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Sunday, 18 November 2018

A Criminalização do Conhecimento, por Judith Butler

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A Criminalização do Conhecimento, por Judith Butler


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Por que a luta por liberdade acadêmica é a luta pela democracia

Muitos acadêmicos se encontram sujeitos à censura, à prisão e ao exílio. Perderam seus cargos e se preocupam se algum dia poderão dar continuidade às suas pesquisas e aulas. Foram privados de seus cargos por causa de suas posições políticas, ou às vezes, por pontos de vista que supõem que tenham ou que lhes é atribuído, mas que não eles não têm. Perderam também a carreira. Pode-se perder um cargo acadêmico por várias razões, mas aqueles que são forçados a deixar seu país e seu cargo de trabalho perdem também sua comunidade de pertencimento.

Uma carreira profissional representa um histórico acumulado de uma vida de pesquisa, com um propósito e um compromisso. Uma pessoa pensa e estuda de determinada maneira, se dedica a uma linha de pesquisa e a uma comunidade de interlocutores e colaboradores. Um cargo em um departamento de uma universidade possibilita a busca por uma vocação; oferece o suporte essencial para escrever, ensinar e pesquisar; paga o salário que liberta a pessoa para se dedicar ao trabalho em sua área específica. O acadêmico exilado perde a capacidade de trabalhar em seu próprio idioma e país, perde o poder e a liberdade de se dedicar a sua paixão, àquilo com que é comprometido, ao rumo da própria vida.

Uma carreira acadêmica pode ser destruída por universidades ou governos com base no fato de que o conteúdo de um trabalho, seja real ou imaginado, é uma possível ameaça aos poderes existentes. Pode ter sido um programa de um curso ou o tema de uma dissertação supervisionada que tenha despertado a ira do Estado; ou talvez as posições políticas tomadas dentro ou fora dos muros da universidade – sindicalização, desmilitarização, oposição ao nacionalismo. Tais posições são distorcidas pelos censores e por aqueles com poder para destruir uma carreira e exilar um cidadão. As reais posições da pessoa são exageradas, demonizadas e objeto de sensacionalismo. Um apelo à democracia é interpretado como insubordinação; um pedido de paz transforma-se em uma aliança com o terrorismo; um pedido de liberdade é considerado um chamado à violência.
Um apelo à democracia é interpretado como insubordinação; um pedido de liberdade é considerado um chamado à violência.
Vernis-i-dibuix
Como sabemos, os verdadeiros pontos de vista políticos pelos quais os acadêmicos são punidos são aqueles direcionados para as políticas de um governo ou para uma universidade que tenha práticas injustas, formas de exploração, que use serviços de segurança e vigilância para acabar com questionamentos abertos e discussões públicas, ou uma universidade que tenha vínculos com interesses de Estado ou interesses corporativos resultando em um controle do corpo docente. E nós sabemos que censura e demissão podem partir da universidade, do governo regional, do estado, ou de um acordo entre essas autoridades.

Existem muitas formas de punição: assédio constante, ameaças de violência ou violência real, ter o nome incluído em uma lista negra, vigilância, censura evidente ou não de publicações, audiências internas ou julgamentos públicos sem processo formal, ameaças abertas, demissão ou exoneração do cargo na universidade, expulsão do país. Temos como exemplo as duas décadas de perseguição jurídica contra Pinar Selek, que foi não só acusada de dar aulas e conselhos sobre a questão dos Curdos na Turquia, como também foi associada falsamente à explosão de um mercado na qual não houve evidência que comprovasse sua culpa. Na Universidade Federal da Bahia, no Brasil, pelo menos três membros do Departamento de Estudos de Gênero sofreram ameaças de morte por trabalhar com o tema polêmico da hierarquia de gênero no mercado de trabalho. Mohamed Habibi, no Irã, acabou na prisão por dar apoio à sindicalização dos professores. Devemos afirmar nosso compromisso com esses indivíduos que sofrem de todas essas maneiras.

Vamos ponderar a diferença entre liberdade acadêmica e direito de expressão política, que, como Joan Scott deixa claro, não são a mesma coisa. A liberdade acadêmica pertence ao corpo docente de uma universidade que foi nomeado para ensinar, buscar e produzir conhecimento. A expressão política é o direito do cidadão de expor seu ponto de vista político da maneira que quiser. As duas coisas convergem quando acadêmicos que falam em espaços “extramuros” sofrem retaliação ou punição dentro da universidade ou são ameaçados de perder seus cargos. Portanto, os direitos à liberdade acadêmica e à expressão política extramuros necessitam de estruturas institucionais, de apoio da universidade e exigem também um verdadeiro comprometimento das universidades.

O que acontece de fato é que a universidade é enfraquecida quando uma dessas duas liberdades é colocada em risco. E, embora os casos de acadêmicos em risco seja diferentes entre si, todos têm em comum a incapacidade das universidades de garantir essas duas liberdades. As universidades têm a obrigação de resistir às formas de intervenção externas que têm o objetivo de controlar o rumo da pesquisa acadêmica ou punir discursos extramuros.

A Associação Internacional de Universidades (International Association of Universities) argumenta que é uma obrigação fundamental das universidades proteger a liberdade acadêmica e proteger e promover as formas de pesquisa que, não importa o quanto sejam controversas, possibilitam o conhecimento sobre o mundo e suas inúmeras vicissitudes. Devemos somar a isso um segundo princípio: o de que acadêmicos não devem estar sujeitos à censura nem à retaliação com base em suas expressões políticas dentro da esfera pública.

Caso o governo ou qualquer outro poder externo venha a intervir na universidade com interesses políticos, seja a fim de controlar ou censurar o programa de estudos, o propósito, ou os padrões da universidade, então o julgamento autônomo do corpo docente estará enfraquecido e o conhecimento estará restrito e distorcido. O exercício da liberdade de pensar se torna punível sob tais condições. E quando os administradores se aliam a esses poderes externos, participam da destruição de suas próprias instituições – pois estão restringindo as pesquisas abertas que definem a forma específica de liberdade que chamamos de “liberdade acadêmica”, e retirando  o suporte estrutural do qual ela necessita.

