Friday, 20 April 2012

Artesã da etnia Guató é remanescente de prática sustentável secular

((o eco))
http://www.oeco.com.br/reportagens/25916-artesa-da-etnia-guato-e-remanescente-de-pratica-sustentavel-secular?utm_source=newsletter_369&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco

Coletando aguapé no rio Paraguai. (Fotos: Fábio Pellegrini)

Corumbá (MS) -
 Quando se fala em Pantanal, o pensamento traz logo à lembrança jacarés e tuiuiús. Há, porém, um elemento implícito aí, presente ao longo de toda a extensão de 200 mil km2 da planície pantaneira: o aguapé. Ele está onde há água no Pantanal, mas mesmo pouco lembrado, é matéria-prima de um tesouro cultural brasileiro: o artesanato Guató.

O aguapé é uma planta macrófita, cujos aglomerados são conhecidos como camalotes, abundantes na calha do rio Paraguai e seus afluentes, além de baías e corixos da planície pantaneira. Nos cursos d’água, descem flutuando ao gosto da correnteza, espraiando-se pelos rebojos, eliminando impurezas dos mananciais e servindo de refúgio e fonte de alimento para diversas espécies da peixes, répteis, crustáceos e anfíbios.

Desde criança, Catarina domina a prática de remar em pé na canoa.
Catarina Ramos da Silva, apesar de ter mais de 60 anos de idade, exibe habilidade ao se equilibrar admiravelmente na proa da tradicional “canoa de um pau” para coletar caules desta planta abundante no rio Paraguai. É dali que tira seu sustento. A prática remonta às suas origens: é da etnia Guató, conhecida como os exímios canoeiros do “Mar de Xaraés”, forma como os exploradores europeus denominavam o Pantanal em ocasião da cheia nos primórdios da ocupação da região.

Na canoa, ela seleciona cuidadosamente cada caule de uma rama de aguapé que tira do rio e não extrai mais que três talos da mesma planta, com as mãos, sem utilizar quaisquer ferramentas: “Senão a planta morre”, diz ela. Aos poucos, vão se formando vários maços de caules que mais tarde serão transformados em tapetes, bolsas, cintos, colares, pulseiras, brincos, chapéus, esteiras e abanicos, esses últimos típicos dos Guató. “Tem que cuidar com cobra, além da sucuri tem a boca-de-sapo. Fica escondida no aguapé, enroladinha. Minha mãe morreu picada de cobra. Quando for assim não pode levar susto, senão morre mais rápido”, conta ela.

Lembranças

A idade já começa a incomodar a cada saída de canoa, alugada por R$ 15,00 no Porto Geral de Corumbá. Mas ela gosta, diz que se sente renovada a cada saída, pois a prática a remete à infância na Ilha Ínsua, onde nasceu e passou boa parte de sua vida. É lá que fica a Aldeia Uberaba, em local também conhecida como Fazenda Bela Vista do Norte, ou Porto Índio, ambiente inóspito, cercado de água entre Bolívia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com uma visão esplêndida da Serra do Amolar, bloco rochoso de formação pré-andina que exerce papel fundamental nos pulsos de inundação do Pantanal e refugia espécies da biodiversidade sob risco de extinção.

Após a coleta, Catarina encara uma ladeira íngreme, passando pelo casario do porto de Corumbá, bicentenária cidade, localizada à margem esquerda do rio Paraguai. Outrora fora um dos três mais importantes portos fluviais do mundo por ser fornecedor de charque, plumas, peles de animais silvestres e matérias-primas, como o tanino, para a indústria europeia. Afinal, em uma época em que não havia estradas, Corumbá era a melhor opção para se chegar a Asunción, Buenos Aires e Rio de Janeiro.

Produzindo com a ajuda dos pés

É na Casa do Artesão de Corumbá, antiga cadeia pública do município, hoje local de visitação de turistas, onde Catarina e outros artesãos mantêm suas oficinas, em espaços cedidos pela Prefeitura. Após descarregar o fardo de aguapés coletados, ela relata sobre suas origens: 

- Nasci Catarina Ramos da Silva, mas lá (na Terra Indígena Guató) me chamam de Catí. A situação lá é bem mais simples do que as pessoas tão acostumadas na cidade, mas como a gente era nascido e criado lá, a gente acostuma, gosta, sempre tem uma recordação. Era uma situação boa, vivia da caça e da pesca, comia capivara, passarinho, queixada. Já nascia com a habilidade da canoa. Vai nascendo e aprendendo a lidar com a canoa. Já andei em canoa que só cabia eu. 

E relembra a família, com tom de voz e olhar baixos: 

- quando criança, ajudava os pais a pescar, caçar e trabalhar na roça, como prática de subsistência.

