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Monday, 15 June 2015

Educação pública não pode seguir tolhida pela agenda do capital, dos governos e das igrejas

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10854:manchete120615&catid=34:manchete

Educação pública não pode seguir tolhida pela agenda do capital, dos governos e das igrejas

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ESCRITO POR GABRIEL BRITO E VALÉRIA NADER, DA REDAÇÃO   
SEXTA, 12 DE JUNHO DE 2015



Num ano tão marcado por derrotas das pautas progressistas, com fortíssimo avanço conservador em todas as frentes, uma notícia foi contra a maré: a eleição da Chapa 20, organizada pela esquerda anticapitalista, para a reitoria da UFRJ, que a partir de julho será exercida por Roberto Leher, professor da Faculdade de Educação.

“É importante assinalar que a vitória foi impulsionada por inédita mobilização estudantil, que imprimiu um ambiente crítico, luminoso e criativo ao processo eleitoral. O protagonismo docente, vibrante, e dos técnico-administrativos, igualmente luminoso e vibrante, substantivou o debate sobre autonomia, a produção do conhecimento novo, as relações de poder capazes de engendrar outra perspectiva de democracia. Debatemos muito a função social da universidade pública no capitalismo dependente e o sentido da produção do conhecimento”, disse, em entrevista ao Correio da Cidadania.

Sobre a conjuntura da Educação, é bem crítico em relação à atual orientação do governo, de seguir as cartilhas dos empresários do setor, perfeitamente representada no documento Pátria Educadora, divulgado pelo governo no início do ano. “Renato Janine (novo ministro da pasta) conhece determinadas particularidades da vida universitária, o que é bom, pois o diálogo pode ser mais qualificado. Entretanto, ainda não ficou claro qual será a sua autonomia no MEC e, mais amplamente, nas políticas governamentais. O documento Pátria Educadora expressou uma fragilidade do MEC”, analisou.

Leher também analisou o atual quadro de greves dos professores, que já ocorreram em diversos estados. “São lutas com forte participação de jovens e isso tem acentuado características importantes, como a crítica ao sindicalismo mais acomodado, ou burocratizado. Reivindicam participação mais direta da base, o que os torna movimentos mais impetuosos. No entanto, o grosso da pauta da educação não pode estar dirigida aos municípios e estados, ainda cruciais, mas sem poder de alterar a ordem de grandeza das verbas públicas para 10% do PIB, exclusivamente para a educação pública. Essa agenda geral é decisiva”, falou.

A entrevista completa com Roberto Leher pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Você acaba de ser eleito reitor da UFRJ. Qual é a atual situação, em sua visão, das universidades federais do país, a UFRJ entre elas, e como imagina que vá ser o seu mandato? Quais os seus objetivos primordiais e, também, quais as chances de efetivação desses objetivos?

Roberto Leher: A eleição de nossa chapa marca uma mudança na agenda da UFRJ que, com nosso programa, ganha novos elementos e escopo. É importante assinalar que a vitória foi impulsionada por inédita mobilização estudantil, que imprimiu um ambiente crítico, luminoso e criativo ao processo eleitoral. O protagonismo docente, vibrante, e dos técnico-administrativos, igualmente luminoso e vibrante, substantivou o debate sobre autonomia, a produção do conhecimento novo, as relações de poder capazes de engendrar outra perspectiva de democracia. Debatemos muito a função social da universidade pública no capitalismo dependente e o sentido da produção do conhecimento, frente aos grandes problemas dos povos.

Desse modo, foi possível discutir as grandes questões da educação e as políticas para a Ciência e Tecnologia a partir dos problemas particulares da UFRJ. Há muitos anos, o debate sobre o porvir da instituição não era tão vigoroso e intenso. Claramente, a eleição da Chapa 20 foi um gesto em defesa da universidade autônoma, crítica e democrática. Foi um ato político-acadêmico generoso em prol do público.

Os desafios são imensos. Entre 2007 e 2014 a expansão da UFRJ foi enorme. Ampliou em 63% o número de estudantes de graduação, criou 100 novos cursos de graduação, ampliou em mais de 50% os seus cursos de doutorado, incorporou mais 2,5 mil mestrandos e doutorandos, somando, atualmente, 12 mil pós-graduandos.

No período em questão, foram criados com enorme esforço da comunidade universitária um novo campus, o de Macaé, e um polo universitário em Xerém, Duque de Caxias, base de um futuro novo campus. Certamente, a crise da Petrobras irá atingir os investimentos que a prefeitura realizava no novo campus, em virtude da queda abrupta dos royalties para o município de Macaé. A crise da Petrobras irá alcançar os recursos repassados para pesquisa, em especial na COPPE, geologia, química etc.

O problema não é apenas conjuntural. As verbas de investimento foram cortadas pela metade entre 2011 e 2014, as verbas de custeio foram erodidas pelos gastos com as famigeradas terceirizações e, desde o final de 2014, os contingenciamentos produziram um quadro devastador. Na UFRJ, o contingenciamento correspondeu a R$ 60 milhões em 2014, o que equivale a toda a verba para investimento! Neste ano, dos 120 milhões que deveríamos ter recebido para custeio até abril, foram liberados efetivamente apenas R$ 85 milhões e, até a data de hoje, desconhecemos o quanto foi retirado das universidades federais com o corte de R$ 9,5 bilhões do orçamento do Ministério da Educação (MEC).

A tarefa prioritária, obviamente, é lutar por outro parâmetro de financiamento, articulado com a ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições de Ensino Superior), com setores parlamentares, com movimentos sociais e sindicais. É preciso revisar a matriz de financiamento (a chamada matriz Andifes) objetivando adequar o financiamento à expansão verificada nos últimos anos, contemplar as particularidades das instituições (hospitais, prédios tombados, campi, laboratórios etc.) e a exaustão da infraestrutura existente.

