Friday, 2 July 2021

Entenda o inequívoco papel humano na mudança climática

 

https://www.climatempo.com.br/noticia/2021/06/30/entenda-o-inequivoco-papel-humano-na-mudanca-climatica-0634

Entenda o inequívoco papel humano na mudança climática

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Foto: papel humano na mudança climática (divulgação)

9 min de leitura

É verdade que, dentro de sua história de 4,5 bilhões de anos, o planeta Terra experimentou eras de menor e maior calor.

 

Numa alternância de milhares de anos, essas mudanças foram determinadas por variações na órbita da Terra ao redor do Sol. Enquanto distâncias maiores resultaram em ciclos mais frios, a proximidade gerou eras mais quentes e interglaciais.

 

No final do século 20, quando cientistas começaram a observar como as temperaturas mudaram ao longo da história, eles notaram um aquecimento planetário muito mais rápido que a média, iniciado a partir dos anos 1980.

 

Em 1998, pesquisadores da Universidade de Massachusetts e do Laboratório de Pesquisas de Anel de Árvore da Universidade do Arizona, ambas nos Estados Unidos, publicaram um estudo mostrando a temperatura média anual global durante os últimos mil anos.

 

Para calcular temperaturas tão antigas, eles estudaram os chamados registros naturais – medições de núcleos de gelo, anéis de árvores e corais.

 

O resultado mostrou pouca variação durante muitas centenas de anos até o século 20, quando subitamente houve um aumento acentuado.

 

Em 2013, uma pesquisa publicada na revista Science analisou temperaturas ainda anteriores, datando de 11 mil anos atrás. A conclusão foi a mesma: o planeta aqueceu mais rápido no século passado do que em qualquer outra época desde o final da última era glacial.

 

O estudo também revelou que, nos últimos 2 mil anos, a Terra vem enfrentando um período de resfriamento natural em termos de sua posição em relação ao Sol.

 

Mas, como explica o estudo, esse resfriamento natural praticamente não foi notado devido ao aquecimento sem precedentes causado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.

 

 

O que as emissões de CO2 têm a ver com a mudança climática?


O efeito estufa – um processo natural que aquece a Terra – é necessário para sustentar a vida no planeta. Ele acontece quando certos gases em nossa atmosfera capturam o calor emitido pela Terra e atuam como o próprio efeito estufa do planeta.  Os gases naturais que retêm o calor em nossa atmosfera, que incluem dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso, são necessários para manter a temperatura da superfície da Terra quente.

 

Sem o efeito estufa, a temperatura da superfície cairia 33 graus Celsius, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Isso tornaria o planeta um lugar congelado e inabitável.

 

Durante milhares de anos, a natureza regulou bem a concentração desses gases. Mas isso começou a mudar quando os seres humanos passaram a queimar combustíveis fósseis para criar energia, o que desencadeou um aumento acentuado das emissões não naturais de CO2. Isso interferiu no equilíbrio atmosférico do planeta e, como resultado, a Terra começou a aquecer mais rapidamente.

 

De acordo com o relatório da OMM sobre o Estado do Clima Global 2020, a temperatura média no ano passado foi 1,2 grau Celsius mais alta do que os níveis pré-industriais. Isso se refere ao período entre 1850-1900, quando os combustíveis fósseis não eram amplamente utilizados como meio para gerar energia.

 

O relatório descreveu os níveis crescentes de gases de efeito estufa na atmosfera resultantes das atividades humanas como "um dos principais motores das mudanças climáticas".

 

Em 2001, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimou que a concentração de CO2 na atmosfera havia sido de 280 partes por milhão (ppm) por vários milhares de anos antes da era industrial. Em 1999, havia aumentado para 367 ppm.

 

Criado como um órgão da ONU em 1988, o IPCC tem 195 países-membros e se ocupa da ciência relacionada à mudança climática. Ele atribuiu o aumento de CO2 atmosférico às emissões geradas pelo homem, três quartos delas provenientes da queima de combustíveis fósseis, e o restante da mudança no manejo da terra.

 

Em maio de 2021, o nível médio global de CO2 atmosférico atingiu 415 ppm. A última vez em que os níveis de CO2 haviam sido tão elevados foi há cerca de 3 milhões de anos, quando o nível do mar era cerca de 30 metros mais alto, e os humanos modernos nem sequer existiam.

 

O cientista climático Benjamin Cook, do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa, explica que, no final do século 20, quando os pesquisadores começaram a procurar respostas para explicar a tendência de aquecimento, eles examinaram diferentes fatores, incluindo gases de efeito estufa, energia solar, circulação oceânica e atividade vulcânica.