Catarina vai contando sobre sua vida naquela remota ilha: 

- Antes só passava barquinho pequeno, depois começou passar esses grandes, boiadeiros, mas tinha época que passava aquelas lanchas a vapor, então eu tirava lenha pra vender pra eles. Lá era difícil açúcar, sabão, essas coisas... Então tinha que trabalhar pra comprar. Quando estava lá, o pessoal da cidade sempre tratava bem, a gente que era medrosa. Tinha medo de gente de fora. Chegava gente, escondia. 

Tradicionalmente sustentável

O tapete é a peça mais trabalhosa e valorizada. Suas formas imitam as folhas de aguapé que Catarina colhe no Rio

Em seu “ateliê” não há luxo: a sala tem pouca iluminação e paredes com manchas causadas por infiltrações. No pátio, os maços da matéria-prima vão sendo pendurados em varais para o processo natural de secagem. Na confecção de seus produtos, a preferência de Catarina é pelo aguapé de caule comprido, ou o “aguapé dourado” encontrado rio acima, longe das impurezas da cidade. Há também algumas peculiaridades sobre o modo de produção original. A tradição oral diz que o caule deve ser coletado em lua minguante, mas hoje em dia, por ser sua fonte geradora de renda, qualquer lua é válida.

Outras tradições ela faz questão de manter: “Não é qualquer aguapé, não, tem que tirar talo por talo. Tem gente que eu ensinei que tira com faca, mas não faço isso porque machuca a planta, mata o pé se cortar tudo. Não deve matar a natureza. Pode utilizar, mas tem que preservar. Tira o que você vai usar, mas deixa ele vivo. O que não vai servir deixa no rio.”

Após a secagem, aí sim, com uma faca, são feitas tiras no sentido do comprimento da fibra, dando preferência às mais finas. Assim, junta-se três tiras, sendo duas pontas (a parte superior do caule onde começam as folhas) e um “pé” (base do caule que se interliga com a raiz) para começar o trançado. 

Ao acabar o comprimento, insere-se mais uma tira, de forma a manter a espessura da trança, tendo cuidado ao apará-la e já deixando-a pronta para encaixar outras duas fibras, sempre dando preferência aos talos mais finos. Na medida em que o trançado vai aumentando, a artesã, sentada e descalça, prende a trança entre o dedão do pé e o segundo dedo, de forma que o emaranhado de fibras fique esticado horizontalmente. 

A atividade laboral de Catarina é minuciosa e exige paciência. Para se ter uma noção, são necessários cerca de 50 metros de tiras de fibra de aguapé para confeccionar um tapete de 1,2 metros. O único material industrializado que ela utiliza é a linha para costurar as tramas que dão formas aos objetos.

História sofrida

Poente no rio Paraguai, fonte do sustento de Catarina e dos seus ancestrais

A simpática anciã revela que casou-se jovem: “O pessoal foi mudando da ilha e viemos pra cá [Corumbá]. Ele [o marido] pegou serviço de empreitada, ficou em contato com o pessoal da cidade, aí desandou.” O casamento se arruinou, o ex-marido faleceu e ela teve de dar conta dos cinco filhos com ajuda de Josefina, sua ex-sogra. “Foi aí que comecei a trabalhar com aguapé, porque minha sogra já morava aqui e era a melhor opção pra ganhar dinheiro. Quando aprendi, eu tava numa pior. Criei meus filhos sozinha e minha vida com homem foi uma decepção. Nunca mais casei. Fiquei muito magoada. Trabalhava como cozinheira em uma empresa. Depois meus filhos casaram, cada um tem a sua vida. Mas sempre minha sogra me dando força, dizendo que eu não podia desistir, que sem fé em Deus não vamos a lugar nenhum.”

Catarina afirma que tira seu sustento do artesanato, além da aposentadoria, mas que não é fácil: “As pessoas acham que o material feito de aguapé deve ser barato porque é tirado aí no rio, mas é duro. Tem de levantar cedo, depois pega o sol quente, tira, traz, coloca no sol pra secar por cinco dias, cuidando, tirando do varal, pondo no chão, secando... Trança tudo pra depois costurar. Tudo na mão. Nunca fiz na máquina. A não ser que peçam. Um desses tapetes custa R$ 400 a R$ 500. É muito trabalhoso e usa muita planta.” As bolsas, famosas pela resistência, são chamadas de "legítimas ecobags do Pantanal" pelas clientes e já fazem sucesso na cidade. 

As formas, segundo ela, são inspiradas nas folhas do aguapé e nas ondas que vento e barcos formam no rio. 


