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Sunday, 3 February 2019

Milhões de mortes devidas à colonização das Américas mudaram o clima mundial

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Milhoes-de-mortes-devidas-a-colonizacao-das-Americas-mudaram-o-clima-mundial/6/43144

Milhões de mortes devidas à colonização das Américas mudaram o clima mundial

O extermínio dos povos originários do continente americano provocado pela colonização europeia causou alterações climáticas segundo sustenta um estudo científico da University College London

03/02/2019 12:06
La captura de Atahulpa, Juan Lepiani (Wikimedia Commons)
Créditos da foto: La captura de Atahulpa, Juan Lepiani (Wikimedia Commons)

Foram dizimados 56 milhões de nativos americanos no primeiro século de colonização ocidental. A dimensão desta tragédia humana era já conhecida, a sua relação com as alterações climáticas ocorridas no século XVII ainda não tinha sido explorada.
O genocídio dos povos originários da América foi de tal ordem que causou o abandono da agricultura em várias zonas e a consequente reflorestação de uma área estimada como tendo o tamanho de França. Este aumento de árvores e vegetação causou uma diminuição do dióxido de carbono na atmosfera. De tal forma que houve uma mudança no efeito dos gases de estufa, originando alterações climáticas. O professor de Geografia Mark Maslin, co-autor deste estudo(link is external), explica que “o CO2 e o clima estavam relativamente estáveis até esse momento”.
Maslin e os seus colegas desafiam assim ideia de que a “pequena idade do gelo” dos anos 1600 teria sido causada devido apenas a fenómenos naturais.
Na sua investigação combinaram a análise das provas arqueológicas com os dados sobre o dióxido de carbono encontrados no gelo da Antártida que, capturando gases atmosféricos, permite analisar a sua quantidade em séculos passados. Alexander Koch, o investigador principal, sublinha que “os núcleos de gelo mostraram que houve uma queda maior de CO2 em 1610, provocada pela terra e não pelos oceanos”. Por isso, desceu um décimo de grau no século XVII. E estas alterações climáticas fizeram fracassar colheitas a nível mundial.

Wednesday, 1 October 2014

Pele Negra Máscaras Brancas

http://rmirandas.wix.com/identidafrica#!pele-negra---mscaras-brancas/c1x1e
Pele Negra
Máscaras Brancas
De Frantz Fanon
Tradução: Renato da Silveira
Pele Negra Más­caras Bran­cas, livro escrito em 1952 por Frantz Fanon,  foi o primeiro livro a debruçar-se sobre a psico­lo­gia do colo­ni­al­ismo, tornando-se uma refer­ên­cia para os movi­men­tos anti-colonialistas e para a luta Pan-africanista em geral. Aqui é exam­in­ada a forma como o colo­ni­al­ismo está inter­i­or­iz­ado, através de um com­plexo de super­i­or­id­ade do col­on­iz­ador e de um com­plexo de inferi­or­id­ade impreg­nado no col­on­iz­ado e como através de mecan­is­mos racis­tas, os povos negros acabam a mimet­izar os seus próprios opressores. Ashis Nandy explica que se “sabemos algo acerca os padrões interpess­oais que con­stituem a situ­ação colo­nial, par­tic­u­lar­mente em África”, isso deve-se a Fanon.
Fanon ini­ciou um pro­cesso de descon­strução psi­coanalít­ica, que foi desen­volvido mais tarde por Nandy no livro The Intim­ate Enemy: Loss and Recov­ery of Self Under Colo­ni­al­ism (1983) e tam­bém por Ngugi wa Thiong em Decol­on­ising the Mind: The Polit­ics of Lan­guage in African Lit­er­at­ure (1986), sendo que mui­tos out­ros teóri­cos dos assun­tos colo­ni­ais seguiram os seus passos.
Fanon escreve através da per­spectiva do col­on­iz­ado, enquanto homem negro  com a exper­iên­cia dir­ecta do colo­ni­al­ismo, do imper­i­al­ismo e do racismo. Ele apresenta-nos uma inter­pretação psic­analít­ica do prob­lema negro, diz-nos, mas de uma coisa podemos estar cer­tos, não se trata de uma ses­são de ter­apia. Fanon não é um filósofo de pol­trona ou um teórico académico. Ele tem na sua mente uma questão mais urgente: a libertação

