Sunday, 11 September 2011

liberdade sustentável - amatya sen

Fonte: JC e-mail 2483, de 15 de Março de 2004.
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=16993
* Ilustração, destaques e complementação de leituras por Michèle Sato
 
Por que é necessário preservar a coruja-pintada



Amatya Sen
Prêmio Nobel de Economia propõe que o conceito de desenvolvimento sustentável inclua a manutenção da liberdade, além da satisfação de necessidades


http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1998/sen-autobio.html


Amartya Sen, economista nascido na Índia, doutor pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, lecionou em Universidades da Índia, Reino Unido e EUA, e, em 1998, quando assumindo o Trinity College, Cambridge, ganhou o Premio Nobel de Economia. Artigo publicado originalmente na 'London Review of Books' (http://www.lrb.co.uk) e reproduzido no caderno 'Mais!' da 'Folha de SP':


Todos reconhecemos, hoje em dia, que o nosso ambiente pode ser devastado com facilidade. Danificar a camada de ozônio, aquecer o planeta, poluir o ar e os rios, destruir as florestas, esgotar os recursos minerais, conduzir muitas espécies à extinção e impor outras devastações se tornaram processos rotineiros. O interesse atual pelo conceito de 'sustentabilidade' deriva desse entendimento.


A necessidade de ação coordenada foi delineada de maneira vigorosa em 1987, no pioneiro manifesto 'Nosso Futuro Comum', preparado pela Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, presidida por Gro Brundtland. 


O chamado Relatório Brundtland definia o desenvolvimento sustentável como aquele que atende 'às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras para atender às suas necessidades'.


O desenvolvimento sustentável se tornou o tema central em boa parte da literatura ambiental. Também inspirou significativos protocolos para ação coordenada, por exemplo a redução de emissões prejudiciais e outras fontes de poluição planetária. 


A assinatura do Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Desgastam a Camada de Ozônio, em 1987, agora ratificado por 186 países, pode ser vista, nas palavras de Lester Brown, como 'um dos melhores momentos das Nações Unidas' (em 'Eco-Economy: Building an Economy for the Earth' [Eco-Economia: Construindo uma Economia para a Terra], Earthscan, 240 págs., 14,99 libras).


A idéia do desenvolvimento sustentável inspirou muitas reuniões internacionais importantes, da Cúpula da Terra [Eco-92], no RJ, em 1992, à Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável [Rio +10], em Johannesburgo, dez anos mais tarde. Essas reuniões se concentravam em tópicos diferentes, mas tinham todas uma preocupação comum.


O mundo tem bons motivos para agradecer pela importância que essa idéia adquiriu, mas é necessário perguntar se a idéia de ser humano que o conceito abarca é suficientemente abrangente. 


É certo que as pessoas têm 'necessidades', mas também têm valores e, especialmente, valorizam sua capacidade de arrazoar, avaliar, agir e participar. Ver os seres humanos apenas em termos de suas necessidades pode nos dar uma visão um tanto insuficiente da humanidade.


Para retomar uma distinção medieval, somos não apenas 'pacientes', cujas demandas requerem atenção, mas também 'agentes', cuja liberdade de decidir qual valor atribuir às coisas e de que maneira preservar esses valores pode se estender muito além do atendimento de nossas necessidades. 


É possível, dessa forma, perguntar se as prioridades ambientais deveriam ser encaradas, igualmente, em termos da sustentação de nossas liberdades. Será que não deveríamos nos preocupar em preservar - e talvez até expandir - as liberdades substantivas de que as pessoas hoje desfrutam 'sem comprometer a capacidade das futuras gerações' para desfrutar de liberdade semelhante, ou maior?


O foco na idéia de 'liberdades sustentáveis' pode ser não só conceitualmente importante (como parte de uma abordagem geral que trate do 'desenvolvimento como liberdade'), mas também oferecer implicações tangíveis e imediatamente relevantes. 


O foco da discussão na política ambiental vem sendo sempre o desenvolvimento de instituições nacionais e internacionais apropriadas. 


A justificativa para isso não poderia ser mais clara. Como aponta, com argumentação muito coerente, o relatório 'Ecossistemas e Bem-Estar Humano', produzido por uma equipe mundial para a Avaliação de Ecossistemas do Milênio, em 2003, 'atingir o desenvolvimento sustentável requer instituições efetivas e eficientes que possam prover mecanismos por meio dos quais os conceitos de liberdade, justiça, eqüidade, capacitação básica e paridade governem o acesso e o uso dos serviços de ecossistemas'. 


Mas, paralelamente, vem crescendo o interesse na exploração do papel da cidadania para promover o desenvolvimento sustentável. Assim como são necessárias instituições para estabelecer regulamentação passível de fiscalização e para oferecer incentivos financeiros, um compromisso mais forte para com as responsabilidades cívicas poderia ajudar a promover o cuidado com o ambiente.





Cidadão ecológico 


'Citizenship and the Environment' [A Cidadania e o Ambiente, Oxford, 238 págs., 18,99 libras], de Andrew Dobson, não só discute o papel das responsabilidades associadas à cidadania como delineia argumentos em favor do conceito de 'cidadão ecológico', que dá prioridade às considerações ambientais. 


Não pretendo questionar se dividir o todo integrado da cidadania em funções específicas seria a melhor maneira de prosseguir, mas Dobson certamente tem razão ao enfatizar o alcance das responsabilidades cívicas quando lidamos com os desafios ambientais. 


Ele está especialmente preocupado com investigar e enfatizar aquilo que os cidadãos são capazes de fazer quando propelidos pela sensibilidade social e por reflexão ponderada, em lugar de apenas por incentivos financeiros (atuando simplesmente como 'agentes racionais movidos pelo auto-interesse'). 'Um a um, portanto, os pilares da sustentabilidade estão sendo erguidos, e considero a cidadania ambiental como um importante acréscimo a esse elenco.' 


O senso de responsabilidade ecológica é parte de uma nova tendência que concilia teoria e prática. No final de 2000, por exemplo, houve críticas à política do governo britânico quando ele recuou, devido a protestos e piquetes, em uma proposta de aumento dos impostos sobre os combustíveis, sem fazer qualquer tentativa séria de expor os argumentos ambientais da idéia ao debate público.


