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Thursday, 13 March 2014

O valor da natureza

fapesp
http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/03/10/o-valor-da-natureza/


O valor da natureza

Palestras do Ciclo de Conferências defendem a importância dos serviços ecossistêmicos associados à biodiversidade
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição 217 - Março de 2014

© GABRIEL MONTEIRO
A baía do Araçá abriga um dos últimos remanescentes de manguezal do litoral de São Sebastião. Em marés baixas, uma grande área fica descoberta (clique para ver mapa)
A baía do Araçá abriga um dos últimos remanescentes de manguezal do litoral de São Sebastião. Em marés baixas, uma grande área fica descoberta (clique para ver mapa)
Em tempos de mudanças climáticas, princípios ecológicos antes deixados de lado parecem ganhar força, marcando presença em discussões políticas de planejamento econômico para um plano estratégico de desenvolvimento sustentável. “Talvez o melhor exemplo desse avanço em relação às discussões sobre conservação ambiental seja a criação – um tanto atrasada, vale dizer – da Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos pela Organização das Nações Unidas em 2012”, destacou Carlos Joly, coordenador do programa Biota-FAPESP durante sua fala na abertura da temporada 2014 do Ciclo de Conferências Biota-FAPESP Educação no dia 20 de fevereiro, em São Paulo. Segundo Joly, a plataforma, conhecida pela sigla em inglês Ipbes, será responsável pela difícil tarefa de fazer com que o conhecimento científico produzido sobre a biodiversidade em todo o mundo seja reunido e sistematizado com o objetivo de subsidiar decisões políticas e econômicas em nível internacional, “nos mesmos moldes do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC”, completou.
As mudanças na percepção dos agentes políticos sobre a importância da conservação ambiental, contudo, se deram de forma lenta, a partir do século XIX, segundo a bióloga Rozely Ferreira dos Santos, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), começando a ganhar corpo com os estudos que procuraram valorizar as funções ecossistêmicas sob a premissa de que as atividades econômicas e o bem-estar humano seriam dependentes dos serviços naturais por elas geradas, como a produção de oxigênio, alimento e água potável. Por décadas essas ideias foram discutidas, reformuladas e criticadas – “os animais, as plantas e os ecossistemas têm um valor em si mesmos, independentemente da utilidade que possam representar para o homem”, diria o ambientalista norte-americano Aldo Leopold. De qualquer forma, até a década de 1990, “os processos de produção econômica sempre superavam a discussão da conservação ambiental”, disse Rozely durante sua palestra, em que apresentou um apanhado histórico de estudos conduzidos por economistas e ambientalistas na busca por definições objetivas e integradas sobre o tema.
© LÉO RAMOS
Rozely Ferreira dos Santos e Alexander Turra
Rozely Ferreira dos Santos e Alexander Turra
Segundo ela, por anos esses grupos discordaram em relação a conceitos como o de funções ambientais e serviços naturais, entre outros, sendo incapazes de entendê-los como princípios unificadores dos interesses de ambas as partes. Esse conflito foi se amenizando à medida que se passou a entender os bens e serviços ecossistêmicos como sistemas de suporte não só à vida, mas também à economia. Estudos publicados em meados de 1990, por exemplo, estimaram o valor dos serviços ecossistêmicos no mundo em US$ 33 trilhões, dos quais US$ 20,9 trilhões são  bens e serviços associados aos ambientes marinhos e costeiros. “Percebemos que os processos oceanográficos estavam atrelados a serviços que precisávamos começar a entender”, disse o biólogo Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP e um dos palestrantes convidados.
Baía do AraçáDesde 2012, Turra participa da coordenação de um projeto temático no âmbito do programa Biota-FAPESP com o objetivo de compilar – ainda que preliminarmente – e descrever a biodiversidade da baía do Araçá, no município de São Sebastião, litoral de São Paulo, também apresentando alternativas à intervenção do ser humano no funcionamento desse ambiente e, inclusive, estimulando iniciativas que tentem reverter o atual quadro de degradação ambiental. “Queremos integrar diferentes áreas do conhecimento ambiental, físico, biológico e social para estudos em biodiversidade, conservação e gestão marinha”, explicou. Segundo ele, a ideia é tentar conciliar o estilo de vida local com a conservação ambiental. Um desafio e tanto, ele reconhece, “que requer mudanças culturais profundas na sociedade”.