Monday, 4 November 2013

A modernidade construída sobre o mito e a negação

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/a-modernidade-construida-sobre-o-mito-e-a-negacao-entrevista-especial-com-peter-fitzpatrick-/525281-a-modernidade-construida-sobre-o-mito-e-a-negacao-entrevista-especial-com-peter-fitzpatrick-

A modernidade construída sobre o mito e a negação. Entrevista especial com Peter Fitzpatrick

"O Ocidente moderno foi criado na relegação, na negação, de seu próprio passado — ou, mais exatamente, de uma imagem grosseiramente fictícia de seu passado", constata o professor de Direito na Universidade de Londres.
“A modernidade ocidental não foi o oposto do mito. Ela foi, ao invés disso, o aperfeiçoamento do mito”, destaca o professorPeter Fitzpatrick, para quem o Estado, enquanto “moderno e secular”, não pode ser constituído sobre uma referência transcendental positiva. Dessa forma, sua referência ocorreria pela negação, “uma referência negativa universal. E é daí que o aperfeiçoamento do mito se origina, uma referência mítica que agora é sutilmente esvaziada de qualquer fixidez limitadora de conteúdo. Junto a isso há a incorporação do ‘racionalismo’ e da ‘razão’. Essa é agora uma razão cujo conteúdo, qualquer conteúdo, o qual pode ser universal, fixo “por enquanto”, está para além de todos os limites de qualquer conteúdo contrário positivo”, explica ele nesta entrevista realizada por e-mail para a IHU On-Line.
Conforme lembra o professor, o Ocidente fora criado a partir da negação de seu próprio passado, ou pelo menos a partir de uma imagem fictícia deste passado. “Isto, de maneira mais ampla, ocorreu simultaneamente às modernas colonizações do Ocidente e, em sentido lato, esse processo foi descrito e justificado em termos semelhantes àqueles utilizados nessas colonizações”, declara Fitzpatrick.
Ele complementa: “A modernidade está presa em sua própria construção de um esquema secular das coisas. A alegação de uma secularidade imanente surge por força de uma negação dos modos de vida e das eras precedentes, supostamente ligadas ao mito e, em última análise, a uma determinação transcendente. Deve ser ressaltado que o que é negado aqui é a imagem distorcida destes modos de vida e épocas anteriores”.
Peter Fitzpatrick é professor de Direito no Birkbeck College, na University of London, e professor honorário de Direito na University of Kent, Inglaterra. Lecionou em universidades na Europa, América do Norte e Papua-Nova Guiné e publicou diversos livros sobre filosofia, direito e teoria social, direito e racismo, imperialismo, sendo que as obras Law as Resistance (Ashgate, 2008) e Foucault’s Law (Routledge, 2009), esta última com Ben Golder, estão entre as mais recentes. Também tem exercido a prática do direito internacional e foi membro do Gabinete do Primeiro Ministro de Papua-Nova Guiné por diversos anos. Pela Editora Unisinos, publicou o livro A mitologia da lei moderna.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em A mitologia na lei moderna (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2007), o senhor afirma que a “modernidade não é o oposto de mito. Ela é a perfeição do mito”. De que modo o racionalismo ocidental eurocêntrico é atravessado pela mitologia?
Peter Fitzpatrick - Eu penso que o “racionalismo” não desempenha um papel exatamente principal neste livro. O argumento principal do livro, penso eu, ou desejo que o seja, era, como diz a pergunta, que a modernidade — uma modernidade ocidental — não foi o oposto do mito. Ela foi, ao invés disso, o aperfeiçoamento do mito. E, no livro, a ênfase recaía sobre o mito de origem. Mito, e de maneira mais significativa, o mito de origem, fornece uma referência transcendente para a geração e, mesmo, a determinação de sentido compartilhado em nosso convívio. Um mito certamente tem um conteúdo rico, positivamente rico.