Como afirma Barry Holden em 'Democracy and Global Warming' [Democracia e Aquecimento Global, Continuum, 208 págs., 25 libras], 'isso não implica que os argumentos ambientais tivessem inevitavelmente gerado uma vitória', mas 'sugere que a possibilidade existia, caso tivessem sido empregados'. 


Há cada vez mais decepção, não só com a fragilidade -ou completa ausência- de iniciativas positivas para envolver os cidadãos na política ambiental, mas também diante do ceticismo evidente das autoridades quanto à possibilidade de que renda frutos apelar para o senso de responsabilidade social dos cidadãos. 





A reformulação de Solow 


A frustração é fácil de entender. Mas, além de procurarmos uma expansão no domínio do ativismo cívico, é preciso que perguntemos de que maneira a idéia de sustentabilidade deve ser ampliada à luz de nossa concepção de responsabilidade cidadã adequada. 


Temos de examinar se a cidadania é puramente instrumental (simplesmente uma questão de meios e maneiras de conservar o ambiente) ou se vai além, e em especial se a cidadania efetiva é parte necessária daquilo que deveríamos tentar desenvolver. 


O conceito de sustentabilidade de Brundtland foi refinado e ampliado consideravelmente, de forma elegante, por um dos maiores economistas de nossa era, Robert Solow, em sua monografia 'An Almost Practical Step Toward Sustainability' [Um Passo Quase Prático Rumo à Sustentabilidade], publicada cerca de uma década atrás. Solow encara a sustentabilidade como um requisito que precisamos legar às próximas gerações:


'O que quer que seja necessário para gerar um padrão de vida pelo menos tão bom como o que temos e para cuidar de maneira semelhante da próxima geração'. 


A fórmula tem diversas características atraentes. Primeiro, ao se concentrar na sustentação de padrões de vida (que são encarados como motivação para a preservação ambiental), Solow oferece uma definição mais firme do que a concentração na satisfação das necessidades proposta sob a fórmula de Brundtland. 


Segundo, a formulação elegante e circular que ele propõe garante atenção aos interesses de todas as futuras gerações, de acordo com as normas definidas por elas e suas sucessoras em cada período dado. Mas será que a reformulação de Solow incorpora uma visão adequadamente ampla da humanidade? 


Embora sua concentração na preservação dos padrões de vida tenha méritos claros (há algo de profundamente atraente na idéia de garantir que as futuras gerações possam 'atingir um padrão de vida pelo menos tão bom quanto o nosso'), seria ainda possível perguntar se o conceito de padrão de vida é abrangente o bastante. 


Sustentar um padrão de vida não é a mesma coisa que sustentar o direito à liberdade das pessoas para terem ou salvaguardarem aquilo que valorizam e aquilo a que atribuem importância, por quaisquer motivos. Nossa razão para valorizar determinadas oportunidades não precisa sempre derivar da contribuição que elas oferecem ao nosso padrão de vida. 





O futuro da coruja 


Para ilustrar o ponto, basta considerar nosso senso de responsabilidade quanto ao futuro das espécies, não só porque -ou pelo menos não só na medida em que- sua presença estimule os nossos padrões de vida. 


Por exemplo, alguém pode considerar que deveríamos fazer o possível para preservar uma espécie ameaçada de animal, digamos, a coruja-pintada [Strix occidentalis]. Não haveria contradição se a mesma pessoa declarasse: 


'Os nossos padrões de vida são em geral - ou completamente - independentes da presença ou da ausência de corujas-pintadas, mas acredito vigorosamente que não deveríamos permitir sua extinção, por razões que pouco têm a ver com os padrões de vida dos seres humanos.'



Strix occidentalis


Gautama Buda oferece idéia semelhante, argumentando em 'Sutta Nipata' que, por sermos enormemente mais poderosos do que as demais espécies, é preciso que tenhamos alguma responsabilidade para com elas, em um esforço por minorar de alguma maneira essa assimetria. 


Buda prossegue ilustrando o argumento por meio de uma analogia envolvendo a responsabilidade da mãe para com seu filho, não por tê-lo gerado (conexão que não é invocada nesse raciocínio em particular), mas por poder fazer coisas capazes de influenciar a vida da criança, positiva ou negativamente, das quais a própria criança é incapaz.


A razão para que cuidemos de nossas crianças, de acordo com essa linha de raciocínio, não tem relação com o nosso padrão de vida (embora ele quase certamente deva ser afetado), mas com a responsabilidade associada ao nosso poder. 


Podemos ter muitos motivos para nossos esforços conservacionistas - nem todos eles parasitários de nosso padrão de vida, e alguns deles definitivamente vinculados ao nosso senso de valores e à nossa responsabilidade para com aqueles que nos precederam e que nos sucederão.


Qual papel, então, a cidadania deveria desempenhar na política ambiental? Primeiro, ela precisa envolver a capacidade de pensar, avaliar e agir, e isso requer que encaremos os seres humanos como agentes, e não só como pacientes. Isso é relevante para muitas discussões ambientais criticamente importantes.


Considere por exemplo o notável relatório 'Rumo ao Consumo Sustentável', da Royal Society britânica (2000). O relatório demonstra, entre outras coisas, que as atuais tendências de consumo são insustentáveis, e que existe uma necessidade de contenção e redução, começando pelos países ricos. 


Em sua introdução, Aaron Klug enfatiza a necessidade urgente de 'grandes mudanças no estilo de vida dos países mais desenvolvidos -algo que nenhum de nós considerará fácil'.


Trata-se certamente de uma tarefa árdua, mas, se as pessoas forem de fato agentes dotados de raciocínio (e não apenas pacientes, sempre carentes), então pode existir uma abordagem que envolva discussão pública e emergência e sustentação de prioridades favoráveis ao ambiente, acompanhadas de um alargamento da compreensão quanto às dificuldades ecológicas que estamos enfrentando. 


Isso, igualmente, deveria nos conduzir a um reconhecimento da capacidade dos seres humanos para pensar e julgar por si sós -uma capacidade que valorizamos, hoje, e uma liberdade que gostaríamos de preservar para o futuro.