 

"Somente as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis e a industrialização nos deram uma previsão que se alinha com o aquecimento que estamos vendo", disse Cook à DW.

 

Ele afirma que a comunidade científica está tão confiante na mudança climática causada pelo homem hoje quanto na compreensão da teoria da gravidade.

 

"Há incertezas e nuances a serem discutidas na ciência climática", comenta Cook. "Mas a única coisa em que praticamente todo cientista concorda hoje é que o aquecimento que estamos vendo é impulsionado pela queima de combustíveis fósseis."

 

 

CSS: Aquecimento Global e os eventos climáticos extremos no Brasil

 

 

Por que demorou para se chegar a essa conclusão?


Uma análise amplamente discutida sobre a evolução do consenso científico sobre o aquecimento global antrópico foi publicada em 2013.

 

Liderado por John Cook, pesquisador do Centro de Pesquisa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade de Monash, na Austrália, pesquisadores americanos, britânicos e canadenses examinaram 11.944 textos relacionados ao clima publicados na literatura científica revisada por pares entre 1991 e 2011.

 

Menos de 1% dos trabalhos de pesquisa examinados rejeitavam a ideia da influência humana sobre o clima da Terra. Dos textos, 66,4% não expressaram nenhuma posição sobre o fator antrópico, e 32,6% o endossaram. Uma análise mais aprofundada desse último número revelou um consenso de 97,1% sobre a mudança climática causada pelo homem.

 

Os críticos, no entanto, atacaram as conclusões com base no fato de que o consenso de 97,1% foi derivado de menos de um terço (32,6%) de todos os artigos revisados. A maioria (66,4%), argumentaram eles, não havia expressado um ponto de vista.

 

O consenso científico não pode ser alcançado através de votação, mas evolui com o tempo à medida que mais pesquisas são feitas.

 

Um estudo mais recente conduzido por um grupo de autores internacionais confirmou que mais de 90% dos cientistas climáticos compartilham o consenso de que a mudança climática é causada pelo homem.

 

E uma análise de 2019 de 11.602 artigos revisados por pares sobre mudança climática publicados nos primeiros sete meses de 2019 constatou que os cientistas chegaram a um acordo de 100% sobre o aquecimento global causado pelos humanos. Essa pesquisa foi realizada por James Lawrence Powell, geólogo americano e autor de 11 livros sobre mudanças climáticas e ciência da Terra.

 

"Se uma teoria alternativa do que está impulsionando a mudança climática em vez de gases de efeito estufa fosse apoiada por pesquisas e evidências, tal trabalho seria inovador", diz Benjamin Cook. "Seria um estudo de nível de prêmio Nobel. Mas nós não temos ainda essa pesquisa."

 

A mudança climática de origem humana é endossada pelo IPCC. Já em 1995, o órgão intergovernamental disse: "O equilíbrio das evidências sugere que existe uma influência humana discernível sobre o clima global."

 

"Uma abordagem científica significa olhar para os dados, observações e resultados para tirar conclusões", afirma Helene Jacot Des Combes, climatologista da Universidade do Pacífico Sul, autora do IPCC e assessora do governo das Ilhas Marshall. "E tudo isso nos diz que a atual mudança climática é causada pelas atividades humanas."

Thursday, 1 July 2021

Pequeno glossário beauvoiriano

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Pequeno glossário beauvoiriano

Pequeno glossário beauvoiriano
Segundo sexo, opressão, liberdade: conheça conceitos fundamentais na obra de Simone de Beauvoir (Foto: Reprodução)

 

 

Existência

 

Existir é o mesmo que viver singularmente em um mundo humano e socialmente organizado que oferece, por sua vez, condições mais ou menos favoráveis e particulares à vida. Implica em lançar-se nesse mundo e, nele, fazer-se presença enquanto sujeito: por meio da ação e da possibilidade de interferir no modo como as coisas e a vida nele se constituem, e em meio às resistências que estas oferecem. Entende-se que não há nada que anteceda a existência humana, nem um tipo de determinação ou destino prévios, sejam estes de caráter biológico (natureza humana) ou metafísico (sentido inumano). Em relação ao que se é, tudo se passa temporalmente em meio à existência e como existência de vidas singulares em constante debate com as condições (sociais, materiais, históricas, culturais), antepostas desde o momento em que começam (nascimento) até seu fim.

