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Wednesday, 31 July 2019

Não somos mais Homo Sapiens

http://www.ihu.unisinos.br/591233-nao-somos-mais-homo-sapiens
Não somos mais Homo Sapiens

DNA modificado no laboratório, homens cyborg e desejos monitorados por máquinas. Este é o nosso futuro de acordo com o historiador e ensaísta israelense Yuval Noah Harari.
A entrevista é de Roberto Saviano, jornalista e escritor italiano, publicado por Repubblica, 28-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.
Olhem para o ser humano. Olhem para os dedos dos pés, esses pequenos dedos frágeis, nada a ver com as garras de um puma; esse corpo sem pelos, tão diferente da pelagem de um urso; esse peito que, por mais inchado que seja, nada é comparado aos peitorais reforçados de um gorila; o olho míope que fica cego à primeira penumbra, incapaz de ver à noite como uma coruja; essas frágeis escápulas humanas que nada têm a ver com as magníficas asas de um falcão peregrino. Basta olhar para nós para entender o quão pouco seja dotado esse horrível ser humano que não é capaz de voar, mal consegue escalar e nada pior do que o último dos peixinhos dourados. E o olfato? Percebemos os cheiros a poucos metros de nós, enquanto um cachorro consegue senti-los a dois campos de futebol de distância.
Mesmo assim, essa criatura chamada Sapiens conseguiu se impor a todos os outros. A história da humanidade é realmente a épica história do fraco que triunfa sobre o forte? É uma pergunta que ninguém melhor do que Yuval Noah Harari, historiador israelense que com seus livros literalmente reescreveu a jornada humana na Terra, pode responder. "O poder dos homens não é determinado pelo indivíduo, mas por uma coletividade, pois os seres humanos sozinhos são criaturas fracas. Um homem não é apenas mais fraco que um mamute ou um elefante, mas também que chimpanzés ou lobos. Nós humanos, conseguimos dominar o mundo porque cooperamos melhor do que qualquer outro animal do planeta".
Eis o segredo do sucesso do homem: sua capacidade de criar comunidade. Sua inteligência, ou seja, a capacidade de ligar o múltiplo em torno dele, levou o Sapiens a ser um animal capaz de construir civilizações. A imaginação e a criatividade são os pilares da construção de seu domínio, mas o traço distintivo desta raça é um: a capacidade de exterminar seus rivais. A evolução do ser humano não é uma história pacífica. Vocês se lembram daquela imagem nos livros escolares em que, em uma linha do tempo de milhões de anos, víamos os vários hominídeos se erguerem do macaco para o Homo sapiens? Tudo falso. Como Harari descreve no primeiro livro da trilogia sobre a macro história humana, SapiensUma breve história da humanidade, o Homo sapienscoexistiu com outros hominídeos e conseguiu emergir através do massacre de todos.

Eis a entrevista.

