Friday, 22 August 2014

Gênero e Imaginário



Universidade Federal de Rondônia 
Revista Eletrônica do
Centro de Estudos do Imaginário
Labirinto - Revista Eletrônica do Centro de Estudos do Imaginário

Gênero e Imaginário
_______________________________________________________
Arneide Bandeira Cemin1, Camila Alessandra Scarabel(PIBIC), Maria de Fátima Batista de Souza (PIBIC) e Silvanio de Matia Gomes (PIBIC)2


Introdução
Esta pesquisa é parte do projeto “Gênero, Família e Violência (rede social e imaginário em contexto urbano)”. O projeto foi subdividido em três subprojetos: “Gênero e rede social”, “Fundamentos da união, da violência e da ruptura” e “Gênero e Imaginário”. Este último subprojeto parte é o objeto específico deste artigo.
O subprojeto referido teve como objetivo perceber a estrutura, o conteúdo e a dinâmica de imaginários específicos a homens e mulheres. Tínhamos por hipótese (estabelecida em dados de pesquisa anterior) que homens e mulheres apresentariam formas diversas de resolução de ansiedade. A mulher apresentaria um imaginário marcado por imagens religiosas e os homens, imagens relativas ao mundo do trabalho.
O estudo de Gênero
O conceito de gênero, apesar de sua imprecisão teórica, diz respeito à construção cultural e simbólica das relações entre homens e mulheres. No Ocidente, desde os gregos e passando pelos iluministas, o valor máximo é a razão clara, objetiva, considerada atributo masculino, em confronto com a subjetividade obscura, identificada ao feminino.
Ao mesmo tempo em que o Ocidente desvaloriza o feminino, nosso modelo cultural mediterrâneo, valoriza a família, no interior da qual a mulher tem um papel central como mantenedora da honra familiar.
Dispomos de algumas teorias que explicam a condição de gênero no Ocidente. O marxismo, o culturalismo e o pós-estruturalismo, talvez sejam as mais importantes. Para os marxistas, a opressão de classe tem início com a opressão da mulher no interior da família, resultante da apropriação do trabalho da mulher pelo homem, permitindo o início da propriedade privada. De acordo com isso, o marxismo aborda a questão de gênero a partir da ótica da luta de classes, ou seja, considerando o lugar que cada gênero ocupa no processo produtivo, como pressuposto da igualdade ou desigualdade entre os gêneros (Engels,1984).
A corrente culturalista, cujo marco é a obra de Mead (1988), sustenta a tese de que não existem atribuições naturais fundadas biologicamente, e sim atribuições sociais, ou seja, papéis: tarefas e valores considerados pertinentes em cada sociedade às pessoas do mesmo sexo biológico. Nesse sentido, postula ser possível, pela via da cultura, alterar a relação de subordinação das mulheres pelos homens.
Para os estruturalistas a dualidade formada pelo par macho/fêmea é universal e, conseqüentemente, estrutural, sem ela não é possível cultura no plano material e simbólico. A tese de Lévi-strauss (1982), sobre o modo pelo qual se dá a passagem da natureza à cultura, afirma que o fundamento da cultura é a regra que obriga os homens a trocar as mulheres para além de um certo limite – variável – de seu grupo familiar, fato que torna as mulheres o elo de transmutação da natureza em cultura. Nessa perspectiva, é a troca de mulheres que permite a circulação de bens e de mensagens. Interessa, portanto, averiguar o tipo de lógica que sustenta essa dualidade, visando alterá-la, se for este o caso, a partir de uma intervenção no plano das estruturas lógicas. Nesse ponto, o estruturalismo encontra correspondência com o culturalismo.
O pós-estruturalismo questiona o postulado de universalidade da lógica binária do estruturalismo, suspeitando que ele possa resultar de uma imposição da nossa estrutura lógica dualista à compreensão da lógica de outros povos. Consideram, que é no plano do discurso que as relações sociais são construídas, inclusive, as relações sociais de gênero. Indagando, ao mesmo tempo, se não haveria fenômenos biológicos como fundamento da diferença entre masculino e feminino. Desse modo, a questão de gênero é articulada ao corpo como suporte para a noção de identidade.
