Monday, 2 November 2015

Relatório de Campo - Comunidade de Mata Cavalo: etapa Projeto Político Pedagógico (10/09)

Déborah Moreira
Edilaine Mendes
Elizete dos Santos

No dia 10 de setembro de 2015, chegamos a Escola Estadual Professora Tereza Conceição de Arruda na comunidade quilombola de Mata Cavalo às 14h, a equipe presente foi: Elizete, Anita, Priscilla, Deborah, Caio e Edilaine. Fomos recebidos pela diretora Eliane Arruda e a coordenadora pedagógica Rosângela.
Para o início dos trabalhos nos dividimos em dois grupos, um com professores, funcionários da escola e membros da comunidade para tratar do Projeto Político Pedagógico (PPP) e Educação Ambiental (EA) com a Edilaine e outro com os estudantes do Ensino Fundamental e Médio para falar sobre Protagonismo Juvenil, e compreender a atual situação dos jovens de Mata Cavalo em relação à escola e à comunidade com a Elizete.
Com @s estudantes fizemos um momento de conversa, e buscamos sensibilizá-l@s para a importância do engajamento político para construir um Brasil que respeite as diversidades (Figura 01).
Figura 1-Diálogo com os estudantes.
Foto: Anita Aiko
  
 Trouxemos notícias sobre a 3ª Conferência Nacional da Juventude (CNJ) que será realizada em dezembro de 2015, pela Secretaria Nacional da Juventude em Brasília. @s estudantes ainda não sabiam da Conferência e demonstraram interesse em participar. A partir de então os estimulamos a pensar sobre realidade da comunidade a partir dos onze eixos temáticos da 3ª CNJ que são: Participação, Educação, Saúde, Trabalho, Diversidade e Igualdade, Cultura, Direito a Comunidade, Esporte e Lazer, Meio Ambiente, Território e Mobilidade e Segurança e Paz, e que tem por tema: As várias formas de mudar o Brasil.
Dialogamos sobre as situações que gostariam de mudar tanto na escola como na comunidade, foram momentos que expressaram seus sonhos, desejos, dilemas e dificuldades.
Os jovens relataram que poucos são os momentos em os adultos os escutam, talvez o pouco diálogo entre gerações interfira na sua entrada e permanência em “espaços” da comunidade em que se organizam as lutas; alguns disseram que ouvem falar de notícias sobre o quilombo e a luta, mas não se sentem inseridos e nem convidados à participação.
Um grupo de estudantes demonstrou bastante interesse em criar uma organização estudantil para discutir questões relacionadas à juventude e aos dilemas enfrentados pela comunidade. Citaram a questão da discriminação racial fora e dentro do quilombo, e até na Escola. Relataram que muitas vezes, quando o grupo de dança se apresenta para outras escolas e em cidades do entorno, são vítimas de racismo, situações que descrevem como dolorosas e incômodas. Este grupo também manifestou o desejo produzir um vídeo ou escrever um pequeno livro contando el@s mesmos às histórias de Mata Cavalo.
Convidamos @s jovens para pensar em propostas a partir dos eixos de debates da CNJ. Os eixos escolhidos por eles foram: Cultura, Direito à Comunicação, Meio Ambiente e, Diversidade e igualdade.  Finalizamos a oficina com alguns jovens entusiasmados com a possibilidade de se inscreverem na Conferência e de criarem na escola um espaço para maior atuação e participativos d@s estudantes.
Quanto ao diálogo sobre o PPP e EA (Figura 1), iniciamos com uma reflexão a partir do poema: “Onde você vê” de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro).
Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
Onde você vê um motivo para se irritar,
alguém vê a tragédia total
e o outro vê uma prova para sua paciência.
Onde você vê a morte,
alguém vê o fim
e o outro vê o começo de uma nova etapa…
Onde você vê a fortuna,
alguém vê a riqueza material
e o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.
Onde você vê a teimosia,
alguém vê a ignorância,
um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.
E que é inútil querer apressar o passo do outro,
a não ser que ele deseje isso.
Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.
“Não sou da altura que me veem,
Mas sim da altura que os meus olhos podem ver.”