Yuval Noah Harari – Cinquenta mil anos atrás, a Terra não era povoada por uma única espécie humana, mas pelo menos por seis diferentes espécies de hominídeos, entre os quais nossos ancestrais Homo sapiens na África. A Itália era povoada pelos Neandertais e no Extremo Oriente havia o Homo erectus e assim por diante. Quando o Homo sapiens se espalhou pelo planeta, as outras espécies de hominídeosdesapareceram. E muitos outros animais também desapareceram. De fato, parece que o Homo sapiens é uma espécie de assassino ecológico que sistematicamente aniquilou outros animais, especialmente aqueles que se parecem mais conosco. Quanto mais um animal se parece conosco, mais nós constituímos um perigo para tal espécie.
É quase engraçado pensar que muitos ficarão incomodados com a ideia de que todos os italianos descendem dos africanos. Mas os Neandertais só foram exterminados ou também foram assimilados?
Há evidências mostrando que, em alguns casos, o Homo sapiens teve relações sexuais com membros de outras espécies de hominídeos. Por exemplo, a maioria dos europeus contemporâneos e a maioria dos italianos têm alguns ancestrais Neandertais. 96-98 por cento do patrimônio genético pertence ao Homo sapiens, enquanto 2-3 por cento ao do Neandertal. Assim, cerca de quarenta mil anos atrás, os novos imigrantes da ÁfricaHomo sapiens, tiveram alguma relação romântica ou sexual com os Neandertais de onde descendeu uma prole fértil.
O homem, portanto, avançou "na marra" da história, acumulando massacres sobre massacres para chegar aonde chegou. Eu me pergunto se é parte do pacto para dominar este planeta a ferocidade desse homem...
Não tenho certeza que seja necessário. Acredito que os seres humanos sempre têm a possibilidade de escolher. Na história, os humanos optaram por eliminardeterminados grupos étnicos ou religiosos. Mas não era necessário, não era inevitável. Sabe-se que no século passado os nazistas achavam que, para criar um mundo melhor, era necessário exterminar o que eles afirmavam serem raças humanas inferiores.
Na realidade, portanto, o que conta na evolução é como matar, como controlar o outro. O Sapiens não podia tolerar que os primos existissem. Somos a raça fruto do grande massacre de nossos semelhantes. Vence quem mata mais?
Não é bem assim. Os homens criaram um mundo melhor ao longo das últimas décadas graças à cooperação, não graças à guerra, à violência e ao extermínio.
Cooperação como resultado da evolução, da maior inteligência, assim eu acreditava. Pelos seus livros, em vez disso, é claro que pensar que nosso ancestral pré-histórico fosse menos inteligente é um erro absoluto. O progresso acabou por nos tornar mais burros?
Em nível individual, é assim. Provavelmente somos menos inteligentes e menos capazes que nossos ancestrais da Idade da Pedra: não saberíamos como sobreviver naquelas condições. Era necessário conhecer muitas coisas e ser dotado de capacidades intelectuais e físicas excepcionais. Capacidades das quais a maioria de nós é hoje desprovida. Por exemplo, se alguém me pegasse e me jogasse na savana africana e eu tivesse que sobreviver confiando apenas em minha força, eu morreria em poucos dias. Não sei como conseguir comida, não sei costurar as roupas que uso. Não sei como construir qualquer ferramenta. Eu sou um historiador e sei escrever livros. Eles me pagam para escrever livros e apresentar palestras sobre a história. Dessas atividades, recebo o dinheiro com o qual vou ao supermercado e para qualquer coisa de que eu precise, dependo dos outros. A maioria de nós só sabe fazer algumas coisas. Portanto, como indivíduos, somos menos capazes que nossos ancestrais. Mas como coletividade de indivíduos, como sociedades humanas, somos mil vezes mais poderosos. O que realmente aprendemos a fazer é conseguir cooperar de forma eficaz, com modalidades cada vez mais sofisticadas, em larga escala.
Observar o pensamento estratégico dos Sapiens, que lhes permitiu construir a melhor lança, racionar em como subjugar os outros animais, pode nos levar a interpretar a capacidade de domínio humano como baseado apenas na qualidade lógica. Você, por outro lado, consegue demonstrar que a especificidade humana é outra.