No entanto, a modernidade, de fato, tem um problema com tal referência transcendente. Ela está presa em sua própria construção de um esquema secular das coisas. A alegação de uma secularidade imanente surge por força de uma negação dos modos de vida e das eras precedentes, supostamente ligadas ao mito e, em última análise, a uma determinação transcendente. Deve ser ressaltado que o que é negado aqui é a imagem distorcida destes modos de vida e épocas anteriores. O problema surge, então, e como o louco sumamente são de Nietzsche  anunciou, porque os modernos tiveram que recorrer a “jogos sagrados” para substituir a Deus, a referência transcendente, do qual eles pensavam que podiam prescindir. E, como um exemplo de tais jogos sagrados, eles desenvolvem o “novo ídolo” do Estado moderno. Ora, esse Estado, para ficarmos neste exemplo e como Derrida e outros frequentemente observaram, é um substituto deífico. Como “moderno” e “secular”, ele não pode repousar sobre uma referência transcendental positiva. Por isso a referência pela negação, conforme eu havia mencionado — uma referência negativa universal. É daí que o aperfeiçoamento do mito se origina, uma referência mítica que agora é sutilmente esvaziada de qualquer fixidez limitadora de conteúdo. Junto a isso há a incorporação do “racionalismo” e da “razão”. Essa é agora uma razão cujo conteúdo, qualquer conteúdo, o qual pode ser universal, fixo “por enquanto”, está para além de todos os limites de qualquer conteúdo contrário positivo.
IHU On-Line - Fale um pouco sobre o conceito de mitologia branca de Jacques Derrida. Como este conceito se relaciona com a modernidade, o colonialismo e o imperialismo?
Peter Fitzpatrick - Isso é uma surpresa — se agradável ou não, não estou bem certo. Dada a minha segurança demonstrada anteriormente sobre estes assuntos, eu deveria ser capaz de dizer várias coisas sobre isso, mas mesmo pelos padrões de Derrida, isso é excepcionalmente desafiador e amplo. Seria trapaça conectar isso peremptoriamente com o que eu já tentei dizer antes? Não? Excelente!
“Razão”, a afirmação de uma razão universalizada é, para Derrida, um componente da “mitologia branca”. Colocando em termos um tanto simplistas, a completude do “conceito” (tanto da ideia de conceito quanto de um conceito específico) nas variedades ocidentais de razão, dependem de uma referência negativa universal (e aqui eu pediria ajuda à ênfase de Derrida no papel do negativo na elaboração da “mitologia branca”). Isto é, o conceito em sua qualidade “metafísica” pode ser completo porque o negativo o protege de qualquer relação questionadora última. Ou poder-se-ia dizer, de uma relação “desconstrutiva”. Isto o possibilita, supostamente, ser “em-si” e “para-si”.
Seria muito malicioso dizer, quando se olha rapidamente para a segunda parte da questão, que a crítica “descolonial” de uma confiança nos pensadores “ocidentais” e nos trabalhos vindos da academia, está mal direcionada quando se trata do pós-estruturalismo (e do pós-colonialismo — os alvos mais imediatos dessa crítica). A preocupação principal do pós-colonialista é se contrapor à afirmação ocidental de uma razão universal, abrir tal afirmação a uma relação transformadora na pluralidade, cuja preocupação se encaixa perfeitamente com o pensamento generativo do pós-estruturalismo. E há ainda mais uma conexão pelo fato de que, como a “mitologia branca” de Derrida ilustra intensivamente, Derrida concordaria com a equalização descolonial entre “colonialidade” e modernidade.
IHU On-Line – O senhor poderia falar sobre o conceito de definição negativa, característico da civilização e da lei ocidentais?
Peter Fitzpatrick - Bem, basicamente, esta definição negativa opera dotando de conteúdo, identidade, habilidade e tudo o mais, por termos do que certas alteridades não são. Mas eu posso ceder ao prazer solipsista da autocitação e tomar uma consideração sinótica do artigo que preparei para o I Seminário Internacional Pós-colonialismo, Pensamento Descolonial e Direitos Humanos na América Latina?
“A entidade erigida por negação torna-se o que certas alteridades, certos “outros”, não são. Ou ela não se torna o que certas alteridades são. Ser “puramente” negativa e sendo universal, a divisão e exclusão estão completas. O que está para além do universal pode somente estar totalmente além. Por isso há racismo e a irredutível alteridade da raça relegada. Ainda que a própria apropriação de uma universalidade tenha, como universal, (também) de ser omni-inclusiva. Assim, a referência negativa universal gera uma antítese, mas então inclui tal antítese no in-terior de si (with-in itself). O agora-incluso assume um papel operacional no in-terior do esquema universal mesmo enquanto ainda sendo excluído dele. Há uma consistência nisso. Enquanto a exclusão em sua completude é uma absoluta negação do ser independente, assim também é a completude da inclusão. Para resolver, de certa forma, o que para eles ainda é um posicionamento impossível, os excluídos são requeridos de um modo inteiramente conformista para melhorar, reformar ou de alguma outra maneira alcançar a plena inclusão”.
