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Thursday, 4 August 2016

“Quem vai derrotar o capital será a Terra”. Entrevista com Leonardo Boff

A humanidade não será capaz de derrotar o capital, mas já começa a organizar novos padrões de sociedade que podem evitar o fim do planeta. Essa é a análise do teólogo, escritor e professor Leonardo Boff sobre o futuro da "Casa Comum", termo cunhado pelo Papa Francisco para se referir ao mundo em que vivemos.

"Eu acho que não conseguiremos derrotar o capital com os nossos meios. Quem vai derrotar o capital será a Terra, negando meios de produção, como água e bens de serviço, fazendo com que fechem suas fábricas, que terminem grandes projetos ilusórios de crescimento", projeta.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato e ao Jornalistas Livres durante a 15ª Jornada de Agroecologia, Boff também mostra otimismo ao identificar novos modelos de organização, que têm como objetivo central a subsistência e o cuidado com a natureza, como os ensaios de biorregionalismo.
"Há mais de 1010 lugares onde se tenta viver de forma sustentável, superando os limites artificiais que os seres humanos estabeleceram que são os municípios e regiões geográficas”, explica.
O teólogo também comenta o cenário político que antecede a votação do impeachment no Senado. "Se Dilma tiver que sair, posso imaginar que esse país irá parar, porque Temer é um presidente que não tem legitimidade, que é refém de si mesmo e que não pode sair às ruas sem ser vaiado", pontua.
A entrevista é de Camilla Hoshino e Camila Rodrigues da Silva, publicada pelo jornal Brasil de Fato, 02-08-2016.
Eis a entrevista.
Casa Comum e a agroecologia
Há duas categorias básicas sem as quais nós não garantimos o futuro de uma nova civilização. A primeira é a sustentabilidade, que garante a manutenção dos seres e sua reprodução para nós e para as futuras gerações.
Mas a sustentabilidade sozinha não tem força intrínseca de se realizar. Ela precisa do cuidado. O cuidado proporciona uma relação contrária à agressão da modernidade, que é violenta, que destrói, que exaure os ecossistemas.
Então, o cuidado não é apenas um gesto, mas um paradigma. Isso significa um conjunto de valores, de ciclos, de atitudes que tenham como efeito a proteção e a manutenção daquilo que existe e daquilo que vive. A categoria cuidado tem uma função de pilastra que sustenta um novo ensaio civilizatório.
É importante o que o Papa deu como título da encíclica: "Cuidando da Casa Comum”. Se nós não cuidarmos da nossa casa ela vira uma tapera e ninguém mora numa tapera. Ela vai perdendo a chamada biocapacidade, que é sua capacidade de produzir vida e pode ameaçar o futuro da espécie humana e a vida da natureza.
Nós chegamos a um ponto em que é fundamental cuidarmos de tudo e responsabilizar-nos pelos seres que estão aí, porque a biodiversidade, que é a relação de todos com todos, cria aquela teia que sustenta a todos e leva o processo avante.
A agroecologia entendeu que ela deve produzir segundo os ritmos e a lógica da natureza, não segundo a lógica da produção que é a superexploração. É preciso tirar dela o que precisamos, mas deixar tempo para ela se auto-reproduzir e para continuar dando para nós e para a comunidade de vida.
Não basta só produzir elementos bons para a saúde humana, a agroecologia implica uma relação nova com a natureza. É uma relação de respeito e de cooperação. Nós estamos em cima dela não de pulso cerrado como quem domina, mas com as mãos estendidas como quem acaricia.
Biorregionaismo, um outro modelo de relação com a Terra
Hoje, há pelo menos 1010 ensaios de biorregionalismo, que trazem um desenvolvimento adequado a uma biorregião, a um território. Aproveitam-se os meios, bens e serviços que a natureza dá, produzindo de forma coletiva pequenas empresas absolutamente de forma orgânica, conhecendo a tradição daquele território, conhecendo como foram feitas as suas montanhas, como são seus rios.
Essas experiências iniciaram na Escócia e foram se espalhando pelo mundo. Hoje, há muitas comunidades na Índia, em Minas Gerais, no Brasil. Não saberia dizer os países, mas sei dizer os números. Há mais de 1010 lugares onde se tenta viver de forma sustentável, superando os limites artificiais que os seres humanos estabeleceram que são os municípios e regiões geográficas. Dentro desses espaços se procura aproveitar de forma mais racional. É uma economia da subsistência e não da acumulação.
Entende-se que é preciso melhorar as matas ciliares para que as águas continuem abundantes, as empresas pequenas para não termos que transportar de outros mercados, gastando petróleo e poluindo mais, integrar as pessoas, conhecer a historia da região, a culinária, as pessoas notáveis que lá viveram, seus poetas, seus artistas, seus cantadores. É a ‘Casa Comum’ mesmo. É não ver a Terra apenas como um modo de produção, que é o que o capitalismo faz a partir de uma visão meramente instrumental.
Percebo viajando que há uma consciência nova que está surgindo. E se partimos da interpretação de que a Terra é um organismo vivo, de que há viva em cima dela, de que há propósito, ela mesma suscitará novos imaginários, novas utopias, novas maneiras de produzir e construir as casas, de utilizar bens e serviços de modo que se reduza a pobreza a formas responsáveis e suportáveis.
Essas biorregiões precisam ser abertas a outras comunidades, porque há coisas que não conseguem manter como, por exemplo, luz e internet. Então, por todas as partes é isso que nos dá esperança. O ser humano está tomando consciência do risco que ele corre e que ele pode, com tecnologia e inteligência,encontrar saídas salvadoras.
Mudanças culturais e políticas
Nós temos um grande problema, porque, teoricamente, nós desmontamos o sistema do capital. Sabemos que ele comete duas injustiças. De um lado, ele acumula muita riqueza em poucas mãos enquanto existe uma imensa pobreza. Essa é a injustiça social.
E ele comete uma injustiça ecológica devastando inteiros ecossistemas, produzindo verdadeiros desertos, especialmente a mineração. O capitalismo é um sistema bom para produzir riqueza, mas péssimo para produzir igualdade e justiça.
Mas nós somos vítimas ainda da cultura do capital que é a sua grande força, que nos obriga a trocar, de tempos em tempos, o celular, o tênis, seguir a moda, comprar seus produtos que estão em abundância. Então ele nos faz consumistas. Mudar isso exige educação e pensamento. Estamos bastante atrasados.