Além disso, a liberdade acadêmica presume e promove o questionamento de visões intelectuais porque somente por meio  da contestação engajada o pensamento ganha mais nuances, mais bases, se torna mais persuasivo, mais próximo à busca da verdade. Quando, pela censura, o questionamento essencial de pontos de vista é reduzido, o mesmo acontece com o potencial crítico de pensamento que a universidade é obrigada a manter vivo.
Liberdade acadêmica e liberdade de expressão não são a mesma coisa. As atividades profissionais que dizem respeito a um cargo acadêmico deveriam ser protegidas pela liberdade acadêmica. Os discursos extramuros  de qualquer um de nós sobre o mundo em que vivemos, sobre as instituições nas quais trabalhamos, ou sobre qualquer outro assunto de interesse público devem estar protegidos pelos direitos de livre expressão. Isso não significa que a liberdade acadêmica permita todo e qualquer tipo de expressão na sala de aula, também não significa que todos os discursos políticos estejam protegidos como expressão política legítima. Porém, por mais que esses direitos sejam complexos internamente, e por mais que o debate sobre os limites e significados deles seja um debate aberto, são direitos que constituem princípios que precisam ser defendidos.
Paintings, Collages and Works on Paper- 1966-1968.
De fato, o debate aberto sobre tais significados e limites desses direitos pode ser um caminho para colocarmos em prática e defendermos os princípios, já que uma discussão sem restrições é precisamente um dos objetivos desses direitos. Aqui estamos preocupados com aquelas formas de expressão que são consideradas tão ameaçadoras para um poder existente que resultam em prisão, ameaça, demissão ou exílio forçado. Tais punições têm a intenção de colocar medo nos corações daqueles que considerarem futuramente adotar uma posição crítica contra autoridades estabelecidas. A parede que existe entre a liberdade acadêmica e a expressão política é porosa; possui portas e janelas. A luz exterior ilumina o lado de dentro, e o trabalho interno muitas vezes se derrama pelos corredores e pelas ruas do lado de fora. Essas trocas são essenciais e caracterizam um bom seminário acadêmico.
O censor se expõe como um ser amedrontado. Ele teme o discurso e procura contê-lo.
Uma reflexão sobre essas duas liberdades torna clara a obrigação global das universidades de se opor à censura, à criminalização do conhecimento, e à destruição da vida profissional daqueles que sofrem ataques por seus pontos de vistas, sejam reais ou imaginados.  As universidades têm muitas obrigações com diferentes públicos; não somente com sua comunidade local, regional e nacional, mas também com uma comunidade global mais ampla, em parte porque a pesquisa hoje depende de trocas, traduções e publicações internacionais. Precisamos de um compromisso global em relação às normas internacionais de liberdade acadêmica, incluindo o poder de censurar, o que significa fortalecer os poderes da responsabilidade pública de organizações como a Associação Internacional de Universidades (International Association of Universities) e a Associação Europeia de Universidades (European University Association).

Só uma solidariedade expansiva e vigilante entre instituições de educação superior pode iluminar e defender essas duas liberdades entrelaçadas, resistir à perseguição de acadêmicos e acabar com a onda crescente de anti-intelectualismo e censura, o desprezo vergonhoso por aqueles que contam as histórias dos subalternos. Ao insistir na liberdade de pensamento, apoiamos aqueles que questionam a legitimidade de formas de política injustas – incluindo a estrutura política da universidade em si quando coloca seu destino nas mãos de interesses corporativos ou do poder do Estado. Apoiamos aqueles que questionam crenças estabelecidas de racismo, misoginia e a exploração de trabalhadores; aqueles que têm pensamento crítico sobre autoridade, poder e violência; aqueles que lutam pela sindicalização do trabalho acadêmico; aqueles que se recusam a ratificar ideologias de Estado.

A liberdade acadêmica é um direito, um poder dentro da universidade ao ponto em que seu exercício tem apoio e garantia institucional. Não é exatamente um direito individual – não é uma liberdade pessoal – mas surge da união entre a instituição e o corpo docente . Na verdade, é uma união entre o pesquisador acadêmico, a universidade e o Estado, já que o Estado deve aceitar a liberdade acadêmica das instituições e concordar em não intervir em questões que somente aqueles responsáveis dentro da universidade têm o direito de decidir. Por outro lado, quando acadêmicos falam sobre assuntos de interesse público, estão exercendo seus direitos de expressão extramuro que não devem ser compreendidos como questões de estudo acadêmico.

Acadêmicos são cidadãos, portanto a liberdade acadêmica inclui o fato de que os acadêmicos têm direito, como todos os cidadãos, à expressão política. Quando a expressão extramuro toma a forma de discordância política contra regimes autoritários, a universidade tem a obrigação de não deixar o Estado entrar pela porta para reprimir aquele discurso. A resistência da universidade à interferência política externa demonstra a relação entre a liberdade acadêmica e à ideia da universidade como um santuário. Um santuário é um ideal em desaparecimento no novo Estado securitário, um ideal que vale a pena ser reanimado não apenas para acadêmicos em risco, mas também para os sem-documentos e aqueles que se engajam em confrontos políticos – em outras palavras, para todos que têm razão para temer o Estado em virtude de sua condição precária.

A censura obviamente silenciou vozes críticas e destruiu carreiras. Ainda assim, a censura é uma forma do poder mostrar sua fraqueza. Indiretamente, admite o profundo medo que censores têm do poder da fala, da crítica, do questionamento aberto. Podemos ver que regimes explicitamente autoritários – e que parecem estar em ascensão – permitem uma crítica aberta ao governo somente quando têm certeza de que o pensamento crítico não tem poder político. A censura é sempre uma confissão indireta de medo. O censor se expõe como um ser amedrontado. Ele teme o discurso e procura contê-lo. Seu medo atribui ao discurso do oponente um poder que este pode ou não ter. Temeroso, ele procura produzir medo nos outros. E quando os censores começam a perseguir o seminário, a sindicalização, as visões heterodoxas ou as novas formas de estudo que questionam a dominação econômica e social, recebemos a mensagem: Eles temem o poder político do pensamento no discurso. Eles temem que o questionamento crítico, sustentado pela liberdade acadêmica, possa encorajar e refinar a contestação da autoridade política. Eles estão certos?