Os dados da pesquisa antropológica indicam que todos os grupos sociais mantêm algum tipo de classificação básica que separa as esferas do masculino e do feminino. Embora partindo da diferença biológica, as atribuições relativas a cada sexo variam conforme nos deslocamos no tempo, no espaço e nas situações sociais. As correntes teóricas delineadas indicam três posições presentes no debate feminista: igualdade dos gêneros, enquanto igualdade econômica da qual decorreria a igualdade social, reconhecimento e construção da superioridade cultural/ideológica das mulheres e igualdade associada à diferença.
Balandier (1976), ao analisar a dinâmica interna aos sistemas sociais, indica que as divisões em classes sociais, em classes de idades e em classes sexuais são partes estruturais dos processos sociais. Desse modo, as dinâmicas sociais devem ser consideradas nessa tridimensionalidade. A partir disso o autor indaga como a divisão dos sexos afeta o sistema social e a cultura em seu conjunto, como se exprime em cada uma delas o dualismo sexualizado e o modo pelo qual a oposição e a complementaridade são, ao mesmo tempo, geradoras de ordem e de desordem social.
Ao considerar as narrativas das mitologias africanas, Balandier constata que a relação homem/mulher aparece nos momentos de fundação da ordem do mundo, de constituição da pessoa e nas primeiras obras civilizadoras do homem em sociedade. Segundo o autor, isso explicita o reconhecimento do caráter problemático, conflitual e contraditório de toda formação social, evidenciando ainda, que o dualismo sexualizado torna-se o modelo de todos os dualismos.
O dualismo sexualizado como fundamento da ordem das coisas e do mundo humano, organiza-se em três modelos estruturais: andrógino, gêmeos do sexo oposto e casal mítico. Além das estruturas os modelos fornecem o princípio dinâmico de cada tipo estrutural, sendo eles, respectivamente: fusão, complementação e aliança das diferenças.
Segundo Balandier, os modelos um e dois têm perante a história uma posição de recusa, pois negam a mudança ou prefiguram uma ordem social na qual estariam ausentes as diferenças e, portanto, a necessidade de mudanças. Nos modelos, andrógino e gêmeos do sexo oposto, subsistiria a nostalgia dos modelos ideais ou imaginários. O terceiro modelo é o que rege efetivamente a sociedade. Entretanto, os três modelos dão origem a teorias, ideologias e a práticas sociais codificadas.
Quanto às teorias sociais, o dado mais geral é a afirmação da inferioridade feminina. Em geral, apenas uma função, entre as muitas que a mulher desenvolve, não é desvalorizada: a função de mãe. De resto, o que se constata, é a pequena participação social da mulher. Em geral, para o homem, a mulher é o “outro”. Essa alteridade expressa e reforça referencias simbólicas que definem a mulher como elemento antagonista e perigoso, associada em geral com os aspectos dissolutos e, nesse sentido, anti-social. É o casamento que pode instaurar a positividade da presença feminina, uma vez que o intercâmbio matrimonial socializa sua sexualidade e articula as sociedades masculina e feminina. Cabe, portanto, averiguar, no que diz respeito às relações entre os sexos e as estruturais sociais, as situações reais nas quais homens e mulheres se inserem.
O fundamento do poder social do macho, segundo ainda Balandier, é a redução da mulher ao estado instrumental colocando-a ao serviço da comodidade masculina. Os determinantes da instrumentalização seriam: o confinamento da mulher ao espaço doméstico; a falta de um viver feminino que permita às mulheres as trocas de experiências e a identificação de seus interesses, a equiparação da condição feminina à condição de minorias, a depreciação do trabalho feminino.
Desse modo, a divisão sexista se superpõe à divisão de classes e hegemoniza o universo social com os atributos designados como masculinos. O resultado desse conjunto de representações e de práticas sociais é a condenação das mulheres a submissão e ao silêncio. Questionar o poder masculino implicaria, segundo o autor, equacionar o velho problema da articulação entre as duas metades fundantes do social: as sociedades masculina e feminina em um processo de conhecimento e de reconhecimento mútuos.

O estudo do Imaginário
Os estudos acerca do imaginário não constituem uma disciplina com objeto e método unificados, trata-se de variada gama de abordagens disciplinares, acessadas por diferentes métodos. Entretanto, o que reúne tantos interesses é o estudo das “representações” ou seja, o sentido e as configurações simbólicas que formatam as maneiras de pensar, que, expressas por práticas sociais, instituem o homem e o seu meio.