A luta terá de rever o parâmetro de financiamento da assistência estudantil, muito abaixo das demandas do presente, e um novo parâmetro para financiamento dos hospitais universitários, atualmente restritos aos recursos do programa de Reestruturação dos Hospitais das Universidades Federais (REHUF) e aos recursos do SUS. Isso significa enfrentar a lógica do chamado ajuste fiscal, que pode comprometer de modo duradouro o futuro da universidade pública brasileira. 
Correio da Cidadania: Qual a sua opinião sobre a greve dos professores e trabalhadores das universidades federais, deflagrada há cerca de duas semanas? O que responderia, nesse sentido, a estudiosos e professores como Daniel Aarão Reis, um crítico de nossa realidade política, econômica, social e educacional, mas que declarou ser contrário às greves nas universidades pelo fato de os maiores prejudicados serem os alunos?

Roberto Leher: A greve eclode nesse contexto de dificuldades que as universidades vivem em todo o país. Não casualmente, o maior protagonismo é estudantil, pois são os estudantes que sofrem as maiores consequências do sub-financiamento das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). A situação da assistência estudantil é aviltante, indigna, revoltante. Como não compreender a justeza dessas reivindicações? Creio que Daniel poderia utilizar seus conhecimentos na área de história para melhor interpretar o significado das greves nas últimas décadas.

Se não houvesse greve em 1991, contra as medidas de Collor, a gratuidade teria caído, um problema de enorme proporção, num país cujo parâmetro de eficiência é o dos fundos de investimentos que controlam as organizações privadas de educação superior. Os concursos não seriam para o Regime Jurídico Único e os docentes e técnicos estariam sem carreira que reconhecesse princípios como o concurso público, a progressão por titulação, o regime de dedicação exclusiva que, afinal, possibilitou a expansão da pesquisa.

Como é possível um historiador ignorar esses fatos históricos? Como o autor explica que, no curso atual das greves, a maior pressão pela greve venha justamente dos estudantes, tidos como os mais prejudicados? Penso que o debate deve ser mais sereno e profundo, evitando o uso de argumentos que não contribuem para a melhoria das universidades. Desse modo, é legítimo que professores avaliem que a greve não é um instrumento de luta em dada conjuntura, mas é importante que o debate não ecoe apenas o senso comum conservador.

Correio da Cidadania: Como professor de uma das universidades federais de peso no país, a UFRJ, e mediante a atual conjuntura política e econômica, de graves conflitos e forte recessão, o que tem a dizer da educação em geral nos mandatos de Dilma Rousseff, especialmente no atual, que começou com cortes orçamentários, inclusive o redimensionamento do Financiamento Estudantil (o Fies)?

Roberto Leher: A demanda por educação superior é imensa no Brasil. A presidenta Dilma alterou as prioridades das políticas públicas, fortalecendo a formação do trabalho simples, por meio do PRONATEC e, no caso da educação superior, a formação massificada e superficial da juventude por meio do Fies. Em 2010, foram disponibilizados algo como 70 mil contratos; em 2014, o total já ultrapassou 750 mil contratos; e a previsão em 2015 era de 1,3 milhão de contratos do FIES.

Certamente, Dilma e o MEC seguiram tentando contemplar a agressividade dos fundos de investimentos que controlam as empresas educacionais. Sob o ponto de vista dos estudantes, em virtude do fato de que não existem vagas públicas para todos, a reinvindicação da ampliação do programa é compreensível.

Do ponto de vista das empresas, a expansão exponencial do FIES criou as bases para o processo de monopolização do setor. O problema é que o custo para o Estado é altíssimo e, diante da política de ampliação do “superávit primário”, o programa tornou-se muito custoso, levando o governo a tentar freá-lo, criando regras mais precisas para que o estudante possa ter acesso ao mesmo. Na ótica dos fundos de investimento que controlam o setor privado, o ideal é que o programa tivesse uma expansão balizada pelo mercado.

O custo tornou-se muito alto para o Estado, em particular em um contexto em que a inadimplência dos tomadores de crédito (os estudantes) seguirá crescendo, em virtude do ambiente econômico do país. Em cinco anos, o montante aplicado no FIES passou de R$ 1 bilhão para R$ 13,5 bilhões. Em 2015, a expectativa das corporações era de que as verbas públicas alcançassem mais de R$ 15 bilhões. A conta não fecha! O ajuste para elevar o superávit primário demandado pelos rentistas levou o MEC a cortar verbas da educação pública, preservando, mais do que o desejável, os recursos do FIES.

Correio da Cidadania: O que é, efetivamente, o documento intitulado “Pátria Educadora”, um dos motes que o governo tentou utilizar positivamente em seu início de mandato?

Roberto Leher: O documento elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) busca harmonizar a política educacional com o que seriam as novas estratégias econômicas do país, após a crise do setor de commodities. A formulação geral é que quem melhor conhece as demandas educacionais são os empresários e, por isso, estes devem seguir dirigindo a educação pública.

O documento é ousado ao propor que o federalismo deve seguir o modelo do SUS, pois com isso explicita que o Estado deve indiferenciar as instituições públicas e privadas, em claro benefício para estas últimas. Este é o sentido do Art.5 do Plano Nacional de Educação. Nada de novo em termos de política. Nova é a explicitação de que o grosso da força de trabalho deve estar preparada para atuar nas “maquilas”, à semelhança do México.

O ministro da SAE, Mangabeira Unger, sustenta que o Brasil poderia ser uma plataforma de exportação cuja vantagem comparativa é o treinamento básico da força de trabalho e a brutal flexibilização da força de trabalho, por meio das terceirizações que convulsionam o mundo do trabalho.

Correio da Cidadania: A pasta da Educação foi a única que viu a queda de um ministro nesse mandato. Considera que o novo ministro, Renato Janine Ribeiro, possa encaminhar algo auspicioso na área educacional?

