não há, por exemplo, como testar os méritos comparativos da mecânica newtoniana (que se aplica a planetas e bolas de bilhar, mas não ao que acontece dentro do átomo) e da mecânica quântica (que trata do nível subatômico).

Mas, se os paradigmas rivais forem de fato incomensuráveis, isso não implicaria que as revoluções científicas, ao menos em parte, tivessem bases irracionais?

A grande ideia de Kuhn -a de um "paradigma" como estrutura intelectual que torna a pesquisa possível- ganhou vida própria. Charlatães, marqueteiros e administradores de empresas a usam para convencer seus clientes da necessidade de mudanças em sua visão de mundo. E cientistas sociais viram uma rota para a respeitabilidade e as verbas de pesquisa, o que por sua vez resultou na emergência de paradigmas patológicos em áreas como a economia.

A ideia mais intrigante, porém, é a de usar o pensamento de Kuhn para interpretar sua realização. Discreto, ele causou uma revolução conceitual mudar nossa compreensão da ciência. Mas as anomalias já começam a se acumular. Kuhnacreditava que a ciência girasse em torno de teorias, mas uma vanguarda cada vez mais forte usa pesquisas baseadas não em teorias, mas em dados.

E, embora a física fosse indubitavelmente a rainha das ciências, quando o livro de Kuhn foi escrito, esse papel agora é da genética molecular e da biotecnologia. Será que sua análise se aplica a essas novas áreas? Se não, será o momento de uma mudança de paradigma?