Sunday, 8 June 2014

Os Condenados: novo capítulo da trilogia de Oswald

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Os Condenados: novo capítulo da trilogia de Oswald

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“João palpitava de profundas esperanças. Oh! Se fosse possível tê-la afinal só para ele, mesmo assim, prostituída, desmoralizada, vendida à cidade…”
Por Oswald de Andrade | Imagem: Toulouse Lautrec
No âmbito da série “Oswald60″, “Outras Palavras” publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados
Na sequência anterior, João do Carmo se sente desgraçado por não saber agir diante da nova condição vivida por Alma. A jovem agora se veste com elegância. Numa manhã, no entanto, retorna com o rosto marcado. Mauro recolhe todo o dinheiro arranjado. Os vadios da sociedade chique, os arrivistas comerciais, querem conhecer a desvirginada do bairro distante. Alma espera um filho. Mauro obriga a jovem a realizar um aborto e ela quase morre. Tempos depois, Mauro volta a procurá-la. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60”)
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Eram sete horas. Ficara no rendez-vous o dia todo e não aceitara ninguém. Tinha fome. No bairro distante, o velho avô havia jantado o seu pequeno jantar, dando de comer ao cachorro.
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*-*-*-*-*
Ela agora não sonhava mais, como em criança, ter um marido, uma casa com criados, bebês de cachos e laços de fita na cintura.
Foi procurar Mauro no bordel da Yvette, para pedir-lhe cinco mil-réis.
*-*-*-*-*
João do Carmo tomara-se de uma suprema inquietação amorosa.
Ante o espelho quadrado que servia para a toilette improvisada dos seus dias, achava-se macerado como um suave peregrino. E repetia fitando Baudelaire:
L’amoureux pantelant, incliné sur sa belle,
A l’air d’un moribond caressant son tombeau
*-*-*-*-*
Quando percebia Alma, num procurado encontro, sentia cem trombones funerários tocarem-lhe aos ouvidos escancarados. Tinha um sincero pasmo pela coragem lendária de Otelo. Se fizesse um fim de drama como ele!
Vinha-lhe uma sensação de frio no peito. Queimavam-se-lhe as pernas. Tinha uma dor física de cicatriz aberta no coração. Lágrimas corriam à-toa e brutalidades estrangulavam-se-lhe nos punhos.
*-*-*-*-*
Alma trouxera um charuto havano para o velho Lucas. Mauro tomou-o.
E o telegrafista abordou-a resolutamente de novo, numa áurea tarde do bairro populoso.
*-*-*-*-*
Dagoberto Lessa, andando com João, encontrara-a de vestido ligeiro, sapatos de pelica branca, num canotier insolente e manifestara por ela um culto apaixonado e cínico.
De modo que não fora difícil, para o namorado, tê-lo por conviva no festim de imaginação que se oferecia continuadamente, com um possível futuro, fulvo e ridente, onde entrava resignado o necessário de pouca vergonha. O grande assunto de ambos era ela. João mentia ao outro, desviando para horizontes líricos, a história da sua perdição. Repetia-lhe os antigos diálogos. E contava-lhe como amava apesar de tudo, animando o deserto noturno dos viadutos.
*-*-*-*-*
O velho esperava que a neta viesse. Ela prometera assistir à entrada do Ano Novo, em casa, diante das imagens antigas acompanhando o terço, como nos anos passados.
Num cortiço vizinho, haviam improvisado uma orquestra de negros.
O avô, tendo o cão deitado ali, rezou sozinho o rosário precatório, com o moleque de olhos brancos, escutando, ante uma vela vacilante.
Na cidade extensa, as fábricas anunciaram sonoramente que a crosta velha do ano se despegava da terra juvenil. Os mil apitos cantaram, cantaram. O velho imprecava, o moleque respondia devagar, o cão adormecera da melopéia religiosa.
São José, de dentro do velho oratório, olhava impassível, tendo o menino ao colo – o mundo simplificado em azul nas mãos polpudas, com uma cruz em cima.
Lá fora, tocava a orquestra melancólica de negros.
*-*-*-*-*
Alma ficara tomando champagne na casa de D. Rosaura. Saiu à-toa pelas ruas encantadas de movimento noturno.
Na esperança do ano melhor, um bar do Triângulo atravancava-se de gente feliz. Ela sentou-se a uma mesa esquiva.
Ficou diante de um cálice, ouvindo a música emocional, na noite ruidosa.
A seu lado, em outra mesa, um moço sórdido discutia com um velho pontiagudo, de olhos canalhas. Súbito, o velho piscou para ela.
A madrugada citadina escoava-se. Foi para casa num táxi. Encontrou tudo escuro e fechado.
*-*-*-*-*
– O Lobão é uma vela apagada no altar da inteligência humana.
João do Carmo desfranziu a carranca sentimental, sorriu. Estavam na confusão ruidosa da noite de janeiro de uma taverna central.
Sob as luzes espirradas, Dagoberto Lessa parecia mais calvo no contraste dos pontudos bigodes ruivos. Valorizava-o um imperturbável ar sério.
E, de dentro de João, vinha por vezes uma insensata vontade de acariciá-lo.
– O Lobão, o Teles Aguilar e o Pinto Pé de Anjo recusaram-se a subir ao segundo andar da inteligência humana. Têm medo de que desabe o elevador.
garçon achegara-se, com o guardanapo sob o braço de alpaca, num grande aspecto afarado.
– Cognac! – gritou o desiludido. — E você?
– Kirsch… para evocar.
– Outro dia, reli o Jardin d’Epicure e quebrei a caneta. Prefiro escrever um volume sobre estrumes humanos. Imagine você se eu escrevesse um livro como esse! A res-pon-sa-bi-li-da-de! Que seria de meus filhos? Você sabe que tenho cinqüenta.
Houve um silêncio, no barulho. E o homem continuou:
– Nasci para fazer a grande arte, mas resolvi fazer a pequena. Vou só responder aenquêtes.
Emborcaram cálice sobre cálice e o palrador chegou ao caminho ensombrado das confidências.
– O triste, o trágico de tudo é que me casei por amor! Tinha vinte anos e prendi-me pelos primeiros olhos que me chamaram a atenção, sem indagar se eles diziam: “somos inteligentes”, “somos compassivos”, “somos idiotas”. A criatura era pobre como o Lobão. E quando pretendi tirar-lhe faíscas da alma, nada! Escuro como o cérebro de um tenente de cavalaria.
E depois de um tempo, consolando-se:
– Enfim essa história do meu casamento foi imbecil, mas foi de artista, de grande artista, foi que nem a história de Jean-Sébastien Bach.
Esvaziou mais um cálice de um trago e sorriu com um sorriso físico de músculos relaxados. E como recrudescesse em torno a balbúrdia do bar, largou da boca um insulto grosseiro e coletivo. Depois, fitando no outro os grandes olhos sérios:
– João, aqui nesta sala há cinquenta homens, quarenta e nove são infames! O que resta sou eu ou é você…
Voltou ao casamento, discutiu mulheres e, de repente, lembrou-se de Alma.
– Essa sim! É a única! Se fosse comigo… Do tesouro de Creso que tens, tiras duzentos-réis e te contentas! Eu me extremaria, me arruinaria. Porque aceito tudo, o trágico e o cômico, com dignidade. Desejo, em amor, apenas isto – o sacrifício integral do meu próprio indivíduo. Imagina, João, fazer chorar sobre o meu desastre todos: os empregados dos bancos e das confeitarias, as senhoras caseiras e as horizontais…
Diante do outro que se crucificava na cadeira, o calvo prosseguiu, às braçadas, o seu sermão de lágrimas.
*-*-*-*-*
– Estou grávida, sim…
Ela estacara com o tapa teso, as duas mãos mantendo as têmporas, chamejante e imóvel.
– Esta cabeça que já é tão dolorida!
Depois, crescendo, transfigurada:
– Estúpido! Gritarei até vir gente! Gritarei…
O cáften saltou, derrubou-a, quis pôr-lhe um pé no ventre importuno. Ela debatia-se. Largou-a desmantelada e foi-se.
*-*-*-*-*
Permaneceu até tarde naquele quarto claro de D. Rosaura. Queria ter o seu filho, fosse como fosse. Viu ao espelho o rosto machucado, sob a raiva cabeleira, dispersa e mal junta, o olhar enfaixado no luto das olheiras.
Deitou-se humildemente. E de súbito, no escuro, acendeu-se a entrada luminosa da pensão da Odete. Mauro já estaria chegando lá. As outras estariam correndo para ele, como pavões, aos gritos…
*-*-*-*-*
No fundo nunca analisado de João do Carmo, uma honestidade engrossava, como o rio nas enchentes.