 

Ambiguidade

 

Para o existencialismo beauvoiriano, ambiguidade é o que surge no cerne da existência humana. Enquanto experiência vivida, a vida humana é fundamentalmente ambígua: vivemos para nos preparar para a morte, somos animais e racionais, uma animalidade dotada de pensamento reflexivo que nos permite ir além das condições oferecidas pela natureza sem, no entanto, nos libertar inteiramente dela; o mundo do qual temos consciência é o mesmo do qual fazemos parte, mas é também aquele que pode aniquilar nossa individualidade. Ser paradoxal é um privilégio do qual apenas o ser humano pode usufruir e que oferece condições, para este, de construção, para si, de um campo ético no qual o próprio sentido de humanidade pode também ser constituído (ou destituído), conforme escolhas e ações praticadas em meios aos demais indivíduos no mundo.

 

Liberdade

 

Nada há que determine previamente, ou seja, antes de existir, o que alguém será ou deixará de ser. O mesmo se passa em relação ao mundo. Se as coisas no mundo em que nos situamos são o que e como são, isto não significa que elas devam ser, nem também que terão de sê-lo sempre assim. A liberdade se constitui, pois, nesse campo de pura contingência como condição de possibilidade, inerente ao existir humano, de agir por determinação própria e de interferir na prática social e concretamente situada. Na medida em que é condição, a liberdade, em Beauvoir, não tem sentido absoluto. Será sempre em situação: em meio às realidades concretas que oferecem maiores ou menores obstáculos à ação e que podem, neste sentido, tanto intensificar quanto, ao contrário, vir a aniquilar, de fato, essa liberdade como prática libertadora.

 

Transcendência

 

 

Lançar-se no mundo objetivo é lançar-se numa direção. Nisto está o sentido existencialista da transcendência, na intencionalidade, puro direcionamento da consciência de um sujeito para fora de si que o leva a estar no mundo e, assim, fazer-se parte integrante dele. A transcendência tem seu papel na constituição, pelo existente, de sentido para sua existência, uma vez que esse projetar-se da consciência não se faz aleatoriamente, indiferentemente, mas na direção de coisas e feitos passíveis de serem valorados do ponto de vista ético. É, pois, o desejo que cria o desejável, não o inverso. Assim, ao mesmo tempo em que tomará parte na constituição de subjetividades autênticas, a transcendência estará implicada também na produção de valores da vida coletiva: o que o mundo é de fato e o que queremos que ele venha a ser, ou não.

 

Imanência

 

 

A imanência se caracteriza pelo movimento inverso à transcendência. Se, pela transcendência, a consciência se projeta no mundo para estar, agir e interferir nele, na imanência é o mundo que irá se impor à consciência e, em certo sentido, moldá-la. Em outros termos, será o mundo de fato (material, histórico, cultural) em sua implacável objetividade, ou, nos termos existencialistas, em toda a sua facticidade, que irá se introjetar na subjetividade do indivíduo. Sem poder colocar-se autenticamente no mundo, será o mundo, dado à sua revelia, factual, que irá se impor ao sujeito; sem ter condições de interferir nesse mundo, será sua facticidade que acabará impregnando de sentido (ou de falta de algum) a existência desse indivíduo.

 

Projeto

 

 

Em relação à existência de um indivíduo, o projeto, no sentido beauvoiriano, é um projeto ético, precisamente. Diz respeito à definição, pelo indivíduo, das condições de vida válida a seus próprios olhos. É a existência humana que faz surgir no mundo os valores a partir dos quais o indivíduo poderá julgar os empreendimentos nos quais se engajará. Sendo a ação pautada por esses valores, o direcionamento destas nunca poderá ser indiferente: diante de situações concretas, que direção parece a melhor? Agiremos neste ou naquele sentido, em razão deste ou daquele valor? Por exemplo, no sentido da liberdade, de uma ação libertadora, ou qual? O projeto ético não deixa de ser, assim, o plano integrador da existência, na medida em que os valores perpassam todas as dimensões da ação, quer se tenha consciência do engajamento nela ou não.

 

Situação

 

 

Para falar em existência precisamos mencionar os sujeitos e o mundo no qual esses sujeitos vivem, entendendo por mundo esse meio socialmente organizado, historicamente, materialmente, culturalmente etc. estabelecido. A situação é precisamente o que une esses dois polos – o indivíduo singular e o mundo socialmente organizado em que este e todos os demais habitam – e, ainda, as condições concretas dessa vida social, as quais se encontram para além do domínio ou do campo de escolha desses mesmos indivíduos. Em outros termos, mais do que um simples contexto ou cenário em meio o qual as ações humanas se realizam, a situação é justamente o ponto em que se vinculam liberdade do indivíduo e a facticidade do mundo no qual ele existe.

