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Thursday, 7 August 2014

Encontro discute mudança do clima, qualidade das sementes e promove feira de trocas

amazônia
http://amazonia.org.br/2014/08/encontro-discute-mudan%C3%A7a-do-clima-qualidade-das-sementes-e-promove-feira-de-trocas/

Encontro discute mudança do clima, qualidade das sementes e promove feira de trocas

Entre baldeações e conexões para chegar a São Félix do Araguaia (MT), 70 coletores de 21 municípios de MT, parceiros e convidados de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Pará participaram do 11º Encontro Geral e da 2ª Assembleia Geral da Rede de Sementes do Xingu, onde dividiram saberes, culturas e práticas.
Coletores apresentam sementes e fazem trocas
No encontro organizado pela Associação Rede de Sementes do Xingu e pelo ISA, entre 31 de julho e 2 de agosto, com apoio da Articulação Xingu Araguaia (formada pela Ansa, ATV, CPT, ISA e Opan), os participantes conheceram e trocaram mais experiências sobre iniciativas econômicas sustentáveis a partir da coleta de sementes e produtos da sociobiodiversidade.
Durante a assembleia ocorrida na manhã do primeiro dia, a diretoria apresentou um balanço geral da Rede entre julho de 2013 e julho de 2014 destacando as realizações a comercialização de sementespela Rede de sementes do Xingu (RSX) em 2013 bem como o histórico de produção de cada núcleo coletor. A diretora da associação, Bruna Ferreira, falou sobre a importância de cada núcleo honrar o compromisso de entrega de sementes sob pena de a Rede não conseguir cumprir o compromisso com os compradores.
No debate, os coletores alertaram sobre as alterações que a natureza vem sofrendo, o que impacta a capacidade de planejamento de produção e manejo e consequente entrega. “As lavouras de soja estão passando por cima de tudo, a água, a terra, o clima está diferente e parece que pessoas não estão se importando”, disse Francisco Vieira, coletor do assentamento Dom Pedro, em São Felix do Araguaia, MT. “Na nossa área o número de mirindiba está diminuindo e assim nós temos que plantar essas espécies”, disse Odete Severino, de Bom Jesus do Araguaia.
Qualidade das sementes
O coordenador adjunto do Programa Xingu do ISA, Rodrigo Junqueira, apresentou os desafios a serem enfrentados e os participantes discutiram os resultados de uma pesquisa encomendada pela Rede que diagnosticou os pontos fortes, fracos e as ameaças da Rede. Os debates também abordaram a qualidade das sementes, apontada como um elemento que deve sempre ser melhorado.
Nesse sentido, o laboratório de sementes florestais inaugurado em maio, fruto de uma parceria entre a Rede de Sementes e a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat), campus de Nova Xavantina, vai permitir que se conheça mais profundamente as características fisiológicas de algumas espécies coletadas. “O laboratório vai emitir um boletim de análises dessas sementes o que aumentará a credibilidade da Rede no mercado e vai possibilitar novos estudos e práticas para melhorar a qualidade das sementes coletadas”, explicou Danilo Ignácio, engenheiro florestal e consultor da Rede de Sementes do Xingu Nesse caminho pela adequação, ficou definido que o próximo passo da Associação da Rede de Sementes de Xingu, será o seu credenciamento como Produtora de Sementes Florestais junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O objetivo é que até o final do ano seja emitido o Renasem, Registro Nacional de Sementes e Mudas.
A Rede de Sementes mantém a parceria iniciada há três anos com a Organização Ecosocial do Araguaia, Oeca. A organização administra um fundo de microcrédito para Rede, onde os coletores, em grupo, acessam recursos para apoiar o trabalho da coleta, beneficiamento e atividades correlatas. A coordenadora da Oeca, Dudi Oliveira, conversou com os coletores e ouviu as suas experiências com a utilização do crédito. “A rotatividade do crédito se dá pelo uso e pelo retorno do recurso, assim quanto mais acessam e pagam, mais os coletores podem acessar”, afirmou Dudi. O coletor Ivan Loche, de Canarana, incentivou os coletores a acessarem o Fundo. “Coleto num raio de 60 km e o crédito fez a diferença, pois o utilizei para custear as despesas com o combustível”.
Para além dos plantios