Por aquele fim morno de dia, ele tinha-a afinal ali, no seu quarto de telegrafista, abrindo a janela única para a paisagem medíocre de quintais, que o perturbava.
Ela viera com ele, num saltitar ligeiro de tacões, a gostosa nudez apenas disfarçada pela saia preta e pela blusa de seda.
Numa sinceridade de confiança, acolhera-se na cama, ao lado dele, a cabeça vermelha recostada ao seu largo peito atlético que fremia. E contava-lhe histórias da vida.
– Conheces Camila Maia? Esteve lá em casa hoje, outra vez. É uma criatura alegre, esperta. Mas não tem cabeça, arranjou um filho. O filho foi para Tremembé. Esteve lá em casa, desde o meio-dia.
Depois, refletindo:
– É verdade o que você me disse? Que vai para o Rio? Não, você não pode me deixar. Eu não tenho ninguém…
Debatia-se, num carinho pedinte. O peito do moço arfava. Ele vencera, afinal, de tanta esperança, a dolorosa partida. E num confuso labirinto de sensações e raciocínios, não sabia crer.
– Eu gosto tanto de você! – murmurava Alma, quase chorosa. – Não quero que você vá…
Vinham à cabeça de João madrigais inúteis. Ele não sabia tê-la ali, como um bom macho. Rimava obscuramente o seu amor triunfal. E ela, na sua cabeça tonta de ouro ruivo, ia pensando que faria com ele a burrada definitiva. Ele era bom e não a deixaria nunca mais.
Um sentimento recuado para as reservas mais longínquas do seu ser de menina, vinha enternecer-lhe os gestos leves. Ela enroscava-se toda no homem forte e bom.
– Você conhece aquele?
Alma levantou a cabeça surpresa, olhou: João mostrava a fotografia arrancada do livro que se suspendia a um prego, na parede sobre o leito.
– É Baudelaire.
– Seu amigo?
– Não. Um poeta. Um grande poeta…
– Parece um padre.
– Você sabe francês?
– Um pouco.
Ele ficou numa lástima vexada, certo de que um soneto de Baudelaire, cantado pela sua voz cava, resolveria, melhor que tudo, a hora tentadora.
Ela estava ali, ela, ao seu lado, no seu quarto. E como parecia diferente desse mesmo ser, que o obcecava a ponto de acompanhá-lo em todas as silhuetas esbeltas, que passavam nas ruas agitadas. Era ela, a que ele sonhava ter diante do clube aquático, numa incontida vaidade de noivo gigolô, por um ocaso sobre a Ponte Grande, quando o sol líquido nadasse, ao ritmo de um barco que os seus braços levariam…
 Car j’eusse avec ferveur baisé ton noble corps…
Ficara quieto, esperando. Ela perguntou-lhe com olhos
cortantes, se estava caçoando.
– Ora essa! que ideia…
Uma frieza passara entre os dois corpos. Alma deu um pulo do leito, voltou-se para um canto, subiu a seda frouxa das meias.
– Preciso ir, vamos?
Ele refizera-se todo já pronto, cavalheiresco e sólido, disposto a acompanhá-la, a obedecer-lhe, a morrer por ela.
E foram em silêncio, baudelairianamente, pelas ruas geladas.
*-*-*-*-*
O velho Lucas queria liquidar o seu antigo débito hipotecário da Lapa.
Os homens da Companhia de Desenvolvimento tomar-lhe-iam as duas casinhas que lhe rendiam a vida.
Tirou do guarda-roupa um velho fraque, vestiu-o. Estava com as mangas curtas, teve a impressão de que crescera. E ficou ali, sem ânimo de sair, festivamente vestido.
*-*-*-*-*
Pela manhã, vinha-lhe aquela aguaceira áspera, amarga e inútil à boca salivosa.
O avô não desconfiava de nada. Se pudesse dormir sempre, sempre. Mas o sono fugia-lhe num galope como a vida. Fazia imensas madrugadas nulas. E uma suave angústia tinha-se lentamente obstinado no seu antigo peito calmo.
Alma gelava-se toda ao imaginar que ele viria, mais dia menos dia, a saber.
O pretexto de encontrar-se com Mauro a tinha salvo até aí. Mas o cáften havia de deixá-la também.
Foi numa loucura, que ela começou a autorizar o telegrafista a definitivos compromissos. Agora, todas as noites, era ele, como Mauro antigamente, quem passava a horas certas. Fiel, humilde, como quem nada espera e nada merece, falhava só nos dias de plantão.
O moleque, espionando do balcão, dizia à ruiva cabeça inquieta que o Carlito estava na venda da esquina.
De modo a ser um irreprimível sorriso a saudação de início, quando ela descia.
Punham-se a falar de tudo. A vizinhança não notava mais, como outrora. Forçada a todos os cinismos, Alma soubera penetrar em casa da mulher de frente, do lojista, da vizinha do sobrado. Resistia-lhe, ao lado, um funcionário magro, de bigodes baixos que se chamava Quincas e tinha encardidas filhas curiosas.
– Sabes? Camila deixou o Matos…
– Ele não era correto?
– Corretíssimo. Não há homem como aquele! Mas a paixão dela agora são os meninos do Mackenzie. Está farta das roupas e das jóias que o Matos lhe deu…
João sentiu um vexame de não lhe poder oferecer também aquilo. Se ela quisesse compreender-lhe o tesouro de amor. Esse era seu, fora sempre seu…
Perguntou-lhe despeitadamente por Mauro que deixara de aparecer. Se não voltasse nunca mais… se morresse…
João palpitava de profundas esperanças. Oh! Se fosse possível tê-la afinal só para ele, mesmo assim, prostituída, desmoralizada, vendida à cidade…
*-*-*-*-*
Ao encontro dos seus inconfessados desejos ela veio uma noite, tímida, suave, transfigurada.
A sua vida não tinha sido como diziam: ela não era a debochada que pensavam.
Na sombra tropical, sob o peso lascivo dos jasmins, rescendia-lhe o corpo claro aYvonette.
E o coração do homem bom badalava que sim, que ela não era a debochada que queriam: era santa, era santa, era santa!
*-*-*-*-*
Foi assim que João veio a saber da relação romantizada do dia a dia pobre daquela vida, que devia ter sido salva pelos seus braços musculosos.
Ele tinha acompanhado de pressentimentos inertes o demorado martírio.
E por que não interviera antes, não gritara à polícia, aos que passavam, à vigilante inquisição terrena? Por que?
Entanto, Mauro aparecia, naquele romance, santificado. Nem uma queixa raivosa contra ele, nem uma dor magoada contra os seus processos terrificantes, nem um insulto.
Uma vez, exigiu que ela dissesse mal dele.
E Alma recusou-se, estagnada, no jardim.
Ele partiu, gesticulante, pelas ruas do bairro. Passou, de novo, meia hora depois. Ela havia ficado sentada aos degraus da entrada, pensando. Quando percebeu a silhueta longa, sob o chapéu-de-palha, correu nos tacões, gritou. Ele veio. Ela estava disposta a dizer todo o mal insincero de Mauro, para que a salvassem da final cólera do velho… Mas o passeio, o ar da noite, o tropel das reflexões e o amor o tinham dissuadido suavemente. Ele não pediu mais nada. Ficaram até tarde amorosamente se perdoando.
*-*-*-*-*
Alma tomou nas duas mãos, que tinha grudadas às grades, a resolução sobre-humana de explicar-lhe tudo. E ele não compreendia, embevecido no idílio em que se lhe apodrecia beneficamente a vida.
Como ela lhe tivesse telefonado para o emprego, interpelou-a chegando. Alma sorria numa malícia visível e triste.
Ele ficou supondo que se tratasse de uma reaparição intempestiva de Mauro, de um retorno amoroso ao velho par.
Mas, súbito, a um gesto largado e proposital dela, percebeu o ventre saltar, como uma cobra que morde, na roda frouxa do vestido. Uma suspeita enlouqueceu-o. Seria possível… ele andava tão longe!
Interrogou-a empalidecido como um morto que falasse. Ela permaneceu linda e quieta, de cílios baixados.
*-*-*-*-*
Era verdade! Alma estava grávida, agora que o amava, que era o seu futuro, quase que a sua noiva redimida! Estava grávida de outro.
Tão visível fora a expressão de horror na máscara do moço namorado, que Alma, de alvas escancaradas, falou num salvador instinto:
– Sei que sou indigna do teu amor. Sou uma infame.
Ele partira sem dizer nada. Fora andando. Ela ficara presa ao portão, numa resignada e trêmula angústia. Sorria da sua negra sorte invencida.
*-*-*-*-*
Ele caminhava sobre as ruínas do seu sonho desfeito. Todos os seus gestos eram desencontrados e pediam piedade para o alto. Oh! a idéia fixa de jogar um dramalhão definitivo – matá-la e matar-se, encher de sangue os jornais!
Recapitulou tudo pela noite aasvérica. Deitou-se às três horas raciocinando sempre, de olhos enormes. Chegara à porta infernal de um dilema: o amor perdoa tudo, resgata tudo – ele não podia perdoar.