 

Opressão

 

 

A situação é o campo ou o lugar em que nos confrontamos, atentando às singularidades e experiências vividas caso a caso, com maiores ou menores potenciais de transformação voltados às realidades da vida coletiva e ao impacto destas na vida singular de cada indivíduo humano. As situações são múltiplas e diversas e se constituem nos mais diversos campos da experiência concreta – social, biológico, político, epistêmico, estético etc. Quanto mais o campo da facticidade invade o da liberdade individual e coletiva, mais ele se caracteriza como de opressão, que podem se dar na forma de sexismo, racismo, colonialismo, homofobia, transfobia e tantas outras mais. A opressão nunca é natural, apenas o ser humano pode ser inimigo do ser humano, “apenas ele pode tirar-lhe o sentido de seus atos, de sua vida”, nunca as coisas ou a natureza.

 

Segundo sexo

 

 

Factualmente, não existe simetria entre os gêneros. No plano concreto, a relação dos dois sexos não é como a de dois polos de eletricidade. O homem vive a um só tempo a realidade tanto do polo positivo quanto do neutro e é isto, no mais, que permite que “homem” designe tanto o indivíduo do gênero masculino como “ser humano”. A mulher surge neste contexto como polo negativo apenas, como limitação ou negação do que o homem é. Assim, se a mulher é o outro para o homem (o que ele não é), para a própria mulher, o outro não é o homem, mas ela mesma, já que tudo o que ela é o é em relação a ele, por diminuição ou negação. Está constituído, assim, o segundo sexo, a partir dessa alteridade sem reciprocidade. O sexo da mulher é segundo porque é sempre relativo – outro absoluto -, pois que constituído sempre em relação ao primeiro – eu absoluto -, que é o do homem.

 

Feminismo

 

Feminismo indica objetivamente uma direção na qual indivíduos agem e interferem no mundo, pautados por certos valores. Os valores do feminismo beauvoiriano são, destacadamente, a liberdade e a igualdade. Ser feminista diz respeito, assim, não à defesa ou afirmação de um gênero (o feminino) frente a outro (o masculino), mas a um posicionamento, em termos de ação e de produção de pensamento, voltado ao combate da opressão de gênero. Este se realiza no terreno social e coletivo como luta contra desigualdades, as quais, no mais, não podem ser identificadas num só campo da experiência. A opressão de gênero, para Beauvoir, nunca poderá ser pensada destacada das demais opressões, pois não há como ser livre de modo parcial: ou a liberdade é libertadora (de modos diferentes, mas para todas e todos) ou ela não é liberdade.

IZILDA JOHANSON é doutora em Filosofia pela USP e professora associada do departamento e do programa de pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de São Paulo.

O ministro ruim caiu, vida longa ao ministro ainda pior

https://revistacult.uol.com.br/home/o-ministro-ruim-caiu-vida-longa-ao-ministro-ainda-pior/

O ministro ruim caiu, vida longa ao ministro ainda pior
O ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles; sem dúvida o pior titular da pasta na curta história do Ministério (Foto: Ueslei Marcelino)

 

Caiu o ministro Ricardo Salles, o controverso titular do Ministério do Meio Ambiente. E isso vem na sequência das espetaculares quedas de Ernesto Araújo e Eduardo Pazuello, em março deste ano, e Abraham Weintraub, em junho do ano passado, todos personagens políticos dos mais discutíveis. Em comum, uma inevitável pecha. Salles é, sem favor algum, o pior titular da pasta do Meio Ambiente na curta história do Ministério, assim como Araújo, Pazuello e Weintraub estarão certamente registrados como os piores ministros a assumir as Relações Exteriores, a Saúde e a Educação, desde sempre e em qualquer regime de governo. Ser o pior, no julgamento comum, demonstra ser condição essencial para servir o país no primeiro escalão do governo Bolsonaro.

Nenhum deles caiu como resultado da adoção das políticas públicas que chocaram o país e a opinião pública mundial. Nem por se terem tornado os inimigos mais mortais dos objetivos naturais das suas pastas: Salles contra o ambiente, Pazuello contra a saúde, Araújo contra a diplomacia, Weintraub versus a educação. Tampouco por serem ineptos, incompetentes, despreparados – seja para os desafios do cargo seja para lidar com jornalistas, opinião pública, “stakeholders”, os recursos humanos dos seus respetivos ministérios e, por fim, com a Lei -, coisa que certamente foram. 

