Thursday, 23 January 2014

Desmatamento e escravidão andam juntos na Amazônia

o eco
http://www.oeco.org.br/oeco-data/27945-desmatamento-e-escravidao-andam-juntos-na-amazonia


Plataforma de jornalismo de dados do site ((o))eco. Por Daniel Santini

Desmatamento e escravidão andam juntos na Amazônia
Daniel Santini - 22/01/14

Um novo mapa incluído nesta semana na plataforma Infoamazonia permite visualizar a relação entre degradação humana e devastação do meio ambiente em meio ao avanço das fronteiras agrícolas na Amazônia. A base de dados "trabalho escravo na Amazônia", disponível para consultas em portuguêsinglês e espanhol, possibilita a visualização dos prinncipais municípios em que foram realizados resgates de trabalhadores realizados pelo Ministério do Trabalho e Emprego de 2003 a 2013. A exploração de trabalho escravo contemporâneo é crime previsto no Artigo 149 do Código Penal brasileiro. A existência de escravidão no país foi reconhecida pelo Governo Federal em 1995, e, desde então, diferentes medidas têm sido tomadas para combater o problema, incluindo a libertação de trabalhadores.
No mapa abaixo, organizado com base nos dados oficiais, é possível observar que o maior número de resgates aconteceu nas áreas com mais alto índice de desmatamento. A visualização também explicita a relação entre a derrubada da floresta e o avanço da pecuária, com a indicação dos frigoríficos na região, presentes nas áreas de maior incidência de escravidão e desmatamento. Clique nos botões "desmatamento" e "frigoríficos" para visualizar como estas bases coincidem com as de libertações. 

Mapa de resgates de escravos na Amazônia
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Cabe destacar que os municípios em que mais resgates aconteceram estão entre os mais afetados pelo avanço da pecuária, conforme é possível observar no mapa abaixo. É o caso de Confresa, no Mato Grosso, onde 1.347 trabalhadores foram libertados, São Félix do Xingu, no Pará, com 750, e Ulianópolis, também no Pará, com 1.290. Não por acaso, Mato Grosso e Pará são os Estados em que se concentram os principais pontos do chamado Arco de Fogo do Desmatamento, fronteira que, como um arco, avança sobre a Amazônia.

Regiões com maior número de resgates na Amazônia
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Novo e-book sobre pagamento por serviços ambientais

o eco
http://www.oeco.org.br/salada-verde/27947-novo-e-book-sobre-pagamento-por-servicos-ambientais


Novo e-book sobre pagamento por serviços ambientais
((o))eco - 22/01/14

EbookPSA
Tido como uma das principais ferramentas capazes de frear o avanço da perda da floresta, o uso de pagamento por serviços ambientais (PSA) pipoca aqui em ali, em projetos específicos e alheios ao grande público. OInstituto O Direito por Um Planeta Verde reuniu 4 artigos que falam de exemplos bem sucedidos de PSA em países da América Latina e no Brasil. Eles foram publicados em "Pagamento por Serviços Ambientais - Experiências locais e latino-americanas" (144 páginas), que faz parte da série  "Direito e Mudanças Climáticas", composta por 4 e-books e disponível para download gratuito.
Entre os casos relatados de pagamento por serviços ambientais está o uso de de recursos hídricos em países como Costa Rica, México, Equador e Colômbia; a experiência de mitigação de mudanças climáticas na amazônia brasileira; e a proteção da biodiversidade em Santa Catarina.

Wednesday, 22 January 2014

Mudanças do clima: o que podemos esperar para 2014

ethos
http://www3.ethos.org.br/cedoc/mudancas-do-clima-o-que-podemos-esperar-para-2014/#.Ut_pjZLM9ok


