Saturday, 10 September 2011

água e arquitetura fenomenológica

fonte: 
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.125/3541

125.07ano 11, out 2010

O sujeito fenomenológico na arquitetura do H2O expo
Marcela Alves de Almeida


Foto divulgação

Este texto traz uma interpretação do edifício H2O expo, através da fenomenologia da percepção. Consideramos esta obra dos arquitetos holandeses NOX expressiva na produção do grupo no que diz respeito à experiência fenomenológica da arquitetura. Este é um projeto que utiliza vários recursos que possibilitam a imersão do sujeito em um espaço em constante emergência.

Não se trata de uma descrição de nossa experiência do edifício. Pretendemos ensaiar aqui, principalmente, paralelos dos textos estéticos do filósofo Merleau-Ponty com a descrição que o NOX faz de sua obra. Estes textos trazem considerações sobre o trabalho do artista de maneira poética, e nos ajudam a entender como se relaciona o fazer do artista com a fenomenologia.

Além disso, colocaremos em questão como o uso da virtualidade agregada ao objeto arquitetônico pode potencializar este processo de presentificação no mundo, trazendo os conceitos da fenomenologia para iluminar o entendimento dos processos que a tecnologia traz para a experiência do sujeito. Exploraremos esta questão trabalhando principalmente com os conceitos de simulação e representação. A virtualidade não será tratada através da metafísica, pois ela tem falhado no estabelecimento de uma correspondência física do sujeito com o objeto, como nos diz o arquiteto Lars Spuybroek (1).


O edifício

O grupo NOX não produz somente arquitetura, mas também, interiores, objetos, instalações, vídeos e textos. Contudo, concentramos nosso estudo em apenas um edifício, pois como já dissemos, é uma obra que permite uma aproximação com a fenomenologia.

O H2O expo é um pavilhão de experiência aquática e uma instalação interativa para ‘WaterLand’, uma associação privado-público com o Ministério do Transporte holandês, Obras públicas e Gestão da água. Situado na ilha de Neeltje Jans de 1993 a 1997. O pavilhão difere de museus tradicionais, já que nele, imagens e sons são produzidos e mudam constantemente de acordo com as ações dos usuários que podem interagir com o edifício. No H2O expo a interatividade “não significa meramente que o edifício é um ambiente de atmosferas em transformação através de intervenções eletrônicas, mas uma arquitetura que se transforma” (2).

A primeira parte do edifício é inundada com água, no centro há um poço de grandes proporções que cria um horizonte interno do espaço; e a terceira parte possui nascentes que borrifam água, iluminadas estroboscópicamente (figuras 1, 2 e 3) (3).

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Todo edifício é equipado com sensores – táteis, de luz e de preensão – que fazem a interface dos usuários com o edifício. Assim, projeções em tempo real surgem de acordo com as ações dos usuários. O sistema de interação responde aos vários tipos de visitantes de maneiras específicas. As projeções são diferentes em função dos grupos que podem ser grandes ou pequenos, ativos ou passivos, crianças ou adultos.

Observamos então que todo o espaço do edifício se encontra em constante modificação. O arquiteto não projetou o edifício como um objeto acabado. Deste modo, não existe um a priori que possa ser apreendido antes da experiência. É de acordo com a interação que o edifício se constitui.

A percepção do sujeito e a obra constituem um todo que é inseparável. O corpo do usuário está lançado ao mundo como agente de construção do espaço. “O sujeito fenomenológico, ao mesmo tempo que é parte constituinte desse espaço, constitui-se ao interagir com ele” (4). Não há a distinção entre sujeito e objeto, os dois juntos conformam uma unidade intrincada de relações e significados.

