Friday, 25 April 2014

água e o imaginário: simbologias e mitologias

museu de ciecnia - usp

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A Água e o Imaginário: Simbologias e Mitologias

Prof. Dr. Antonio C. Diegues – 18/10/2005
Museu de Ciências da USP (MC-USP)
www.usp.br/mc
“A água, sobretudo a água doce, na nossa sociedade é considerada uma mercadoria, um recurso, alguma coisa à qual se atribui um valor monetário; isso na sociedade urbana industrial. Nas outras sociedades pré-industriais a água participa de um universo simbólico, isto é: alguma coisa que tem valor em si e geralmente é um dom da divindade e quando a água, por uma ou outra razão vem a faltar é à divindade que se dirige para que ela conceda a água. Então existe uma diferença muito grande, não é, naquilo que se tornou um elemento banal da nossa sociedade, ao se abrir a torneira sai a água. Mas nessas sociedades pré-urbanas, geralmente sociedades rurais, mesmo no Brasil; são as sociedades indígenas, os caiçaras, os ribeirinhos, os sertanejos, a água é um elemento vital. E na sociedade como um todo, a água sempre participou dos grandes mitos, das grandes histórias da criação da própria humanidade. A água é considerada um elemento um pouco informe, um elemento que não tem forma a não ser na própria criação; é na água que se criam os seres e muitas dessas [hirofânias], desses mitos. Então a água passa a ter um elemento simbólico muito grande. Mesmo no Brasil, que a gente acha que as sociedades são mais urbanizadas, sobretudo nas últimas décadas, nós temos inúmeros mitos e lendas que falam da importância da água. Então a Mãe d’água, a Iara, na Amazônia… e essas lendas são importantes pra explicar o valor que essas sociedades atribuem à água; na verdade um valor muitas vezes religioso.
As águas não são únicas e não são da mesma espécie. Existem águas que são salgadas, águas que são doces e águas que são salobras, misturadas. E cada um tem… cada uma dessas águas tem o seu imaginário. Por exemplo, em muitas culturas o mar é quase sempre masculino, é um elemento de poder. O mar, em alguns mitos, é o elemento que sequer foi dominado por Deus, tanto que na Bíblia, no Jardim do Paraíso não existe mar, existem rios. E esse mar é sempre um elemento que ao mesmo tempo pode ser um elemento de calma e em um momento se transformar em um elemento extremamente violento, através das tempestades e que põe em risco a vida humana. Então o mar participa dessa mitologia enquanto um elemento masculino. Já as águas de lagunas, lagoas e estuários são consideradas femininas. Por quê? Porque a lagoa é considerada sempre um local de mais calma, raramente existem ventanias e tempestades.
A água doce é provavelmente a água à qual o homem mais atribuiu símbolos na história. Por quê? Porque é água a qual o homem depende mais diretamente, então o sagrado está muito ligado ao surgimento da água doce e do uso da água doce. A gente poderia se lembrar, por exemplo, que a maioria dos santos católicos e, sobretudo das santas, sobretudo a Virgem Maria, aparece em grutas e fontes de água doce. Então essas águas são todas com características diferentes, todas elas têm símbolos e imagens diferentes; é o elemento que traz a vida e que também pode levar a vida, isto é: pode causar acidentes, estragos, por exemplo, a própria história do dilúvio é uma história que trata da destruição da vida na Terra pela água. Então a água é também um elemento ambíguo; ela é importante, ela é sagrada, mas ao mesmo tempo ela pode ser doce e perigosa”.
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