Pelo quarto ano consecutivo, a professora Fátima Piña Rodrigues, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), esteve no encontro.  Dessa vez , ela apresentou a iniciativa da Rede de Sementes Rioesba que começou a investir em artesanato com as sementes que perderam capacidade de germinação durante o processo produtivo.  “Para o artesanato é preciso talento e mercado, mas essa é uma oportunidade para que os coletores explorem mais as possibilidades dos trabalhos com as sementes”, enfatizou.  Durante a oficina os participantes, em grupos, criaram suas próprias peças e aprenderam uma técnica de furar sementes com o povo Kaiabi.
Wareaiup Kaiabi, coordenador da Associação Terra Indígena Xingu falou sobre o Mel dos Índios do Xingu, produzido por apicultores indígenas do Parque Indígena do Xingu e comercializado pela Atix em parceria com a rede de supermercados Pão de Açúcar. Maria da Graça, extrativista em Altamira (PA) e Fabiola Silva, engenheira agrônoma do ISA Altamira, apresentaram o trabalho realizado nas reservas extrativistas (Resex) daquela região. Com apoio do ISA e de organizações parceiras essas comunidades estão produzindo mais de 15 subprodutos das árvores e sementes da Amazônia, entre óleos, artesanatos e alimentos.
Saberes compartilhados
Durante o encontro foi distribuída a cartilha Coletar, Manejar e Armazenar as Experiências da Rede de Sementes do Xingu, elaborada a partir da experiência e conhecimento dos coletores.  Liderados pela professora Fátima os participantes realizaram uma atividade para conhecer o conteúdo da publicação na qual tinham de procurar a resposta para oito perguntas relacionadas à produção de sementes.  “Foi muito bom, porque a gente vai levar esse material para os outros coletores que também vão ver que o nosso trabalho está sendo reconhecido.  A gente vê na cartilha que eles ouviram a gente e assim quando alguém tiver uma dúvida pode ir lá ver como que faz”, disse a coletora Cleusa Nunes, de Bom Jesus do Araguaia.
Representantes de algumas organizações parceiras como o Funbio, o Fundo Vale, a Embrapa Agrosilvipastoril de Sinop participaram do encontro além de convidados da Rede de Sementes do Cerrado e dos Extrativistas das Resexs da Terra do Meio, Altamira (PA). Ingo Isernhagen, pesquisador da Embrapa, apresentou alguns projetos de restauração desenvolvidos pela entidade. “A muvuca abriu caminho para a pesquisa, e com o método de semeadura direta você tem menos perdas que com a muda, mas ainda não é possível saber quantas sementes vão nascer em cada hectare, ainda precisamos estudar mais a muvuca pois ela oferece muitas oportunidades”, avaliou.
“Desse trabalho em rede, dos conhecimentos dos coletores e de suas experiências com a preservação das sementes surgiu a necessidade de fortalecer um espaço dentro da Rede para a troca de sementes visando a soberania alimentar”, explicou Claudia Araújo, diretora da Associação da Rede de Sementes do Xingu. Na Feira de Sementes, realizada durante o encontro, cada pessoa que trouxe semente crioula contou um pouco da história da variedade. Foram feitos cadastro das sementes que foram distribuídas e de quem as levou, para poder acompanhar o crescimento dessas sementes na região. Foram doadas e trocadas sementes de muitas variedades de milho, feijão, batatas, abóbora crioula, mamão, açafrão, além de espécies nativas do Cerrado como merindiba e abíú. Alguns carregam essas sementes há décadas nas famílias, como o coletor Pedro Righi, do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, em Bom Jesus do Araguaia (MT) que planta uma espécie de feijão há mais de 20 anos.
Na noite cultural foram entregues lembranças para os grupos e coletores que se destacaram pela organização, pela qualidade de suas sementes e por entregar a quantidade de sementes que foi pedida.  Foram expostos artesanatos dos indígenas do Xingu, dos Karajá e Xavante, cerâmicas, pulseiras, colares, esteiras, mel do Xingu, pimenta do povo Kisêdêje e bordados e quadros das mulheres assentadas.  Um concurso de forró embalou a noite do grupo ao som da sanfona do seu Placides, um dos coletores da Rede.  Os participantes gostaram da ideia e provavelmente o concurso será incluído na programação dos próximos encontros.
Fonte: ISA – Instituto Socioambiental

Tuesday, 13 May 2014

Biblioteca Digital da Questão Agrária Brasileira.

http://www.reformaagrariaemdados.org.br/biblioteca

Companheiros e companheiras,
É com muita alegria que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra apresenta a todos interessados, pesquisadores e militantes das mudanças no campo brasileiro  NOSSA,Biblioteca Digital da Questão Agrária Brasileira.