Aliás, qualquer item da enorme lista de malfeitos, obrigações não cumpridas, desastres patrocinados, desrespeito às leis, declarações inaceitáveis e destruições promovidas por esses ministros teria sido suficiente, em condições políticas saudáveis, para a sua demissão sumária. No governo Bolsonaro, não, pois nada fizeram os ministros que não faça também, quotidianamente, o chefe deles. Antes, o que é evidente, é que esses ministros são a materialização da mente, das crenças e da visão de mundo do patrão. Bolsonaro é Salles, e Salles é Bolsonaro. 

Tanto é assim que ninguém mais tem as expectativas que seria normal ter, em qualquer outro governo, de que uma vez demitido um ministro as coisas pudessem progredir na sua pasta, com melhor gestão, comportamento mais republicano, maior eficiência ou correção de políticas públicas equivocadas.

 

Não, quando cai o ministro
Ruim a pergunta de todos é:
quem será o ministro Ainda
Pior que assumirá o seu lugar?

 

 

E já foram tantos a cair neste Governo dos Piores que conhecemos o padrão: o ministro que entra estará ainda mais sob o cabresto dos bolsonaros. Sai um entusiasmado militante da crença bolsonarista, que serve voluntária e cegamente à Causa, e assume um boneco de ventríloquo, cuja voz e alma é dada por quem lhe sopra as palavras.

A opinião pública não consegue forçar a adoção de filtros mais qualificados na escolha e manutenção do primeiro escalão deste governo. Nem mesmo a opinião internacional. Afinal, a opinião pública e o jornalismo se movem por valores republicanos, mas não há contratações e demissões baseadas em razões republicanas no governo Bolsonaro, vez que o republicanismo e o bolsonarismo jamais se encontraram e não se conhecem sequer de ouvir falar. 

Pressões e demandas de investidores internacionais, organismos multilaterais, organizações e governos, como vimos no caso de Salles, tampouco são capazes de produzir qualquer mudança na retranca ideológica do Ministério de Bolsonaro, não importam os danos em imagem e reputação do país ou mesmo as enormes perdas financeiras e humanas. Notadamente, Salles, com a perda do Fundo Amazônia; Pazuello, com as vacinas não compradas; e Araújo, com a provocação da fúria da China, deram gigantesco prejuízo ao país, mas não foi isso que os derrubou. 

O que derruba, então, um ministro deste governo?

O medo da cadeia. Ou, dito de outro modo, só caem por medo de que as poucas instituições do Estado que Bolsonaro (ainda) não conseguiu colonizar levem um deles ao cárcere. No caso de Salles, avançam as investigações contra ele por indícios de corrupção, advocacia administrativa e prevaricação, além de uma acusação de obstruir inquéritos sobre esquemas de desmatamento na Amazônia e facilitar contrabando de madeira brasileira. Nada mal para um ministro do Meio Ambiente, não é? 

Mas o fator decisivo foram as últimas ofensivas que vieram do STF, particularmente do temível Alexandre de Moraes, o Terror do Palácio do Planalto, que está na iminência de obter as mensagens e ligações do celular de Salles, o ministro que mandou a boiada passar. E os segredos financeiros que serão revelados pela quebra do sigilo bancário da mãe do agora ex-ministro. 

Com Pazuello, o do desmaio, e Weintraub, o fanfarrão que escapou do país em desabalada carreira no cair da noite, deu-se exatamente o mesmo. 

Virtudes republicanas, portanto, não movem as peças no governo Bolsonaro. Em compensação, o bafo do STF e das CPIs no cangote dos valentões vai derrubando um a um os homens de ferro do governo. E, por enquanto, as instituições que ainda funcionam têm sido o único osso duro de roer em que o bolsonarismo, eventualmente, quebra alguns dentes.  

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)

Thursday, 24 June 2021

Céu sem lei – e controlado por garimpeiros

 


Céu sem lei – e controlado por garimpeiros

https://reporterbrasil.org.br/2021/06/ceu-sem-lei-e-controlado-por-garimpeiros/

Durante sobrevoo à Terra Indígena Yanomami, um avião ilegal de pequeno porte tentou interceptar a aeronave da reportagem, que constatou o cenário de devastação na floresta e nos rios deixado pela mineração

A visão não é a de um formigueiro humano como no garimpo de Serra Pelada, no Pará. Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, o garimpo ilegal destrói a floresta amazônica de forma pulverizada, mas não menos feroz. Os núcleos de mineração de ouro se dispersam ao longo dos rios Uraricoera, Parima, Mucajaí e Couto de Magalhães. Em cada um deles, os solos expostos em extensas clareiras tingem a paisagem antes verde de um marrom dourado, quase ferrugem. São como cicatrizes abertas. Uma água barrenta escorre de lagoas de sedimentos e jorra para os rios. Há muito mercúrio, ainda largamente utilizado na extração do cobiçado minério. Mas carrega também o sangue dos Yanomami, que pedem socorro.

