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Sunday, 3 February 2019

Brumadinho é culpa da sanha de empresários

https://www.conversaafiada.com.br/brasil/brumadinho-e-culpa-da-sanha-de-empresarios

Brumadinho é culpa da sanha de empresários

Acselrad: modelo extrativista desmontou as agências ambientais

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Capa desta semana da Carta Capital (Reprodução/Twitter)
O Conversa Afiada reproduz da Fel-lha deste domingo, 3/II, artigo de Henri Acselrad, professor titular do Ippur (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional) da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

Brumadinho evidencia Estado submisso a interesses de empresas, diz autor


Ante o desastre em Brumadinho (MG), algumas falas governamentais iniciais evocam a necessidade de orações. Outras declaram perplexidade diante de fatos há muito e por muitos prenunciados —de peritos criminais a grupos de pesquisa de universidades públicas. Algumas, ainda, dizem nada poder fazer, por tratar-se de evento de responsabilidade privada: “O governo federal não tem nada a ver com isso”.
Ora, o bem público é, por definição, responsabilidade do Estado, e o tal do “meio ambiente” é o mais claro exemplo de um bem estritamente público. Pois, se não for o Estado a cuidar de rios e matas, da qualidade do ar de bacias aéreas e da qualidade das águas fornecidas por sistemas de abastecimento, quem o fará?
Para cuidar desses bens —dos quais depende fundamentalmente a vida da população brasileira— criaram-se leis e instituições ambientais. Estas não foram feitas para arrecadar recursos, mas sim fiscalizar e regular as atividades danosas à vida e à saúde.
E mais: como essas atividades são muitas —é o caso das barragens de resíduos de mineração—, as normas, leis e instituições, no interesse da população, precisam ser não só cuidadas como também fortalecidas.
Tais organismos da máquina pública requerem conhecimento e, sobretudo, autonomia de decisão ante os poderosíssimos interesses que buscam, sobre eles, exercer forte pressão; interesses que prefeririam talvez que esses órgãos nem existissem.
Desde a sua criação, nos anos 1980, até o presente, as agências ambientais do Estado brasileiro —em nível estadual ou federal— vêm sendo objeto de uma gradual desmontagem. A opção de seguidos governos pela manutenção do modelo de desenvolvimento neoextrativista, instalado no país a partir dos anos 1990, foi acompanhada por esforços permanentes no sentido de flexibilizar a aplicação das leis e das normas inicialmente instituídas.
Tratou-se, desde então, de facilitar a instalação no país, a qualquer custo, de empreendimentos intensivos em recursos naturais, isto é, aqueles que exploram para além dos limites os nossos bens comuns.
Entre os fatores de competitividade das exportações brasileiras de commodities, sempre estiveram incluídos componentes não contabilizados nos preços —a fertilidade dos solos, a pureza das águas, entre outros. Para alguns, parcela significativa da “vantagem competitiva” repousa no repasse sem pagamento de partes do patrimônio natural comum que viajam embutidas nas mercadorias exportadas.
Devemos, porém, somar a isso o afrouxamento das condições de segurança de empreendimentos e a mudança do traçado de áreas de preservação, medidas adotadas com o fim de atrair investimentos internacionais que preferem se instalar em países com fraco controle ambiental.
