Thursday, 10 April 2014

Herman - Relato ClimBAP-INAU

Este é nosso relato da experiência de pesquisa de campo em São Pedro de Joselândia, pertencente ao município de Barão de Melgaço/MT no pantanal mato-grossense, se insere numa pesquisa de caráter qualitativo sobre as "Manifestações artísticas e os processos de etnoaprendizagem nas comunidades de áreas úmidas" que, por sua vez, pertence ao escopo do projeto "Ciência na Reinvenção Educomunicativa". Tem como objetivo investigar o estado da arte dos saberes e fazeres intrínsecos ao universo da viola-de-cocho no pantanal mato-grossense supondo-se que:
  • Há condições e contextos muito específicos no recorte temporal e territorial que referem e são referidos desde a confecção deste instrumental musical (unicidade, univocidade, unidade...) até os momentos em que ele é requerido como suporte às manifestações artísticas de caráter religioso em que pese a indissociabilidade entre sacro e profano;
  • Estas condições e contextos têm sido modificados ao longo do tempo, mas principalmente nos últimos 60 anos por conta de profundas modificações ecossistêmicas face às pressões do capitalismo que, por sua vez, se manifesta na perda do direito à cidade conforme preconiza Lefebvre (1969).
A metodologia utilizada nesta investigação é de cunho fenomenológico (MERLEAU-PONTY, 1971) e implica em mergulhos e diálogos junto às pessoas ligadas ao universo da viola-de-cocho, sobretudo em relação à percepção de, ao menos, dois processos em trânsito neste saber-fazer. O primeiro de caráter estritamente educativo que implica numa pedagogia musical da qual já temos algumas notícias tanto na literatura (CONDE; NEVES, 198[4]; PRASS, 1996; ARROYO, 1998; OLIVEIRA, 2009) quanto em relação a nosso informante Galasso. O segundo, relativo à percepção sobre Trabalhos Ecossistêmicos de Cultura e Provisão na medida em que seus elementos constituintes estejam em franca e rápida modificação em virtude das Mudanças Climáticas.

Cabe ressaltar que a separação entre o ambiente educativo e o ambiente ecossistêmico (chamemos assim) foram separados neste primeiro momento apenas para efeito de entendimento do que está em jogo, não havendo separação real entre a pedagogia musical do saber-fazer (confecção e execução) da viola-de-cocho e os trabalhos ecossistêmicos que ela implica.
Em relato de campo anterior, aventamos a hipótese (que vai se confirmando) acerca da pressão dos sistemas urbanos sobre a ruralidade e que, em virtude da hegemonia de uma lógica capitalista, vem aos poucos perdendo espaços simbólicos e naturais. Entre outros motivos, mas evidentemente em virtude do isolamento territorial, São Pedro de Joselândia é provavelmente um dos refúgios de formas de saber, conhecer e fazer que remontam à pré-modernidade e onde se revelam relações sustentáveis numa perspectiva comunitária e das relações que se constroem no enredamento da comunidade: comunicação, compartilhamento de códigos que implicam numa observância mais estrita da linguagem para a estabilidade da comunidade (BAUMAN, 2003). Ora, se atentarmos para alguns pontos dos Trabalhos Ecossistêmicos veremos que os elementos constituintes do bem-estar humano (MILLENNIUM ECOSYSTEM ASSESSMENT, 2005) apontam para:

  • Segurança;
  • Materiais básicos para uma boa vida;
  • Saúde; e
  • Boas Relações Sociais.
Ainda que os sistemas urbanos pressionem fortemente a comunidade é possível perceber índices que resistem na perspectiva da re-existência de Porto-Gonçalves (2004) e que se traduzem na manutenção da temporalidade e de um sentido de identidade em relação com o lugar, portanto também em manutenção de continuidade de uma territorialidade (HAESBAERT, 2005). Neste caso, territorialidade subjacente ao valor de troca enquanto relação simbólica e de significados entre sujeito e lugar, lembrando que essas relações não são exatamente estáveis nem homogêneas, mas variam em função da forma como cada indivíduo percebe e recepciona os sistemas urbanos aventados acima.
Esses sistemas urbanos podem ser observados em pequenas modificações de comportamento, por exemplo, na medida em que Cururu e Cururueiros perdem a primazia e centralidade da festa (pra não dizer a univocidade) para dar lugar ao "baile". Ora, num passado não muito distante (20 a 30 anos), a festa era realizada apenas com viola de cocho, ganzá e adufe[1], com cururu e siriri. Esta relação estaria intimamente associada ao catolicismo popular e ao domínio de beatos, padres leigos, tiradores de reza enquanto herdeiros de tradições medievais pré-modernas (LE GOFF, 1996). A perda deste status ocorre concomitante à dessacralização da natureza onde os trabalhos ecossistêmicos nas comunidades biorregionais (SATO, 2005) são mais sentidos e mais intrínsecos. Até onde esta pesquisa alcança, em termos metodológicos e epistemológicos, não há nenhuma possibilidade de ferir um trabalho ecossistêmico e seus elementos constituintes isoladamente, ou seja, sem que uma cadeia de modificações se opere entre si, ainda que a perda possa ser maior ou menor em cada grupo, elemento ou situação específica.
Se a viola-de-cocho apenas estivesse inserida em determinado espaço e tempo como mero objeto ela não participaria ativamente das dinâmicas que a cercam, mas seria apenas e tão somente um estar ali sem possibilidades de alcançar e, portanto, constituir-se como e no ali-agora de Benjamin (2012)Oras, há um elemento vivo no objeto, que é tomado de empréstimo pelos sujeitos que o empunham, do e no próprio contexto espaço-temporal e que o aproxima de um aqui-agora aurático na perspectiva de Benjamin (2012). Se pudermos criar uma analogia entre o "aqui-agora" de Benjamin e a educação ambiental no viés antropofágico oswaldiano será possível observar de maneira bastante crítica e eficaz a maneira como se constituíram ou mesmo ainda se constituem os processos de dessacralização da natureza, enquanto ruptura das condições relacionais humano-natureza dentro do sistema de troca-dádiva (MAUSS, 2001).


[1] Instrumentos musicais da ordem dos: cordofones, idiofones e membranofones, respectivamente. Geralmente fabricados por pessoas das comunidades ligadas às manifestações artísticas citadas aqui e que são, por óbvio, sujeitos desta pesquisa. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARROYO, Margarete. Representações sociais sobre práticas de ensino e aprendizagem musical: um estudo etnográfico entre congadeiros, professores e estudantes de música. Tese submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Música. Porto Alegre: UFRGS, 1999.

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Trad.: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. 1 reimpr. Porto Alegre: Zouk, 2012.

CONDE, Cecília; NEVES, José Maria. Música e educação não-formal. Pesquisa e Música: Revista do Centro de Pós-Graduação do CBM. Rio de Janeiro, v.1, n.1, pp.41-52, 1984/85.

HAESBAERT, Rogério. Da Desterritorialização à Multiterritorialidade. In: X Encontro de Geógrafos da América Latina, 2005, São Paulo. Anais do X Encontro de Geógrafos da América Latina, 2005. p. 6774-6792.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Editora Documentos, 1969.

LE GOFF, Jacques. História e memória. 4ª ed. Tradução de Bernardo Leitão et. al. Campinas: UNICAMP, 1996. Título original: Storia e memória.

MAUSS, Marcel. O ensaio sobre a dádiva. Rio de Janeiro: Edições 70, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1971.

Millennium Ecosystem Assessment, 2005. Ecosystems and Human Well-being: Synthesis. Island Press, Washington, DC.

OLIVEIRA, Herman Hudson de. Aprendizagem musical na Dança do Congo do Quilombo Mata Cavalo/MT. In: SOUZA, Cássia Virgínia Coelho de. Percursos da Música: múltiplos contextos de educação.1 ed. Cuiabá: EdUFMT, 2013, p. 113-130.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. O desafio ambiental. Rio de Janeiro: Record, 2004. (Coleção Os porquês da desordem mundial. Mestres explicam a globalização).

PRASS, Luciana. Saberes musicais em uma bateria de escola de samba: uma etnografia entre os Bambas da Orgia. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.

SATO, Michèle. Biorregionalismo. In: FERRARO, L. (Org.) Encontros e caminhos - Formação de educadores(as) ambientais e coletivos educadores. Brasília: Diretoria de Educação Ambiental, MMA, 2005.

WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. Uma outra história das músicas. 2º Ed. 5ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
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