A partir daí o debate foi se construindo e ampliando, na perspectiva de perceber que a ação pedagógica se dá a partir de diferentes olhares, saberes, sentires, fazeres e aprenderes e, assim, faz-se necessário entender que cada um tem o seu próprio ritmo de ensino e aprendizagens. Instigamos os participantes e lançamos alguns desafios para buscar informações como por exemplo: e a escola como vai? Vem se atualizando? Vem inovando suas propostas de pedagógicas? Vem se tornando prazerosa? Houve uma participação bastante expressiva e reflexiva por parte dos participantes, pudemos perceber que eles se preocupam com a formação continuada dos professores, afirmaram que, na medida do possível, vem implantando na prática educacional alternativas educativas mais atraentes aos alunos e afirmam sua identidade enquanto comunidade escolar quilombola.
Figura 2-Diálogo com a comunidade escolar de Mata Cavalo
   Foto: Anita Aiko

                                        
 Adentramos na dimensão educação partindo das indagações “que escola queremos? Para quem? ” Trouxemos para o debate a perspectiva de que educação não ocorre somente na escola, mas que é preciso se atentar para os processos educativos fora dela. E que é papel da escola promover o diálogo entre os diversos segmentos sociais, provocando a aliança entre a educação escolarizada e a educação popular, construindo um currículo escolar mais próximo das vivências, ou seja um currículo da vida. Um currículo que venha integrar escola e comunidade, por meio da construção de projetos cidadãos, de Projetos Ambientais Escolares Comunitários.
Ao tratar da temática meio ambiente, partimos de três dimensões: quem somos? Como nos relacionamos com o outro? E, como percebemos o mundo que habitamos? Pois entendemos que etapas de descobrimento e redescobrimento contribuem para a compreensão dos fenômenos, assim o diálogo sobre ambiente foi ancorando na corrente filosófica da fenomenologia. A abordagem sobre a dimensão ambiental implicou iniciar a reflexão desde ecologia interna (identidades, valores, percepções a cerca do mundo e dos fenômenos).
Reforçamos que a inclusão da temática EA no PPP da escola não pode se dar de maneira pontual e como forma de resolver problemas socioambientais, pois esse não consiste em seu preceito. A EA deve ser incorporada de forma transversal, transcendendo os problemas evidenciados, considerando outras perspectivas de maneira que compreenda um fenômeno, propondo atividades para comunidades biorregionais, reinventando o currículo, recuperando histórias e mitologias quilombolas, manifestações da cultura afro-brasileira, valorizando a diversidade étnico-racial, sendo uma proposta duradoura entendida como “sustentabilidade”.
A partir de um breve estudo feito anteriormente no PPP da escola, percebemos que a temática evidenciada no documento, sobre EA, traz uma referência na perspectiva do “desenvolvimento sustentável”, assim achamos prudente trabalhar o texto de Sato (2008) intitulado “Em busca de sociedades sustentáveis”, enfatizando bem qual sociedade queremos e pontuando a tabela 1, identificada no texto como “Sustentabilidade”, a qual traça um paralelo que diferencia “sociedade sustentável” de “desenvolvimento sustentável”. Dialogamos também, com base no caderno pedagógico 3 – Educação Ambiental/Série Mais Educação/MEC, elaborado por Rachel Trajber e Silvia Czapski, os 10 itens de uma escola sustentável: integridade, conhecimento e saberes, cultura, ética do cuidado, transformação, democracia, responsabilidade socioambiental, criatividade, metas e transversalidade. Cada item foi pontuado e no diálogo com a comunidade escolar presente, foram relacionando a discussão com as ações que já são fortemente tratadas e que vem sido construídas na escola.
Na finalização do diálogo, retomamos os cartazes (Figura 2) que foram confeccionados pela comunidade escolar e formadores do GPEA em um dos encontros anteriores. Na dinâmica efetuada, anteriormente, representaram no desenho de 3 árvores, as pedras encontradas no caminho e os sonhos almejados, na perspectiva de construir uma escola sustentável a partir de seu tripé espaço-currículo-gestão.

Figura 3-Retomando a dinâmica pedras e sonhos.
 Fotos: Anita Aiko. 




        
Assim, tentamos evidenciar que é possível inserir a EA de maneira transversal no ambiente de aprendizagem escolar, porém há a necessidade da construção ou revisão de seu PPP deixando explícito que a proposta consiste no incentivo do desenvolvimento de habilidades e valores da comunidade escolar para estilos de vida sustentáveis.

Bibliografia
BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica. Série Cadernos Pedagógicos – Educação Ambiental. Brasília: 2011, 55p.
BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Processo formador em educação ambiental a distância: módulo 4: projeto ambiental escolar comunitário. Brasília: 2009, 98p.
SATO, Michèle. Em busca de sociedades sustentáveis. Pátio – Revista Pedagógica: Educação para o desenvolvimento sustentável. Porto Alegre: ano XII, maio/jun. 2008. P. 55-59


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