“Vocês verão muitas coisas ruins do avião; altos maquinários. Você vai se sentir triste, como nunca viu, como uma pessoa que entra na sua casa e estraga seu terreno. Vai ver que estamos falando a verdade. Você pode olhar, para você acreditar”, alertou o líder indígena Davi Kopenawa Yanomami. Reconhecido mundialmente como um grande defensor na luta pelos direitos da Terra Indígena (TI) Yanomami, Davi Kopenawa autorizou o sobrevoo feito no dia 30 de abril pela reportagem sobre as áreas de garimpo ilegal. Ele sabia que haveria riscos.

‘Esse ouro é valioso para o povo da cidade. Mas esse ouro é sujo, é ouro cheio de sangue do meu povo Yanomami’, alerta o líder Davi Kopenawa Yanomami, durante entrevista em Boa Vista. ‘É ouro que mata a natureza, mata a vida da água, a água está tá morta.’ (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

O avião da reportagem partiu de Boa Vista, capital de Roraima, e demorou uma hora até chegar à primeira área de garimpo. O verde da floresta amazônica predominava na paisagem nos primeiros 30 minutos de sobrevoo, já dentro dos limites da TI Yanomami, quando um avião de pequeno porte cruzou na frente da aeronave que transportava a reportagem. Localizada no extremo Norte do Brasil, a terra indígena de 9,6 milhões de hectares fica entre os estados de Roraima e Amazonas, e se estende até a fronteira com a Venezuela. À medida que as imagens da devastação do garimpo ilegal avançavam, aumentava também a presença de aviões e helicópteros que sobrevoavam o local, como se céu e terra pertencessem aos garimpeiros ilegais. É a terceira grande corrida do ouro desde os anos 1970.

A Amazônia Real se uniu à Repórter Brasil para investigar a fundo o problema do garimpo ilegal na maior terra indígena do Brasil. Foram quatro meses de apuração e a análise de mais de 5 mil páginas de documentos para traçar a rota do ouro, identificar as principais empresas compradoras, compreender as fragilidades na legislação (que isenta os compradores de qualquer responsabilidade), destrinchar o antigo interesse dos políticos na atividade e revelar como a rápida aproximação do garimpo com o tráfico internacional de drogas. A investigação teve acesso a dois inquéritos da Polícia Federal por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e às acusações do Ministério Público Federal, feitas com base em operações de combate ao garimpo na TI Yanomami feitas desde 2012.

O especial Ouro do Sangue Yanomami – que conta com sete reportagens – mostra que nesse exato instante há uma profusão de atores se enriquecendo com a atividade ilegal nas terras indígenas do país. É um crime contínuo, defendido pelo governo do presidente Jair Bolsonaro e tolerado pela sociedade.

Os voos irregulares

A bordo de um avião modelo Caravan, a equipe de reportagem da Amazônia Real sobrevoou cinco pontos da TI Yanomami em abril deste ano, duas semanas antes dos ataques a tiros à comunidade Palimiu por garimpeiros ligados à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Paapiu, Homoxi, Xitei, Parima e Waikás foram as áreas identificadas pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) por serem as mais críticas. É onde há muitos garimpeiros, presença ostensiva de balsas, de maquinários e voadeiras, contaminação das águas por mercúrio e extração das árvores em larga escala.

Na área do Homoxi, maloca dos Yanomami (na parte superior central da foto) é cercada pelo garimpo e por todo seu rastro de destruição na floresta (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Aviões e helicópteros, mesmo voando de maneira irregular, parecem não se incomodar e muito menos temer o fato de estarem invadindo um espaço aéreo. É como se ali nem existissem os três Pelotões Especiais de Fronteira do Exército para impedi-los. Em céu de garimpeiro, eles dão as ordens.

Na região do Homoxi, um dos aviões permaneceu voando em círculos abaixo do Caravan da reportagem até que fôssemos embora. O risco de “levar tiro de garimpeiro”, expressado pelo piloto, impediu que voássemos mais baixo e acelerou a passagem do avião por algumas áreas garimpeiras para não chamar a atenção.