Vida dos Guató virou filme

A história dos Guató é tão curiosa que chegou a ser roteiro do premiado filme 500 almas (2005), do cineasta Joel Pizzini. Vivendo no Pantanal há pelo menos 800 anos, os Guató tinham suas canoas como suas casas, onde guardavam os pertences. Apesar de arredios, sempre se prestaram a ajudar o Império Brasileiro e visitantes. Aos poucos, foram perdendo grande parte de seu território tradicional, mas foram resistindo e se mantendo em pequenas aldeias escondidas pelo Pantanal.

Com a ocupação do Pantanal pela pecuária, suas terras foram sendo tomadas. Aos poucos, foram se espalhando pelas periferias de cidades como Barão de Melgaço, Cáceres, Poconé, Ladário e Corumbá, ou trabalhando em fazendas, fazendo com que suas raízes fossem se apagando lentamente.

O Marechal Rondon, no início do século passado, durante estada na região, lhes concedeu autorização oficial para continuarem morando definitivamente na ilha Ínsua, pois já vinham sofrendo com posseiros. Mas não teve jeito. Tanto se forçou a evasão dos nativos de suas terras que entre 1950 e 1970 a etnia foi considerada extinta pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Até mesmo o indigenista Darcy Ribeiro publicou artigo alegando a extinção dos Guató: “Viviam à margem do rio Paraguai, subindo às vezes o rio São Lourenço, no Estado de Mato Grosso. (Extintos)".

A missionária salesiana Ada Cambarotto, em passagem por Corumbá em 1976, ao visitar a Casa do Artesão, deparou-se com uma peça de tapeçaria feita de aguapé, e relacionou-a à cultura característica Guató, conhecendo então a índia Josefina.

A partir daí foram realizadas expedições da Equipe Indigenista Missionária de Corumbá e da Funai até a Ilha Ínsua, comprovando a remanescência da etnia e de sua cultura.

Em 1986, em carta-manifesto redigida por Severo, filho de Josefina, endereçada às autoridades federais, relatando a história de seu povo, ele reivindica a posse definitiva da Ilha Ínsua. “Tenho lutado e muitas vezes me canso das promessas e mais promessas sem respostas satisfatórias. (...) Aí eu digo: vou abandonar isso, porque já me cansei, eu preciso trabalhar, tenho meus filhos pra criar. Mas quando já estou para desistir, a minha esposa não me deixa desanimar e juntos prosseguimos na luta em prol dos meus irmãos Guató”.

Após trabalhar como guarda municipal por 16 anos em Corumbá, onde chegou adolescente, acompanhando sua família expulsa da Ilha Ínsua, quis o destino que Severo, após ter um irmão assassinado cruelmente por conflito com posseiros, se tornasse cacique e liderasse o retorno dos Guató a seu território, em 1994. E finalmente, em fevereiro de 2003, a Terra Indígena Guató foi homologada.

