Friday, 9 January 2015

Para mudar os ares

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http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/10/09/para-mudar-os-ares/


Para mudar os ares

Mapas climáticos podem facilitar a reordenação urbana
CARLOS FIORAVANTI | Edição 224 - Outubro de 2014

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de Campinas, SP
© EDUARDO CESAR
Campinas, terceira cidade mais populosa de São Paulo: entre parques e arranha-céus
Campinas, terceira cidade mais populosa de São Paulo: entre parques e arranha-céus
Ao comparar mapas feitos a partir de imagens de satélite e por simulação de computador, a arquiteta e urbanista Alessandra Prata Shimomura verificou que a temperatura média anual do centro da cidade de Campinas está três graus Celsius mais alta hoje do que há 10 anos. De fato, as ruas José Paulino, 13 de maio, Barão de Jaguara e outras próximas são quentes, abafadas e apinhadas de gente, embora espaçosas e limpas. Mapas de temperatura e de vento, como os que ela fez ao longo de três anos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e apresentados em primeira mão à Pesquisa FAPESP, permitem uma revisão das estratégias de planejamento urbano, ao indicar as regiões que ficariam mais agradáveis com mais árvores para fazer sombra para os pedestres e as que deveriam ser poupadas de prédios altos demais ou muito próximos, que bloqueiam a circulação do ar, um fenômeno climático pouco lembrado, mas relacionado ao conforto e à saúde das pessoas. Mostrando o valor dessa abordagem, um mapeamento do movimento do vento de Hong Kong em 2002 indicou os bairros mais vulneráveis e ajudou a conter o avanço da epidemia da síndrome respiratória aguda severa (Sars) nessa ilha da China.
© EDUARDO CESAR
Tráfego intenso nas ruas de Campinas, em São Paulo
Ilhas de calor: tráfego intenso nas ruas de Campinas (SP)
Mapas climáticos começam a ser usados mais intensamente. No Brasil, um dos produtos gerados por trabalhos coletivos – como o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e a Rede Clima, financiada pelo governo federal – são mapas da vulnerabilidade das grandes cidades brasileiras aos efeitos da mudança do clima, oferecidos a prefeitos e outros gestores do espaço público (ver Pesquisa Fapesp nº 171). Ana Rocha, da Universidade Federal de Santa Catarina, e Eleonora Assis e Simone Hirashima, da Universidade Federal de Minas Gerais, valorizaram a ventilação, a iluminação natural, a umidade e a temperatura ao projetar um conjunto habitacional em Governador Valadares, no interior mineiro. “Diante da necessidade de ventilação, foi feito um estudo do terreno utilizando maquete física e túnel de vento para caracterização dos ventos”, relatam em um artigo publicado em 2012. Elas também consideraram “indispensável promover a formação de grupos multidisciplinares e fomentar a comunicação entre os departamentos envolvidos no processo do projeto”.
Alessandra preparou os mapas de Campinas em colaboração com o geógrafo Antonio Manuel Saraiva Lopes, professor da Universidade de Lisboa, que trabalha nessa área desde os anos 1990. Em 2013, em colaboração com Elis Alves, da Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, Lopes examinou o regime de ventos e a variação de temperatura que resultam na formação de ilhas de calor na cidade de Lisboa. Em todo o mundo, de acordo com um levantamento de Chao Ren e Edward Ng, da Universidade de Hong Kong, e Lutz Kaztschner, da Universidade de Kassel, Alemanha, 15 países – principalmente da Europa e da Ásia, e apenas dois da América do Sul, Brasil e Chile – já adotaram essa metodologia, chamada mapas climáticos urbanos e desenvolvida nos anos 1970 na Alemanha como recurso de planejamento urbano.
© EDUARDO CESAR
Avenida movimentada no centro da cidade de Campinas, em São Paulo
Prédios altos no centro da cidade de Campinas (SP) dificultam a circulação de ar, aquecendo o ambiente
Em um estudo a ser publicado na revistaUrban Climate, Michael Hebbert, professor da University College London, volta ainda mais no tempo e situa os primórdios da climatologia aplicada ao planejamento urbano do século XVIII, com o meteorologista inglês Luke Howard, autor do livro The climate of London, deduced from meteorological observations, publicado em 1833, e outros trabalhos similares na França e na Alemanha. Nessa época, poluição do ar e ventilação preocupavam tanto quanto o abastecimento e a drenagem de água, mas os danos causados pelas chaminés residenciais eram mais difíceis de resolver que a qualidade da água.
“Hoje temos vários instrumentos e tecnologias, como as imagens de satélites e as fotos aéreas e mesmo os drones, que permitem olhar a cidade sob a ótica do clima urbano e facilitam o reconhecimento das áreas mais ou menos aquecidas, com maior ou menor circulação de ar; em parceria com instrumentos de medição de variáveis climáticas”, diz Alessandra. Seus mapas finais, que resultaram de uma combinação de outros mapas e de informações processadas por meio de um programa de computador, indicaram que os ventos vêm do litoral, trazendo tanto a brisa do mar quanto a poluição da cidade de São Paulo, e passam ainda intensos pelas cidades de Valinhos e Vinhedo antes de entrar no centro de Campinas, perder velocidade ao atravessar a cidade e sair em direção a Limeira.