A enseada do Araçá é uma área limitada por flancos rochosos que abrange quatro praias – Deodato, Pernambuco, Germano e Topo – e duas ilhas – Pernambuco e Pedroso – entre Ilhabela e São Sebastião. Devido à proximidade com a malha urbana, esse conjunto de pequenas praias, costões rochosos, bancos arenosos e lamosos vem há anos sendo exposto a diferentes tipos de ações antrópicas, como ocupações irregulares, efluentes de esgoto doméstico e vazamentos de óleo, por conta da proximidade do porto de São Sebastião e do terminal aquaviário da Petrobras.
© GABRIEL MONTEIRO
Alga comum no Araçá lembra um pequeno cacho de uva
Alga comum no Araçá lembra um pequeno cacho de uva
Mesmo assim, o ambiente parece resistir à interferência humana. A baía do Araçá mantém hoje um dos últimos remanescentes de manguezal do litoral de São Sebastião. Segundo Turra, esses ecossistemas são importantes para a manutenção da vida marinha. Além disso, a capacidade dos manguezais de absorverem carbono da atmosfera e estocá-lo aumentou sua importância diante das alterações climáticas (verPesquisa FAPESP nº 216). O Araçá abriga uma alta diversidade biológica. Por lá, a biodiversidade conhecida alcança 733 espécies, das quais 34 foram descritas como novas para a ciência, além de ser reduto de pescadores artesanais, que usam pequenas canoas caiçaras para capturar peixes e crustáceos. “Mas tão importante quanto identificar essa riqueza biológica é entender a importância dessa diversidade e quais serviços estão associados a ela”, disse o biólogo.
Com pouco mais de dois anos de projeto, Turra e seus colaboradores ainda tentam entender como os habitantes dessa região enxergam o Araçá. Com base em entrevistas, eles observaram que a população parece compreender a importância desse ambiente para o suporte à vida, à economia e também à manutenção de sua identidade e herança cultural. Com base nessas entrevistas e outros dados, os pesquisadores sistematizaram os bens e serviços marinhos providos pela biodiversidade marinha daquela região. “A baía do Araçá oferece ao homem serviços ambientais, culturais e econômicos importantes, que variam da provisão de alimento e matéria-prima à regulação climática – via sequestro de dióxido de carbono (CO2) – e ciclagem de nutrientes”, sintetizou.
O grupo de Turra também vem desenvolvendo iniciativas a fim de aproximar diferentes atores sociais para uma discussão em vários setores, “como professores de ensino fundamental e médio, que podem trabalhar a lógica dos serviços ecossistêmicos e da valoração dos benefícios ambientais com seus alunos”, disse. Segundo ele, os serviços ecossistêmicos normalmente não são reconhecidos nas tomadas de decisões. Daí a importância de mostrar quão valiosos eles são e formular mecanismos que possam capturar de fato seus valores.
Uma tarefa não muito fácil, a julgar pela própria dificuldade em estabelecer um conceito único para o termo “serviços ecossistêmicos”. Para Rozely Ferreira dos Santos, à medida que diferentes autores foram ao longo dos anos trabalhando separadamente, foi-se ampliando o conjunto de definições atribuídas a esses serviços. “Ora os serviços são condições e processos, ora são funções ecossistêmicas, em outras situações são produtos de funções ecológicas”, disse. Para ela, a definição é simples: as paisagens abrigam estruturas e processos ligados a funções (como as populações de peixes) que fornecem serviços (estoques de peixes), os quais devem ser trabalhados dentro de um contexto sociocultural, a partir de seus benefícios. Segundo a bióloga, a valoração desses serviços deve começar nas estruturas e nos processos que determinam as funções.
© GABRIEL MONTEIRO
Anêmonas-do-mar (Anemonia sulcata) em poça d’água formada pela maré no Araçá
Anêmonas-do-mar (Anemonia sulcata) em poça d’água formada pela maré no Araçá
Conceito indefinidoEm 2010, um projeto de lei que dispõe sobre a Política Estadual de Mudanças Climáticas no estado de São Paulo foi além e definiu os serviços ecossistêmicos como benefícios que as pessoas obtêm dos ecossistemas e os serviços ambientais como os serviços ecossistêmicos que resultam em impactos positivos para além da área onde são gerados. Para Rosely, a lei acrescentou ao debate um conceito de serviços ambientais que poucos autores usam. “O problema é que mal se consolidou um conceito e já estão criando outros, aplicando-os na forma de lei. Isso pode comprometer uma abordagem de valoração integrada, em que tanto aspectos ecológicos quanto sociais e econômicos são considerados na avaliação das interfaces existentes entre serviços ecossistêmicos, sistema econômico e bem-estar social.
O Ciclo de Conferências Biota-FAPESP Educação é uma iniciativa do programa Biota-FAPESP, em parceria com a revista Pesquisa FAPESP. Em 2014, as palestras terão como foco os serviços ecossistêmicos (ver programação), complementando as palestras de 2013 sobre os principais ecossistemas brasileiros. De acordo com Carlos Joly, os conceitos desse debate ainda não estão completamente definidos, mas em evolução, “se fazendo cada vez mais presentes nas discussões sobre conservação, estratégias e políticas”, concluiu.