E caiu ao leito antigo e duro, até o sol vir a espancar o pesadelo da terra.
*-*-*-*-*
Dagoberto Lessa fechara com ele a camaradagem diária.
Andavam ao léu pela cidade, ou paravam no escuro ambiente das cervejarias do centro.
Uma noite, João do Carmo penetrou, sob a capa de borracha inundada de chuva, na casa que o outro habitava, com a família numerosa, 46 Rua Monsenhor Anacleto.
Resolvera contar-lhe tudo, pedir-lhe conselho, direção, auxílio, salvamento.
Num pijama de listras, o calvo ria-se muito de o ver assim, naquela primeira visita, vindo nervosamente a pé, sob o aguaceiro que lavava as ruas.
João atirou a capa encharcada ao chão. Sentou-se e desabafou.
Do quarto vizinho, a liturgia da casa vinha num vago trá-lá-lá de adormecer.
O apaixonado, falou, falou, até despejar a alma intumescida de segredo. E perguntava repetidamente, de olhos fixos, se ainda devia crer na honestidade dela.
O outro distraíra-se, pensando. De repente, abriu uma canta que se dissimulava entre livros e tirando um caderno branco:
– Vou corresponder à tua confiança.
Tinha um aspecto de revelação. Numa cautela, abriu um maço de páginas escritas, acendeu um cigarro:
– É uma coroa de lembranças tecidas no aniversário de um primeiro beijo…
E, de olhos medrosos para a porta interior, leu soturnamente, evocando uma luta, uma resistência, uma cabeleira virginal e um vestido branco.
*-*-*-*-*
Não queria ir. Mas cedeu.
Foram passar juntos o dia 13 de Maio, em Santos. Dagoberto recitou versos, depois do almoço, na praia de sol.
*-*-*-*-*
O comboio saiu lentamente da penumbra da gare. João do Carmo fechou a vidraça e atirou-se ao lado do companheiro no sofá do carro.
Deixavam Santos pela extensa chapa de vegetação rasteira, que a circunda. Passaram o pântano tropical e a ponte de ferro sobre a água cor-de-aço. E o trem abalou em demanda da serra, que se calafetava de neblina no fim da tarde de outono.
João tocava, no fundo de um bolso, o lencinho rendado de Alma, em que, na véspera, ela pusera o grande beijo mudo da despedida. E apertava-o na mão segurando nele a dádiva inteira do ser estremecido.
Tinha regressado ao portão e sentira que uma espécie de compromisso oculto, de trevoso noivado, desafiara e vencera o enxovalhamento máximo. Agora, tudo predizia a aliança imortal dos dois desgraçados destinos.
*-*-*-*-*
Sim, ele podia crer no amor definitivo de Alma. Ela tivera duas lágrimas silentes ao vê-lo voltar. E na véspera, naquele ermo da rua, ao contar que ia a Santos, a sua angústia nervosa crescera de ver os belos olhos verdes e magoados dizerem a tristeza indizível das separações.
O trem parou em Piassaguera. E, mais lento manobrou para apanhar a engrenagem da rude escalada. Na noite que baixava, envolvendo a natureza, olhos claros de locomotiva focavam trechos de chão, sob os limpa-trilhos negros, de onde saíam até perder-se no escuro as fitas afiadas dos rails. E, de longe em longe, sucediam-se as luzes baças dos sinais.
Um barulho rascante de rodas começou, ao mesmo tempo que o trem era levantado molemente na primeira ladeira da serra.
Alma contara-lhe apreensiva que tinha notado uma acentuação de mau humor no velho. Que iria suceder? Era impossível casarem-se logo. João afastava essa ideia para um futuro longínquo, como as grandes redenções dos últimos atos. E o avô? Havia de saber mesmo a verdade inteira. Mas a possibilidade de precipitar-se a catástrofe de uma expulsão era visível.
As rodas cantavam, levando o trem montanha acima. Às vezes, havia uma imprevista parada na noite avassalante. E ficavam ali os passageiros, sentindo subitamente morta a gigantesca engrenagem. Mas um outro troço de vagões iluminados passava no sentido contrário. E recomeçava a lenta viagem.
Alma amava-o, sim. A notícia da separação ligeira de um dia tivera como ilustração deliciosa a reconciliação truncada pelo sentimento do abandono. Agora, quando chegasse, ainda passaria por lá.
De novo o trem parou ao lado de uma usina caída sob a linha. O fôlego robusto de um respiradouro soprou, fazendo montar na treva golfadas brancas de fumaça. E, de novo, o comboio moveu-se.
Passaram a noite dupla dos túneis. E as primeiras luzes do Alto da Serra anunciaram-se com a mudança favorável de nível. Passageiros levantavam-se, falando em jantar. Ao lado de João, Dagoberto olhava-o, dizendo:
Que silêncio!
*-*-*-*-*
Um asco voltava no entanto, fundo, avassalador, horrível. João queria ainda repeli-la, desresponsabilizar-se daquilo tudo, fugir. Mas ao vê-la nas noites prolongadas do portão, chorosa e entregue, o seu triste coração centuplicava-lhe os perdidos gestos.
*-*-*-*-*
O avô mudara lentamente, num prenúncio de crise tétrica.
Esperava a entrada das estações num incontido nervoso.
A Companhia de Desenvolvimento anunciou-lhe, numa bela carta escrita a máquina, que não reformaria a hipoteca vencida. O cãozinho peludo quase perdera a vista.
Passou a fumar decuplicadamente, em silêncio. Se fosse possível embriagar-se ou então morrer, acabar! Pensou uma noite em atirar-se da Ponte Grande. A neta, havia de ir buscar o seu velho cadáver, encalhado numa margem do Tietê… E os jornais falariam bem dela.
*-*-*-*-*
Mauro, depois de uma escandalosa briga de cabaré, fora denunciado à polícia.
E João do Carmo ansiava pelo desenlace esperado do drama lancinante de seu sonho.
Uma noite, Alma evocou-o numa suave lembrança. Então, num despeito, João mentiu que ele fora preso.
Ela teve um repentino espanto. Depois, deixou as grades e um choro rebentou-lhe pelos olhos, pela boca, pelo nariz. Buscou um lenço nervosamente na abertura clara dos seios. E ficou soluçando baixo entre os canteiros.
João estacara numa surpresa desolada e muda. Conversaram ainda, quase hostis, numa ternura que soava falso e vazio.
E o telegrafista foi visitar de novo os cem caminhos doloridos da cidade.
*-*-*-*-*
O velho ficou à espera da neta, no paletó remendado, até dez e meia daquela noite, sem se deitar.
Pressentia lá fora o idílio. Não iria desmanchá-lo, recordando um insulto, que levara no rosto, do outro: o maldito, o casado, o aranha vermelha.
Aquela casa que ainda palpitava das recordações da esposa santificada pela morte, aquela casa fora o teatro da sua revoltante desonra. Alma era indigna do seu obstinado amor. Antes a tivesse abandonado à gula ricaça de Antero d’Alvelos.
A porta da entrada rangeu. Alma penetrara num vento sutil. Percebeu, surpreendida, que estavam acesas as luzes. Ouvira um arrastar precipitado de chinelas. Estagnara geladamente na passadeira do corredor. O espectro doméstico apareceu. Chamou-a sem voz. A cabeça tremia-lhe incontidamente. Apertava um cigarro apagado na mão.
Alma tinha os olhos redondos, a boca imóvel. Uma inexprimível tortura sufocava-a, no vestido humilde e antigo.
O velho descobrira decerto tudo. E ia falar-lhe, dizer-lhe o crime horrendo, o crime de ter um filhinho. Porque o seu passado torpe desaparecera: a prostituição, o aborto, a vida canalha entre braços desconhecidos que pagavam. O crime era ser solteira e deixar viver no seu âmago a centelha humana, e defendê-la, e amá-la.
– Vá para a rua! Procure caminho! Esta casa é minha, sempre foi minha. Faça a sua mala e desapareça! A casa é minha!
Então, do peito que se oprimira espedaçado, saltou a inocência de tanta miséria. Ela era uma coitada que ninguém soubera defender. O que lhe acontecera era o resultado do seu desamparo. As filhas que não têm mãe nem pai são assim mesmo.
O velho quis discutir, gritar. Mas como ela continuasse, ficou escutando: Baixou a cabeça ante a eloquência imprevista que pulava aos golfões da boca trêmula e rubra. Terminara.
Houve um silêncio. E ela disse ainda que não sabia, porque não tinha dinheiro e não tinha onde dormir.
Do ser convulso as lágrimas saltaram naquela confissão de desgraça. O velho desnorteara-se choroso. Talvez devesse perdoar. Ficou andando para cá e para lá, envenenando-se de fumo e de lágrimas grossas, enquanto ela foi sentidamente se deitar.
(Continua na próxima semana.)

