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Thursday, 20 October 2011

código florestal

fonte: RETS
http://www.rets.org.br/?q=node/1330


SBPC e ABC propõem ao Senado mudanças no projeto de reforma do Código Florestal

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A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a ABC (Academia Brasileira de Ciências) encaminharam aos senadores, na terça-feira (11/10), um documento com propostas de mudança para o PLC (Projeto de Lei da Câmara) Nº 30/2011, que tramita no Senado e desfigura o Código Florestal, abrindo caminho para a ampliação do desmatamento no País.

As duas instituições afirmam que os senadores precisam "corrigir os equívocos verificados na votação da matéria", aprovada pela Câmara em maio. A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado referendou o projeto no dia 21/9 sem avaliar seus aspectos constitucionais, razão de ser do colegiado. O PLC passará por mais três comissões antes de chegar ao plenário.

O documento apresentado agora complementa o livro lançado em abril pelas duas associações. A publicação avaliava que a proposta de mudança do Código Florestal, então em tramitação na Câmara, carecia de base científica (veja o livro). A novidade é que agora os cientistas debruçaram-se sobre os principais problemas do texto em tramitação no Senado e apontam soluções para cada um deles.

"Nosso primeiro trabalho foi mais de cunho científico, mostrando como a ciência poderia colaborar. Mas nas vezes em que fomos ao Congresso, nos cobraram propostas concretas. Esse documento tem esse objetivo", explica o professor José Antônio Aleixo, coordenador do grupo de trabalho sobre Código Florestal da SBPC e da ABC.

Proteção para APPs

Ao contrário do relatório do senador Luiz Henrique (PMDB-SC), o documento da SBPC e da ABC defende, entre outros pontos, que ?todas as Áreas de Preservação Permanente (APP) de beira de cursos d?água devem ter sua vegetação preservada e naquelas em que essa vegetação foi degradada elas devem ser integralmente restauradas? (leia a íntegra do documento).

O texto afirma que a delimitação dessas APPs precisa ser feita de acordo com a lei vigente, ou seja, desde o leito maior do curso de água, medido na época da cheia. O relatório vindo da Câmara prevê que essa medição seja feita a partir do leito médio, o que significa na prática uma redução linear de todas as APPs de beira de rio, independente da largura que a nova legislação venha a adotar para essas áreas.

O documento da SBPC e ABC critica ainda a compensação de RL (Reserva Legal) dentro do mesmo bioma prevista no relatório. De acordo com o texto vindo da Câmara, um produtor rural que não tenha RL poderia compensá-la em locais distantes, até em outros estados, pagando por "áreas que não têm equivalência nem em termos de composição e estrutura, nem de função" ecológica. Os cientistas defendem que a compensação seja feita dentro do mesmo ecossistema ou, se no mesmo bioma, em áreas prioritárias para conservação que tenham a mesma importância ambiental daquelas que estão sendo compensadas.

Logo em seu primeiro tópico, o texto das duas organizações científicas desmistifica o argumento dos defensores do novo Código Florestal de que a lei vigente impede a expansão da produção agrícola. Segundo SBPC e ABC, o principal obstáculo a essa expansão é a ausência de uma política agrícola capaz de garantir assistência técnica, preços, insumos, estoques reguladores, armazenamento e infraestrutura - e não a legislação ambiental.

Todas as propostas estão referenciadas em trabalhos científicos. Além dos presidentes das duas instituições, assinam o texto cientistas renomados nacional e internacionalmente, como Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia); Tatiana Deane de Abreu Sá, pesquisadora e ex-diretora da Embrapa; e Maria Manuela Carneiro da Cunha, professora emérita da Universidade de Chicago.

Juízes pela Democracia também pede rejeição de reforma do Código

A AJD (Associação dos Juízes para a Democracia) divulgou uma nota pública em que pede a rejeição do PLC nº 30/2011, considerando-o inconstitucional. O texto pede que os argumentos elencados pela SBPC e a ABC sejam discutidos pelos senadores e que seja dado um prazo para a elaboração de pesquisas que possam embasar um novo Código Florestal (leia aqui).