De certo modo, sim. Autoritários têm motivos para temer tanto a liberdade acadêmica quanto a liberdade de expressão política. Essas liberdades podem florescer apenas quando o Estado é impedido de punir o trabalho acadêmico, independentemente de como ele representa o Estado, e somente quando o Estado se recusa a tomar medidas de retaliação contra dissidentes políticos. Assim, um regime que se opõe à liberdade tem todos os motivos para temer aqueles que reivindicam ambos os tipos de liberdade.

Embora a liberdade acadêmica e a liberdade de expressão política não sejam a mesma coisa, punir acadêmicos por seu poder político real ou imaginário nos diz algo sobre o papel das universidades na vida democrática. As universidades produzem idéias que têm vida própria; a livre circulação dessas idéias faz parte da cultura política democrática e a proteção dessa circulação é uma obrigação das sociedades democráticas. Talvez a forma estruturada de conflito que define a liberdade acadêmica implique uma concepção mais ampla de como abordar a resolução de conflitos em outros domínios. Acadêmicos invariavelmente discordam e sua discordância é crucial para o crescimento de novos campos e novos conhecimentos.

Cultivar formas produtivas de conflito é o que procuramos fazer tanto dentro dos muros da universidade, quanto buscamos conhecimento, quanto fora desses muros, à medida que nos engajamos em promover práticas democráticas de debate e contestação na esfera pública.
Quando 1.128 dos nossos colegas turcos assinaram sua Petição Pela Paz, em 2016, eles buscavam reanimar uma negociação diplomática entre o governo turco e o movimento político curdo. Eles pediam mais diálogo entre os dois lados. Eles se opunham a conflitos violentos. Eles pediam um diálogo aberto, difícil e concebido a fim de deixar a violência no passado. No entanto, para o regime de Erdogan, um pedido de paz só poderia ser interpretado como uma aliança com militantes curdos. Os signatários foram acusados de fazer propaganda terrorista. O regime turco insistiu que o esforço para romper com um quadro que consiste em duas posições violentas e nada mais — o esforço para imaginar a paz — fazia parte da lógica da guerra. Mais de 69.000 estudantes estão agora atrás das grades; mais de 5.000 acadêmicos foram expulsos de suas posições. Quinze universidades foram fechadas.
Antoi Tapies Les Mains
E quando acadêmicos palestinos e israelenses pedem o fim da ocupação, ou quando eles afirmam o direito palestino à autodeterminação política, até mesmo o direito de retornar, ou apelam a um boicote como um meio não violento para fazer com que Israel cumpra as normas internacionais, por que essa busca por uma solução pacífica para uma forma contínua de domínio colonial não é reconhecida? Em vez disso, eles são acusados de traição, de reivindicar uma derrubada violenta do Estado. Para aqueles que estão em guerra, para aqueles que não podem pensar fora da estrutura da guerra, a crítica da guerra pode ser ouvida apenas como um grito de guerra.

E o que dizer dos acadêmicos iranianos que foram presos ou expulsos? Ou a ameaça ao ensino superior na Índia, onde o apoio aos direitos dos Dalits pode levar um acadêmico preso? O que chamamos de debate aberto ou liberdade de expressão é cinicamente mal interpretado como uma desculpa, uma manobra, um instrumento para um partido de oposição destruir o estado. O autoritarismo é alimentado pela paixão desesperada de acumular poder e silenciar o discurso político opositor antes que ele tenha a chance de ser ouvido.

A liberdade acadêmica depende de instituições públicas democráticas comprometidas com o princípio de não-intervenção por parte dos Estados, das autoridades religiosas e dos poderes corporativos na produção e disseminação do conhecimento. Assim, a luta pela liberdade acadêmica pertence à luta pela democracia. A liberdade acadêmica pertence à universidade e, ainda assim as universidades pertencem aos seus locais e organizações políticas. As paredes são mais porosas do que as distinções legais às vezes permitem.

O que o autoritário teme é que a discussão aberta em um seminário universitário se mova para fora desses muros. Eles estão certos em temer a circulação de idéias, que são imprevisíveis e incontroláveis. E têm razão em temer idéias que contestam a legitimidade do regime autoritário, ou fascismo, ou regimes racistas, pois uma vez que o caráter injusto desses regimes é abertamente demonstrado e discutido, uma vez que essas formas de crítica intelectual ganham uma “vida pública”, as pessoas podem muito bem identificar e se opor a um governo injusto e se levantar para exigir o fim da injustiça.

Isso me leva a uma pergunta final: quais obrigações os governos e instituições têm para com aqueles que foram forçados a deixar suas carreiras acadêmicas, suas casas, suas redes de parentesco e seus amigos, seus países, por medo de perseguição ou prisão com base em suas visões políticas reais ou imaginárias? A tarefa é, em parte, fortalecer as organizações nacionais dedicadas a defender a liberdade acadêmica, que inclui o direito à expressão política extramuros. Outra tarefa é construir laços transnacionais, novos modos de cooperação que compartilhem riqueza, espaço de trabalho, comunidade e que dêem aos acadêmicos em risco uma nova maneira de imaginar e buscar seu futuro vocacional. Devemos criar a mais ampla rede de solidariedade possível dedicada ao direito de pensar e falar.

Juntos, devemos pensar mais sobre o apoio financeiro e institucional a ser oferecido aos acadêmicos que perderam a garantia e as condições nas quais a liberdade — tanto a liberdade acadêmica quanto a liberdade de expressão política — depende. Uma aliança multilíngüe e multirregional é necessária, uma aliança que forneça refúgio quando universidades ou governos se tornarem persecutórios, que apóie a liberdade de expressão em face de sua criminalização. Contra a perseguição do espírito livre, que arruina uma vocação e expõe a vida à miséria, devemos estabelecer uma solidariedade vital. Devemos trabalhar em conjunto com os acadêmicos em risco para tornar público nosso julgamento da injustiça e da perseguição, em uma aliança com o poder de catalisar a liberdade como um ideal contagioso, que merece uma proteção vigilante.