O Movimento Modernista, visto por Mário em 1942

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O Movimento Modernista, visto por Mário em 1942

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Com linguagem provocadora, autor recorda escândalo da Semana de 22 e vulcão que o levou a arrancar do peito “Pauliceia Desvairada”
Por Mário de Andrade
Em fevereiro de 1942, para comemorar o 20º aniversário da Semana da Arte Moderna, Mário de Andrade publicou, em “O Estado de S. Paulo”, quatro artigos em que realiza um balanço do movimento.
Na série Oswald60, o texto será apresentando em dois momentos: agora e na próxima semana.
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O texto é uma verdadeira expressão antológica do movimento modernista e surpreende pelo grau de maturidade do autor para analisá-lo em perspectiva. (Theotonio de Paiva, editor de “Oswald 60”)

Capítulo 1
É todo um passado longínquo de que sorrio sem medo, mas que me assombra um pouco também. Foi gostoso, ficou bonito, mas como tive coragem para participar daquilo! É certo que com minhas experiências artísticas muito venho escandalizando essa minoria que é a intelectualidade do meu país, mas, na realidade, feitas em artigos e livros, minhas experiências como que não se executam in anima nobile. Não estou de corpo presente e isso desencaminha o choque da estupidez.
Mas como tive coragem para dizer versos ante uma assuada tão singular, que eu não escutava do palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas?… Como pude fazer uma hórrida conferência na escadaria do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?…
O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança, absolutamente firme que tinha na estética renovadora, eu não teria forças para arrostar aquela tempestade de achincalhes. E se aguentei o tranco foi porque estava delirando. O entusiasmo dos outros me embebedava, não o meu. Por mim teria cedido. Digo que teria cedido, mas apenas nessa parte espetacular do movimento modernista. Com ou sem a Semana, minha vida intelectual seria o que tem sido.
A Semana marca uma data, isso é inegável. É uma data que envaidece recordar. 1
Mas o certo é que a preconsciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se definindo no… sentimento de um grupinho de intelectuais, aqui. Do primeiro, foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um… estado de poesia. Com efeito: educados na plástica “histórica”, sabendo quando muito da existência dos primeiros impressionistas, ignorando Cézanne, o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, em plena guerra europeia, mostrando quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram para mim a revelação. E delirávamos diante do Homem Amarelo, a Estudanta Russa, a Mulher dos Cabelos Verdes. E ao Homem Amarelo eu dedicava um soneto parnasianíssimo… Éramos assim.
Pouco depois, Menotti del Picchia e Osvaldo de Andrade, descobriram Brecheret no seu exílio do Palácio das Indústrias. E fazíamos verdadeiras “rêveries” simbolistizantes em frente da simbólica exasperada e das estilizações decorativas do “gênio”. Porque Brecheret era para nós no mínimo um gênio. Este era o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia. E Brecheret ia ser em breve o gatilho que faria Paulicéia Desvairada estourar.
Eu passara esse ano de 1920 sem fazer mais poesia. Tinha cadernos e cadernos de cousas parnasianas e algumas simbolistas, mas tudo acabara por me desagradar. Na minha cultura desarvorada, já conhecia até Marinetti, mas repudiava a maioria dos princípios futuristas, como já escrevera no Jornal dos Debates, de Pinheiro da Cunha. Só então é que descobri Verhaeren, desculpem, e foi o deslumbramento. Concebi fazer um livro de poesias modernas em verso livre, sobre a minha cidade. Tentei, não veio nada que me interessasse. Tentei mais e nada. Os meses passavam numa angústia, numa insuficiência feroz. Será que a poesia tinha se acabado em mim?… E eu me acordava insofrido.
A isso se ajuntavam dificuldades morais e vitais de toda espécie, foi ano de sofrimento muito. Já ganhava para viver folgado, mas o ganho fugia em livros e eu me estrepava em arranjos financeiros temíveis. Estava criando fama de professor bom e fazia esforços para que meus alunos de Conservatório passassem com notas altas. Em casa o clima era torvo. Se mãe e irmãos não me amolavam com as minhas “loucuras”, o resto da família me retalhava sem piedade. Tinha discussões brutas em que os desaforos mútuos não raro chegavam àquele ponto de arrebentação que… por que será que a arte os provoca!… A briga era brava e, se não me abatia nada, me deixava em ódio, mesmo ódio.
Foi quando Brecheret me concedeu passar em bronze um gesto dele que eu adorava, uma cabeça de Cristo. Mas “com que roupa”? eu devia os olhos da cara! Não hesitei, fiz mais conchavos financeiros e afinal pude desembrulhar em casa a minha Cabeça de Cristo. A notícia correu num átimo, e a parentada que morava pegado, invadiu a casa para ver. E brigar. Aquilo até era pecado mortal, onde se viu Cristo de trancinha! era feio, medonho!
Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era matar. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraçalho. Depois subi para o quarto, era noitinha, na intenção de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo, nem sei. Sei que cheguei à sacada, olhando sem ver o meu Largo do Paissandu. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Estava aparentemente calmo. Não sei o que me deu…
Cheguei na secretaria, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, Paulicéia Desvairada. O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angústias interrogativas. Entre exames, desgostos, dívidas, brigas, em poucos dias estava jogado no papel um discurso bárbaro, duas vezes maior talvez do que isso que o trabalho de arte fez um livro.
Mais tarde, eu sistematizaria este processo de separação nítida entre o estado de poesia e o estado de arte, para a composição dos meus poemas “dirigidos”, as lendas, por exemplo, o abrasileiramento linguístico de combate. Escolhido o tema, por meio das excitações psicológicas sabidas, preparar o advento do estado de poesia. Se este chega (quantas vezes não chegou…) escrever sem coação de espécie alguma, tudo o que me chega até a mão – a “sinceridade” do indivíduo. E só em seguida, na calma, o trabalho penoso e lento da arte – a “sinceridade” da obra de arte, coletiva e funcional, mil vezes mais importante que eu…
Quem teve a ideia da Semana? Por mim não sei quem foi, só posso garantir que não fui eu. O mais importante era decidir e poder realizar a ideia. E o autor verdadeiro da Semana de Arte Moderna foi Paulo Prado. E só mesmo uma figura como ele e uma cidade como São Paulo, poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na Semana.
Houve tempo em que alguns escritores do Rio cuidaram de transplantar para a Capital as raízes do movimento, estribados nas manifestações simbolistas e post-simbolistas, que existiam por lá. Existiam é inegável. Aqui, esse ambiente só fermentava em Guilherme de Almeida, e num Di Cavalcanti pastelista, “menestrel dos tons velados”, como o apelidei numa dedicatória esdrúxula. Mas eu creio ser um engano esse evolucionismo a todo transe, que lembra nomes de Nestor Vítor ou Adelino Magalhães, como elos ou precursores.
Seria mais lógico evocar Manuel Bandeira com o Carnaval. Não. O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. É mais possível imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra. E as modas que revestiram este espírito foram diretamente importadas da Europa. Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil primeira fase, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato, a arquitetura e até urbanismo (Dubugras) neocolonial aqui nascidos. Isso sim eram raízes engrossadas desde o início da guerra. Mas o espírito e as modas foram diretamente importados da Europa.
Ora São Paulo estava muito mais “ao par” que o Rio de Janeiro. E, socialmente falando, o modernismo só podia ser importado por São Paulo e arrebentar aqui. Havia uma diferença profunda, já agora pouco sensível, entre Rio e São Paulo. O Rio era muito mais internacional, como norma de vida exterior. Está claro: capital do país, porto de mar, o Rio tem um internacionalismo ingênito. São Paulo era muito mais “moderna” porém, fruto necessário da economia do café e do industrialismo consequente.
Ingenitamente provinciana, conservando até agora um espírito provinciano servil, bem denunciado na política. São Paulo ao mesmo tempo estava, pela sua atualidade comercial e sua industrialização, em contato, se menos social, mais espiritual (não falo “cultural”) e técnico com a atualidade do mundo.
É mesmo de assombrar como o Rio mantém, dentro da sua malícia de cidade internacional, um ruralismo, um caráter tradicional muito maiores que São Paulo. O Rio é dessas cidades em que não só permanece indissolúvel o “exotismo” nacional (o que é prova de vitalidade do seu caráter), mas a interpenetração entre o rural e o urbano. Cousa impossível de achar em São Paulo, como funcionalidade permanente. Como Belém, o Recife, a Cidade do Salvador, apesar do seu urbanismo rescendente, o Rio ainda é uma cidade… folclórica.
Em São Paulo o exotismo folclórico não frequenta a Rua Quinze. Vive em núcleos mortos, não funcionais, abastardados na separação, Santa Isabel. Carapicuíba. Ora no Rio malicioso, uma exposição com a de Anita Malfatti, podia ter reações publicitárias, mas ninguém se deixava levar. Na São Paulo sem malícia, criou uma religião. Com seus Neros também… O artigo “contra” de Monteiro Lobato, embora fosse apenas uma baladilha zangadinha, sacudiu uma população, modificou uma vida.
Junto disso, o movimento renovador era nitidamente aristocrático. Pelo seu caráter de jogo arriscado, pelo seu espírito aventureiro, pelo seu internacionalismo modernista, pelo seu nacionalismo embrabecido, pela gratuidade antipopular, era uma aristocracia do espírito. Era natural que a alta e a pequena burguesia o temessem. Paulo Prado, ao mesmo tempo que um dos expoentes da aristocracia intelectual paulista, era uma das figuras principais da nossa aristocracia tradicional. E foi por tudo isto que ele pôde medir bem o que havia de aventureiro, de exercício do perigo no movimento, e arriscar a sua responsabilidade intelectual e tradicional na aventura.
Uma cousa dessas seria impossível no Rio, onde não existe aristocracia tradicional, mas apenas sita burguesia riquíssima. E esta não podia encampar um movimento que lhe destruía o espírito conservador e conformista. A burguesia nunca soube perder e isso é que a perde. E aqui foi isso mesmo. Se Paulo Prado, com a sua autoridade intelectual e tradicional, abriu a lista das contribuições e arrastou atrás de si os seus pares e… alguns outros que a sua figura dominava, a burguesia protestou e vaiou. Tanto a burguesia de classe como a do espírito.
É delicioso lembrar que Amadeu Amaral, um dos espíritos mais aristocráticos que São Paulo já produziu, embora retraído pelo muito que o maltratavam alguns de nós, nos via compreensivamente. A ele eu devo o Estado de S. Paulo não ter estraçalhado Paulicéia. Saiu-se de suas ocupações e escreveu ele mesmo a nota sobre o livro, severa mas reconhecendo o direito da experiência.
Em compensação a burguesia semiculta (a aristocracia era inculta: e já irresponsável na sua decadência de então), essa espécie de intelectualidade réptil que abastece as cidades e acaba onde as cidades acabam, com que violência de fulgir e se defender, arremeteu contra nós! Hoje, é irônico evocar os nomes que brilharam lunarmente, iluminados pelo brilho próprio de um estado de espírito coletivo. Tanto os contra como os favoráveis. Destes, os que não desapareceram na poeira de outros caminhos, tornaram-se figuras visíveis da inteligência nacional. Dos contrários, os que tinham valor acabaram aceitando, e muitos aderindo ao movimento renovador. Os outros continuaram pura inteligência de abastecimento urbano. O nome deles acaba onde a cidade acaba.