O fato realmente surpreendente é a maneira como cooperamos: a cooperação que nos distingue dos outros animais é baseada em nossa capacidade de criar histórias inventadas. Se olharmos para qualquer exemplo de cooperação humana no curso da história, vemos que ela não é necessariamente fundada na verdade, mas sim na capacidade de persuadir um número significativo de pessoas sobre a mesma história inventada, fruto de nossa imaginação.
É a imaginação, portanto, o que torna o Sapiens diferente de qualquer outra espécie animal com a qual compartilha esta Terra. A capacidade de fabricar mitos que permitem a construção de identidades e traçam uma direção comum é determinante na evolução biológica. Acreditamos nos mitos não porque são verdadeiros, mas são verdadeiros porque os narramos. Mas foi a capacidade de narração que tornou a Europa central na história da humanidade?
Existem todos os tipos de teorias, mas nenhuma é realmente convincente. Não parece haver nenhuma razão geográfica ou biológica europeia. Se tivesse sido algo profundamente enraizado na biologia dos europeus, como se explica o fato de que, antes dos séculos XIV e XV, nenhum grande desenvolvimento tenha ocorrido na Alemanha, na França ou na Espanha e que inclusive hoje estamos testemunhando uma redução da influência da Europa?
Por que entre todos os continentes foi justamente a Europa que marcou o sinal de uma superioridade militar e tecnológica? No fundo havia também outros impérios - chinês, mongol, indiano, inca ... - que não eram menos ricos e vastos que os europeus, mas o colonialismo é uma invenção europeia ...
Na verdade essa ideia do colonialismo e do imperialismo não é apenas europeia, a encontramos em quase todas as culturas humanas. É verdade que, na era moderna, a Europa tornou-se o mais importante centro de desenvolvimentos tecnológicos e científicos e também aumentou seu poderio militar e seu domínio político. É um fenômeno novo. A Europa nunca havia desempenhado um papel tão fundamental na história. É o suficiente voltar a antes do século XIV ou XV. Mas então duas revoluções acontecem: aquela científica e aquela capitalista e ambas levam à revolução industrial que dá à Europa o poder de conquistar e dominar o mundo inteiro. Nós não dispomos de uma boa teoria que explique por que a centelha dessas revoluções se acendeu na Europa.
E agora, como está a centralidade europeia?
Europa não será a potência dominante do próximo século. A era da dominação europeia foi bastante curta na história humana. Durou apenas três ou quatro séculos em comparação com os muitos milênios da história que já se passaram. Os polos mais influentes hoje são os Estados Unidos e a Ásia Oriental. No entanto, mesmo os Estados Unidos são o resultado ou o fruto do imperialismo europeu e até a atual Ásia orientalpode ser considerada uma derivação europeia. As instituições dessas áreas são em grande parte o resultado das ideias e das instituições europeias. Basta pensar na ciência, nos sistemas financeiros e nos sistemas políticos que hoje encontramos na ChinaCoreia e Japão.
O latim foi uma língua franca, a língua do Império; O francês foi a língua imposta por Bonaparte, a língua da diplomacia; a Espanha impôs castelhano no continente americano; o inglês depois foi imposto pelo comércio; o mandarim, a língua mais difundida no mundo, é falado por mais de 800 milhões de pessoas. Mas nenhuma delas, imposta pelo dinheiro ou pelo número de pessoas que a falam, alcançou uma verdadeira universalidade.
Hoje todos aqueles que vivem no planeta falam apenas uma língua: esta língua é a matemática. Se você mora na China, na Austrália ou no Brasil, não faz diferença: a língua que domina as instituições, a economia e a política é a matemática e é precisamente ela a linguagem cuja difusão o imperialismo europeu favoreceu em todo o globo.
Da linguagem universal da matemática nasceu a revolução dos algoritmos, talvez comparável à da identificação do primeiro trigo domesticado, que permitiu ao homem, de simples caçador e coletor, tornar-se agricultor. É do trigo domesticado que a sociedade se desenvolveu como a concebemos hoje.