A relação que se institui entre o homem e o mundo não é direta, e sim mediada por processos de pensamento. Entre o universo físico e o homem existe a dimensão simbólica que institui o homem e o seu mundo. O homem não lida diretamente com as coisas e sim com os significados atribuídos às coisas pela sua cultura. O ambiente cultural, portanto, é formador do simbolismo tanto ao nível lógico quanto ao nível do significado; aliás, ambos os níveis se interpenetram mais do que se distinguem.
Ao invés de lidar com as próprias coisas o homem lida com os simbolismos que tecem os seus mundos. O mundo do homem não é um mundo de fatos é um mundo de percepções: a razão, a linguagem - lógica e conceitual - a ciência, a arte, a religião e os sentimentos são, por isso, dimensões imaginárias. Não há contraposição entre o real e o imaginário porque o real é construído socialmente, o real, portanto, é a interpretação que os homens atribuem à realidade através das incessantes trocas entre as objetivações e as subjetivações das quais resultam configurações específicas, ou seja, sistemas simbólicos particulares: linguagem, mito, arte, religião, política, ciência, economia; que, expressos por várias formas com diferentes conteúdos, possibilitam que o estudo do imaginário possa ser abordado a partir de múltiplas problemáticas e do ângulo de diferentes disciplinas.
Partindo do pressuposto de que a característica de dar significado liga-se ao plano simbólico, se justifica o interesse pelo estudo dos símbolos, das imagens e do imaginário, cujo início foi dado por Bachelard, o qual afirma que os símbolos não devem ser julgados do ponto de vista da forma, mas de sua força expressiva.
Gilbert Durand, referência desta pesquisa, foi um dos alunos de Gaston Bachelard e fundou um centro de estudo do imaginário, tendo influência também de Jung, que contribuiu com o conceito de imagens simbólicas coletivas – arquétipos, sendo que o que diferencia o arquétipo do símbolo é a sua falta de ambivalência, a sua universalidade constante e a sua adequação ao esquema.
Durand utiliza a expressão imaginário ao invés de simbolismo, uma vez que para ele o símbolo seria a maneira de expressar o imaginário. Sua teoria sobre o imaginário se organiza sob o método da convergência, isto é, os símbolos se (re) agrupam em torno de núcleos organizadores, as constelações, as quais são estruturadas por isomorfismos, que dizem respeito à polarização das imagens; indica que há estreita relação entre os gestos do corpo e as representações simbólicas. Os símbolos constelam porque são desenvolvidos de um mesmo tema arquetípico, porque são variações sobre um arquétipo.
O autor utiliza-se ainda da reflexologia a fim de explicar a sua classificação, baseada na noção de gestos dominantes: as dominantes reflexas que se referem aos mais primitivos conjuntos sensório-motores que constituem os sistemas de acomodações mais originários na ontogênese, os quais, segundo a teoria de Piaget, deveria se referir toda a representação nos processos de assimilação constitutivos do simbolismo.
A reflexologia identifica duas dominantes no recém-nascido: a dominante de posição (dominante postural), que coordena ou inibe todos os outros reflexos, quando, por exemplo, se põe o corpo da criança na vertical (a verticalidade e a horizontalidade são percebidas pela criança de tenra idade de maneira privilegiada); a dominante de nutrição (dominante digestiva), que nos recém-nascidos se manifesta por reflexos de sucção labial e de orientação correspondente da cabeça. Esses reflexos são provocados ou por estímulos externos, ou pela fome. A essas duas dominantes podem associar-se reações audiovisuais. Há uma terceira dominante relacionada ao reflexo sexual (dominante copulativa), que seria de origem interna, desencadeada por secreções hormonais aparecendo em período de cio.
Haveria três ciclos sobrepostos na atividade sexual: o ciclo vital, que na realidade é uma curva individual de potência sexual; o ciclo sazonal, que apenas pode interessar à fêmea ou ao macho de uma espécie dada ou ainda aos dois ao mesmo tempo; e o ciclo de oestrus, que só é encontrado nas fêmeas dos mamíferos (relacionado à menstruação); esses processos cíclicos, em particular o oestrus tem profundas repercussões comportamentais. Assim, o corpo inteiro colabora na constituição da imagem e as forças constituintes que coloca na raiz da organização das representações parecem muito próximas das dominantes reflexas.