Podemos dizer, então, que neste edifício a intencionalidade fenomenológica se faz presente superando a separação entre o eu e o mundo. O conceito de intencionalidade é uma das bases do pensamento fenomenológico. Edmund Husserl, criador da fenomenologia, retoma este conceito de Brentano do qual foi aluno. A intencionalidade é entendida “aqui como a direção da consciência ao objeto, ao real, que é definidora da própria consciência e que será um dos conceitos-chave de sua teoria fenomenológica” (5). Para Husserl, consciência e objeto não se separam. A consciência é sempre consciência de algo. Para a fenomenologia não há nenhum ato intencional que não tenha um objeto. Isto é um princípio que difere a ontologia do sensível da metafísica. Na metafísica há a separação entre o objeto e o sujeito. Aquilo o que existe no mundo é distinto do que há na consciência. Já a fenomenologia de Husserl entende que só se pode ter pensamentos sobre aquilo que é experimentado. O filósofo denomina noese (6) como o ato de pensar, enquanto o objeto do pensamento é um noema.

Deste modo, as coisas são para o homem aquilo que ele constitui para si. Enquanto lugar da experiência, a arquitetura rompe os limites da objetividade espacial e entra no campo da subjetividade da experiência vivida, conformando uma unidade do sujeito com o objeto arquitetônico.

A fenomenologia não aceita mais o primado sujeito/objeto. O que há de fato são objetos- percebidos-no-mundo, e é somente isto que a nossa consciência pode conhecer. No H2O expo não há como formar uma ideia, no sentido metafísico, do objeto arquitetônico, pois ele não está pronto. É somente através da ação que o espaço se configura. Isto potencializa o estar presente no espaço, já que não se sabe exatamente em que ele se constituirá. Há uma emergência de comunhão contínua com o espaço. O sujeito, à medida que experimenta o espaço, obtém os perfis da realidade. “Nestas arquiteturas, o sujeito é parte constituinte da obra, uma vez que as ocorrências não estão predeterminadas e estão submetidas às atuações do sujeito no espaço. O objeto não pode ser apreendido por inteiro, porque não está realizado” (7).


Ação e percepção
Fica clara a intenção de conexão entre ação e percepção. Entendemos que esta é a principal motivação arquitetônica no desenvolvimento do projeto em questão. Para mostrar a inter-relação entre ação, percepção e construção, Lars Spuybroek no início de seu livro Machining Architecture, oferece um exemplo de uma experiência neurológica com filhotes de gatos (8), a fim de mostrar que a percepção pode ser afetada diretamente pela experiência corporal. Assim, dois gatos foram mantidos em uma espécie de carrossel (figura 4), sendo que um era capaz de andar, fazendo o carrossel girar enquanto o outro permanecia suspenso por uma gôndola. Quando os dois gatos foram soltos, aquele que caminhava conseguia se orientar, enquanto o outro, passivo, sofria de agnosia (9). Com este exemplo, o arquiteto conclui que a percepção depende da ação, e a ação é possível somente através da percepção. Mas, para que serve uma argumentação de um experimento em neurologia em um livro de arquitetura? E que relação podemos construir com a fenomenologia?
Parece-nos evidente que um pressuposto projetual para o NOX é a geração de possibilidades de percepção do espaço arquitetônico construído através da ação do usuário. Por isto, acreditamos que o arquiteto se baseia em um argumento científico, para refutar qualquer dúvida de que a ação e a percepção são inseparáveis. É um pensamento de validação de um argumento de maneira científica. Porém a fenomenologia da percepção já havia considerado que a percepção e a ação são inseparáveis. Mas, não pretendemos nos ater às comprovações científicas a este respeito. Interessa-nos sim mostrar que o arquiteto tem a intenção de projetar um edifício que não seja totalmente acabado, que seja completado e recompletado a cada instante.


O eixo da vertigem
Em A dúvida de Cézanne, texto de Merleau-Ponty, a pintura de Cézanne é o principal tema. Para Merleau-Ponty, o artista conseguia praticar a fenomenologia na pintura. Neste texto, o filósofo se propõe a aprender com o artista como se dá o ato intencional.

Cézanne, enquanto pintor, queria colocar em seus quadros aquilo que realmente via. Neste sentido, suas pinturas não representavam o mundo, mas era o próprio mundo como visto pelo pintor. “Sua pintura seria um paradoxo: buscar a realidade sem abandonar a sensação, sem tomar outro guia senão a natureza na impressão imediata, sem compor a perspectiva nem o quadro” (10). Deste modo, não encontramos nos quadros de Cézanne o sistema projetivo da perspectiva. O artista pinta com sua lateralidade e vê que o real é abundante e complexo. Logo, pinta a simultaneidade. Sua pintura expressava a angústia de querer pintar o instante inteiro.