Thursday, 19 April 2012

Um olhar científico sobre o jornalismo


observatório da imprensa



SEMINÁRIO FAPESP / DINES

Um olhar científico sobre o jornalismo

Por Paulo Hebmüller em 17/04/2012 na edição 690
Reproduzido do Jornal da USP nº 955, de 5/4/2012
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No encerramento do seminário “Conhecimento científico do jornalismo no Brasil: a contribuição de Alberto Dines”, o homenageado do dia – o jornalista, que em fevereiro completou 80 anos de idade – afirmou que seu constrangimento em ser o centro das atenções ficou amenizado por uma intervenção feita pelo colega Roberto Muylaert. O ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, dissera que o encontro era menos um evento científico do que, antes de tudo, uma festa. “Fico extremamente feliz não em ser o homenageado, mas sim em ser o pretexto dessa festa, porque acho que o jornalismo é uma festa”, declarou Dines.
As datas redondas do aniversariante – 80 anos de idade e 60 de carreira – foram então o pretexto para que palestrantes e público, reunidos no dia 22 de março na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), acabassem debatendo o jornalismo. Entre os consensos, o fato de que a atividade está em pleno processo de mudança – mais do que isso: passa por uma revolução. “O mundo mudou com o advento da internet comercial e com a popularização das tecnologias de informação e comunicação. O jornalismo, como reflexo do meio social em que é praticado, também mudou”, pontuou Luiz Egypto, redator-chefe do Observatório da Imprensa, mais uma das empreitadas lideradas por Dines. “A nova realidade implica o fim do monopólio de distribuição da informação de que desfrutavam as empresas jornalísticas.”
Para Egypto, a indústria jornalística demorou a entender que o cerne da atual crise de seu modelo, que até 20 anos era vitorioso e rentável, “reside no fato de que a notícia deixou de ser um produto fechado e acabado, e sua tendência é transformar-se em um processo”. Os modelos de negócios ainda não encontraram a forma ideal de se financiar num cenário em que “as audiências deixaram de ser um ente distante e assumiram-se como parte do processo de construção da informação, quando não como interlocutores diretos de veículos e de jornalistas”, acentua Egypto. Nos Estados Unidos, por sinal, está se consolidando o termo prosumer, que designa esse novo ator da arena pública midiática: não é apenas consumidor de informação, mas também produtor de conteúdos a disputar espaços com os veículos tradicionais e os jornalistas profissionais.
Método
“Hoje, qualquer pessoa que quiser pode distribuir informação. Essa é a grande mudança, e ela é extraordinária. Quem não entender a transformação será engolido ou descartado”, acredita Caio Túlio Costa, doutor em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e ex-professor da Faculdade Cásper Líbero (de onde pediu demissão há poucas semanas em solidariedade ao professor Edson Flosi. A direção da faculdade demitiu Flosi, que enfrenta um câncer, após 16 anos de atuação. A repercussão negativa do caso levou a Cásper a convidar o docente a reassumir suas funções, mas Flosi recusou a proposta).
O novo cenário alterou o papel de empresas e público, ressaltou Caio Túlio, primeiro ombudsman da Folha de S. Paulo, em 1989. Até antes da massificação da internet, a indústria jornalística dominava 100% da cadeia, ou seja: produzia a notícia, a imprimia e a distribuía. Hoje, ela depende de outras indústrias da comunicação, desde as que operam na transmissão de dados até as que produzem softwares ou os equipamentos que servem de suporte de leitura – celulares e tablets, por exemplo. “Mudou o modelo de negócios. O Google não tem nada de produção de notícias, mas soube se aproveitar do conteúdo dos outros”, disse.
Em meio a essa inundação de conteúdos e material informativo – ou desinformativo, em tantos casos –, continuará sendo muito necessária a presença dos mediadores. É aí que Caio Túlio aponta uma das dimensões da contribuição de Dines para a profissão: o jornalista precisa de método e técnica para realizar bem o seu trabalho. “Os cinco pilares visíveis da atuação de Dines têm a ver com isso: pesquisa, conhecimento, independência, criatividade e obstinação. O método e o embasamento científico são fundamentais”, defende. “As escolas de jornalismo têm pecado em não preparar os profissionais. Suas deficiências são brutais quando chegam ao mercado de trabalho.”
Jornalismo e comunicação não são ciências, repetiram quase unanimemente os palestrantes do seminário – inclusive o próprio Dines, ao dizer que “jornalismo é inspiração, atitude praticada com esmero de obra de arte e estudado com atitude e método científicos”. Porém, incorporar os métodos das ciências humanas, “adaptados e ressignificados para a prática jornalística de profundidade”, ajuda a produzir reportagens que perdurem no tempo pela sua qualidade, apontou Sérgio Vilas-Boas, jornalista, escritor e doutor em Comunicação pela USP.
O papel do jornal
Vilas-Boas chamou a atenção para o fato de que Dines exercitou essas práticas ao escrever a biografia de Stefan Zweig (Morte no paraíso), cuja primeira edição é de 1981 e foi relançada em 2004 com quase o dobro do tamanho da versão inicial. Os jornalistas fazem boa contribuição ao gênero da biografia porque não se atêm tanto aos arquivos classificados, utilizam mais fontes orais, são mais atentos às contradições e lacunas na história de seus personagens e trabalham de forma mais “desengessada” do que pesquisadores de outras áreas das ciências humanas, considera. “Morte no paraíso é o primeiro título de uma safra de biografias escritas por jornalistas brasileiros e que, no começo da década de 1990, tinha vários títulos entre os mais vendidos, como Estrela solitária, de Ruy Castro, e Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais. E Dines se gaba disso”, considera Vilas-Boas.
Outros participantes do seminário ressaltaram que Dines sempre defendeu a importância de não parar nunca de estudar e de refletir sobre a própria atividade. Carlos Eduardo Lins da Silva, doutor em Comunicação pela USP, lembrou a experiência do homenageado quando lecionou como professor visitante na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, em 1974. “Dines percebeu, ao estudar e visitar as redações americanas, que o jornalismo poderia melhorar muito se se apropriasse dos métodos e regras das ciências sociais, e elas poderiam ganhar se aproveitando da criatividade e do espírito inovador do jornalismo”, disse Lins da Silva. “Dines nos ensina e propõe a fazer a soma da experiência e da reflexão com método. Ele começa a fazer isso no Brasil antes dos outros.”
A carreira de Dines é exemplar da fusão entre educação, reflexão, pesquisa e prática, salientou Eugênio Bucci, professor da ECA, que falou no seminário sobre o livro O papel do jornal, publicado em 1974 e reeditado desde então, transformando-se num clássico da literatura brasileira sobre jornalismo. Para Bucci, a discussão do livro na época de seu lançamento – a “disputa” entre a televisão e o jornal impresso – se mantém atual. “Um sistema oferecia informação supostamente de graça, enquanto outro era pago. Essa competição está posta hoje”, afirmou. “A atividade jornalística, para existir, precisa ser apoiada e sustentada pela sociedade, mais do que pelo Estado ou pelo mercado. Dines já dizia no livro que o leitor, o ouvinte e o telespectador são os verdadeiros donos dos veículos. O jornalista trabalha para esse cidadão com quem dialoga.”