Alguns economistas chamam a isso de “competitividade espúria” —aquela baseada na predação do patrimônio natural e social dos países exportadores (em lugar de uma competitividade com base em investimentos em educação e na criatividade de nossos cientistas).
“Irresponsabilidade organizada” é, por sua vez, o nome que o sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-2015) deu a essa submissão sistemática dos poderes públicos a interesses privados fortemente dependentes de tecnologias perigosas e intensivas em espaços e recursos naturais. Em nosso caso, espaços e recursos que alguns representantes dos grandes interesses do agronegócio e da mineração desejam subtrair de áreas protegidas —terras indígenas, quilombolas ou unidades de conservação.
Outro atrativo oferecido aos portadores de investimentos intensivos em energia e recursos naturais é a não proteção das populações que trabalham ou vivem em áreas expostas a riscos associados às minas, fábricas ou unidades de produção.
No desastre da Samarco, em 2015, como no da Vale agora, podemos verificar como a desproteção de rios e matas é, ao mesmo tempo, desproteção da população, em especial de grupos sociais e étnico-raciais vulnerabilizados —vítimas preferenciais do descaso.
No caso da mina do Córrego do Feijão, a desproteção ambiental mostra-se associada ao descaso em relação às condições ocupacionais dos trabalhadores, cuja fiscalização era responsabilidade do Ministério do Trabalho, hoje extinto.
A desproteção da população aumentou à medida que investimentos em manutenção de equipamentos e instalações diminuíram e escolhas técnicas menos seguras foram sendo adotadas, de modo a compensar as quedas nos preços dos minérios.
Vemos também que as economias empresariais com gastos de manutenção e a preferência por escolhas técnicas que aumentam a exposição da população a riscos de desastres são validadas pelos mecanismos do que os críticos chamam de “indústria do licenciamento”.
A desconsideração do conteúdo de pareceres independentes e das sinalizações provenientes de lançadores de alerta atentos aos riscos fazem parte desse processo de “organização da irresponsabilidade”. As atuais propostas de substituição do licenciamento público por autodeclarações empresariais são a linha de frente mais agressiva desse processo.
O projeto de lei 3729/04, chamado Lei Geral do Licenciamento Ambiental, veio sendo objeto de inúmeras inserções de bancadas empresariais interessadas em acelerar a recuperação dos investimentos em detrimento do respeito à proteção da saúde e da vida da população e à integridade do ambiente.
A questão ambiental é, por excelência, de ordem política. Ela diz respeito à capacidade de o Estado controlar as forças que pretendem impor usos privados indevidos aos espaços por todos compartilhados das águas, da atmosfera e dos sistemas vivos.
A essas ações governamentais, adotadas para prevenir riscos decorrentes de empreendimentos degradantes e poluentes, costumamos chamar de políticas públicas de meio ambiente. Públicas porque visam prevenir a privatização de fato de tais espaços, cuja integridade é vital a todos que os compartilham.
A ruptura da barragem de Córrego do Feijão é um desastre político, e não meramente técnico. Coloca em discussão toda a estrutura de regulação dos grandes empreendimentos. Ruiu não apenas a barragem, mas a já combalida credibilidade do processo de licenciamento.