Mudanças do clima: o que podemos esperar para 2014

O ano começa com um desafio: que nossa atenção e atuação estejam voltadas para estabelecer políticas de enfrentamento às mudanças climáticas.
Por Jorge Abrahão*
Notícias sobre o clima estão dominando as pautas da mídia por todo o mundo neste início de ano. De um lado, a América do Norte vem enfrentando uma onda de frio que culminou, em 7 de janeiro, com o dia mais gelado dos últimos 40 anos, quando a sensação térmica beirou 50 °C negativos em Chicago (EUA). Enquanto isso, no Hemisfério Sul, uma onda de calor com sensação térmica na média dos 50 °C atingiu o Rio de Janeiro, junto com altos índices de radiação ultravioleta que chegou a alcançar níveis extremos por todo país.
Cientistas afirmam que os diferentes fenômenos são, na verdade, causados pelo mesmo problema: o aquecimento global. O clima estaria mais quente e, como consequência, surgiria um padrão climático diferente, alternando períodos de calor e de frio intensos.
Tais acontecimentos nos levam a retomar uma discussão que há décadas ocupa a cabeça de estudiosos e interessados na temática do clima: como poderemos reverter essa situação e atenuar os efeitos já percebidos?
Cada setor da sociedade tem seu papel a desempenhar para que esse quadro seja modificado. As políticas climáticas independem de fronteiras, destacando-se a necessidade de uma atuação global envolvendo todos os países, por meio de políticas de clima internacional, de governos que contribuam com o estabelecimento de políticas e metas de redução de emissões e de desmatamento, empresas que invistam em inovação e em gestão de baixo carbono e a sociedade civil reduzindo o consumo e utilizando transportes públicos. Todos podem, por pequenas ações, contribuir para reverter esse quadro.
O ano de 2013 foi marcado por atuações tímidas quanto às políticas climáticas, mesmo tendo sido um ano com preocupantes fenômenos, como o tufão devastador que atingiu as Filipinas, em novembro, e o nível de 440 ppm de concentração de CO2 na atmosfera, atingidos no mês de maio, a taxa mais alta dos últimos 3 milhões de anos.
Há algum tempo, cientistas alertavam para a necessidade de essa cifra ficar abaixo de 350 ppm, caso contrário, a temperatura poderia subir, em média, 2 ºC até o fim do século. Para termos uma melhor dimensão dessa alta concentração, basta lembrarmos que antes da Revolução Industrial a concentração flutuava entre 180 ppm e 280 ppm.
A COP 19, realizada em dezembro, na Polônia, pouco impressionou, deixando a sensação de estarmos vivendo mais do mesmo. Entre os poucos temas que tiveram significativos avanços estão o regime de compensação por perdas e danos e o chamado pacote REDD (aprovação de créditos por Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação), que foi completado e começa a ser operacionalizado nos próximos anos.
A boa notícia veio com a iniciativa Carbono Neutro, existente desde 2010, que impressionou pela decisão de 414 cidades, em 45 países, que se comprometeram a reduzir suas emissões em 1% ao ano. Juntas, as emissões dessas cidades representam 4,2% das emissões mundiais.
Fórum Clima
O Fórum Clima – Ação Empresarial sobre Mudanças Climáticas, é um grupo criado para estabelecer um diálogo entre o governo e o setor empresarial e fazer com que as políticas de enfrentamento às mudanças climáticas atinjam os melhores resultados possíveis. As 17 empresas participantes desse grupo e as duas organizações apoiadoras – a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única) e o Fórum Amazônia Sustentável –, vêm trabalhando nessa agenda e estimulando outras empresas e organizações a contribuir com a economia de baixo carbono, aproveitando novas oportunidades de negócios e, assim, reduzindo significativamente os impactos negativos das mudanças climáticas sobre o planeta.
No ano passado, o grupo de trabalho desempenhou importantes atividades nessa agenda, como o lançamento do Guia Metodológico para Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa na Engenharia e Construçãopara levantamento unificado das emissões na construção civil pesada, e a participação ativa na consulta pública ao Plano Nacional sobre Mudanças do Clima. O grupo entra em 2014 tendo como  principal tarefa a de harmonizar as políticas públicas em torno do objetivo comum de reduzir emissões.
Ainda em dezembro de 2013, durante seu seminário anual, o Fórum Clima lançou a versão preliminar do estudo O Desafio da Harmonização das Políticas Públicas de Mudanças Climáticas – Volume IIdocumento que destaca o aceleramento das mudanças climáticas pelo mundo e exige medidas que reduzam suas causas – a chamada mitigação –, bem como adaptações para melhor enfrentá-las. Em 2014, o estudo será trabalhado pelo Fórum Clima a fim de que se alcancem soluções para esses problemas e se diminuam as dificuldades em criar as regras, incentivos e restrições necessárias para alterar esse cenário, dificuldades essas consequentes da complexidade científica e da diversidade de atores envolvidos em variados âmbitos: local, estadual, nacional e internacional.
Na ocasião, também foram discutidas as graves previsões do IPCC sobre os cenários futuros e a necessidade de que todos contribuam com a redução de emissões com um imediatismo que não se teve até hoje. Mencionou-se ainda a permissão de maiores emissões para os países desenvolvidos, a qual, com a urgência que temos em reduzir por igual as emissões em todo o mundo, não faz mais nenhum sentido. É necessário que os países aprendam a se desenvolver considerando as limitações climáticas e que, com isso, saibam conduzir uma economia sustentável desde o inicio.
A meta deste ano do Fórum Clima é trabalhar nessas urgências e defender a proposta do Brasil de um compromisso que leve em conta as emissões iniciadas desde a Revolução Industrial, tendo em vista que é preciso aliar justiça climática com mitigação e adaptação.
Política Nacional sobre Mudança do Clima
Em 2013, o Plano Nacional sobre Mudança do Clima esteve disponível para consulta pública e o Brasil foi decisivo ao instituir a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), adotando voluntariamente o compromisso nacional de reduzir as emissões entre 36,1% a 38,9% até 2020.
Entre as ações do plano, destacam-se as seguintes: reduzir o índice de desmatamento anual da Amazônia em 80% até 2020, de acordo com o Decreto nº 7390/2010; ampliar o consumo interno de etanol em 11% ao ano nos próximos dez anos; dobrar a área de florestas plantadas, para 11 milhões de hectares em 2020; aumentar a reciclagem de resíduos sólidos urbanos em 20% até 2015; ampliar a oferta de energia elétrica de cogeração, principalmente a que emprega bagaço de cana-de-açúcar, para 11,4% da oferta total de eletricidade no país, em 2030; e reduzir as perdas não técnicas na distribuição de energia elétrica à taxa de 1.000 GWh por ano, nos próximos dez anos.
Esperamos que em 2014 a COP 20, que será realizada no Peru, prepare as bases reais para um novo acordo climático, que engaje e comprometa todas as ações, mitigando os efeitos negativos a partir de 2015.
Que 2014 seja o ano em que daremos passos expressivos em direção a essas metas e que, nos próximos 12 meses, tenhamos a certeza de que nossa economia caminha a passos largos e decididos para a política de baixo carbono. Esperamos também que esse tema seja debatido de forma transparente e responsável nas eleições deste ano.
Jorge Abrahão é presidente do Instituto Ethos.
15/1/2014

Tuesday, 21 January 2014

Amazon Watch teams up with Pulitzer Prize winner Mark Fiore once again!


Published on 20 Jan 2014
Amazon Watch teams up with Pulitzer Prize winner Mark Fiore once again!

To draw attention to Chevron's threat to open society and freedom of speech Amazon Watch presents "Donny Rico". The satirical look at Chevron's actions highlights the serious threat to all environmental and human rights activism if the tactics Chevron has employed are replicated by other corporate actors. A grassroots campaign has already been launched by the Sierra Club and Amazon Watch asking members of the US Senate to investigate and put a stop to Chevron's vilification of the environmental and human rights community.

Chevron's tactics to avoid responsibility for its admitted acts of environmental destruction in the Ecuadorian Amazon have been unprecedented. Despite losing a 20 year legal battle and receiving a $9.5 billion judgment against it, Chevron says it will never pay. Not satisfied with role as corporate criminal on the run, Chevron launched an extraordinary racketeering and extortion lawsuit against the Ecuadorian and U.S. attorneys, and various consultants alleging they were all lying about Chevron's pollution and that the entire case was "sham litigation."

Chevron's actions set a dangerous precedent and represent a growing and serious threat to the ability of civil society to hold corporations accountable for their misdeeds around the world. Now a wide cross-section of U.S.-based environmental and corporate governance groups have condemned Chevron's most recent retaliatory attacks to intimidate the Ecuadorian indigenous peoples and farmers who have been harmed by the oil giant's massive contamination of their ancestral lands.