Este artigo foi publicado originalmente no The Chronicle of Higher Education e foi traduzido ao português, com autorização da autora, por Carolina Medeiros, com apoio da Faperj.  

Judith Butler é professora de literatura comparada e teoria crítica na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Este ensaio foi adaptado de seu discurso no Congresso Mundial da rede Scholars at Risk de 2018, realizado em 26 de abril, em Berlim. A Scholars at Risk é uma rede que tem como objetivo proteger acadêmicos de ameaças e a liberdade de pensar, questionar e compartilhar ideias. 

Imagens das obras de arte de Antoni Tàpies:
“Personatge amb gat”, 1946.Transfiguració, 1994-2011. Paintings, Collages and Works on Paper- 1966-1968.Les mains, 1969.

Friday, 17 November 2017

Fim de uma zona de espera sem fim

cult
https://revistacult.uol.com.br/home/fim-de-uma-zona-de-espera-sem-fim/

Fim de uma zona de espera sem fim

Edição do mês
Fim de uma zona de espera sem fimAcampamento para refugiados em Idomeni, na Grécia (Divulgação)

Não começou em Auschwitz, não vai terminar em São Paulo. Quando todo o mundo parece insistir em marcar desencontros com o futuro, é nos campos de refugiados que se revela, mesmo a contragosto, uma autoimagem didática do tempo presente. Em meio a flagelos de guerra e limiares de naufrágio, entre passado recente e porvir iminente, tamanha atualidade se quer tão absoluta quanto intransitiva. Se viver segue sendo muito perigoso, dizê-lo de novo, em atmosfera de colapso, seria pouco menos que chuviscar no molhado. E tem mais: a crer no que se lê em Hannah Arendt, sabedora desse e de muitos assuntos conexos, cenas cotidianas da vida posta em perigo, por diminutas que pareçam à primeira vista, podem ser as primeiras gotas de um dilúvio.
Pois então, o caráter algo coloquial do livro de Gabriel Bonis banha nessas cenas (rápidas) a que se resumem os capítulos (concisos), conferindo concretude às pequenas e indispensáveis coisas da vida – a dos refugiados, antes de tudo. O que o autor quis, ao escrever, “foi recontar narrativas de indivíduos e famílias que abandonaram seus países de origem devido a conflitos e perseguições político-religiosas (entre outros tipos de perseguição) em busca de proteção no exterior, além de histórias de quem os ajudou in loco no norte da Grécia e de como a crise afetou os moradores de Idomeni”. Deslocados de guerra a um povoado rural, até então com pouco mais de 150 habitantes; imobilizados, com o encerramento da rota dos Bálcãs, nos limites de um “centro” ele mesmo deslocado (de centro de recepção a centro de acomodação, de transição provisória a acampamento gigantesco e sempre à beira do “colapso”, palavra esta que respinga ao longo de todo o livro e vai chumbando a imaginação do leitor ao rés do texto).
“Encurralados”, imigrantes forçados recebem do autor pseudônimos como Rami, vindo da Síria, Behnuz, do Irã, Karin, do Iraque, entre outros. Somos também apresentados à enfermeira francesa Jolien Colpaert, já na “espiral final” de Idomeni; ao professor alemão, Lukas Stelzner, férias interrompidas no sul do Brasil, lecionando voluntariamente sob tendas de um campo não oficial, na fronteira com a Macedônia; à hamburguesa Julia Vogelfrei, que “trocou um emprego bem estruturado com refugiados em seu país por um curto período de caos em Idomeni” e decidiu permanecer ali para filmar o conflito entre a polícia grega, encarregada de evacuar o centro de transição, e os que ali ficaram, “sitiados na fronteira”. Diz Vogelfrei: “Idomeni é próximo à fronteira. A liberdade estava ao alcance do horizonte, do outro lado da cerca”.
Quarentena infinita?
Graças ao prólogo de Erika Sallum, o leitor se beneficia com uma resposta inicial à questão “o que significa ser um refugiado?” (ver nossa Marginália). Mas vale dizer que se trata de um livro híbrido, se por isso entendermos que nele fala um mestre em Relações Internacionais, jovem pesquisador com especialidade em direito internacional de refugiados e com talento para aliar elementos precisos de uma investigação feita ao longo de sete meses, in loco, a vozes distintas, como as do repórter, moduladas também na urgência de quem se vê impelido a cumprir, in extremis, as múltiplas tarefas de um “ator humanitário”. De modo que as narrativas de indivíduos e famílias, recontadas, assumem ressonâncias mais amplas e suscitam questões outras, inclusive a de saber qual o sentido das desventuras reservadas a 65,3 milhões de displaced persons: sobretudo quando se sabe que, barradas e triadas e cadastradas, terminam sendo literalmente negociadas, como os 72 mil sírios, “imigrantes irregulares” que a Turquia receberá, com 6 bilhões de euros, prometidos até 2018 e provenientes da União Europeia. Outros tantos, todavia, já se mostram definitivamente “indeportáveis”, como grande parte dos que foram postos de lado pelas triagens em hotspots, por exemplo, na Líbia – segundo o presidente francês Emmanuel Macron, como asilados, esses descartes são “inelegíveis”.
Se nos ativermos aos dados fornecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o número beirava os 45 milhões em 2011. Hoje, portanto, algo como uma Grande São Paulo a mais. Ontem, pois nos tempos que correm a História se tornou algo acontecido na semana passada, os próprios termos do problema é que se colocavam em debate.