Trazemos aqui este texto de Merleau-Ponty sobre Cézanne para traçar um paralelo com o pavilhão do H2O expo. Assim como Cézanne, acreditamos que o NOX está interessado em realizar na arquitetura aquilo que o pintor praticava em suas pinturas: uma vertigem de visadas que formam o campo que não é dado, mas experimentado. Fomos levados a pensar desta maneira, pois um dos elementos de grande importância no projeto é um poço de grandes proporções (figura 5). O arquiteto declara em seu texto que “o poço se torna outro tipo de horizonte um horizonte interno, não horizontal, mas vertical, no eixo da vertigem, da queda” (11). Através desta fala podemos perceber que o arquiteto tem um entendimento da percepção do espaço diferente do que estabelecemos como horizonte, e institui de fato o que é um horizonte interno construído por um elemento que intensifica a sensação de verticalidade.

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Pode ser que a intenção projetual seja apenas a de estabelecer uma desestabilização do campo da experiência com o intuito de torná-la intensa através da estranheza. Mas isto não era o que Cézanne fazia ao pintar? O artista queria expressar como a pintura não consegue sustentar a realidade e exprimir através dela como se dá a instituição de um momento. Cézanne percebia que não existia nenhuma sensação sem a consciência da sensação. Assim, ao vivenciar a sensação de vertigem diante do poço, o visitante institui ali um horizonte que não é horizontal, mas vertical, fazendo com que a arquitetura nasça da mútua relação do indivíduo com o espaço através das ações e percepções.


Simulação x representação
O pavilhão H2O expo utiliza fortemente os recursos digitais na construção do espaço. São sensores, projeções, luzes e sons que juntamente com o espaço arquitetônico conformam um todo.

Partindo da concepção que estamos interpretando esta obra através da fenomenologia, cabe clarificar que não se pode pensar que estes sistemas informacionais não fazem parte da realidade do edifício. Não podemos dizer que estas simulações são falsas ou passíveis de dúvida quanto a sua existência, pois estaríamos pensando como um metafísico. Aqui, o físico e o virtual coexistem. Este virtual quando emerge e se atualiza, se incorpora ao edifício de modo que não se pode mais separar aquilo que é físico do que é virtual. Ambos, conjuntamente, conformam uma unidade. O mundo fenomenológico é um todo onde não existe aquilo o que é fato e aquilo que é ideia. Assim, o que existe é o mundo e nossa existência nele; e não um mundo da experiência e um mundo ideal que conhece a verdade das coisas.

Spuybroek declara que, ao conceber sua arquitetura, preocupa-se em afastar as concepções metafísicas de seus projetos, pois acredita que elas falham em estabelecer a comunhão do sujeito com o objeto de sua experiência. Deste modo, somos levados a nos questionar se é possível haver representação neste mundo de constante constituição. A fenomenologia substitui o tema clássico da metafísica, a representação, ao colocar o ser no mundo. A este respeito Merleau-Ponty considera que “as representações científicas segundo as quais eu sou um momento do mundo são sempre ingênuas e hipócritas, porque elas subentendem, sem mencioná-la, essa outra visão, aquela da consciência, pela qual antes de tudo um mundo se dispõe em torno de mim e começa a existir para mim” (12).

Aqui, a simulação se eleva ao estatuto de uma realidade expandida assumindo papel fundamental na constituição do edifício. A este respeito a arquiteta Ana Paula Baltazar considera que a utilização da computação no edifício construído, e não somente para a geração da forma, propicia e potencializa aquilo que a autora chama de ‘emergência’ que estimula interação no espaço edificado.

Um exemplo de ‘emergência’ na arquitetura além de geração da forma é o Fresh Water Pavilion do NOX, onde o computador é parte do objeto arquitetônico e o ambiente emerge (é completado e recompletado) a cada interação do usuário com o edifício. Nesse caso a ‘emergência’ que o computador propicia é trabalhada no nível do evento e não da substância, e o arquiteto realmente abre mão de um controle total sobre a forma (aparência) final do objeto” (13).