Verificou-se a ligação da motricidade dos músculos envolvidos na linguagem verbal com o pensamento e, mais ainda, que uma motricidade periférica estendida a numerosos sistemas musculares estava em estreita relação com a representação. Salienta-se que deva existir um mínimo de adequação entre a dominante reflexa e o ambiente cultural (adequação essa, diferente de recalcamento).
A partir da reflexologia (dominantes gesto-pulsional), da tecnologia (meios elementares de ação sobre a matéria) e da sociologia (contexto social), Durand fundamenta a bipartição das imagens em dois regimes: o diurno, que tem a ver com a dominante postural, e o noturno relacionado às dominantes digestiva e cíclica.
Aqui surge o termo estrutura, definido como uma forma transformável, que desempenha o papel de protocolo motivador para todo um agrupamento de imagens e susceptível ela própria de se agrupar numa estrutura mais geral, chamada de regime, que se refere a opostos:
regime diurno - uma organização das imagens que divide o universo em opostos, cujas características são as separações, os cortes, as distinções, a luz;
regime noturno - uma organização das imagens que une os opostos, tendo como principais características a conciliação e a decida interior em busca do conhecimento.
Esses regimes recobrem três estruturas que têm como ponto fundamental a questão da mortalidade para o homem, cuja angústia existencial se manifesta através das imagens relativas ao tempo, ressaltando-se a ambigüidade e os inúmeros significados que um símbolo pode apresentar. A resolução dessa angústia permite três soluções: (1) pegar as armas e destruir o monstro, (2) criar um universo harmonioso no qual ela não possa entrar, (3) ter uma visão cíclica do tempo no qual toda morte é renascimento.
No Regime Diurno está a Estrutura Heróica, que se caracteriza pela luta, tendo como representação uma vitória sobre o destino e sobre a morte, cujos principais símbolos são:
- símbolos de ascensão – leva para a luz e para o alto;
- símbolos espetaculares – diz respeito à luz, ao luminoso;
- símbolos diairéticos – refere-se à separação cortante entre o bem e o mal.
No Regime Noturno da imagem, temos duas estruturas: estrutura Mística, que se refere à construção de uma harmonia, onde se evita a polêmica e há a procura da quietude e do gozo, tendo como recurso expressivo os símbolos de inversão e os símbolos de intimidade.
A estrutura Sintética, diz respeito aos ritos utilizados para assegurar os ciclos da vida, harmonizando os contrários, através de um caminhar histórico e progressista, sendo que seus símbolos são os símbolos cíclicos.
O símbolo tem a função transcendental de permitir ir além do mundo material objetivo. Devido a dimensão da ambigüidade, o símbolo está sob constante processo de reequilíbrio, tais como o equilíbrio vital, o equilíbrio psicossocial e o equilíbrio antropológico.

Metodologia e procedimentos
De modo geral, a perspectiva teórica com a qual trabalhamos, toma por base o programa e os procedimentos da Escola Sociológica Francesa, focalizando as “categorias do entendimento”, também conhecidas por “categorias nativas”, através de pesquisa etnográfica. Uma boa etnografia inclui a história de vida, os usos do espaço, e os saberes de várias ordens, específicos aos grupos em estudo.
Desenvolvemos também, estudos sobre as reflexões e o mapeamento do “imaginário” a partir das propostas de Gilbert Durand. A abordagem do referido autor inclui os métodos estruturalista e fenomenológico, embasado no princípio de “convergência das hermenêuticas”, visando o estabelecimento de diálogos com diferentes perspectivas teóricas e analíticas, necessárias aos estudos das complexidades culturais.
Assim, do ponto de vista metodológico, além da etnografia, utilizamos o AT9, Teste Arquétipo de nove Elementos, criado pelo psicólogo Yves Durand, a partir da obra do antropólogo Gilbert Durand.
O AT9, é um dos instrumentos metodológicos de pesquisas sobre o imaginário em experimentação no Centro de Estudos do Imaginário (CEI/UNIR). Trata-se de um teste do tipo projetivo, com abordagem e orientação antropológicas, que visa “mapear” o tipo de estrutura do imaginário com a qual o indivíduo (isolado ou em grupo), expressa seus estímulos ansiógenos, suas defesas, e o uso que faz dos elementos auxiliares propostos pelo teste.