Capítulo 2
Na verdade, o período “heroico” do movimento que traria tão maior necessidade coletiva às artes nacionais, foi esse iniciado com a exposição expressionista de Anita Malfatti e acabado com a “festa” da Semana de Arte Moderna. Durante essa meia dúzia de anos fomos realmente puros e livres, desinteressados, vivendo numa união iluminada e sentimental das mais sublimes. Isolados do mundo, caçoados, achincalhados, malditos, ninguém pode imaginar o delírio de grandeza e convencimento pessoal com que reagimos. O estado de exaltação gozado em que vivíamos era insopitável. Qualquer página de qualquer um de nós jogava os outros a acomodações prodigiosas, mas aquilo era genial!
E eram aquelas fugas desabaladas dentro da noite, na cadillac verde de Osvaldo de Andrade, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas… E os nossos encontros à tardinha na redação de Papel e Tinta… E a falange engrossando com Sérgio Milliet e Rubens Borba de Morais, chegados da Europa… E a adesão, no Rio, de um Manuel Bandeira… E as convulsões de idealismo a que nos levava o Homem e a Morte de Menotti del Picchia… E o descobrimento assombrado de que existiam em São Paulo, quadros de Lasar Segall, já muito querido através de revistas de arte alemãs… E Di Cavalcanti, um dos homens mais inteligentes que conheci, com os seus desenhos já então duma acidez destruidora. Tudo gênios, tudo obras-primas geniais… Apenas Sérgio Milliet punha um certo mal-estar no incêndio com a sua serenidade equilibrada… E o filósofo do grupo, Couto de Barros, pingando ilhas de consciência em nós, quando no meio da discussão, perguntava mansinho: – Mas qual é o critério que você tem da palavra “essencial”, ou – ‘Mas qual é o conceito que você faz do “belo horrível”…
Éramos uns puros. Mesmo cercados de repulsa cotidiana, a saúde mental de quase todos nós nos impedia qualquer cultivo da dor. Nisso talvez as teorias futuristas tivessem uma influência única e benéfica sobre nós. Ninguém pensava em sacrifício, nenhum se imaginava mártir: éramos uma arrancada de heróis convencidos, uns hitlerzinhos agradáveis. E muito saudáveis. Quanto a mim, mais intuída que emocionada, a consciência de culpa que depois perseguira bastante minha obra poética, apenas se entremostrara pela primeira vez nos versos finais de “Minha Loucura”, em Paulicéia Desvairada.
Era estranho… Aquela última frase me desagradava, eu não gostava daquilo.
Mas não tinha a menor possibilidade de renegar o que escrevera!
A Semana de Arte Moderna, ao mesmo tempo que coroamento lógico dessa arrancada gloriosamente vivida (éramos “gloriosos” de antemão…), era um primeiro golpe de pureza do nosso aristocratismo espiritual. Consagrado o movimento pela aristocracia paulista, e ainda sofreríamos por algum tempo ataques por vezes cruéis, a grandeza regional nos dava mão forte e… nos dissolvia nas impurezas da vida. Ao exemplo da vida principiavam as “intenções”, os cotejos idiotas, as enfraquecedoras revisões de valores.
Está claro que a aristocracia protetora não agia de caso pensado, e se nos dissolvia, era pela própria natureza do seu destino e do seu estado regional. Principiou o movimento dos “salões”. E vivemos uns seis anos na maior orgia intelectual que a história artística do País registra. Está claro que, na intriga burguesa, a nossa “orgia” não era apenas espiritual… O que não disseram, o que não se contou das nossas festas…
Champanha com éter, vícios inventadíssimos, as almofadas viravam “coxins”, toda uma semântica do maldizer… No entanto, quando não foram bailes públicos, como o do Automóvel Clube e os da S.P.A.M. (que foram o que são bailes desenvoltos de sociedade), as nossas festinhas nos salões modernistas eram as mais inocentes brincadeiras de artistas que se pode imaginar.
Havia a reunião das terças, à noite, na Rua Lopes Chaves. Primeira sem data, essa reunião semanal continha exclusivamente artistas, e precedeu mesmo a Semana de Arte Moderna. Sob o ponto de vista intelectual foi o mais necessário dos salões, se é que se podia chamar salão aquilo. Às vezes doze, até quinze artistas se reuniam no estúdio acanhado, onde comíamos doces tradicionais brasileiros e se bebia um alcoolzinho econômico. As discussões chegavam a transes agudos, o calor era tamanho que um ou outro sentava nas janelas (não havia assento para todos!), e assim mais elevado dominava pela altura, já não dominava pela voz nem o argumento. E aquele raro retardatário da rua ainda não calçada, parava em frente, na esperança de algum incêndio por gozar.
Havia o salão da Avenida Higienópolis, que era o mais selecionado. Tinha por pretexto o almoço dominical, maravilha de comida luso-brasileira de tradição. Ainda aí, se a conversação era estritamente intelectual variava mais e se alargava. Paulo Prado, com o seu pessimismo fecundo e o seu realismo, convertia sempre o assunto das livres elucubrações estéticas aos problemas práticos da realidade brasileira. Foi o salão que durou mais tempo e se dissolveu de maneira bem malestarenta. O seu chefe, tornando-se por sucessão, o patriarca da sua família, a casa foi invadida mesmo aos domingos, por um público da alta que não podia compartilhar do rojão dos nossos assuntos. E a conversa se manchava de pôquer, nomes sociais, dinheiro. Os intelectuais vencidos foram se retirando aos poucos. É o salão que me deixou mais saudades felizes.
E houve o salão da Rua Duque de Caxias, que foi o maior, o mais verdadeiramente salão. As reuniões semanais eram à tarde, também às terças-feiras. E isso foi uma das causas das reuniões noturnas do mesmo dia irem esmorecendo na Rua Lopes Chaves. A sociedade da Rua Duque de Caxias era a mais numerosa e mais variegada também. Só em certas festas especiais, no salão moderno decorado por Lasar Segall, o grupo se tornava mais coeso.