Thursday, 23 January 2014

Novo e-book sobre pagamento por serviços ambientais

o eco
http://www.oeco.org.br/salada-verde/27947-novo-e-book-sobre-pagamento-por-servicos-ambientais


Novo e-book sobre pagamento por serviços ambientais
((o))eco - 22/01/14

EbookPSA
Tido como uma das principais ferramentas capazes de frear o avanço da perda da floresta, o uso de pagamento por serviços ambientais (PSA) pipoca aqui em ali, em projetos específicos e alheios ao grande público. OInstituto O Direito por Um Planeta Verde reuniu 4 artigos que falam de exemplos bem sucedidos de PSA em países da América Latina e no Brasil. Eles foram publicados em "Pagamento por Serviços Ambientais - Experiências locais e latino-americanas" (144 páginas), que faz parte da série  "Direito e Mudanças Climáticas", composta por 4 e-books e disponível para download gratuito.
Entre os casos relatados de pagamento por serviços ambientais está o uso de de recursos hídricos em países como Costa Rica, México, Equador e Colômbia; a experiência de mitigação de mudanças climáticas na amazônia brasileira; e a proteção da biodiversidade em Santa Catarina.

Friday, 20 September 2013

Visões alternativas ao Pagamento por Serviços Ambientais

heinrich boll
http://www.br.boell.org/web/136-1540.html


LIVRO

Visões alternativas ao Pagamento por Serviços Ambientais

September 10, 2013
A publicação - disponível para download aqui - busca aprofundar as discussões e reflexões sobre as questões do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). O livro é resultado dos debates realizados durante uma oficina sobre o tema, realizada em 2012. A oficina tinha o objetivo de aprofundar a discussão de diferentes propostas, visões e conceitos alternativos ao PSA, fortalecendo os debates que vêm ocorrendo no grupo Carta de Belém, na Articulação Nacional de Agroecologia (ANA),na Via Campesina, no movimento sindical, entre outros.
O livro foi organizado pela Fase com apoio da Fordfoundation, Ritimo e Fundação Heinrich Böll – Cone Sul
Apresentação da publicação:
Várias organizações e movimentos sociais que têm uma visão crítica às soluções propostas para os atuais problemas ambientais, dentre elas o mercado de carbono, enfrentam nos territórios onde atuam um grande assédio de programas de empresas e/ou órgãos governamentais. Eles tomam como base o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). Neste contexto, no interior de muitas organizações existem diferentes visões de como tratar esses desafios e dilemas. Para uns, devemos disputar o conceito. Para outros, construir novas abordagens. Há ainda os que defendem que devemos rechaçá-lo.
Este caderno visa aprofundar as discussões e a reflexão sobre essas questões. Tem como material de referência os debates realizados durante uma oficina organizada pela FASE, em maio de 2012, com a participação de organizações parceiras que vêm se debruçando sobre o tema, ou que, independentemente do conhecimento acumulado sobre a matéria, começam a sentir a pressão do assédio dos projetos de PSA. Sem a pretensão de alcançar consensos ou encaminhamentos concretos, o objetivo da oficina foi aprofundar a discussão sobre diferentes propostas, visões e conceitos alternativos ao PSA, somando e fortalecendo as iniciativas e os debates que vêm ocorrendo no Grupo Carta de Belém, na Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), na Via Campesina, no movimento sindical, entre outros. Desta forma, a publicação está dividida em três partes: a primeira com a transcrição das falas dos convidados no primeiro e segundo dias, relativas, respectivamente, aos temas: “Como PSA aparece (ou não) nas pautas de negociação com governo e nas reflexões dos movimentos sociais” e “É possível construir uma alternativa?”. A segunda parte reúne trechos dos pensamentos e debates que surgiram e que ajudam a ampliar a discussão. A terceira indica alguns caminhos pelos quais poderíamos prosseguir o debate. Esperamos que esta publicação contribua para ampliar as reflexões e ações sobre PSA na agenda das organizações e movimentos sociais, bem como para fortalecer as iniciativas que vão ao encontro das construções e lutas históricas da sociedade civil no Brasil, buscando um caminho que alie resistência à formulação de propostas alternativas.
Boa leitura!
Maureen Santos e Letícia Tura