Revela-se, de forma calamitosa, a indisposição do Estado em controlar grandes empresas. Ao se colocar, direta ou indiretamente, o processo de decisão nas mãos das próprias empresas, regidas como são pela lógica da rentabilidade privada e da remuneração de acionistas, libera-se que as corporações adotem economias temerárias de custos de manutenção ou opções técnicas que forçam, além da conta, a capacidade de as barragens segurarem os rejeitos.
Vigora nos espaços de poder a concepção de liberar, em nome de “desburocratizar” e “agilizar”, negócios privados para que usufruam dos bens ambientais públicos como melhor lhes convier.
É possível identificar, ademais, a adoção de esforços para neutralizar o debate e reduzir a disposição da opinião pública a ouvir os alertas daqueles que, com questões do ponto de vista do interesse geral da população, procuram acompanhar processos decisórios e legislativos, cobrando informações e precaução dos responsáveis pelos empreendimentos.
Desde o desastre da Samarco, houve um bombardeio de campanha publicitária milionária da empresa envolvida naquele e no presente desastre. A população é submetida a campanhas de marketing que só podem ter por fim reduzir a capacidade da sociedade de discutir criticamente os problemas associados à cadeia da mineração.
Mais perturbador é o volume de tal investimento —destinado a manter o chamado “capital reputacional” ou a “imagem” da empresa— quando comparado ao abandono a que foram relegadas as vítimas do descaso empresarial e governamental que vivem ao longo do rio Doce.
Passados alguns dias, ante a repercussão e o sofrimento imposto às centenas de vítimas, governantes mencionam dimensões políticas e legais. Procura-se ressignificar a promessa de campanha de flexibilizar processos de licenciamento —“flexibilizar quer dizer respeitar regras rígidas”, dizem.
Em seu uso corrente, “flexibilizar” costuma designar o uso de expedientes que permitam não aplicar normas, alegando-se razões de ordem superior, em geral econômicas, relativas ao desenvolvimento dos negócios. Quando há pretensão de aplicar regras rígidas, a ordem principal é não flexibilizar. Rebaixar o nível de risco da barragem da mina Córrego do Feijão é exemplo claro da prática de afrouxamento das normas ambientais.
“Decisão abominável que beira a insanidade” foi a expressão da representante da sociedade civil na reunião da Câmara Técnica de Atividades Minerárias do Conselho de Política Ambiental do estado de Minas Gerais em 11 de dezembro —quando sua posição, contrária à flexibilização/agilização excepcional do licenciamento, foi derrotada por 8 a 1.
Ao contrário do que se ouviu dizer, há, sim, muito a fazer. Entende-se também que é grande o ceticismo quando um governo subordina suas políticas ambientais e de saúde ocupacional às prioridades do agronegócio e da mineração. Isso já acontecia em governos passados, tendo apenas se agravado após o impeachment de 2016, mas nunca antes um discurso antiambientalista explícito foi adotado por agentes governamentais.
Este último episódio dá fortes elementos de razão à tese de que práticas empresariais irresponsáveis, efetuadas com a complacência do Estado, serão mais frequentes contra populações de baixa renda, trabalhadoras e pertencentes a grupos étnico-raciais pouco representados na esfera decisória.
Cabe esperar que, enquanto houver espaço para o debate democrático, a profunda discussão crítica do modelo de desenvolvimento neoextrativista e o respeito aos alertas dos defensores de direitos socioambientais nos permitam alcançar a punição das empresas responsáveis e uma justa e eficaz prevenção das práticas até aqui correntes de condescendência do Estado para com a irresponsabilidade social corporativa.

