Saturday, 23 November 2013

Por que deixamos Varsóvia

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Por que deixamos Varsóvia

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Ao retirarem-se das negociações climáticas, movimentos por justiça global mandaram recado: não aceitaremos mais farsas. E voltaremos mais fortes
Por Jamie Henn, da YesMagazine | Tradução: Inês Castilho
Estou sentado em um espaço de convergência no centro de Varsóvia, a um quilômetro e meio do Estádio Nacional, onde, nas duas últimas semanas, negociadores do mundo inteiro foram incapazes de conseguir qualquer progresso na última rodada da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas.
Cai a noite, e a maioria dos ativistas que estão aqui quase enlouqueceram nas últimas semanas de negociação, mas a sala ainda vibra de energia. A meu lado, Evelyn Araripe, ativista e jornalista do grupo brasileiro Viração, rememora os acontecimentos do dia. Do outro lado da sala, um grupo de jovens do Friends of the Earth (Amigos da Terra) planeja suas próximas atividades. No andar de baixo, as pessoas conspiram sobre os vídeos e entrevistas que pretendem fazer amanhã.
Aqui é onde está acontecendo o verdadeiro enfrentamento das mudanças climáticas: um prédio velho, meio caído, perto da principal rua comercial de Varsóvia. Nosso cenário não tem a ordem das estéreis salas plenárias da Conferência das Partes 19, mas é repleta de criatividade e determinação.
Especialmente agora. Faz apenas algumas horas que grande parte das organizações da sociedade civil abandonou a COP19, para protestar contra a falta de progresso nas conversações. Em particular, contra as manobras dos grandes poluidores, tais como Austrália e Japão, para abandonar seu compromisso de cortar emissões de CO²; a falta de financiamento para os países em desenvolvimento; e o domínio exercido pelas corporações sobre um processo supostamente criado para representar as vozes dos povos do mundo.
Nosso anfitrião, o governo polonês, não apenas permitiu que corporações patrocinadoras estampassem seus logos por todo lado, nas salas onde ocorreu o encontro, mas chegou ao ponto de se aliar à Associação Mundial de Carvão para sediar uma grande cúpula sobre o combustível, lado a lado com as negociações sobre o clima. É o equivalente a montar uma feira de armamentos junto com uma conferência mundial de paz – o que gerouprotestos, naturalmente.
De modo que hoje, com camisetas onde se lê “Polluters Talk, We Walk“ (Quando os poluidores Falam, nós saímos), algumas das maiores organizações ambientais – Greenpeace, Oxfam, Friends of the Earth, 350.org etc.— uniram-se a grupos como ActionAid, redes de trabalhadores como Confederação Internacional de Sindicatos, movimentos do Sul Global como Aliança Pan-Africana pela Justiça Climática e jovens de todo o mundo, para deixar a conferência.
Foi uma condenação a essas conversas em particular, não a todo o processo da ONU. Atrás, em nossas camisetas, pode-se ler “Volveremos”, em espanhol – mais fortes e poderosos que nunca. Não abandonamos nossa esperança nas negociações climáticas da ONU, mas essas reuniões eram uma farsa, e sabemos que elas não vão construir um processo relevante até que digamos basta à indústria de combustíveis fósseis e acabemos com seu domínio sobre nossos governos e economias.
A amplitude e o alcance da paralisação de hoje foram um acontecimento sem precedentes no processo da ONU. Grupos isolados já abandonaram as negociações climáticas, no passado (perdi a conta de quantas vezes grupos como Friends of the Earth ou 350.orgmarcharam, protestaram ou foram expulsos de reuniões). Mas nunca antes tantos grupos, de ONGs gigantes como a World Wildlife Federation (Federação Mundial para a Vida Selvagem) a movimentos sociais de todo o Sul Global marcharam juntos com uma só voz. A ação de hoje foi pequena – o abandono de uma conferência –, mas significou outro nível de unidade no movimento climático global.
Depois de deixar as conversações, centenas de nós viemos para o espaço de convergência partilhar nossas percepções sobre o dia e nos comprometer com o duro trabalho que temos pela frente. Estamos exigindo um bocado dos nossos líderes políticos: financiamento de verdade, forte redução das emissões, novos mecanismos para lidar com as perdas e os prejuízos causados pelas mudanças climáticas. Precisamos também exigir muito de nós mesmos: outro nível de colaboração, vontade de correr riscos, e foco na mobilização de um movimento poderoso nas capitais mundo afora.
Sabemos que não estamos sós. Já estão chegando, neste momento, as fotos das vigíliasWe Stand With You (Estamos Com Vocês), que acontecem em todo o mundo para honrar as vítimas do Tufão Haiyan e demandar ação imediata contra o aquecimento global.
Esta é a sétima vez que venho a uma conferência climática anual da ONU, e é difícil não haver uma depressão em massa com todo o processo. O progresso é lento, as coisas desmoronam. E apesar disso, este ano há algo diferente no ar.
Pela primeira vez, parece que realmente sabemos quem são os inimigos. É a indústria de combustíveis fósseis – e estamos começando a ir atrás deles seriamente, fazendo de campanhas de desinvestimento à obstrução de dutos.
Lutar contra as mudanças climáticas é difícil, mas, sentado em salas como esta, cercado por ativistas de todo o mundo que estão empenhando seus corações e vidas nesta luta, é difícil não se sentir otimista. Com sempre diz Bill McKibben, não tenho certeza de que vamos ganhar, mas vamos provocar uma briga infernal.
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