É obviamente imperativo que essas trajetórias de inclusão — o progresso, o avanço da civilização, o desenvolvimento, e assim por diante — permaneçam indefinidas. Um télos (fim ou finalidade) positivo, definitivamente postulado, remeteria a uma referência explicitamente transcendente. Por isso, penso eu, a referência de Derrida à mitologia como “branca”. Essa não é apenas uma referência a sua proveniência ocidental. A mitologia é “branca” também em seu ser esvaziado de cor, de conteúdo assegurado — “uma mitologia anêmica”, como penso que é o que Derrida diz.
E sim, a lei. Outro esplêndido ponto a colocar. Obrigado. O universal negativo enfatiza um papel principal da lei neste panorama ocidental. Eu assumirei a aceitação da proposição que diz que, para haver coesão social, tem de haver uma eficácia de uma determinação última. Isso não pode ser atingido na vacuidade da referência negativa universal. É a lei que provê tal determinidade última — a promessa e a realidade da determinação. Ao fazê-lo, e para acomodar os efeitos sempre em mutação do convívio “em” e “como” uma sociedade, essa determinação deve ser capaz de vir de fora do que aquela sociedade possa, em dado momento, “ser”. Ela tem de ser, em uma palavra, transcendente. E então vemos que essa lei, em uma sociedade “secular”, não está perenemente ligada a uma transcendência positiva. Ela é, em si mesma, uma vacuidade. Faço uma citação de Blanchot  da qual lembro confiantemente: “A lei por si só, pura transcendência”.
IHU On-Line – Qual o impacto da definição negativa sobre a ideia de soberania nacional?
Peter Fitzpatrick - A resposta a esta questão terá de ser breve, porque há muito para dizer! A referência universal negativa, ao longo de sua história e através de suas instanciações, confirmaria a equalização de modernidade com “colonialidade”. Isso também pode mais ou menos iluminar como o imperialismo ocidental moderno foi o gerador das ideias atuais de soberania nacional. E a referência universal negativa pode ajudar a explicar como a soberania nacional pode ser (eu lembro agora a frase exata de Derrida, “uma herança teológica que não foi realmente secularizada”), ainda que apresente-se a si mesma como secular. E voltando novamente à lei, a referência universal negativa explica porque, nas assim chamadas democracias ocidentais, há uma ruptura não resolvida entre soberania nacional e o primado da lei. À primeira vista, os dois parecem inteiramente compatíveis. A soberania nacional necessita da determinação positiva da lei e a lei obsequiosamente retira seu conteúdo da soberania nacional. Contudo, para a lei cumprir esta função aparentemente abjeta para a soberania nacional, a lei ela mesma tem de ser ilimitada e, enquanto ilimitada, não pode ser controlada por nenhuma prescrição soberana, ou por qualquer outra coisa.
IHU On-Line – Neste aspecto, qual é o espaço possível para a descolonização do pensamento e da ação em nossas sociedades contemporâneas?
Peter Fitzpatrick - Espero não estar sendo evasivo, e espero ainda mais não estar sendo displicente, ao dizer que eu precisaria estar apropriadamente engajado em certas pluralidades enquanto consideradas pelo pensamento descolonial, para ensaiar uma resposta na escala que a questão sugere. Posso dizer apenas que “o espaço possível” sobre o qual eu colocaria ênfase é aquele da descolonização do Ocidente. Isso não é apenas uma questão de um olhar mais atento, mais absorto para os efeitos constitutivos do Ocidente, de suas próprias extroversões imperiais. O Ocidente moderno foi criado também na relegação, na negação, de seu próprio passado — ou, mais exatamente, de uma imagem grosseiramente fictícia de seu passado. E isto, de maneira mais ampla, ocorreu simultaneamente às modernas colonizações do Ocidente e, em sentido lato, esse processo foi descrito e justificado em termos semelhantes àqueles utilizados nessas colonizações.