Não sei de melhor maneira de captar-lhe a envergadura, se não sugerindo logo ao leitor que abra O novo tempo do mundo – nas páginas em que Paulo Arantes pensa esses deslocamentos forçados e estacionados em “Zonas de espera”, uma das quais é, precisamente, a dos refugiados. Além de recordar, com Hannah Arendt, cenas que contam a pré-história europeia dos campos de concentração e, com Jean-François Bayart, o repertório da administração francesa que falava em “populações flutuantes”, atinamos para o alcance do tempo gerencial e punitivo, “do cárcere ao campo humanitário”. É todo um programa de estudos abalizados que, concentrado numa dezena de páginas, afina esquemas conceituais de autores como Benedict Anderson, Michel Agier, Zygmunt Bauman, reformulando os raciocínios de Joseph Torrente, os comentários vão contribuir para redefinir e adensar os próprios termos repostos em questão até chegarmos, por exemplo, no cerne jurídico-administrativo-punitivo expresso com as acuidades de um Günter Anders e da grande espera kafkiana.
Será igualmente proveitoso salientar que, nesse distanciamento crítico singular, os campos em causa podem funcionar como uma inusitada peça didática. Nela, desde os territórios da Cisjordânia ocupada, o que importa é que os refugiados aprendam a esperar: saiu de cena, portanto, aquela espera em que Ernst Bloch formava um público para melhor discernir a expectativa de uma revolução; entrou em cartaz a peça em que, às “sociedades impacientes”, ensina-se a disciplina apassivadora de uma espera no mínimo paradoxal, pois que ela corrompe sem fermentar e, no ritmo de expectativas decrescentes, parece delinear um laboratório contemporâneo de novas internações e confinamentos de tipo inédito.
Entretanto, acompanhando o arco que leva do Estado-Nação ao Estado-Policial, a escola onde realmente se aprende a esperar pode ser entrevista no “atroz trabalho inumanitário”, ali onde os próprios agentes, profissionalizados ou voluntariados, se acham à beira de mais um colapso, aparentado ao “colapso psicológico”, nos termos que Gabriel Bonis reservou para os refugiados nos momentos-limite, de muita chuva e de muito frio, em que o campo de Idomeni “alagava”; na mesma ordem de operar “da forma mais eficiente possível, ainda que precária”, compreende-se que a urgência permanente de cuidar de populações em escala tão descomunal possa redundar no adoecimento dos agentes, mesmo no caso de profissionais bem preparados para transitar em funções distintas. Sob a tensão do terror europeu organizado por polícias nacionais, difícil, até para os mais obstinados, afastar o sentimento difuso de estar “enxugando gelo”.
Sob o infravermelho da prosa crítica, o retrato redigido por Gabriel Bonis traça um nítido corte social, que separa grupos “privilegiados” (iraquianos, sírios, afegãos) e os de outra proveniência (Marrocos, Irã, Paquistão, Somália, Bangladesh), responsáveis por pichar a lona das tendas e propor uma inteiramente outra “união”. Processos acelerados de desigualdade social; humilhação administrada e seguida de formas degradadas de intervenção política ou de apropriações diretas de milícia interposta – a barbárie de Idomeni, em suma, torna-se contemporânea das barbaridades cometidas em escalas temporais e locais distintas, anagogicamente expostas à contraluz do capitalismo e de suas metamorfoses, “sem lado de lá”.
Embarcados nas ilhas
Em absoluto, não se trata de uma “visita guiada” a Idomeni. Bem longe do turismo humanitário, a verdadeira prova desse testemunho sempre se verifica em outra parte e talvez no dia seguinte à sua leitura, no modo como o nosso cotidiano se transforma à vista dessa “quase escravidão” para os trabalhadores, “imigrantes econômicos”, assim como para os que ficaram atolados em seus países de origem, “favelizados” aquém ou além da Mancha, ilhados em Lesbos, Quios, Samos.
Eu bem que gostaria de terminar esse texto me referindo a Karin, o jovem iraquiano que no último capítulo conta sua história, só chega a Idomeni dias após o fechamento da rota dos Bálcãs e sonha um sonho próprio, nisso, bem diferente de Rami, o jovem sírio que no primeiro capítulo sonha o sonho do pai, o de terminar seus estudos e tornar-se médico generalista. Mas deixo ao leitor o gosto de descobrir por que resolvi manter silêncio o momento que Gabriel Bonis chamou “Violoncelo”. Fiquei imaginando o que seriam duas versões da tão esbatida “Ode à Alegria”, ali no quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven. A versão oficial, transformando uma obra-prima na reedição sinistra das interpretações difundidas em alto-falante, no horror dos campos de concentração, como os de Dachau – o próprio ministro do Interior grego não hesitou em declarar Idomeni como sendo “Dachau moderno”, “um resultado da lógica das fronteiras fechadas”. A versão outra, que alguém como o catalão Jodir Savall poderia reger, reinterpretar e que, sem recorrer a instrumentos musicais, reunisse um coro para evocar, à capela, por extenso sessenta milhões de vozes. Quem sabe teríamos ouvidos para ouvir o que esses números podem um dia significar.