Problemas novíssimos
Nem tudo são flores na revolução digital no jornalismo, é claro, e os participantes do seminário também se ocuparam disso. Fernando Gabeira – que destacou a criação do Departamento de Pesquisas do Jornal do Brasil, comandado por Dines na década de 1960, classificando-o como “uma espécie de Google da era analógica” – salientou que a internet trouxe “problemas novíssimos”: “Já tínhamos uma resignação com o erro. Agora a possibilidade de erro ficou muito maior, com as coberturas em tempo real”, disse.
Outra realidade nova é que a tecnologia obrigou a uma produtividade muito maior do indivíduo. “O jornalista passou a trabalhar muito mais, virou quase um escravo”, afirmou. Gabeira usou a experiência pessoal como exemplo. “Voltei ao jornalismo e fui cobrir a eleição presidencial no Peru (em junho de 2011). Eu tinha que fazer, editar e enviar as fotos, escrever para o jornal impresso, atualizar o on-line, gravar e editar vídeos e ainda falar na TV on-line. Trabalhei por cinco pessoas, não tão bem quanto as cinco fariam, mas hoje só um tem que fazer.” Gabeira disse esperar que “as pessoas que escrevem bem sempre tenham seu lugar no jornalismo”, embora atualmente as exigências “multitarefa” sejam muito maiores.
Se o jornalismo sempre teve seus próprios pecados e deslizes éticos – como o uso privilegiado do espaço público para a defesa de interesses nem sempre sintonizados com os interesses públicos –, a profusão de vozes, discursos e fontes na arena midiática também aumenta os riscos de desinformação, manipulação e ações visando a benefícios particulares.
Eugênio Bucci cita os americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel, autores de Os elementos do jornalismo, que, numa edição posterior à que foi lançada no Brasil (em 2003, pela Geração Editorial), “falam do dever do cidadão que participa dessa teia jornalística de observar certas exigências éticas”. “Mas isso é uma intuição ainda, não é nem de longe uma solução e nem é mandatório. Cada vez mais na internet vai se revelando que diante dessa imensa oferta de conteúdos supostamente informativos o cidadão se pergunta em quem pode acreditar e tenta buscar, por assim dizer, um selo de confiança. Isso aumenta e não dilui o valor das redações independentes. O grande problema hoje é como vamos financiá-las”, conclui o professor da ECA.
“Preciso entender o que faço”
Resumir a trajetória de Alberto Dines não é fácil – tanto que o seminário na Fapesp dividiu a tarefa entre vários palestrantes, que se ocuparam das diversas faces da produção do jornalista nas redações, na academia, na literatura, no mundo digital etc. Dines queria enveredar pelo cinema, e foi como crítico que estreou nas páginas da revista A cena muda, em 1952. Trabalhou depois em VisãoMancheteÚltima Hora,Fatos & Fotos e Diário da Noite. Em 1962 assumiu como redator-chefe do Jornal do Brasil, consolidando uma das mais importantes reformas do jornalismo brasileiro. Em 1963 criou e ocupou a cadeira de Jornalismo Comparado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1965 lançou pelo JB os Cadernos de Comunicação e Jornalismo, com textos de reflexão e crítica sobre a área.
Dines manteve o exercício da crítica jornalística ao longo dos anos 1970, 80 e 90 na Folha de S.Paulo (com a coluna “Jornal dos Jornais”), em O Pasquim e na revista Imprensa. Entre o final da década de 1980 e começo de 90, residiu em Lisboa como diretor do Grupo Abril em Portugal. De volta ao Brasil, foi o responsável pela criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor) da Unicamp, em 1994, e do Observatório da Imprensa, na internet, dois anos depois. O Observatório ganhou uma versão na TV em 1998 e no rádio em 2005.
Em sua fala, que encerrou o seminário, Dines afirmou que sua “modestíssima contribuição” ao conhecimento científico do jornalismo no Brasil se resume “apenas ao atendimento de um feixe de curiosidade”: “Preciso entender o que faço, quero perceber o que esperam de mim, tenho a obrigação de descobrir, nos 40 mil anos que nos separam da arte rupestre, os elementos que ajudarão os nossos sucessores a livrarem-se das miragens do progresso e das ilusões da velocidade”.
Dines citou Hipólito da Costa, criador do Correio Braziliense, em 1808, como “o patriarca da nossa profissão”. “Logo na primeira página da primeira edição, ofereceu aquilo que hoje chamaríamos de plataforma editorial, uma profissão de fé, ou a fé de uma profissão que sequer tinha o nome jornalismo. Escreveu Hipólito: ‘O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela’. Depois afirma que ninguém é mais útil do que aquele que destaca os acontecimentos do presente e projeta os contornos do futuro. Refere-se aos redatores das folhas públicas, isto é, a nós, os jornalistas.”
No livro O papel do jornal, Dines incluiu uma epígrafe que chamou de “reveladora”: “Ideias complexas são construídas sobre ideias muito simples. Estas são o resultado de impressões, fruto de nossas experiências”. “Quem diz isso é David Hume, filósofo iluminista, um dos pais do empirismo moderno, o primeiro a aplicar métodos experimentais para estudar fenômenos mentais. Hume foi meu padrinho naquela incursão, assim como Hipólito foi e está sendo meu padrinho nas fases sucessivas”, disse. “Além de responder ao embargo profissional imposto pelo regime militar, o livro pretendia lembrar aos companheiros de profissão e aos empresários da indústria que só havia uma alternativa capaz de enfrentar simultaneamente o brutal aumento do preço do papel e os avanços tecnológicos da televisão: essa ‘bala de prata’ era a aposta na qualidade do jornalismo impresso.” A aposta na qualidade continua de pé, sustenta.
Para Dines, um dos pontos mais importantes na trajetória dos Cadernos de Jornalismo e Comunicação era cumprir o papel educativo de fomentar a inteligência. “Não podíamos questionar a censura, mas fomentávamos o debate e a vontade de pensar e saber”, considera.
Dines lembrou ainda que, em outubro de 1975, publicou na coluna “Jornal dos Jornais”, na Folha, a informação de que Vladimir Herzog, diretor de Jornalismo da TV Cultura, estava sendo ameaçado pela extrema direita. À frente do coro estava Cláudio Marques, “que frequentava a Folha e era amigo do Boris Casoy”. Em sua coluna no Shopping News, Marques vinha publicando que Herzog corria o risco de passar uma temporada na hospedaria do “Tutoia Hilton” – referência à sede do DOI-Codi paulista, na rua Tutoia, no Paraíso.
“Eu não conhecia o Vlado, mas o Zuenir Ventura conhecia e pediu que eu desse a nota. Dei a notícia uma semana antes, numa tentativa de protegê-lo, mas infelizmente não conseguimos salvar a vida do Vlado”, lamentou Dines. “Não foi um acidente. Havia uma conspiração, e ele foi preso e morto”, concluiu o jornalista.
***
[Paulo Hebmüller, do Jornal da USP]