Também aí o culto da tradição era firme, dentro do maior modernismo. A cozinha, de cunho afro-brasileiro, aparecia em almoços e jantares perfeitíssimos de equilíbrio. E conto entre as minhas maiores venturas admirar essa mulher excepcional que foi dona Olivia Guedes Penteado. A sua discrição, o tato e a autoridade prodigiosos com que ela soube dirigir, manter, corrigir essa multidão heterogênea que se chegava a ela, atraída pela sua figura e prestígio, artistas, políticos, ricaços, cabotinos, foi incomparável. O salão da Rua Duque de Caxias teve como elemento principal de dissolução a efervescência política que estava preparando 1930. A fundação do Partido Democrático, o ânimo politico eruptivo que se apoderara de muitos artistas, baixara um mal-estar sobre o salão. Os democráticos foram se afastando. Por outro lado o fachismo (fascismo – nota do editor) nacional encontrava algumas simpatias entre as pessoas de roda, e ainda estava muito sem vício, muito desinteressado para aceitar acomodações. E sem nenhuma publicidade, mas com firmeza, dona Olivia soube terminar aos poucos o seu salão modernista.
O último em data dos salões foi o da Alameda Barão de Piracicaba, congregado em torno de Tarsila. Não tinha dia fixo, mas as reuniões eram quase semanais. Durou pouco. E não teve jamais o encanto das reuniões que fazíamos, quatro ou cinco artistas, no antigo ateliê da admirável pintora.
Isto foi pouco depois da Semana, quando esta, definitivando na compreensão conformista a existência de um espírito de revolução, principiou nos castigando com a perda de alguns empregos. Eu teria ficado literalmente no desvio, se o acaso da morte de meu pai em 1921, não fizesse com que o Conservatório, consagrando a memória do pai, elegesse catedrático o filho, um ou dois meses antes do fevereiro da Semana! O cargo era vitalício e não o perdi. Mas perdi todos os meus alunos particulares, menos alguém que ficou por motivos de nenhuma pedagogia. Belazarte contou um caso bastante parecido em Menina de Olho no Fundo. Mas dos três salões aristocráticos, Tarsila conseguiu dar ao dela uma significação de maior independência, maior comodidade. Nos outros dois, por maior que fosse o liberalismo dos que os dirigiam, havia tal imponência de nobreza e tradição no ambiente, que não nos era possível nunca evitar um tal ou qual constrangimento. No de Tarsila jamais sentimos isso. Foi o mais “gostoso” dos nossos salões aristocráticos.
Embora lançando inúmeros processos e ideias novas, nós éramos, então, especialmente destruidores. Até destruidores de nós mesmos, porque o pragmatismo das pesquisas sempre enfraqueceu a liberdade da criação. A aristocracia tradicional nos deu mão forte, pondo em evidência mais essa geminação de destino – também ela já então autofagicamente destruidora, por não ter mais uma significação verdadeiramente funcional. Quanto à aristocracia do dinheiro, sempre nos olhou com confiança e nos detestava.
Nenhum salão de novo-rico tivemos, nenhum milionário estrangeiro nos acolheu. Os italianos, alemães, os israelitas se faziam demais guardadores do “bom-senso” nacional, que Prados e Penteados e Amarais!…
Mas nós
estávamos longe,
arrebatados pelos
ventos autofágicos
da destruição.
E o fazíamos pela festa, de que a Semana de Arte Moderna foi a primeira. A bem dizer, todo esse período destruidor do movimento modernista foi uma fase ininterrupta de festa, de cultivo do prazer. E se tamanha festança diminuiu por certo muito nossa capacidade de produção e serenidade criadora, ninguém pode imaginar como nos divertimos. Salões, festivais, bailes, Spam, semana em fazendas, Semanas Santas nas cidades velhas de Minas, viagens pelo Amazonas, pelo Nordeste, chegadas à Bahia, Itu, Sorocaba. Parnaíba. Era, ainda e sempre, o caso do baile sobre os vulcões… Doutrinários na ebriez de mil e uma teorias salvando o Brasil, construindo o mundo, na verdade nos consumíamos no cultivo amargo de uma necessidade quase delirante de prazer.
O movimento de Inteligência que representamos, em sua fase “modernista” não foi o gerador das mudanças político-sociais posteriores a ele no Brasil. Foi essencialmente um preparador, o criador de um estado de espírito revolucionário. E se numerosos dos intelectuais do movimento se dissolveram na política, se vários de nós participamos das reuniões iniciais do Partido Democrático, carece não esquecer que tanto o P. D. como 1930 eram ainda destruição. Os movimentos espirituais precedem sobre as mudanças de ordem social. O movimento social de destruição é que se iniciou com o P. D. e 1930. E, no entanto, é por esta data que principia para a Inteligência brasileira uma fase mais calma, mais proletária por assim dizer, de construção, à espera que um dia as outras formas sociais a imitem.
E foi a vez do salão de Tarsila se acabar, 1930… Tudo estourava, políticas, famílias, casais de artistas, estéticas, amizades profundas. O período destrutivo e festeiro do movimento modernista já não tinha mais razão de ser. Na rua o povo amotinado gritava: Getúlio! Getúlio!… Na sombra de Plínio Salgado pintava de verde a sua megalomania de Esperado.
Outros abriam as veias para manchar de rubro as suas quatro paredes de segredo. Mas nesse vulcão, agora ativo e de tantas esperanças, já vinham se fortificando as belas figuras mais calmas e construidoras, os Lins do Rego, os Augusto Frederico Schmidt, os Otávio de Faria, e os Portinari e os Camargos Guarnieri. Que a vida terá que imitar qualquer dia.
(Continua na próxima semana.)