A partir dos últimos dados que a ONU publicou, sabemos que precisamos de 24 elementos que são fundamentais para sustentar a vida, a água, o solo, o clima, as fibras, os metais fundamentais para construirmos instrumentos, entre outras coisas. Desses 24, 15 estão em alto grau de erosão. Dois destes elementos podem significar o colapso da nossa civilização: a falta de água e o aquecimento global. O cruzamento dos dois pode produzir um desastre mundial com a fome de milhões de pessoas que não vão aceitar o veredicto de morte sobre elas. Pode ser uma catástrofe mundial.
Irracionalidade do capital
O sistema do capital se dá conta de que ele não consegue se reproduzir. Ele só faz mais do mesmo. Isso Marx já dizia. Quando o capital se esgota a partir dos bens que ele pode explorar, ele vai explorar o dinheiro. Hoje o capital se utiliza da especulação. São 60 trilhões que estão na produção, produzindo carros, geladeiras, sapatos e 300 trilhões que estão na bolsa, na especulação, no dinheiro virtual que não existe, mas que pessoas trocam e negociam. O grande propósito histórico desse sistema é acumular o máximo possível.
Eu acho que não conseguimos derrotar o capital com os nossos meios. Quem vai derrotar o capital será a Terra, negando meios de produção, como água e bens de serviço, fazendo com que fechem suas fábricas, que terminem grandes projetos ilusórios de crescimento.
Mas ele pode produzir grandes consequências negativas para a humanidade. Ele desestabiliza governos para implementar o neoliberalismo, que é a máxima acumulação de capital. Nos Estados Unidos, 1% acumula o correspondente a 90% da população. No Brasil, 71 mil pessoas controlam mais da metade de renda nacional. E com esse dinheiro manipulam o Estado, compram políticos e manejam o funcionamento da economia. Isso mostra a irracionalidade do sistema.
Então, nós estamos numa crise sistêmica. Por isso temos que conscientizar as pessoas, temos que ser chatos no sentido de retomar continuamente as questões ecológicas. O Papa escreve a Encíclica não para cristãos, mas para a humanidade. O tempo do relógio corre contra nós. Ou mudamos agora ou será tarde demais.
Dois sistemas em jogo
O que está em jogo são dois sistemas. Um sistema que supõe uma sociedade menor para 20% das pessoas, que terão os melhores produtos. É o projeto de uma sociedade mais fechada, de uma democracia mais reduzida, de baixa representatividade, que é o neoliberalismo puro.
E o segundo projeto que existe é o de uma democracia mais aberta, que se abre para questões sociais, visando inclusão dos que historicamente estavam excluídos. Esse era o projeto do Partido dos Trabalhadores (PT) e de seus aliados, que buscava criar significativas políticas sociais para matar a fome para propiciar casa, luz, acesso a bens, crédito consignado e formas de organizarem cooperativas, apoio à agroecologia. etc. Essa ainda não é a solução, mas já abre um caminho de esperança.
Mas não basta só criar consumidores, fazer com que pessoas tenham acesso a bens. É preciso criar um cidadão crítico, que critica o sistema, que quer uma democracia não só representativa, mas participativa, que quer uma escola melhor, transporte melhor, espaços de cultura e de lazer. Isso não foi tão acentuado no projeto do PT e de seus aliados. Fez-se bastante, mas a fraqueza é que, com a crise, esses que eram apenas consumidores e saíram da fome, correm risco de voltar à antiga miséria. Se fossem cidadãos críticos, buscariam caminhos alternativos.
Então, há duas visões de mundo que se chocam e aqui vem a pergunta: qual delas carrega uma esperança de futuro? Não é a primeira, porque ela já que tem 200 anos produzindo desgraça na maioria dos continentes. Essa nova democracia aberta, mais humana e mais amiga da vida, é que é portadora de esperança. Ela está acumulando energias até produzir um tsunami de boa vontade e criatividade. Aí sim começa para mim o século XXI.
Cenário Dilma ou Temer
A situação atual política do Brasil é extremamente confusa. É uma espécie de voo cego e ninguém pode dizer para onde nós vamos. Se o impeachment se confirmar e Dilma tiver que sair, posso imaginar que esse país irá parar, porque Temer é um presidente que não tem legitimidade, que é refém de si mesmo e que não pode sair às ruas sem ser vaiado.
Ele tem baixíssima aceitação popular. Ele irá criar um problema social que irá desembocar em um problema politico. Isso se dá principalmente pela montagem extremamente excludente que fez, pelo ataque aos programa sociais inaugurados pelos governos de Dilma e Lula. Essa situação vai forçar possivelmente a um plebiscito e voltaremos ao primeiro parágrafo da Constituição que diz que é o povo quem deve decidir, pois é ele o sujeito do poder.
O outro cenário é que Dilma volte. E há uma disputa grande entre os senadores para conquistar os indecisos.
Se ela voltar, ela mesmo já prometeu que irá fazer outro governo. Ela descobriu o povo brasileiro e seu carinho, principalmente por parte das mulheres. Então, ela fará um governo diferente, possivelmente com pessoas notáveis do país, para além dos partidos.
Ela vai atacar o que é mais urgente, que é o problema econômico e encaminhar a reforma política, porque com esse parlamento que esta ai não é possível fazer quase nada. Ele é um dos mais retrógrados e reacionários da história republicana brasileira. Se ela voltar será outra Dilma, com outras políticas e outras estratégicas.
Agora, não sabemos como será a votação do impeachment. Espero que haja o mínimo de racionalidade e que se compreenda a argumentação.
Há uma lei que está presente em todas as jurisdições desde Hamurabi até os tempos modernos, que é in dubio pro reo. Isto é, se há dúvida, então o réu tem primazia.
Os grande juristas, como Dalmo Dallari, dizem que não há crime. Mas o maior argumento para mim é o do Ministério Público Federal que diz: ‘Aqui não houve dolo, não há crime, então aconselhamos engavetar o processo’.
A pressão não é apenas brasileira, mas internacional. No fim, se trata de defender o pouco de democracia que temos. Por mais frágil que ela seja, ela ainda é o lugar em que pudemos conviver e discutir nossos representantes. Dilma representa a democracia. Negar Dilma é negar a democracia. E negar a democracia é golpe. E nós temos que dizer que é golpe mesmo.