Eu acredito que o que estamos testemunhando hoje provavelmente tem um impacto evolutivo ainda maior do que o da invenção da agricultura e da criação de gado, porque a atual revolução da inteligência artificial e da biotecnologia nos oferece a possibilidade de mudar a própria humanidade, e não apenas a nossa economia, o que comemos, a sociedade e a política. As revoluções anteriores, seja a revolução agrícola, a ascensão do Império Romano ou a difusão do cristianismo, mudaram as sociedades, mas não modificaram o corpo e a mente humanos. Mas agora esses novos conhecimentos possibilitarão pela primeira vez a transformação do corpo, do cérebro e da mente. Assim serão criadas novas formas de entidades com um número de características diferentes de nós maior do que o que nos diferencia de outros hominídeos ou dos chimpanzés.
Então uma superespécie está prestes a nascer? Somos os últimos exemplares de uma espécie destinada a ser superada? A velocidade da tecnologia tornou o Sapiens inadequado, muito limitado?
transformação do Sapiens será capaz de começar com pequenas mudanças, por exemplo, a modificação do nosso DNA através da engenharia genética. Além disso, a única diferença entre os Neandertais e nós consiste em um pequeno número de diferenças genéticas: os Neandertais foram capazes de produzir apenas facas de pedra, mas produzimos ônibus espaciais e bombas atômicas. Mas um evento ainda mais extremo pode ocorrer, quando a inteligência artificial entra em ação em combinação com a biotecnologia: criar cyborgs, entidades que misturam o orgânico com partes inorgânicas, ou seja, algo que nunca vimos antes no curso de quatro bilhões anos de vida na Terra. Até agora, todas as evoluções da vida foram baseadas em componentes orgânicos. Agora estamos prestes a projetar entidades que, pelo menos em parte, não o são.
Tivemos um vislumbre da mistura de corpo humano e robô na literatura de Isaac Asimov, Ursula Le Guin, Philip Dick e Aldous Huxley. Agora humano e tecnológico estão se fundindo, e isso está acontecendo em nosso presente.
Esta é a mudança mais significativa na evolução da vida que já ocorreu. É uma mutação que a vasta maioria das pessoas não consegue perceber, não compreende a enormidade da revolução a que estamos vivendo. Se minha mão for separada do corpo e colocada em outra sala, ela não funcionará, mas isso não acontece com um cyborg. Um cyborg não precisa da coincidência espacial para funcionar, então é possível conectar o cérebro orgânico a um braço biônico. O braço não precisa necessariamente estar preso ao resto do corpo, pode estar na sala ao lado, na casa ao lado dele, mesmo na cidade mais próxima ou mesmo em outro país e, ainda assim, ele pode continuar a funcionar. Portanto, a ideia geral do que significa ser um organismo vivo mudará quando dispormos da capacidade de conectar diretamente, por exemplo, os cérebros aos computadores.
Apresentada dessa forma, a fusão de humano e tecnológico poderia parecer um suporte capaz de ajudar o homem a superar seus limites biológicos. No entanto, lendo seu Homo Deus, fica claro que já estamos presenciando uma inversão da relação entre humano e tecnológico: o suporte parece ter se tornado o orgânico e a dominar é cada vez mais o inorgânico, na forma de algoritmo ou de inteligência artificial. Quando usamos um smartphone, não somos apenas nós que o olhamos, mas é o smartphone que está nos olhando.
Hoje, as pessoas entram em contato umas com as outras através de seus smartphones, seus computadores e um número crescente de decisões sobre nossas vidas são tomadas por esses instrumentos. Mas em vinte ou trinta anos, a tecnologia contida em um smartphone será inserida diretamente em nossos cérebros por meio de eletrodos e sensores biométricos. Será capaz de monitorar o que está acontecendo dentro do corpo e do cérebro em todos os momentos. Poderá conhecer meus desejos, minhas sensações, meus sentimentos, inclusive com mais precisão do que eu mesmo os percebo, e essa tecnologia se encontrará cada vez mais em posição de tomar decisões por mim. Vamos pensar nas aplicações no campo da prevenção médica, nos negócios ou nas relações sentimentais. Podendo confiar no poder desses computadores e algoritmos, nos deixaremos guiar cada vez mais por eles, que assim se tornarão partes integrantes de nós mesmos.