Essa Biblioteca virtual, construida na internet  representou os esforços coletivos de muitos companheiros/as e agora nessa semana, a lançamos oficialmente, durante o encontro nacional de pesquisadores da reforma agraria, realizado na nossa Escola Nacional Florestan Fernandes.
O Objetivo da biblioteca é reunir e organizar em um só sítio eletrônico o máximo possível de material produzido no Brasil que contribui com a luta pela terra, pela Reforma Agrária, Agroecologia e Soberania Alimentar. 
Acreditamos que agrupar esta produção de conhecimento facilitará a pesquisa e o estudo de todas e todos que atuam na área, além do incentivo e da ajuda na divulgação dos trabalhos comprometidos com essa luta.
Nossa biblioteca está dividida em doze sessões:
 
  1. Livro
  2. Artigo e ensaio
  3. Dissertação e tese
  4. Revista
  5. Jornal
  6. Caderno de estudo e Cartilha
  7. Documento
  8. Literatura e Cultura do Campo 
  9. Poesia
  10. Cartaz
  11. Videoteca
  12. Páginas na Intern
NOVAS CONTRIBUIÇÕES E DE FORMA PERMANENTE
Contudo, nossa Biblioteca é um projeto coletivo e em construção permanente. Ocupamos a área virtual e já assentamos a primeira leva de conhecimento. Por enquanto, temos mais de 1.600 PDFs e centenas de materiais lincados.
Agora, o próximo passo depende da cooperação de todos/as que puederem contribuir.  Confiram as tematicas de cada sessão e se tiveres algum material , por favor nos enviem, que poderiamos aglutinar, para estar a disposiçao de todos.  Ficamos no aguardo das contribuições, que deverão ser enviadas para o correio eletrônico questaoagrariabrasileira@gmail.com 
O endereço da Biblioteca é:
Vale destacar que esta Biblioteca, como poderão ver, é parte do projeto "Dados e textos sobre a luta pela terra e pela Reforma Agrária", que ainda está em andamento e em breve será publicado.
Grande abraço, boa pesquisa, bom estudo!
 
Secretaria naiconal / setor de banco de dados
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
São paulo, 12 de maio de 2014

Thursday, 12 December 2013

Miguel Altieri: Precisamos de agricultura com estratégias de adaptação para mudanças climáticas

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Miguel-Altieri-Precisamos-de-agricultura-com-estrategias-de-adaptacao-para-mudancas-climaticas%0a/3/29772

Miguel Altieri: Precisamos de agricultura com estratégias de adaptação para mudanças climáticas

Referência no pensamento agroecológico na América Latina, o pesquisador chileno Miguel Altieri fala sobre os avanços da agroecologia na região.


Eduardo Sá
Eduardo Sá

Referência no pensamento agroecológico na América Latina, o pesquisador chileno Miguel Altieri, da Universidade de Berkeley/Califórnia e ex-presidente da Sociedade Científica Latino-Americana de Agroecologia (Socla), fala sobre os avanços da agroecologia na região. Autor de vários livros sobre o tema, Altieri defende mudanças no sistema agroalimentar para reduzir os impactos na saúde humana e no meio ambiente. O professor também se preocupa muito com a adaptação dos modelos agronômicos para resistir às mudanças climáticas no futuro.

Altieri conversou conosco durante o VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em Porto Alegre entre os dias 25 e 28 de novembro. Mais de quatro mil pessoas passaram pelo evento, fato que reforça suas observações em relação ao crescimento da agroecologia no Brasil. Ele foi um dos palestrantes durante as atividades e lançou dois novos livros em co-autoria com sua esposa, Clara Nicholls: Agroecologia e mudanças climáticas e Desenhos agroecológicos, que trazem elementos para reflexão com experiências em diversos países na América Latina.

A questão do agrotóxico é a mais grave no contexto da produção agronômica moderna?