Monday, 20 January 2014

O que exatamente é um doutorado?

demografia unicamp
http://demografiaunicamp.wordpress.com/2014/01/18/o-que-exatamente-e-um-doutorado/


O que exatamente é um doutorado?
O texto abaixo, de autoria de Matt Might, é representativo de como às vezes uma imagem (ou um conjunto delas) vale mais que mil palavras. Apesar de bastante preciso, o autor consegue ir direto ao ponto, indicando uma das grandes riquezas de um curso de doutorado: a possibilidade de reconhecer as fronteiras do conhecimento e tentar superá-las. Vale a pena conferir!
Todo ano eu explico para um novo grupo de pós-graduandos o que é um doutorado.
Mas é difícil descrever em palavras.
Então, eu uso figuras.
Veja abaixo o guia ilustrado que eu utilizo para explicar exatamente o que é um doutorado.
Imagine um círculo que contém todo o conhecimento humano:
Quando você completa o ensino básico, você sabe um pouco:
Quando você completa o ensino médio, sabe um pouquinho mais:
Com uma graduação, você sabe um pouco mais e ganha uma especialização:
Um mestrado te aprofunda naquela especialização:
Ler e estudar teses te leva cada vez mais em direção ao limite do conhecimento humano naquela área:
Quando você chega lá, você se foca:
Você tenta ultrapassar os limites por alguns anos:
Até que um dia os limites cedem:
Este pequeno calombinho de conhecimento que ultrapassou os limites é chamado de doutorado (Ph.D.):
Mas é claro que na sua visão de mundo fica diferente:
Mas não esqueça da dimensão das coisas:
Continue ultrapassando os limites.
Autor do texto: Matt Might. Original em inglês: The Illustrated Guide to a Ph.D

Retratos fidedignos

fapesp
http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/01/13/retratos-fidedignos/


Retratos fidedignos

Desenhista, pintor, ceroplasta, Augusto Esteves foi o primeiro ilustrador científico do Instituto Butantan
NELDSON MARCOLIN | Edição 215 - Janeiro de 2014

© INSTITUTO BUTANTAN
Desenho da jararacuçu (Bothrops jararacussu) inteira e dissecada: objetivo foi mostrar a relação entre a glândula de veneno e a presa
Desenho da jararacuçu (Bothrops jararacussu) inteira e dissecada: objetivo foi mostrar a relação entre a glândula de veneno e a presa
Antes do pleno desenvolvimento da fotografia no final do século XIX, 
o único meio que os cientistas – em especial os naturalistas – dispunham para registrar a fauna e a flora eram a pintura e 
o desenho. Muitos deles, quase todos europeus, se tornaram mestres nessa arte, 
o que levou os museus de história natural 
e institutos de pesquisa a ter desenhistas técnicos entre seus funcionários. No Brasil ocorreu o mesmo. O Instituto Oswaldo Cruz e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o Museu Paranaense Emílio Goeldi, em Belém, e os institutos Biológico e Butantan, em São Paulo, utilizavam 
os serviços dos ilustradores científicos. Augusto Esteves (1891-1966) foi um desses artistas que emprestaram seu talento para colaborar com a ciência. Em 1912, ele foi o primeiro desenhista contratado por Vital Brazil para retratar répteis no Instituto Butantan. Anos depois Esteves se tornou ceroplasta (fazia moldagem em cera) da Faculdade de Medicina da Universidade 
de São Paulo (FMUSP).
No Butantan Augusto Esteves retratava serpentes usando bico de pena e óleo 
ou aquarela. Seus desenhos tinham uma característica única para a época. “As pranchas eram coloridas e sombreadas, 
algo que ninguém fazia quando desenhava animais”, diz Osvaldo Augusto Sant’Anna, pesquisador do Laboratório de Imunoquímica do Butantan e coordenador 
do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas. “Os principais centros especializados em soros antiofídicos do mundo eram o Instituto Pasteur, 
na França, e o comandado por Vital Brazil aqui em 
São Paulo. Vi os desenhos em bico de pena dos desenhistas franceses e 
não achei nada parecido com o que Esteves fazia aqui.”
© INSTITUTO BUTANTAN
Acima, detalhes da cascavel (Crotalus terrificus terrificus)
Acima, detalhes da cascavel (Crotalus terrificus terrificus)
Sant’Anna é neto do desenhista e o bisneto mais velho de Vital Brazil, 
além de ser um dos poucos descendentes do cientista que se tornou pesquisador. Ele conta que Esteves é paranaense de São José da Boa Vista e completou seu primeiro ano de idade na cidade de Avaré; veio para São Paulo aos 13 anos com 
o irmão Lindolpho, onde trabalhou no comércio e estudou à noite fazendo cursos de pintura. Aos 
17 anos ganhou a medalha 
de prata da Exposição do Centenário da Abertura dos Portos, realizada no Rio de Janeiro. Começou então a ter aulas com Pedro Strina, pintor conhecido por suas paisagens e retratos. Como não podia pagar, fazia os serviços de limpeza no 
ateliê do artista.
Quando conheceu a família Brazil, Esteves encantou-se com Alvarina, 
a segunda filha de Vital. 
Os dois se casaram em 1919 
e tiveram seis filhas. Nesse mesmo ano, toda a família mudou-se para Niterói, onde o cientista apostou numa empreitada privada: fundar o instituto que leva seu nome, para pesquisar 
e produzir produtos veterinários, biológicos 
e farmacêuticos. Esteves 
foi nomeado diretor administrativo pelo sogro.
© INSTITUTO BUTANTAN
Coral (Micrurus lemniscatus): sombras 
do desenho ajudam 
a mostrar o movimento 
da cobra
Coral (Micrurus lemniscatus): sombras 
do desenho ajudam 
a mostrar o movimento 
da cobra
Em 1934, o artista voltou para São Paulo e trabalhou no Instituto Pinheiros, na Santa Casa de Misericórdia e no Departamento de Dermatologia da FMUSP. Sua missão era reproduzir lesões dermatológicas em moldes de cera (ceroplastia) para auxiliar os professores nas aulas. “Seus moldes foram muito usados nos cursos de medicina legal 
e para perícias, tal a semelhança com os originais”, diz Sant’Anna. Muitas das centenas de peças feitas por ele podem ser vistas no Museu Histórico da FMUSP. Esteves também realizou exposições individuais, expondo quadros com outros temas, como paisagens e retratos, e cultivava as lembranças do interior ao compor poemas caipiras, escritos utilizando a fonética regional.
Em 2012 foi lançado 
o livro Serpentes, de Henrique Moisés Canter, em edição do próprio Instituto Butantan, como uma homenagem aos nove artistas que passaram pela instituição registrando répteis em desenhos acurados. Augusto Esteves é o que abre a obra por ter sido o primeiro deles e pela qualidade das ilustrações. Hoje as instituições de pesquisa praticamente extinguiram o posto de desenhista científico – 
para encontrá-los é preciso recorrer aos sites de busca da internet. “É uma pena”, lamenta Nelson Papavero, pesquisador aposentado do Museu de Zoologia da USP. “Para retratar alguns animais e plantas o desenho é insubstituível, porque 
só com ele é possível 
ver detalhes mais nítidos 
do que nas fotos.”