É o totalitarismo das máquinas? A ditadura do algoritmo? As redes sociais e as empresas de computadores que têm nossos dados podem controlar todos os aspectos de nossas vidas? Agora já estamos cientes que somos guiados pelo algoritmo sempre que somos induzidos a comprar ou a ver o que o nosso computador nos sugere. Mas quando se pode falar de uma situação de regime?
Os sintomas de uma situação perigosa são essencialmente de dois tipos. O primeiro é quando muito poder e informação estão concentrados nas mãos de cada vez menos pessoas, de uma minoria ou de uma única instituição. Se uma única instituição, seja ela um governo, uma empresa ou um grupo religioso, tem muito poder sobre a sociedade, esta é a premissa para um regime totalitário. O outro sintoma da ascensão de um regime totalitário ocorre quando se torna impossível buscar a verdade ou publicar a verdade. O ditador, ou o partido autoritário no poder, alegando representar a vontade popular, usam esse argumento para impedir as pessoas ou as instituições que têm a tarefa de encontrar a verdade. Afirmam que as pessoas não estão interessadas na verdade. É importante lembrar que mesmo as eleições democráticas não giram em torno da busca da verdade, mas sim dos desejos das pessoas.
Em seu último livro, 21 lições para o século 21, você mostra que os dados são para a era contemporânea o que a terra era antigamente, ou seja, o recurso mais importante. E adverte: se os dados estiverem concentrados nas mãos de poucos, não haverá divisão em classes sociais, como aconteceu no passado, mas uma divisão da humanidade em espécies diferentes.
Anteriormente, na história, a desigualdadeera principalmente de ordem econômica e política. Alguns indivíduos detinham grande riqueza e poder político e outros indivíduos não possuíam nenhum dos dois. Mas ainda assim se tratava dos mesmos seres humanos, com as mesmas características biológicas. O perigo é que, no século XXI, a desigualdade econômica se transforme em desigualdade biológica. Teremos a tecnologia que nos permitirá potencializar o nosso corpo e o nosso cérebro. E os ricos poderiam evoluir para se tornarem biologicamente diferentes das massas da população. E, desse modo, a raça humana seria subdividida em diferentes castas biológicas. Isso é algo que nunca vimos antes na história do homem: poderíamos ter seres humanos potencializados e seres humanos comuns com capacidades diferentes.
Até que o homem controla a tecnologia, a tecnologia pode estar a seu serviço, mas agora que a tecnologia controla o humano, o que poderia acontecer?
Estamos adquirindo a capacidade tipicamente divina de criação e destruição e o risco é que não saberemos lidar com esses imensos poderes e acabaremos usando-os mal. Basicamente, trata-se do mesmo processo que envolveu o sistema ecológico: podemos dizer que adquirimos poderes divinos sobre o resto dos animais e das plantas, dos rios e das florestas, e podemos até dizer que fizemos mau uso dos nossos poderes. E agora o sistema ecológico está completamente desequilibrado e próximo do colapso. Nós estamos adquirindo o poder de mudar o nosso mundo interior, o nosso cérebro, e novamente poderíamos fazer mau uso desse poder e, ao invés desses humanos potencializados, poderíamos acabar criando algo que não seria melhor que nós: poderosos como divindades, mas irresponsáveis e insatisfeitos.
Eu gosto de sua habilidade de traçar interpretações macro históricas, como se pintasse uma tela impressionista cujo único protagonista é nossa espécie. Nesta complexidade de análise, peço-lhe um esforço de síntese: mostre-me a imagem que mais descreve o nosso tempo.
Uma imagem que me impressionou é a da consagração do papa Ratzinger: na foto, centenas de pessoas no Vaticano têm os olhos postos no pontífice; oito anos depois, na consagração do novo Papa, exatamente na idêntica situação, na mesma imagem, todos estão segurando um smartphone. A realidade é mediada pelo smartphone.

