Tuesday, 6 August 2013

Proletários do giz

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Proletários do giz

Quando mestre de literatura no colegial, nos anos 1960 e 70, Alfredo Bosi oferecia Camões aos alunos. E recebia em troca Gigantes Adamastores empoleirados nas cadeiras, recitando estrofes completas do poeta português. Era sua voz contra a "pedagogia da preguiça", que dava o mínimo do mínimo à juventude, quando ela estava pronta para o máximo.
Professor há quatro décadas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ele continua num traçado pessoal pela qualidade do ensino. Daí sua preocupação com o resultado do último Índice de Desenvolvimento Humano das cidades brasileiras, que aponta a educação como a bigorna a puxar o índice para baixo.
Não é questão de distribuir kits e comprar mais computadores. Nem de sair às ruas pedindo Mais Professores, nos moldes do Mais Médicos. Para ele, falta valorizar econômica, social e culturalmente a profissão que seus alunos da faculdade não querem mais seguir. "O punctum dolens ainda é o desestímulo sofrido pelo professor pelo excesso de trabalho, quase sempre em mais de uma escola, e pela angustiante falta de tempo para preparar as aulas e acompanhar de perto o aproveitamento dos alunos." Sem retorno, eles preferem trabalhar em empresas, laboratórios ou em pesquisa avançada. Não aceitam ser proletários do giz e da lousa. Ou do pincel atômico e do power point, que seja.
Este elegante imortal de 76 anos também refletiu sobre a avaliação dos alunos, "que passou de um extremo a outro, ambos lastimáveis", e sobre o repasse dos royalties do petróleo, "que precisa ser administrado à altura das nobres intenções que o motivaram". Refletir, aliás, é algo que cultiva em toda a sua carreira de crítico literário, historiador, ensaísta e ponto de resistência durante a ditadura, quando reunia padres, sindicalistas e intelectuais em sua casa em Cotia, onde mora. Em setembro ele voltará a matutar em conjunto no Colégio do Brasil, no Rio de Janeiro. Ali começam as reuniões do Círculo do Pensamento, bolado por 20 intelectuais - Bosi entre eles - para lutar contra a "dieta reflexiva de astronauta dos nossos tempos", como afirma o escritor Eduardo Portella. Dieta rala, modesta, que Alfredo Bosicertamente vai encorpar: "Ele é um homem de literatura que se distingue pela capacidade de pensar", finaliza o também professor Portella.
A entrevista foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo, 04-08-2013.
Eis a entrevista.
O IDH avançou 47,8% no Brasil. No entanto, a educação ainda é apontada como um entrave, pois se mantém num degrau médio. Como soltar esse freio de mão?
Como professor secundário e universitário que fui durante quatro décadas, pude observar de perto tanto os pontos altos como as carências dessa área capital para o desenvolvimento e qualidade de vida de nosso povo. Os pontos altos encontram-se, em geral, no ensino superior e, mais particularmente, nos cursos de pós-graduação. Quem acompanha a produção em várias áreas de pesquisa dita "de ponta", e o trabalho intenso desenvolvido por agências como Fapesp, CNPq, Finep, não pode deixar de alimentar esperanças em termos de nível intelectual, que, em alguns casos, iguala o de centros universitários de reputação internacional. No entanto, quando voltamos o olhar ao ensino primário e secundário, temos um panorama inquietante em que as exceções, embora honrosas, são ainda poucas.
Ao mesmo tempo, a educação foi o indicador que mais teve avanço desde 1991.
Os índices apontam para um avanço significativo ocorrido nestes primeiros anos do século 21, fato em si mesmo alvissareiro. Houve, de fato, um progresso quantitativo, pois, salvo em alguns bolsões de extrema pobreza, pode-se dizer que quase toda a população em idade escolar está nas salas de aula. Mas também fica evidente que há muito por fazer em termos de qualidade para chegarmos a um patamar suficiente, se comparamos nossa situação com a de outras nações, não só com as desenvolvidas, mas com algumas de economia modesta, como Uruguai, Cuba, Chile e Costa Rica. O crescimento econômico medido em termos de PIB não é garantia de uma política enérgica de educação, para a qual o valor prioritário deve ser a formação intelectual e ética do cidadão.