Tuesday, 29 January 2019

Megamineração: não são acidentes

https://diplomatique.org.br/megamineracao-nao-sao-acidentes/

AINDA AS VEIAS ABERTAS

Megamineração: não são acidentes

por Ana Maria Fernández
dezembro 7, 2015

Em menos de um mês assistimos a dois graves acontecimentos que materializam os impactos negativos da megamineração – um na Argentina, outro no Brasil. Os desastres não são acidentes. A voracidade das transnacionais pressiona governos por novas desregulamentações que garantam seu acesso aos recursos naturais e flexibili

Ana Maria Fernández


por Antônio Cruz/Agência Brasil

A ruptura da barragem Fundão e o grave dano da barragem de Santarém, na mina Samarco Mineração S.A., no dia 5 de novembro de 2015, em Mariana, Minas Gerais, produziu uma corrente de lodo com resíduos da exploração mineral que destruiu o povoado de Bento Rodrigues, provocando um número de vítimas mortais ainda não conhecido com precisão e contaminando a Bacia do Rio Doce, que abastece de água quinze importantes cidades. A Samarco explora minério de ferro por meio de uma joint venture integrada pelas empresas Vale (Brasil) e BHP Billiton (anglo-australiana). Essas empresas, as duas maiores mineradoras do mundo, descreveram o evento protagonizado pela Samarco como um “lamentável e triste acidente”.1
Por sua vez, na Argentina, a mina de ouro e prata Veladero está a mais de 4,2 mil metros do nível do mar, sobre a cordilheira dos Andes, no departamento de Iglesias, acima da localidade de Jáchal, província de San Juan. Ela pertence à empresa Barrick Gold, com sede no Canadá, companhia que está entre as dez maiores mineradoras do mundo, a primeira em extração de ouro. No dia 11 de outubro de 2015, ela deixou vazar 1 milhão de litros de água com cianeto, que atingiram o leito do Rio Potrerillos. A contaminação da água para consumo afetou o abastecimento de Jáchal e comprometeu gravemente a produção agrícola rio abaixo.
Em ambos os casos, caracterizá-los como acidente é uma forma a mais de naturalizar uma lógica que invisibiliza ou minimiza a importância dos impactos sociais e ecológicos da megamineração. Esses projetos geraram múltiplas e crescentes resistências. As estratégias empresariais incluem desde a coerção direta em alguns casos até campanhas de disseminação de fundos em instituições e comunidades, financiamento de campanhas eleitorais e pressão para que o Estado aprofunde e amplie as medidas de fomento e defesa da atividade2 já promovidas pela estratégia mineral do Banco Mundial3 nos anos 1990. Um conjunto de normas legais, reformas constitucionais que outorgam a decisão sobre os recursos naturais a estados ou províncias e a criação de competências de controle ambiental dependentes das próprias áreas que têm como incumbência promover a mineração são parte das razões que tornaram possíveis projetos como os de Veladero e da Samarco.
A própria existência desses projetos é expressão de uma correlação de forças em que resistências foram ignoradas e sub-representadas politicamente com vistas a favorecer um modelo de “desenvolvimento” mineral que subordina as demais prioridades àquela de obter divisas. Desde as reformas estruturais operadas nos marcos do grande endividamento e dos condicionantes externos gerados pelo neoliberalismo, com sua aposta dogmática no capital estrangeiro, até as urgências dos governos progressistas ante a recorrente restrição externa, a obtenção de divisas é o principal fator interno de aceitação da megamineração.
Entre os motivos externos, encontra-se a demanda real por minerais, muitos deles estratégicos para os países compradores.4 Esse é claramente o caso da exploração de ferro para abastecer a demanda da China. Ademais, a hegemonia da valorização financeira, o comportamento especulativo dos capitais e a visão dominante, que incentiva a busca de lucros extraordinários, alimentam os investimentos na megamineração.
Graças às condições extremas que garantem alta rentabilidade para os projetos construídos na América Latina, as empresas conseguem se capitalizar nas principais Bolsas de Valores. Nesse sentido, o negócio da megamineração é uma atividade não apenas de extração, mas também de valorização das empresas de mineração e seus derivados financeiros.
Considerando os elevados custos dos processos de fechamento das minas e os eventuais ônus de enfrentar a responsabilidade para com eventos como os produzidos por Veladero e Samarco, é relevante levar em conta que parte substancial do negócio da mineração provém da externalização desses danos colaterais, para os quais é funcional o quadro jurídico flexível criado para atrair investimentos. Esse negócio também recorre a formas societárias e mecanismos que permitem obter lucro durante parte do ciclo de vida do projeto, quebrar em seguida a empresa e/ou transferir ao Estado e à sociedade uma parte substancial dos custos.
Nesse sentido, nos dois casos observa-se a estratégia das empresas de minimizar suas próprias responsabilidades econômicas e tentar transferi-las para os trabalhadores, sugerindo sua suposta negligência; para a natureza, argumentando que um terremoto poderia ter provocado a quebra da barragem da Samarco e que o intenso frio no congelamento de uma válvula teria causado o evento da Veladero; ou então para o Estado, alegando o atraso em um procedimento de controle ou avaliação. Em aparente paradoxo, a flexibilidade ambiental definida como uma condição para o investimento é o argumento apresentado para tentar não tirar as consequências da falta de cuidado para com a população e o meio ambiente.
De forma análoga, a justificativa para a megamineração em nome da criação de empregos não é apenas questionável à luz dos resultados. Os vazamentos de cianeto ou as rupturas de barragens põem em discussão não só a qualidade desses empregos em relação ao risco, mas também as consequências para as ocupações em todos os demais setores afetados pelos impactos negativos de tais eventos.

