Friday, 22 August 2014

Por uma Geografia do Imaginário: percorrendo o labiríntico mundo do imaginário em uma perspectiva geográfica cultural


CEI

Universidade Federal de Rondônia
Revista Eletrônica do
Centro de Estudos do Imaginário











Por uma Geografia do Imaginário: percorrendo o labiríntico mundo do imaginário em uma perspectiva geográfica cultural



1 - Introdução

A instigante tarefa que alguns estudiosos da Geografia científica tem se lançado nos últimos tempos tem sido a discussão acerca das influências que o imaginário social tem revertido no seu correspondente geográfico. Portanto, reflexões sobre a temática do imaginário tem se constituído em um desfio ao geógrafo sobretudo aquele que se dedica aos estudos culturais. Em outro plano os estudos sobre o imaginário têm ganhado grande conotação no cenário científico atual, haja vista que os paradigmas científicos com base na racionalidade imperativa, não conseguem explicar toda complexidade do homem, das suas relações sociais e dos espaços por estes produzidos. A este respeito observa-se, que progressivamente, o imaginário, que a modernidade poderia considerar como sendo da ordem do supérfluo ou da frivolidade, tende a encontrar um lugar de escolha na vida social” (MAFFESOLI 1995; 41)

A discussão dos conceitos de imagem, imaginação e imaginário tem sido largamente difundida e apreciada pelos geógrafos em suas pesquisas acadêmicas, sobretudo nos estudos fenomenológicos da Geografia Cultural. Este fato assinala que os propósitos de uma ciência comprometida com o estudo da natureza e do homem transcendem a linha de pesquisa que se baseia no ser objetivo e racional, compreendendo agora a valorização subjetiva do ambiente e do indivíduo.

Os estudos de cunho subjetivo na Geografia foram duramente criticados por não se aportarem em métodos que resultassem em uma comprovação lógica, fato esse intransponível, pois ao se analisar algo que é da ordem do invisível não haveria objetivamente constatações concretas e quantificáveis a serem obtidas. Assim sendo diante do mundo em que nos encontramos, cabe a nós geógrafo destinar uma considerável parcela de atenção a força dos símbolos, das imagens, dos mitos e dos imaginários construídos pela sociedade.

Apesar da ciência nos últimos séculos ter adquirido através da racionalidade uma visão mais objetiva e linear, as representações simbólicas e o sentimento expressado pela terra deram valiosas contribuições aos estudos científicos. Aportando-se na análise da relação homem/meio a Geografia tem na terra a base das representações simbólicas socialmente, sendo ela portanto desde os tempos longínquos, fonte de símbolo e significado. A terra em essência representa mais do que o espaço de morada, é na verdade um registro simbólico. Nesse sentido os estudos geográficos direcionam o “olhar” científico sobre uma dimensão subjetiva da terra, onde estão entrelaçadas as vivências e experiências humanas com o espaço.

A Geografia em seu trajeto como disciplina acadêmica assim como as demais ciências sociais esteve encarcerada na “sombria” razão iluminista. Entretanto por privilegiar a razão como única fonte de conhecimento, desprezava-se toda tentativa de romantismo ou pensamento irracional que aflorasse. Baseando-se em verdades absolutas o pensamento racional pretendia abarcar toda forma de conhecimento produzida na époque iluminist, refutando evidentemente aqueles preceitos que não se enquadrassem nos seus postulados. A ruptura com os parâmetros da razão pura fez surgir a possibilidade de contemplar os estudos sobre a imaginação, a poética espacial, bem como os sentidos que os lugares adquirem para uma determinada sociedade.

A Geografia Humanística com os estudos na área da Geografia Cultural esquadrinhou com propriedade as novas propostas de abordagem, sobretudo no que concerne ao espaço geográfico enquanto espaço de vivencia dotado evidentemente de sua carga subjetiva. Aportada nos pressupostos fenomenológicos, a Geografia Humanística traçou um novo percurso metodológico, onde se privilegiou a coisa em sí, ou seja, parte-se da análise de como as coisas se apresentam, como elas estão dispostas no mundo e como fazemos a representação das mesmas.

Diante deste cenário que se forma nas ciências sociais e mais especificamente na Geografia, observa-se que são levantadas questões instigantes que de certa forma ampliam o quadro de conhecimento da disciplina e ainda propõem novos desafios a investigação científica, pois abordam temas da ordem do “invisível”, da dimensão do vivido na sociedade, as quais foram fortemente refutadas pelo pensamento científico do século XVIII até os tempos atuais. Entretanto, apesar das críticas destinadas a essas abordagens, de cunho irracional, constata-se a retomada vigorosa dos temas do imaginário e da imaginação por grandes pensadores como Bachelard e Sartre no século XX onde reforçaram o caráter revitalizador e substancial de tais temas em relação a realidade social.