A marcha da loucura

carta maior
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/A-marcha-da-loucura/3/30050


A marcha da loucura

O sintoma das mudanças climáticas, ao contrário do que muitos imaginam, tem atingido muito mais a humanidade e sua população global do que os ecossistemas.


Najar Tubino
Arquivo

Porto Alegre - O sintoma das mudanças climáticas, ao contrário do que muitos imaginam, tem atingido muito mais a humanidade e sua população global do que os ecossistemas naturais. Uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde mostra que 700 milhões de pessoas sofre de algum tipo de transtorno mental. É a segunda causa de invalidez, sendo que a depressão fica atrás apenas das dores nas costas. Segundo a OMS, a depressão deve ser tratada como uma prioridade de saúde pública global. Na China, 100 milhões de pessoas sofrem de doenças mentais, segundo a revista estatal Outlook Weekly, sendo 16 milhões de casos graves. O artigo foi publicado, logo após o escândalo dos suicídios na Foxconn. A empresa distribui comunicados que os mortos sofriam de doença mental.

No Brasil, São Paulo é a cidade com o índice mais alto de transtornos mentais, segundo o projeto São Paulo Megacity, um estudo realizado pelo Instituto de Psiquiatria, do Hospital de Clínicas com 5.037 residentes, dos 39 municípios da Grande São Paulo, em 2012. Na verdade o estudo “São Paulo Megacity Mental Health Surve” apontou que a região metropolitana e a capital paulista possuem os maiores índices de transtornos mentais do mundo – 29,6%. Os problemas mais comuns são ansiedade, mudanças comportamentais e abuso de substâncias químicas. Depois de SP, os Estados Unidos aparecem em segundo lugar no mesmo estudo da OMS, apenas com um detalhe: não citaram o nome da cidade estadunidense, onde a pesquisa foi realizada. O índice dos cidadãos da clandestina cidade é de 25%.

São Paulo é a campeã mundial de transtornos mentais

São Paulo também coleciona outra marca: a cidade com maior incidência de casos graves de perturbações mentais. A cidade estadunidense o índice é de 5,7%. As causas citadas que transformaram a maior cidade da América Latina e sua região metropolitana numa central de pirados é a alta urbanização associada com privações sociais, que atinge em primeiro lugar migrantes homens e mulheres que residem em regiões de alta vulnerabilidade social. A pesquisa da OMS no Brasil foi financiada pela FAPESP – Fundação de Amparo a Pesquisa de SP -, coordenação da professora Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e da professora Maria Carmen Viana, do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal do Espírito Santo.

E mais: outro estudo da USP feito pelo médico do trabalho João Silvestre da Silva Júnior, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aponta que os transtornos mentais são a terceira causa de longos afastamentos do trabalho por doença e levaram ao pagamento de mais de R$ 211 milhões de novos benefícios previdenciários em 2011. Dinheiro pago pelo INSS. As causas:

“- O ambiente de trabalho com pouco apoio social, excessivas demandas e baixo controle sobre tarefas, recompensas inadequadas comparadas ao esforço do trabalhador e o comprometimento individual excessivo são fatores que aumentam a chance de ocorrência de afastamento. A pesquisa recomenda uma melhor investigação sobre as condições psicossociais no ambiente de trabalho, para implantação de ações de prevenção, além de maior fiscalização das empresas por parte dos órgãos públicos.”

A depressão atingirá 350 milhões

Em 2011, o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) contabilizou um número acima de 211 mil pessoas que foram afastadas do trabalho devido ao adoecimento mental por prazo superior a 15 dias e passaram a receber auxílio doença.

“- Como o valor supera os R$200 milhões reforça a necessidade econômica de medidas de prevenção para evitar o adoecimento”, aponta a pesquisa do médico João Silvestre.

O estudo da OMS também indica que no período 2013-2020, 350 milhões de pessoas sofrerão de depressão e 90 milhões terão alguma desordem pelo abuso de substâncias químicas. É preciso ressaltar que DUAS em cada DEZ pessoas no mundo tem algum problema psiquiátrico. Nos Estados Unidos, 11% da população com mais de 12 anos já toma remédios antidepressivos. Em 2012, a OMS registrou 781.927 mil suicídios no mundo, que é a 16ª causa da mortalidade global. Com um detalhe: nos Estados Unidos e na Rússia é a 10ª causa. Na Coreia do Sul é a sétima. No Brasil a 25ª.

A loucura fascina o homem

O psiquiatra francês Michel Foucault é o autor do livro “A história da loucura na Idade Clássica”. Diz ele:

“- O conceito de sanidade e loucura são construções sociais que não refletem padrões quantificáveis de comportamento humano e que antes são apenas indicativos de poder dos ‘saudáveis’ sobre o ‘demente’.”

No histórico da civilização ocidental os loucos assumiram o lugar dos leprosos. A partir da Alta Idade Média até o final das Cruzadas, anota Michel Foucault, os leprosários tinham se multiplicado por toda a superfície da Europa. Em 1266, época em que Luís VIII estabelece para a França o regulamento dos leprosários mais de dois mil deles encontravam-se recenseados. Na Diocese de Paris existiam 43. No século XII, a Inglaterra e a Escócia tinham aberto 220 leprosários. Dois a três séculos depois os leprosários são ocupados por pobres, vagabundos, presidiários e ‘cabeças alienadas’.

“- Em todos os lados a loucura fascina o homem. As imagens fantásticas que ela faz surgir não são aparências fugidias, que logo desaparecem da superfície das coisas...por um estranho paradoxo, aquilo que nasce do mais singular delírio já estava oculto, como um segredo, como uma inacessível verdade, nas entranhas da terra”, outra citação do livro.

Nevasca no verão

O privilégio da loucura no século XIII é que ela reina sobre tudo que há de mal no homem. Mas reina também, indiretamente, sobre todo o bem que ele possa fazer.
 
Sobre a ambição que faz os sábios políticos, sobre a avareza que faz crescer a riqueza, sobre a indiscreta curiosidade que anima os filósofos e cientistas, pergunta Foucault.

