Monday, 15 April 2013

lúcia kawahara - relato de pesquisa de campo

Sub-projeto 5.1.3 – Avaliação Ecossistêmico do Milênio

A TEMPORALIDADE PANTANEIRA

Relatório de Campo: Lucia Shiguemi Izawa Kawahara

Atualmente, a formação de uma consciência da intrínseca relação que o ser humano tem com o seu habitat e o impacto desta interligação na qualidade de vida das pessoas e do ecossistema tem sido buscado no mundo inteiro.  Tais conexões são objetos de pesquisas e debates socioambientais consistindo em pauta das principais discussões políticas em âmbito global.  Como exemplo, podemos citar a Avaliação Ecossistêmica do Milênio – AEM coordenada pela Organização das Nações Unidas – ONU, publicada em 2005, cujos resultados demonstram a preocupante situação da degradação ambiental e os riscos aos seres humanos.
Neste abril de 2013 o Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte da Universidade Federal de Mato Grosso (GPEA/UFMT) retornou ao Pantanal de São Pedro de Joselândia, tendo a oportunidade de experienciar momentos de significativa aprendizagem sobre a importante relação que o ser humano tem com o seu habitat e a qualidade de vida que esta interligação proporciona aos seus habitantes.


Figura 1 – “Menino Pantaneiro” (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

Exatamente há um ano, em março de 2012, pudemos participar da expedição de pesquisa neste mesmo grupo e agora, eis que voltamos às mesmas terras pantaneiras e desfrutamos de momentos de reflexões sobre a diferença de temporalidade que constrói hábitos em diálogo com o habitat, influenciando os habitantes de forma indissociável.
O presente relatório se ancora na minha própria vivência como moradora de um centro urbano, acometido por todos os percalços das reformas de uma cidade que se prepara para a Copa do Mundo e simultaneamente, a experiência desta pesquisadora que vivenciou a imutável tranquilidade de São Pedro de Joselândia.  A narrativa buscará apresentar que, no exato período de um ano, existe de um lado, os desajustes causados pela temporalidade dominante do capital na cidade de Cuiabá que se prepara para a imanente festa do futebol e, do outro, o cotidiano da vida dos moradores da comunidade pantaneira que revelaram a serenidade do conhecimento tradicional para organizarem também uma grande festa, do santo padroeiro que dá nome ao lugar, mas estes sabem dialogar com o ambiente em que vivem sem agredir o seu bem estar.
O indicador de tempo passado, um ano, é uma mensuração que nos servirá de base para construir e compreender esta diferente temporalidade que nos fez entender as principais marcas da distinção entre a vida urbana e a pantaneira. Esta delimitação temporária nos serve de base para narrarmos a compreensão da importância de alguns valores que perdemos na frenética vida citadina. Comungando com Ricoeur (2010), o período de um ano facilitará a reflexão sobre os aspectos que nos fazem apreender algumas importane dimensões esquecidas na vida moderna, pois o tempo só se torna humano através da narrativa.
A capital de Mato Grosso foi eleita como cidade-sede dos jogos da Copa do Mundo de Futebol 2014, com a bandeira “Copa do Pantanal”. Atualmente, Cuiabá está se preparando para mostrar-se ao mundo e atender às exigências das instituições organizadoras como forma de expressar o sucesso e a prosperidade desta cidade. Pela mídia, principalmente, ouvimos muitos cidadãos cuiabanos acreditarem que tal oportunidade em mobilizar recursos poderá desencadear transformações e crescimento econômico na urbe. No entanto, a mídia não dá oportunidade para grupos de cidadãos pronunciarem sobre as questões socioambientais derivadas dessas transformações. A maioria dos moradores está cega às injustiças socioambientais e assim, continuamos aceitando as mazelas da reforma do redesenho urbano.