Monday, 15 April 2013

lúcia kawahara - relato de pesquisa de campo

Sub-projeto 5.1.3 – Avaliação Ecossistêmico do Milênio

A TEMPORALIDADE PANTANEIRA

Relatório de Campo: Lucia Shiguemi Izawa Kawahara

Atualmente, a formação de uma consciência da intrínseca relação que o ser humano tem com o seu habitat e o impacto desta interligação na qualidade de vida das pessoas e do ecossistema tem sido buscado no mundo inteiro.  Tais conexões são objetos de pesquisas e debates socioambientais consistindo em pauta das principais discussões políticas em âmbito global.  Como exemplo, podemos citar a Avaliação Ecossistêmica do Milênio – AEM coordenada pela Organização das Nações Unidas – ONU, publicada em 2005, cujos resultados demonstram a preocupante situação da degradação ambiental e os riscos aos seres humanos.
Neste abril de 2013 o Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte da Universidade Federal de Mato Grosso (GPEA/UFMT) retornou ao Pantanal de São Pedro de Joselândia, tendo a oportunidade de experienciar momentos de significativa aprendizagem sobre a importante relação que o ser humano tem com o seu habitat e a qualidade de vida que esta interligação proporciona aos seus habitantes.


Figura 1 – “Menino Pantaneiro” (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

Exatamente há um ano, em março de 2012, pudemos participar da expedição de pesquisa neste mesmo grupo e agora, eis que voltamos às mesmas terras pantaneiras e desfrutamos de momentos de reflexões sobre a diferença de temporalidade que constrói hábitos em diálogo com o habitat, influenciando os habitantes de forma indissociável.
O presente relatório se ancora na minha própria vivência como moradora de um centro urbano, acometido por todos os percalços das reformas de uma cidade que se prepara para a Copa do Mundo e simultaneamente, a experiência desta pesquisadora que vivenciou a imutável tranquilidade de São Pedro de Joselândia.  A narrativa buscará apresentar que, no exato período de um ano, existe de um lado, os desajustes causados pela temporalidade dominante do capital na cidade de Cuiabá que se prepara para a imanente festa do futebol e, do outro, o cotidiano da vida dos moradores da comunidade pantaneira que revelaram a serenidade do conhecimento tradicional para organizarem também uma grande festa, do santo padroeiro que dá nome ao lugar, mas estes sabem dialogar com o ambiente em que vivem sem agredir o seu bem estar.
O indicador de tempo passado, um ano, é uma mensuração que nos servirá de base para construir e compreender esta diferente temporalidade que nos fez entender as principais marcas da distinção entre a vida urbana e a pantaneira. Esta delimitação temporária nos serve de base para narrarmos a compreensão da importância de alguns valores que perdemos na frenética vida citadina. Comungando com Ricoeur (2010), o período de um ano facilitará a reflexão sobre os aspectos que nos fazem apreender algumas importane dimensões esquecidas na vida moderna, pois o tempo só se torna humano através da narrativa.
A capital de Mato Grosso foi eleita como cidade-sede dos jogos da Copa do Mundo de Futebol 2014, com a bandeira “Copa do Pantanal”. Atualmente, Cuiabá está se preparando para mostrar-se ao mundo e atender às exigências das instituições organizadoras como forma de expressar o sucesso e a prosperidade desta cidade. Pela mídia, principalmente, ouvimos muitos cidadãos cuiabanos acreditarem que tal oportunidade em mobilizar recursos poderá desencadear transformações e crescimento econômico na urbe. No entanto, a mídia não dá oportunidade para grupos de cidadãos pronunciarem sobre as questões socioambientais derivadas dessas transformações. A maioria dos moradores está cega às injustiças socioambientais e assim, continuamos aceitando as mazelas da reforma do redesenho urbano.


