Thursday, 31 July 2014

O sequestro da água

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O sequestro da água

“A água também foi sequestrada pelos ladrões que a secam, gente a quem só interessa a água na liquidez do capital e o selo de água das notas de dinheiro. As guerras pela água já estão ocorrendo. Autênticas guerras de conquista, de colonos e colonizados. Mas a nova versão do conquistador não atira flechas, não joga bombas, nem utiliza fuzis. O processo é mais silencioso e mais sutil. Estes embusteiros internacionais transitam como civis que exigem privatização ou morte.” A reflexão é de Aldo Torres Baeza, em artigo publicado no jornal chileno Diario Uchile, 28-07-2014. A tradução é de André Langer.
Eis o artigo.
Da água viemos e de água somos. Água no cérebro, vertiginoso oceano que forja as estradas para os barquinhos do pensamento e da imaginação. A vida emergiu dos oceanos e do útero os corpos que a animam. Água nas lágrimas e água nas células; corpos quimicamente irmãos do mar. Somos água que pensa, água que ri e água que transita pelo mundo. “A vida é água organizada”, dizia Jacques Cousteau. Não tomamos banho duas vezes no mesmo rio, disse Heráclito, comparando o fluir da vida com o fluir da água. Tudo flui, sobretudo a água. O filósofo Jordi Pigem escreve: “A água que hoje evapora cai como chuva em outro lugar dentro de aproximadamente 10 dias, em um ciclo que a cada três milênios faz circular pela atmosfera um volume de água equivalente ao de todos os oceanos. A água circula e tende ao circular: a gota quer ser esférica, a lagoa responde à pedra com ondas concêntricas, os redemoinhos fluem em espiral, os meandros, riachos, baías e golfos lavram curvas e semicírculos”. A água nos dá a vida e nos une. Seria impossível conceber a cultura chinesa sem o Rio Amarelo e o Yangtzé, ou imaginar a cultura índica sem o Indo e o Ganges, a Mesopotâmia sem os rios que a abraçavam, o Egito sem o Nilo ou a Grécia sem o Egeu. Sem água nada nasce; haveria apenas terra seca, o deserto de Nietzsche derrubaria as portas, os céus não mostrariam o arco-íris e as plantas não dariam seus frutos.
No entanto, a água também foi sequestrada pelos ladrões que a secam, gente a quem só interessa a água na liquidez do capital e o selo de água das notas de dinheiro. As guerras pela água já estão ocorrendo. Autênticas guerras de conquista, de colonos e colonizados. Mas a nova versão do conquistador não atira flechas, não joga bombas, nem utiliza fuzis. O processo é mais silencioso e mais sutil. Estes embusteiros internacionais transitam como civis que exigem privatização ou morte.
Já chegaram ao Chile faz muitos anos, com perna de pau e papagaio no ombro. Hoje, extraem água até secar a terra, contaminam, envenenam, privatizam. Quando não resta mais nada, vão-se embora para amarrar a soga em novos territórios. Tudo justificado pelo atual marco legal e institucional que rege o uso e o manejo dos recursos hídricos no Chile, declarado na Constituição política (ou apolítica) de 1980, e em seguida, detalhado no Código das Águas de 1981. Ou seja, em uma Constituição assada nos fornos da ditadura, atravessada pelos princípios do neoliberalismo mais fundamentalista do mundo. Sobre a água, o artigo 5º do Código, diz: “bem nacional de uso público e outorga-se aos particulares o direito de aproveitamento dela”. Isto quer dizer que seu manejo, como tudo no Chile, fica sujeito às leis do mercado, terra fértil para os especuladores da vida. Leonardo da Vinci iniciou um tratado sobre a água. Nele afirmava que a água é o sangue da Terra. O sangue é para o nosso sistema circulatório o que a água é para o grande sistema circulatório da biosfera. Mas no Chile possuir é mais importante do que as teorias de Da Vinci. Vale perguntar-se: chegará o dia em que privatizarão a água da chuva e a água dos corpos?
No discurso de 21 de maio, Bachelet declarou, entre outras coisas, que a água é um bem de uso público e que fará modificações no Código da Água.
O que aconteceu?
Todos esqueceram o que foi dito no dia 21 de maio?
O que está acontecendo com a água no Chile?
A água é um direito e, como tal, não pode estar nas mãos de uma pequena elite. Elite estrangeira, além do mais. NoChile, 90% dos direitos são de propriedade de três grupos econômicos: AES-Gener (estadunidense), Endesa (espanhola) e Colbún (do Grupo Matte). Estes grupos econômicos não estão interessados em que a água seja muito mais que do um recurso econômico. Está claro que para eles é uma mercadoria a mais, sujeita às transações de compra e venda, como quem especula com um carro. Eles pouco se lixam com as propriedades mais insólitas da água. Do mesmo Pigem: “A água é a substância mais comum na biosfera e no organismo humano, mas também é a mais insólita, com uma série de propriedades únicas (“anômalas”, de acordo com os cientistas) sem as quais a vida seria química e fisicamente impossível. Quando a água congela, expande-se e torna-se menos densa (atinge sua maior densidade a 4º C); não fosse assim, o gelo, em vez de flutuar, afundaria e se assentaria no fundo do mar, deixando-o sem vida. O gelo assusta por suas propriedades deslizantes e por sua viscosidade (podemos fazer bolas de neve, mas não bolas de areia). E quando se comprime, cristaliza em no mínimo 12 estruturas (do gelo 1 ao gelo 12) com diferentes propriedades. A água tem pontos de fusão e ebulição insolitamente altos, e aquece e esfria muito mais lentamente que a maioria das substâncias conhecidas, líquidas ou sólidas. É altamente corrosiva e dissolve quase tudo. Em nível molecular, está muito mais estruturada do que a maioria dos líquidos, semelhante a um cristal. Os flocos de neve têm (quase sempre) seis ramificações mais ou menos idênticas, mas cada floco tem um desenho diferente: cada nevada é um desperdício de criatividade geométrica. Outra curiosidade: os geólogos começam a acreditar que no interior da Terra, nas estruturas cristalinas do manto, há uma enorme quantidades de água, o suficiente para encher 30 vezes todos os oceanos”.
Como experiência, talvez seja interessante saber que no final de outubro de 2004, um plebiscito decidiu o destino da água no Uruguai. A população votou para considerar a água um direito público. Oxalá um dia deixemos de imitar a construção de shopping centers e comecemos a imitar este tipo de coisas. Oxalá nos deixemos contagiar um pouquinho por essa dignidade charrua e comecemos a considerar a democracia como um fim e não com um meio, que vai além de escolher os rostos sorridentes que adornam a cidade a cada certo tempo. Oxalá algum dia consideremos o sentido e a importância do público. Enfim, oxalá algum dia consideremos que o direito à vida é mais importante que o direito à propriedade privada.
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