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Saturday, 4 April 2015

O familiar Homo ignorans

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http://outraspalavras.net/destaques/o-familiar-homo-ignorans/


O familiar Homo ignorans

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Que será a racionalidade? Um caminho para o conhecimento? Ou a busca de suposta superioridade moral, para disfarçar preconceitos e busca e privilégios?
Por Ladislau Dowbor
homo sapiens todos conhecemos. Inclusive a maior parte da teoria econômica e das teorias das transformações sociais se baseia numa compreensão otimista de que o homem absorve conhecimentos, confronta-os com os seus objetivos racionalmente entendidos, e procede de acordo. Quando erra, analisa os erros e corrige a sua visão para não repeti-los.
Naturalmente, é agradável pensarmos que somos, conforme aprendi na escola, animais racionais, racionalidade que nos separaria confortavelmente dos animais. As minhas dúvidas aumentam proporcionalmente à minha idade, o que significa que são elevadas. Pensar que somos mais do que somos é uma atitude muito difundida. A bíblia já abre com o tom adequado: Deus nos criou à sua imagem e semelhança, o que implica por virtude dos espelhos que somos semelhantes nada mais nada menos que a Ele. O tamanho desta pretensão, e o fato de passar tão desapercebida e natural, já mostra a que ponto a nossa racionalidade pode ser adaptada ao que é agradável, mas não necessariamente ao que é verdadeiro.
TEXTO-MEIO
Pensar na dimensão irracional da nossa inteligência, ou nas raízes interessadas e ideologicamente deformadas do que nos parece racionalmente verdadeiro, é muito interessante. Existe um termo simpático para isto, que é a racionalização. Fazemos uma construção racional em cima de fundamentos profundamente enterrados na confusão de paixões, medos, ódios e sentimentos contraditórios. Quanto maior o preconceito – no sentido literal, raiz emocional que assume a postura antes do entendimento – maior parece ser a busca do sentimento de superioridade moral.
Devemos lembrar como foram denunciados e massacrados ou ridicularizados os que lutaram pelo fim da escravidão, pelo fim da discriminação racial, pelos direitos de organização dos trabalhadores, pelo voto universal, pelos direitos das mulheres? Hoje é a mesma luta pela redução das desigualdades, pelo fim da destruição do planeta, pela democratização de uma sociedade asfixiada por interesses econômicos. Aqui precisamos de muito bom senso e generosidade. Ou seja, emoções e indignações sim, mas apoiadas na inteligência do que acontece no mundo e visando o interesse maior de todos, e não no interesse particular de defesa dos privilégios.
Aqui realmente é preciso de muita ignorância, ou seja, desconhecimento (voluntário ou não), para não se dar conta dos desafios reais. O aquecimento global é uma ameaça real, mas a direita tende a negar, como se o termômetro e a medida dos gazes de efeitos de estufa fossem de esquerda. O desmatamento generalizado do planeta está levando a perdas de solo fértil em grande escala, quando iremos precisar de mais área de plantio. A vida nos mares está sendo esgotada pela sobrepesca e em 40 anos, segundo o WWF, perdemos 52% da vida vertebrada no planeta. É um desastre planetário espantoso, mas não aparece na mídia comercial. Os dados sobre a inviabilização ambiental do planeta são hoje amplamente comprovados. Mas as opiniões se dividem: é questão de opinião ou de conhecimento dos dados?
No plano social é mais impressionante ainda: até Davos escuta e divulga as pesquisas da Oxfam, do Banco Mundial e das Nações Unidas, dos inúmeros institutos de pesquisa estatística em todos os países sobre a desigualdade crescente da renda. Pior, temos agora os dados da desigualdade do patrimônio acumulado das famílias – 85 famílias são donas de mais riqueza acumulada do que 3,5 bilhões de pessoas na base da pirâmide social – gerando tensões insustentáveis, mas em Wall Street enchem a boca e declaram “greed is good”, é bom ser ganancioso. Sobre esta desigualdade de patrimônio uma das principais fontes é o Crédit Suisse, que tem boas razões para entender tudo de fortunas familiares. Vamos tampar os olhos e fazer de conta que acreditamos que é possível manter a paz política e social num planeta onde 1,3 bilhões não têm acesso à luz elétrica, 2 bilhões não têm acesso a fontes decentes de água, 850 milhões passam fome. Tem sentido acreditar no bom pobre¸ que se resigna e aceita, quando hoje até no último degrau da pobreza há uma consciência do direito a ter uma escola decente para o filho, saúde básica para a família? Aqui já não são apenas os olhos e os ouvidos que estão tapados, e sim a própria inteligência.
E porque toda esta riqueza acumulada no topo não serve para as reconversões tecnológicas que nos permitam salvar o planeta, e para financiar as políticas sociais e inclusão produtiva capaz de reduzir as desigualdades? Basicamente porque está situada em paraísos fiscais, aplicada em sistemas de especulação financeira, sequer interessada em investimentos produtivos tradicionais. Os 737 grupos que controlam 80% das atividades corporativas do planeta são essencialmente grupos financeiros. Fonte? O Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica. São recursos que não só se aplicam em especulação financeira em vez de investimento produtivo, como migram para paraísos fiscais onde não pagam impostos. O Economist estima que sejam 20 trilhões de dólares, um pouco menos de um terço do PIB mundial.
O Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais, da ordem de 25% do PIB. O HSBC que o diga. Mas no Brasil a grande vitória é a eliminação da CPMF que cobrava ridículos 0,38% sobre movimentações financeiras. No Brasil a direita identifica o culpado pelas dificuldades atuais: não o desvio de recursos através da máquina financeira, mas os excessos de gastos sociais do governo. Ainda bem que temos a corrupção para canalizar a atenção e os ódios. O uso produtivo dos recursos não seria mais inteligente?
Não há nenhuma confusão sobre as dimensões propositivas: se estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria que pouco produz e muito especula, trata-se de tributar a riqueza improdutiva para financiar as políticas tecnológicas, ambientais e sociais indispensáveis aos equilíbrios do planeta. Com Ignacy Sachs e Carlos Lopes apontamos rumos básicos no documento Crises e Oportunidades em Tempos de Mudança, não são ideias que faltam: falta muita gente que tampa o sol com a peneira dos seus interesses se dar conta dos desafios reais que enfrentamos.
Confesso que ando preocupado. Parece que quanto maior a bobagem declarada, maior o sentimento de superioridade moral. E o ódio, esta eterna ferramenta dos preconceituosos, é um sentimento agradável quando se consegue encobrir o interesse com um véu de ética. Nesta nossa guerra permanente entre o frágil homo sapiens e o poderoso e arrogante homo ignorans, a olhar pelo mundo afora, e pelos gritinhos histéricos de extremistas por toda parte – sempre em nome de elevados sentimentos morais e com amplas justificações racionais – o direito ao ódio parece superar todos os outros. Pobre Deus, nosso semelhante.