Figura 2 - Obras da Copa em Cuiabá (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

Não cabe neste relatório discutirmos sobre os conhecidos problemas causados pelos megaeventos como as Copas e Olimpíadas, ou ainda sobre as violações dos direitos humanos das populações mais carentes, bem como os impactos que sempre recaem com maior carga sobre os excluídos da nossa sociedade.  No entanto, ressaltamos que o presente contexto tem causado extremo desgaste e desconfortos diários aos moradores desta cidade, certamente atingindo a qualidade de vida de todos os moradores de Cuiabá.  Sem mencionar a incerteza e insegurança de que tais transtornos não terão resultados almejados para a data da referida Copa, em junho de 2014.
Ao retornar às terras pantaneiras, percebemos que São Pedro de Joselândia também está se preparando para o maior evento coletivo desta localidade: a Festa de São Pedro. No entanto, nesta comunidade observamos que continuava reinando a mesma tranquilidade e segurança sentida no ano anterior.  Este contexto nos levou a refletir o quanto na cidade de Cuiabá nos tornamos escravos da lógica do mercado, patrolados, esmagados e sujeitos à nos submetermos à temporalidade ditada pelo desenvolvimento econômico (PASSOS, 2005) que impõe limites cronológicos alheios às necessidades reais, anseios locais e participação coletiva para a edificação de sociedades democráticas e sustentáveis.
Longe de estabelecer o juízo comparativo entre a cidade (lócus onde moram os pesquisadores deste grupo) e o pantanal (lócus onde mora a comunidade de São Pedro de Joselândia), teceremos reflexões sobre a aprendizagem da importância do respeito à temporalidade local que pode apontar identidade e cultura reveladoras de possíveis alternativas de sustentabilidade (SATO, 2002).
                Nosso roteiro de pesquisa nesta viagem além da observação participativa, incluiu também uma participação na oficina da “Formação Continuada: Educação do Campo e Educação Ambiental” da Escola Estadual Maria Silvina Peixoto de Mouranos nos dias 05 e 06 de abril, no qual pudemos estabelecer uma conversação com os moradores sobre a nossa pesquisa.  Além da oficina, realizamos entrevistas com ex-festeiros que nos revelaram como se preparam para o grande evento anual de São Pedro de Joselândia. Apresentamos aos educadores da escola sobre a Avaliação Ecossistêmica do Milênio - AEM e realizamos um exercício com a metodologia da AEM para avaliar quais relações existiriam entre as Festas Santas e os Serviços Ecossistêmicos.

Figura 4 –reunião com os professores (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)

 Dessa conversação, resultou a elaboração da Tabela 1, que demonstra que as festas santas de São Pedro utilizam ampla e diretamente os serviços ecossistêmicos provenientes de seu próprio território e reafirma a indissociabilidade dos hábitos desta comunidade com o habitat.  Neste caso específico, a lista elaborada pelos educadores se refere à Festa de São Pedro cuja duração é de dois a três dias, realizada todos os anos em torno do dia 29 de junho.
A Festa de São Pedro pode ser avaliada como um grande evento, considerando o porte desta comunidade, pois reúne nestes três dias, um número aproximado de visitantes dez vezes maior do que o número de seus moradores. Apesar de alguns itens da gastronomia ser comprada na cidade, toda infraestrutura e a maior parte da alimentação procede diretamente das terras de São Pedro de Joselândia.  A festa, portanto, no nosso entender, consiste em um Serviço Ecossistêmico Cultural pelas características da indissociabilidade do ritual com o ambiente local (AEM) como podemos conferir na tabela que se segue.