O problema principal é esse modelo de agricultura industrial, de monocultura em grande extensão acompanhada do pacote de agrotóxicos e que tem um impacto ecológico muito grande. É um sistema muito vulnerável às mudanças climáticas, porque não tem diversidade e mecanismos de resiliência. Então, colocar a alimentação do mundo nas mãos desse modelo, que também impacta o meio ambiente, é muito perigoso para a humanidade. Precisamos ter uma alternativa, uma proposta agroecológica que não se limite a agricultura camponesa.
Defendemos que possa ser aplicada também na grande propriedade.

A agroecologia toma diversas formas tecnológicas de acordo com a escala, então é claro que os camponeses e a agricultura familiar podem apoiar porque são os responsáveis por manter a biodiversidade, as sementes crioulas e os conhecimentos tradicionais. Tem assentamentos que já não são latifúndios, mas estão nas mãos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), movimentos sociais ou setores informais. Esse é o caso da Venezuela, então você tem que fazer uma proposta agroecológica de larga escala. Não podemos pensar que todos aqueles que têm terras de mais de 200 hectares são latifundiários malditos, há muita gente boa com propriedades de 300 hectares que quer fazer uma conversão para a agroecologia.

A agroecologia é uma série de princípios que tomam formas tecnológicas diversas e dependem do contexto. Nos sistemas agrícolas de pequena escala, por exemplo, é muito fácil fazer porque estão perto da lógica da diversidade e da reciclagem. Já na grande escala é mais difícil, mas não é impossível: você pode trabalhar com corredores biológicos que cortam a monocultura, realizar sistemas agroflorestais de larga escala, sistemas de policultivos intercalados em faixas, etc. Então a agroecologia é o único modelo viável para o futuro que se pode aplicar em larga escala, porque oferece um modelo que não depende do petróleo e diversifica as propriedades com todas as suas bondades ecológicas, além de propor uma agricultura resiliente à mudança climática.

No meu mais recente livro, que trabalhei com a Socla e uma rede de pesquisas, tem toda uma metodologia e sistema que desenvolvemos para casos de eventos climáticos que afetam os agricultores. Alguns deles são menos afetados, enquanto outros mais e outros pouco. Como o caso de três furacões em 2008 em Cuba, onde alguns agricultores suportaram. Então queremos estudar quais são os mecanismos de resiliência sócio-ecológica, como os agricultores resistem e se recuperam. Precisamos de uma agricultura com estratégias de adaptação para as mudanças climáticas e o futuro. Isso reflete todas as questões das organizações sociais, as políticas agrárias e tudo mais, mas é muito mais importante como se desenham os agroecossistemas para que se adaptem às mudanças climáticas. 
Não é preciso somente o manejo de solo e água, mas também manejos agronômicos da biodiversidade no tempo e espaço. É preciso uma resposta técnica muito forte para isso.

Em termos de América Latina, quais são os dados no sentido das proposições? No que temos avançado nesse campo?

Cuba é o país com a proposta mais concreta, sólida e técnica na América Latina, mas isso foi por uma necessidade: a importação de agrotóxicos e petróleo, então teve de voltar-se para uma agricultura orgânica de substituição de insumos e depois uma agricultura com base agroecológica. Porque foram criando os sistemas de diversidades, essa é a última fase da transição tecnológica. Você passa primeiro pelo manejo integrando pragas, depois a agricultura orgânica com a substituição de insumos, que são orgânicos mas com monoculturas de produtores orgânicos e botânicos, e na última etapa você cria os desenhos agroecológicos com diversidade para promover as interações ecológicas necessárias para determinada proporção, etc .

E no Brasil, há um processo de crescimento da agroecologia nesse contexto?

No Brasil há propostas tecnológicas isoladas de diferentes escalas. Conheço sistemas agroecológicos de grande escala, como o Ecocitrus aqui perto do Rio Grande Sul, que produz frutos cítricos. Em São Paulo tem uma propriedade de 1.600 hectares de sistemas canaviais, pastoris, agroflorestais, etc. Existem propostas de agroecologia em pequena escala, projetos de muito tempo com ONG’s como a AS-PTA, e com camponeses em alguns assentamentos interessantes. Na questão técnica no Brasil, existem experiências mas isoladas e não servidas pelo que chamamos de faros agroecológicos. Esses pontos de interação precisam ser sistematizados, explicando por que aquelas experiências e princípios funcionam para incorporá-los em nossa proposta.