CRESCE VALORIZAÇÃO DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

sbpc
http://www.sbpcpe.org/index.php?dt=2012_04_19&pagina=noticias&id=07263


 Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
CRESCE VALORIZAÇÃO DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Fonte: Fábio de Castro, Agência FAPESP de 17.04.2012
Editor de Ciência do Financial Times há duas décadas, o jornalista britânico Clive Cookson acredita que os temas científicos têm se tornado mais familiares e mais valorizados para o público, graças a uma cobertura jornalística que se revela pouco a pouco mais profunda e mais precisa que no passado.
Essa transformação, de acordo com Cookson, deve-se em parte às novas tecnologias que facilitaram o trabalho do jornalista nos últimos anos. Mas, segundo ele, a principal razão para que o noticiário de ciência ganhasse mais qualidade está em uma mudança de atitude dos próprios cientistas, que perceberam a importância da comunicação.

Cookson, que atua há mais de 30 anos na cobertura dos temas de ciência e tecnologia, em diversos países e diferentes veículos e contextos, participou nesta segunda-feira (16/4) do seminário “Ciência na Mídia”, promovido pela FAPESP na sede da Fundação, em São Paulo.

O evento teve o objetivo de estimular a reflexão, por parte de todos os envolvidos na produção e divulgação científicas, sobre as maneiras de propiciar um espaço para a troca de conhecimentos e a proposição de novos modos de pensar a divulgação desses temas na sociedade. Em entrevista exclusiva à Agência FAPESP, Cookson comentou esses temas. 