“- Por certo a loucura atrai, mas não fascina. Ela governa tudo o que há de fácil, de alegre, de ligeiro no mundo. É ela que faz os homens ‘se agitarem e gozarem’, assim como os deuses; foi ela quem originou o gênio, a juventude, Baco, sileno, e esse gentil guardião dos jardins”.

Enfim, a loucura só existe em cada homem, porque é o homem que a constitui no apego que ele demonstra por si mesmo e através das ilusões com que se alimenta.

Voltemos à realidade: sábado, dia 19 de janeiro de 2013, a apresentadora do Jornal Nacional registra uma nota da “loucura do tempo”. Uma nevasca atingiu o Peru, comprometendo a alimentação dos animais na Cordilheira dos Andes, por consequência,da população também. O detalhe é que o Peru, assim com o Brasil, está em pleno verão. A estação vai de dezembro a março. Não é uma loucura?  

Gestão Dilma é a pior da história para o meio ambiente, diz ambientalista

ihu
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527415-gestao-dilma-e-a-pior-da-historia-para-o-meio-ambiente-diz-ambientalista


Gestão Dilma é a pior da história para o meio ambiente, diz ambientalista

O geógrafo Mario Mantovani trabalha há cerca de dez anos como uma espécie de "lobista da natureza" no Congresso Nacional.
Diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, ele tenta influenciar os projetos relacionados ao tema e coordena informalmente a chamada Frente Parlamentar Ambientalista, fórum com adesão de 187 dos atuais congressistas para debater assuntos da área em reuniões semanais.
Militante da causa desde 1973, conhecido como um dos mais ativos ambientalistas do país, Mantovani não parece medir palavras para expor suas opiniões.
A reportagem é de Ricardo Mendonça, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 19-01-2014.
Diz, por exemplo, que a presidente Dilma Rousseff faz o "pior governo da história" para o meio ambiente. Que a aliadaMarina Silva não deveria ter ido para o PSB. Ou que o melhor parceiro dos ambientalistas em Brasília é o deputadoZequinha Sarney, filho do ex-presidente que ostenta alta rejeição fora do Maranhão.
Nesta entrevista ele discorre sobre alguns dos principais problemas ambientais do país e conta que, a exemplo do que já fizeram os fazendeiros, os ambientalistas também irão sentar com todos os candidatos à presidência para listar suas reivindicações. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) foi o primeiro deles.
Eis a entrevista.
O ex-ministro Roberto Rodrigues (Agricultura) disse o assédio dos candidatos à turma do agronegócio nunca foi tão forte e antecipado. O que achou?
É verdade. Acho que o Roberto tem toda a razão quando fala do volume econômico. A situação do Brasil não é boa, a indústria está ruim. Hoje, o que está bombando são as obras públicas, Copa do Mundo e esses eventos, e a indústria da construção. Mas é coisa que circula aqui dentro, o Brasil não faz caixa. E o que a gente viu agora foi que esse dinheiro do agronegócio realmente cresceu muito também. O Brasil está cada vez melhor no agronegócio. E é muito bom isso. Onde está o problema? É que isso é uma commodity. A decisão não é aqui. O valor da commodity é decidido na Bolsa de Chicago, em Nova York. Eles já ficam com o radar ligado, olhando o clima, tudo. E isso cria impacto para todo lugar.
Mas e a política?
Quem está fazendo política em Brasília, como eu faço, vê que não é assim. Esse setor [agrícola] é o que mais tem voto de cabresto ainda. É o que vive especificamente de seus currais eleitorais. É o político de Ribeirão Preto que mantém lá todo um grupo ligado a ele, as cooperativas, tudo isso. Esse pessoal sempre esteve ligado à política partidária. Mas antes era cada feudo para o seu lado. Dessa vez o governo está vendo [o agronegócio] como uma grande força. Vem da luta em torno das mudanças do Código Florestal. Eles [os fazendeiros] se mostraram muito mais eficientes para fazer política do que se mostravam antigamente.
Como foi essa virada?
Os ruralistas acharam um governo que aceitou a chantagem. Até então, essa chantagem se repetia: "Se vocês não fizerem tal coisa, não vai ter comida", diziam. "Se não fizerem isso, o Brasil vai ficar nos rincões". Mas o governo não entrava nisso. O governo dizia: "pare de encher o saco, quem está bancando vocês sou eu."
Com crédito?
Com crédito agrícola. Que nunca foi tão alto como agora. R$ 150 bilhões hoje.
E quando mudou?
Quando o governo precisou refazer essa base eleitoral. Nós tivemos uma baita crise com a base, que foi o mensalão. Qual é o setor mais suscetível e que mais precisa do governo para funcionar? É o setor agrícola. Se não tiver o crédito, não vai para frente. Eles têm direito a isso [ao crédito]. Só que no Brasil não funciona assim, com direitos. Funciona com quem é mais próximo do poder, aí tem menos burocracia. Como o mensalão quebrou as pernas do governo – repare que na base do mensalão não tinha ninguém do meio agrícola, era tudo gente das regiões metropolitanas –, o governo, para refazer a base, buscou os ruralistas. Até então eles não tinham expressão nenhuma. A gente entrou com esses caras em muitas brigas, inclusive sobre o Código Florestal, e eles nunca levaram. Fizemos o Mais Ambiente (programa de cadastro rural), a Lei da Mata Atlântica, a Lei dos Crimes Ambientais, a Lei das Águas e outras. Com alguns deles votando com a gente, inclusive. Mas com a crise do mensalão, quando o governo buscou uma nova frente de apoio, aí começaram as negociações. E aí eles descobriram que poderiam ir avançando.
Dê um exemplo desse avanço. Como é na prática?
Ocorreu no Código Florestal. Eu participei de cada detalhe da tramitação. Então cada vez eles colocavam um bode na sala. "Nós queremos que acabe com a função social da terra". Não dava, o PT não poderia trair assim. "Então exigimos meia função social da terra", diziam. Aí o PT foi fazendo, fazendo, cedendo. E teve o papel do neocomunista Aldo Rebelo(deputado do PC do B-SP), que foi presidente da Câmara, sabia como funcionava a Casa. Eles já tinham conquistado uma coisa que o governo comeu a maior bola, que foi uma comissão especial para tratar do Código. Com isso, não passaria mais por outras comissões. A Força da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) era muito violenta também, a CNA estava bancando todos os eventos do governo. Então eles avançaram muito.