As imagens projetadas emergem no edifício para compô-lo no momento da interação. Assim, as paredes, pisos e tetos não permanecem paredes, pisos e tetos apesar da imagem projetada (ver figuras 6 e 7). Eles são sim, elementos que se deformam; que assumem as características empenhadas pelo visitante em sua inter-relação com o edifício. Esta interpretação que fazemos se relaciona com um exemplo que Merleau-Ponty traz em O olho e o espírito, onde fala da inseparabilidade das coisas com o mundo.

Quando vejo através de espessura da água, dos reflexos, vejo-o justamente através deles, por eles. Se não houvesse essas distorções, essas zebruras do sol, se eu visse sem essa carne a geometria dos azulejos, então é que deixaria de vê-los como são, onde estão, a saber: mais longe que todo lugar idêntico. A própria água, a força aquosa, o elemento viscoso e brilhante, não posso dizer que esteja no espaço: ela está alhures, mas também não está na piscina. Ela habita, materializa-se ali, mas não está contida ali, e, se ergo os olhos em direção ao anteparo de ciprestes onde brinca a trama dos reflexos, não posso contestar que a água também o visita, ou pelo menos envia até lá sua essência ativa e expressiva” (14).

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Os azulejos da piscina são percebidos em conjunto com os outros elementos como a água, o reflexo e os ciprestes. As coisas não estão no espaço como destaca o filósofo. O espaço não é um elemento constituído onde as coisas se dispõem, mas sim uma imbricação onde eu estou nas coisas e as coisas estão em mim.

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É isto o que é a emergência deste edifício: uma abertura a um mundo em constante formação. A cada momento um novo se inaugura e não se pode entender que suas partes possam ser decompostas ou pensadas separadamente. No H2O expo as projeções possibilitadas pelo uso da computação não conformam uma ilusão, mas algo que existe de fato, fazendo parte do objeto dado intencionalmente ao sujeito.


Conclusão
Utilizando argumentos da fenomenologia para tentar compreender o H2O expo, percebemos que, de fato, o edifício guarda propriedades que fazem dele uma experiência intensa de um espaço que se conforma através da interação.

Não percebemos uma preocupação na busca de um sentido originário para a arquitetura. Mas é incontestável que há o desejo de projetar um lugar onde o sujeito esteja imerso num ambiente de percepções sensórias. Para isto, utilizam recursos da computação potencializar as modificações no espaço real. Assim, encontramos aqui uma junção do espaço físico, tradicionalmente conhecido da arquitetura; da virtualidade, que se coloca como realidade ampliada; e do sujeito enquanto corpo que recebe e emite estímulos. Ocorre deste modo uma união destes elementos de maneira tão íntima que não podemos imaginar que o pavilhão exista de outro modo senão pela imbricação destes três.

notas
1
Lars Spuybroek é um dos arquitetos do grupo NOX, e é de sua autoria o livroNOX machining arquitecture publicado em 2004.

2
SPUYBROEK, Lars. NOX: Machining Architecture. Thames & Hudson, 2004, p.18.

3
Todas as imagens apresentadas encontram-se no livro NOX Machining Architecture.

4
PIAZZALUNGA, Renata. A virtualização da arquitetura. São Paulo, Papirus, 2005, p77.

5
JAPIASSÚ, M; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3 ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996, p. 133.

6
Do grego noein: pensar.

7
PIAZZALUNGA, Renata. Op. cit., p77.

8
Experiência neurológica realizada em 1963 por Richard Held e Alan Hein.

9
Em neurologia agnosia significa a perda do poder de reconhecimento perceptivo sensorial.

10
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo, Cosac & Naify, 2004, p.127.

11
SPUYBROEK, Lars. Op. cit., p.20.

12
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1999, p.4.

13
BALTAZAR, Ana Paula. O novo paradigma na arquitetura: a linguagem do pós-modernismo. Arquitextos, São Paulo, 03.025, Vitruvius, jun 2002 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.025/775>. Acesso em novembro de 2006.

14
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. Op. cit., p.37.

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