Creio que o Brasil está muito mais avançado que o resto da América Latina em tudo relacionado aos mercados alternativos, como a Rede Ecovida, que é um ponto de referência latinoamericano. E nas políticas, apesar de as pessoas daqui afirmarem que não são suficientes, é o único país que tem uma lei nacional de agroecologia no mundo. Isso é muito importante, porque é uma plataforma chave para aumentar a escala da agroecologia. O Brasil está muito avançado, tem uma grande diversidade de agricultura, permacultura, homeopatia, agroflorestas, etc.
Mas há uma confusão porque muitos pensam que isso é agroecologia, só que você pode fazer uma monocultura orgânica que não tem base agroecológica. Então a agroecologia não é somente um sistema de produção, é uma ciência com uma série de princípios aplicados de uma forma tecnológica que fomenta processos ecológicos. 

Quais as virtudes do modelo agroecológico e seus impactos mais positivos na vida prática?

A agroecologia tem crescido, tem uma teoria unida com a prática e os movimentos sociais que criou um nível de consciência sobre a necessidade de mudar o sistema alimentar. É o primeiro impacto do ponto de vista político, da consciência planetária da necessidade de mudanças e não somente no discurso vazio já que oferece uma alternativa. O segundo impacto é que a agroecologia tem influenciado a pesquisa científica nas universidades e centros de pesquisas, existem mudanças fundamentais nesse sentido e isso é muito positivo. O terceiro e mais importante é que agroecologia está agora nas mãos dos movimentos sociais, a Via Campesina, o MST e todos da agroecologia, como uma proposta concreta, técnica, científico-metodológica para apoiar a soberania alimentar. Na medida em que vai crescendo, você verá mudanças na saúde humana e meio ambiente. Mas você também pode ver experiências locais, onde se aplica a agroecologia de forma concreta em comunidades, e perceber efeitos positivos sobre a saúde humana, a qualidade alimentar, ambiental e uma série de parâmetros sociais, ambientais e econômicos.
Em nível local já se pode medir esses indicadores e notar claramente esses impactos.

Saturday, 9 November 2013

Agroecologia: brotam sementes livres

OP
http://outraspalavras.net/blog/2013/11/05/agroecologia-brotam-sementes-livres/