As disputas não ficaram só sobre o Código, certo?
Eles perceberam a força que tinham no episódio do Código. E aí continuaram as pressões: "queremos mais dinheiro para o crédito", "queremos agora estrada para levar a produção". Então, além de estarmos bancando R$ 150 bilhões de crédito agrícola, você tem dinheiro do governo hoje para fazer infraestrutura, para fazer mais cidades e até algumas insanidades. Exemplo é o caso dos motoristas de caminhão que tinham que descansar de duas em duas horas. Os caras derrubaram isso, porque agora o caminhão de soja tem de sair de Rondônia e bater em Paranaguá (PR) o mais rápido possível. E tem o dinheiro que começa a financiar caminhão, também fora do crédito agrícola. Uma estrutura nova do Brasil.
Mas muito disso é legítimo, não? Qual é o grande problema?
A grande sacanagem é ver tudo isso avançando em cima de área pública. E avançando numa frente na floresta. E conforme avança, uma área fica para trás, vazia. Essa área fica para especulação.
Como isso ocorre?
Vamos pegar na Mata Atlântica. Dos 90% que foram abetos, só 40% tem alguma atividade econômica em cima. O resto é especulação: região metropolitana, expansão das cidades. E muita área abandonada. Qual é o jeito de abandonar? Põe pasto.
Quem conduz isso hoje?
Não são as mesmas oligarquias de antes, as velhas oligarquias. Isso mudou. São as novas oligarquias do crédito. Tem os melhores, como o próprio Blairo [Maggi, produtor de soja e ex-governador do Mato Grosso], que se diz ambientalista. Ele já desafiou os caras: "eu cumpro a lei e faço mais".
Mas é bravata ou é real?
É real. Ele está além da conta. Na reserva legal [parte preservada da mata que toda fazenda precisa ter], ele está acima. E muitas empresas acabaram fazendo isso. Também porque colocaram como ativo: "eu protejo", "eu sou o cara que mais protege". Isso funciona como marketing.
E isso não racha o setor?
Ainda não. Mas vai rachar. E não é uma questão de estar ou não estar do lado dos ambientalistas. É uma tendência, não tem jeito, não volta mais.
Quais são as contas que vocês fazem?
É assim: Dos 860 milhões de quilômetros quadrados que tem o Brasil, há 5,5 milhões de propriedades que dizem que são donas de 560 milhões de hectares. Só que em 60 milhões de hectares é onde está a agricultura. Dentro disso você tem uns 25 ou 30 milhões de soja, 10 de cana, 7 de celulose e vai indo até a abobrinha. E tem 200 milhões de hectares para pasto. Para 200 milhões de bois. Bom, então toda a atividade econômica da agricultura está concentrada aqui: 260 milhões de hectares, somando a plantação e o pasto. Já não é um bom negócio, pois nessa conta dá um boi por hectare. Hoje, para ser uma pecuária boa, você precisa de três bois por hectare. Mas a questão é outra. Se eles têm 560 milhões de hectares e usam 260 milhões, onde está o resto? Cadê os 300 milhões de hectares restantes?
Onde está?
Na mão de especulação. Terras devolutas, Unidades de Conservação, Terras Indígenas. E tem outras coisas que eles não falam. Você tem 30 milhões de hectares para a soja. Se o cara de Chicago descobre que agora vai ter dois bois por hectare e, portanto, vai sobrar 100 milhões de hectares, isso não quer dizer que vai dobrar a produção de soja. Porque se fizer isso, o preço cai. Esse número [30 milhões de hectares para a soja] é contadinho, não vai crescer. As próprias produtoras de semente param de vender. Não vão arriscar. Então, na realidade estamos fazendo a conta mais imbecil. O Brasil fica falando de "uma agricultura que vai produzir alimento para o mundo, nós queremos expandir..." Não vai expandir. Está no limite. Celulose está no limite, cana no limite, soja no limite. Só não está a abobrinha. E desses R$ 150 bilhões do crédito, não chegam R$ 15 bilhões para a agricultura familiar. E mais uma coisa: 80% dos proprietários têm menos de 20% das terras. E 20% têm 80% da terra. Então é essa desigualdade toda. E é essa a bancada que partiu para a chantagem com o governo. E o governo aceitou.
E o dinheiro?
Para ver como funciona eu fui agora lá no Agrishow comprar equipamento. Em 2012, fui com o balão "Veta Dilma" [sobre o Código Florestal] e fizemos um barulho (risos). Agora eu fui comprar. Apareci lá falando que estava precisando comprar colheitadeira de cana, todo o equipamento, caçamba, tudo aquilo. Aí falei: "Como é que assina esse financiamento aí? Minha propriedade tem todos os problemas ambientais, como eu faço?". Sabe qual foi a resposta? "Seus problemas acabaram!" (risos). Disseram: "Você vai receber sua máquina em um ano, vai pagar tanto, esquece o problema [ambiental], Código Florestal... E se você precisar de uma [picape] Amarok aí, para ir quebrando o galho, pode pôr na mesma conta, vai receber na hora". E assim era com Toyota Hilux, tudo. Era uma grande farra do dinheiro. Eu fui de agroboy lá, bota, aquele fivelão no cinto (risos). Os caras não perguntavam quem eu era, nem nada. Tem CPF, faz negócio.
Difícil imaginar que o Brasil deixará de ser fornecedor de produto básico. O que deveria ser feito?
Nós não vamos mudar, deixar de ser um país de commodity. Vai continuar assim, como já era desde 1500. O ciclo do ouro, o ciclo da borracha, o ciclo do café, depois o da cana. Agora tem o da soja. A nossa visão é que agregue nessa commodity a questão ambiental. Então se você comprar uma tonelada de soja do Brasil, você estará levando biodiversidade, porque tem corredor de biodiversidade formado pela APP (Área de Preservação Permanente), tem reserva legal de 20%, está protegendo floresta, tudo isso.
Mas o chinês está preocupado com isso? Vai pagar?
Você tem um mercado maior que o chinês. Para ele tanto faz comprar da Argentina ou o excedente dos Estados Unidos. E a tonelada de soja no Brasil pode custar a mesma coisa. A soja brasileira tem de ser conhecida no mundo. Como foi com o café. O café do Brasil era uma marca, todo mundo sabia que era o melhor por isso ou aquilo. O Brasil precisa pôr uma marca no mundo dizendo "somos produtores de alimento, o celeiro do mundo, mas o celeiro que protege a natureza". O que tem hoje? O que há é uma diplomacia reativa. Como é que o Brasil não leva isso para uma conferência? Poderia dizer "olha o que temos de reserva indígena, olha o que temos de parque".