Contatos

Acadêmica Agência de Comunicação: (11) 5549-1863, (11) 5081-5237 e (11) 9912-8331 ouimprensa@sbpcnet.org.br

Fonte: Sociambiental

somos ET!

fonte: sbpc
http://www.sbpcpe.org/index.php?dt=2011_10_20&pagina=noticias&id=06946


SOMOS ETs
Fonte: Antônio Carlos Pavão (*)
Viemos de fora, somos extraterrestres! Porque somos água. Nosso corpo é constituído por mais de 50% de água. Um bebê tem cerca de 80% de água e conforme envelhece, perde água, mas sempre mais da metade do corpo ainda é de água. De onde veio esta água? Dos cometas, que num passado muito distante colidiram com nosso planeta, segundo a teoria mais aceita atualmente. Cometas são objetos extraterrestres, que circulavam e ainda circulam por todo o cosmos. Quando a Terra foi formada há uns 4,5 bilhões de anos, tudo era muito quente e toda a água existente se evaporou. Quando a temperatura baixou a Terra continuou sendo bombardeada por inúmeros objetos celestes, como asteróides, grandes rochas dispersas pelo espaço, e também por cometas, que são constituídos basicamente por água. É por isso que quando um cometa passa perto só Sol, sua água evapora devido ao calor, formando aquela atraente e característica cauda. 

Foi assim que a Terra ganhou água, fonte de toda a vida. No Espaço Ciência, o museu de ciência de Pernambuco, tem um experimento onde o visitante sobe numa plataforma e vê um tubo se encher de água, com a mesma quantidade que ele tem no corpo. É impressionante ver como somos água. Esta é apenas uma das atrações que diversas instituições de ensino e pesquisa de Pernambuco oferecem ao público nesta Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, cuja abertura será neste domingo 16/10 às 16h no Alto da Sé em Olinda e termina em Porto de Galinhas no domingo 23/10. São centenas de atividades promovidas por dezenas de instituições (http://semanact.mct.gov.br/index.php/content/view/4756.html). Criada por decreto do presidente Lula em 2004, quando o governador Eduardo Campos dirigia o Ministério de Ciência e Tecnologia, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia deste ano oferece mais de sete mil atividades para a popularização da ciência. 

Com o tema “Mudanças climáticas, desastres naturais e prevenção de riscos”, procura esclarecer a população sobre a importância de se apropriar de conceitos de ciência e tecnologia para o pleno exercício da cidadania. Sim, somos Ets, mas este agora é nosso mundo. É este que precisamos transformar, apoiados na ciência, para garantir uma vida saudável para todos. Participar da Semana Nacional de Ciência é se somar nesta luta. Então, Ets deste planeta, venham todos para o prazer de conhecer e explorar a ciência.

(*) Antonio Carlos Pavão, Diretor do Espaço Ciência e coordenador da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em Pernambuco.

Sunday, 25 September 2011

UFMT e Instituto alemão realizam workshop para criação de acervo digital de coleções do Pantanal Mato-Grossense