Tabela 1 - Lista de Serviços Ecossistêmicos utilizadas nas Festas Santas
Organização e Estrutura
Serviços de Provisão, Suporte, Regulação
Gastronomia
REFEIÇÕES
(Quebra Torto, Almoço, Churrasco, janta)
pão, biscoito, francisquito, leite, café, queijo, guaraná, sarapatel, revirado de carne, arroz, chá, bolo (milho, polvilho)
bolo de arroz, arroz, feijão, mandioca, macarrão, salada de repolho com tomate, vai-vem de carne, ossada, rabada, costela, churrasco, farofa, maionese, etc)
1.        Água
2.        Arroz
3.        Carne de vaca (miúdos para o café da manhã; menos nobre picado para o almoço; parte nobre assado para o churrasco)
4.        Carne de porco
5.        Carne de galinha
6.        Feijão
7.        Leite
8.        Mandioca
9.        Ovo
10.     Farinha de mandioca
11.     Manteiga/margarina
12.     Queijo
13.     Polvilho
14.     Milho
15.     Vinagre caseiro
Doces (leite, mamão, laranja, caju, goiaba, figo, rapadura)
leite
16.     Mamão
17.     Laranja
18.     Banana
19.     Limão
20.     melado
21.     goiaba
suco
Água
(existem diversas frutas, no entanto não são utilizados nas festas)
Licor
Leite
Ritual Religioso + Baile
Mastro/ Bandeira
22.     Pau de Formigueiro
Procissão, missa, reza com Cururu
Viola de cocho, Ganzá, Mocho
23.     Madeiras
24.     Taquara
25.     Couro
Estrutura/decoração
Churrasqueira
26.     Lenha
27.     Suportes
28.     Espetos
29.     Cobertura da palha de Acuri
30.     Base da churrasqueira e forno- buraco na terra e argila/barro
Forno
Argila da estrutura
Lenha
Mesas e bancos
31.     madeira

Fogão
Lenha de catingueiro
32.     Argila para estrutura
33.     Tacuru
Pia e banheiro
Agua
Alojamento, barraquinhas, empalizado , Xaria (almoxarifado),rancho
34.     Taquara,
35.     Cipó – Tripa de Galinha
Palha de Acuri,
Madeira
Bandeirolas, flores, fitas
36.     Palmeiras decorativo
37.     Bananeiras
38.     Flores

Além do diálogo coletivo com os educadores que elaboraram a lista da tabela acima, realizamos entrevistas com alguns ex-festeiros da comunidade.  A organização da festa é realizada em consonância com o tempo das águas e da seca, uma aprendizagem coletiva alcançada há gerações.  O Sr. Benedito Paulino da Silva (86 anos) é um exemplo da tradição mantida por três gerações de festeiros em sua própria família, o seu pai e seu filho, tal qual ele próprio.  O Sr. Benedito afirma orgulhosamente que quando ajudou o seu pai a organizar a festa, já desejava ser festeiro:
O meu pai já foi festeiro e eu já era casado e eu tinha já uma filha e pensei: quando afirmar minha casa, eu quero fazer a festa para São Pedro.” (Sr. Benedito Paulino da Silva, 86 anos, ex-festeiro).


Figura 5 - Sr. Benedito Paulino da Silva, 86 anos, ex-festeiro (fotos do arquivo GPEA – Lucia Kawahara)
A organização das festas em São Pedro de Joselândia é uma das formas diferenciada da lógica globalizada do capitalismo, distinta, por exemplo, da organização de uma Copa que ocorre em Cuiabá.  As festas tradicionais do pantanal possuem uma estrutura sociocultural de solidariedade, coletividade, honra e cumprimento dos compromissos.  Em São Pedro de Joselândia,  o acordo social e as práticas organizacionais das festas revelam um tradicional laço pantaneiro de fundamental importância na manutenção do orgulho e das relações comunitárias da localidade (GEERTZ, 2001; PASSOS, 2010).
Figura 6 - Sr. Gonçalo e D. Maria festeiros tradicionais de São Pedro (fotos do arquivo GPEA - Lushi)

“Aqui sempre foi assim. É a tradição. E tradição do lugar tem que fazer. É assim, São Pedro já ganhou vinte bezerros, aqui é assim, tudo é de graça. O importante é o povo ser bem tratado sempre.” (Sr. Gonçalo dos Santos – 52 anos, festeiro da Festa de São Pedro de 2013).