Segundo, entre as oportunidades que temos motivos para apreciar está a liberdade de participação. Se as deliberações com participação forem dificultadas ou enfraquecidas, perderemos um bem valioso. 


Por exemplo, a recente diluição dos regulamentos e requisitos ambientais nos EUA, que ocorreu sem muita oportunidade de discussão pública, não é só uma ameaça para o futuro, mas também diminui os cidadãos norte-americanos ao privá-los da oportunidade de participar.


Na verdade, quando o presidente George W. Bush abruptamente abandonou o acordo ambiental fechado em Kyoto (conhecido como Protocolo de Kyoto), pesquisa de opinião pública da rede de notícias a cabo CNN e da revista 'Time' constatou que grande maioria dos entrevistados discordava seriamente do presidente. Mas houve raras tentativas do governo dos EUA para ouvir a opinião pública nas decisões políticas, ou de atrair os cidadãos para a discussão dessas questões.


Em lugar de ampliar o alcance da discussão pública, os EUA recuaram seriamente, nessa frente, durante os últimos anos. Outro exemplo seria a sempre sigilosa 'força-tarefa da energia', sob o comando do vice-presidente Dick Cheney, que mostrou pouco interesse em se comunicar com o público. Na verdade, Cheney relutou até mesmo em revelar quem são os integrantes do grupo.


Esses e outros casos de distanciamento e de camuflagem mostram a abrangência do recuo, em termos de participação do público. Os críticos temem, e com razão, que tudo isso possa ser muito ruim para o futuro. 


Mas é preciso que reconheçamos, igualmente, que bloquear oportunidades de participação informada é em si uma imensa perda de liberdade e já vem acontecendo. Há algo que não vem sendo sustentado, e isso está acontecendo agora.


Terceiro, se os objetivos ambientais precisarem ser alcançados por meio de procedimentos intrusivos na vida privada das pessoas, a perda de liberdade conseqüente deveria contar como uma perda imediata. 


Mesmo que seja verdade que restringir a liberdade de reprodução por meio de planejamento familiar coercivo (como o limite de um filho por família imposto pela China) ajuda a preservar o padrão de vida, seria forçoso reconhecer, igualmente, que algo de importante está sendo sacrificado - e não sustentado - por essas políticas.


Na verdade, existem empiricamente bons motivos para duvidar que a coerção possa contribuir muito para a redução da fertilidade. As realizações chinesas na área são influenciadas, por exemplo, pela atuação de outros fatores sociais que conduzem a uma redução espontânea na freqüência de partos (como a expansão na educação e no emprego feminino).


De fato, outras sociedades -como é o caso de Kerala, na Índia- que realizaram progressos sociais semelhantes, mas sem coerção, obtiveram reduções comparáveis, ou até maiores, em seus índices de fertilidade. 


Mas, mesmo que se possa demonstrar que uma abordagem que reprima a participação popular é capaz de reduzir materialmente a fertilidade, seria preciso comparar essa realização à perda de liberdade que acontece imediatamente devido à coerção.


Quarto, o foco convencional nos padrões de vida como um todo é muito genérico para dedicar atenção adequada à importância de liberdades específicas. Pode haver uma perda de liberdade (e portanto dos direitos humanos correspondentes) mesmo que não haja redução do padrão de vida em geral. 


O ponto dessa distinção ética geral, que é muito relevante em termos de escolha social, pode ser ilustrado por um exemplo simples. Se aceitarmos que uma pessoa tem o direito moral de não ser forçada a aspirar fumaça de cigarro gerada por fumantes descuidados, não se pode desconsiderar esse direito, em termos éticos, caso a pessoa seja muito rica e tenha um padrão de vida elevado.


No contexto ecológico, basta considerar um ambiente deteriorado, no qual as gerações futuras não poderão respirar ar fresco (devido às emissões poluentes), mas no qual essas gerações futuras sejam tão ricas e bem servidas de outros confortos que seu padrão de vida talvez se sustente. 


Uma abordagem de desenvolvimento sustentável seguindo o modelo Brundtland-Solow talvez se recuse a ver qualquer mérito nos protestos contra essas emissões, sob a justificativa de que a geração futura terá ainda assim um padrão de vida pelo menos igual ao atual. 


Mas isso desconsidera a necessidade de políticas de restrição de emissões que possam ajudar as gerações futuras a ter a liberdade de desfrutar do ar fresco que soprava para as antigas gerações. A relevância da cidadania e da participação social não é apenas instrumental.



Elas são parte integral daquilo que temos motivo para preservar. 


É preciso combinar a noção básica do direito à sustentabilidade defendida por Brundtland, Solow e outros com uma visão mais ampla dos seres humanos, que os encare como agentes cuja liberdade importa, e não como pacientes que não se distinguem dos padrões de vida dos quais desfrutam. (Tradução de Paulo Migliacci)
(Folha de SP, Mais1, 14/3) 
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AMARTYA SEN
FOOD & FREEDOM
http://www.worldbank.org/html/cgiar/publications/crawford/craw3.pdf


EQUALITY OF WHAT
http://culturability.fondazioneunipolis.org/wp-content/blogs.dir/1/files_mf/1270288635equalityofwhat.pdf


THE POSSIBILITY OF SOCIAL CHOICE
http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1998/sen-lecture.pdf



Eugène Delacroix - La liberté guidant le peuple

Eugene Delacroix pintou a tela “Liberdade guiando o povo” ancorado na revolução de julho de 1830, como marco das cores da bandeira francesa “liberdade, igualdade, fraternidade” (Liberté, Igualité, Fraternité). Virou símbolo da liberdade e provavelmente é a obra mais famosa de Delacroix, com a arte aliada aos campos políticos revolucionários e não servindo somente às elites.

* Ilustração, destaques e complementação de leituras por Michèle Sato

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Saturday, 10 September 2011

água e arquitetura fenomenológica

fonte: 
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.125/3541

125.07ano 11, out 2010

O sujeito fenomenológico na arquitetura do H2O expo
Marcela Alves de Almeida


Foto divulgação

Este texto traz uma interpretação do edifício H2O expo, através da fenomenologia da percepção. Consideramos esta obra dos arquitetos holandeses NOX expressiva na produção do grupo no que diz respeito à experiência fenomenológica da arquitetura. Este é um projeto que utiliza vários recursos que possibilitam a imersão do sujeito em um espaço em constante emergência.