Os pressupostos que regem uma geografia do imaginário perpassam indubitavelmente pela discussão dos conceitos de imagem, imaginação e imaginário. É sabido que tais conceitos são emprestados das ciências sociais, como a Antropologia, Psicologia, que notadamente diligenciaram calorosos debates no âmbito das suas teorizações. Desse modo o geógrafo que se propõe a analisar as estruturas do imaginário em uma dada sociedade, bem como sua expressão e influência no espaço geográfico, deve debruçar-se sobre tais conceitos de forma que articule as reflexões produzidas por outras áreas do conhecimento, com os propósitos que encerram os estudos geográficos do imaginário. 

2 - Por uma Geografia do Imaginário: notas iniciais

A instigante tarefa que muitos geógrafos culturais tem se detido no meio científico atualmente, tem sido a analise do imaginário no espaço geográfico. Contudo é sabido que tal tarefa se torna um desafio, pois as reflexões que se tem processado no âmbito das discussões sobre o imaginário são em suas maioria proveniente de áreas como a Antropologia, Psicologia, História entre outras. Assim sendo, diante disto cabe ao geógrafo que pretende navegar pelo mundo imaginário articular os conhecimentos específicos de sua área com as demais ciências, como forma de desvelar o incrustado campo imagético de uma sociedade. 

Ao investigar como ocorre o processo de construção imagética de uma sociedade o pesquisador estará interpretando os símbolos que são evocados para compor o imaginário social, os quais estão intrinsecamente relacionado com o lugar, ou seja com o seu componente geográfico. Como mesmo afirma CASTRO (1997, p.178) “reafirmamos, como desdobramento das discussões acima, que todo imaginário social é também um imaginário geográfico, porque, embora fruto de um atributo humano – a imaginação – é alimentado pelos atributos espaciais não havendo como dissociá– los”. Desse modo pretende-se neste ensaio esquadrinhar uma leitura onde o componente do imaginário geográfico torna-se conteúdo e continente para delinear uma reflexão a cerca da dimensão geográfica do imaginário. Diante deste quadro de referência, buscar-se-á delinear reflexões para compor o que se chamaria de uma Geografia do Imaginário, assim caberia indagar que pressupostos e/ou teorias seriam evocadas para diligenciar uma leitura do imaginário social.

As evidências não palpáveis que se fixam no inconsciente coletivo representam os símbolos produzidos e construídos socialmente os quais por sua vez denotam a idéia representativa de uma realidade. “As imagens mentais podem se tornar símbolo, quando se tornam familiar dentro de uma sociedade a ponto de ultrapassar seu sentido geral e imediato” (ELIADE;1996,157). Assim sendo, isso nos leva a pensar que ao representar uma sociedade estaremos nos referindo aos símbolos, não a própria realidade em si. Por exemplo, quando nos referimos ao Rio de Janeiro como “a cidade maravilhosa” do Pão de Açucar, Corcovado, Copacabana, Carnaval, são imagens e representações mentais evocadas que não são o Rio de Janeiro, más que falam por ele. Assim uma dada realidade é reconstruída pelo imaginário através de seus recursos simbólicos. Para JUNG, (1964: p.20) “o símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e condicional”. Os símbolos podem evocar diferentes olhares e entendimentos diversos, pois estão relacionados com a subjetividade, podendo tanto ser causadores de contentamento, como de desprezo ou repulsa. Portanto os símbolos têm essa característica de aflorar sentimentalidade que na verdade são reflexos de nossas experiências com os objetos simbólicos. Por exemplo, a cruz de madeira para um cristão católico tem um significado, uma áurea mística que para um budista ou um protestante não teria. Entretanto, apesar do fato de atribuirmos uma valoração simbólica a um objeto ele não deixa de ser na verdade o que de fato é, dois pedaços de madeira sobrepostos se tomarmos o exemplo acima de forma simplificada. É relevante destacar que os símbolos religiosos não são representações individuais, mas coletivas e mesmo com a interferência do homem não se tornaram símbolos de uma hora para outra, para serem de fato aceitos passaram por inúmeras transformações. 