Tuesday, 9 August 2016

Os 10 conflitos ambientais mais explosivos do mundo

carta capital
http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/dez-conflitos-ambientais-que-explodem-no-mundo

Sustentabilidade

Meio Ambiente

Os 10 conflitos ambientais mais explosivos do mundo

Belo Monte, o desastre em Mariana e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro colocam o Brasil no mapa dos piores conflitos ambientais do planeta
por Felipe Milanez — publicado 08/08/2016 09h18, última modificação 08/08/2016 12h37
Rafael Lage/Divulgação
Mariana Samarco/Vale
O rompimento da barragem de Fundão destruiu o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG)


Vazamento tóxico, contaminação, câncer, assassinato de ambientalistas, ameaças de morte, barramento de rios, espoliação, expulsão forçada. O ritmo moderno do crescimento econômico tem sido acompanhado de violências e conflitos, no mundo inteiro. Ilusão pensar que crescer significa aumentar a democracia e o respeito aos direitos humanos. A busca por matérias primas na América Latina, África e Ásia para serem consumidas nos países ricos, provoca reações e resistências, configurando os “conflitos ambientais”.
Uma equipe da Universidad Autônoma de Barcelona, liderada pelo economista ecológico catalão Joan Martinez-Alier, tem realizado um mapeamento destes conflitos no mundo. O mapa aqui, serve não para as grandes empresas saberem aonde não devem investir, mas para articular as resistências, visibilizar as lutas, e provocar uma reflexão sobre o consumo desenfreado de matérias primas e questionar e desafiar chavões como “progresso” e “desenvolvimento” e seus imperativos de um modo de vida.
Em um mapeamento global, o Brasil, que é considerado o país mais violento do mundo contra ambientalistas pelos levantamentos da organização Global Witness, é também um dos piores em termos de conflitos ambientais. Há muita resistência por parte das populações afetadas, mas igualmente repressão, intolerância, autoritarismo e violência.
Três desastres marcam a inserção do país entre aqueles com os piores conflitos ambientais do mundo: a tragédia da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, e o crime ambiental da Samarco (Vale e BBHP) em Minas Gerais e a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).
Dez casos foram selecionados como os mais significativos, e são apresentados abaixo em um artigo feito coletivamente por Daniela Del Bene, Federico Demaria, Sara Mingorría, Sofia Avila, Beatriz Saes e Grettel Navas, que selecionaram os casos de conflitos. O Atlas Mundial de Justiça Ambiental é codirigido por Leah Temper e Joan Martinez Alier, e é coordenado por Daniela Del Bene. 
1. Projeto Hidrelétrico Belo Monte (Brasil)
Belo Monte
Roberto Stuckert Filho/ PR

O Projeto hidrelétrico Belo Monte está sendo construído no Rio Xingú, município de Altamira, no Pará. A barragem será a terceira maior do mundo e já devastou uma extensa área de floresta tropical brasileira. O projeto vai deslocar mais de 20 mil pessoas, ameaçando a sobrevivência das tribos indígenas Kayapó, que dependem do rio.

Artigo publicado na Forbes prevê que Belo Monte não terá grandes benefícios econômicos se comparado aos altos custos sociais e ambientais, tais como o desvio dos afluentes do Xingu, que impedirá a navegação e a pesca local. Contudo, Belo Monte deverá ser concluída no ano de 2016. Mas esta não é a única barragem no rio, o governo está planejando outras implementações locais.
O projeto é propriedade do consórcio Norte Energia, em sua maioria de propriedade do governo, a Vale também tem cerca de 5% do mesmo e está sendo financiado pelo BNDES. Segundo os opositores do projeto, Belo Monte será fonte de energia elétrica para as operações de mineração da Vale no Pará.
A violência também é uma característica deste conflito. Em 2014, 20 índios da Amazônia foram até o local da barragem de Belo Monte para exigir compensação as comunidades indígenas. A polícia atirou neles com balas de borracha e granadas de efeito moral, ferindo quatro deles. (The Ecologist, 2014).
2. O petróleo contamina o delta do Níger (Nigéria)
Delta do Niger
Marten van Dijl/Flickrcommons

O delta do rio Níger é um dos locais mais afetados pela massiva extração de petróleo mundial desde os anos 1950. O resultado são impactos ambientais e sociais irreparáveis, assim como um altíssimo nível de violência. A resposta aos protestos contra esses danos tem sido a violência de grupos armados locais, detenções ilegais, torturas e execuções.

As comunidades locais têm denunciado práticas industriais ilegais, como a queima de gás residual produzida nos processos de extração e de processamento do petróleo, que gera danos ambientais e à saúde. A vegetação e as colheitas são afetadas pela chuva ácida. A contaminação também aumentou o número de abortos, deformações congênitas, doenças respiratórias e casos de câncer, segundo diversas denúncias.
Diante de tais problemas, a principal exigência é a reparação dos danos produzidos e também deixar no subsolo o restante da reserva de petróleo, com o argumento de que, uma vez extraídas e queimadas, agravariam as emissões de gases de efeito estufa eagravariam as mudanças climáticas.
O conflito do delta do Níger alcançou um ponto crítico em 1995, quando o poeta e líder comunitário, Ken Saro Wiva, foi assassinado. A despeito da repercussão internacional dada ao conflito, o acesso à justiça pelas comunidades afetadas depende de um grande esforço para evitar a impunidade do caso.
Atualmente, há processos abertos em diferentes países como Holanda, Equador e Estados Unidos, visando investigar a responsabilidade das empresas que operam no Delta, incluindo a anglo-holandesa Shell, a estadunidense Chevron e a italiana ENI.
3. Vazamentos minerais tóxicos da Samarco sepultam uma região, Minas Gerais (Brasil)
Samarco
Rafael Lage/Divulgação

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento da barragem do Fundão na cidade de Mariana e o vazamento de 34 milhões de metros cúbicos de lama sobre o povoado de Bento Rodrigues matou 19 pessoas e deixou mais de 600 famílias desabrigadas. Este foi considerado o maior desastre ambiental produzido no Brasil por negligência de uma empresa.

Os rejeitos da barragem eram gerados pela produção de minério de ferro da empresa Samarco (Vale, Brasil, e BHP Billiton, Austrália-Reino Unido), em uma das maiores minas de minério de ferro do mundo, antes que o acidente paralisasse suas atividades.

Após os danos provocados no povoado de Bento Rodrigues, a lama tóxica alcançou o Rio Doce, onde percorreu quase 700 km, passando por mais de 40 municípios, até desembocar no oceano em Linhares (Espírito Santo). Os rejeitos afetaram o abastecimento de água de muitos municípios, exterminaram a biodiversidade aquática e extensas áreas de valor natural.

A atividade e o modo de vida de pequenos produtores rurais, pescadores, populações tradicionais e indígenas foram profundamente impactados. Em 2016, após uma multa baixa, em comparação aos danos produzidos (250 milhões de reais), a Samarco e suas controladoras acordaram com os governos federal e estaduais (MG e ES) gerar um fundo de até 20 bilhões de reais visando recuperar a Bacia do Rio Doce nos próximos 15 anos.
4. “Povoados do câncer” (China)
Guangzhou
jo.sau/Flickrcommons
O povoado Yongxing antes era uma pequena reserva rural, próxima ao centro da cidade Guangzhou. Há 20 anos, seus extensos campos de arroz, vegetais e pomares eram irrigados com água limpa que descia das montanhas. No entanto, em 1991, a reserva foi ocupada por um aterro de 34,5 hectares.
Posteriormente, na mesma região, instalaram-se dois incineradores e uma grande planta de tratamento de resíduos. A população protestou por causa da poluição. A água de seus poços se tornava densa, amarelada, com películas superficiais vermelhas. Protestos nas ruas terminaram em encarceramentos que se perduraram por anos. Desde então, a população de YongXing se viu obrigada a comprar água potável e a abandonar suas atividades agrícolas de subsistência.