Não se trata de uma descrição de nossa experiência do edifício. Pretendemos ensaiar aqui, principalmente, paralelos dos textos estéticos do filósofo Merleau-Ponty com a descrição que o NOX faz de sua obra. Estes textos trazem considerações sobre o trabalho do artista de maneira poética, e nos ajudam a entender como se relaciona o fazer do artista com a fenomenologia.

Além disso, colocaremos em questão como o uso da virtualidade agregada ao objeto arquitetônico pode potencializar este processo de presentificação no mundo, trazendo os conceitos da fenomenologia para iluminar o entendimento dos processos que a tecnologia traz para a experiência do sujeito. Exploraremos esta questão trabalhando principalmente com os conceitos de simulação e representação. A virtualidade não será tratada através da metafísica, pois ela tem falhado no estabelecimento de uma correspondência física do sujeito com o objeto, como nos diz o arquiteto Lars Spuybroek (1).


O edifício

O grupo NOX não produz somente arquitetura, mas também, interiores, objetos, instalações, vídeos e textos. Contudo, concentramos nosso estudo em apenas um edifício, pois como já dissemos, é uma obra que permite uma aproximação com a fenomenologia.

O H2O expo é um pavilhão de experiência aquática e uma instalação interativa para ‘WaterLand’, uma associação privado-público com o Ministério do Transporte holandês, Obras públicas e Gestão da água. Situado na ilha de Neeltje Jans de 1993 a 1997. O pavilhão difere de museus tradicionais, já que nele, imagens e sons são produzidos e mudam constantemente de acordo com as ações dos usuários que podem interagir com o edifício. No H2O expo a interatividade “não significa meramente que o edifício é um ambiente de atmosferas em transformação através de intervenções eletrônicas, mas uma arquitetura que se transforma” (2).

A primeira parte do edifício é inundada com água, no centro há um poço de grandes proporções que cria um horizonte interno do espaço; e a terceira parte possui nascentes que borrifam água, iluminadas estroboscópicamente (figuras 1, 2 e 3) (3).

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Todo edifício é equipado com sensores – táteis, de luz e de preensão – que fazem a interface dos usuários com o edifício. Assim, projeções em tempo real surgem de acordo com as ações dos usuários. O sistema de interação responde aos vários tipos de visitantes de maneiras específicas. As projeções são diferentes em função dos grupos que podem ser grandes ou pequenos, ativos ou passivos, crianças ou adultos.

Observamos então que todo o espaço do edifício se encontra em constante modificação. O arquiteto não projetou o edifício como um objeto acabado. Deste modo, não existe um a priori que possa ser apreendido antes da experiência. É de acordo com a interação que o edifício se constitui.

A percepção do sujeito e a obra constituem um todo que é inseparável. O corpo do usuário está lançado ao mundo como agente de construção do espaço. “O sujeito fenomenológico, ao mesmo tempo que é parte constituinte desse espaço, constitui-se ao interagir com ele” (4). Não há a distinção entre sujeito e objeto, os dois juntos conformam uma unidade intrincada de relações e significados.

Podemos dizer, então, que neste edifício a intencionalidade fenomenológica se faz presente superando a separação entre o eu e o mundo. O conceito de intencionalidade é uma das bases do pensamento fenomenológico. Edmund Husserl, criador da fenomenologia, retoma este conceito de Brentano do qual foi aluno. A intencionalidade é entendida “aqui como a direção da consciência ao objeto, ao real, que é definidora da própria consciência e que será um dos conceitos-chave de sua teoria fenomenológica” (5). Para Husserl, consciência e objeto não se separam. A consciência é sempre consciência de algo. Para a fenomenologia não há nenhum ato intencional que não tenha um objeto. Isto é um princípio que difere a ontologia do sensível da metafísica. Na metafísica há a separação entre o objeto e o sujeito. Aquilo o que existe no mundo é distinto do que há na consciência. Já a fenomenologia de Husserl entende que só se pode ter pensamentos sobre aquilo que é experimentado. O filósofo denomina noese (6) como o ato de pensar, enquanto o objeto do pensamento é um noema.

Deste modo, as coisas são para o homem aquilo que ele constitui para si. Enquanto lugar da experiência, a arquitetura rompe os limites da objetividade espacial e entra no campo da subjetividade da experiência vivida, conformando uma unidade do sujeito com o objeto arquitetônico.

A fenomenologia não aceita mais o primado sujeito/objeto. O que há de fato são objetos- percebidos-no-mundo, e é somente isto que a nossa consciência pode conhecer. No H2O expo não há como formar uma ideia, no sentido metafísico, do objeto arquitetônico, pois ele não está pronto. É somente através da ação que o espaço se configura. Isto potencializa o estar presente no espaço, já que não se sabe exatamente em que ele se constituirá. Há uma emergência de comunhão contínua com o espaço. O sujeito, à medida que experimenta o espaço, obtém os perfis da realidade. “Nestas arquiteturas, o sujeito é parte constituinte da obra, uma vez que as ocorrências não estão predeterminadas e estão submetidas às atuações do sujeito no espaço. O objeto não pode ser apreendido por inteiro, porque não está realizado” (7).


Ação e percepção
Fica clara a intenção de conexão entre ação e percepção. Entendemos que esta é a principal motivação arquitetônica no desenvolvimento do projeto em questão. Para mostrar a inter-relação entre ação, percepção e construção, Lars Spuybroek no início de seu livro Machining Architecture, oferece um exemplo de uma experiência neurológica com filhotes de gatos (8), a fim de mostrar que a percepção pode ser afetada diretamente pela experiência corporal. Assim, dois gatos foram mantidos em uma espécie de carrossel (figura 4), sendo que um era capaz de andar, fazendo o carrossel girar enquanto o outro permanecia suspenso por uma gôndola. Quando os dois gatos foram soltos, aquele que caminhava conseguia se orientar, enquanto o outro, passivo, sofria de agnosia (9). Com este exemplo, o arquiteto conclui que a percepção depende da ação, e a ação é possível somente através da percepção. Mas, para que serve uma argumentação de um experimento em neurologia em um livro de arquitetura? E que relação podemos construir com a fenomenologia?
Parece-nos evidente que um pressuposto projetual para o NOX é a geração de possibilidades de percepção do espaço arquitetônico construído através da ação do usuário. Por isto, acreditamos que o arquiteto se baseia em um argumento científico, para refutar qualquer dúvida de que a ação e a percepção são inseparáveis. É um pensamento de validação de um argumento de maneira científica. Porém a fenomenologia da percepção já havia considerado que a percepção e a ação são inseparáveis. Mas, não pretendemos nos ater às comprovações científicas a este respeito. Interessa-nos sim mostrar que o arquiteto tem a intenção de projetar um edifício que não seja totalmente acabado, que seja completado e recompletado a cada instante.