Figura 2 - Obras da Copa em Cuiabá (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

Não cabe neste relatório discutirmos sobre os conhecidos problemas causados pelos megaeventos como as Copas e Olimpíadas, ou ainda sobre as violações dos direitos humanos das populações mais carentes, bem como os impactos que sempre recaem com maior carga sobre os excluídos da nossa sociedade.  No entanto, ressaltamos que o presente contexto tem causado extremo desgaste e desconfortos diários aos moradores desta cidade, certamente atingindo a qualidade de vida de todos os moradores de Cuiabá.  Sem mencionar a incerteza e insegurança de que tais transtornos não terão resultados almejados para a data da referida Copa, em junho de 2014.
Ao retornar às terras pantaneiras, percebemos que São Pedro de Joselândia também está se preparando para o maior evento coletivo desta localidade: a Festa de São Pedro. No entanto, nesta comunidade observamos que continuava reinando a mesma tranquilidade e segurança sentida no ano anterior.  Este contexto nos levou a refletir o quanto na cidade de Cuiabá nos tornamos escravos da lógica do mercado, patrolados, esmagados e sujeitos à nos submetermos à temporalidade ditada pelo desenvolvimento econômico (PASSOS, 2005) que impõe limites cronológicos alheios às necessidades reais, anseios locais e participação coletiva para a edificação de sociedades democráticas e sustentáveis.
Longe de estabelecer o juízo comparativo entre a cidade (lócus onde moram os pesquisadores deste grupo) e o pantanal (lócus onde mora a comunidade de São Pedro de Joselândia), teceremos reflexões sobre a aprendizagem da importância do respeito à temporalidade local que pode apontar identidade e cultura reveladoras de possíveis alternativas de sustentabilidade (SATO, 2002).
                Nosso roteiro de pesquisa nesta viagem além da observação participativa, incluiu também uma participação na oficina da “Formação Continuada: Educação do Campo e Educação Ambiental” da Escola Estadual Maria Silvina Peixoto de Mouranos nos dias 05 e 06 de abril, no qual pudemos estabelecer uma conversação com os moradores sobre a nossa pesquisa.  Além da oficina, realizamos entrevistas com ex-festeiros que nos revelaram como se preparam para o grande evento anual de São Pedro de Joselândia. Apresentamos aos educadores da escola sobre a Avaliação Ecossistêmica do Milênio - AEM e realizamos um exercício com a metodologia da AEM para avaliar quais relações existiriam entre as Festas Santas e os Serviços Ecossistêmicos.

Figura 4 –reunião com os professores (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

 Dessa conversação, resultou a elaboração da Tabela 1, que demonstra que as festas santas de São Pedro utilizam ampla e diretamente os serviços ecossistêmicos provenientes de seu próprio território e reafirma a indissociabilidade dos hábitos desta comunidade com o habitat.  Neste caso específico, a lista elaborada pelos educadores se refere à Festa de São Pedro cuja duração é de dois a três dias, realizada todos os anos em torno do dia 29 de junho.
A Festa de São Pedro pode ser avaliada como um grande evento, considerando o porte desta comunidade, pois reúne nestes três dias, um número aproximado de visitantes dez vezes maior do que o número de seus moradores. Apesar de alguns itens da gastronomia ser comprada na cidade, toda infraestrutura e a maior parte da alimentação procede diretamente das terras de São Pedro de Joselândia.  A festa, portanto, no nosso entender, consiste em um Serviço Ecossistêmico Cultural pelas características da indissociabilidade do ritual com o ambiente local (AEM) como podemos conferir na tabela que se segue.

Tabela 1 - Lista de Serviços Ecossistêmicos utilizadas nas Festas Santas
Organização e Estrutura
Serviços de Provisão, Suporte, Regulação
Gastronomia
REFEIÇÕES
(Quebra Torto, Almoço, Churrasco, janta)
pão, biscoito, francisquito, leite, café, queijo, guaraná, sarapatel, revirado de carne, arroz, chá, bolo (milho, polvilho)
bolo de arroz, arroz, feijão, mandioca, macarrão, salada de repolho com tomate, vai-vem de carne, ossada, rabada, costela, churrasco, farofa, maionese, etc)
1.        Água
2.        Arroz
3.        Carne de vaca (miúdos para o café da manhã; menos nobre picado para o almoço; parte nobre assado para o churrasco)
4.        Carne de porco
5.        Carne de galinha
6.        Feijão
7.        Leite
8.        Mandioca
9.        Ovo
10.     Farinha de mandioca
11.     Manteiga/margarina
12.     Queijo
13.     Polvilho
14.     Milho
15.     Vinagre caseiro
Doces (leite, mamão, laranja, caju, goiaba, figo, rapadura)
leite
16.     Mamão
17.     Laranja
18.     Banana
19.     Limão
20.     melado
21.     goiaba
suco
Água
(existem diversas frutas, no entanto não são utilizados nas festas)
Licor
Leite
Ritual Religioso + Baile
Mastro/ Bandeira
22.     Pau de Formigueiro
Procissão, missa, reza com Cururu
Viola de cocho, Ganzá, Mocho
23.     Madeiras
24.     Taquara
25.     Couro
Estrutura/decoração
Churrasqueira
26.     Lenha
27.     Suportes
28.     Espetos
29.     Cobertura da palha de Acuri
30.     Base da churrasqueira e forno- buraco na terra e argila/barro
Forno
Argila da estrutura
Lenha
Mesas e bancos
31.     madeira