O maior objetivo dos símbolos religiosos é dar sentido a existência do homem, transcendo os limites da vida e dando-lhe a oportunidade de alcançar a plenitude. Eis então o sentido do símbolo não só religioso, que possibilita ao homem representar o seu mundo e que ao fazer isso ele estará ultrapassando a dimensão do real, dando então uma significação a existência humana. Dentro deste quadro de referência pode-se inferir que um nome ou uma imagem torna-se simbólico quando ultrapassa o limite do seu significado imediato e adquiri um caráter inconsciente. Uma vez entendidos como representações do inconsciente pela mente do indivíduo, não se torna particularizados, ou seja eles não são representações individuais, mas coletivas. Para Jung “as origens do inconsciente estão além da história em si e dentro da evolução do homem (... ) o inconsciente mantêm-se com o passar dos tempos, sendo reserva dos elementos que caracterizam o homem não como ele é no momento em que vive” (JUNG,1993:p. 14)

O citado autor revalorizou o imaginário em seus tratados psicológicos ao resgatar as capacidades imaginativas do inconsciente e ao discutir em seu método terapêutico os arquétipos, em outras palavras seriam aquelas imagens psíquicas do inconsciente coletivo que seriam herdados pelo indivíduo. O discípulo de Freud propôs um novo percurso teórico estabelecendo novos elementos para compreensão e análise do imaginário social. Em linhas gerais Jung em seus tratados teóricos sobre o imaginário evidencia que o inconsciente coletivo estaria como o elemento caracterizador do homem histórico e complementar ao conteúdo consciente, sendo constituído por uma linguagem rica em imagens e símbolos.

Diante da construção simbólica produzida pela sociedade cabe interpelar então qual seria o lugar do imaginário, ou seja, que relações teriam o imaginário com os simbolismos gerados coletivamente. Ao evocar imagens e símbolos para representar um determinado fato social um grupo estará por sua vez alimentando o imaginário, o que implica dizer que este se expressa por meio de símbolos para reconstruir o mundo real. O imaginário mantém uma flexibilidade na manipulação das imagens, de tal forma que distorce, (re)cria , metamorfoseia ao representar a realidade. “O pensamento imaginário nada mais é do que construir uma imagem do ambiente fazendo ele correr mais depressa que o ambiente” (GEERTZ; 1978: p.185). 

A constituição do imaginário ainda perpassa pela formação e influência das instituições sociais, religião, uma organização econômica, um sistema de direito ou um poder instituído. Elas por si já constituem um todo simbólico, não se reduzem a isso, mas notadamente se nutrem de tal condição imaginária onde possuem uma grande rede de significados. É notório o fato de que estamos cada vez mais articulados a um sistema de significações que constitui o imaginário social. Entretanto, tem-se que ressaltar que tais simbologias estão não somente atreladas à dimensão humana, mas que a dimensão geográfica também influencia na formação desse imaginário, já que é sobre uma base física que se dão as relações sociais e onde a história da humanidade se desenvolve.

Os objetos geográficos têm uma significativa contribuição para a afirmação do imaginário, haja visto que se incorpora na vida cotidiana e coletiva de forma tal que as práticas sociais lhe conferem um valor simbólico. As paisagens naturais com todos os seus elementos físicos assim como as paisagens artificiais, aqueles frutos da construção humana, consubstanciam em imagens e representações da alma coletiva. Os lugares estão carregados de afetividades e simbologias para um determinado indivíduo, que também fazem parte do imaginário coletivo. A cidade de Meca para os mulçumanos representa de fato a ligação do homem a sua terra, a genitora da vida humana, mas também uma imagem que foi socialmente construída pela religião islâmica de uma terra abençoada pois foi naquele local onde Alá revelou o livro sagrado o Alcorão ao profeta Maomé. Há portanto no imaginário umageograficidade pela relação concreta que se estabelece entre o homem e a terra. 

A terra em essência representa mais que um espaço de morada , é na verdade um registro simbólico. Como base para as representações imagéticas a terra se constitui também em um componente do imaginário social, pois embora fruto de atributos humanos a capacidade imaginativa se alimenta também de atributos espaciais, estando ambos portanto indissociáveis. Portanto, “O imaginário reporta-se a espaços, produz uma topografia que lhe é própria e reflete, embora transformando as relações que o homem estabeleceu com o espaço onde o passado trouxe suas inscrições, dando assim uma materialidade a memória coletiva” (BALANDIER apud CASTRO;1997 p. 177). 