Brasil de Fato

Thursday, 17 December 2015

Ciência e Progresso diante de Gaia

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=244478

Ciência e Progresso diante de Gaia

151217-Modernidade
Na introdução de seu livro mais recente, o antropólogo francês relembra percurso intelectual e afetivo que o levou a questionar certezas da Modernidade e do Antropoceno
Por Bruno Latour | Tradução Guilherme Giufrida, na Revista Centro | Imagem: James Howe Carse
Tudo começou com um movimento de dança que se impôs a mim, há vários anos, do qual não consegui me desfazer. Uma dançarina, enquanto fugia de costas para escapar de algo que devia lhe parecer terrível, não cessava de lançar para trás, de relance, olhares cada vez mais inquietos, sempre correndo, como se sua fuga acumulasse em suas costas obstáculos que atrapalhavam cada vez mais seus movimentos, até o limite em que foi forçada a virar-se completamente, e ali, suspensa, imóvel, os braços pendurados, ela percebia vir ao seu encontro algo ainda mais assustador do que aquilo de que fugira – ao ponto de forçá-la a esboçar um gesto de recuo. Ao fugir de um horror, ela encontrara um outro, em parte criado por sua fuga.
Eu estava convencido de que aquela dança exprimia o espírito do tempo; ela resumia em uma só situação, para mim muito perturbadora, aquilo de que os Modernos haviam em um primeiro momento fugido, a aversão arcaica pelo passado, e isto a que eles deveriam hoje defrontar-se, a irrupção de uma figura enigmática, fonte de um horror que não estava mais atrás dele, mas sim a sua frente. A irrupção deste monstro, meio ciclone, meio Leviatã, que, em princípio, apelidei com um nome bizarro: “Cosmocolosso [1]”.
Antes de fundi-lo muito rapidamente nesta outra figura tão controversa sobre a qual eu meditara lendo James Lovelock, a saber, Gaia. Naquele momento, eu não podia mais me esquivar: era preciso compreender aquilo que se apresentava a mim sob a forma particularmente angustiante de uma força ao mesmo tempo mítica, científica, política e provavelmente também religiosa.
Como não conheço nada de dança, precisei de alguns anos para encontrar em Stéphanie Ganachaud a intérprete ideal desse movimento[2]. Enquanto isso, sem saber o que fazer com a minha obsessão pela figura do Cosmocolosso, convenci alguns amigos próximos a criar a partir dela uma peça de teatro sobre o assunto, dando origem a Gaïa Global Circus [3]. Nessa época, por uma dessas coincidências que não deveriam surpreender àqueles perseguidos por uma obsessão, o comitê de conferências Gifford me pediu para proferir, em 2013 em Edimburgo, um ciclo de seis conferências sob o título, também muito enigmático, de “religião natural”. Como resistir a uma oferta dessas, a qual William James, Alfred North Whitehead, John Dewey, Henri Bergson, Hannah Arendt e muitos outros haviam atendido [4]? Não seria essa a ocasião ideal para desenvolver pela argumentação aquilo que a dança e o teatro me haviam anteriormente forçado a explorar? Ao menos esse meio não me seria muito estranho. Ainda mais por ter acabado de escrever uma investigação sobre os modos de existência, sob a influência cada vez mais importante de Gaia [5]. São estas conferências, modificadas, ampliadas e completamente reescritas, que se encontrará neste livro.
Se eu as publico mantendo o gênero, o estilo e o tom da conferência, é porque esta antropologia dos Modernos a qual eu persigo há quarenta anos se encontra cada vez mais em ressonância com o que podemos chamar de Novo Regime Climático [6]. Eu resumo nessa expressão a situação presente na qual o ambiente físico que os Modernos haviam considerado como assegurado, o solo sobre o qual sua história sempre se desenrolara, tornou-se instável. Como se o cenário tivesse sido montado sobre o palco para compartilhar o enredo com os atores. A partir disso, tudo muda nas formas de se contar as histórias, a ponto de politizar tudo aquilo que outrora parecia pertencer à natureza – figura que, por sua vez, se torna um enigma cada vez mais indecifrável.
TEXTO-MEIO