Fogão
Lenha de catingueiro
32.     Argila para estrutura
33.     Tacuru
Pia e banheiro
Agua
Alojamento, barraquinhas, empalizado , Xaria (almoxarifado),rancho
34.     Taquara,
35.     Cipó – Tripa de Galinha
Palha de Acuri,
Madeira
Bandeirolas, flores, fitas
36.     Palmeiras decorativo
37.     Bananeiras
38.     Flores

Além do diálogo coletivo com os educadores que elaboraram a lista da tabela acima, realizamos entrevistas com alguns ex-festeiros da comunidade.  A organização da festa é realizada em consonância com o tempo das águas e da seca, uma aprendizagem coletiva alcançada há gerações.  O Sr. Benedito Paulino da Silva (86 anos) é um exemplo da tradição mantida por três gerações de festeiros em sua própria família, o seu pai e seu filho, tal qual ele próprio.  O Sr. Benedito afirma orgulhosamente que quando ajudou o seu pai a organizar a festa, já desejava ser festeiro:
O meu pai já foi festeiro e eu já era casado e eu tinha já uma filha e pensei: quando afirmar minha casa, eu quero fazer a festa para São Pedro.” (Sr. Benedito Paulino da Silva, 86 anos, ex-festeiro).


Figura 5 - Sr. Benedito Paulino da Silva, 86 anos, ex-festeiro (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)
A organização das festas em São Pedro de Joselândia é uma das formas diferenciada da lógica globalizada do capitalismo, distinta, por exemplo, da organização de uma Copa que ocorre em Cuiabá.  As festas tradicionais do pantanal possuem uma estrutura sociocultural de solidariedade, coletividade, honra e cumprimento dos compromissos.  Em São Pedro de Joselândia,  o acordo social e as práticas organizacionais das festas revelam um tradicional laço pantaneiro de fundamental importância na manutenção do orgulho e das relações comunitárias da localidade (GEERTZ, 2001; PASSOS, 2010).
Figura 6 - Sr. Gonçalo e D. Maria festeiros tradicionais de São Pedro (fotos do arquivo GPEA - Lushi)

“Aqui sempre foi assim. É a tradição. E tradição do lugar tem que fazer. É assim, São Pedro já ganhou vinte bezerros, aqui é assim, tudo é de graça. O importante é o povo ser bem tratado sempre.” (Sr. Gonçalo dos Santos – 52 anos, festeiro da Festa de São Pedro de 2013).

                Apesar de alguns moradores começarem a fazer respeitáveis ponderações sobre a necessidade de repensar o exagero no consumo de alimentos e bebidas durante as festas, muitas vezes, acarretando em desperdícios que precisam ser discutidos no bojo da comunidade, todos concordam que a festa é uma forma de manter a alegria e garantir a continuidade das bênçãos de São Pedro sobre a comunidade.
Segundo os entrevistados, as festas de São Pedro de Joselândia concebem uma identidade cultural comunitária, pois elas representam a coletividade, constitui ritual em que gerações foram e são envolvidas.  Neste aspecto, portanto, concordamos com Hall (2006, p. 71): “Todas as identidades estão localizadas no espaço e nos tempos simbólicos.” (2006, p. 71). Aprendemos que as festas significam momentos de confraternização e fortalecimento dos laços comunitários e assim, reafirmando a importância da valorização da identidade e da cultura local como requisitos necessários à construção do orgulho e da vontade de conservar a territorialidade.  Percebemos que tais momentos estão enfraquecidos, por exemplo, na atual preparação da Copa em nossa capital.
CUIABÁ, 14/04/2013
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