O eixo da vertigem
Em A dúvida de Cézanne, texto de Merleau-Ponty, a pintura de Cézanne é o principal tema. Para Merleau-Ponty, o artista conseguia praticar a fenomenologia na pintura. Neste texto, o filósofo se propõe a aprender com o artista como se dá o ato intencional.

Cézanne, enquanto pintor, queria colocar em seus quadros aquilo que realmente via. Neste sentido, suas pinturas não representavam o mundo, mas era o próprio mundo como visto pelo pintor. “Sua pintura seria um paradoxo: buscar a realidade sem abandonar a sensação, sem tomar outro guia senão a natureza na impressão imediata, sem compor a perspectiva nem o quadro” (10). Deste modo, não encontramos nos quadros de Cézanne o sistema projetivo da perspectiva. O artista pinta com sua lateralidade e vê que o real é abundante e complexo. Logo, pinta a simultaneidade. Sua pintura expressava a angústia de querer pintar o instante inteiro.

Trazemos aqui este texto de Merleau-Ponty sobre Cézanne para traçar um paralelo com o pavilhão do H2O expo. Assim como Cézanne, acreditamos que o NOX está interessado em realizar na arquitetura aquilo que o pintor praticava em suas pinturas: uma vertigem de visadas que formam o campo que não é dado, mas experimentado. Fomos levados a pensar desta maneira, pois um dos elementos de grande importância no projeto é um poço de grandes proporções (figura 5). O arquiteto declara em seu texto que “o poço se torna outro tipo de horizonte um horizonte interno, não horizontal, mas vertical, no eixo da vertigem, da queda” (11). Através desta fala podemos perceber que o arquiteto tem um entendimento da percepção do espaço diferente do que estabelecemos como horizonte, e institui de fato o que é um horizonte interno construído por um elemento que intensifica a sensação de verticalidade.

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Pode ser que a intenção projetual seja apenas a de estabelecer uma desestabilização do campo da experiência com o intuito de torná-la intensa através da estranheza. Mas isto não era o que Cézanne fazia ao pintar? O artista queria expressar como a pintura não consegue sustentar a realidade e exprimir através dela como se dá a instituição de um momento. Cézanne percebia que não existia nenhuma sensação sem a consciência da sensação. Assim, ao vivenciar a sensação de vertigem diante do poço, o visitante institui ali um horizonte que não é horizontal, mas vertical, fazendo com que a arquitetura nasça da mútua relação do indivíduo com o espaço através das ações e percepções.


Simulação x representação
O pavilhão H2O expo utiliza fortemente os recursos digitais na construção do espaço. São sensores, projeções, luzes e sons que juntamente com o espaço arquitetônico conformam um todo.

Partindo da concepção que estamos interpretando esta obra através da fenomenologia, cabe clarificar que não se pode pensar que estes sistemas informacionais não fazem parte da realidade do edifício. Não podemos dizer que estas simulações são falsas ou passíveis de dúvida quanto a sua existência, pois estaríamos pensando como um metafísico. Aqui, o físico e o virtual coexistem. Este virtual quando emerge e se atualiza, se incorpora ao edifício de modo que não se pode mais separar aquilo que é físico do que é virtual. Ambos, conjuntamente, conformam uma unidade. O mundo fenomenológico é um todo onde não existe aquilo o que é fato e aquilo que é ideia. Assim, o que existe é o mundo e nossa existência nele; e não um mundo da experiência e um mundo ideal que conhece a verdade das coisas.

Spuybroek declara que, ao conceber sua arquitetura, preocupa-se em afastar as concepções metafísicas de seus projetos, pois acredita que elas falham em estabelecer a comunhão do sujeito com o objeto de sua experiência. Deste modo, somos levados a nos questionar se é possível haver representação neste mundo de constante constituição. A fenomenologia substitui o tema clássico da metafísica, a representação, ao colocar o ser no mundo. A este respeito Merleau-Ponty considera que “as representações científicas segundo as quais eu sou um momento do mundo são sempre ingênuas e hipócritas, porque elas subentendem, sem mencioná-la, essa outra visão, aquela da consciência, pela qual antes de tudo um mundo se dispõe em torno de mim e começa a existir para mim” (12).

Aqui, a simulação se eleva ao estatuto de uma realidade expandida assumindo papel fundamental na constituição do edifício. A este respeito a arquiteta Ana Paula Baltazar considera que a utilização da computação no edifício construído, e não somente para a geração da forma, propicia e potencializa aquilo que a autora chama de ‘emergência’ que estimula interação no espaço edificado.

Um exemplo de ‘emergência’ na arquitetura além de geração da forma é o Fresh Water Pavilion do NOX, onde o computador é parte do objeto arquitetônico e o ambiente emerge (é completado e recompletado) a cada interação do usuário com o edifício. Nesse caso a ‘emergência’ que o computador propicia é trabalhada no nível do evento e não da substância, e o arquiteto realmente abre mão de um controle total sobre a forma (aparência) final do objeto” (13).

As imagens projetadas emergem no edifício para compô-lo no momento da interação. Assim, as paredes, pisos e tetos não permanecem paredes, pisos e tetos apesar da imagem projetada (ver figuras 6 e 7). Eles são sim, elementos que se deformam; que assumem as características empenhadas pelo visitante em sua inter-relação com o edifício. Esta interpretação que fazemos se relaciona com um exemplo que Merleau-Ponty traz em O olho e o espírito, onde fala da inseparabilidade das coisas com o mundo.