Em uma conversa de piloto para piloto, o que trabalhava para os garimpeiros perguntou ao que conduzia a equipe de reportagem quem é que estava na aeronave e se ele iria pousar. O piloto optou por não contar que estava com um fotógrafo e uma repórter a bordo. Segundo ele, era mais seguro seguir assim.

Durante sobrevoo à Terra Indígena Yanomami, um avião ilegal tentou interceptar a aeronave da reportagem, que constatou o cenário de devastação na floresta e nos rios deixado pela mineração (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

As aeronaves em áreas de mineração cumprem funções essenciais: transportar sondas, bombas, motosserras, calhas de lavagem, mangueiras, detectores de metais e o mercúrio, necessários para a mineração do ouro, suprimentos para manter os garimpeiros confinados por semanas e deixar claro que ali há donos. São eles que recolhem a pedra preciosa, prospectam novas lavras e mantêm a atividade aurífera a pleno vapor. Os produtores rurais repetem um mantra: “Olho de dono é que engorda boi”. No garimpo, o boi se chama ouro.

O rastro de destruição

Nas duas horas de duração do sobrevoo, o rastro de destruição causado pelo garimpo ilegal é constante. Há poucos locais em que a vista descansa para apreciar os trechos de floresta preservada sem invasores e os imensos buracos causados por homens e máquinas à procura de ouro. A proximidade das lavras garimpeiras, dos acampamentos não indígenas e de pistas clandestinas com as malocas e roçados das comunidades Yanomami mostra a ousadia dos invasores na certeza da impunidade.

Invasores que parecem porcos com fome, como afirma Davi Kopenawa. “Homem garimpeiro é como um porco de criação da cidade, faz muito buraco procurando ouro e diamante.” Kopenawa já presenciou a consequência e a violência das invasões com o episódio do massacre de Haximu, no Alto Orinoco, na Venezuela, em 1993, quando garimpeiros armados, numa série de ataques a tiros e facas, mataram 16 Yanomami. Foi o primeiro caso de genocídio reconhecido pela Justiça brasileira. Davi teme ver a história se repetir.

Sobrevoando a uma altura de 2 mil pés (600 metros do solo), a reportagem flagrou invasores trabalhando nas imensas crateras para extrair o ouro das cavas e dos barrancos. É intensa a movimentação de embarcações nos rios para abastecimento do garimpo. De cima, é nítido o funcionamento de uma complexa organização logística terrestre, fluvial e aérea que viabiliza a extração ilegal desse ouro de aluvião na TI Yanomami em uma escala intensa e frenética.

Leia mais sobre as aeronaves ligadas à atividade garimpeira

O relatório “Cicatrizes na Floresta – Evolução do Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami”, lançado em março de 2021 pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) e Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), aponta cerca de 20 mil garimpeiros ilegais no território. No entanto, os próprios garimpeiros dão um número maior. Segundo o aviador e histórico minerador José Altino Machado seriam mais de 26 mil homens nesta que é conhecida como a terceira corrida do ouro em Roraima. Zé Altino, como é mais conhecido, é presidente da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal e foi o responsável pela primeira e segunda invasões no território nos anos 1970 e 1980. 

Leia mais sobre Zé Altino, memória-viva do garimpo

Pistas clandestinas

Além dos aviões e helicópteros, dos maquinários, das balsas e voadeiras previamente antecipadas por Davi Kopenawa, há incontáveis pistas clandestinas, de diferentes tamanhos, que rasgam a floresta. Algumas são coladas às malocas dos Yanomami. Assim como balsas e maquinários pesados, que também estão próximos de algumas comunidades e dos roçados indígenas.

aeronaves sobrevoam garimpo na TI Yanomami (Bruno Kelly)
Helicóptero e avião são flagrados sobrevoando o garimpo na região do Homoxi; é como se céu e terra pertencessem aos garimpeiros ilegais (Bruno Kelly/Amazônia Real)

Na região do Homoxi, na fronteira com a Venezuela, os garimpeiros levantaram um alojamento a alguns metros de distância de uma comunidade. De um lado da margem de um igarapé contaminado pela ação do mercúrio, uma grande maloca e mais duas menores aparecem circundadas pela área de roçado, onde é cultivado o alimento de toda a aldeia. Do outro lado da margem, está o acampamento dos invasores. A cena é marcada por lavras de garimpo, rio assoreado, imensos buracos de terra escavada e as lagoas de sedimentos deixados pela fúria da atividade ilegal. 