Roberto Leher: Renato Janine conhece determinadas particularidades da vida universitária, o que é bom, pois o diálogo pode ser mais qualificado com os reitores e demais dirigentes da educação. Entretanto, ainda não ficou claro qual será a sua autonomia no MEC e, mais amplamente, nas políticas governamentais. O documento da SAE expressou uma fragilidade do MEC. Mas a disposição do MEC de seguir uma política mais consequente ainda é incerta.

Sem uma visão estratégica mais ampla sobre a necessidade de o MEC apoiar as suas universidades de modo efetivo, redimensionando os recursos de custeio e capital, e de buscar formas para fortalecer o padrão unitário de qualidade na educação básica, ficaremos estagnados na agenda educacional destrutiva que está em curso no país. Entregar a educação aos setores dominantes e às corporações comprometerá toda uma geração de jovens, um desastre.

Correio da Cidadania: Para além das universidades federais, o país vem presenciando greves de professores nos níveis estadual e municipal, muitas delas bastante combativas, outras bem prolongadas, como são os casos de São Paulo e Paraná. E elas têm surgido a partir de novos elementos, sem anuência ou até existência do sindicato representativo. O que pensa desses novos formatos e do futuro do sindicalismo brasileiro tradicional?

Roberto Leher: Os trabalhadores da educação básica vêm protagonizando lutas muito relevantes desde 2011. Essas lutas acontecem em todo país, mas ainda carecem de espaços comuns de articulação, como poderia ser o Encontro Nacional de Educação, realizado em 2014 e, infelizmente, com novo evento nacional em 2016. Essas greves rompem com a agenda estritamente econômico-corporativa, abordando temas como avaliação, a dita meritocracia, os materiais pedagógicos impostos pelas corporações etc.

São lutas com forte participação de jovens trabalhadores e isso tem acentuado características importantes, como a crítica ao sindicalismo mais acomodado, ou mesmo burocratizado. Reivindicam participação mais direta da base, o que os torna movimentos mais impetuosos. No entanto, o grosso da pauta da educação brasileira não pode estar dirigida aos municípios e estados, ainda cruciais, mas sem poder de alterar a ordem de grandeza das verbas públicas para 10% do PIB, exclusivamente para a educação pública.

Essa agenda geral é decisiva. Ao mesmo tempo, é preciso ampliar os debates sobre o sentido da educação para o socialismo e no socialismo a que nos instou Florestan Fernandes. A educação pública não pode seguir tolhida pela agenda particularista do capital, dos governos e das igrejas.


Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Friday, 6 March 2015

Água destinada a empresas pela Sabesp aumenta 92 vezes em 10 anos


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http://apublica.org/2015/03/agua-destinada-a-empresas-pela-sabesp-aumenta-92-vezes/

Água destinada a empresas pela Sabesp aumenta 92 vezes em 10 anos


O volume de água garantido a empresas que assinaram contratos de demanda firme com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) aumentou 92 vezes em dez anos. Segundo dados revelados a partir do pedido de acesso à informação feito pela Pública, em 2005 foram reservados 266 milhões de litros para oito clientes. Em 2014 foram 24 bilhões de litros, destinados a 526 grandes consumidores. Os contratos estabelecem uma tarifa reduzida para aqueles que se comprometerem a pagar por um determinado volume mensal mínimo.

Infográfico-8

Os 24 bilhões de litros que a Sabesp reservou para empresas no ano passado são equivalentes ao consumo de 404.040 pessoas em um ano, ou 101 mil famílias. O cálculo leva em conta o consumo médio de 166,3 litros por dia de cada brasileiro, identificado em 2013 pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades. É uma população um pouco maior do que a da cidade de Jundiaí (397.965 habitantes), de acordo com a estimativa populacional para 2014 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Outros grandes clientes, que assinaram seus contratos antes de 2005, estão fora dessa estimativa por não constarem na tabela.
Infografico-6
A quantidade de empresas que assinaram contratos de demanda firme com a Sabesp aumentou rapidamente a partir de 2007. Entre 2005 e 2007, a companhia conseguiu 23 clientes. Na época, era necessário pagar por pelo menos 5 milhões de litros mensais. Com o objetivo de aumentar o número de consumidores, esse limite foi baixado para 3 milhões de litros mensais em 2007. A medida resultou em 40 assinaturas de contrato só em 2008, quase o dobro da soma dos três anos anteriores.
Em 2010, a Sabesp baixou o volume mínimo para 500 mil litros, com a anuência da Arsesp, a Agência Reguladora do Saneamento e Energia do Estado de São Paulo. Isso levou o número de novos contratos a disparar em 2011 e 2012, com 106 e 129 assinaturas, respectivamente. Houve retração em 2013 (69 clientes), mas os contratos continuaram a ser renovados.
Consequência da política adotada, uma característica do sistema é a concentração do uso. Em 2014, as 10 empresas que mais consumiram água foram responsáveis por uma demanda de 5 bilhões de litros. Juntas, essas 10 empresas consumiram mais que outras 367 empresas com menor consumo.  Esses dados revelam uma concentração no consumo de água. O gasto de 1% das empresas mais consumidoras é equivalente ao gasto de 60% das empresas que menos consomem.
Infografico-3

Mesmo com crise, 30 contratos foram assinados desde março de 2014

Ainda se sabe muito pouco sobre os controversos contratos de demanda firme, que estão no centro do debate sobre a gestão da Sabesp sobre os recursos hídricos do estado. A companhia se nega a dar detalhes, chegando a descumprir uma determinação do Corregedor Geral da Administração Gustavo Ungaro para que divulgasse a íntegra dos contratos (saiba mais).
Porém, os dados parciais obtidos pela Pública após a decisão de Ungaro são eloquentes. Revelam, por exemplo, que a Sabesp não deixou de assinar tais contratos no ano passado, como informou ao jornal Estado de S Paulo. Foram 42 contratos assinados em 2014, 30 deles a partir de março. Juntos, eles se referem ao consumo de 1,8 bilhão de litros de água e foram os maiores responsáveis pelo aumento de 5,4% no consumo anual de água reservado a empresas com desconto nos preços.