O espaço dessa forma seria tanto conteúdo quanto continente do imaginário social, em outras palavras poder-se-ia afirmar que tanto a própria morfologia da paisagem se inscreveria como atributo para leitura do imaginário geográfico quanto às relações que se estabelecem nesses espaços seriam significativas na construção do imagético. A constituição do imaginário social se dá tanto no campo doemaranhado humano quanto no da racionalidade geométrica , sendo a simbiose entre o visível e o invisível , o cristal e a chama, o valor e o não valor, o sonho e a realidade. Para Castoriadis o termo imaginário refere-se :“a quando queremos falar de alguma coisa, “inventada” quer se trate de uma invenção “absoluta” uma história imaginada em todas as suas partes ou do deslizamento, de um deslocamento de sentido, onde os símbolos são investidos de outras significações, normais ou canônicas”(CASTORIADIS;1982,154)

O imaginário reporta-se aos simbolismos para exprimir-se, isso quer dizer que as representações sociais ou as imagens mentais dos indivíduos se expressam por meio de símbolos que chegam até o consciente como imagens, formando-se no inconsciente coletivo o que permite a comunicação com o imaginário. Obviamente que tais aparatos imagéticos dizem alguma coisa sobre um determinado fato ou objeto, tendo, portanto uma função simbólica. Mas o simbolismo também incita uma capacidade imaginária permitindo ver em uma coisa o que ela não é, ou seja os atributos simbólicos têm o poder de modificar a apreensão da realidade pois realizam uma outra leitura do mundo. Ainda discorrendo sobre as fontes de criação do imaginário Castoriadis coloca então um imaginário radical, origem de um imaginário efetivo, o qual teria a capacidade elementar de evocar imagens.

Assim sendo faz-se necessário incursar pelos labirínticos campos de discussão sobre o que venha a ser imagem, imaginação e imaginário. Segundo FERREIRA (2001; 373) imagem refere-se “aquilo que evoca uma determinada coisa, por ter com ela semelhança ou relação simbólica; símbolo (...) produto da imaginação consciente ou inconsciente; manifestação do sensível”. Dessa forma a imagem estaria associada a representação do mundo real, expressando-se através da capacidade que o homem tem de construir figurações a partir de objetos da realidade. Sartre preconiza quanto a discussão da imagem que não se deve coisificá-la, criticando por sua vez a teoria clássica da imagem miniatura e contra a doutrina bergsoniana da imagem recordação. Na tentativa de evitar a “coisificação” da imagem Sartre apregoa o método fenomenológico que não deixa aparecer do fenômeno imaginário mas do que intenções purificadas de qualquer ilusão de imanência.

Segundo SANTAELLA & NÓTH (1985;15) o campo de imagens se divide em duas dimensões, uma em que exerce o domínio das imagens como representações visuais, desenhos, gravuras, pinturas entre outros. Tais imagens são por sua vez, objetos materiais, signos que representam o nosso ambiente visual. A outra dimensão estaria relacionada ao domínio imaterial das imagens de nossa mente. Neste domínio imagens aparecem como visões, fantasias, imaginações, esquemas modelos. Ambos os tipos de imagens não são excludentes, mantendo uma forte ligação desde sua origem, pois “não há imagens como representações visuais que não tenham surgido de imagens na mente daqueles que as produziram do mesmo modo que não há imagens mentais que não tenham alguma origem no mundo concreto dos objetos visuais” (SANTAELLA & NÖTH:1985;15). Deteremos mais nossa atenção nas imagens fantasiosas, aquelas que habitam as mentes humanas e que são fruto do devaneio, ilusão da imaginação.

O conceito de imagem desemboca em outros conceitos como de signos e representações, que são expressão do lado perceptível e o lado mental das imagens. Infere-se, pois que signos e representações são sinônimos referindo-se a uma mesma base imagética consubstanciada pelo mundo real, assim como também pelo mundo irreal. Mas até que ponto poder-se-ia afirmar que algo é da ordem do real ou do imaginário, se a própria realidade pode não ser tão real como se pensa, não passar de uma ilusão. Portanto como mesmo afirma MERLEAU-PONTY (1971; 8) “o real é tecido sólido, não espera nossos juízos para anexar os fenômenos mais surpreendentes nem para rejeitar nossas imaginações mais verdadeiras”, o que implica refletir que independente de nossas aspirações ou concepções o mundo está aí para formularmos nossas representações.

Por muito tempo a imagem foi relegada a arte de persuadir dos pregadores, dos poetas, dos pintores como resultado do devaneio e da ilusão. Apesar dos inúmeros estudos produzidos na área das ciências humanas, acerca da imaginação e da imagem, muito se tem a discutir e ainda a apresentar sobre tais conceituações, sobretudo quando interpretadas como fabulosas invenções sem significância para o mundo moderno. Eis então o desafio a ser vencido pelo cientista que se propõe a deleitar-se nos caminhos por vezes insondáveis do imaginário.