Quando vejo através de espessura da água, dos reflexos, vejo-o justamente através deles, por eles. Se não houvesse essas distorções, essas zebruras do sol, se eu visse sem essa carne a geometria dos azulejos, então é que deixaria de vê-los como são, onde estão, a saber: mais longe que todo lugar idêntico. A própria água, a força aquosa, o elemento viscoso e brilhante, não posso dizer que esteja no espaço: ela está alhures, mas também não está na piscina. Ela habita, materializa-se ali, mas não está contida ali, e, se ergo os olhos em direção ao anteparo de ciprestes onde brinca a trama dos reflexos, não posso contestar que a água também o visita, ou pelo menos envia até lá sua essência ativa e expressiva” (14).

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Os azulejos da piscina são percebidos em conjunto com os outros elementos como a água, o reflexo e os ciprestes. As coisas não estão no espaço como destaca o filósofo. O espaço não é um elemento constituído onde as coisas se dispõem, mas sim uma imbricação onde eu estou nas coisas e as coisas estão em mim.

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É isto o que é a emergência deste edifício: uma abertura a um mundo em constante formação. A cada momento um novo se inaugura e não se pode entender que suas partes possam ser decompostas ou pensadas separadamente. No H2O expo as projeções possibilitadas pelo uso da computação não conformam uma ilusão, mas algo que existe de fato, fazendo parte do objeto dado intencionalmente ao sujeito.


Conclusão
Utilizando argumentos da fenomenologia para tentar compreender o H2O expo, percebemos que, de fato, o edifício guarda propriedades que fazem dele uma experiência intensa de um espaço que se conforma através da interação.

Não percebemos uma preocupação na busca de um sentido originário para a arquitetura. Mas é incontestável que há o desejo de projetar um lugar onde o sujeito esteja imerso num ambiente de percepções sensórias. Para isto, utilizam recursos da computação potencializar as modificações no espaço real. Assim, encontramos aqui uma junção do espaço físico, tradicionalmente conhecido da arquitetura; da virtualidade, que se coloca como realidade ampliada; e do sujeito enquanto corpo que recebe e emite estímulos. Ocorre deste modo uma união destes elementos de maneira tão íntima que não podemos imaginar que o pavilhão exista de outro modo senão pela imbricação destes três.

notas
1
Lars Spuybroek é um dos arquitetos do grupo NOX, e é de sua autoria o livroNOX machining arquitecture publicado em 2004.

2
SPUYBROEK, Lars. NOX: Machining Architecture. Thames & Hudson, 2004, p.18.

3
Todas as imagens apresentadas encontram-se no livro NOX Machining Architecture.

4
PIAZZALUNGA, Renata. A virtualização da arquitetura. São Paulo, Papirus, 2005, p77.

5
JAPIASSÚ, M; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3 ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996, p. 133.

6
Do grego noein: pensar.

7
PIAZZALUNGA, Renata. Op. cit., p77.

8
Experiência neurológica realizada em 1963 por Richard Held e Alan Hein.

9
Em neurologia agnosia significa a perda do poder de reconhecimento perceptivo sensorial.

10
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo, Cosac & Naify, 2004, p.127.

11
SPUYBROEK, Lars. Op. cit., p.20.

12
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1999, p.4.

13
BALTAZAR, Ana Paula. O novo paradigma na arquitetura: a linguagem do pós-modernismo. Arquitextos, São Paulo, 03.025, Vitruvius, jun 2002 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.025/775>. Acesso em novembro de 2006.

14
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. Op. cit., p.37.

Thursday, 8 September 2011

arnaldo antunes - contra


Eu apresento a página branca.
    Contra:


Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações


água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.


Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.
Contra a água.

~ Arnaldo Antunes in Tudos


Bernard Dumaine: shore

Wednesday, 7 September 2011

michèle sato - canoa: escultura doi tempo das águas

REFERÊNCIA: REVISTA SINA
http://www.revistasina.com.br/portal/articulistas/item/169-canoa-escultura-do-tempo-das-%C3%A1guas

Sáb, 12 de Março de 2011 22:33

CANOA: escultura do tempo das águas

Michèle Sato


o início da viagem fiquei sem saber me expressar. No barulho do motor daquele pequeno barco, o trajeto me conduzia a um certo tempo, que ainda sem conhecer direito, se anunciava como “tempo das águas”. Não um tempo cronológico, mas uma temporalidade regida pela natureza do Pantanal.

O que me esperava poderia ser como alguma coisa de vida insaciável, pulsando entre os dramas insólitos, convertendo toda paisagem entre o verde e o azul na paixão pela natureza. Também havia ali um cinza de um céu nublado, respingando chuva fria no frescor do pensamento. Um relâmpago humano iluminou a memória, num laço de antípodas e trechos de músicas que não fariam nenhum sentido real, mas que certamente tocariam a alma surrealista. De fato, logo adiante da viagem, meus olhos seriam testemunhas de uma estrada de terra que se tornaria estrada de água, nos conduzindo ao vilarejo do Pantanal.

Um pássaro aqui e outro ali se emplumavam entre voos e pousos, o vento tocava os cabelos escandalosamente e a mente cada vez mais se agitava a espera do tempo seguinte. Uma viagem sem muita bagagem, sem gestos de abandono ou promessas de amanhã. Uns dois ou 3 livros, roupas, repelentes [muitos repelentes!] e um desejo frenético de liberdade, entre filhos, amigas e sonhos.

Á sombra de homens nas águas, os corpos pareciam desnudos misturando entre árvores e habitações inundadas. Raízes que se fincavam nas hélices borbulhando espelhos na insistência do sol, brilhando na espuma da água ou no reflexo do sorriso, até beijando a boca com fulgor de lantejoulas insaciáveis que regressavam no barco. Uma aventura no mundo da água, no tempo da água e quiçá na identidade com a água...

São Pedro de Joselândia é um destes lugares que o canto das águas se mistura com a festa das estrelas. Sem precisar de portos, cada curva pode ser a parada necessária para compreender o significado de “áreas úmidas”. Na rota que se desenhava, talvez a aventura nem tivesse um final, pois o contato com a água fazia o imaginário borbulhar de ideias, sentimentos e esperanças.