Agroecologia: brotam sementes livres

plantas
O Plano Nacional de Agroecologia é uma conquista dos movimentos que reivindicam uma nova política agrícola. E uma oportunidade para a sociedade escolher de que se alimenta
Por Bruna Bernacchio
Mais de um ano depois de intenso trabalho conjunto do governo e organizações do campo, foi lançado em 17 de outubro o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, que apresenta medidas concretas a serem implementadas até o fim de 2015. O investimento, de R$ 8,8 bilhões nos próximos três anos, é inédito na produção agroecológica brasileira. Ainda não representa nem um décimo do subsídio dado pelo governo federal ao agronegócio, mas é um primeiro passo para fortalecer a agroecologia e permitir que a sociedade reflita a respeito da autonomia alimentar.
Desde o lançamento das diretrizes políticas instituídas no decreto nº 7.794, de agosto de 2012, coube à Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo) – formada, metade por representantes da sociedade organizada e metade por órgãos públicos –, a tarefa de dialogar com 14 ministérios, representados na Câmara Interministerial de Agroecologia e Produção Orgânica (Ciapo). Um ano depois, são lançadas a público as 125 iniciativas do Plano, a serem iniciadas ainda em 2013, e atingidas até o final de 2015. Estão distribuídas em quatorze metas e organizadas a partir de quatro eixos estratégicos: a) produção, b) uso e conservação de recursos naturais, c) conhecimento, e d) comercialização e consumo.
Para a agroecologia, que sempre existiu como prática mas que já há um século consolidou-se como conhecimento científico – sem nunca ter apoio do Estado –, os recursos de R$ 8,8 bilhões são inéditos.
Desses, 7 bilhões em forma de crédito rural, em modalidades de custeio e investimento. R$2,5 bilhões para financiar pequenos sistemas de base agroecológica, através do já existente Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que no próximo ano, conforme Plano Safra 2013/2014, terá recurso total de R$ 39 bilhões. Isso significa que, de todo o subsídio para agricultura familiar, 5% passarão a ser reservados para agricultura familiar orgânica. E R$ 4,5 bilhões disponibilizados por meio das linhas de crédito do Plano Agrícola e Pecuário, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e portanto não exclusivos para agricultura familiar, mas também para grandes produtores. Terão como objetivo estimular a conversão para sistemas agroecológicos e sua ampliação. A transição é definida no conceito normativo da agroecologia, e, uma vez completa, deverá seguir as normas de certificação.
Somente 10 mil agricultores possuem certificado de produção com base agroecológica, hoje, no país – segundo dados do Plano. A meta é chegar aos 50 mil certificados, o que inclui mecanismos de visita e avaliação de garantia de qualidade. Mas esse número se refere somente à certificação de auditoria, explica Dênis Monteiro, da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Além dele, existem a certificação por Sistema Participativo de Garantia (SPG) e a partir de organismo de controle social – estabelecido em casos de venda direta, ou seja, feiras, mercados locais ou por Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Pelo Censo Agropecuário do IBGE de 2006, cerca de 90 mil produtores – entre familiares e industriais – se autodeclaram orgânicos, ou seja, não utilizam em sua produção agrotóxicos ou nenhum tipo de insumo químico ou geneticamente modificado. Isso não significa, porém, que se baseiam na agroecologia. A grande maioria ainda desenvolve o sistema tradicional de produção – realizando queimas do solo ou monoculturas, por exemplo –, mas, com os créditos e aperfeiçoamento técnico que o Plano pretende oferecer, pode realizar a transição para o sistema agroecológico facilmente.
Se comparado aos R$ 138 bilhões de recursos ao agronegócio, definidos pelo Plano Safra 2013/2014, os R$ 8,8 bilhões para a agroecologia são quase insignificantes. Ainda assim, trata-se de mudança importante que começa a ser inserida no crédito do Mapa e do Pronaf. Além dos recursos em crédito, os R$1,8 bilhões restantes terão diversos destinos.
Indiretamente, ainda para produção, R$805 milhões, vindos do BNDES, servirão para apoiar 30 redes, 250 projetos e 100 cooperativas voltadas à articulação e ao fortalecimento da produção, processamento, certificação, e comercialização de produtos. Tal recurso leva em conta uma característica essencial do movimento de formação e expansão da agroecologia: a ação em rede. A troca de saberes, técnicas e insumos é a base das relações entre os agricultores. São centenas de organizações e associações municipais e estaduais que atuam como agregadoras. Vale ressaltar que, dos R$ 805 milhões, 30% dos projetos devem ser para mulheres.
A especificação de gênero também está presente em edital da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), que vai atender 75 mil pessoas, sendo 50% mulheres. Além da ampliação e enfoque dado ao Ater, o eixo “conhecimento” prevê uma série de medidas para apoiar e fortalecer a área nas instituições de ensino. Vai apoiar projetos que incentivem a produção de conhecimento e inovação tecnológica e que integrem atividades de pesquisa, educação e extensão para a construção e socialização de conhecimentos e práticas relacionadas. Vai também realizar oficinas externas para fortalecer a rede de agroecologia e incorporar o tema nas demais redes; apoiar publicações, implementar novos núcleos de pesquisa; e outras medidas, entre elas, algumas específicas para estimular a autonomia da juventude.