Em suma, a megamineração concentra localmente os impactos negativos e desloca para o exterior grande parte dos benefícios. Por isso, ela é o oposto de uma atividade que contribui para o desenvolvimento e menos ainda para o “bem viver”.5 Não é a estratégia de marketing de “mineração responsável” ou da “responsabilidade social corporativa” que permitirá evitar ou reduzir os danos irreversíveis e as externalidades da megamineração. Além disso, a construção de um imaginário que vê no extrativismo exportador um modelo sem alternativa a não ser discutir seus modos de fazer acaba obscurecendo outras possibilidades de produção. O mesmo ocorre quando se alegam “razões de Estado” para tentar justificar o sacrifício de alguns ecossistemas e modos de vida a fim de obter divisas em busca de equilíbrios externos. Em qualquer caso, expressa-se uma hierarquia de valores que os movimentos de resistência tornam visível e colocam em questão.
Qual é o valor da água e da vida perdidas em Bento Rodrigues e em todos os ecossistemas impactados? É essa incomensurabilidade que funda a permanência e o aprofundamento dos conflitos com a megamineração. Nem reduzir a probabilidade de ocorrência, nem mitigar os danos, nem indenizar ou compensar podem resolver os conflitos. Não se trata de um tipo de capital para ser convertido em outro, porque para grande parte da sociedade a vida não é capital.
É por isso que não se pode pensar o conteúdo do conflito de modo equivalente a uma disputa em torno de dinheiro. Mesmo supondo que existisse a disponibilidade de ferramentas mais sofisticadas de cálculo e as mais aprimoradas formas de “governança”, elas não poderiam resolver os conflitos gerados pela megamineração. Porque, antes de tudo, trata-se de uma questão moral e política: como usamos os ecossistemas? Quem decide sobre sua utilização? No entanto, a megamineração resulta da imposição de uma forma de uso que atende aos interesses de corporações internacionais sobre os demais atores e usos.
Nem os Andes podem ser reduzidos ao ouro que se explora em Veladero, na Argentina, nem o planalto de Minas Gerais se reduz ao ferro a ser extraído pela Samarco. Se esses projetos existem hoje é porque se impôs uma maneira de olhar para os ecossistemas envolvidos como se eles fossem territórios antes improdutivos e quase “desabitados”, aos quais seria necessário levar investimentos para “desenvolvê-los” e torná-los “competitivos”. Trata-se, porém, de uma construção social cuidadosamente naturalizada, com muitas dimensões implícitas que são subtraídas do debate público. Não por acaso a busca da “licença social para operar” é uma tarefa empreendida somente quando a exploração é um fato consumado; no melhor dos casos, trata-se de formas de gestão dos conflitos gerados pela pressão da atividade da mineração sobre os grupos sociais cujo uso preexistia ao uso imposto. O consentimento prévio e informado das comunidades ainda não saiu do papel. Enquanto isso, as questões-chave continuam pendentes: que mineração é necessária para que projeto de sociedade? Quais seriam os projetos alternativos de produção com capacidade de gerar mais e melhores postos de trabalho com qualidade e estabilidade, e com o protagonismo das populações locais nas áreas disputadas pela mineração? Quais seriam os resultados de projetos produtivos alternativos se estes tivessem a mesma promoção que tem hoje o setor da mineração?

Rompimento de barragem no distrito de Bento Rodrigues, zona rural de Mariana

Resolver a restrição externa apostando em ganhar divisas ao atrair investimentos em mineração para a exportação é muito caro não só porque isso primariza nossas economias, mas também porque se entrega um valor incomensurável em troca de algumas divisas que continuarão a ser insuficientes, reproduzindo-se o círculo de entrega da natureza em troca de capital. A restrição externa deve ser tratada de forma diferente. Um repertório tradicional de ações deverá incluir ainda a substituição de importações, moderando a importação de certos bens de consumo de luxo e o aumento do valor agregado das exportações. Essas políticas exigem apoio político da maioria para superar a inércia rentista das elites e dos grupos concentrados de poder. Além disso, considerando que tanto o Brasil quanto a Argentina exportaram no interior da América Latina mais produtos industriais que para o resto do mundo, o aprofundamento do Sucre,6 ou sua evolução para uma moeda de troca latino-americana, e a adoção de políticas ativas de complementaridade ajudariam a criar postos de trabalho reais e reduzir a restrição externa. Somos obrigados a explorar novas formas de equilíbrio externo e inovar. Isso porque os impactos da megamineração não são acidentes. A voracidade das transnacionais pressiona os governos para novas desregulamentações que garantam seu acesso aos recursos naturais e aumentem a flexibilidade das normas ambientais e trabalhistas.7 E elas estão avançando, dos Andes até a Amazônia.
* Ana Maria Fernández é professora da Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires e pós-doutoranda no Ippur/UFRJ.