Infografico-2
Em março, quando a crise no abastecimento de água já era uma realidade, a Sabesp suspendeu duas condicionantes importantes desse tipo de contrato: a exigência de que as empresas consumam um volume mínimo de água por mês (elas eram obrigadas a pagar por esse mínimo, usassem ou não a água) e de que se “fidelizassem” ao sistema Sabesp, abandonando o investimento em reuso ou em fontes alternativas de água. “Acreditamos que este esquema de tarifas ajudará a impedir que nossos clientes comerciais e industriais optem por passar a recorrer ao uso de poços privados”, explicou a companhia no último relatório a investidores.
Todos os contratos assinados a partir de março, porém, mantiveram os descontos que resultaram em tarifas menores do que as cobradas de clientes comerciais e industriais que não possuem esses acordos. Entre eles, dois contratos com vigência de 5 anos para fornecimento de 20 milhões de litros mensais: assinados em 30 de abril e em 11 de agosto. Em novembro, quando a presidente da Sabesp já havia reconhecido a severidade da crise no abastecimento de água em depoimento à CPI da Câmara Municipal de São Paulo, foram assinados três novos contratos. O maior deles, para o fornecimento de 3,8 milhões de litros de água por mês, com vigência de 5 anos, foi assinado logo no dia primeiro de novembro. O valor do contrato é de R$ 4,4 milhões. Outro contrato, de R$ 145 mil para o fornecimento de 1 milhão e 100 mil litros de água, foi assinado no dia 5/11; e o último foi no dia 11/11, para o fornecimento de 500 mil litros de água, no valor de R$ 140 mil.
Além dos novos contratos, a Sabesp renovou todos os cerca de 500 contratos que já existiam – a maioria deles tem vigência de um ano. São tão vantajosos para as empresas que, segundo os dados obtidos, apenas uma delas suspendeu o contrato desde 2005. A quantidade de água usada, no geral, por esses consumidores desde 2005 jamais deixou de aumentar.

Consumo em alta

Apesar da falta de água nas casas dos paulistas, 41% das 526 empresas com contratos de demanda firme tiveram o mês de mais alto consumo registrado em 2014. A empresa recordista no ano passado gastou 126 milhões de litros em abril, o triplo do volume mínimo requerido pela Sabesp.
O maior contrato de demanda firme assinado pela Sabesp entre 2005 e 2014 é de R$ 40,3 milhões, pelo fornecimento de 54 milhões de litros mensais. O documento foi firmado em 1º de junho de 2011 e cobre um período de dez anos, ou seja, vai até 2021. Já o contrato com maior quantidade de água reservada para uma empresa, 59,5 milhões de litros mensais, com vigência anual, tem valor de R$ 2,4 milhões. Foi assinado em 18 de dezembro de 2006. Nenhum dos dois foi descontinuado.
Dentre os contratos assinados nos últimos dez anos, as dez maiores consumidoras, juntas, usaram 25,2 bilhões de litros de água. A maior parte dos contratos foi assinada a partir de 2008, e a tendência foi de aumento de consumo a cada ano, como se vê no gráfico abaixo. Em 2014, seis das dez empresas reduziram seu consumo de água após a suspensão da obrigatoriedade de consumir uma quantidade mínima de água – prova que a “demanda firme” de fato alavancava o consumo.
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assinatura
Considerando o valor do contrato dividido pela água disponibilizada por mês, as tarifas dos dez maiores consumidores vão de R$ 3,43 a R$ 10,35. Mas nem sempre é possível descobrir a tarifa aplicada a cada empresa. Isso ocorre porque o preço do metro cúbico é calculado a partir de uma fórmula matemática, que leva em conta a média consumida nos doze meses anteriores pelo cliente – dado que só está disponível nos contratos, que não foram fornecidos pela companhia. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Sabesp afirmou apenas que “cada contrato tem sua característica própria” e “as informações são confidenciais”.
Segundo reportagem do El País, entre os maiores consumidores da capital paulista estão empresas como os shoppings Eldorado, Pátio Higienópolis e Villa Lobos, a TV Globo e os clubes Pinheiros e Hebraica, que recebem um desconto de 55% no valor pago por cada mil litros de água (R$ 6,27), enquanto o clientes comerciais pagam R$ 13,97 a cada mil litros.
Não foi possível, ainda, descobrir a identidade das empresas que mantêm esses contratos a partir de uma comparação com a tabela publicada pelo jornal espanhol. Os volumes de demanda firme contratados por mês são completamente diferentes em cada um dos documentos. Há também uma diferença no número de consumidores com contratos assinados a partir de 23 de junho de 2010. Na tabela do El País, são 294. Na que foi enviada para a Pública, 404 contratos.
Os dados usados nesta reportagem – baixe a tabela completa aqui –  foram obtidos através de um pedido feito pela Lei de Acesso à Informação em dezembro do ano passado. Falta, ainda, a divulgação dos contratos segundo decisão do Corregedor Geral da Administração Gustavo Ungaro. Agora, aAgência Pública vai recorrer à Comissão Estadual de Acesso à Informação.
 Como é um contrato de demanda firme
Em vez de divulgar os contratos assinados com empresas, a Sabesp enviou à reportagem um modelo de contrato de demanda firme. Uma rápida leitura permite ver como esses contratos impulsionaram o consumo de água tratada da Sabesp nos últimos anos.
Uma das cláusulas deixa claro que as empresas teriam que abandonar qualquer busca por fontes alternativas ou complementares de água, se quisessem obter os descontos dados pela Sabesp: “Os imóveis que são abastecidos por fontes alternativas não se beneficiarão das condições deste contrato”.
A conta é cobrada da seguinte maneira: a água utilizada é faturada através de medidor. Essa fatura é enviada à empresa, que paga o valor. Porém, explica o contrato “Quando o volume medido for inferior ao contratado, será faturada a demanda contratada”. Isso é feito através de uma “conta mensal complementar”, paga no mês seguinte.
O contrato determina ainda uma sanção para quem usar menos água do que o previsto. “A unidade usuária que apresentar consumo de água e/ou coleta mensal inferior a 500m³/mês, por três meses consecutivos, será excluída do contrato”, diz o documento.
Assim, usando ou não o valor mínimo de água acordado, a empresa pagava por esse volume. Isso, até março do ano passado, quando essa exigência foi suspensa pela Sabesp.
No caso do esgoto, o contrato estabelece que “onde o esgoto for caracterizado como não doméstico, incidirá a cobrança de carga poluidora, com aplicação de fator K, sobre a tarifa contratada de esgotos”.