Sunday, 5 May 2013

Júlio César ainda vive

carta maior
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Júlio César ainda vive

O filme ‘César deve morrer’ (2012), dirigido por Paolo Taviani e Vittorio Taviani, baseia-se na peça de ‘Júlio César’ (1623), de Shakespeare. Entretanto, não se passa no Senado de Roma, mas sim em Rebibbia, uma prisão de segurança máxima na periferia da capital italiana. Com isso, os diretores eternizam o debate sobre a força da subordinação diante das tentativas de questionamento das estruturas de poder. Por Flávio Ricardo Vassoler

‘César deve morrer’ (2012), filme dirigido por Paolo Taviani e Vittorio Taviani, tem o título da conspiração que assassinou o generalíssimo romano. Dessa vez, no entanto, o palco da peça de William Shakespeare, ‘Júlio César’ (1623), não será o Senado de Roma, mas Rebibbia, uma prisão de segurança máxima na periferia da capital italiana. Os detentos fazem as vezes dos atores; suas histórias de vida muitas vezes se fundem às estórias dos executores de César.

A obra se estrutura como uma mescla de documentário e ficção, uma vez que o mote para a encenação da peça vem da direção da penitenciária. Os diretores do filme, por sua vez, apresentam as cenas como recortes das reverberações que Shakespeare vai legando nas formas pelas quais os mais novos atores passam a perceber o mundo (vigiado) a seu redor. 

Se os espectadores começamos a assistir ao filme a partir do fim da peça, em que o assassino Bruto pretende se suicidar diante da derrota iminente por conta do avanço das tropas dos vingadores de César, Otávio e Marco Antônio, logo retrocedemos no tempo e nos deparamos com a seleção dos detentos que serão metamorfoseados em atores. Alguns cumprem penas por participação no crime organizado – a Camorra é mencionada; outros já não sabem mais o que é a vida sem lhe acrescentar a lápide “perpétua”. Assim, uma pergunta ressoa para aqueles que nos sentimos mais livres diante da onipresença do poder: qual seria a motivação dos detentos perpétuos para atuar na peça? Ou pior: qual seria a motivação deles para continuar a viver? 

Enquanto esteve preso na Sibéria por ter participado do Círculo de Petrachévski, um grupo revolucionário que se contrapôs ao regime tsarista, o escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) pôde presenciar – e vivenciar – um fenômeno no mínimo inusitado. Alguns detentos eram agrupados em um extremo do pátio da prisão. Ao comando do oficial encarregado, tinham que encher um carrinho de mão com areia e, quando ouvissem o apito, deviam levar a carga para o outro lado do pátio. Um novo apito ordenava o esvaziamento do carrinho que, logo em seguida, precisava ficar cheio de areia novamente para que seguisse o trajeto de volta ao ponto inicial, isto é, de volta ao extremo do pátio do qual o grupo havia partido. Tais idas e vindas eram repetidas à exaustão, de modo que o vaivém inútil da areia não possibilitasse aos detentos qualquer percepção de uma possível finalidade para a ampulheta humana em questão. Em meio à observação participante, Dostoiévski pôde perceber que os presos começavam a apresentar sinais de inquietação que beiravam ataques de pânico e surtos. Se o homem não perceber uma finalidade em sua existência desde as questões últimas até os alicerces de seu cotidiano, a vida tende a se reduzir ao trajeto tautológico do carrinho de areia. O homem prefere a insanidade de um trabalho coercitivo à continuidade de uma existência que não lhe dá sequer a chance de uma resposta para a pergunta: para que estou aqui? Não à toa, as impressões de Dostoiévski sobre o degredo siberiano formaram as ‘Recordações da Casa dos Mortos’ (1862). 