Fonte - UFMT

Publicado em Notícias | 22/09/2011

Pesquisadores da Universidade Federal de Mato (UFMT e da Alemanha realizam desde ontem (22) o “Brazilian-German - Pantanal Biodiversity Workshop UFMT – Cuiabá”. O evento é o resultado da parceria para o projeto “Biodiversidade de táxons chave no pantanal mato-grossense: banco de dados e aperfeiçoamento de métodos de avaliação” e o Zoological Research Institute e Zoological Museum Alexandre Koening (ZFMK), da cidade de Bonn, na Alemanha. O workshop acontece no auditório Vangil Pinto da Silva - CCBS III (Instituto de Saúde Coletiva) até esta sexta-feira.
A coordenadora do projeto pela UFMT-Brasil, Marinêz Isaac Marques, fez a abertura do workshop falando da importância dessa parceria. Disse que as discussões, sugestões e orientações do workshop servirão para adequar o banco de dados referente ao acervo já coletado em pesquisas da Universidade sobre várias espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos. Como resultado, será elaborado um banco de dados digital com as coleções do Instituto de Biociências (IB) da UFMT, informou a professora Marinêz.
Participam do evento pesquisadores, mestrandos envolvidos no projeto, alunos do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, do Instituto de Biociências, estudantes de graduação e convidados. O professor doutor Charly Schuchmann, na sua apresentação, falou da satisfação de poder dar a sua contribuição ao Brasil, em especial para a UFMT, através do ZFMK. “É um trabalho muito importante não só para a Alemanha, mas todos os países e para o mundo; é a nossa contribuição no campo das pesquisas sobre a fauna e a flora tão importantes para a preservação do Pantanal”, considerou.
Para o professor Marcos André Carvalho, chefe do Departamento de Biologia e curador da coleção de herpetologia, “esse workshop é a ponta do iceberg; ele acontece num momento muito importante, onde as nossas pesquisas estão sendo reconhecidas pelo mundo acadêmico em outros países”.
SpeciesLink
Após a abertura, os pesquisadores Rogerio Rossi, Monica Aragona, João Batista Pinho, Marcos Carvalho, Christine Strüssmann, Alexandre Ribeiro e Fernando Vaz-de-Mello, da UFMT, apresentaram as coleções do IB.
Hoje, o workshop conta a participação dos palestrantes Marcos Lhano, Claudia Calil e Roberto Silveira. A cientista Dora Ann Lange Canhos, do Centro de Referência e Informação Digital (Cria) da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp) visitará todas as coleções do Instituto para esclarecer dúvidas referentes ao uso do sistema (Specieslink-Cria). O speciesLink é um sistema distribuído de informação que integra em tempo real dados primários de coleções científicas, o sistema foi desenvolvido com o apoio de instituições como o CNPq e as pesquisas iniciaram-se em 1985, teve destaque com a ECO 92, mas segundo a pesquisadora ainda está no início. “Temos muito trabalho pela frente e muito o que aprender. Um banco de dados sobre pesquisas científicas na internet é algo que vai muito mais além, é interplanetário, portanto, temos que continuar estudando.”
Amanhã, os pesquisadores convidados falarão sobre os seguinte temas: Sergei Golovatch, da Russia - A diversidade de centopéias (Diplopoda) da região do Pantanal e adjacentes; Ulrich Irmler, da Alemanha - Staphynilidae do Brasil; Pia Parolin da França - O papel da diversidade funcional em árvores: Como fazer medidas ecofisiológicas contribuirem para a compreensão da biodiversidade? e Mathias Wantzen, também francês, sobre a série de livros “Abla (Aquatic Biodiversity in Latin America) um trampolim para uma plataforma de dados pan-latina para facilitar o intercâmbio de dados morfologicos-taxonômicos-ecologicos-biográficos e genéticos”.
O professor Paulo Teixeira de Souza Jr., da UFMT, apresentará o programa de pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (Inau), da qual ele integra o Comitê Gestor.
O sábado (24) está reservado para excursão ao Pantanal Mato-Grossense, a intenção da Coordenadora do projeto na UFMT professora Marines Isaac é realizar uma visitação aos locais onde o projeto esta sendo desenvolvido e que vem dando todo o suporte para as coletas e a formação do banco de dados.

Sunday, 11 September 2011

liberdade sustentável - amatya sen

Fonte: JC e-mail 2483, de 15 de Março de 2004.
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=16993
* Ilustração, destaques e complementação de leituras por Michèle Sato
 
Por que é necessário preservar a coruja-pintada



Amatya Sen
Prêmio Nobel de Economia propõe que o conceito de desenvolvimento sustentável inclua a manutenção da liberdade, além da satisfação de necessidades


http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1998/sen-autobio.html


Amartya Sen, economista nascido na Índia, doutor pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, lecionou em Universidades da Índia, Reino Unido e EUA, e, em 1998, quando assumindo o Trinity College, Cambridge, ganhou o Premio Nobel de Economia. Artigo publicado originalmente na 'London Review of Books' (http://www.lrb.co.uk) e reproduzido no caderno 'Mais!' da 'Folha de SP':


Todos reconhecemos, hoje em dia, que o nosso ambiente pode ser devastado com facilidade. Danificar a camada de ozônio, aquecer o planeta, poluir o ar e os rios, destruir as florestas, esgotar os recursos minerais, conduzir muitas espécies à extinção e impor outras devastações se tornaram processos rotineiros. O interesse atual pelo conceito de 'sustentabilidade' deriva desse entendimento.