Grupo da USP levanta volume de dados inédito sobre o Pantanal

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Imagem do Pantanal processada por computador integra pesquisa realizada no Instituto de Geociências que busca definir subdivisões internas para o bioma (IGc/USP)
Especiais

Grupo da USP levanta volume de dados inédito sobre o Pantanal

05/06/2014
Por Fabio Reynol
Agência FAPESP – A maior planície alagável do mundo é um dos mais complexos biomas para se delimitar fronteiras e definir suas subdivisões internas. Levantar dados e estabelecer critérios para esse mapeamento foram alguns dos desafios de um trabalho de pesquisa liderado pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc/USP) que se debruçou sobre os quase 200 mil quilômetros quadrados do Pantanal Mato-grossense.
O projeto “Subdivisão do Pantanal em áreas geológica e ambientalmente homólogas”, apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, coletou informações referentes ao período de 2001 a 2012 por meio de novas metodologias e tecnologias, gerando um imenso volume de informações sobre o bioma jamais reunido até então.
“Como é possível fazer um plano de manejo sem saber como cada área funciona? É muito importante conhecer os múltiplos pantanais que formam a região”, disse Teodoro Isnard Ribeiro de Almeida, professor do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do IGc/USP e coordenador do projeto de pesquisa.
De acordo com Almeida, imagina-se comumente o Pantanal como uma planície de charcos. Embora seja de fato uma planície, trata-se de uma região de grande variabilidade ambiental e com amplas porções que sofrem ano a ano secas intensas. O cenário heterogêneo, complexo e dinâmico foi o alvo do trabalho que procurou elementos para embasar um ordenamento das inúmeras fácies do Pantanal.
“Nossa proposta considerou tanto a vegetação quanto o meio físico para fazer essa classificação, além de apresentar uma descrição metodológica ampla e passível de ser reproduzida, que é uma premissa básica em ciência”, disse Almeida.
A pluviosidade da região varia entre 800 e 1.600 milímetros por ano e são as águas que caem nas terras mais elevadas a norte e a leste as principais responsáveis pela modificação da paisagem ao longo do ano e pelas enchentes.
Há áreas com índices de chuva quase tão baixos quanto os da Caatinga, como no oeste do Pantanal, perto de Corumbá (MS). Já em outras regiões pantaneiras, como ao norte da cidade de Aquidauana (MS), há milhares de lagoas de água doce vizinhas a lagos de água salobra. Entre Corumbá (MS) e Cáceres (MT), há lagos e charcos contínuos por mais de 150 km, em terrenos praticamente sem ocupação humana.
Pesquisadores estabelecem variadas divisões para o bioma, que vão de seis a 25 sub-regiões, o que torna difícil até a utilização de uma referência para trabalhos científicos. “Muitas vezes não dá para saber qual a subdivisão utilizada por um pesquisador”, comenta a bióloga Natasha Costa Penatti, que desenvolve seu doutorado no âmbito do projeto.
Penatti explica que é comum recorrer a diferentes mapas de solos, bacias hidrográficas, geologia, entre outros, e sobrepô-los tentando encontrar características comuns de certas regiões – o que dá margem a muita subjetividade na hora de estabelecer os limites de cada divisão. “Queremos estabelecer critérios mais objetivos para agrupar essas áreas”, disse.
A organização das informações está em andamento. Parte do trabalho será feita por programas computacionais que processam grande volume de dados, da categoria Self Organizing Maps(mapas auto-organizáveis), com o auxílio de um software oriundo da Austrália.
O grupo apresentou resultados preliminares em simpósios internacionais e submeteu recentemente dois artigos para publicação. Outros dois estão em fase de redação. A tese de doutorado de Penatti, programada para ser defendida em novembro deste ano, trará a proposta de divisão do Pantanal baseada nessa pesquisa.
Acompanhando o ciclo das plantas
O grupo usou como critério principal de diferenciação de sub-regiões a chamada fenologia da superfície da Terra (Land Surface Phenology ou LSP).
A fenologia pode ser definida como o estudo do ciclo das plantas (germinação, emergência, crescimento e desenvolvimento vegetativo, florescimento, frutificação, formação das sementes e maturação) ou dos eventos periódicos da vida da planta em função da sua reação às condições do ambiente.
“Percebemos que a fenologia seria um bom parâmetro porque as plantas respondem basicamente a todos os elementos do ambiente que queríamos observar: o tipo de solo, o clima, o meio físico e muitos outros”, disse Penatti.
A LSP distingue-se do monitoramento in situ das fases de plantas específicas, como floração ou brotação, por se basear em observações em escala global e regional da fenologia. Dados de sensoriamento remoto da LSP servem como indicadores biológicos fundamentais para detectar a resposta dos ecossistemas terrestres à variação climática.
As métricas fenológicas registram os fenômenos periódicos das plantas, como período de crescimento, verdor e senescência da vegetação de uma determinada área. Por meio de imagens de satélites, acompanha-se o desenvolvimento da vegetação ao longo de um ano. Apesar de não coincidirem com os eventos fenológicos tradicionais, as métricas obtidas pela LSP dão indicação da dinâmica do ecossistema.
A equipe de Almeida utilizou tecnologias modernas de sensoriamento remoto, uma vez que os satélites atuais permitem coletas em períodos de tempo menor – diferença importante quando se trabalha com áreas dinâmicas.
Antes, até o fim dos anos 1990, o satélite Landsat, da agência espacial norte-americana Nasa, fornecia um panorama formado por imagens coletadas a cada 16 dias. A fim de cobrir todo o Pantanal com imagens sem nuvens eram necessários registros realizados ao longo de dois anos.
Hoje, o sensor MODIS, de dois satélites da Nasa, produz imagens diárias que, combinadas em séries de 16 dias, formam mosaicos (chamados composite images) com os melhores pixels (pontos) selecionados de cada imagem captada. Eles evitam, sobretudo, pontos encobertos por nuvens.
“Numa região dinâmica como o Pantanal, ao longo de um ano você obtém situações bem diferentes para um mesmo local, o que dificulta a montagem de mosaicos de imagens”, disse Penatti. A tecnologia anterior, explica ela, limitava o detalhamento dos resultados.
Para esse projeto, foram utilizadas 276 destas imagens compostas do MODIS, produzidas de 2001 a 2012. Foram 12 anos de observação, cada um com 23 composite images.
Após adquiridas, as composites foram tratadas com um software que, além de suavizar as imagens, gera gráficos que permitem extrair métricas fenológicas a partir das datas em que ocorrem as modificações sofridas pela vegetação ao longo do ano, como início e fim da estação de crescimento.
O programa ainda fornece a intensidade desse processo. São obtidas 11 diferentes métricas relativas ao desenvolvimento da vegetação. Os dados ainda são comparados a outros fatores como chuva, inundação, seca, tipo de vegetação, entre outros.
As informações sobre pluviosidade foram fornecidas pelo satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM); as variações no armazenamento total de água foram captadas pelo Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE); e a evapotranspiração mensal foi obtida pelo MODIS (produto MOD16A2). Os três satélites são da Nasa.
Outro parâmetro que compõe o estudo é a neotectônica – a observação e o estudo dos movimentos tectônicos atuais. O Pantanal é uma região tectonicamente ativa, com terremotos recentes de até 4 graus na escala Richter. A formação da região está relacionada à pressão da placa Sul-Americana, onde está o Brasil, contra a placa de Nazca, sob a cordilheira dos Andes. Foi o movimento entre essas duas placas tectônicas que fez a região baixar e formar o Pantanal, há cerca de 2,5 milhões de anos.
‘Uma caixa de areia gigantesca’
O trabalho também foi complementado por amostras de solos coletadas em duas campanhas de 15 dias cada em dois anos diferentes. Foram reunidas 218 amostras georreferenciadas coletadas em pontos de interesse mapeados por sensores remotos.
O material foi submetido a análises de granulometria e fertilidade. Essa atividade, durante a qual foram percorridos mais de 4 mil quilômetros, serviu ainda para checar o registro espectral das imagens de satélites e verificar a que tipo de granulometria elas correspondiam.
A granulometria, ou o tamanho dos grãos que compõem os solos, é um dos elementos-chave para entender a dinâmica da vegetação pantaneira, explica o professor. A enorme depressão que começou a se formar na região há cerca de 2,5 milhões de anos vem desde então sendo preenchida por sedimentos em grande parte arenosos.
Embora uma enorme porção do Pantanal seja inundada todos os anos, como em uma caixa de areia gigantesca, grande parte da região não consegue segurar água durante o longo período de estiagem, pois os sedimentos e os solos que a recobrem são porosos e permeáveis.
Há também regiões mais argilosas, que permanecem úmidas por mais tempo por ter solos pouco permeáveis. Ao mesmo tempo, outras áreas de solos arenosos permanecem úmidas após as inundações enquanto áreas vizinhas, de solos similares, secam completamente. Nesse caso, pequenas diferenças de relevo explicam o fenômeno, sendo que parte delas se deve a movimentos tectônicos recentes.
Boa parte do Pantanal é formada por oito depósitos de detritos arenosos que formam imensos cones chamados de megaleques fluviais. “Com 250 quilômetros de diâmetro, o megaleque do Rio Taquari, no Pantanal, é o maior do mundo”, disse Almeida.
Charcos, savanas, florestas e áreas imensas de predominância de uma única espécie vegetal são aspectos de uma paisagem multifacetada e contrastante. “Não há um Pantanal único, são diversos 'pantanais' com características próprias que podem ser delimitadas”, disse o professor da USP. 