Agência FAPESP – Como tem evoluído a cobertura jornalística sobre ciência, considerando os seus 30 anos de experiência na área? 
Clive Cookson– Apesar de existirem muitos blogs e sites de ciência, as pessoas continuam obtendo a maior parte de suas informações sobre o que está acontecendo no mundo científico por meio da mídia tradicional: jornais impressos, revistas, TV e rádio. Assim, o cientista se comunica com o público por meio desses veículos não especializados em ciência. Essa não é uma relação trivial. Mas sou muito otimista, porque, olhando com essa perspectiva de 30 anos, percebo que os cientistas estão se tornando muito melhores na tarefa de se comunicar com a mídia.

Agência FAPESP – O que mudou nessa relação, da perspectiva dos cientistas? 
Clive Cookson– Eles estão se tornando muito mais proativos, mais abertos. Perderam o medo do contato com os repórteres. É uma mudança muito grande se você olha em uma perspectiva de longo tempo. E acredito que se trata de algo até certo ponto generalizado. Aqui no Brasil percebi que os cientistas são muito abertos.

Agência FAPESP – Qual pode ter sido a razão para essa transformação? 
Clive Cookson– Os cientistas perceberam – certamente nos Estados Unidos e Europa, mas acho que no Brasil também – que é mais provável conseguir investimentos públicos e auxílios para fazer suas pesquisas na medida em que eles se tornam bons comunicadores. Na Grã-Bretanha os conselhos de pesquisa incluem explicitamente a comunicação dos resultados científicos como um dos critérios importantes para conseguir investimentos. De modo geral, podemos dizer que você tem mais facilidade para conseguir o investimento se você estiver preparado para comunicar. Isso é verdade para os pesquisadores, de forma individual, mas também em uma perspectiva mais geral: os pesquisadores sabem que a ciência como um todo terá mais apoio público se os cientistas gastarem um pouco de tempo e esforço para falar com jornalistas.

Agência FAPESP – Além dessas mudanças do lado da comunidade científica, houve também evolução do lado da produção da notícia? A qualidade do jornalismo melhorou? 
Clive Cookson– Houve melhora, mas nada que justificasse um aumento muito grande da confiança dos pesquisadores nos jornalistas. A qualidade do jornalismo melhorou, mas não acho que isso tenha acontecido porque os jornalistas se tornaram melhores. O que ocorreu é que ficou muito mais fácil escrever uma matéria sobre ciência, agora que podemos ter acesso a artigos científicos na internet, podemos obter comentários por e-mail e coisas assim. Quando eu comecei no ofício, se quiséssemos ter acesso a um artigo era preciso ir às bibliotecas e para um simples comentários era preciso ter muita sorte e localizar os pesquisadores por telefone na hora certa.

Agência FAPESP – No Brasil os jornalistas de ciência, com frequência, têm formação em jornalismo, mas não uma formação científica. Qual é a característica dos divulgadores na Inglaterra? 
Clive Cookson– Na Inglaterra há uma mistura. A maior parte dos jornalistas de ciência tem uma formação em ciência. Eu, por exemplo, sou formado em química. Mas há outros ótimos jornalistas de ciência que têm seu background em artes ou humanidades e depois começaram a trabalhar com ciência e foram excepcionalmente atraídos pela área. Acho que há prós e contras em ambos os casos.

Agência FAPESP – Em uma situação hipotética: se o senhor tivesse que contratar um repórter, iria preferir um indivíduo com uma formação científica, que escreve bem, mas não tem nenhuma experiência prévia em jornalismo, ou alguém que é um jornalista capaz e talentoso, mas sem qualquer envolvimento com ciência, nem experiência em jornalismo científico? 
Clive Cookson– Se eu estivesse contatando essa pessoa para um trabalho de reportagem de ciências em um jornal, por exemplo, não hesitaria: escolheria o jornalista que tem experiência em reportagem, em vez de escolher o cientista. Acho que a capacidade para ser um bom jornalista é de fato o mais importante. Não adianta ser um bom cientista que escreve corretamente. Porque a ciência realmente requer um texto diferente, vívido. Prefiro um excelente jornalista que um excelente cientista para fazer isso.

Agência FAPESP – A percepção do público em relação à importância da ciência também tem mudado? 
Clive Cookson– Minha impressão é que o conhecimento sobre ciência em meio ao público geral melhorou sim. Ainda não é o suficiente, mas acho que, em geral, a população ficou mais alfabetizada em ciência que há alguns anos atrás. Muita gente passou a entender melhor as bases da ciência. As pessoas têm mais intimidade com temas e termos centrais no mundo científico. Até certo ponto a internet contribuiu com isso, mas não sei se há grande potencial para melhorar muito mais, porque na rede também temos muito ruído e desinformação.