Os sentidos humanos são inundados por imagens que se articulam na mente formando a engenharia da imaginação representando “a máquina” de forma imagens que transcende o mundo real. “A imaginação não fornece apenas imagem da realidade, ao contrário é a faculdade de formar imagens que ultrapassem a realidade”(BACHELARD apud CORRÊA; 1999;219). Ao capturar as imagens por meio dos dados sensoriais a imaginação desempenha o papel de metamorfosear sem reproduzir mimeticamente, produzindo novos significados, haja visto que esta possui uma capacidade metafórica de gerar tais resultados. 

A imaginação não é somente fruto dos estímulos do ambiente que nos chegam pelos sentidos, nem só o intelecto que nos separa dela. A imaginação ou o conhecimento da imagem é proveniente do entendimento. “É o entendimento, aplicado a impressão material produzida no cérebro, que nos dá uma consciência da imagem (...) que possui a propriedade estranha de poder motivar as ações da alma” (SARTRE apud CORRÊA; 1999: 219)

O pensamento humano se centra muito em termos de uma vontade que controla, más não o suficiente em termos de uma imaginação que libera. Seguindo a filosofia liberalista da imaginação poderemos compreender a centralidade dessa filosofia em gerar novos significados para o mundo e assim entenderemos as relações entre imaginação individual e coletiva e suas implicações geográficas; os modos de a imaginação aproximar do mundo natural, os conflitantes temporais da ação humana, o passado e o futuro no âmbito da imaginação cultural, a natureza crítica da imaginação.

O mundo dos significados está repleto de símbolos que se alojam no imaginário coletivo, afirmando a identidade de uma dada comunidade. Suplantado pelos apetrechos teóricos da imagem e da imaginação, o imaginário estaria no plano irreal. Sendo fonte de (re) construção do real a partir das imagens, símbolos e signos estariam por sua vez (re) construindo as bases constituintes da vida social.

Na medida em que o homem passa a utilizar sua capacidade imaginativa metaforicamente, a partir de suas interações com o mundo real, ele passa também a criar seu imaginário - na verdade trata-se de uma visão ou visões de mundo. Vivemos em um mundo dotado de imagens não somente visuais, mas também mentais. As representações do mundo feitas pelos homens refletem os seus valores e escolhas em um dado momento da existência, o que incide sobre o caráter subjetivo da imaginação, bem como do imaginário. “A cada instante sonho em torno das coisas, imagino objetos ou pessoas cuja presença não se misturam ao mundo, estão diante do mundo, no teatro do imaginário” (MERLEAU-PONTY; 1971: p. 8)

O imaginário estabelece uma conexão obrigatória com o mundo real onde se constitui toda a representação humana; esta conexão se realiza necessariamente no espaço, lugar por excelência e fonte inesgotável de signos e símbolos do imaginário social. Ao expressar o mundo, ao fazer uma representação do mundo estarei expressando o meu eu, pois o homem mantém uma ligação profunda com a terra, não se expressando somente com o telurismo, mas referindo-se a uma relação de consubstanciação onde ambos se fundem em um mesmo ser. 

Trazemos em nossas mentes tanto experiências do real quanto do imaginário que se incorporam em nossas estruturas cerebrais alocando essa fonte energética que é o imaginário, o qual se formaliza individual e coletivamente, materializando-se em ações mediadas por imagens e símbolos. Como fonte vital para existência de uma sociedade o imaginário se alimenta de um espaço, que obviamente contém símbolos, signos e imagens, quando não muito é ele a própria representação. É incumbência dos cientistas que estudam os labirínticos caminhos teóricos do imaginário desvelar por meio de métodos que contemplem a intersubjetividade, a busca das essências, da interpretação das representações mentais, das imagens, o substrato das ações concretas dos atores sociais tanto no tempo quanto no espaço. 

Tecida uma sucinta discussão sobre os desdobramentos do imaginário social cabe ressaltar a afirmação de BALANDIER apud CASTRO (1997; 169) onde o “imaginário permanece mais do que necessário, sendo de algum modo o oxigênio sem o qual toda a vida pessoal e coletiva se arruinariam”. Talvez seja exagero do autor supracitado em colocar o imaginário como “pedra angular” de onde provém todas as fontes que regem e dinamizam a vida, mas é provável que esta dimensão imaginária seja o fluído vital para nossas ações no cotidiano.