A necessidade de ação coordenada foi delineada de maneira vigorosa em 1987, no pioneiro manifesto 'Nosso Futuro Comum', preparado pela Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento, presidida por Gro Brundtland. 


O chamado Relatório Brundtland definia o desenvolvimento sustentável como aquele que atende 'às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras para atender às suas necessidades'.


O desenvolvimento sustentável se tornou o tema central em boa parte da literatura ambiental. Também inspirou significativos protocolos para ação coordenada, por exemplo a redução de emissões prejudiciais e outras fontes de poluição planetária. 


A assinatura do Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Desgastam a Camada de Ozônio, em 1987, agora ratificado por 186 países, pode ser vista, nas palavras de Lester Brown, como 'um dos melhores momentos das Nações Unidas' (em 'Eco-Economy: Building an Economy for the Earth' [Eco-Economia: Construindo uma Economia para a Terra], Earthscan, 240 págs., 14,99 libras).


A idéia do desenvolvimento sustentável inspirou muitas reuniões internacionais importantes, da Cúpula da Terra [Eco-92], no RJ, em 1992, à Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável [Rio +10], em Johannesburgo, dez anos mais tarde. Essas reuniões se concentravam em tópicos diferentes, mas tinham todas uma preocupação comum.


O mundo tem bons motivos para agradecer pela importância que essa idéia adquiriu, mas é necessário perguntar se a idéia de ser humano que o conceito abarca é suficientemente abrangente. 


É certo que as pessoas têm 'necessidades', mas também têm valores e, especialmente, valorizam sua capacidade de arrazoar, avaliar, agir e participar. Ver os seres humanos apenas em termos de suas necessidades pode nos dar uma visão um tanto insuficiente da humanidade.


Para retomar uma distinção medieval, somos não apenas 'pacientes', cujas demandas requerem atenção, mas também 'agentes', cuja liberdade de decidir qual valor atribuir às coisas e de que maneira preservar esses valores pode se estender muito além do atendimento de nossas necessidades. 


É possível, dessa forma, perguntar se as prioridades ambientais deveriam ser encaradas, igualmente, em termos da sustentação de nossas liberdades. Será que não deveríamos nos preocupar em preservar - e talvez até expandir - as liberdades substantivas de que as pessoas hoje desfrutam 'sem comprometer a capacidade das futuras gerações' para desfrutar de liberdade semelhante, ou maior?


O foco na idéia de 'liberdades sustentáveis' pode ser não só conceitualmente importante (como parte de uma abordagem geral que trate do 'desenvolvimento como liberdade'), mas também oferecer implicações tangíveis e imediatamente relevantes. 


O foco da discussão na política ambiental vem sendo sempre o desenvolvimento de instituições nacionais e internacionais apropriadas. 


A justificativa para isso não poderia ser mais clara. Como aponta, com argumentação muito coerente, o relatório 'Ecossistemas e Bem-Estar Humano', produzido por uma equipe mundial para a Avaliação de Ecossistemas do Milênio, em 2003, 'atingir o desenvolvimento sustentável requer instituições efetivas e eficientes que possam prover mecanismos por meio dos quais os conceitos de liberdade, justiça, eqüidade, capacitação básica e paridade governem o acesso e o uso dos serviços de ecossistemas'. 


Mas, paralelamente, vem crescendo o interesse na exploração do papel da cidadania para promover o desenvolvimento sustentável. Assim como são necessárias instituições para estabelecer regulamentação passível de fiscalização e para oferecer incentivos financeiros, um compromisso mais forte para com as responsabilidades cívicas poderia ajudar a promover o cuidado com o ambiente.





Cidadão ecológico 


'Citizenship and the Environment' [A Cidadania e o Ambiente, Oxford, 238 págs., 18,99 libras], de Andrew Dobson, não só discute o papel das responsabilidades associadas à cidadania como delineia argumentos em favor do conceito de 'cidadão ecológico', que dá prioridade às considerações ambientais. 


Não pretendo questionar se dividir o todo integrado da cidadania em funções específicas seria a melhor maneira de prosseguir, mas Dobson certamente tem razão ao enfatizar o alcance das responsabilidades cívicas quando lidamos com os desafios ambientais. 