Os campos foram então alugados a preços irrisórios aos trabalhadores migrantes que chegavam a trabalhar os campos afetados para vender produtos contaminados à cidade.
Embora as autoridades sanitárias estivessem informadas sobre esta situação, os afetados denunciam que houve negligência institucional. A maior preocupação da população, além da poluição do ar, foi o repentino aumento dos casos de câncer no povoado.
A Organização Mundial de Saúde informou que a queima incompleta ou defeituosa de resíduos em incineradores pode gerar emissão de dioxinas e furanos, com impactos negativos para a saúde humana. O povoado de Yongxing é um dos inúmeros casos conhecidos como “os povoados do câncer na China”, onde atividades industriais e grandes aterros operam com padrões de segurança irrisórios apesar de existirem comprovados efeitos nocivos para a população humana.
5. Berta Cáceres, assassinada por lutar contra a represa hidrelétrica Água Zarca (Honduras)
Beta Caceres
Daniel Cima/Flickrcommons

A ecologista Berta Cáceres, conhecida ativista de Honduras, foi assassinada em março de 2016 em La Esperanza, no oeste do país. Cáceres era líder da comunidade lenca. Em abril de 2015, havia obtido o Prêmio Goldman de Meio Ambiente, o máximo reconhecimento mundial para atividades de meio ambiente.
Cáceres organizou o povo lenca, a maior etnia indígena de Honduras, em sua luta contra o represamento/embalse de Agua Zarca, previsto no rio Gualcarque, um lugar sagrado para as comunidades indígenas e vital para sua sobrevivência.
A campanha empreendida por Cáceres conseguiu que o maior construtor mundial de represas, a companhia de propriedade estatal chinesa Sinohydro, retirasse a sua participação no projeto hidrelétrico.
A população lenca denunciou a violação do convênio 169 da OIT por não ter existido uma consulta prévia livre e informada, assim como a presença do exército para custodiar as obras e as ameaças a líderes e assassinatos. O caso Agua Zarca alcançou visibilidade internacional após o assassinato de Cáceres.

Atualmente, organizações e movimentos populares pressionam para que se investigue o assassinato de Berta Cáceres e para que se suspenda de forma definitiva o financiamento do projeto. Depois do assassinato da ativista e de uma visita realizada pela Comissão Europeia, o projeto de Agua Zarca foi catalogado como uma violação de direitos humanos.
6. Trem de Alta Velocidade (Itália-França)
Wikicommoms
O Trem de Alta Velocidade (TAV) que conectaria as cidades de Torino e Lyon através de uma linha ferroviária de 220 km/h se converteu em um dos focos de conflito ambiental mais importante da Europa. O TAV foi declarado pela Comissão Europeia como um projeto de infraestrutura prioritário para conectar a zona ocidental e oriental do continente e completar assim a Rede Transeuropeia de Transporte (tanto para passageiros como para bens comerciais).
Estima-se que esse ambicioso projeto envolveria um investimento de 26 bilhões de euros e que sua construção, a ser iniciada em um futuro próximo, perduraria por dez anos. Quando completo, constituirá um dos maiores túneis do mundo.

Desde a década de 1990, o TAV italiano tem sido fonte de fortes críticas e intensas mobilizações, particularmente concentradas no Val de Susa, mas amplamente difundidas no país por meio do movimento No-TAV (No al Treno Alta Velocità)
O movimento No-TAV julga desnecessária a nova linha ferroviária por ser excessivamente cara e financiada por dinheiro público. Acredita-se que o projeto está sujeito à corrupção e às atividades econômicas ilegais.
O conflito teve o seu primeiro estalido quando, em 2005, iniciaram-se os ensaios geológicos sem consulta prévia local, o que fez com que uns 50 mil habitantes do Val de Susa ocupassem o local da escavação e paralisassem os trabalhos até que a manifestação fosse dispersa com agressões por parte das forças policiais.

Atualmente, o movimento No-TAV continua denunciando a militarização no Val de Susa e a excessiva violência contra seus habitantes.

Ao questionar a necessidade de infraestruturas como esta, o movimento gerou alianças com outros grupos na Itália e no resto da Europa até formar uma rede de oposição contra Mega projetos Impostos e Desnecessários. O último encontro internacional da rede foi em Bayonne, França, em meados de julho, onde também estiveram grupos em oposição a aeroportos (Nantes, França), estações de trem (Estocarda, Alemanha), infraestrutura energética (TAP, Itália) e grandes minerações na Europa (Grécia, Romênia).

Apesar de o projeto TAV ainda estar na agenda política europeia, os escândalos financeiros e a oposição pública fazem com que ele avance mais lentamente do que o esperado.
7. Minas de carvão destroem lugares sagrados (África do Sul)


A empresa de prospecção mineral Ibhuto-Coal planejou abrir uma mina de carvão a céu aberto em KwaZulu-Natal (África do Sul). O projeto chamado Fuleni está localizado no parque natural mais antigo da África, habitat do rinoceronte branco (a fronteira Hluhluwe-iMfolozi). Duas minas de carvão já rodeiam a região do parque: Zululand Anthracite Colliery (propriedade da empresa Rio Tinto) e Somkhele (propriedade de Petmin).

Atualmente, ambas as minas geram fortes impactos às comunidades locais: destruição de locais sagrados, perdas de habitações, assim como danos à água, cultivos e biodiversidade da região. Diante da proposta de implantação do projeto Fuleni, as comunidades afetadas se opõem à intensificação dos impactos sobre seus meios de subsistência e sobre o ecossistema local protegido pelo parque.