3 - Do território ao lugar: percorrendo os meandros do imaginário geográfico

Ao se apropriar de um determinado espaço a sociedade transforma-o em território, onde passa a estabelecer relações de poder sobre a base física. Esse processo de territorialização é mediado pelas práticas sociais que controlam, gerenciam e atuam ativamente sobre o território. Entretanto percebe-se que o território envolve não só uma relação de poder e posse sobre um espaço, mas há nessa unidade físicas dimensões subjetivas, onde o indivíduo expressa um elo muito forte com o ambiente onde vive, conferindo-lhe outros significados.

O território envolve não somente um “ter” mediador de relações de poder (político-econômico) sobre parcelas do espaço, ele compõe também o “ser”. Ao mesmo tempo prisão e liberdade, lugar e rede, fronteira e coração, o território de identidade pode ser uma prisão que esconde e que oprime ou uma rede que se abre e se conecta e um coração que emana poesia e novos significados” (HAESBART apud CORRÊA; 1999:p. 186) 

Assim constata-se que o território produz uma forte carga subjetiva de onde emanam todas as relações de apego com uma determinada terra. Esse telurismo exacerbado que se desenvolve na população é fruto do contato cotidiano que o homem mantem com o solo. . A esse respeito o termo topofilia formulado por TUAN evoca bem os laços afetivos dos seres humanos com o ambiente natural, por sua vez é fonte geradora das imagens. O autor citado nos alerta que “o meio ambiente pode não ser a causa direta da topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma às nossas alegrias e ideais” (TUAN; 1980; 129).

Quanto ao contato físico com a terra, atenta-se para o fato de que o agricultor ou homem do campo mantém um intrínseco envolvimento com a natureza e a paisagem se apresenta não só como um instante cênico, mas como uma parte de seu ser. 

O apego à terra do pequeno agricultor ou camponês é profundo. Conhecem a natureza porque ganham a vida com ela (...) para o trabalhador rural a natureza forma parte deles – e a beleza, como substância e processo da natureza pode-se dizer que a personifica. Este sentimento de fusão com a natureza não é simples metáfora. Os músculos e as sicratizes testemunham a identidade física do contato. A topofilia do agricultor esta formada desta intimidade física, da dependência material e do fato de que a terra é um repositório de lembrança e mantém a esperança. A apreciação estética está presente mas raramente é expressada(TUAN; 1980:p 111) 

As construções simbólicas que se processam no território são em essência imagens que projetadas nas mentes dos homens tomam significados diferentes, pois estão intrinsecamente relacionadas a dimensão subjetiva do indivíduo, que notadamente recebe influências do meio e da sociedade a qual encontra-se inserido. Isso nos leva a pensar que “os nossos territórios existenciais são imagéticos. Eles nos chegam e são subjetivados por meio da educação dos contatos sociais, dos hábitos, ou seja da cultura
2 que nos faz pensar o real como totalização das abstrações”(ALBUQUERQUE;1996:27) 

A sociedade produz um imaginário como condição fundamental para seu funcionamento. Para tanto tal produção se dá em uma base cultural que obviamente mantêm seus rituais, cerimônias, objetos culturais. “A cultura é meio pelo qual os indivíduos transformam o fenômeno cotidiano do mundo material num mundo de símbolos e significados, ao que dão sentido e atrelam valores” (STUART HALL apud CORRÊA;1999:25). A cultura muitas vezes é interpretada como uma realidade “superorgânica” ou seja, que está contida nos espaços antes mesmo da existência humana, o que é na verdade uma forma de reificá-la. A cultura para GEERTZ (1978; 20) “é este documento de atuação pública que tanto pode passar de uma piscadela burlesca a uma incursão fracassada de carneiros. Embora uma ideação não existe na cabeça de alguém, embora não física é uma identidade oculta”. Isso nos leva a pensar que a cultura enquanto invólucro das simbologias produzidas pelo homem não é, pois a raiz do imaginário, mas pode ser compreendida como um elemento mediatizador no processo de construção das imagens.

Ao incursar-se pelos meandros da dimensão imaginária da sociedade estamos de certa feita penetrando também nos incrustados veios do mundo real. Não se interprete aqui o real e o imaginário como dimensões excludentes onde a mente humana funcionaria como uma ponte destinada a ligar estas duas superfícies da vida social. Deve-se, portanto partir do pressuposto de que o imaginário e o real integram um mundo só, são uníssonos. Isto resulta afirmar que ambos devem ser analisados como interdependentes, onde um serve de sustentação para explicar o outro. 

