Monday, 24 February 2014

Na Amazônia, água é mais importante que luz

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Fernando Reinach
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Na Amazônia, água é mais importante que luz

22 de fevereiro de 2014 | 2h 05
Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
Em 2007, examinando imagens captadas por satélites, os cientistas descobriram que durante o período de seca a Floresta Amazônica ficava mais verde. Se isso era verdade, então a quantidade de água não limitava o crescimento da floresta. Durante a época de chuvas, o crescimento da floresta estaria limitado pela falta de luz, reduzida pela presença de nuvens. Durante a seca, sem as nuvens, a floresta se tornava ainda mais verde, crescendo rapidamente. Agora essa crença foi por água abaixo, o "enverdecimento" da floresta durante a seca não passa de um erro na interpretação das fotos enviadas pelos satélites.
A Floresta Amazônica tem um papel importante na regulação do efeito estufa. Quando as árvores crescem, elas consomem gás carbônico e liberam oxigênio. Quando elas param de crescer, o processo se inverte, elas consomem oxigênio e liberam gás carbônico. Temperatura, disponibilidade de água e disponibilidade de luz são os três fatores principais que determinam o crescimento de uma planta.
E na Amazônia, qual o fator limitante? Os cientista acreditavam que era a água. Mas em 2007 vieram os dados dos satélites e a história se complicou. Se a Amazônia ficava mais verde na seca, o fator limitante deveria ser a luz solar. E a polêmica entre os cientistas pegou fogo. Os que estudavam o que ocorria diretamente na floresta defendiam que a água era o limitante. Os que observavam a floresta com os olhos dos satélites diziam que a luz era o limitante.
Determinar o que limita o crescimento da floresta é crucial para entender como a Floresta Amazônica influencia o aquecimento global e como as mudanças climáticas vão afetar a floresta. Se o que limita o crescimento é a luz, então uma diminuição nas chuvas, causada pelas mudanças climáticas, vai ajudar a floresta a crescer mais, consumir mais gás carbônico, e contrabalançar o efeito estufa. Mas, se o que limita o crescimento é a água, uma diminuição das chuvas vai fazer a floresta crescer menos, liberar mais gás carbônico na atmosfera e contribuir ainda mais como aquecimento global.
Foi no meio deste debate que surgiu a dúvida. E se o "esverdeamento" da floresta não for real? Com essa dúvida na cabeça, os cientistas começaram a verificar as diversas possibilidades de erro. Primeiro, criaram uma floresta virtual e começaram a simular as medidas feitas com os satélites. Eles logo perceberam que a posição relativa da floresta, do satélite, e da fonte de luz influenciavam como as folhas refletiam a luz. Dependendo desse arranjo, algumas folhas fazem sombras sobre outras folhas, alterando a imagem e sua cor. Também demonstraram que a posição do satélite em relação ao Sol variava com as estações.
Com base nessas observações, corrigiram os dados. O "esverdeamento" da floresta observado na época de seca desapareceu. Finalmente, para comprovar a descoberta, utilizaram dados de um outro tipo de satélite, que não fotografa a floresta sob luz solar, mas ilumina o solo com um feixe de laser e coleta a luz refletida. Neste caso, a localização relativa do satélite, da floresta e da fonte de luz não se altera ao longo do ano. Novamente o "esverdeamento" desapareceu das imagens.
Acabou a polêmica, os dados dos satélites concordam com os dados obtidos pelos pesquisadores em terra. O fator limitante para o crescimento da floresta é sempre a quantidade de água e não a quantidade de luz. Isso significa que, caso as mudanças climáticas diminuam as chuvas, a Floresta Amazônica vai crescer menos e produzir mais gás carbônico.
Esses resultados vão forçar os cientistas a reavaliar os potenciais efeitos das mudanças climáticas na Floresta Amazônica e a contribuição da floresta para o aumento ou diminuição da quantidade de gás carbônico na atmosfera.
A boa notícia é que não existe mais conflito entre os cientistas: a água, e não a luz, é o que limita o crescimento da Floresta Amazônica. A má noticia é que trabalhos como esse demonstram de maneira cabal quão pouco sabemos sobre o comportamento de nossas florestas. E como parte desse conhecimento é frágil. Mas, não tem jeito, é assim que a ciência progride. A questão é decidir se temos tempo para esperar antes de agir.
*Fernando Reinach é biólogo.
Mais informações: Amazon forests maintain consistente canopy structure and greenness during the dry season. Nature vol. 506 pag 221. 2014.

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