São muitas as cicatrizes deixadas pelos garimpeiros na TI Yanomami. Uma vez exaurida a extração do ouro, é hora de levantar o acampamento, recolhendo as improvisadas barracas de lonas azuis para serem usadas num outro ponto de garimpagem. Se a lavra for “rentável”, os garimpeiros ficam meses nela. Caso contrário, partem para outra localidade no que eles consideram ser uma terra sem dono. Em uma lavra, a concentração de um metal tão raro quanto o ouro é de apenas alguns gramas por tonelada de terra minerada.


A Força Aérea Brasileira, segundo o Ministério da Defesa, faz o monitoramento do espaço aéreo 24 horas por dia, e caso haja aeronaves suspeitas e não identificadas sobrevoando a TI Yanomami, há procedimentos de interceptação. Em nota enviada à reportagem, o ministério afirma atuar “permanentemente no combate a delitos transfronteiriços e ambientais” e que as ações são coordenadas pelo Centro de Operações Militares 4, do 4º Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (Cindacta), localizado em Manaus.

2.430 hectares destruídos

Tal avizinhamento e o risco que isso acarreta foram alvo de denúncia no relatório produzido pelos Yanomami. De um lado, há o agravamento no quadro epidemiológico, como a disparada nos casos de malária. Com o desmate florestal, a proliferação do mosquito Anopheles é facilitada, potencializando a disseminação da doença. Entre 2014 e 2019, os casos de malária quintuplicaram na TI Yanomami. E o garimpo também está relacionado a altas taxas de contaminação por mercúrio, usado para separar o ouro (o metal pesado e tóxico cria um amálgama que depois, ao ser incinerado, se volatiza e é levado pelo vento), causando danos de longo prazo e irreversíveis na saúde dos indígenas, além de gerar desestruturação econômica e levar a conflitos violentos.

Grande área de garimpo conhecida como “Tatuzão”, na região do rio Uraricoera, é campeã de devastação e abriga barracões, mercearia, pontos de acesso à internet e até cabeleireiros (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real).

O tamanho da destruição do garimpo ilegal do ouro já chega a 2.430 hectares na TI Yanomami, o equivalente a 2.430 campos de futebol, segundo o relatório mais recente da HAY, divulgado em maio deste ano. Somente em 2020, a degradação avançou 500 hectares, associada à intensificação do uso de material pesado e sofisticado para a extração do minério. A atividade garimpeira se prolifera no território, subindo os rios, com crescentes núcleos de invasores e novas rotas de acesso ao interior da floresta amazônica.

A região do Waikás, conhecida como Tatuzão do Mutum, continua no topo do ranking da devastação. Em 2017, o local contava com uma estrutura até então inédita em terras indígenas de Roraima, com casas, mercearia, pontos de acesso à internet e cabeleireiros. 

É possível avistar pela janela do avião que, mesmo a área já tendo sido alvo de operações do Exército, a atividade clandestina continua a funcionar com alojamentos instalados ao longo do leito do rio Uraricoera, mas também adentrando a mata. Waikás já teve cerca de 35% do total de suas terras degradadas.

A área fica a poucos minutos da comunidade Palimiu, onde aconteceram os primeiros ataques a tiros contra o povo Yanomami por garimpeiros ligados ao PCC, conforme noticiou em primeira mão a Amazônia Real. A sensação, mesmo do alto, é de destruição acelerada e de impotência. Como disse Kopenawa à reportagem: “nossos inimigos são muitos e nós somos poucos”.

A proximidade das pistas de pouso clandestinas com as aldeias é um sintoma de como os invasores agem na certeza da impunidade (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Equipes da série Ouro do Sangue Yanomami

Amazônia Real: Kátia Brasil (editora-executiva); Eduardo Nunomura (editor de especiais); Alberto César Araújo (editor de fotografia), Elaíze Farias (editora de conteúdo); Maria Fernanda Ribeiro, Clara Britto e Alicia Lobato (repórteres); Bruno Kelly (fotografia do sobrevoo) e Paulo Dessana (fotógrafo); Lívia Lemos (mídias sociais); Maria Cecília Costa (assistente executiva); Giovanny Vera (mapa); César Nogueira (montagem); e Nelson Mota (desenvolvedor).

Repórter Brasil: Ana Magalhães (coordenadora de jornalismo); Mariana Della Barba (editora); Mayra Sartorato (editora de redes sociais); Piero Locatelli e Guilherme Henrique (repórteres); Joyce Cardoso (estagiária).

* crédito da imagem em destaque: Instituto Socioambiental (ISA)