A experiência com o mundo nos permite formular as primeiras imagens que armazenamos em nossas mentes ainda quando crianças, ela conota uma posição de passividade, pois nos achamos sempre sujeitos a sofrimentos ou a situações inovadoras, que resultaram em um aprendizado ou não. “Assim a experiência implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência. Experienciar é aprender, significa atuar sobre o dado e criar a partir dele” (TUAN; 1983;10). A experiência envolve as várias formas em que uma pessoa conhece e constrói a realidade, quer seja através dos sentidos mais passivos e diretos como tato, olfato, paladar e visão, quer pela simbolização indireta. Os órgãos sensoriais se constituem na verdade na primeira apreensão do lugar, que nos permite posteriormente formularmos uma imagem ideal que se associa ao sentimento que determinado lugar proporciona. A respeito da experiência com os lugares TUAN exemplifica com muita propriedade o seguinte:

Quando residimos por muito tempo em um determinado lugar, podemos conhecê-lo intimamente, porém a sua imagem pode não ser nítida, a menos que possamos vê-lo de fora e pensemos em nossa experiência. A outro lugar pode faltar o peso da realidade porque conhecemos apenas de fora – através dos olhos de turista e da leitura de um guia turístico. É uma característica da espécie humana, produtora de símbolos que seus membros possam apegar-se apaixonadamente a lugares de grande tamanho, como uma Nação-Estado dos quais eles só podem ter uma experiência direta limitada”(TUAN:1983:96) 

Entretanto se faz necessário ressaltar que a espacialização que o homem faz do mundo a nível experiencial parece estar exclusivamente limitada a ação pragmática e a dimensão perceptual. Em se tratando de um exemplo poderíamos pensar que um determinado número de pessoas que moram em um bairro reconhecem profundamente sua área, porém é possível que desconheçam uma área ocupada em outro bairro. Entretanto é fato notável que ambas reconhecem uma dimensão maior como a cidade, o estado, a região

À medida que adquire definição e significado o território transforma-se em lugar, onde jazem as experiências íntimas e onde encontramos condições para realizarmos nossas necessidades fundamentais de existência. O lugar é em ultima análise “uma pausa em movimento” (op. cit. 1983: 153), o que significa dizer que a pausa permite pensar a localidade como uma centralidade, onde tudo converge para um mesmo ponto, é o encontro de todos os lugares em um só. O sentimento com o lugar se afirma quando são resgatados instantes do passado atraentes e que evocam imagens representativas, como mesmo afirma o autor supracitado “a história é responsável pelo amor à terra natal” (op. cit. 1980: 115). Essas imagens podem não só dar conta da totalidade concreta mas referir-se a coisas efêmeras e familiares, com as experiências ou acontecimentos mais simples que se transformam em um sentimento profundo em relação ao lugar.

A memória por sua vez se torna imprescindível para entendermos também a constituição de um lugar, pois ela aqui não é entendida como um instrumento para explorar o passado, mas um meio para entender como se deram as vivências em um determinado lugar. “A memória tece as alegrias mais intensas e nos mantém a sua mercê através das ninharias, algum som, o tom de uma voz, o odor do piche e das algas marinhas do cais (...) este certamente é o significado de um lugar onde cada dia é multiplicado por todos os dias anteriores” (op.cit. 1983: 160)

O sentido do lugar muitas vezes pode estar relacionado com o uso que as pessoas fazem dele ou então da permanência de uma persona que por caracterizar o ambiente com suas práticas e afazeres diários, da-lhes características inerentes a personalidade do indivíduo. O lugar torna-se mítico no sentido de que imaginamos que está associada a algo imaterial como a personificação. Temos sempre um personagem que se destaca no imaginário social, seja aquele sujeito que é tido como pouco tolerante, ou então aquele que vive infurnado em uma igreja e fora mantém uma vida pecadora, ou então aquela senhora que dizem se alimentar de fígado de doces crianças, quando na verdade ela apenas é uma misantropa; um elemento de grande carisma por fazer caridade curando os males dos enfermos de espírito, enfim figuras que se destacam no cenário cotidiano. Essas pessoas tornando-se mitos e mitificando os lugares. “O espaço mítico é uma área imprecisa do conhecimento deficiente envolvendo o empiricamente conhecido (...) é um componente espacial de uma visão de mundo” (TUAN;1983: 97)

O território e o lugar se configuram como categorias conceituais que apregoam o caráter subjetivo do espaço, onde o território existencial se apresenta como imagético e por sua vez serve de base para afirmar uma identidade coletiva. A territorialidade foi construída notadamente pelas práticas sociais que se efetivaram no espaço as quais inseriu-se em um determinado espaço/tempo simbólico. O lugar por sua vez como uma pausa em movimento representa o encontro de todos os momentos em um só local, refere-se também ao sentimento que desenvolvemos ao se relacionar cotidianamente com as pessoas e com os objetos. A interconexão dessas espacialidades denota as dimensões físicas e abstratas que se eternizam na vida social.