Se compararmos a crueldade dos oficiais siberianos com a benevolência das autoridades italianas de Rebibbia, benevolência que permitiu aos detentos a encenação de Shakespeare, estaremos diante de um avanço decisivo dos direitos humanos. Mas que dizer de uma sentença como a prisão perpétua? Diante de um futuro que não mais fará amor com a esposa e nem beijará a filha senão com a mediação de grades, cercas de arame farpado e cães, como é que a vida não se confunde com o vaivém inútil de um carrinho de mão repleto de areia? Como é que o cotidiano de um detento perpétuo pode escapar da sensação de ser esmagado pela ampulheta humana? Quando o diretor da peça pede que os detentos sejam céleres para que “não percamos mais tempo”, um dos atores, quiçá inspirado pela sabedoria de Shakespeare, só faz sentenciar: 

− Ora, “não percamos mais tempo”, meu caro? Faz 20 anos que eu respiro sob os punhos desses muros, e você quer que “não percamos mais tempo”? 

Se a sociedade estivesse voltada não para a perpetuidade das punições, mas para a amplitude das oportunidades, os detentos – que, provavelmente, teriam menos chances de viver em celas – encenariam ‘Júlio César’ não em Rebibbia, mas no Coliseu romano. Será que, assim, o espectro autoritário de César seria expurgado da história humana? Eis a pergunta a reboque da utopia que os detentos passam a fazer:

− Quem mais terminará assassinado como César? 

Ao que o detento que incorpora intensamente a personagem de Bruto replica: 

− A justiça não é um matadouro. Nós somos os executores da justiça. 

Não podemos deixar de notar a ambiguidade shakespeareana da máxima de Bruto: por um lado, a justiça não deve fazer coro à Lei de Talião – olho por olho, dente por dente. Os conspiradores não apenas mataram César; eles pensam ter assassinado o tirano, ou melhor, o ímpeto da tirania. Por isso, “somos os executores da justiça”: executamos os desígnios da justiça e também executamos a própria justiça, a exterminamos. Para o (suposto) bem republicano de Roma, matamos César, fizemos justiça com nossas próprias mãos. 

Quando se tenta matar a planária cortando-a ao meio – a planária, um platelminto com o qual só temos contato nas longínquas aulas de Biologia do ensino médio –, cada metade se regenera e dá à luz uma nova planária. Matar César não extirpa da história a tirania, assim como a guilhotina não decapitou o ímpeto servil da massa junto com a cabeça de Luís XVI. Diante do cadáver de César, duas vozes contraditórias discursarão para a plebe romana. Primeiro Bruto, depois Marco Antônio. 

Bruto, o conspirador, condena a ambição tirânica de César. A massa faz coro ao assassino do general e, se pudesse, faria César ressuscitar para matá-lo ainda uma vez. 

Marco Antônio, aliado de César, lê para a massa o testamento que o generalíssimo romano legara para a plebe. Dinheiro para o povo! “César, volte à vida! Viva!” 

