Monday, 2 April 2012

Festas de São Pedro de Joselândia: cultura e meio ambiente em diálogo permanente

LABORATÓRIO 5 - PRÁTICAS CULTURAIS, SOCIOECONOMIA E EDUCAÇÃO
PROJETO 5.1 – CIÊNCIA E CULTURA NA R
EINVENÇÃO EDUCOMUNICATIVA
Sub-projeto 5.1.3 – Avaliação Ecossistêmico do Milênio

Festas de São Pedro de Joselândia:
cultura e meio ambiente em diálogo permanente
Relatório de campo : Lucia Shiguemi Izawa Kawahara

No belo período da vazante do Pantanal mato-grossense (março/2012), o Grupo Pesquisador em Educação Comunicação e Arte da Universidade Federal de Mato Grosso – GPEA/UFMT voltou à São Pedro de Joselândia para realizar, principalmente, um levantamento socioeconômico da comunidade, objetivo este, compartilhado por todos os membros da expedição de quatorze pesquisadores.


Figura 1 - Pesquisadores do GPEA a caminho de São Pedro de Joselândia (foto: Lucia)
Além da pesquisa socioeconômica de cunho quantitativo e comum à todos do grupo, cada integrante teve a oportunidade em realizar a imersão investigativa individual numa abordagem qualitativa e aprofundada de seus projetos. No meu caso em particular, busquei conhecer melhor a percepção da comunidade sobre as relações das festas tradicionais de São Pedro de Joselândia com o meio ambiente, com a comunidade e com a qualidade de vida. Esta pesquisa com interface na metodologia da Avaliação Ecossistêmica do Milênio - AEM da Organização das Nações Unidas - ONU, procura estabelecer o estudo das relações dos serviços ecossistêmicos e o bem-estar humano, acrescentando a dimensão da Educação Ambiental Pós-Crítica que sustenta nossos princípios de pesquisador e educador do GPEA.


Figura 2 - Entrevista sobre as Festas (foto: Péricles)

O levantamento do perfil socioeconômico da comunidade exigiu de nós um trabalho intenso em visitar o maior número de residências possíveis em São Pedro. Ao abordar os responsáveis pela moradia, explicamos que tal pesquisa era realizada pelo GPEA, sob coordenação da professora Dra. Michèle Sato associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas – INAU, e que nossa pesquisa tem como objetivo “Promover a audiência científica em São Pedro de Joselândia, por meio da arte e da educomunicação, associando a noção de habitat ao território, do hábito à identidade e do habitante ao grupo social identificado como ‘pantaneiro’” [1] e portanto, precisávamos conhecer melhor a comunidade como um todo. Para a nossa grata surpresa, todos os moradores nos receberem prontamente, demonstrando interesse e abertura para oferecer as informações e apoio necessários para a implementação da pesquisa do nosso grupo.


Figura 3 - pesquisador mirim auxiliando na aplicação do questionário (foto: Lucia)

Nas entrevistas realizadas com os moradores e os ex-festeiros ou ex-juízes, percebemos o imenso valor que os moradores desta região atribuem às festas desta localidade. Segundo os entrevistados, as festas de São Pedro de Joselândia representam uma identidade cultural comunitária, ela representa a coletividade, gerações foram e são envolvidas, apesar das mudanças provenientes dos tempos atuais este ritual garante o bem estar comunitário, como afirma uma das nossas entrevistadas:
Ah não é bom...porque essa [a festa de São Pedro] desde nosso nascimento já tinhamos ela, então se ela acabar tem que acabar o mundo, porque é perigoso até, né? Ah Essa não é bom acabar em São Pedro...Já diferenciou, não está mais como era, mas ainda tem. Porque é São Pedro aqui é a diversão do lugar...São Pedro a diversão do lugar!!! É o divertimento nosso. Quem quer vai, quem não quer não vai. Mas é divertimento. (D. Maria Benedita da Conceição em entrevista concedida para a pesquisadora Rosana Manfrinate)


Figura 4 - D. Maria Benedita da Conceição (foto: Rosana)