O que o Brasil fala?
O que a diplomacia fica falando? Fica dizendo assim: "O Brasil não destrói índio". É reativo, percebe? Poderia fazer assim: "Compre tudo o que é feito no Xingu que é para proteger o Xingu. Todos os proprietários lá fizeram a reserva legal e estão fazendo a proteção dos rios com mata, tudo legal". É isso que o Brasil tem. Como eu achei que iria acontecer com o etanol, mas não aconteceu. A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) fez um trabalho maravilhoso, projetou, foi com escritório lá fora e tudo. O que aconteceu? Murchou. Aqui dentro não teve suporte.
O ex-presidente Lula tratava como prioridade. Pelo menos no discurso, não?
Lula dava suporte, mas esse governo não deu. Esse governo foi atrás do [petróleo da camada] pré-sal, fez uma aposta que até agora não aconteceu e está aí hoje a conta para ser paga. O que fez a celulose? Perguntaram: "O que é que tem no mundo aí que é bom? É o FSC (Forest Stweardship Council), a certificação florestal? Hoje todo mundo é FSC no Brasil. Falaram assim: "Tem alguma coisa mais para cima que FSC no mundo? Não? Então é isso, somos isso".
As empresas mudaram?
Pegue a Veracel [empresa de celulose], que foi minha inimiga mortal 20 anos atrás, lá no sul da Bahia. Eu fui em audiência lá em que o pessoal dizia "lincha". Hoje a Veracel tem 120 mil hectares protegidos e 90 mil plantados. É muito mais que o necessário. Eles têm o FSC, que o melhor do mundo, e estão além da lei [na proteção]. Aí você pega Parque Nacional Monte PascoalParque Nacional do Descobrimento e Parque Nacional do Pau Brasil. Esses três parques não somam 80 mil hectares. Estão abandonados, sem gente. Por que uma empresa mantém 120 mil hectares, não pega fogo, ninguém invade? São 120 mil de mata nativa, mata de primeiríssima qualidade. E os parques do governo, na mesma região, estão cheios de problemas. Por que o governo não consegue proteger? Aí está a prova. O Estado é a coisa mais fácil de detonar. Estão lá os políticos fazendo média, botando família para invadir, movimento de sem terra resolve brigar com o governo e invade, índio resolve brigar e invade o parque. E o governo não tem gente para cuidar.
Fale mais dessa história da Veracel.
Eles tinham fama de terem sido detonadores. Foram. Foi provado. A SOS [Mata Atlântica] pegou os caras lá, abrimos uma ação contra eles. Então o que eles fizeram? "Bom, vamos mudar a imagem". E o governo também teve um papel nisso. Quem financiou? Quem é que falava para os caras que o licenciamento era picareta? O ACM (Antônio Carlos Magalhães, ex-senador e ex-governador da Bahia) dizia assim: "Pode meter o trabalho, vai, faz, aqui quem manda sou eu". Os caras foram nessa, se ferraram. Hoje é da VotorantimFibria, como chamam. É nota dez. Eu prefiro trabalhar com a Fibria em qualquer circunstância. Tudo top. Na celulose, todos têm reserva legal, como exigem, todos têm APP. E ajudam nós nas brigas. Tanto que não entraram no debate do Código Florestal com os ruralistas. Claro que não. Se entrar nisso, não certifica. E quem dá o certificado não é o governo, é entidade internacional. Disseram o seguinte para os parceiros deles: "Por que vocês não querem fazer, se nós fizemos?" Aí o pessoal respondeu: "então vocês não entram na briga [pela mudança do Código], porque nós vamos brigar".
Depois de vários anos em queda, o desmatamento voltou a crescer. Qual é a explicação?
É a prova da má gestão. Eu estou há 35 anos em ONG. Não estou em partido nenhum, nunca tive nenhum vínculo. O que eu vejo que aconteceu? Eu digo: para o meio ambiente, este é o pior governo da história. Porque o Lula pelo menos incorporou, colocou a Marina Silva [no ministério do Meio Ambiente], fez avanços. A lei da Mata Atlântica, por exemplo, foi com o Lula. A Dilma simplesmente passou o trator em cima de tudo. Não tinha o desmatamento na Amazônia porque tinha o controle muito maior, toda a fiscalização. Com o desmonte da Dilma nesses anos, mudou. E a projeção de desmatamento é muito maior daqui para a frente. Ela abriu todos os controles. O desastre que a Dilma causou vai ser uma coisa para os próximos 10, 20 anos.
Dê exemplos.
O orçamento do ministério. É o pior. Como é que você quer que o ministério que faz licenciamento trabalhe se você não tem um técnico para análise? Acabou com as Unidades de Conservação, não fez mais nenhuma. A PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição que transfere a competência da União na demarcação das terras indígenas para o Congresso), por exemplo, nasceu dentro do governo. É um baita desgaste. Belo Monte, do jeito que foi encaminhado, é uma bola dividida.
Mas era bom antes? Restrição orçamentária tem em todo lugar.
Sim, mas nunca chegou no nível que tem hoje. E nunca teve tanta demanda como tem hoje. Desde a criação o ministério vinha crescendo, vinha incorporando áreas, passa a cuidar de parques, cresce, faz o Instituto Chico Mendes. O que aDilma fez foi o inverso. Ela acabou desmontando. Antes traziam recursos, fizeram o controle de satélite que não tinha. ADilma realmente desmontou. O setor que mais teve contingenciamento foi esse.
E a ministra (Izabella Teixeira)?
É uma técnica. Muito competente como técnica, mas não tem influência política. O Zequinha [Sarney, ex-ministro] sabia negociar. Mesmo o [ex-ministro] José Carlos Carvalho tinha algum suporte. A Marina fazia uma baita representação. Ela peitava, ia para cima, tanto que peitou a própria Dilma. O que vimos é que essa ministra [Izabella] ajudou a fechar a porta, foi botando panos quentes.
Vocês estiveram recentemente com o Aécio, né? Como foi a conversa?
Estivemos. Vamos marcar com o [Eduardo] Campos e também com esse governo. A conversa foi muito boa. Falamos de todas essas dificuldades e outras coisas. O ativo que o PSDB tem é grande. A legislação ambiental brasileira foi quase toda feita pelo [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, uns 90% foram feitos naquele governo. Dissemos. "Vocês vão rasgar tudo isso por causa desse momento?"