Há anos que eu e meus colegas temos tentado absorver esta introdução da natureza e das ciências na política; tínhamos desenvolvido vários métodos para acompanhar e até cartografar as controvérsias ecológicas. Mas todos esses trabalhos especializados nunca conseguiram estremecer as certezas daqueles que continuavam a imaginar um mundo social sem objeto frente a um mundo natural sem humano – e sem cientistas para conhecê-lo. Enquanto nos esforçávamos para desatar alguns nós da epistemologia e da sociologia, todo o edifício, cujas funções eles haviam distribuído, caía por terra, ou, mais precisamente, desabava sobre a Terra. Estávamos ainda discutindo as ligações possíveis entre humanos e não-humanos, o papel dos cientistas na produção da objetividade, a importância eventual das gerações futuras, o fato de que os próprios pesquisadores multiplicavam as invenções para falar da mesma coisa; todavia, numa escala totalmente outra, surgiam: o “Antropoceno”, a “grande aceleração”, os “limites planetários”, a “geohistória”, os “pontos de inflexão” [“tipping points”] as “zonas críticas”, todos esses termos surpreendentes e que parecem necessários, os quais, pouco a pouco, iríamos encontrar para compreender esta Terra que parece reagir as nossas ações.
Minha disciplina de origem – a sociologia ou, melhor, a antropologia das ciências – encontra-se hoje convencida pela evidência amplamente compartilhada segundo a qual a antiga Constituição que repartia os poderes entre ciência e política tornou-se obsoleta. Como se tivéssemos passado de um Antigo Regime a um Novo marcado pela irrupção multiforme da questão dos climas e, algo ainda mais desconhecido, de sua ligação com o governo. É no sentido mais amplo dessas expressões que os historiadores da geografia só utilizavam no contexto da “teoria dos climas” de Montesquieu, que, há muito tempo se tornou obsoleta. Bruscamente, todo mundo pressente que um outroEspírito das leis da Natureza está por emergir e é preciso começar a redigi-lo se desejamos sobreviver às forças desencadeadas por este Novo Regime. A esse trabalho coletivo de exploração esta obra gostaria de contribuir.
Gaia é apresentada aqui como a oportunidade de um retorno para a Terra, permitindo uma versão diferenciada das respectivas qualidades que podemos exigir das ciências, das politicas e das religiões, enfim trazidas para definições mais modestas e mais terrestres de suas antigas vocações. (…)
GAIA-cover3
[Esse artigo é a introdução do novo livroFace à Gaia, do antropólogo Bruno Latour. Recém publicado na França, o texto ainda é inédito em português. Sobre o conceito de Gaia, além dos livros do autor, ver, por exemplo, Isabelle Stangers (No tempo das catástrofes) para quem: “Gaia foi assim batizado por James Lovelock e Lynn Margulis no início dos anos 70. Eles incorporavam pesquisas que contribuem para esclarecer o denso conjunto de relação, articulando o que as disciplinas científicas tinham o hábito de tratar separadamente: os seres vivos, os oceanos, a atmosfera, o clima, os solos mais ou menos férteis. Dar um nome, Gaia, a esse agenciamento de relações, era insistir sobre duas consequências dessas pesquisas. Aquilo de que dependemos e que foi com frequência definido como “dado”, o enquadramento globalmente estável de nossas histórias e de nossos cálculos, é produto de uma história de coevolução, cujos primeiros artesãos e verdadeiros autores permanentes foram as inúmeras populações de microorganismos. E Gaia, ‘planeta vivo’, deve ser reconhecida como um ‘ser’, e não assimilada a uma soma de processos (…): ela é dotada não apenas de uma história, mas também de um regime de atividades próprio, oriundo das múltiplas e emaranhadas maneiras pelas quais os processos que constituem são articulados uns aos outros”. Ou ver também Deborah Danowski e Eduardo Viveiro de Castro (Há mundo por vir?: ensaio sobre os medos e os fins): “A transformação  dos humanos em força geológica, ou seja, em um fenômeno ‘objetivo’, em um objeto ‘natural’, em um ‘contexto’ ou ‘ambiente’ condicionante, paga assim com a intrusão de Gaia no mundo humano, dando ao Sistema Terra a forma ameaçadora de um sujeito histórico, um agente político, uma pessoa moral”]
(Trecho de: Face à Gaïa. Huit conférences sur le nouveau régime climatique. Paris: Éditions La Découverte, outubro de 2015; pp. 9-12)

Wednesday, 11 November 2015

Inauguração da Casa da Cultura da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo.

O Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a comunidade escolar da Escola Estadual Tereza Conceição Arruda e a Comunidade Quilombola de Mata Cavalo  (Nossa Senhora do Livramento, MT), tem a honra de convidá-los para inauguração de sua Casa da Cultura, que será no dia 13 de novembro de 2015 às 10h na sede da escola.