Em que estamos patinando?
Há muito tempo venho me preocupando com o diagnóstico dos males de nossa educação fundamental. Em artigos que escrevi para a Folha de S. Paulo (O Ponto Cego do Ensino Público) e para o Jornal do Brasil (Educação: as Pessoas e as Coisas), relatei os resultados de uma pesquisa que fiz registrando os salários dos professores dos cursos básicos em todo o País. Até os anos 1990, a maioria absoluta dos nossos mestres-escola não ganhava sequer um salário mínimo mensal. Eram proletários do giz e da lousa, que precisavam dar um número altíssimo de aulas para receberem um salário que significava então metade e às vezes um terço do que recebiam os docentes universitários em início de carreira. Era uma desproporção injusta e lesiva para o professor, para os alunos e para toda a sociedade brasileira. A pesquisa tocava no ponto cego do nosso ensino público: a desvalorização econômica, social e cultural do professor como o fator mais significativo do baixo rendimento do sistema educacional.
O que mudou de lá para cá?
A política dos poderes estaduais e municipais, que são os responsáveis pelo ensino básico, continuou subestimando a questão da valorização efetiva, e não só retórica, do professorado. Atribuiu-se equivocadamente o insucesso escolar a problemas de saúde do aluno pobre ou à "carência cultural" de suas famílias. Ou, então, especialistas em pedagogia davam excessiva importância ao uso deste ou daquele método de alfabetização, deste ou daquele sistema de ensino de matérias fundamentais como a matemática, a história, as ciências. Eram fatores relativamente importantes, mas desviavam a atenção para o que é essencial. O punctum dolens era e ainda é o desestímulo sofrido pelo professor pelo excesso de trabalho, quase sempre em mais de uma escola, e pela angustiante falta de tempo para preparar suas aulas e acompanhar de perto o aproveitamento dos alunos. A distribuição de kits, livros, computadores e material escolar não deve substituir uma política corajosa de elevação salarial e valorização social do professor. As coisas por si sós não movem o processo educacional: o centro vivo são as pessoas, sua vontade cidadã de contribuir para o desenvolvimento intelectual e moral do jovem aluno.
No molde do ‘Mais Médicos’, a população deveria ir às ruas pedir ‘Mais Professores’?
Não sei se é o caso de reclamar por "mais professores", embora me pareça razoável, salvo melhor juízo, que em alguns municípios carentes se reclame por mais médicos. O fato é que em escolas de periferia de São Paulo (não conheço a situação de outros Estados) muitas classes ficam sem docentes de matérias fundamentais como português e matemática, porque os professores contratados faltam às aulas com uma frequência inquietante. Pergunto se não é o caso de pesquisar as causas desse comportamento que, de minha parte, se deveria atribuir ao desânimo de profissionais que ganham mal e não recebem do Estado o respeito e o estímulo de que necessitam para enfrentar as dificuldades cotidianas de seu trabalho. Como professor de uma das melhores faculdades de letras e humanidades do País, verifico que grande parte dos alunos graduados em matérias humanísticas e literárias não escolhe o magistério primário e secundário como carreira prioritária, embora tenha recebido formação específica para exercê-la. Há situações semelhantes entre alunos formados em matemática, física, química, biologia. Preferem trabalhar em empresas, laboratórios ou pesquisa avançada e dão as costas para a missão de transmitir seus conhecimentos em condições que estão aquém de suas expectativas profissionais. Trata-se de um sintoma de desistência do magistério, que precisamos interpretar corretamente para passar do diagnóstico à terapia.