Os arquétipos funcionam como estímulos para que o indivíduo elabore um micro - universo mítico a partir dos nove elementos que são os seguintes: O personagem - elemento central; a queda e o monstro (elementos ansiógenos); a espada, o refúgio e a coisa cíclica (elementos de resolução da ansiedade); a água, o animal (qualquer um) e o fogo como elementos auxiliares.
O micro universo é obtido a partir de uma dupla construção: um desenho e uma narrativa. Assim, o desenho fornece as imagens e a narrativa nos dá o sentido e a articulação da composição desenhada. Ambos são complementados por um quadro de análise, no qual se registra o modo como cada arquétipo foi representado, o papel que ele cumpre no desenho e na história, bem como, aquilo que ele simboliza. A estas informações são acrescidos dados obtidos através de um questionário que permite esclarecer outros aspectos que motivaram o desenho e a história do mesmo. O micro universo é passível de ser classificado nos Regimes Diurno e Noturno de imagens, e nas estruturas heróica, mística, sintética e inclassificável.
Os procedimentos analíticos para o estudo do imaginário levam em conta a relação funcional entre 1) sujeito-personagem e objeto; 2) destinatário e destinador; 3) oponentes e adjuvantes; encaminhadas na seguinte sequência:, história e desenho; quadro de identificação dos elementos, desfecho da história e a classe social a que o sujeito julga pertencer. Considera-se, ainda, o modo pelo qual as imagens formam sínteses e complementaridades, em decorrência das propriedades de “condensação” e de “deslocamento” dos símbolos.
Os sujeitos da pesquisa foram mulheres, que fazem denúncias sobre agressões na Delegacia da Mulher e seus (ex) maridos. Os dados foram construídos a partir de observação in locco na Delegacia da Mulher, visitas as residências para realização do teste, gravação das histórias de vida e, pela análise dos resultados do Teste dos Nove Arquétipos (AT9). Deste modo, abordamos as mulheres e os homens, explicando-lhes o objetivo de nossa pesquisa e solicitando-lhes a colaboração, garantindo-lhes, em contrapartida os direitos ao sigilo e a proteção moral previstos no código de ética do antropólogo.
Os testes foram realizados por oito pessoas, sendo três casais e duas mulheres, cujos maridos não quiseram responder ao teste. Os homens apresentaram resistência em realizar o AT9, seja pelo fato de não se sentirem à vontade para desenhar ou por não quererem se expor através de um teste.

Resultados
Quanto à estrutura do micro universo mítico obtido pelos testes, em 87,5% dos mesmos foi impossível classifica-los, sendo que somente em 12,5% foi verificada estrutura classificável, no caso, estrutura mística, do regime noturno. A porcentagem de testes desestruturados talvez seja decorrência do fato de as pessoas estarem em fase de desestruturação de suas vidas em função do fim de suas uniões matrimoniais.
Os micro-universos imaginários de homens e mulheres apresentaram diferenças marcantes. Entretanto, as diferenças não foram estabelecidas pelo imaginário religioso. Homens e mulheres expressaram imagens religiosas fortemente afetivas, e, particularmente, ligadas ao evangelismo. Entretanto, os testes das mulheres não apresentaram imagens de universos tecnológicos, mesmo que simples, ficando restritas a imagens de elementos da natureza. Além disso, as imagens que dizem respeito à relação pessoa - mundo social, foram, no caso delas, mais pertinentes aos valores de morte. Todos os homens, ao contrário, recorreram a imagens tecnológicas e apresentaram uma relação pessoa - mundo social mais dirigida aos simbolismos de vida.
O imaginário cumpre diferentes funções de equilíbrio dos recursos interpretativos das culturas. Políticas voltadas para viabilizar a ascensão social das mulheres devem levar em conta seus imaginários. Vimos que estes indicam o distanciamento delas das práticas que permitem apropriação de tecnologias capazes de inseri-las em contextos propícios a sua autonomia e ao conseqüente desenvolvimento de seu potencial de vida. A apropriação de tecnologias não diz respeito apenas ao técnico; mas, ao social, e neste, o imaginário, formatando padrões de cultura, dinamiza a consciência e induz à ação.