O GPEA-UFMT tem laços fortalecidos com a comunidade de Mata Cavalo pois desenvolve pesquisa, ensino e extensão nesse território desde 2006. Durante o ano de 2015 vem sendo realizado na Escola Estadual Tereza de Conceição Arruda, um projeto de formação em Escolas Sustentáveis, uma parceria entre o GPEA, o Instituto Caracol e a organização não governamental WWF-Brasil. Essa formação conta com atividades semanais em um processo formativo em educação ambiental com a comunidade escolar (professores, estudantes, servidores, pais e membros da comunidade). Foram abordados temáticas como educação ambiental, sustentabilidade, escolas sustentáveis, Com-Vida, projeto político pedagógico, identidades, territórios, conflitos socioambientais, dentre outros. Como parte do processo formativo a comunidade elaborou um Projeto Ambiental Escolar Comunitário (PAEC), que culminou na construção de um espaço educador sustentável chamado Casa da Cultura da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo. A construção da Casa da Cultura tem envolvido os membros da escola, estudantes, membros da comunidade quilombola, do GPEA e estudantes de graduação da UFMT integrantes do PET Conexões de Saberes “Diferentes Saberes e Fazeres na UFMT”.

Casa da Cultura é um sonho antigo da comunidade. Foi construída pelo labor apaixonado de muitas mãos. Buscando aspectos de sustentabilidade e da ancestralidade, a casa foi feita de barrote (PAU-A-PIQUE) como de costume dos ancestrais quilombolas. O chão batido é de cupim. A cobertura da casa é um telhado verde de grama na busca de conforto térmico; o telhado abriga um pequeno sistema de captação de água que é captada por uma cisterna. O interior da casa de 80m2 está sendo organizado como uma casa-museu que apresenta os aspectos peculiares da cultura local: o fogão de barro, a rede, o pote de água, os artefatos tradicionais, os artesanatos produzidos pela comunidade, fotografias que registram personalidades e ancestralidade, a identidade, a luta, a dança, os sabores, os saberes, as tradições, etc.

O apoio para construção da Casa da Cultura faz parte da parceria com o WWF-Brasil.

Nesta próxima sexta, 13 de novembro, a Casa da Cultura da Comunidade Quilombola de Mata Cavalo será inaugurada como parte das festividades da Feira de artes, saberes e sabores. A feira é realizada anualmente pela escola como parte das atividades reflexivas da Semana da Consciência Negra.


Friday, 5 December 2014

Água de lençol freático em edifícios de SP pode ser usada para limpeza

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Água de lençol freático em edifícios de SP pode ser usada para limpeza

MARCOS DÁVILA, de SÃO PAULO, 23/11/2014

Faz dias que não chove. O sol castiga o asfalto no bairro da Liberdade e eis que surge um riacho veloz na sarjeta da rua Dr. Tomaz de Lima (região central). O nível do reservatório Cantareira registra apenas 10% de sua capacidade, contando o volume morto. Então, de onde vem tanta água em plena crise hídrica?

A corredeira chega a fazer barulho, arrastando as folhas secas e bitucas de cigarro à beira do meio-fio. Será algum desavisado limpando a calçada com o esguicho? Ninguém à vista naquele trecho da via.

O mistério é resolvido ao dobrar a esquina na rua Conde de Sarzeda, no alto da ladeira. O aguaçal vem de um cano na calçada em frente ao Tribunal de Justiça de São Paulo, no Edifício 9 de Julho, número 100.

"Com essa água dava para lavar a nossa frota de carros", diz um motorista que trabalha no tribunal. Segundo ele, a água jorra de meia em meia hora. Todos os dias são despejados milhares de litros na sarjeta, que já ganhou uma camada de limo.

Devido à profundidade da fundação do prédio, a água do lençol freático é desviada para um reservatório para não causar alagamento nas garagens dos subsolos. De quando em quando, a bomba é acionada, lançando o excesso de líquido para a rede pluvial na rua.

De acordo com o Tribunal de Justiça, "foram feitas diversas tentativas de reutilização da água, mas o forte cheiro de esgoto inviabiliza o uso".

Esse tipo de situação se repete em centenas de prédios na cidade, porém, não existe um levantamento oficial que contabilize todos os casos de edificações que fazem brotar água do lençol freático por conta da profundidade da fundação.

Dependendo da região da cidade, esses reservatórios superficiais subterrâneos, abastecidos pelas chuvas e vazamentos da rede pública, podem ser atingidos a menos de cinco metros de profundidade.

ARMAZENAMENTO

Na rua Estevão Barbosa, nos fundos do edifício residencial Spazio di Vivere, na Vila Anglo (região oeste), um cano lança água na rua. Segundo o zelador Miguel Ramos da Costa, 55, a construção atingiu o lençol freático e precisa bombear a água para não inundar o segundo subsolo.

Parte da água drenada é armazenada em um poço em um reservatório de 5.000 litros e é usada para lavar o pátio e regar as plantas.

"Não é água potável, mas fizemos uma análise no Instituto Adolfo Lutz e ela foi considerada satisfatória para esse uso", diz o zelador.

Logo em frente fica um depósito de material reciclável. Indignado com o desperdício, o proprietário Roberto Barriento, 46, criou um sistema de captação com um pedaço de cano e uma mangueira.

São necessários apenas três minutos para encher um tonel de 200 litros, tamanha a pressão. Ele trabalha há 28 anos no mesmo local e aproveita a água para lavar os carros e o pátio.

"Liguei para a Sabesp várias vezes, mandei e-mail, mas ninguém vem", diz Barriento. A empresa não é responsável pelos casos de rebaixamento do lençol freático -apenas se a água for direcionada para a rede de esgoto, cuidada pela estatal, é preciso pagar taxa mensal.

As águas subterrâneas são assunto do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica). Por meio de sua assessoria de comunicação, o Daee afirma que "o processo de lançamento dessa água [dos lençóis freáticos] na sarjeta é uma prática regular, pois, dessa maneira, ela cumpre o seu ciclo hídrico. O não descarte desse recurso pode ser prejudicial à estrutura do imóvel".