Agência FAPESP – Os jornalistas procuram fazer a ciência mais atraente para o público. Ao mesmo tempo, tendem a mostrar exclusivamente os resultados de sucesso, deixando em segundo plano o processo de produção da ciência. Com isso não se corre o risco de mistificar a ciência junto ao público? 
Clive Cookson– Tem toda razão, esse é um problema absolutamente fundamental na relação entre jornalismo e ciência. No noticiário não há tempo nem espaço para descrever todos os passos da produção da ciência, mostrando ao público que não se trata de mágica, mas de um processo difícil, pontuado de dificuldades e fracassos momentâneos. O que deixa essa situação pior é que mesmo que você privilegie as pesquisas de qualidade, publicadas em revistas de prestígio, os artigos científicos também não lhe darão pistas sobre o processo de como a ciência funciona. Você só conseguiria dar ao público uma educação científica se fosse possível acompanhar o trabalho por meses a fio no laboratório. Geralmente isso é impossível.

Agência FAPESP – Além disso os insucessos raramente são publicados, não é? 
Clive Cookson– Sim, essa é outra questão. A publicação, em particular na área de saúde, normalmente descreve apenas os resultados positivos. Os resultados negativos quase nunca têm espaço em publicações. É preciso estar atento a isso para não dar uma falsa impressão de que a ciência é feita só de acertos.

Agência FAPESP – Quando se noticia os resultados de um novo estudo, pode ser difícil repercutir a notícia com outros cientistas, porque muitas vezes eles alegam que ainda não tiveram contato com o artigo. Como o senhor lida com essa situação? 
Clive Cookson– É uma situação extremamente difícil. Em primeiro lugar porque os cientistas normalmente não indicam seus competidores que trabalham na mesma área e que poderiam contribuir com um comentário. Além disso, geralmente é difícil conseguir um comentário sobre um artigo que acaba de sair e que não foi lido por quase ninguém. Na Inglaterra temos uma organização é muito útil, nesse sentido, para os jornalistas da área de saúde: o Science Media Centre.

Agência FAPESP – Como funciona? 
Clive Cookson– É um serviço que foi criado há exatos 10 anos e reúne cientistas que atuam como se fosse assessores de imprensa. Eles pegam qualquer estudo e avaliam se é controverso, ou interessante o suficiente para render uma manchete. Então usamos seus contatos, que fazem comentários com grande qualidade. Acho que o SMC fez mais que qualquer outra instituição para melhorar a cobertura jornalística de ciência na Inglaterra. Eles têm excelentes bases de dados e uma incrível lista de contatos especializados. É muito eficiente.

Agência FAPESP – Muita gente vê os repórteres de ciência como tradutores de uma linguagem especializada para a linguagem do senso comum. O que o senhor acha dessa noção? 
Clive Cookson– Parte do que fazemos pode ser visto como uma espécie de tradução, mas espero que nosso trabalho seja algo mais criativo e complexo que isso. Acho que os jornalistas são capazes de colocar novas maneiras de se olhar para a ciência que os próprios cientistas não poderiam proporcionar. É algo mais que simplesmente traduzir. Podemos gerar imagens, comparações, que os cientistas não conceberiam. Não se trata apenas de questão de simplificar uma linguagem, mas de fornecer uma interpretação nova de ideias, contextos e visões. E, mesmo no campo da linguagem, acho que esse trabalho extrapola a simples tradução: devemos ser autores capazes de tornar o conhecimento mais vívido, mais interessante para o público.

Agência FAPESP – Como foi sua trajetória? Por que se interessou por ciência? 
Clive Cookson– Sempre me interessei por ciência e me formei em Química em Oxford. Mas dois fatos mudaram minha trajetória. Um deles é que notei que o jornalismo científico na Inglaterra não era bom. Ao mesmo tempo, percebi que eu não seria brilhante o suficiente para fazer um bom doutorado em química. Eu sabia que se não fosse tão brilhante, um doutorado em química poderia se transformar em algo não muito criativo, uma espécie de trabalho braçal para um orientador. Eu sabia que não era na verdade bom o suficiente para me tornar um grande cientista. Mas percebi que poderia escrever bem sobre ciência.

Agência FAPESP – E como começou de fato a atuar como jornalista? 
Clive Cookson– Fui aceito em um programa de treinamento de um jornal local, em Londres. Depois de dois anos, tive a oportunidade de ir para Washington, nos Estados Unidos, por quatro anos, para trabalhar no suplemento de Educação Superior do Times. Foi uma experiência fantástica, eu escrevia sobre as universidades e institutos de pesquisa norte-americanos. Depois voltei para Londres para me tornar repórter de tecnologia do Times. Comecei, na década de 1980, a trabalhar na rádio BBC, como correspondente da área da saúde. E de lá fui para o Financial Times, onde tenho atuado como editor de ciência nos últimos 20 anos.