                Apesar de alguns moradores começarem a fazer respeitáveis ponderações sobre a necessidade de repensar o exagero no consumo de alimentos e bebidas durante as festas, muitas vezes, acarretando em desperdícios que precisam ser discutidos no bojo da comunidade, todos concordam que a festa é uma forma de manter a alegria e garantir a continuidade das bênçãos de São Pedro sobre a comunidade.
Segundo os entrevistados, as festas de São Pedro de Joselândia concebem uma identidade cultural comunitária, pois elas representam a coletividade, constitui ritual em que gerações foram e são envolvidas.  Neste aspecto, portanto, concordamos com Hall (2006, p. 71): “Todas as identidades estão localizadas no espaço e nos tempos simbólicos.” (2006, p. 71). Aprendemos que as festas significam momentos de confraternização e fortalecimento dos laços comunitários e assim, reafirmando a importância da valorização da identidade e da cultura local como requisitos necessários à construção do orgulho e da vontade de conservar a territorialidade.  Percebemos que tais momentos estão enfraquecidos, por exemplo, na atual preparação da Copa em nossa capital.
CUIABÁ, 14/04/2013

Saturday, 30 March 2013

JAPANESE-BRAZILIANS DIALOGUES AND THE INSEPARABILITY OF ECOSYSTEM SERVICES

SGA NETWORK NEWSLETTER
http://us5.campaign-archive2.com/?u=f18ca32c3f17a69f881946226&id=404b160ac6&e=cf024b1b9e


JAPANESE-BRAZILIANS DIALOGUES AND THE INSEPARABILITY OF ECOSYSTEM SERVICES: LESSONS LEARNED IN TRADITIONAL FESTIVALS OF AUTUMN IN JAPAN

Lucia Shiguemi Izawa Kawahara
Michèle Sato
José Puppim de Oliveira
Koji Nakamura

This brief news reveal the preliminary results we have sought to establish between traditional knowledge and environmental sustainability. The Research Group on Environmental Education, Communication and the Arts at the Federal University of Mato Grosso - GPEA / UFMT in Brazil has conducted research on the intertwining of ecosystem services with the Pantanal’s Traditional Ecological Knowledge (TEK). In the second half of 2012, we extended our eyes to more distant horizons and we were have experienced our research in the lands of the rising sun, Japan. We opened the dialogue with farmers’ Noto Jima (Noto Island), a small island in the Bay of the Noto Peninsula, Ishikawa’s province, in the central-west of the Japanese archipelago, surrounded by Sea or the West Sea Japan, and we have identified an important Cultural Ecosystem Services in evidence, the Akimatsuri - traditional festivals fall.

Akimatsuri - traditional festivals are celebrated on autumn by farming communities in Japan, therefore, happen in almost any Japanese territory at the end of the rice harvest. The festivals are Shinto rituals of thanksgiving and celebration of the good harvest, plenty and prosperity achieved in the community, at which each family joins its members to demonstrate their gratitude that is expressed in abundant distribution offerings to the gods and to fellow banquet.

At festivals, we identified a core catalyst of meanings and values ​​cultivated over thousands of years: the rice. This cereal founded a centre aggregator and developer of the intrinsic relationship between the different types of ecosystem services. Rice is the staple food of the Japanese and their culture is an indispensable tradition in Japanese lands, their culture connotes next to the sacred (BUBER, 1985) and not by chance, this tiny and vital grain to the life of these people, constitutes itself, a supporting ecosystem service, a provisioning food, regulating plant and cultural symbol.  

The Case Study (the festivals fall on the Isle of Noto) was conducted through interviews, observation and dialogue with its inhabitants reaffirmed the hypothesis that it is no longer possible to understand the world and the environmental crisis if we continue to fragment our search (GASKEEL, 2002). In this context, we have learned that urges to find the interconnection phenomena. The ritual of the autumn festival in Japan, as well as the traditional festivals in the wetland in Brazil, reveal traditional knowledge and practices that add complexity in the local culture, respect for the territory and they are symbols of a gift to the own lands.

In Japan, rice is the cornerstone celebration of autumn, it fulfils its role of regulating and support from their own cultivation in traditional ways because of the terraced rice fields provide the maintenance of ecosystem health, as well as conservation biodiversity during the four seasons (figure 1). At the same time, it is provision service and cultural expression in the obligatory presence of thanks and appreciated delicacy of different preparation methods, banquet that satisfies body and soul of the community members.

Photo: Lúcia Kawahara

Rice is, therefore, an essential grain to agriculture, economics, health and culture of the region, linking ecosystem services and making sure the inseparability between culture and nature - and between ecosystems and festivities.