1 “Vale diz que é ‘mera acionista’ da Samarco”, Brasil 247, 11 nov. 2015.
2 Clarissa Reis Oliveira, Quem é quem nas discussões do novo Código da Mineração, Ibase, Rio de Janeiro, 2014.
3 Banco Mundial, “A Mining Strategy for Latin America and the Caribbean” [Estratégia de mineração para América Latina e Caribe], World Bank Technical Paper n.345, Washington, 1996.
4 Monica Bruckmann, Recursos naturales y la geopolítica de la integración sudamericana, Red Unesco/Universidad de las Naciones Unidas sobre Economía Global y Desarrollo Sustentable, 2011.
5 Eugenio Zaffaroni, La Pachamama y los humanos, Colihue, Buenos Aires, 2011.
6 Carlos Zúñiga Romero (comp.), “Tratado constitutivo del sistema unificado de compensación regional de pagos (SUCRE)”, Revista de Derecho Económico, Tomo 3, Universidad Católica de Santiago de Guayaquil, 2011.
7 A discussão atual do Código da Mineração no Brasil é reveladora desses intentos. Ver Juliana Malerba, “Mais além da mineração: as pretensões do novo código mineral quanto ao acesso à água e à terra”, Brasil em 5, 12 out. 2015.

Muitos não irão enterrar seus mortos porque a barragem da Vale já fez isso...


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Muitos não irão enterrar seus mortos porque a barragem da Vale já fez isso...

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Leonardo Sakamoto
29/01/2019 20h10
Foto: Giazi Cavalcante/Código 19/Estadão Conteúdo
Parte das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho pode nunca ser encontrada, soterrada sob milhares de toneladas de rejeitos. Entre bombeiros e socorristas, já é consenso que a chance de localizar desaparecidos com vida é quase nula quatro dias após o desastre. E apesar das buscas ainda poderem durar semanas, nem todos os corpos serão recuperados.
"Algumas pessoas, triste e lamentavelmente, não serão recuperadas. Tem uma questão de respeito e solidariedade a todas as famílias que viverão um luto sem necessariamente o seu ente querido", reconheceu o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.
Para as famílias das vítimas, aquela sexta, 25 de janeiro, não irá terminar – especialmente para aquelas que manterão um fio de esperança pelo resto da vida diante da ausência de um corpo para velar. Para o restante da sociedade, Brumadinho se tornará apenas uma lembrança, mais ou menos doída, substituída como prioridade por outro problema nacional, pelas dificuldades do dia a dia, pelo Carnaval.
As experiências não só do desastre de Mariana como de todos os outros mostram que, enquanto o assunto permanece nas manchetes da mídia, o poder público e as empresas demonstram interesse em exibir serviço, fazendo todas as promessas do mundo. Longe das câmeras e gravadores dos repórteres, a boa vontade começa a dar lugar aos "veja bem" nos corredores palacianos – onde a palavra empenhada tem pouco valor diante dos interesses econômicos envolvidos.
Foi assim em todos os governos desde a redemocratização. Na ditadura militar, não. Porque, naquela época, suicidava-se o jornalista curioso, a sindicalista intrometida, o padre que se metia a besta, o ativista na hora e no lugar errados.
Ao mesmo tempo, a preocupação corporativa dá lugar a intermináveis disputas judiciais pelas quais a empresa empurra com a barriga sua responsabilidade em mitigar o impacto ambiental e social e ressarcir, minimamente, a tragédia humana. Ainda mais com a ajudinha da Reforma Trabalhista, como já disse aqui, que limitou em 50 salários contratuais o teto da indenização por danos morais aos trabalhadores envolvidos em "acidentes" como esse e a suas famílias, como afirma o procurador-geral do Ministério Público do Trabalho, Ronaldo Fleury. Quem ganha menos, vale menos. Literalmente.
A tragédia de Brumadinho, indiretamente, pode até dificultar o desmonte na fiscalização ambiental. Afinal, o presidente da República provou, ao longo da campanha eleitoral, que via apenas um talonário de multa "com viés ideológico" quando olhava para fiscais ambientais e do trabalho – e não servidores sem os quais, barragens matam. O governo promete, agora, que vai reforçar licenciamento e fiscalização – sem dizer direito quando, como, nem onde.