Segundo o Daee, para o descarte em via pública, não é necessária nenhuma formalização.

O pedido de outorga ou cadastramento só é necessário quando se faz a utilização da água. Em setembro, o órgão publicou uma portaria que permite o uso de recursos hídricos decorrentes de rebaixamento de lençol freático. Quando a captação atinge uma quantidade igual ou superior a 5.000 litros por dia, está sujeita ao cadastramento e à outorga. Se for inferior, é necessário apenas o cadastramento.

De acordo com a Cetesb (companhia ambiental de SP), a água proveniente do rebaixamento do lençol não pode ser ingerida e deve ser armazenada separadamente da água potável da rede pública.

"Estamos jogando fora uma coisa que agora tem valor, mas antes não se dava bola", afirma Reginaldo Bertolo, diretor do Cepas (Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas), da USP, sobre os recursos do lençol freático. Ele explica que essas águas tendem a ter uma qualidade ruim.

"Toda sorte de atividades que acontecem na superfície geram poluentes que migram solo adentro até alcançar o aquífero freático."

Os vazamentos da rede pública de esgoto, de postos de gasolina e de fossas são apontados como os principais causadores de contaminação. Os resíduos industriais podem gerar uma poluição ainda mais tóxica.

Mesmo sem potabilidade, esse recurso hídrico poderia ser utilizado para lavagem de calçadas, pátios e carros, rega de jardins e até como descarga sanitária. "Prédios que drenam continuamente a água do freático devem investir num reservatório para que a água seja usada para fins não nobres", diz Bertolo.

O professor de engenharia hídrica Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água, cita o exemplo do Sesc Pinheiros, na zona oeste.

Durante a construção, brotou água com alta concentração de ferro em dois pontos da garagem. Depois de tratada, a água pode ser usada nas bacias sanitárias e na limpeza do piso. Mensalmente, são captados e utilizados 600 mil litros.

ÁGUAS PROFUNDAS

Um estudo do Cepas mostra que há hoje uma oferta de 16 mil litros de água por segundo nos aquíferos da região metropolitana. É uma vazão compatível com uma Guarapiranga inteira, que abastece 4,9 milhões de pessoas. Dez mil litros de água por segundo já são utilizados por poços privados, inclusive os clandestinos.

De acordo com o diretor do Cepas, é preciso diferenciar a água encontrada no aquífero superficial —que pode aparecer nas garagens dos prédios— daquela dos poços profundos, chamados de artesianos.

Esses poços chegam a ter entre 150 e 200 metros de profundidade e captam uma água de boa qualidade. A vazão é alta e permite atender demandas de hospitais, creches, escolas, indústrias e condomínios.

A maior parte deles, no entanto, é ilegal. O mesmo estudo do Cepas mostra que, dos 12 mil poços 60% são clandestinos. Além disso, existem áreas superexploradas. "Algumas zonas estão secando", alerta.

O diretor do Cepas explica que a quantidade de poços profundos utilizada para o abastecimento público é irrisória. Esse recurso deveria ser considerado nas épocas de seca.

"É uma água privatizada. Talvez chegue o momento em que alguma autoridade pública decrete estado de calamidade ou emergência e esses poços particulares sejam requeridos. A água subterrânea pode desempenhar um papel muito importante para a segurança hídrica da população, principalmente em momentos de escassez", afirma Bertolo.
 
 
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Wednesday, 17 September 2014

Seis razões para proteger a Terra

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/535321-seis-razoes-para-proteger-a-terra


Seis razões para proteger a Terra

"De um jeito ou de outro, acho que dá para entender por que precisamos proteger esse planeta. Somos produto dele, das suas condições. Se elas mudam, nossa sobrevivência fica ameaçada.", afirma Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), em artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, 14-09-2014.
Eis o artigo.
Que a Terra é a nossa casa cósmica, todo mundo sabe, se bem que poucos prestam atenção a isso. Nas tribulações do dia-a-dia, enquanto não há uma crise maior, é fácil esquecer da nossa dependência completa e absoluta do nosso planeta. Afinal, está sempre aqui, o chão sob nossos pés,
A luz do Sol filtrada pela atmosfera, o azul do céu, o clima agradável e perfeito para que possamos sobreviver nele.
Mas por trás disso tudo existe um planeta extremamente especial que, sem ele, sem sua estabilidade orbital e climática, não estaríamos aqui. Eis uma lista de razões para protegermos a Terra, um planeta sem igual, ao menos dentro de um raio de centenas de anos-luz daqui. 
1. Nossa atmosfera, rica em oxigênio, permite que seres com um metabolismo mais complexo sobrevivam. É incrível que esse oxigênio todo tenha vindo de bactérias, os únicos habitantes que existiam aqui no planeta durante quase 3 bilhões de anos. Foram elas que "descobriram" a fotossíntese, transformando a composição da atmosfera terrestre. Agradeçam às cianobactérias pelo ar de cada dia.
2. Nossa atmosfera, rica em ozônio, filtra a radiação ultravioleta que vem do Sol, que é extremamente nociva à vida. Interessante que esse ozônio é produto da vida e, ao menos tempo, permite que ela persista aqui na superfície.
3. Nossa atmosfera tem a densidade justa para que seja possível uma enorme diversidade das formas de vida. Se fosse pouco densa, seria difícil voar ou flutuar; se fosse muito densa, seria esmagadora.
4. O campo magnético da Terra funciona como um polo atrativo de partículas que vem do Sol e do espaço. Essa radiação toda seria extremamente prejudicial à vida, caso não fosse afunilada nos polos. Por exemplo, estamos para receber um bocado de radiação por esses dias, produzida por uma enorme tempestade magnética no Sol. Sem o magnetismo terrestre e nossa atmosfera, estaríamos em maus lençóis. Marte não tem esse magnetismo e tem uma atmosfera muito rala. Isso faz com que o planeta seja um tanto hostil à vida.
5. A água que temos aqui é uma preciosidade; sem ela, não haveria vida. Não sabemos de onde veio essa água toda, se bem que parte dela é oriunda de cometas que se chocaram com a Terra ainda em sua infância. A água é nosso maior tesouro, e precisamos tratar muito bem dela. Esse é o século em que a água se tornará num fator predominante de conflito global. Basta olhar para o planeta e ver a distribuição de água. O que o petróleo fez com a geopolítica do século 20, a água fará com a dos séculos 21 e 22.
6. Nossa lua também é essencial. Por ser única e bastante maciça, ela regula e estabiliza o eixo de rotação da Terra, mantendo sua inclinação de 23,5° com a vertical. Pense na Terra como um pião inclinado, girando em torno de si mesmo. Sem a lua, esse eixo de rotação mudaria de ângulo aleatoriamente, e o clima não poderia ser estável. E, sem um clima estável, a vida complexa acaba se tornando inviável.
A lista continua, mas estamos sem espaço. De um jeito ou de outro, acho que dá para entender por que precisamos proteger esse planeta. Somos produto dele, das suas condições. Se elas mudam, nossa sobrevivência fica ameaçada. 