Qual é o seu diagnóstico sobre o aprendizado do aluno?
Do ponto de vista estritamente pedagógico, a avaliação do aluno passou de um extremo a outro, ambos lastimáveis. Com a boa intenção de minorar o mal da repetência, endêmico até os anos 1990, algumas Secretarias de Educação optaram por um sistema de tolerância máxima pelo qual se evita sistematicamente reprovar todo e qualquer aluno, aprovando-o "para inglês ver", isto é, para parecer que o ensino foi bem-sucedido e fazer esse êxito numérico constar das estatísticas escolares. A situação assemelha-se à triste farsa dos que fingem que ensinam e dos que fingem que aprendem. Já é consenso lamentar que boa parte dos alunos que chegam ao último ano do ensino fundamental ainda tenha problemas graves de alfabetização, leitura, escrita, raciocínio matemático, etc. Parece-me que o bom senso exige uma revisão de alguns procedimentos automáticos e irresponsáveis desse processo que está desmoralizando o ensino básico brasileiro. O maior gargalo parece ser o da passagem do ensino fundamental para o médio. Mas não devemos desanimar, pois a qualidade da educação pública já foi excelente até os anos 1950, antes da explosão da sociedade de massas. Se não podemos voltar atrás, pois as condições objetivas são tão diferentes, devemos pelo menos apostar em estratégias que se ajustem às necessidades atuais, trabalhando nas duas pontas: valorizando o professor e oferecendo ao aluno o que ele merece, sem deixar de exigir o que ele pode dar.
Por que a inclusão social brasileira dos últimos 20 anos não atingiu a população nesse particular? Ainda vigora entre nós uma cultura escolar elitista?
Quando se fala em "cultura escolar elitista", pensa-se na questão candente da exclusão escolar e cultural. O remédio proposto ultimamente é o das cotas concedidas a alunos de famílias de baixa renda, provenientes de escolas públicas, e de preferência não brancos, negros e índios. A matéria é controversa e não sei se poderia tratá-la nesta entrevista, na medida em que me faltam dados confiáveis para avaliar o que está acontecendo e sobretudo o que vai acontecer a partir da concessão obrigatória das cotas. É sempre problemático querer resolver um mal pelo seu efeito final, no caso, a dificuldade de um aluno (prejudicado pelas condições acima descritas) superar a barreira de um vestibular público. O que me parece absolutamente necessário é dar a todos os alunos do ensino médio condições intelectuais para concorrerem em qualquer tipo de vestibular. Em outras palavras, enfrentar corajosamente a situação desfavorável do aluno da escola média pública quando confrontada com a das escolas particulares escolhidas pela alta classe média. A revolução educacional tem de começar de baixo para cima. O que é, sem dúvida, mais difícil e mais demorado do que remediar, pelo alto, uma situação desequilibrada que vem de longe. Em educação, democracia significa dar igualdade de oportunidades de conhecimento a todos os cidadãos sem distinção de idade, cor, gênero, nacionalidade ou renda familiar.
Como resposta às manifestações, a presidente Dilma apontou o uso dos royalties do petróleo na educação como um dos cinco pactos firmados com prefeitos e governadores. Esse montante, porém, só estará disponível em 2020. E questiona-se a forma como será aplicado. A educação já faz parte da agenda estratégica dos governos? Quero dizer, falta-lhes apenas mais dinheiro?
Espero que o grande aporte ao sistema educacional, proposto pela presidente Dilma, relativo aos royalties do pré-sal, seja administrado à altura das nobres intenções que o motivaram. E que, na hora decisiva da distribuição das verbas federais, as redes sociais e o Ministério Público fiquem atentos aos desvios que tantas vezes os executivos municipais operam, à socapa, canalizando o dinheiro concedido à educação para a prática do nepotismo e a construção de obras eleitoreiras. Finalmente, que seja equacionado com justeza o problema da valorização econômica do professor primário e secundário.
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