Tuesday, 3 December 2013

Baderna, substantivo feminino

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Baderna, substantivo feminino

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A curiosa origem de uma palavra só existente no português do Brasil. E algumas reflexões preocupadas sobre relação entre esquerda e feminismo
Por Marília Moschkovich
As manifestações de junho serão certamente o episódio mais lembrado nas retrospectivas de 2013, que começam a invadir as televisões, portais de internet e blogs. Além de “vandalismo”, “vândalos”, “depredação” e outras palavras-chave um tanto frequentes no discurso dos veículos de comunicação hegemônicos (discurso ressignificado entre ativistas e militantes, aliás), ouvimos frequentemente a palavra “baderna”. Mas pouquíssima gente sabe sua origem.
Além de sonoro, o termo só existe no português brasileiro. Significa bagunça, confusão (também consideradas sinônimas de outra queridinha minha, a expressão “zona”). Todas substantivos femininos. “Baderna” é ainda mais mulher. Era o sobrenome da dançarina italiana Maria, que veio ao Rio de Janeiro a trabalho, com uma companhia de dança que se refugiava da perseguição política austríaca em 1849. Além de tudo, em terras tropicais a moçoila aprendeu movimentos sensuais de danças afrobrasileiras (umbigada), incorporando-as às coreografias. Passou a ser mal vista, mas só foi completamente rejeitada pelas elites brazucas quando se declarou antimonarquista e passou a organizar greves (um pouco mais sobre isso, aqui).
Podemos dizer que a “baderna” nasce, então, do conflito político e – adoro isso – da biscatagem. “Mulher direita”, naquela época, jamais dançaria em companhia viajando o mundo, muito menos daria umbigadas e organizaria greves. Como Maria (Marietta) Baderna, em junho de 2013 nos pusemos a subverter a ordem política – ou, pelo menos tentar novamente. Com a força (e a necessária fragilidade) de quem nunca tinha ido às ruas protestar, diversas causas ganharam corpo. Muitas pessoas que antes sequer paravam para discutir assuntos desejam, desde então, fazer política. De muitas formas e maneiras. Foi um dos maiores ganhos de junho: a baderna é (quase) sempre boa, e muitas vezes serve realmente ao propósito de subverter. Sobretudo quando é – pasmem! – organizada.
Isso aí. Baderna organizada.
A baderna aleatória tem força, mas a baderna organizada tem poder. Foi a baderna organizada que barrou o aumento de R$0,20 nas passagens de ônibus em São Paulo, por exemplo. Foi a baderna organizada que impediu a implantação da ALCA no início do século, na América Latina. Foi também ela quem derrubou ditaduras, fez revoluções, interrompeu o fluxo contínuo de desenvolvimento do capitalismo nos séculos XIX e XX.
Em todos esses contextos histórico-políticos, a baderna só foi organizada porque havia uma série de estratégias, táticas e princípios por trás da coisa. Depois de muitas experiências em diversas partes do planeta, um grupo de ativistas decidiu sistematizar tudo isso num livrinho (que vem também em forma de site) chamado originalmente de Beautiful Trouble. O título em português não poderia ser mais adequado: Bela Baderna (Edições Ideal, 2013). O volume é dividido em táticas, princípios, teorias e estudos de caso, o que faz dele uma verdadeira caixa de ferramentas para a revolução (como tive o prazer de escrever no prefácio).
Dentre essas ferramentas poderosas para organizar de maneira subversiva uma baderna que procura subverter, está lá ninguém menos do que o feminismo. Um dos princípios que o livro traz é justamente “desafie o patriarcado ao se organizar”. São três paginazinhas fundamentais na luta por um mundo mais igualitário. A autora desse capítulo, Harsha Walia, diz:
“Dada a urgência de confrontar ‘grandes questões’ – como o poder das corporações, a militarização e a destruição ambiental – o patriarcado e o sexismo dentro de nossos grupos geralmente permanecem deixados de lado. Alguns aliados do sexo masculino sentem que são incapazes de ser machistas; mas simplesmente acreditar na igualdade de gênero não apaga os privilégios masculinos. Se quisermos desafiar o patriarcado, nós precisamos entender como nossas ações e suposições são influenciadas pela predominância do sexismo em nossa consciência e nas relações sociais”