O eixo “uso e conservação de recursos naturais” tem duas grandes frentes de ação. A primeira vai destinar mais de R$ 168 milhões em 14 medidas para a diversidade das sementes criolas – produção, manejo, conservação, aquisição, distribuição, mapeamento de espécies, apoio a organizações, trabalhos de educação ambiental, e compra das sementes pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) – que, também pelo Plano, vai adquirir produtos já prontos para consumo.
A valorização das sementes livres resiste como movimentos independentes no mundo todo. Vinda do Estado, é um recurso surpreendente e muito bem-vindo. A segunda frente desse eixo “uso e conservação de recursos naturais”, bastante tímida, leva em conta o respeito à preservação e o uso sustentável dos territórios, mas, com apoios que se limitam a passos iniciais, de estudos, pesquisas, diagnósticos e mapeamentos.
Por fim, para “comercialização e consumo”, estão previstas 13 medidas, entre elas a disponibilização de R$ 23 milhões para promover a participação de agricultores familiares, assentados, comunidades e povos tradicionais em feiras – sem definir quantidade ou territórios. Também torna política nacional a aquisição de produtos da agricultura familiar pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), numa proporção ainda tímida de 30%. Quanto à esperada popularização e ampliação de orgânicos nos mercados “comuns”, uma única medida vai “qualificar a gestão de 150 Organizações Econômicas Familiares (OEF) de agricultores agroecológicos e orgânicos”, ampliando o acesso dos produtores a esses locais.
Além dessas e outras metas que apoiam o fortalecimento da agricultura orgânica está uma, única, que indica o início do combate ao agronegócio: “criar um programa nacional para a redução do uso de agrotóxicos”. Terá recurso total de pouco mais de R$23 milhões, para a realização de sete medidas, entre elas: desenvolver um Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxico satravés de grupos de trabalho; revisar a legislação ampliando os mecanismos de controle, considerando o grau de risco dos produtos utilizados atualmente; listar agrotóxicos prioritários a terem suas autorizações de uso no Brasil reavaliadas, lista essa “que passará a ser referência para definição de priorização de pesquisas e agilização de registros de produtos alternativos”.
Regando a primeira colheita
O documento do plano detalha as 125 medidas das 14 metas com relação ao órgão responsável, cronograma e orçamento. A construção dessas medidas começou em seminários municipais e estaduais abertos a qualquer pessoa da sociedade. Propostas e críticas foram colhidas pela Comissão Cnapo — formada pelos principais movimentos sociais do campo: ANA, a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), a Articulação Semiárido (ASA), Via Campesina, Marcha das Margaridas, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf). É papel da Comissão e outros conselhos e fóruns monitorar de perto e propor novas alterações das medidas.
Claro que o resultado final do plano não é a política pública ideal dos movimentos, mas estes entendem que essa versão é muito melhor do que as apresentadas anteriormente. “A gente considera que o plano tem ações muito significativas. Se ele for executado, de fato vai contribuir para o fortalecimento, aumento e diversificação da produção agroecológica” – afirma Dênis. “O desafio maior agora é ele não ficar na gaveta. Porque a gente sabe que esse risco existe”. Pela relação de diálogo que os movimentos há anos vêm construindo, e o aparente empenho dos gestores, esse não parece ser o destino do plano. Mas, reflete ele, “vai depender muito da capacidade de pressão”; [...] “o Plano não é do governo, o Plano é da sociedade. Que possa ser levado pelos movimentos como instrumento de pressão nas suas jornadas de mobilização e de luta”.
“Entendemos que ele vai operar num contexto político difícil. Um plano de agroecologia não é compatível com o modelo do agronegócio. Questionamos essa ideia de que é possível a convivência pacífica e harmoniosa desses dois modelos”. Têm clareza de que só será possível de fato consolidar a agroecologia como modelo quando o governo retirar o apoio ao agronegócio. E isso inclui não só o desigual subsídio financeiro, mas também o fim da compactuação quanto ao uso dos venenos, à destruição das reservas ambientais e a necessidade da reforma agrária.
A mudança de paradigma vai sendo feita aos poucos. O relatório sobre o Direito à Alimentação, apresentado por Olivier de Schutter ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em janeiro de 2012, foi decisivo para a articulação com o governo, lembra o agroecologista Oliver Blanco: “É uma ampla revisão de literatura científica publicada nos últimos 5 anos, que ‘identifica a agroecologia como um meio de desenvolvimento agrícola que tem resultados comprovados para um rápido progresso na concretização do direito à alimentação’”.
Para alcançar a autonomia dos produtores e dos consumidores, a prática de outro modelo de ciclo alimentar é um dos pontos centrais. E a questão que paira é: o que você alimenta, quando se alimenta? Para Blanco, os movimentos sociais não temem a contradição ainda existente, “pois estão retomando um modo de produção há muito tempo negligenciado, desde os anos 50, jogado no fundo do poço pela ditadura e agora, protagonista de uma história real: 2014 é Ano Internacional da Agricultura Familiar no mundo”.