500 millones de razones de por qué preocuparnos hoy por la salud del planeta

el país
http://internacional.elpais.com/internacional/2014/06/05/actualidad/1402004052_412049.html


500 millones de razones de por qué preocuparnos hoy por la salud del planeta

En el día mundial del Medio Ambiente, se hace un llamado a los gobiernos para que apliquen las leyes ya aprobadas contra el cambio climático


El glaciar de una montaña en Bolivia se ha derretido por completo / S.BACHENHEIME/BANCO MUNDIAL
Desde las playas de arenas blancas en México y el Caribe hasta la imponente Cordillera Blanca en los Andes peruanos, pasando por la exótica Amazonia, América Latina ha estado a la vanguardia en las últimas dos décadas en la conservación de la diversidad biológica.
Con el 20% de su territorio declarado áreas protegidas –frente al 13% promedio de otras partes del mundo- la región es considerada una “superpotencia” en materia de biodiversidad.
Pero lo que muchos damos por descontado está bajo una gran amenaza: el calentamiento global está causando graves distorsiones en el medio ambiente y sus efectos en el largo plazo son tanto imprevisibles como preocupantes.
Hoy, en el Día Mundial del Medio Ambiente, se está haciendo un llamado a todos los sectores de la sociedad –en especial los gobiernos- para que presten atención a un fenómeno que para la gran mayoría actualmente pasa desapercibido pero que puede definir el futuro de la humanidad: la subida paulatina del nivel del mar.
Si bien se calcula que en los últimos 200 años se ha registrado un aumento de 30 centímetros en las aguas costeras, se prevé que para finales de este siglo esa cifra se ubique entre medio metro y un metro. Si a esto le sumamos que para la misma fecha 1 de cada 2 personas en el planeta vivirá a menos de 100 kilómetros de las costas, lo que se avecina puede ser una catástrofe.
“La vulnerabilidad de las zonas costeras es un tema específicamente prioritario. El trabajo en zonas costeras es particularmente complejo ya que aparte de ser ecosistemas marinos y terrestres, son zonas industriales y de importación y exportación, a la misma vez que son habitadas por millones de personas”, afirmó Katharina Siegmann, experta en cambio climático del Banco Mundial en el chat América Latina tiene 500 millones de razones para cuidar el planeta realizado junto a El País América.
“Las costas también se ven afectadas por eventos climáticos extremos, resultando no solo en la pérdida de capital natural, pero sobre todo en pérdidas de infraestructura costera y a veces de vidas. Por ende, el cambio climático tiene un impacto muy fuerte en los riesgos para comunidades costeras y de infraestructura”, agregó la experta en respuesta a varias inquietudes de los participantes.
Aunque muchos de nosotros podemos decir hoy que no hay razones por las qué preocuparse por algo que podría pasar en 80 años, ya hay señales contundentes de que no es así. Podemos encontrar ejemplos en la devastación del huracán Katrina en 2005 en la costa sur de Estados Unidos y la constante erosión de zonas costeras en Panamá así como la inminente desaparición de pequeñas islas en el Pacífico como el archipiélago de Kiribati.
¿Pueden las leyes detener el cambio climático?
Inés Santaeulalia, panelista por El País América, comentó cómo las movilizaciones sociales están ayudando a frenar desarrollos turísticos en zonas protegidas en México y lanzó una pregunta muy pertinente al foro virtual: ¿Se podría decir que el compromiso social con el medio ambiente es más fuerte que el compromiso político?
Por ejemplo, en América Latina, en promedio, se asigna a las áreas protegidas apenas el 1% de los recursos del país destinados a medio ambiente, lo que equivale a una media de 1,18 dólares por hectárea. Esta cifra cubre solo el 54% de las necesidades básicas de esas zonas.
Para Siegmann, la clave está en que se consideren las variables ambientales como parte integral de las metas de crecimiento de los países. Es decir, un avance económico que asegure el uso de recursos de una manera sustentable, sobre todo en los países emergentes donde se observa una expansión económica acelerada que busca niveles de prosperidad para más de mil millones de personas.
Otro punto de crucial importancia es aplicar las legislaciones aprobadas en los países contra el cambio climático.
“Varios países de la región son pioneros en leyes contra el cambio climático. Emitir menos gases de efecto invernadero, tener un uso más eficiente de la energía, impulsar las energías renovables, combatir la deforestación, son algunas de las iniciativas que plantean estas leyes”, afirmó Siegmann.
La experta destacó los avances de México, que este fin de semana será el anfitrión de la reunión mundial de Globe, una organización internacional que agrupa legisladores de 80 países interesados en temas de cambio climático. El gobierno mexicano ya está aplicando un Programa Especial de Cambio Climático para el periodo 2014 hasta el 2018, dónde se detallan los objetivos específicos.
Se suman Guatemala, que aprobó una ley sobre el cambio climático el año pasado, mientras que se está discutiendo una Ley sobre el cambio climático en Costa Rica. El Salvador ya tiene una estrategia nacional para fortalecer los recursos financieros e institucionales que se necesitan para reducir el impacto económico y social del cambio climático. Bolivia tiene una Ley de Derechos de la Madre Tierra, en la cual se da también reconocimiento a los pueblos indígenas.
“Es muy muy cierto que el puro hecho de tener una ley no significa que se aplique. Esto es el gran reto para muchos países que ya tienen legislación. Sabemos que sin un marco legislativo y regulatorio fuerte, continúa e incluso aumentan cada vez má los procesos de degradación ambiental. Con instrumentos económicos se puede medir el costo que tiene esta degradación”, concluyó Siegmann.
* María José Gonzalez Rivas es editora online del Banco Mundial

Tuesday, 3 June 2014

Ferramenta gera cenários sobre clima e saúde pública no Brasil

eco
http://www.oeco.org.br/noticias/28372-ferramenta-gera-cenarios-sobre-clima-e-saude-publica-no-brasil



Ferramenta gera cenários sobre clima e saúde pública no Brasil
Flávia Moraes - 01/06/14

 Acessar uma ferramenta online, gratuita, capaz de fazer análises integradas de dados sobre clima, ambiente e saúde pública do Brasil e de prever cenários climáticos, para orientar a tomada de decisão relacionada a eventos extremos, seria possível? Agora é, através do lançamento da plataforma PULSE-Brasil (Platform for Understanding Long-term Sustainability of Ecosystems).
Desenvolvida por pesquisadores brasileiros e britânicos, com apoio da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e do Natural Environment Research Council (NERC), do Reino Unido, a ferramenta permite a visualização de dados de clima, observado entre 1950 e 2012; projeções de clima futuro, baseado nos modelos mais recentes do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas); dados de saúde pública, com as principais doenças como dengue, malária, leptospirose, além de níveis dos rios.
Por enquanto, ainda está funcionando em formato piloto, no qual o usuário pode acessar, em detalhe, dados referentes ao estado do Acre. A escolha por este local para o lançamento da PULSE está relacionada ao fato de este ser um dos estados mais afetados pelos eventos extremos recentes, como as secas de 2005 e de 2010 e as enchentes de 2009, 2012, 2013 e 2014, explica o coordenador do estudo, Jose Antonio Marengo Orsini, doInstituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Entretanto, dados de clima passado e futuro, como temperatura média, anomalias de temperatura, precipitação e temperaturas mínimas, podem ser visualizados para cada um dos estados brasileiros, bastando clicar em cima da região desejada. A partir dessa seleção, é possível gerar um gráfico de informações que pode ser anual, entre 1950 e 2012, ou mensal (ver exemplos abaixo).
dados-anuais---temperatura-media-(anomalias)-no-RS
dados-mensais---temperatura-media-(anomalias)-em-SPDados anuais e mensais de temperatura média (anomalias) dos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo, respectivamente, podem ser obtidos através da plataforma PULSE-Brasil. Fonte: FAPESP | Clique para ampliar.
Entre os principais objetivos dessa nova ferramenta estão: projetar as futuras mudanças do clima, principalmente para a Amazônia, usando os modelos de previsão climática globais, e integrando as informações de cenários de emissões de gases de efeito estufa e uso do solo. Além disso, a PULSE pretende servir tanto para consulta do público em geral, quanto para a do governo e de tomadores de decisão, a fim de que esses possam entender as interações entre o clima, os ecossistemas e a saúde humana na Amazônia e, assim, pensar nas consequências das diferentes escolhas políticas.
O próximo passo, em desenvolvimento, é usar as informações existentes para fazer avaliação de impactos, ou seja, para investigar como um determinado evento climático pode ter resultado em uma enchente ou uma epidemia, por exemplo.