(Walia, H. “Desafie o patriarcado ao se organizar” in: Boyd, A. e Mitchell, D. O., orgs.,Bela Baderna – Ferramentas para a revolução, São Bernardo do Campo/SP, Ideal, 2013, pp.55-57)
Concordando com Harsha Walia, peço a quem está começando agora no ativismo – e também a quem já está envolvido há algum tempo: sejam feministas. Sejamos feministas. Não é possível subverter a ordem política sem subverter e eliminar as opressões de gênero.
As diversas relações entre o feminismo e a esquerda têm sido um tanto díspares e contraditórias, ao longo dos últimos séculos. Se por um lado foi justamente na esquerda (e só poderia ter sido, mesmo) que o feminismo encontrou espaço desde o início, ele também tem sido chutado pra escanteio muitas vezes. Para muitos e muitas militantes da esquerda, as feministas foram e são vistas como divisionistas – como se o fim da opressão de classes significasse necessariamente o fim das opressões de gênero, o que sabemos não ser verdade. Se na Rússia e na Alemanha socialistas houve avanços em relação aos direitos das mulheres, isso foi resultado da luta das bolcheviques feministas (comoKollontai e Rosa Luxemburgo) e não um mero desdobramento “natural” da luta anticapitalista.
Quer dizer, a relação entre feminismo e movimentos sociais de esquerda é um tanto contraditória. Justamente porque nem o feminismo e nem a esquerda são grupos homogêneos de pessoas, pasteurizadas em suas visões de mundo, crenças valores. Na esquerda, inclusive, como no feminismo, a grande abertura para divergência e crítica é um grande desafio que, por vezes, acaba minando suas próprias estratégias (quem nunca ouviu falar que a esquerda é “desunida”?). A melhor saída para lidar com a crítica de maneira produtiva me parece ser, sempre, a autocrítica.
Uma das partes mais difíceis e mais essenciais de qualquer luta verdadeiramente revolucionária é a autocrítica, a capacidade de refletir sobre si. Isso vale para a esquerda, o feminismo e todas as interseções absolutamente necessárias entre ambos. Fomos educados em uma cultura que não representa nossas maneiras de pensar e ver o mundo. É realmente duro para o ego reconhecermos que reproduzimos, individual e coletivamente, dezenas de problemas que criticamos em nossa sociedade. O machismo é um deles. O racismo é outro. Na luta política, é preciso atenção e reflexão para evitarmos essa reprodução automática. Isso vale também para mim e para minhas companheiras feministas.
“Ser feminista” e “ser de esquerda” não significa estar isenta/o de reproduzir atitudes machistas. Significa conquistar, aos poucos, a capacidade de reconhecer os machismos, identificar de onde eles vêm, e prestar atenção para não cometê-los novamente – além de, claro, pedir desculpas quando o reforçamos. A dica serve para mulheres e homens, sempre. Não há nada mais parecido com um/a machista de direita quanto um/a machista de esquerda, dizemos. Nenhum desses/as jamais poderá se dizer revolucionário/a.
A reflexão e autocrítica feministas, então, podem ser encaradas como estratégias de luta. Se a ideia é subverter toda uma forma de organização social, precisamos de ferramentas e métodos que sejam também subversivos. Pensar em formas de luta que não reproduzam opressões de gênero é absolutamente necessário. A esquerda é o único espaço de disputa política onde isso pode efetivamente acontecer. Para tanto, é preciso vontade.
A revolução será feminista ou não poderá jamais ser uma revolução.
PS.: Em tempo – no dia 4 de dezembro, quarta-feira, estarei no Espaço da Revista Cult, em São Paulo, às 19h, no lançamento do livro Bela Baderna – Ferramentas Para Revolução, que tem prefácio meu e foi produzido pela Edições Ideal, em parceria com a Escola de Ativismo.
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