Sunday, 6 October 2013

O impacto devastador da pecuária sobre o clima

outras palavras
http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/o-impacto-devastador-da-pecuaria-sobre-o-clima/

O impacto devastador da pecuária sobre o clima

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Novo relatório da FAO confirma: 14,5% dos gases do efeito-estufa são gerados por criação de gado, especialmente bovino. Atividade é, além disso, grande responsável por desmatamento
Não, nem todo ambientalista é vegetariano. Mas que reduzir o consumo de carne ajuda – e muito – isso é inegável. Diante das graves constatações divulgadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), uma das maneiras mais à mão – ou da mão à boca – para contribuir com a redução de emissões é mexer nas formas de produzir e consumir alimentos, especialmente os de origem animal. Focalizando mais: sobretudo os de origem bovina.
O novo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), intitulado Tackling Climate Change Through Livestock, ou Combatendo as Mudanças Climáticas por Meio da Pecuária, é contundente em reafirmar o efeito devastador da criação de dezenas de bilhões de animais. As palavras são da Human Society Internacional (HSI), organização voltada à proteção animal, que pegou uma carona no relatório da FAO para defender não somente a redução no consumo, mas o tratamento mais ético e digno na produção animal – causa das mais nobres.
No estudo, a FAO expõe que somente a criação de animais responde por 14,5% dos gases de efeito estufa gerados por atividades humanas (acesse no link). De acordo com um estudo de 2012, a pegada hídrica dos produtos de origem animal é seis vezes maior para a carne bovina, e uma vez e meia maior para carne de frango, ovos e laticínios, comparada à pegada dos legumes.
Além disso, a expansão de pastos para animais de produção é uma das principais causas do desmatamento, especialmente no Brasil. Em todo o mundo, segundo a HSI, utilizamos mais terras para alimentar animais de produção do que para qualquer outro fim. Mais de 97% do farelo de soja e 60% da produção global de cevada e milho são usadas para alimentar animais de produção.
O impacto é tamanho que uma família americana de renda média que deixe de consumir carne vermelha e laticínios e os substitua por produtos de origem vegetal apenas um dia por semana terá, ao final de um ano, reduzido suas emissões anuais gases-estufa em volume equivalente ao emitido ao dirigir 1.600 quilômetros.
A partir de cálculos como esse surgiu a campanha Segunda Sem Carne, que propõe às pessoas evitar carne vermelha ao menos uma vez por semana.
É uma tentativa de refrear o aumento da demanda: de 1980 e 2005, o consumo de per capita de carnes no Brasil praticamente dobrou, alcançando níveis similares ao de países desenvolvidos, segundo a FAO. O consumo de laticínios e ovos também cresceu significativamente, em 40% e 20%, respectivamente.
Mas reduzir consumo não é a única alternativa. Para os carnívoros inveterados, o novo relatório da FAO mostra como a produção de carnes pode diminuir seus impactos e emissões se adotar novas tecnologias, técnicas mais avançadas de manejo e elevar a produtividade. Mais que isso, apresenta propostas para formuladores de políticas públicas.
O relatório ainda aponta que programas com objetivo de reduzir as emissões do setor devem também levar em consideração o bem-estar animal. Além de se submeter a regras mais rígidas para um tratamento humanitário dos animais no lado da oferta, na ponta da demanda o consumidor pode dar preferência a produtos que tenham padrões de bem-estar animal mais elevados.
“No Brasil, cerca de 90% da produção de ovos é proveniente do sistema de gaiolas em bateria convencional, tão intensivo que os animais praticamente não podem se mover. Na indústria suína, a maioria das porcas reprodutoras passam praticamente suas vidas inteiras em celas de gestação, que têm praticamente o mesmo tamanho do corpo dos animais e não permitem que as porcas sequer se virem dentro delas ou deem mais do que um passo para frente ou para trás”, informa a HSI.
Segundo a organização, o confinamento de poedeiras nas gaiolas em bateria convencional e o confinamento contínuo de porcas reprodutoras em celas de gestação já foram proibidos em toda a União Europeia e em vários estados dos EUA. Líderes de mercado como McDonald’s, Burger King, Wendy’s e Costco anunciaram que eliminarão o uso de celas de gestação em suas cadeias de fornecimento nos EUA.
Resta saber por que essas redes têm políticas diferenciadas nos países em que atuam, em vez de enfrentar o assunto de forma global, partindo do simples respeito à vida, seja ela qual for.