Já cobri desastres demais para sair do estado de ceticismo. Pouco mudou após Mariana, a maior catástrofe ambiental mundial envolvendo barragens. E não temos elementos suficientes para acreditar que algo diferente irá acontecer diante do maior "acidente" de trabalho da história do país, em Brumadinho, apesar das medidas anunciadas. Só quando as barragens forem completamente descomissionadas e reforçadas e quando as mineradoras mudarem seu método de extração de minério de ferro, a seco.
Independentemente das inspeções e medidas emergenciais anunciadas pelos governo federal e estadual e das novas promessas da Vale, que devem gerar algum vídeo de campanha emocionante na internet muito em breve, sabemos que o cronômetro já está em contagem regressiva para o próximo desastre. Pois até que alguma ação seja colocada em prática e as bombas-relógio, desativadas, há trabalhadores e moradores esperando para morrer em diversos pontos do país. Eles apenas não sabem disso.
No período de chuvas nas periferias de grandes cidades, quando deslizamentos de terra atingem comunidades, soterrando casas e biografias, ouvimos as mesmas desculpas dos administradores públicos responsáveis: de que as evitáveis mortes eram inevitáveis. Sobre a execução de políticas decentes de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias e fiscalização, promessas e mais promessas. Que vão desidratando nos meses secos.
Mariana e Brumadinho não são uma doença, mas uma febre, ou seja, um sintoma de que algo está errado. A doença passa por nosso modelo de desenvolvimento – que atropela tudo em nome de um crescimento econômico que beneficia alguns em detrimento ao sofrimentos de outros tantos. Um desenvolvimento concentrador e excludente, que privilegia apenas uma camada da população. Lucros advindos da implantação de grandes empreendimentos extrativistas, agropecuários e industriais são privatizados. O prejuízo social e ambiental, por outro lado, é socializado.
Muita coisa mudou do momento em que os militares deixaram o poder até eles voltarem ao poder. Mas mantivemos modelos de desenvolvimento que dariam orgulho aos maiores planejadores do período pré-1985, que acreditavam que, para crescer rapidamente e atingir um ideal de nação, valia qualquer coisa. Para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, cobrar impostos, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção a fim de exportar. Não sem antes destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, quilombola, caiçara ou de moradores pobres.
E já que estamos falando de barragens, vamos lembrar das hidrelétricas. As usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, que foram as meninas dos olhos de Dilma Rousseff, encobrem uma tragédia social, ambiental, trabalhista que não aconteceu de uma hora para outra, mas desenrolou-se, lentamente, diante dos nossos olhos. Nós, que alertamos dos problemas, éramos xingados por parte dos progressistas e de conservadores, sem distinção, de entreguistas. Também são tragédias, mas quando acontecem aos poucos parecem se tornar aceitáveis pelo país.
Não sou maluco de defender o fechamento de setores importantes da economia. Sei que essa é a estrutura que temos e vamos ter que trabalhar com ela, quer gostemos ou não, para evitar mais desemprego e problemas sociais. Mas já passou da hora de nosso capitalismo seguir as regras para a proteção da saúde e da segurança de trabalhadores, do meio ambiente, de comunidades tradicionais. E, o mais importante, que respeite a vida das pessoas. Responsabilidade social empresarial não é patrocinar parques ou doar cestas básicas, mas é impedir que o seu negócio foda a vida das pessoas.
O que começaria por fazer planejamentos emergenciais, evitando colocar um refeitório e uma sede administrativa no caminho de uma possível tragédia.
Dessa forma, talvez não teríamos famílias que nunca poderão enterrar seu pai ou mãe, filho ou filha, marido ou esposa porque a onda de lama da barragem da Vale já fez isso por elas.