Em geral, a cidade de Campinas, a terceira mais populosa do estado, depois de São Paulo e Guarulhos, “é satisfatória na escala regional, mas não se deve descuidar”, ela conclui. “Agora poderiam ser feitas análises in loco, para ajustar as conclusões e medir a satisfação dos usuários em cada lugar.” Em escala regional ou local, ela lembra, o clima não é só um atributo intocável da natureza, mas também é construído e depende das decisões das pessoas, que constroem casas ou prédios que barram o vento ou aquecem ou esfriam com rapidez.
Dos mapas climáticos urbanos emergem possibilidades de ação para manter ou melhorar o chamado conforto ambiental, que faz uma cidade, principalmente sua região mais povoada, o centro, agradável ou sufocante. No caso de Campinas, uma das recomendações é preservar os corredores de ventos, como as matas, as grandes avenidas, as rodovias e o fundo dos vales, que ajudam a minimizar o efeito da temperatura nesses locais. Outra é manter a diversidade das formas de ocupação de espaço, conciliando áreas construídas e áreas verdes e abertas como a fazenda do Instituto Agronômico (IAC), já na área urbana. “Campinas ainda não é uma São Paulo”, ela compara, lembrando-se dos vastos tapetes de ruas asfaltadas e prédios quase sem árvores como os da zona leste da capital.
© COLEÇÃO V8 / CENTRO DE MEMÓRIA-UNICAMP
Outros tempos: rua Barão de Jaguara com rua General Osório, centro de Campinas, em 1928
Outros tempos: rua Barão de Jaguara com rua General Osório, centro de Campinas, em 1928
Trabalhos como o de Alessandra sugerem mais atenção a soluções simples e a conceitos antigos, embora nem sempre lembrados, de engenharia e arquitetura. Em um estudo divulgado em setembro, por exemplo, o arquiteto e urbanista da Unicamp Fernando Durso Neves Caetano verificou que muros externos cobertos por plantas, chamados de muros vivos, podem reduzir em até seis graus Celsius a temperatura interna de casas e prédios em dias quentes de verão e, inversamente, retendo o calor nos dias frios.
De modo mais amplo, pode-se pensar em expandir a participação dos cidadãos em suas cidades. Uma das formas cogitadas por Alessandra é a criação de agentes urbanos, que poderiam acompanhar e representar os moradores de um bairro, zelando pelo espaço público e mediando pedidos e reclamações à prefeitura. “Os moradores querem informar ou reclamar sobre problemas das ruas e geralmente têm dificuldade para encontrar com quem falar”, diz ela. “Os pedidos de podas de árvores, por exemplo, podem demorar anos até serem atendidos!” Alessandra, até o final do ano, pretende voltar à Defesa Civil de Campinas e entregar os mapas elaborados com as informações sobre quedas de árvores, galhos, casas e prédios destelhados pelo vento, que ela pediu e lhe passaram há dois anos. “É um retorno que eu tenho de dar”, diz ela. Será seu primeiro encontro com os possíveis usuários de seus mapas.
Projeto
Dinâmica urbana e ordenamento territorial: mapa climático urbano e sua aplicação no planejamento (nº 10/19447-7); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Alessandra Rodrigues Prata Shimomura (Unicamp); Investimento R$ 63.349,26 (FAPESP).
Artigos científicosHEBBERT, M. Climatology for city planning in historical perspectiveUrban Climate. 2014. on-line.
ROCHA, A. P. de A. et alConjunto para habitação social com princípios bioclimáticos para o município de Governador Valadares, MGRevista de Arquitetura Imed. v. 1, n. 2, p. 122-32, 2012.
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