O Sr. Joselito da Silva, ex-festeiro da festa de São Pedro, confirma a importância da festa, assinalando inclusive que as festas desta comunidade têm uma identidade própria, diferenciando-se de outras festas de outras localidades, sendo tipicamente pantaneira e não se confunde com as tradições de outras regiões.
É, é pantaneira, estas (festas) aqui é pantaneira! Cada um tem uma tradição diferente, desde a dança, é, desde a dança é diferente, cada um tem um, do nordeste é diferente, nosso aqui já tem diferença, ai mesmo de Cuiabá, a dança de siriri é diferente daqui. (Sr. Joselito da Silva, festeiro de 2008)

Figura 5 - D. Lucia Pereira Rodrigues da Silva, esposa do Sr. Joselito da Silva,
mostrando a bandeira do ano (2008) em que assumiram a organização da festa (foto: Lucia)

As relações das festas com o meio ambiente não são percebidas com facilidade, ao questionarmos se elas teriam alguma relação com a natureza, sobre os benefícios ou malefícios das festas causadas à natureza, muitos afirmam que não há muita relação. No entanto, quando conversamos com mais vagar, dialogando sobre as provisões ofertadas pela terra, começam a lembrar do milho, arroz, feijão, mandioca e muito mais retirados das plantações; também elencam a madeira, a palha, os mastros utilizados nas festas, começam a refletir melhor e revelam o saber e o fazer que desde muito praticam no local, demonstrando as ligações existentes entre a cultura popular e o meio em que vivem. (GROOT, R.; RAMAKRISHNAN, P.S., 2005, p. 457)[2]
O Sr. Joaquim, um dos ex-festeiros mais idosos de São Pedro de Joselândia, demonstra o quanto as festas, apesar de ser momento de diversão, são representativas da religiosidade da comunidade, da união e o sentimento de dever e a devoção do povo a Deus:
A festa é para nós adorar! Deus deixou a festividade pra nós, para diversão do povo, por que Deus deixou, você vai fazer a festa, então pra louvar Ele, pra estar lembrando d’Ele em louvor Dele que faz aquela alegria e aquela coisa assim e esse que é!! Não é dizer que é só por que nós que quer fazer, é um dever né?! Ai a senhora faz, tem uma devoção com o Senhor Divino, e diz, ‘oh eu vou festejar o Senhor Divino’ e então todo ano a senhora festeja. Deus deixou a brincadeira, a diversão, a festividade, a reza, o adorar o Santo. (Sr. Joaquim Santana da Silva – festeiro de 1991)

Figura 6 - espaço reservado ao sagrado em uma das muitas residências
católicas da comunidade de São Pedro de Joselândia (Foto: Lucia)
Percebemos então que as festas de São Pedro de Joselândia comungam em torno do seu ritual todas as categorias apontadas pela pesquisa realizada AEM/ONU como dimensões dos Serviços Ecossistêmicos Cultural, a saber: tradição cultural; identidade cultural; valores estéticos; de inspiração; valores religiosos e espirituais, recreação e turismo. Reafirmamos a intrínseca relação dos serviços culturais com os demais serviços de provisão, suporte e regulação, pois como sabiamente afirmou Sr. Joaquim:
Esta festa do pantanal, quer dizer que é do povo, é do pantanal, é do povo daquele setor, é desse povo, daquele povoado. É o que existe dentro do pantanal, é o que dá pra fazer a festa, ali pode fazer, tem arroz, tira o arroz, tem milho, tira milho e faz fubá, faz biscoito que é daqui do pantanal, a mandioca é do pantanal, o gado é daqui do pantanal, o porco é daqui do pantanal e aqui é tudo, tem tudo. (Sr. Joaquim Santana da Silva – festeiro de 1991)

As entrevistas e observações realizadas na pesquisa demonstram que o diálogo em torno das festas desta comunidade pantaneira abre possibilidades de melhorarmos as reflexões relativas à importância do Pantanal. Chama-nos atenção à necessidade de ampliarmos ainda mais os momentos de aprendizagem coletiva sobre o bioma, sobre a biodiversidade, sobre a cultura local e produzir materiais educomunicativos para fortalecer a produção de saberes e parcerias que possam auxiliar na melhoria da qualidade de vida dos pantaneiros e conservação do Pantanal.

Cuiabá, 30/03/2012
Lucia Shiguemi Izawa Kawahara.

[2] GROOT, R.; RAMAKRISHNAN, P.S., Cultural and Amenity Service. In: MEA, Millennium Ecosystem Assessment. Current State and Trade – Vol-1. New York: ONU, 2005.
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