Friday, 9 January 2015

O piso salarial do magistério e os limites do possível

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http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538781-o-piso-salarial-do-magisterio-e-os-limites-do-possivel


O piso salarial do magistério e os limites do possível

"Se a política pública de educação é mesmo prioritária para o país, como se depreende até do percentual de aplicação de 25% da receita resultante de impostos por parte da União, e 18% por parte dos Estados (...)", escreve, Jacques Távora Alfonsin, advogado do MST, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.
Eis o artigo.
O piso salarial das/os professoras/es do Brasil foi fixado este ano em R$1.917,78, um valor bem inferior à metade (!) do que recebe um/a juiz/a só de “auxílio moradia”, hoje subindo a R$, 4.377,77. Tomados os salários de dezembro de 2014, esse piso é 15 (!) vezes inferior ao de um/a ministra/o do Supremo Tribunal Federal, que, naquele mês, ganhava R$29.462,25 e 13 vezes inferior ao de um deputado federal, cujos vencimentos chegavam a R$26.723,13.
Para explicar a histórica desconsideração dessa desigualdade gritante e o determinado pela lei a respeito desse piso, alguns Estados da Federação se defendem com dois argumentos, principalmente: o dos “limites do possível”, ou seja, as previsões orçamentárias de aplicação dos dinheiros públicos não permitem o pagamento do piso nos valores estabelecidos pela União, e o do “contingenciamento de verbas”, onde se mede a execução orçamentária em curso comprometida em pagar dívidas públicas já vencidas ou na iminência de vencer, atender emergências imprevistas, resultantes de catástrofes naturais ou derivadas de crises econômicas “próprias do mercado”, falências, inadimplências mais ou menos generalizadas.
Essa argumentação aparentemente séria e incontestável não resiste a uma simples comparação entre os salários permanentemente achatados das/os professoras/es e a remuneração paga às chamadas “carreiras jurídicas” do Poder Público. Ela arrisca passar até por insinsera e simplória, pois, quando se trata de aumentar, ano após ano, os salários das/os integrantes daquelas carreiras e dos deputados, dos cargos públicos do primeiro escalão do Poder Executivo, nenhuma lembrança se faz a qualquer limite do possível ou contingenciamento de verbas.
Vítimas dessa desigualdade, é raro o ano letivo que não sacrifica as férias das/os professoras/es, em função dos dias em que, reivindicando seus direitos, fazem greve.
Se a política pública de educação é mesmo prioritária para o país, como se depreende até do percentual de aplicação de 25% da receita resultante de impostos por parte da União, e 18% por parte dos Estados, reservados para ela, conforme determina o art. 212 da Constituição Federal, uma das prioridades para isso efetivamente acontecer é remunerar bem o magistério, passe o óbvio.
Isso ficou provado quando, em 2006, uma emenda constitucional de nº 53 modificou o art. 206, acrescentando-lhe um inciso (VIII) e um parágrafo único. O inciso tem a seguinte redação: “206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: ... VIII – piso salarial profissional nacional, para os profissionais da educação pública, nos termos de lei federal.”
A lei referida foi promulgada em 16 de julho de 2008, é de nº 11.738 e, em seu art. 2º já antecipava o valor de R$950,00, para o piso, naquela época. O hoje senador Cristovam Buarque, ex-reitor da UNB, demonstrou, em números, em estudo publicado ainda em 1999 (A segunda Abolição, São Paulo: Paz e Terra), a chance de o país viver uma verdadeira revolução em matéria de boa aplicação das receitas públicas.
Obedecidas que fossem determinadas prioridades, em matéria de política pública de educação - gestões administrativas menos presas em burocracias e mais em co-participação das comunidades - percentuais pouco significativos das receitas públicas destinadas à tal política poderiam atender demandas as mais variadas, sendo suficiente desde que tais prioridades,inclusive orçamentárias evidentemente, respeitassem tais prioridades.
Para isso, todavia, considerava ele necessária, além de uma remuneração digna das/os professoras/es, uma forte motivação delas/es para um empenho dessa magnitude, o de colocar a educação e as/os professoras/es como próprio motor da erradicação da pobreza:
“A mais difícil tarefa da luta contra a pobreza é motivação dos professores para serem os vetores dessa revolução. O Brasilmontou sua mania de economia prestigiando os engenheiros, economistas, metalúrgicos, desprezando os seus professores. Uma revolução nas prioridades para erradicar a pobreza (grifos do autor), contando com a educação como motor, terá que inverter o objeto deste prestígio. Para lutar contra a pobreza, o herói brasileiro terá que ser o professor. Como no crescimento econômico os heróis foram os economistas, os engenheiros e os metalúrgicos.”
Mesmo que se possa questionar os resultados sociais desse “crescimento”, em 1999 quando o estudo referido foi publicado, a prestação de serviço do/a professor/a ganhou nessa lição um relevo extraordinário e merecido.
Num sistema socioeconômico como o nosso, porém, onde o interesse e o direito individual, para não se dizer o egoísmo, ficam sempre acima de tudo, a maioria dos pais e mães das crianças desta geração, atualmente disputando matriculadas em milhares de escolas do país, consideram os salários das/os professoras/es como um problema completamente alheio às suas vidas. Isso não os/as impede de vigiar de perto a excelência da “qualidade do ensino”; se está conseguindo alcançar um nível de excelência para preparar suas/seus filhas/os ao ponto de competirem no “mercado de trabalho”.
O que há de obsceno nessa expressão tida como natural, capaz de fazer do serviço público prestado por um/a professor/a uma reles mercadoria, explica perfeitamente o pouco valor atribuído pela nossa sociedade a uma prestação de serviço dessa necessidade e grandeza. Ele corre o risco de ser puramente instrumentalizado para largar no mundo robôs desconfiados e agressivos muito hábeis em competir, sem outro objetivo que não o de ganhar dinheiro, passar quem quer que seja “para trás”, saber enganar, tratar a/o próxima/o como um/a adversária/o ou até inimiga/o a ser vencida/o, lidar com tablets, computadores e celulares com muita competência, mas infelizes idiotas em relacionamento humano afetivo e moral. Justiça social, solidariedade, gentileza e amor com o povo pobre nem pensar, pois ele mesmo é que não foi capaz de competir.
Não anda por aí a lição do senador Cristovam. A mudança de objetivo da política de educação e dos trabalhos profissionais do magistério, reféns do mercado, para a erradicação da pobreza, constitui, realmente, uma revolução.
No dia em que os pais e as mães das/os estudantes brasileiras/os se conscientizarem de que podem fazer essa mudança, empoderando os protestos públicos dos sindicatos de professoras/es, enchendo os endereços eletrônicos das autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, aliando-se aos Conselhos e às ONGs de defesa dos direitos humanos, explorando massivamente as redes sociais, exigindo audiências públicas de questionamento das prioridades de aplicação dos dinheiros públicos, transformarão aqueles direitos em poderes de pressão política suficientes para garantir às/aos suas/seus filhas/os, à sociedade como um todo e ao próprio Estado, a realização do previsto em parte do preâmbulo da nossa Constituição:
“...instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...”