Ele está especialmente preocupado com investigar e enfatizar aquilo que os cidadãos são capazes de fazer quando propelidos pela sensibilidade social e por reflexão ponderada, em lugar de apenas por incentivos financeiros (atuando simplesmente como 'agentes racionais movidos pelo auto-interesse'). 'Um a um, portanto, os pilares da sustentabilidade estão sendo erguidos, e considero a cidadania ambiental como um importante acréscimo a esse elenco.' 


O senso de responsabilidade ecológica é parte de uma nova tendência que concilia teoria e prática. No final de 2000, por exemplo, houve críticas à política do governo britânico quando ele recuou, devido a protestos e piquetes, em uma proposta de aumento dos impostos sobre os combustíveis, sem fazer qualquer tentativa séria de expor os argumentos ambientais da idéia ao debate público.


Como afirma Barry Holden em 'Democracy and Global Warming' [Democracia e Aquecimento Global, Continuum, 208 págs., 25 libras], 'isso não implica que os argumentos ambientais tivessem inevitavelmente gerado uma vitória', mas 'sugere que a possibilidade existia, caso tivessem sido empregados'. 


Há cada vez mais decepção, não só com a fragilidade -ou completa ausência- de iniciativas positivas para envolver os cidadãos na política ambiental, mas também diante do ceticismo evidente das autoridades quanto à possibilidade de que renda frutos apelar para o senso de responsabilidade social dos cidadãos. 





A reformulação de Solow 


A frustração é fácil de entender. Mas, além de procurarmos uma expansão no domínio do ativismo cívico, é preciso que perguntemos de que maneira a idéia de sustentabilidade deve ser ampliada à luz de nossa concepção de responsabilidade cidadã adequada. 


Temos de examinar se a cidadania é puramente instrumental (simplesmente uma questão de meios e maneiras de conservar o ambiente) ou se vai além, e em especial se a cidadania efetiva é parte necessária daquilo que deveríamos tentar desenvolver. 


O conceito de sustentabilidade de Brundtland foi refinado e ampliado consideravelmente, de forma elegante, por um dos maiores economistas de nossa era, Robert Solow, em sua monografia 'An Almost Practical Step Toward Sustainability' [Um Passo Quase Prático Rumo à Sustentabilidade], publicada cerca de uma década atrás. Solow encara a sustentabilidade como um requisito que precisamos legar às próximas gerações:


'O que quer que seja necessário para gerar um padrão de vida pelo menos tão bom como o que temos e para cuidar de maneira semelhante da próxima geração'. 


A fórmula tem diversas características atraentes. Primeiro, ao se concentrar na sustentação de padrões de vida (que são encarados como motivação para a preservação ambiental), Solow oferece uma definição mais firme do que a concentração na satisfação das necessidades proposta sob a fórmula de Brundtland. 


Segundo, a formulação elegante e circular que ele propõe garante atenção aos interesses de todas as futuras gerações, de acordo com as normas definidas por elas e suas sucessoras em cada período dado. Mas será que a reformulação de Solow incorpora uma visão adequadamente ampla da humanidade? 


Embora sua concentração na preservação dos padrões de vida tenha méritos claros (há algo de profundamente atraente na idéia de garantir que as futuras gerações possam 'atingir um padrão de vida pelo menos tão bom quanto o nosso'), seria ainda possível perguntar se o conceito de padrão de vida é abrangente o bastante. 


Sustentar um padrão de vida não é a mesma coisa que sustentar o direito à liberdade das pessoas para terem ou salvaguardarem aquilo que valorizam e aquilo a que atribuem importância, por quaisquer motivos. Nossa razão para valorizar determinadas oportunidades não precisa sempre derivar da contribuição que elas oferecem ao nosso padrão de vida. 





O futuro da coruja 


Para ilustrar o ponto, basta considerar nosso senso de responsabilidade quanto ao futuro das espécies, não só porque -ou pelo menos não só na medida em que- sua presença estimule os nossos padrões de vida. 


Por exemplo, alguém pode considerar que deveríamos fazer o possível para preservar uma espécie ameaçada de animal, digamos, a coruja-pintada [Strix occidentalis]. Não haveria contradição se a mesma pessoa declarasse: 


'Os nossos padrões de vida são em geral - ou completamente - independentes da presença ou da ausência de corujas-pintadas, mas acredito vigorosamente que não deveríamos permitir sua extinção, por razões que pouco têm a ver com os padrões de vida dos seres humanos.'