4 - Considerações finais

Navegar pelo mundo do imaginário é antes de tudo revelar o substrato da vida cotidiana social, diante disto se faz necessário investigar como se forma o processo da construção imagética de uma sociedade.

Ao viver em coletividade o homem passa a estabelecer relações com o seu meio e seus semelhantes e para manter tal relação ele necessita incorporar a sua vida elementos simbólicos e signícos que notadamente funcionarão como códigos identificadores do grupo. Tais códigos evidenciam experiência que cada povo manteve com o mundo. Desenvolvendo esses símbolos codificadores a sociedade apregoa um dos sustentáculos da vida social: a linguagem, sendo um sistema de códigos simbólicos que é uma das fontes motrizes do imaginário social

A capacidade que o homem tem de criar e dar significado aos símbolos está entre um de seus atributos desde suas evidências mais remotas na terra, basta lembrar os registros iconográficos deixados nas cavernas ou ainda os imponentes templos destinados aos Deuses da natureza que são na verdade resquícios de um estágio da evolução do homem. Entretanto esses fatos se centram mais em evidências materiais, mas o que nos interessa são justamente as não materiais que se fizeram presentes no imaginário coletivo com o passar dos tempos e para os quais a ciência moderna custou a abrir os olhos.

Entender as linhas imaginárias que a sociedade imprime sobre sua existência é resgatar um pouco da produção simbólica, evidenciando que o imaginário se exprimi por ela e que ao se tornar simbólico uma imagem ou um nome ultrapassa seu significado adquirindo um caráter inconsciente. O inconsciente coletivo estaria impregnado na história do homem não tendo portando uma referência para o seu surgimento, assim explica-se o seu caráter eterno, pois perpetua suas estruturas que dão significado a existência humana. O simbolismo, mas do que nunca se edifica como a fonte basilar para produção imagética de um dado grupo. A cultura por sua vez seria o invólucro que não só conteria toda produção imagética como também estaria contida dentro deste, delineando a rede de valores e significados que a sociedade institui ao longo de sua existência. Assim em linhas gerais esboça-se o cenário no qual se engendra um caminho para construção de uma Geografia do Imaginário, sem a pretensão de estar criando uma nova categoria dentre tantas geografias que existem, pois na medida em que o homem começou a construir sua existência neste mesmo momento criava-se as bases para uma geografia imagética.

5 - Referências Bibliográficas

ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FNJ, Ed. Massagana, São Paulo, 1999.

CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. 3a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1982.

CANEVACCI, Massimo. A cidade polifônica: ensaio sobre a antropologia da comunicação urbana. São Paulo: Studo Dogel, 1993.

CLAVAL, Paul. A geografia cultural. Trad. Luiz Fugazzola Pimenta e Margareth de Castro Afeche Pimenta. 2 ed.. Florianópolis: EdUFSC, 2001

CORRÊA, Roberto Lobato & ROSENDHAL, Zeny. Paisagem, imaginário e espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

____. Manifestações da Cultura no espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

____. Geografia Cultural : Um século (1). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

____. Geografia Cultural : Um século (2). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à Arquitepologia Geral. Trad. Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

____. O Imaginário: ensaio acerca da Ciência da Filosofia da Imagem. Rio de Janeiro: Difel, 1998.

ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos. 2a . São Paulo: Martins Fontes, 1996.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2001. p 275.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro. Trad. Fanny Wrobel. Zahar Editores,1978.

JUNG, Carl G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes,1993.

____. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1971.

MAFFESOLI, Michel.A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios,1995

ROSENDHAL, Zeny. Espaço e religião: uma abordagem geográfica. Rio de Janeiro: EdUERJ, NEPEC, 1996.

SANTAELLA, Lúcia & NÖTH, Winfrield. Imagem, cognição, semiótica e mídia.São Paulo: Iluminuras, 1998. 

TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Trad. Lívia de Oliveira. São Paulo: DIFEL, 1983.

____. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Trad, Lívia Oliveira. São Paulo: DIFEL, 1980.

NOTAS

1) Mestrando em Geografia - UFRN .  Volta

2) Cultura no seu sentido amplo, etnográfico, é o conjunto complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte a moral, o direito, o costume e qualquer outra capacidade e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (E. B. TAYLOR apud CANEVACCI, 1997: 7)Volta
Post a Comment