Tuesday, 2 September 2014

Para medir a riqueza, é preciso ir além do PIB

climacom
http://climacom.mudancasclimaticas.net/?p=477

Para medir a riqueza, é preciso ir além do PIB

Já se foi o tempo em que bastava o PIB para se medir o desenvolvimento econômico de um país. Indicadores socioeconômicos têm se sofisticado e englobado cada vez mais variáveis nas últimas décadas, como, por exemplo, índices ambientais. Especialistas avaliam, sob diferentes pontos de vista, algo sobre o impacto destes números no planejamento de políticas públicas, inclusive para o meio ambiente.

Por: Meghie Rodrigues
Colaboradores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) se reuniram no dia 18 de maio, na Malásia, em um simpósio da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Além do Produto Interno Bruto (PIB) – Transicionando para a Sustentabilidade”. A intenção foi discutir uma tendência em pesquisas socioeconômicas no mundo inteiro: o valor imaterial como indicador de progresso social de um país.
Em uma reportagem publicada na ocasião do simpósio, o jornal britânico The Independent ressaltou, entre as possibilidades apontadas no encontro, que a soma das máquinas de lavar de uma localidade poderia servir com um indicador da quantidade de casas com acesso à água encanada e energia elétrica. Ou ainda, que número e o som de pássaros na cidade indicariam a presença de biodiversidade em um local.
Incorporando cada vez mais medidas não-monetárias, essa nova geração de indicadores são uma evolução do tradicional Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que cruza PIB per capita, expectativa de vida e níveis de educação. Um exemplo é o Better Life Index, idealizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e que agrega onze variáveis consideradas essenciais para medir a qualidade de vida de um país. Além de saúde, educação, salários e segurança, o indicador observa também equilíbrio entre vida pessoal e profissional, engajamento cívico e cuidado com o meio ambiente. Dos 36 países analisados, o Brasil se encontra em 32o lugar no ranking geral, à frente apenas de Rússia, Grécia, México e Turquia.
Outro exemplo é o Social Progress Index, publicado no início de abril. Pensado pela ONG norte-americana Social Progress Imperative, o índice agrega 54 indicadores sociais e ambientais divididos em três grandes áreas: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidade em 132 países (ranking no qual o Brasil está em 46o lugar) – segundo a ONG, os de onde foi possível extrair dados para compor o índice.
Para o economista da Universidade Federal do Paraná Flávio Gonçalves, o documento em questão “não é exatamente um índice, mas um relatório”. Para ele, tantas variáveis analisadas acabam por diluir o foco do documento, junto com o que se quer realmente medir. “Isso não ajuda muito na hora de elaborar políticas públicas”, diz. Ele observa que é para a elaboração de políticas que os índices existem. Mas para ser eficazes, precisam ter um foco mais específico, já que esse foco facilita a localizar o problema que se quer resolver.
Ademar Romeiro, economista da Universidade Estadual de Campinas, discorda. “Estes indicadores servem não apenas como balizadores de política, mas também de instrumentos de conscientização”, diz. Conscientização que pode ser também ambiental, já que estes indicadores englobam a qualidade de preservação do meio ambiente entre suas variáveis. “Há economistas ambientais que dizem que o PIB soma o que deveria subtrair. Se você investe em um sistema de filtragem do ar na sua casa por causa da poluição, isto é um gasto defensivo que deveria entrar negativamente, e não positivamente, para o PIB”, explica Romeiro.
A partir daí, foram criados vários índices que se debruçam exclusivamente sobre o tema, como o Environmental Sustainability Index, encabeçado pela Universidade de Columbia, ou os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, idealizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Gonçalves lembra, no entanto, que, a fim de se ter um foco mais preciso sobre os reais problemas, é preciso, além da diminuição de variáveis analisadas por relatório, que a metodologia funcione sob medida para cada país ou região analisada. As necessidades de cada população difere no tempo e no espaço. “Dizer que todas as sociedades podem ser representadas pelo mesmo agente é algo muito forte”, pondera. Romeiro, por outro lado, não vê problemas na abrangência destes índices e considera que “a consequência em termos de políticas vai depender de como a democracia funciona em cada país, de como os governantes são responsabilizados ou de como a população pressiona seus governos. Depende da vitalidade da sociedade civil de cada país”.