As relações de Gênero são fundantes do mundo inter-humano, por isso mesmo, perceber a sua dinâmica interna possibilita ao poder público e aos movimentos de mulheres e de diretos humanos, a construção e a exigência quanto à implementação de políticas públicas que dêem contam das demandas sociais de homens e mulheres. Entre elas, a Casa Abrigo, a Renda Mínima Familiar, as campanhas pela escolarização e profissionalização feminina. Consideramos necessário, também, outros elementos de rede social para além do jurídico-penal, como é o caso da Delegacia da Mulher; que, mesmo extremamente necessária em seu campo de ação, necessita da complementação dos suportes já citados, bem como, de outros, a exemplo de orientação e apoio social e psicológico ao homem à mulher e aos seus filhos.
Todos esses recursos são vitais nos casos de rupturas de uniões conjugais, ainda mais quando constatamos que estes processos freqüentemente são acompanhados de desestruturações econômicas agravadas ainda, pelo desemprego e pela falta de qualificação profissional das mulheres e do distanciamento delas dos universos tecnológicos. Estes fatores isolados ou conjugados, dificultam o acesso feminino aos postos de trabalho de melhor remuneração.

Bibliografia
BACHELARD, Gaston. O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento. São Paulo, Martins Fontes, 1990.
_______. A poética do devaneio. São Paulo, Martins Fontes, 1988.
_______. A poética do espaço. São Paulo, Martins Fontes, 1993.
_______. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo, Martins Fontes, 1989.
BALANDIER, Georges. Antropo-lógicas. São Paulo, Cultrix/USP, 1976.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro, Nova fronteira, 1980.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Russel, 1989.
_______. A economia das trocas simbólicas. São Paulo, Perspectiva, 1987.
CEMIN, Arneide Bandeira. Entre o cristal e a fumaça: afinal o que é o imaginário? In Presença, Revista de Educação, Cultura e Meio Ambiente. Porto Velho, Fund. Univ. Fed. de Rondônia, Ano VI, No. 14, 1998.
_______. Trajeto antropológico: ou como ter “Antropological Blues”, Presença, revista de educação, cultura e meio ambiente. Porto Velho, Fundação Universidade Federal de Rondônia. Ano IV, n.º 10. Dez/1997.
DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo, Paulinas, 1989.
_______. Sociologia e filosofia. São Paulo, Ícone, 1994.
DONZELOT, Jacques. A polícia das famílias. Rio de Janeiro, Graal, 1980.
DURAND, Gilbert. A imaginação simbólica. São Paulo, Cultrix, 1988.
_______. As estruturas antropológicas do imaginário, São Paulo, Martins Fontes, 1997
_______. O imaginário: ensaios acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio de Janeiro, Difel, 1998.
DURAND, Yves. L' exploration de L' imaginaire: introducion a la modelisation des univrs mythiques.Paris, L' espace Bleu, 1988.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo, Global, 1984.
FLAX, Jane. Pós-modernismo e as relações de gênero na teoria feminista. In BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro, Rocco, 1991.
FIRESTONE, Sulamith. A dialética do sexo. Rio de Janeiro, Labor do Brasil, 1976.
GREGORI, Maria Filomena. Cenas e queixas: um estudo sobre mulheres, relações violentas e a prática feminista. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1993.
KALOUSTIAN, Sílvio Manoug. Família brasileira, a base de tudo (Org.). São Paulo, Cortez; Brasília, DF, UNICEF, 1994.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, 5ª edição, Tempo Brasileiro, 1996.
______ . As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis, Vozes, 1982.
______ . O pensamento selvagem. Campinas, Papirus, 1989.
MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974. (vol. I e II).
MAFFESOLI, Michel. Dinâmica da violência. São Paulo, Vértice, 1987.
MEAD, Margareth. Sexo e temperamento. São Paulo, Perspectiva, 1984.
ROCHA-PITTA, Daniele Perin. Iniciação à teoria do imaginário de Gilbert Durand. Recife, inédito, 1995.
_______. Padronização do Teste AT-9. Recife, inédito, 1984.
SLUZKI, Carlos E. A rede social na prática sistêmica. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1997
Notas
Professora DEpartamento de Filosofia e Sociologia da UNIR
Bolsistas do PIBIC/CNPq


Post a Comment