Monday, 12 August 2013

E se a carne puder ser cultivada?

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E se a carne puder ser cultivada?

130811-LabHamburgerComo se produziu, em nome dos direitos dos animais e da natureza, primeiro hambúrguer de laboratório. Quais as possibilidades de o experimento prosperar
Por Taís González
O primeiro hambúrguer produzido em laboratório foi apresentado ao mundo e degustado na última segunda-faira (5/8), em uma conferência científica transmitida ao vivo em Londres. O cientista por trás do feito histórico é Mark Post, da Universidade de Maastricht, na Holanda. O valor total do experimento foi cerca de R$ 770 mil, pago pelo cofundador do Google (e hoje seu diretor de Tecnologia), Sergey Brin.
O chef encarregado de cozinhar, Richard McGeown comentou que o hambúrguer era um pouco pálido, mas apetitoso. Voluntário na degustação, o jornalista Josh Schonwald, que escreve sobre gastronomia nos EUA, sustentou que o produto é parecido com o de carne bovina tradicional; porém, “falta gordura”… Já a nutricionista austríaca Hanni Ruetzler, outra voluntária, achou o gosto próximo ao da carne de vaca, com consistência “perfeita”, entretanto, não tão suculento.
A receita – A equipe holandesa retirou um pequeno tecido muscular, a partir de células-tronco de vaca e as colocou em uma cultura (solução) com nutrientes, para promover o crescimento e multiplicação das células. Após três semanas, as mais de um milhão de células-tronco geradas foram divididas e colocadas em recipientes menores. As células já crescidas transformaram-se em pequenas tiras de músculo, de aproximadamente um centímetro de comprimento e alguns milímetros de espessura. As tiras foram então coletadas, unidas em pequenos montes e congeladas. Quando em quantidade suficiente, foram descongeladas e compactadas na forma de hambúrguer. Acrescentou-se açafrão e suco de beterraba para dar cor e sabor. O processo durou cerca de três meses.
Crueldade animal e meio ambiente – De acordo com Mark Post, o próximo passo será melhorar a eficiência do processo de crescimento celular – e também o sabor, acrescentando células adiposas (que armazenam gordura). Ele quer criar carne de “cortes”, mais grossas, tais como bifes. O cientista acredita que o cultivo de carne em laboratório é uma necessidade ética, econômica e alimentar. “As primeiras indicações mostraram que a carne de laboratório poderá reduzir a necessidade de terra e água em 90%, e o consumo de energia em 70%, em relação à produção convencional”.
Para Sergey Brin, as razões de financiar a produção estão no bem-estar animal. Ele lembrou que as pessoas ainda têm uma imagem irreal da produção de carne, imaginando “fazendas bucólicas” com apenas alguns animais. “Quando você vê como essas vacas são tratadas… Realmente, isso é algo com que não me sinto confortável”, comenta.
Em entrevista à BBC, a professora Helen Breewood que atua com Post nos estudos, frisou que, apesar de ajudar em um projeto da carne de laboratório, é vegetariana. Ela acredita que a produção de carne gasta muitas fontes de energia e afirma que, se comesse proteína animal, iria preferir a que poderá ser feita pelo novo método, em experimentação. “Muita gente considera carne feita em laboratório repulsiva num primeiro momento. Mas se soubessem o que acontece nos abatedouros para a produção de carne normal, também achariam repulsivo”, ressalta.
Em nota, o grupo Peta, sigla inglês de “Pessoas pela Ética no Tratamento dos Animais” (People for the Ethical Treatment of Animalscomentou favoravelmente as perspectivas desse tipo de carne. “Além de eliminar os milhões de abates de animais a cada ano, a carne de laboratório acabaria também com o desmatamento florestal para a pecuária, conservaria grandes quantidades de água e energia e reduziria as emissões de gases de efeito estufa para a produção de carne entre 78% a 96%”.
Conforme estimativas da FAO (Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), a população global aumentará para 9 bilhões até 2040 e o número de consumidores da classe média em 3 bilhões, nos próximos 20 anos. Até 2030, o mundo precisará de no mínimo 50% mais alimentos, 45% mais energia e 30% mais água — tudo em um momento no qual os limites ambientais estão sendo intensamente pressionados.
Apesar dos pesquisadores dizerem que a tecnologia poderia ser uma forma sustentável para suprir a crescente demanda por carne, críticos da ideia dizem que comer menos carne seria o jeito mais fácil para compensar a já prevista falta de comida no mundo. 
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