Colaboradores do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) se reuniram no dia 18 de maio, na Malásia, em um simpósio da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Além do Produto Interno Bruto (PIB) – Transicionando para a Sustentabilidade”. A intenção foi discutir uma tendência em pesquisas socioeconômicas no mundo inteiro: o valor imaterial como indicador de progresso social de um país.
Em uma reportagem publicada na ocasião do simpósio, o jornal britânico The Independent ressaltou, entre as possibilidades apontadas no encontro, que a soma das máquinas de lavar de uma localidade poderia servir com um indicador da quantidade de casas com acesso à água encanada e energia elétrica. Ou ainda, que número e o som de pássaros na cidade indicariam a presença de biodiversidade em um local.
Incorporando cada vez mais medidas não-monetárias, essa nova geração de indicadores são uma evolução do tradicional Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que cruza PIB per capita, expectativa de vida e níveis de educação. Um exemplo é o Better Life Index, idealizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e que agrega onze variáveis consideradas essenciais para medir a qualidade de vida de um país. Além de saúde, educação, salários e segurança, o indicador observa também equilíbrio entre vida pessoal e profissional, engajamento cívico e cuidado com o meio ambiente. Dos 36 países analisados, o Brasil se encontra em 32o lugar no ranking geral, à frente apenas de Rússia, Grécia, México e Turquia.
Outro exemplo é o Social Progress Index, publicado no início de abril. Pensado pela ONG norte-americana Social Progress Imperative, o índice agrega 54 indicadores sociais e ambientais divididos em três grandes áreas: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidade em 132 países (ranking no qual o Brasil está em 46o lugar) – segundo a ONG, os de onde foi possível extrair dados para compor o índice.
Para o economista da Universidade Federal do Paraná Flávio Gonçalves, o documento em questão “não é exatamente um índice, mas um relatório”. Para ele, tantas variáveis analisadas acabam por diluir o foco do documento, junto com o que se quer realmente medir. “Isso não ajuda muito na hora de elaborar políticas públicas”, diz. Ele observa que é para a elaboração de políticas que os índices existem. Mas para ser eficazes, precisam ter um foco mais específico, já que esse foco facilita a localizar o problema que se quer resolver.
Ademar Romeiro, economista da Universidade Estadual de Campinas, discorda. “Estes indicadores servem não apenas como balizadores de política, mas também de instrumentos de conscientização”, diz. Conscientização que pode ser também ambiental, já que estes indicadores englobam a qualidade de preservação do meio ambiente entre suas variáveis. “Há economistas ambientais que dizem que o PIB soma o que deveria subtrair. Se você investe em um sistema de filtragem do ar na sua casa por causa da poluição, isto é um gasto defensivo que deveria entrar negativamente, e não positivamente, para o PIB”, explica Romeiro.
A partir daí, foram criados vários índices que se debruçam exclusivamente sobre o tema, como o Environmental Sustainability Index, encabeçado pela Universidade de Columbia, ou os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, idealizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Gonçalves lembra, no entanto, que, a fim de se ter um foco mais preciso sobre os reais problemas, é preciso, além da diminuição de variáveis analisadas por relatório, que a metodologia funcione sob medida para cada país ou região analisada. As necessidades de cada população difere no tempo e no espaço. “Dizer que todas as sociedades podem ser representadas pelo mesmo agente é algo muito forte”, pondera. Romeiro, por outro lado, não vê problemas na abrangência destes índices e considera que “a consequência em termos de políticas vai depender de como a democracia funciona em cada país, de como os governantes são responsabilizados ou de como a população pressiona seus governos. Depende da vitalidade da sociedade civil de cada país”.

Sunday, 13 July 2014

Buddhist Economics: How to Stop Prioritizing Goods Over People and Consumption Over Creative Activity

brain pickings
http://www.brainpickings.org/index.php/2014/07/07/buddhist-economics-schumacher/


Buddhist Economics: How to Stop Prioritizing Goods Over People and Consumption Over Creative Activity