No dia 22 de abril de 2016, mais de mil pessoas tentaram abortar a visita do Comitê de Desenvolvimento Mineral e Meio Ambiente (RMDEC, sigla em inglês) à zona. Os ativistas da comunidade têm como lema: “deixar o carvão sob a terra” (leave the coal under the hole) e para a voraz economia extrativa.

Este lema converteu-se também em uma demanda compartilhada em muitos locais do mundo, onde comunidades marginalizadas se mobilizam em defesa de seus direitos e de seus meios de subsistência problematizando o aquecimento global. A mobilização para frear a exploração de carvão também está presente em Sompeta, em Andhra Pradesh (India) e se soma às campanhas para deixar sob a terra os recursos fósseis (unburnable fuels).

8. Grilagem de terras mortal (Guatemala)
Após a assinatura do acordo de paz da Guatemala em 1996, duas famílias descendentes de alemães iniciaram o cultivo de óleo de palma (1998) e de cana de açúcar (2005), para o qual se produziu a grilagem de um terço da propriedade das terras do Polochic, um vale de terras férteis localizado no nordeste da Guatemala onde os processos de reconcentração de terras (mais terras em poucas mãos) deixou a maioria da população Q’eqchi’ sem acesso a terra.
Ademais, a população local denuncia o desvio de rios e o desmatamento realizados para viabilizar estes cultivos, assim como, as intoxicações e doenças decorrentes da fumigação da cana de açúcar.
Esta grilagem saltou à opinião pública mundial em 2011, quando foram desalojadas 800 famílias de 13 comunidades Q’eqchi’ que ocupavam parte das terras do Polochic destinadas ao cultivo de cana de açúcar. Esta ocupação era sua única maneira de sobreviver (a partir do cultivo de milho).
A população demandou ao Estado a compra das terras, abrindo um processo de diálogo entre as partes. Contudo, a negociação foi rompida, 800 famílias foram desalojadas, foram queimados os cultivos e as casas dos indígenas, e um camponês foi assassinado. Alguns meses depois, outros dois camponeses foram assassinados e mulheres e crianças foram feridas à bala pela segurança privada da empresa de cana.
As instituições do Estado e as famílias empresariais defendem a propriedade privada e estes monocultivos por considerar que trazem desenvolvimento à região, enquanto comunidades locais e diversas organizações denunciam a violação de direitos humanos (vida, alimentação e habitação), assim como a falta de acesso a terra e a recursos naturais limpos para poder sobreviver.
Este é um dos 450 casos de conflitos de grilagem de terras identificados no EJAtlas e está dentre os 12% de casos onde houve mortes. Um caso similar é o da resistência de comunidades afrodescendentes na Colômbia, assim como o de Bajo Aguán en Honduras.
9. Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Brasil)
Comperj
Fernando Frazão/Agência Brasil
Em 2007, o governo brasileiro inaugurou o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que procura o aumento do investimento em infraestrutura para a extração de gás e petróleo.
Dentro do PAC se encontra a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que compreende 4.500 hectares e um investimento de 21 milhões de dólares americanos. As construções começaram em 2008 e se prevê que estarão finalizadas em 2016.

Para o início das obras, não foi realizado nenhum processo de consulta nem processo participativo com os pescadores, que são reconhecidos pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) como comunidades tribais, por serem herdeiros dos saberes ancestrais dos Caiçaras, povo Tupi.
Diferentes setores da população (pescadores, pesquisadores de universidades e organizações ambientais) da região têm lutado contra a instalação ou contra os efeitos adversos de outros projetos relacionados ao complexo.
Algumas delas são a instalação de um curso de água na bacia do rio Guaxindiba ou a construção de um emissário submarino para descarregar efluentes líquidos do complexo na costa perto da cidade de Maricá. O projeto também ameaça muitas áreas protegidas localizadas no entorno da Baía de Guanabara.
O conflito se intensificou em 2009 quando os pescadores artesanais ocuparam as obras nas quais estava sendo construído um gasoduto submarino e terrestre. A ocupação durou 38 dias e foi o marco que iniciou um conflito muito mais violento entre a Petrobras e os pescadores. A partir desse momento, os pescadores têm sido ameaçados e quatro deles da organização "Homens do Mar" foram assassinados.
10. O “vento” leva o bosque Kallpavalli (Índia)
A energia eólica é amplamente promovida como uma solução energética sustentável e socialmente desejável. No entanto, alguns grandes projetos eólicos ao redor do mundo estão provocando um crescente número de conflitos que vão além de interferências estéticas e subjetivas na paisagem.
Esses processos põem em evidência os benefícios de algumas grandes empresas, enquanto os territórios são transformados em detrimento de seus sistemas sociais e valores ecológicos locais.
Um caso relevante é o do estado de Andhra Pradesh (Índia), onde uma iniciativa comunitária exitosa de reflorestamento e de desenvolvimento de atividades de subsistência no bosque Kallpavalli foi destruída pelo projeto eólico Nallakonda.
O projeto, propriedade da empresa India Tadas Wind Energy, conta com um forte respaldo do governo nacional. A instalação de mais de 60 turbinas Enercon desmatou as áreas restauradas, degradando terras produtivas e impactando as fontes locais de água.
Em 2013, a comunidade afetada e diversas organizações constituíram o Tribunal Verde da Índia (National Green Tribunal), denunciando os impactos negativos sobre o pastoreio, a agricultura e a delicada biodiversidade da região. A comunidade e organizações em defesa dos bens comuns continuam enfrentando um projeto que se apresenta como sustentável, mas que destrói a subsistência da população local e o ecossistema regional.
No EJAtlas, estão mapeados projetos eólicos similares e de escala muito maiores, como corredores eólicos de mais de 15 mega-projetos (Oaxaca, México) e a privatização de mais de 16 mil hectares de terras indígenas (noroeste do Kenia).
Em todos eles, a apropriação de terras para a produção de eletricidade “limpa” converte-se em denominador comum que afeta ecossistemas e comunidades marginalizadas, colocando os projetos de energia eólica mal desenhados como um assunto emergente para a justiça ambiental.