É no tempo das águas, e na sinergia com a umidade do ar, que os canoeiros de Joselândia fazem as suas canoas. Para além da pesca ou do transporte, uma canoa pantaneira transcende o significado material, e torna-se uma expressão da arte, fincada na cultura imaterial de um patrimônio pantaneiro que teve o matrimônio com a beleza natural.

Na identificação da árvore, o corte é calculado, devidamente matematizado por cordas com “pó de pilha” no cálculo de um mestre que demonstra paixão pelo que faz. Suas mãos acertam o machado com o ritmo de seu coração, acelerado e forte, sugando as energias para que a vida permaneça naquele pedaço de árvore que, tombada, terá a vital função de transportar corpos cheios de fogo da paixão, suavizados pelas águas pantaneiras. Outros instrumentos vêm ajudar o grande mestre: além da corda que oferece a cartografia do corte com som, a percussão se dá nas machadadas ritmadas, como se um ano de treino fosse necessário na orquestra da canoa. Os teclados são os gomos da canoa que não são cortados, acolhendo o canoeiro e algum viajante que assopre a gaita enquanto a canoa se resvala.

O acompanhamento musical é imprescindível para a “feitura” da escultura, afinal, uma canoa é uma obra de arte que se desliza em todas as direções. Pequena e ágil, adentra em locais que só os pantaneiros conhecem, e onde os peixes são maiores no cotidiano gastronômico de Joselândia.

Não é fácil caracterizar o que seja uma canoa, pois parece que as palavras se fundem com a respiração e a frase que esvai pode ser audível, mas a emoção fica por debaixo das raízes e à mercê daqueles olhos na água, pois “há mais olhos na água do que cabelos na terra”. Um encantado agarra minha garganta e aprisiona a palavra que assiste a “feitura da canoa”. Dá pirueta no corpo e devolve a emoção em compartilhar a inquietude de mãos e machados que esculpem uma enorme cambará. Na sinfonia da canoa, há que se ter tempo também do silêncio, para que a emoção acalente a construção dos sentidos.

Foi neste momento que o silêncio foi quebrado com as largas asas de um pássaro aquático, de pés amarelos, plumas brancas e bico que guardava outra melodia, como se alcançasse a sintonia das estrelas em pleno dia. O tempo das águas é a época da “feitura” da canoa; e a arte da canoa é a possibilidade de sonhar sem precisar dormir.

De cantar sem a necessidade de ser afinado nas cordas de um rio, ou de dançar nas águas que se ondulam pela passagem da canoa.

Para além de um preço econômico, o Pantanal é ainda um lugar misterioso que une gente e natureza, entre águas e terras que se revezam para formar estradas, de paixões que ardem no por-do-sol e de pássaros que cortam o ar no acalento da brisa. A cultura torna-se íntima da natureza, e a arte se alia ao cotidiano de lutas. Talvez carregue tristezas, talvez carregue saudades... Mas encostada na margem, uma canoa consegue rimar paisagem com coragem: de resistir aos avanços de tecnologias frias, de modernidades líquidas ou de urbanidades vazias e persistir na identidade onde as águas constroem novos territórios de um tempo das águas...


MICHÈLE SATO
Um texto retornando da pesquisa de campo em São Pedro de Joselândia. Agradecimentos aos canoeiros, Waldir [SESC], Pica-Pau, Imara, João, Lúcia e ao meu filho Luigi: “a mãe descobriu que o menino gostava de natureza, além de computador”. E aos financiadores deste sonho em forma de pesquisa do laboratório social nº 5 do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia de Áreas Úmidas [INAU, CNPq] e também ao projeto Cartografia Socioambiental [FAPEMAT. www.ufmt.br/gpea




Filho da floresta, 

água e madeira 
vão na luz dos meus olhos, 
e explicam este jeito meu de amar as estrelas 
e de carregar nos ombros a esperança. 

~ Thiago de Mello

michèle sato - audiência científica


REFERÊNCIA: SATO, Michèle. Audiência científica. Sina, ano 2, n. 19, p. 19-20, 2008.


AUDIÊNCIA CIENTÍFICA


Um grande debate no mundo das ciências consiste em permitir que as pesquisas (vozes científicas) consigam ser apropriadas pela sociedade (audiência científica). É preciso repensar no papel do jornalismo, nos limites e potencialidades desta divulgação que não fique meramente na informação, mas que contribua para que o conhecimento não seja um mero parêntesis, e que sobremaneira, traga a aliança entre culturas e ciências.

A alfabetização científica só é possível sob as esteiras de um processo educativo crítico e reflexivo, inclusive indagando se a ciência é masculina, branca, ocidental, rica e excludente. É preciso, sobremaneira, considerar que a etimologia da palavra scientia não se restringe ao campo acadêmico, e que a roda talvez tenha sido a primeira descoberta tecnológica que revolucionou o mundo. Ainda que tenhamos consenso de que ela tenha poder, conforme afirmação de Francis Bacon: “Nam et ipsa scientia potestas est” (conhecimento é poder), há vários sentidos nas ciências – no plural, já que podem ser compreendidas de diferentes maneiras, linguagens e metáforas. De Einstein aos leigos, Manoel de Barros talvez respondesse que “o cu da formiga é mais importante do que usina nuclear” (isto do ponto de vista da formiga).

O ato de divulgar a ciência não se limita simplesmente em informar, em linha reta, de um transmissor ao receptor, como se fosse possível traduzir linguagens científicas em técnicas jornalísticas. Dar audiência às ciências exige talento de criação para além de uma linguagem textual, mas incide em reinvenções educativas intrinsecamente associadas às identidades, expressões artísticas e ambientes circundantes que interferem e, dialeticamente são transformados, por um vasto mundo de signos, mitos, cantos e crenças que perfazem o mundo etnográfico da criação do pensamento.

Destarte, para além das ciências, é preciso construir significados para que a sociedade faça o controle social, de modo a construir um projeto civilizatório de formação cidadã em relação ao mundo, seus fragmentos e suas conexões, numa espiral de possibilidades que considere diálogos de saberes, ao invés da tradicional proposta de ter dois lados: um poderoso que ensina e o outro subalterno que aprende. Há sim, sempre uma dialeticidade entre o EU e o OUTRO, mas sem a relação hierárquica do poder instituído pelas ciências, pois no campo fenomenológico, o diálogo é relativizado e conformado de acordo com o que cada um de nós compreende como MUNDO.