Culture and nature
Autumn water flows
Grain rice gentle grows

(Haiku by Mimi Sato)
….
Acknowledgment:






Pantanal Research Centre (CPP)

*

Monday, 17 December 2012

Objetos da Floresta revela utilidades da Amazônia

((eco))
http://www.oeco.com.br/noticias/26748-objetos-da-floresta-revela-utilidades-da-amazonia?utm_source=newsletter_581&utm_medium=email&utm_campaign=as-novidades-de-hoje-em-oeco


Confecção de objetos a partir dos materiais coletados, com cada participante desenvolvendo sua ideia na direção que mais lhe interessou, como por exemplo o conceito, a forma ou a funcionalidade. Foto: objetos da floresta.
Grande parte da produção industrial atual não se preocupa com o ciclo de vida dos materiais e tampouco se importa com relações culturais dos indivíduos com os objetos. Mas apesar das inúmeras “quinquilharias” produzidas por este sistema, ainda é possível vislumbrar na Amazônia brasileira a produção de muitos artefatos que nasceram dentro, e no ritmo, da natureza.

Tamanho antagonismo foi o que motivou Andrea Bandoni, mestre em Desing Conceitual pela Design Academy Eidhoven na Holanda e Arquiteta pela FAU USP, a percorrer 2 386 km em busca deste preciosos objetos.

Como numa brincadeira de “caça-ao-tesouros”, o primeiro deles foi encontrado em Belém, capital do Pará. Exposto numa banca do mercado Ver-o-Peso, o “tipiti” despertou a curiosidade de Andrea. Ela descobriu que o instrumento de palha é usado para tirar a água da mandioca na produção artesanal de farinha, um objeto indispensável durante muito tempo para a sobrevivência na região amazônica. O “tipiti” foi o estalo que a designer precisava para escrever o projeto Objetos da Floresta.

“Fiquei pensando que deveria haver outros objetos como esse desconhecido para mim, que mostram uma surpreendente e equilibrada relação entre homem e a natureza. Quis explorar a região amazônica para encontra-los”, disse em entrevista ao ((o))eco.

Criado com a proposta de registrar e divulgar objetos que estejam intimamente relacionados com a realidade da floresta amazônica brasileira de maneira sustentável, o Objetos da Floresta documentou através de um e-book bilíngue (inglês e português) uma amostra de produtos inusitados, mas muito úteis.

Como numa homenagem, o “tipiti” abre a exposição de 12 objetos confeccionados nos mais diversos materiais: casa de caba, cuia, língua de pirarucu, apito, rede, panacu e jamaxim, cuia-de-macaco, tecido, espata de palmeira e o brinquedo de mirit. Todos registrados com detalhes que vão desde sua composição a utilidade.

 “Cada dia uma nova descoberta me esperava, seja um objeto diferente, um material que eu nunca havia imaginado ou um processo de confecção extremamente limpo”, lembra a designer.

Segundo Andrea, o projeto não teve a pretensão de fazer um mapeamento preciso, nem de colocar os objetos como os únicos ou como sendo os mais importantes da região. “A seleção foi feita com base no que foi encontrado”, diz.

Para chegar as descobertas, a design dividiu o projeto em três frentes de execução. Durante um mês realizou uma viagem exploratória visitando pontos estratégicos na Amazônia brasileira, com a intenção de identificar e registrar objetos contemporâneos que tenham uma relação única com a natureza e que sejam representativos da cultura material local.

Após essa primeira etapa, Belém e Manaus sediaram workshops gratuitos voltados para designers, arquitetos e criadores, que ajudaram a selecionar os produtos que compuseram o e-book, última etapa do projeto.

Nova referência
 “Vivemos num mundo  extra-saturado de objetos, imagens e símbolos, sem mais espaço para lixo. É papel do designer imaginar um novo sistema, pós-industrial, considerando como os materiais podem não apenas deixar de prejudicar pessoas e ambiente, mas também como podem ter impacto positivo”, diz Andrea.

A designer conta que para chegar nesse “patamar” ainda há muito que percorrer dentro da profissão. Mas em busca de referencias, designer de todo o mundo estão se aproximando da natureza, assim como um cientista natural, para identificar oportunidades, descobrir novos materiais, texturas e processos, repensar o uso dos recursos e produzir artefatos mais adequados e representativos para a atualidade, explica Andrea.

E neste ponto, os designers brasileiros saem na frente. “Na maior e mais diversa floresta do mundo, a Amazônia, é possível ver de perto e interferir em processos naturais. Acho que para abrir os olhos para esta riqueza é preciso simplesmente estar interessado nela”, anima-se.