Monday, 1 September 2014

What Does It Mean To Be Human? 300 Years of Defintions and Reflections

brain pickings
http://www.brainpickings.org/index.php/2011/12/09/what-it-means-to-be-human-joanna-bourke/


What Does It Mean To Be Human? 300 Years of Defintions and Reflections

by 
What Aristotle has to do with the women’s suffrage movement, Darwin, and M. C. Escher.
Last year, we explored what it means to be human from the perspectives of three different disciplines — philosophy, neuroscience, and evolutionary biology — and that omnibus went on to become one of the most-read articles inBrain Pickings history. But the question at its heart is among the most fundamental inquiries of existence, one that has puzzled, tormented, and inspired humanity for centuries. That is exactly what Joanna Bourke (of Fear: A Cultural History fame) explores in What It Means to Be Human: Historical Reflections from the 1800s to the Present.
Decades before women sought liberation in the bicycle or their biceps, a more rudimentary liberation was at stake. The book opens with a letter penned in 1872 by an anonymous author identified simply as “An Earnest Englishwoman,” a letter titled “Are Women Animals?” by the newspaper editor who printed it:
Sir, —
Whether women are the equals of men has been endlessly debated; whether they have souls has been a moot point; but can it be too much to ask [for a definitive acknowledgement that at least they are animals?… Many hon. members may object to the proposed Bill enacting that, in statutes respecting the suffrage, 'wherever words occur which import the masculine gender they shall be held to include women;' but could any object to the insertion of a clause in another Act that 'whenever the word "animal" occur it shall be held to include women?' Suffer me, thorough your columns, to appeal to our 650 [parliamentary] representatives, and ask — Is there not one among you then who will introduce such a motion? There would then be at least an equal interdict on wanton barbarity to cat, dog, or woman…
Yours respectfully,
AN EARNEST ENGLISHWOMAN
The broader question at the heart of the Earnest Englishwoman’s outrage, of course, isn’t merely about gender — “women” could have just as easily been any other marginalized group, from non-white Europeans to non-Westerners to even children, or a delegitimized majority-politically-treated-as-minority more appropriate to our time, such as the “99 percent.” The question, really, is what entitles one to humanness.
But seeking an answer in the ideology of humanism, Bourke is careful to point out, is hasty and incomplete:
The humanist insistence on an autonomous, willful human subject capable of acting independently in the world was based on a very particular type of human. Human civilization had been forged in the image of the male, white, well-off, educated human. Humanism installed only somehumans at the centre of the universe. It disparaged ‘the woman,’ ‘the subaltern’ and ‘the non-European’ even more than ‘the animal.’ As a result, it is hardly surprising that many of these groups rejected the idea of a universal and straightforward essence of ‘the human’, substituting something much more contingent, outward-facing and complex. To rephrase Simone de Beauvoir’s inspired conclusion about women, one is not born, but made, a human.
Bourke also admonishes against seeing the historical trend in paradigms about humanness as linear, as shifting “from the theological towards the rationalist and scientific” or “from humanist to post-humanist.” How, then, are we to examine the “porous boundary between the human and the animal”?
In complex and sometimes contradictory ways, the ideas, values and practices used to justify the sovereignty of a particular understanding of ‘the human’ over the rest of sentient life are what create society and social life. Perhaps the very concept of ‘culture’ is an attempt to differentiate ourselves from our ‘creatureliness,’ our fleshly vulnerability.
Bourke goes on to explore history’s varied definitions of what it means to be human, which have used a wide range of imperfect, incomplete criteria — intellectual ability, self-consciousness, private property, tool-making, language, the possession of a soul, and many more.
For Aristotle, writing in the 4th century B.C., it meant having a telos — an appropriate end or goal — and to belong to a polis where “man” could truly speak:
…the power of speech is intended to set forth the expedient and inexpedient, and therefore likewise the just and the unjust. And it is a characteristic of man that he alone has any sense of good and evil, or just and unjust, and the like, and the association of living beings who have this sense makes a family and a state.
In the early 17th century, René Descartes, whose famous statement “Cogito ergo sum” (“I think, therefore I am”) implied only humans possess minds, argued animals were “automata” — moving machines, driven by instinct alone:
Nature which acts in them according to the disposition of their organs, as one sees that a clock, which is made up of only wheels and springs can count the hours and measure time more exactly than we can with all our art.
For late 18th-century German philosopher Immanuel Kant, rationality was the litmus test for humanity, embedded in his categorical claim that the human being was “an animal endowed with the capacity of reason”:
[The human is] markedly distinguished from all other living beings by his technical predisposition for manipulating things (mechanically joined with consciousness), by hispragmatic predisposition (to use other human beings skillfully for his purposes), and by the moral predisposition in his being (to treat himself and others according to the principle of freedom under the laws.)
In The Descent of Man, Darwin reflected:
The difference in mind between man and the higher animals, great as it is, is certainly one of degree and not of kind. We have seen that the senses and intuitions, the various emotions and faculties, such as love, memory, attention, curiosity, imitation, reason, etc., of which man boasts, may be found in an incipient, or even sometimes in a well-developed condition, in the lower animals.
(For more on Darwin’s fascinating studies of emotion, don’t forget Darwin’s Camera.)
Darwin’s concern was echoed quantitatively by Jared Diamond in 1990s when, in The Third Chimpanzee, he wondered how the 2.9% genetic difference between two kids of birds or the 2.2% difference between two gibbons made for a different species, but the 1.6% difference between humans and chimpanzees makes a different genus.
In the 1930s, Bertrand Lloyd, who penned Humanitarianism and Freedom, observed a difficult paradox of any definition:
Deny reason to animals, and you must equally deny it to infants; affirm the existence of an immortal soul in your baby or yourself, and you must at least have the grace to allow something of the kind to your dog.
In 2001, Jacques Derrida articulated a similar concern:
None of the traits by which the most authorized philosophy or culture has thought it possible to recognize this ‘proper of man’ — none of them is, in all rigor, the exclusive reserve of what we humans call human. Either because some animals also possess such traits, or because man does not possess it as surely as is claimed.
A Möbius strip, from a 1963 poster of the woodcut by M. C. Escher: 'Which side of the strip are the ants walking on?'
M. C. Escher's 'Möbius Strip 11' © The M. C. Escher Company -- Holland
Curiously, Bourke uses the Möbius strip as the perfect metaphor for deconstructing the human vs. animal dilemma. Just as the one-sided surface of the strip has “no inside or outside; no beginning or end; no single point of entry or exit; no hierarchical ladder to clamber up or slide down,” so “the boundaries of the human and the animal turn out to be as entwined and indistinguishable as the inner and outer sides of a Möbius strip.” Bourke points to Derrida’s definition as the most rewarding, calling him “the philosopher of the Möbius strip.”
Ultimately, What It Means to Be Human is less an answer than it is an invitation to a series of questions, questions about who and what we are as a species, as souls, and as nodes in a larger complex ecosystem of sentient beings. As Bourke poetically puts it,
Erasing the awe-inspiring variety of sentient life impoverishes all our lives.
And whether this lens applies to animals or social stereotypes, one thing is certain: At a time when the need to celebrate both our shared humanity and our meaningful differences is all the more painfully evident, the question of what makes us human becomes not one of philosophy alone but also of politics, justice, identity, and every fiber of existence that lies between.