Tuesday, 29 July 2014

Bicicletas: hora de zerar imposto

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http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=17951


Bicicletas: hora de zerar imposto

BICICLETA SAO PAULO JT GERAL ESPECIAL Grupo "Pedalinas" de mulheres que se reunem para andar de bicicleta. As moças costuma se encontrar na Praça do Ciclista,
Em sinal das injustiças fiscais brasileiras, carga tributária sobre “magrelas” é o dobro da que incide sobre automóveis. Campanha pede isenção do IPI
Por Afonso Capelas Jr, no DCM
No final de junho o governo federal anunciou uma prorrogação, até certo ponto inesperada, no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os veículos automotores. A medida tem a pretensão de proteger as montadoras e a indústria de autopeças da crise que se estabeleceu no setor nos últimos meses.
O efeito colateral é o fortalecimento do que chamo de “império do automóvel” nas cidades brasileiras. As consequências todos já sabemos: mais trânsito caótico, mais congestionamentos, mais poluição sonora e atmosférica, mais cidadãos estressados e doentes, menos qualidade de vida.
Aí fica a pergunta: porque não reduzir – ou até mesmo zerar – o IPI das bicicletas produzidas no Brasil? Com isto mais pessoas conseguiriam comprar sua magrela para usá-la, não só como lazer, mas principalmente como meio de transporte, aliviando o caos no trânsito urbano.
No final do ano passado uma campanha foi iniciada pela rede Bicicleta para Todos, cujo lema é “Menos impostos, mais acesso”. A intenção maior é convencer o governo a zerar o IPI das bicicletas. A rede é formada por cicloativistas, além de mais de 120 empresas e organizações não governamentais de várias regiões do país.
Para incrementar a campanha, o Bicicleta para Todos desencadeou um abaixo-assinado que rola nas redes sociais pedindo o fim do IPI para as magrelas. Na petição a rede reivindica não somente a isenção do IPI, mas inclusive de peças e acessórios. O abaixo-assinado já conta com a adesão de mais de cem mil simpatizantes da campanha.
A rede fundamentou-se em uma pesquisa da empresa de consultoria Tendência, realizada a pedido da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas-Aliança Bike. De acordo com o estudo, a isenção de IPI reduziria em 9,1% o preço final da bicicleta importada e em 4,9% a daquela produzida ou montada fora da Zona Franca de Manaus: a fabricação no polo industrial amazônico já está isenta do imposto.
Com a eliminação do IPI e os preços mais baixos as bicicletas, tanto as importadas quanto as produzidas fora da Zona Franca de Manaus, teriam um crescimento na demanda formal em mais de 11%. A íntegra desse estudo pode ser acessado no site do Bicicleta para Todos.
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Sabe-se que, atualmente, quando compra uma bicicleta, o brasileiro chega a pagar mais de 70% de impostos por ela: além dos 10% de IPI estão embutidos no preço mais 18% de ICMS, 10,2% de PIS/Cofins e 35% de imposto de importação, caso a magrela não seja produzida no país. Já as cargas tributárias dos automóveis nacionais não passam de 32%. Os apontamentos são da Aliança Bike.
Já os dados estatísticos da Associação de Ciclistas Urbanos da Cidade de São Paulo (Ciclocidade) mostram que, no Brasil inteiro, 30% dos usuários de bicicletas recebem salários menores que R$ 600 ao mês. A Ciclocidade também informa que metade das pessoas que adquire uma bike a utilizam para locomoção diária nas ruas de suas cidades.
Então, a eliminação do IPI ou mesmo uma redução da taxa incentivaria mais pessoas a comprarem bicicletas para usá-las como meio de transporte nas grandes cidades.
A campanha do Bicicleta para Todos já surtiu algum efeito. Em abril passado uma propostade redução do IPI das bikes chegou à Câmara dos Deputados, embora até agora não tenha sido votada. A disposição dos deputados em tratar do assunto, entretanto, é um grande avanço.
Por outro lado, o Paraná saiu na frente: acaba de reduzir de 18% para 12% o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no preço final das bicicletas comercializadas no estado. Quem se animar na luta por essa causa pode acessar o portal do Bicicleta para Todos. Lá é possível saber como participar da campanha, aderir ao abaixo-assinado e assistir (e divulgar) um vídeo sobre a campanha.