Monday, 4 August 2014

Peixe ornamental de beleza rara tem sido exportado de maneira ilegal na Amazônia

amazonia
http://amazonia.org.br/2014/08/peixe-ornamental-de-beleza-rara-tem-sido-exportado-de-maneira-ilegal-na-amaz%C3%B4nia/

Peixe ornamental de beleza rara tem sido exportado de maneira ilegal na Amazônia

O hypancistrus zebra tem sido exportado de maneira ilegal por uma rota que passa pelo Estado do Amazonas
A raridade e a beleza do peixe amazônico é um item valorizado no mercado (Reprodução/Internet)
O Amazonas está sendo usado por traficantes internacionais de peixes ornamentais como a principal rota para o comércio ilegal do hypancistrus zebra, espécie de peixe mais conhecida como cascudo zebra, encontrado no rio Xingú, no Pará.
O peixe está em extinção e a comercialização dele é proibida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Apenas um exemplar do cascudo pode variar entre R$ 1 mil e R$ 2 mil reais, o que rende alto lucro aos traficantes no mercado negro. Ele é muito cobiçado por criadores em vários países por ser considerado um dos peixes cascudos mais bonitos e raros da bacia Amazônica.
Segundo o chefe de fiscalização do Ibama, Geandro Pantoja, o Amazonas se consolidou nos últimos anos como uma das principais rotas internacionais de tráfico de peixes sendo cada vez mais frequentes flagrantes de pessoas transportando as espécies. Relatos da prática ilícita, no interior e na capital, são antigos, mas foi na última década, segundo o Ibama, que o problema se agravou no Estado.
Somente nos últimos quatro meses, cinco mulas, pessoas que são aliciadas por traficantes e recebem dinheiro para transportar os peixes, foram presas no aeroporto internacional de Manaus Eduardo Gomes tentando embarcar com centenas de exemplares do hypancistrus zebra.
O tráfico de peixes cresceu exponencialmente, de acordo com Geandro Pantoja, porque o interesse de comerciantes internacionais de peixes, no mercado negro, também aumentou. O principal alvo é hypancistrus zebra e enquanto traficantes lucram milhares de reais revendendo o peixe para o exterior, o pescador ornamental ganha menos de R$ 2 por unidade capturada no esquema ilegal em rios da região.
Encomenda
Os traficantes recebem a encomenda ou oferecem as espécies ao comprador e encaminham o pedido a pescadores contratados na Amazônia. Os peixes são colocados em dois sacos plásticos para serem transportados em malas comuns de viagem. O primeiro é lacrado com água, além de oxigênio e um exemplar do peixe. O saco é colocado dentro de outro que também recebe oxigênio antes de ser lacrado. O procedimento é feito para manter o peixe vivo caso o primeiro saco plástico se rompa, seja pela movimentação da mala ou pela pressurização do avião.
O Amazonas é estratégico para os traficantes devido à fronteira com o Peru e Colômbia, na tríplice fronteira. Além do tráfico de peixes ornamentais, com origem em Barcelos e São Paulo de Olivença, no interior do Amazonas, a rota mais preocupante e usada atualmente no esquema parte de Altamira, no Pará, tem escala em Manaus e depois segue para Tabatinga e, finalmente, Colômbia, de onde os peixes são exportados para o resto do mundo.
Um dos problemas, segundo o Ibama, é que as malas com peixes passam pelo processo de embarque e chegam a Manaus quando deveriam ser detectadas no local de origem. As mulas têm sido flagradas cada vez mais nos aeroportos de Manaus porque têm as malas submetidas ao aparelho de raio X e são imediatamente procuradas e detidas pelo Ibama e Polícia Federal. O transporte aéreo é usado no tráfico de peixes pela rapidez no deslocamento entre uma cidade e outra. Porém, existe um número indefinido de rotas de tráfico pelos rios do Estado.
Cinco vezes neste ano
As últimas cinco apreensões de peixes ornamentais no aeroporto internacional de Manaus Eduardo Gomes foram de hypancistrus zebra. Todas tiveram como ponto de partida Altamira no Pará e tinham a Colômbia como destino final. No dia 25 de junho, por exemplo, uma mulher foi presa pela Polícia Federal com 268 hypancistrus zebra. Ela partiu de Altamira/PA e iria para Tabatinga. A mesma história contada por ela à polícia e ao Ibama foi contada por Leandro Rocha, na última quarta-feira. Ele também partiu do município paraense e foi preso com 161 hypancistrus zebra
De acordo com o agente ambiental federal Salomão Santos, os líderes do tráfico tomam uma série de cuidados para não aparecer. Eles abordam pessoas que atendam um perfil especifico e preferem as que estão desempregadas e precisando de dinheiro. Elas são informadas do conteúdo das malas, mas aceitam devido ao dinheiro que recebem. O valor de R$ 200 ou R$ 400 é pequeno comparado ao risco de prisão.
Em números: R$ 100mil É o valor que pode chegar a multa aplicada a traficantes de peixes ornamentais. O valor parte de R$ 700, conforme o artigo 35 do decreto 6.514/2008, que pune a captura de peixes em período ou local de pesca proibida.
Por: Florêncio Mesquita
Fonte: A Crítica