by 
“Work and leisure are complementary parts of the same living process and cannot be separated without destroying the joy of work and the bliss of leisure.”
Much has been said about the difference between money and wealth and how we, as individuals, can make more of the latter, but the divergence between the two is arguably even more important the larger scale of nations and the global economy. What does it really mean to create wealth for people — for humanity — as opposed to money for governments and corporations?
That’s precisely what the influential German-born British economist, statistician, Rhodes Scholar, and economic theorist E. F. Schumacher explores in his seminal 1973 book Small Is Beautiful: Economics as if People Mattered (public library) — a magnificent collection of essays at the intersection of economics, ethics, and environmental awareness, which earned Schumacher the prestigious Prix Européen de l’Essai Charles Veillon award and was deemed by The Times Literary Supplement one of the 100 most important books published since WWII. Sharing an ideological kinship with such influential minds as Tolstoy and Gandhi, Schumacher’s is a masterwork of intelligent counterculture, applying history’s deepest, most timeless wisdom to the most pressing issues of modern life in an effort to educate, elevate and enlighten.
One of the most compelling essays in the book, titled “Buddhist Economics,” applies spiritual principles and moral purpose to the question of wealth. Writing around the same time that Alan Watts considered the subject, Schumacher begins:
“Right Livelihood” is one of the requirements of the Buddha’s Noble Eightfold Path. It is clear, therefore, that there must be such a thing as Buddhist economics.
[…]
Spiritual health and material well-being are not enemies: they are natural allies.
Traditional Western economics, Schumacher argues, is bedeviled by a self-righteousness of sorts that blinds us to this fact — a fundamental fallacy that considers “goods as more important than people and consumption as more important than creative activity.” He writes:
Economists themselves, like most specialists, normally suffer from a kind of metaphysical blindness, assuming that theirs is a science of absolute and invariable truths, without any presuppositions. Some go as far as to claim that economic laws are as free from “metaphysics” or “values” as the law of gravitations.
From this stems our chronic desire to avoid work and the difficulty of findingtruly fulfilling work that aligns with our sense of purpose. Schumacher paints the backdrop for the modern malady of overwork:
There is universal agreement that a fundamental source of wealth is human labor. Now, the modern economist has been brought up to consider “labor” or work as little more than a necessary evil. From the point of view of the employer, it is in any case simply an item of cost, to be reduced to a minimum if it cannot be eliminated altogether, say, by automation. From the point of view of the workman, it is a “disutility”; to work is to make a sacrifice of one’s leisure and comfort, and wages are a kind of compensation for the sacrifice. Hence the ideal from the point of view of the employer is to have output without employees, and the ideal from the point of view of the employee is to have income without employment.
The consequences of these attitudes both in theory and in practice are, of course, extremely far-reaching. If the ideal with regard to work is to get rid of it, every method that “reduces the work load” is a good thing. The most potent method, short of automation, is the so-called “division of labor”… Here it is not a matter of ordinary specialization, which mankind has practiced from time immemorial, but of dividing up every complete process of production into minute parts, so that the final product can be produced at great speed without anyone having had to contribute more than a totally insignificant and, in most cases, unskilled movement of his limbs.
Schumacher contrasts this with the Buddhist perspective:
The Buddhist point of view takes the function of work to be at least threefold: to give a man a chance to utilize and develop his faculties; to enable him to overcome his ego-centeredness by joining with other people in a common task; and to bring forth the goods and services needed for a becoming existence. Again, the consequences that flow from this view are endless. To organize work in such a manner that it becomes meaningless, boring, stultifying, or nerve-racking for the worker would be little short of criminal; it would indicate a greater concern with goods than with people, an evil lack of compassion and a soul-destroying degree of attachment to the most primitive side of this worldly existence. Equally, to strive for leisure as an alternative to work would be considered a complete misunderstanding of one of the basic truths of human existence, namely that work and leisure are complementary parts of the same living process and cannot be separated without destroying the joy of work and the bliss of leisure.
From the Buddhist point of view, there are therefore two types of mechanization which must be clearly distinguished: one that enhances a man’s skill and power and one that turns the work of man over to a mechanical slave, leaving man in a position of having to serve the slave.
E.F. Schumacher
With an undertone of Gandhi’s timeless words, Schumacher writes:
Buddhist economics must be very different from the economics of modern materialism, since the Buddhist sees the essence of civilization not in a multiplication of wants but in the purification of human character. Character, at the same time, is formed primarily by a man’s work. And work, properly conducted in conditions of human dignity and freedom, blesses those who do it and equally their products.
But Schumacher takes care to point out that the Buddhist disposition, rather than a condemnation of the material world, is a more fluid integration with it:
While the materialist is mainly interested in goods, the Buddhist is mainly interested in liberation. But Buddhism is “The Middle Way” and therefore in no way antagonistic to physical well-being. It is not wealth that stands in the way of liberation but the attachment to wealth; not the enjoyment of pleasurable things but the craving for them. The keynote of Buddhist economics, therefore, is simplicity and non-violence. From an economist’s point of view, the marvel of the Buddhist way of life is the utter rationality of its pattern — amazingly small means leading to extraordinarily satisfactory results.
This concept, Schumacher argues, is extremely difficult for an economist from a consumerist culture to grasp as we once again bump up against the warped Western prioritization of productivity over presence:
[The modern Western economist] is used to measuring the “standard of living” by the amount of annual consumption, assuming all the time that a man who consumes more is “better off” than a man who consumes less. A Buddhist economist would consider this approach excessively irrational: since consumption is merely a means to human well-being, the aim should be to obtain the maximum of well-being with the minimum of consumption.
[…]
The ownership and the consumption of goods is a means to an end, and Buddhist economics is the systematic study of how to attain given ends with the minimum means.
[Western] economics, on the other hand, considers consumption to be the sole end and purpose of all economic activity, taking the factors of production — land, labor, and capital — as the means. The former, in short, tries to maximize human satisfactions by the optimal pattern of consumption, while the latter tries to maximize consumption by the optimal pattern of productive effort.
This maximization of “human satisfactions,” Schumacher argues, is rooted in two intimately related Buddhist concepts — simplicity and non-violence:
The optimal pattern of consumption, producing a high degree of human satisfaction by means of a relatively low rate of consumption, allows people to live without great pressure and strain and to fulfill the primary injunctions of Buddhist teaching: “Cease to do evil; try to do good.” As physical resources are everywhere limited, people satisfying their needs by means of a modest use of resources are obviously less likely to be at each other’s throats than people depending upon a high rate of use. Equally, people who live in highly self-sufficient local communities are less likely to get involved in large-scale violence than people whose existence depends on worldwide systems of trade.
Writing shortly after Rachel Carson’s Silent Spring sparked the modern environmental movement, Schumacher presages the modern groundswell of advocacy for sustainable locally sourced products:
From the point of view of Buddhist economics … production from local resources for local needs is the most rational way of economic life, while dependence on imports from afar and the consequent need to produce for export to unknown and distant peoples is highly uneconomic and justifiable only in exceptional cases and on a small scale.
He concludes by framing the enduring value of a Buddhist approach to economics, undoubtedly even more urgently needed today than it was in 1973:
It is in the light of both immediate experience and long-term prospects that the study of Buddhist economics could be recommended even to those who believe that economic growth is more important than any spiritual or religious values. For it is not a question of choosing between “modern growth” and “traditional stagnation.” It is a question of finding the right path to development, the Middle Way between materialist heedlessness and traditionalist immobility, in short, of finding “Right Livelihood.”
Small Is Beautiful is a superb read in its entirety. Complement it with Kurt Vonnegut on having enough and Thoreau on redefining success.
Thanks, Jocelyn