Strix occidentalis


Gautama Buda oferece idéia semelhante, argumentando em 'Sutta Nipata' que, por sermos enormemente mais poderosos do que as demais espécies, é preciso que tenhamos alguma responsabilidade para com elas, em um esforço por minorar de alguma maneira essa assimetria. 


Buda prossegue ilustrando o argumento por meio de uma analogia envolvendo a responsabilidade da mãe para com seu filho, não por tê-lo gerado (conexão que não é invocada nesse raciocínio em particular), mas por poder fazer coisas capazes de influenciar a vida da criança, positiva ou negativamente, das quais a própria criança é incapaz.


A razão para que cuidemos de nossas crianças, de acordo com essa linha de raciocínio, não tem relação com o nosso padrão de vida (embora ele quase certamente deva ser afetado), mas com a responsabilidade associada ao nosso poder. 


Podemos ter muitos motivos para nossos esforços conservacionistas - nem todos eles parasitários de nosso padrão de vida, e alguns deles definitivamente vinculados ao nosso senso de valores e à nossa responsabilidade para com aqueles que nos precederam e que nos sucederão.


Qual papel, então, a cidadania deveria desempenhar na política ambiental? Primeiro, ela precisa envolver a capacidade de pensar, avaliar e agir, e isso requer que encaremos os seres humanos como agentes, e não só como pacientes. Isso é relevante para muitas discussões ambientais criticamente importantes.


Considere por exemplo o notável relatório 'Rumo ao Consumo Sustentável', da Royal Society britânica (2000). O relatório demonstra, entre outras coisas, que as atuais tendências de consumo são insustentáveis, e que existe uma necessidade de contenção e redução, começando pelos países ricos. 


Em sua introdução, Aaron Klug enfatiza a necessidade urgente de 'grandes mudanças no estilo de vida dos países mais desenvolvidos -algo que nenhum de nós considerará fácil'.


Trata-se certamente de uma tarefa árdua, mas, se as pessoas forem de fato agentes dotados de raciocínio (e não apenas pacientes, sempre carentes), então pode existir uma abordagem que envolva discussão pública e emergência e sustentação de prioridades favoráveis ao ambiente, acompanhadas de um alargamento da compreensão quanto às dificuldades ecológicas que estamos enfrentando. 


Isso, igualmente, deveria nos conduzir a um reconhecimento da capacidade dos seres humanos para pensar e julgar por si sós -uma capacidade que valorizamos, hoje, e uma liberdade que gostaríamos de preservar para o futuro.


Segundo, entre as oportunidades que temos motivos para apreciar está a liberdade de participação. Se as deliberações com participação forem dificultadas ou enfraquecidas, perderemos um bem valioso. 


Por exemplo, a recente diluição dos regulamentos e requisitos ambientais nos EUA, que ocorreu sem muita oportunidade de discussão pública, não é só uma ameaça para o futuro, mas também diminui os cidadãos norte-americanos ao privá-los da oportunidade de participar.


Na verdade, quando o presidente George W. Bush abruptamente abandonou o acordo ambiental fechado em Kyoto (conhecido como Protocolo de Kyoto), pesquisa de opinião pública da rede de notícias a cabo CNN e da revista 'Time' constatou que grande maioria dos entrevistados discordava seriamente do presidente. Mas houve raras tentativas do governo dos EUA para ouvir a opinião pública nas decisões políticas, ou de atrair os cidadãos para a discussão dessas questões.


Em lugar de ampliar o alcance da discussão pública, os EUA recuaram seriamente, nessa frente, durante os últimos anos. Outro exemplo seria a sempre sigilosa 'força-tarefa da energia', sob o comando do vice-presidente Dick Cheney, que mostrou pouco interesse em se comunicar com o público. Na verdade, Cheney relutou até mesmo em revelar quem são os integrantes do grupo.


Esses e outros casos de distanciamento e de camuflagem mostram a abrangência do recuo, em termos de participação do público. Os críticos temem, e com razão, que tudo isso possa ser muito ruim para o futuro. 