Wednesday, 9 July 2014

Para não perder onda das novas energias renováveis

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Para não perder onda das novas energias renováveis

Vale Solar, em Dezhou, China: maior central de geração fotovoltaica do mundo. Maior produtor do mundo, país instalou, só em 2013, 12 Gw de geradores solares -- quase uma Itaipu
Vale Solar, em Dezhou, China: maior central de geração fotovoltaica do mundo. Maior produtor do mundo, país instalou, só em 2013, 12 Gw de geradores solares — quase uma Itaipu
Como China e Índia, Brasil tem plenas condições de gerar eletricidade a partir do sol e ventos. Itamaraty erra nas negociações sobre clima
Por Ricardo Abramovay, em Página 22
É nefasta a defesa, por parte da diplomacia brasileira, de que nas negociações climáticas, os direitos de emissão de gases de efeito estufa devem contabilizar o que cada país lançou na atmosfera desde 1850. Em primeiro lugar, não se justifica responsabilizar alguém por uma ação cujos impactos não eram conhecidos à época em que foi tomada. O German Advisory Council on Global Change também preconiza uma contabilidade das emissões per capita, levando em conta o passado, mas parte de 1990, momento em que a comunidade científica internacional tornou públicas as evidências de que os gases de efeito estufa eram destrutivos para o sistema climático e de origem antrópica [1]. Além de ser eticamente indefensável, voltar a 1850 é inviabilizar qualquer acordo, pela carência de informações sobre o que se emitia à época.
É preciso reconhecer, claro, a imensa desigualdade na ocupação do espaço carbono global: segundo o último relatório do IPCC, as emissões médias per capita dos países de baixa renda são nove vezes menores que as dos países mais ricos. É, em última análise, sobre a base dessa constatação que se estabeleceu o Protocolo de Kyoto, o único compromisso legalmente vinculante nas negociações climáticas. O problema é que há uma incontornável armadilha em seu arcabouço: ele só atribui metas obrigatórias de redução aos países mais ricos.
A própria ideia de responsabilidades comuns, porém diferenciadas, que dá conteúdo ao Protocolo de Kyoto, contém uma bomba de efeito retardado que explodiu junto com a ascensão da China a primeiro emissor global. É um dispositivo segundo o qual os países que, ao longo da história, emitiram menos teriam agora o direito de recuperar a perda. É um pouco como se dissessem: chegou a nossa vez. Os resultados só podem ser catastróficos não só globalmente, mas para os próprios países que insistem nesta rota.
Até poucos anos atrás, essa postura poderia ser justificada pela ausência de alternativas. Ampliar a exploração e o uso de fósseis era, de fato, para a maior parte dos países em desenvolvimento, o meio mais barato para acesso à energia. Mas os efeitos combinados da revolução digital e dos ganhos de produtividade das renováveis (sobretudo solar e eólica) mudam radicalmente esse panorama.
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Ray Kurzweil, importante inventor e inovador americano, mostra, no caso da energia solar, que seu crescimento tem sido exponencial. Nos últimos 20 anos, a oferta dobra a cada dois anos. Dobrando mais oito vezes ao longo dos próximos 16 anos, 100% da oferta de energia do planeta poderia ser solar. Ao mesmo tempo, tudo indica que o grande limite das fontes renováveis modernas – a intermitência –, está em vias de ser superado, com a melhoria das condições de armazenamento da energia em baterias.
É o que mostra um relatório recente do Rocky Mountain Institute, com o sugestivo título de Grid Defection, algo como o Abandono da Rede. As formas convencionais de geração de energia vão-se tornando economicamente inviáveis. E o que está em jogo não são apenas as usinas movidas a carvão, mas o próprio conceito de geração centralizada com distribuição subsequente (hub-and-spoke, na expressão em inglês).
organização financeira global UBS prevê que, ainda nesta década, as contas de energia elétrica na Itália, na Alemanha e na Espanha cairão de 20% a 30%, como resultado do aumento da autoprodução de energia. As empresas convencionais de energia na Europa devem perder 50% de seus lucros antes de 2020.
Uma internet de energia
O mais importante é que essas fontes renováveis avançam juntamente com o aumento da conexão em rede. Trabalho recente de consultores da McKinsey mostra que os sistemas centralizados de obtenção e posterior distribuição de energia, implantados de forma generalizada desde Thomas Edison, serão substituídos por redes descentralizadas a partir de dispositivos altamente conectados entre si: uma internet da energia.
Estimular a generalização desse avanço é o maior desafio das duas próximas conferências do clima. lutar para garantir direitos de emissão aos países em desenvolvimento é insistir num caminho que os afasta dessa fascinante conquista civilizacional, resultante do crescimento da autoprodução de energia sobre bases renováveis. Dois estudos recentes do BNDES [2] mostram que China e Índia estão se preparando para essa mudança, com grandes empresas de atuação global em solar e eólica. Já o Brasil insiste na hidroeletricidade e no petróleo e condena-se a ser importador das tecnologias que hoje estão revolucionando as renováveis. Com o olho em 1850.
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Professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP 
[1] Acesse relatório
[2] Acesse os estudos do BNDES aqui e aqui