Na tríade fenomenológica, o que merece ser sublinhado não é a mera aquisição de informação, seu acesso ou visão crítica, mas sobremaneira, é compreender de que maneira o mundo científico modifica a cultura humana, e conseguirmos interpretar os seus significados à luz das realidades vivenciadas por povos singulares. Posto neste nível, é necessário reconhecer previamente o quão desafiante será aliar um campo replicável da verdade universal das ciências modernas, ao outro campo radicalmente oposto: o de valorizar seu papel em culturas diferentes, que jamais podem ser comparáveis ou assumir paradigmas, pois não há modelos que podem ser simplesmente transpostos de uma realidade à outra quando falamos em exercer nossa cidadania para cumprir o papel de inclusão social.

Para a audiência científica, o caminho tomado é sempre provisório, mas é preciso ter o direito de sacudir as mesmices, até desmoronando os sentidos e instigar a liberdade da arte, sejam pelas fantasias mitológicas, sejam pelas regras mais racionais. É preciso transbordar nos imaginários, sabendo também de esvaziar. Todavia, a essência da subversão metodológica deve ter consistência conceitual e, essencialmente, de se estar preparado para que os sujeitos pesquisadores possam, de repente, tornarem sujeitos pesquisados. Considerar as ciências é também expressar arte, imaginação e poesia. Será possível misturar poesia com ciências? - indagariam mentes cartesianas que dominam o mundo da academia. “Sem dúvida!” – responderia Octavio Paz. Ciências e poesias, anelo e sequidão do carinho. Lutam pela vida contra a satisfação mortal, o sorver da flor e o milagre da dádiva, é necessário romper com a dicotomia do espírito e da matéria, permitindo que os sujeitos da Educação Ambiental pensem com os corações, ou seja, permitam unificar a racionalidade na sensação, oferecendo simultaneamente, o estranhamento ao lado do maravilhamento.




Wladimir Moldavsky: band



No azul dos reflexos e do fogo solar
Um raio ilumina a verdade diurna
Mas no cosmo pulsante da estrela
Outro raio brilha em incerteza noturna


Números, cálculos e laboratórios
Traçam incógnitas, retas e pontos
Mas nem a geometria euclidiana
Dá a resposta à magia apaixonada


Hormônios, neurônios, binômios
De sangue misturado com desejo
Se a certeza racional determina
A angústia enamorada duvida


Na dor de um amor solitário
Que insiste em alívio da alma
Não há ciência no mundo
Que cure um coração moribundo

Michèle Sato

Professora e pesquisadora da UFMT & UFSCar [www.ufmt.br/gpea], vem trabalhando para que os abismos entre ciências e culturas não sejam dimensões divorciadas, mas conjugadas pela reinvenção artístico-educativa.

paulo freire




Os profetas não são homens 
ou mulheres desarrumados, 
desengoçados, barbudos, cabeludos e pegando cajados...


Os profetas são aqueles ou aquelas 
que se molham de tal forma nas águas
da sua cultura e da sua história,
da cultura e da história de seu povo,
dos dominados do seu povo,
que conhecem o seu aqui e o seu agora e,
por isso, podem prever o amanhã
que eles mais do que adivinham, realizam...


Eu diria aos educadores e educadoras,
ai daqueles e daquelas, 
que pararem com a sua capacidade de sonhar,
de inventar a sua coragem 
de denunciar e de anunciar.


Ai daqueles e daquelas que, 
em lugar de visitar de vez em quando o amanhã, 
o futuro,
pelo profundo engajamento com o hoje,
com o aqui e com o agora, 
se atrelem a um passado, 
de exploração e de rotina

~  Paulo Freire



Michèle Sato: canoeiro de Joselândia

Sunday, 4 September 2011

JOÃO QUADROS RAMOS - ABRIL 2011

JOÃO QUADROS RAMOS

SESI ESCOLA
São Pedro de Joselândia, abril 2011



RELATÓRIO DE CAMPO:

ÁGUA 360º


Antes de começar a viagem, fiz algumas perguntas, e as respostas às perguntas, eu fotografei. 

Que água é essa?



A logo marca está errada... 
As águas daqui podem ser de varias cores, menos azul” 



Como é utilizada a água?


De onde ela vem?



“Podemos definir a água em Joselândia como um fio de uma trança, fio esse não reconhecido pelo resto do trançado”

Observando as pessoas, as fotos, as perguntas que fiz, chego a conclusão que a água em Joselândia, por ser tão normal, não é reconhecida e isso justifica a resposta da penúltima pergunta:

ESSA ÁGUA É POLUÍDA?


A água em Joselândia, infelizmente, é igual ao resto da água do planeta, com apenas uma diferença: ela é daqui...




PÉRICLES E. ALBERNAZ VANDONI - ABRIL 2011




PÉRICLES E. ALBERNAZ VANDONI 
Escola Livre Porto Cuiabá - 6° ano - Ensino Fundamental 
ABRIL 2011 - São Pedro de Joselândia 




PESQUISA DE CAMPO – JOSELÂNDIA 
DATA: 29 e 30 abril e 1° de maio de 2011. 

Este relatório refere-se à pesquisa realizada no Pantanal mato-grossense onde pude observar alguns animais, pássaros, flores e insetos. Só vi uma escola e tinha computador. 



O Cavalo Pantaneiro: é uma espécie que tem o casco mais resistente pois o cavalo normal que não tem o casco tão resistente para a água, pois podemos comparar com a nossa unha, que se deixarmos na água muito tempo ela começa a amolecer.



Os pássaros: São animais ariscos e tímidos, acho que tem mais pássaros é aqui no Pantanal e alguns não temem os humanos, muito interessante isto ainda mais na minha idade (11 anos). Os que eu mais vi foram araras e pica-paus.



Os animais das pessoas no Pantanal são livres para sair e voltar quando quiserem. 

               
As pessoas do Pantanal são muito simpáticas e muito felizes.
Os caminhos: Esta é a segunda vez que eu venho ao Pantanal e aprendi muito, a primeira foi pela minha Escola, agora quero voltar na seca.