Mas é preciso que reconheçamos, igualmente, que bloquear oportunidades de participação informada é em si uma imensa perda de liberdade e já vem acontecendo. Há algo que não vem sendo sustentado, e isso está acontecendo agora.


Terceiro, se os objetivos ambientais precisarem ser alcançados por meio de procedimentos intrusivos na vida privada das pessoas, a perda de liberdade conseqüente deveria contar como uma perda imediata. 


Mesmo que seja verdade que restringir a liberdade de reprodução por meio de planejamento familiar coercivo (como o limite de um filho por família imposto pela China) ajuda a preservar o padrão de vida, seria forçoso reconhecer, igualmente, que algo de importante está sendo sacrificado - e não sustentado - por essas políticas.


Na verdade, existem empiricamente bons motivos para duvidar que a coerção possa contribuir muito para a redução da fertilidade. As realizações chinesas na área são influenciadas, por exemplo, pela atuação de outros fatores sociais que conduzem a uma redução espontânea na freqüência de partos (como a expansão na educação e no emprego feminino).


De fato, outras sociedades -como é o caso de Kerala, na Índia- que realizaram progressos sociais semelhantes, mas sem coerção, obtiveram reduções comparáveis, ou até maiores, em seus índices de fertilidade. 


Mas, mesmo que se possa demonstrar que uma abordagem que reprima a participação popular é capaz de reduzir materialmente a fertilidade, seria preciso comparar essa realização à perda de liberdade que acontece imediatamente devido à coerção.


Quarto, o foco convencional nos padrões de vida como um todo é muito genérico para dedicar atenção adequada à importância de liberdades específicas. Pode haver uma perda de liberdade (e portanto dos direitos humanos correspondentes) mesmo que não haja redução do padrão de vida em geral. 


O ponto dessa distinção ética geral, que é muito relevante em termos de escolha social, pode ser ilustrado por um exemplo simples. Se aceitarmos que uma pessoa tem o direito moral de não ser forçada a aspirar fumaça de cigarro gerada por fumantes descuidados, não se pode desconsiderar esse direito, em termos éticos, caso a pessoa seja muito rica e tenha um padrão de vida elevado.


No contexto ecológico, basta considerar um ambiente deteriorado, no qual as gerações futuras não poderão respirar ar fresco (devido às emissões poluentes), mas no qual essas gerações futuras sejam tão ricas e bem servidas de outros confortos que seu padrão de vida talvez se sustente. 


Uma abordagem de desenvolvimento sustentável seguindo o modelo Brundtland-Solow talvez se recuse a ver qualquer mérito nos protestos contra essas emissões, sob a justificativa de que a geração futura terá ainda assim um padrão de vida pelo menos igual ao atual. 


Mas isso desconsidera a necessidade de políticas de restrição de emissões que possam ajudar as gerações futuras a ter a liberdade de desfrutar do ar fresco que soprava para as antigas gerações. A relevância da cidadania e da participação social não é apenas instrumental.



Elas são parte integral daquilo que temos motivo para preservar. 


É preciso combinar a noção básica do direito à sustentabilidade defendida por Brundtland, Solow e outros com uma visão mais ampla dos seres humanos, que os encare como agentes cuja liberdade importa, e não como pacientes que não se distinguem dos padrões de vida dos quais desfrutam. (Tradução de Paulo Migliacci)
(Folha de SP, Mais1, 14/3) 
*
AMARTYA SEN
FOOD & FREEDOM
http://www.worldbank.org/html/cgiar/publications/crawford/craw3.pdf


EQUALITY OF WHAT
http://culturability.fondazioneunipolis.org/wp-content/blogs.dir/1/files_mf/1270288635equalityofwhat.pdf


THE POSSIBILITY OF SOCIAL CHOICE
http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1998/sen-lecture.pdf



Eugène Delacroix - La liberté guidant le peuple

Eugene Delacroix pintou a tela “Liberdade guiando o povo” ancorado na revolução de julho de 1830, como marco das cores da bandeira francesa “liberdade, igualdade, fraternidade” (Liberté, Igualité, Fraternité). Virou símbolo da liberdade e provavelmente é a obra mais famosa de Delacroix, com a arte aliada aos campos políticos revolucionários e não servindo somente às elites.

* Ilustração, destaques e complementação de leituras por Michèle Sato

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