Ao apostar na emancipação dos povos, a utopia pressupõe a consciência das massas, seu princípio de autodeterminação. Shakespeare ensina aos detentos e aos espectadores em liberdade (assistida) que a subordinação sobrevive às mais variadas tentativas de questionamento das estruturas de poder. Quiçá o homem de fato busque alguém diante de quem se inclinar – é por isso que Bruto grita a plenos pulmões que “César deve morrer!” Mas o ímpeto pelo poder, movimento que a história foi forjando e transformando em uma estrutura impessoal e legada de geração em geração, não será extirpado apenas com a morte de um dos seus representantes. Se o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) estiver certo ao dizer que não há vácuo no poder, o assassinato de Júlio César só faz prenunciar a coroação de Luís XIV, o Rei Sol. Assim, o ator que encena Cássio, um dos aliados de Bruto, só faz perguntar já extremamente tocado pela peça: 

− Será que Shakespeare viveu na minha Nápoles? Tudo o que ele diz sobre Roma eu vi e vivi por lá. Apenas não posso dizer como César: “vim, vi e venci”. Mas será que César pode repetir sua frase vitoriosa? Quantas vezes sua morte será reencenada? Quantas vezes César deverá sangrar no palco? 

A arte ludibria a realidade ao fazer perguntas que o poder simplesmente não pode suportar. O detento Cássio sentencia: “Desde que conheci a arte, esta cela tornou-se uma prisão”. Eis que a encenação fílmica de Shakespeare assume uma faceta libertária – e cínica: a nova amplitude que a arte lhe traz terá que colidir para sempre contra as paredes da prisão perpétua. Desde que Cássio conheceu a prisão, a arte tornou-se um palco – e uma cela. Tais contradições retratadas por ‘César deve morrer’ nos fazem entrever por que Júlio César ainda vive. 

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, ‘O Evangelho segundo Talião’ (Editora nVersos), será publicado em abril. Periodicamente, atualiza o ‘Subsolo das Memórias’,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. 

Saturday, 23 February 2013

Decolonize the Consumerist Wasteland: Re-imagining a World Beyond Capitalism and Communism

common dreams
http://www.commondreams.org/view/2013/02/19


Decolonize the Consumerist Wasteland: Re-imagining a World Beyond Capitalism and Communism

Here in India, even in the midst of all the violence and greed, there is still hope. If anyone can do it, we can. We still have a population that has not yet been completely colonized by that consumerist dream.(Photo: Reuters/Chaiwat Subprasom)
We have a living tradition of those who have struggled for Gandhi's vision of sustainability and self-reliance, for socialist ideas of egalitarianism and social justice. We have Ambedkar's vision, which challenges the Gandhians as well as the socialists in serious ways. We have the most spectacular coalition of resistance movements, with their experience, understanding and vision.
Most important of all, India has a surviving adivasi (aboriginal) population of almost 100 million. They are the ones who still know the secrets of sustainable living. If they disappear, they will take those secrets with them. Wars like Operation Green Hunt will make them disappear. So victory for the prosecutors of these wars will contain within itself the seeds of destruction, not just for adivasis but, eventually, for the human race. That's why we need a real and urgent conversation between all those political formations that are resisting this war.
The day capitalism is forced to tolerate non-capitalist societies in its midst and to acknowledge limits in its quest for domination, the day it is forced to recognize that its supply of raw material will not be endless, is the day when change will come.
If there is any hope for the world at all, it does not live in climate-change conference rooms or in cities with tall buildings. It lives low down on the ground, with its arms around the people who go to battle every day to protect their forests, their mountains and their rivers because they know that the forests, the mountains and the rivers protect them.
The first step toward re-imagining a world gone terribly wrong would be to stop the annihilation of those who have a different imagination – an imagination that is outside of capitalism as well as communism. An imagination which has an altogether different understanding of what constitutes happiness and fulfillment.
To gain this philosophical space, it is necessary to concede some physical space for the survival of those who may look like the keepers of our past but who may really be the guides to our future. To do this, we have to ask our rulers: Can you leave the waters in the rivers, the trees in the forest? Can you leave the bauxite in the mountain? If they say they cannot, then perhaps they should stop preaching morality to the victims of their wars.
This article is excerpted from her recent book, Walking with the Comrades, in which Arundhati reflects on her time spent with Maoist guerrilla insurgents in India.