Como ele reagiu?
Reagiu com preocupação. E aí depois nós metralhamos. O governo de Minas Gerais é o campeão da devastação no caso da Mata Atlântica. E por quatro anos seguidos.
O que ocorre por lá?
Carvão, a pior coisa do mundo. E o que é pior: com famílias trabalhando nos fornos. No Jequitinhonha [norte do Estado], que é um dos lugares mais pobres, para uso na siderurgia. Eles usam a mata, transformam em carvão e colocam a família trabalhando sem nenhum registro. É a coisa mais medieval que tem. O cara fala que vai fazer um programa ambiental e vem de um Estado que está liderando na devastação? Aí ele ficou preocupado, disse que iria ver o que estava acontecendo. E não é só lá. O Pará também é do PSDB. Também é problemático, com desmatamento.
E no Congresso, como está o meio ambiente hoje?
Em geral, dá para dizer que o meio ambiente vem tendo cada vez mais adeptos. Esse ano que passou talvez não tanto na questão da biodiversidade, mas na questão dos animais. Pet, essas coisas. Se você pegar nas redes sociais, é um fenômeno. Tem mais pet shop no Brasil hoje do que farmácia. Então tem mais gente ligada à questão de animais. O pessoal do pet em Brasília foi o que mais cresceu. É uma coisa impressionante.
A bancada do cão? (risos)
(risos). É a bancada do pet, acho. No nosso café da manhã semanal da frente ambientalista é a turma que mais tem atividade. É o que mais tem atraído gente.
Como é essa frente ambientalista? Um levantamento recente do jornal "O Estado de S. Paulo" mostrou que muitos deputados aparecem na frente, mas também são da bancada ruralista.
São quase 300 pessoas que já assinaram na frente ambientalista. E não é uma frente ideológica. É uma frente de formação. Então se o parlamentar não está comigo hoje na questão do Código Florestal, ele está na discussão sobre resíduos sólidos. Se o outro não está num tema tal, pode estar na discussão sobre pagamento de serviços ambientais. A questão é saber com quem você pode contar em cada questão. Então temos os grupos de trabalho: o das águas, o dos serviços ambientais, o dos animais, que é hoje o mais animado. E tem muitos no do Código Florestal também, agora acompanhando a implementação.
Os ambientalistas fizeram campanha contra a mudança do Código Florestal e perderam. Se era ruim, por que agora querem a implementação rápida?
Mas tinha coisa boa nele. Nós queremos o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Isso vai mostrar quem é quem. Foi a coisa que a CNA foi mais contra. Olha, acho que só teve um momento em que a concentração de terra foi mais desigual que hoje, só na época da capitania hereditária. O maior problema ambiental brasileiro é fundiário. Começa aqui mesmo, emSão Paulo, na [represa de] Guarapiranga, em Santo André, na [represa] Billings. Se você pegar aqui, na zona sul [de São Paulo], eu te garanto: 80% das pessoas que moram lá não tem nem documento em cartório, o título. Uma insanidade. O Brasil é completamente irregular. E 90% dessas ocupações foram feitas por políticos. Você sabe, os políticos que fizeram a ocupação em Santo Amaro [bairro da zona sul] são os que mandam aqui em São Paulo hoje, junto com o [prefeito Fernando] Haddad. O maior problema é o fundiário. Então vamos fazer cumprir o Código naquilo que os ruralistas têm maior pavor, que é o controle.
Mas o que se sabe hoje?
Nada.
Como nada? Você sabe quem são os grandes. Você mesmo citou o Blairo Maggi, por exemplo.
Ah, você tem dois ou três. Mas não se sabe os grupos que estão atrás, não sabemos o quem é quem nessas propriedades. E tem um monte de laranja nisso. Então se você tiver o CAR de todas as propriedades, vai saber quem está aonde, como é que está a reserva legal, os limites exatos da propriedade, tudo georreferenciado. Aí você vai saber o tamanho desse Brasil. Como era antes? Tinha a lei que dizia que tinha que tinha que ter reserva legal, mas você não sabia onde nem como. Tinha a lei que dizia que tinha que ter APP, mas não se sabia onde nem como. Agora vamos saber. Quantos proprietários foram beneficiados com a anistia ampla, geral e irrestrita [para desmatamentos feitos antes de 2008] que colocaram no Código? Vamos saber. Quem são eles? Vamos saber. E esses desmatamentos anistiados estão aonde? Vamos saber. Então são elementos para você conhecer e depois entrar na Justiça.
Meio ambiente dá voto?
Nunca deu.
Não é um paradoxo? O tema nunca esteve tão na moda. O apelo está por toda parte, virou marketing das grandes corporações, mesmo as que poluem, está nos discursos de todos os partidos, na mídia, nas escolas...
É, mas ainda não dá voto. O que dá voto? Vai para o cara que faz asfalto, o que dá cesta básica. É o de sempre. A população ainda não tem essa visão sobre meio ambiente. São temas universais. É como a reciclagem: todo mundo é a favor, mas só 2% fazem. Ou saneamento. Todos sabem que cano enterrado não dá voto. Hoje o cara diz "eu fiz um posto de saúde, fiz o hospital regional". Aí você pergunta quantos dos internados nesse novo hospital são por doenças de origem hídrica. Dá 70%. Agora, se fizer um metro de cano, tira sete internações. Mas aí ninguém vê. E é tudo muito recente. Muitos desses ruralistas têm razão quando falam. Eles dizem: "30 anos atrás foi o governo que mandou derrubar [a mata], mandou colonizar". Na cidade também é recente. Trinta anos atrás você não tinha uma lei de uso de solo como tem hoje. Agora tem de ter recuo de frente, de lado, calçada, tudo. Não existia antes. Essas coisas serão cada vez mais exigidas, pois estamos vendo que a cidade fica inviável. Então é muito pouco tempo. Qual é a história do Brasil? Depreda, depreda, depreda. A natureza era uma coisa a ser conquistada, a ser incorporada, nunca teve custo. Esgotou a terra? Abre outra, vai abrindo.
No meio político todo mundo se surpreendeu com a filiação da Marina Silva no PSB após o fracasso da criação da Rede a tempo de disputar em 2014. Entre os ambientalistas também houve surpresa?
Também. Eu não esperava. Eu esperava que ela seguisse firme com a história da Rede e não se entusiasmasse com essa eleição de 2014, que é uma bola dividida. Agora, o que acho que deixou a Marina contrariada é que ocorreu uma baita sacanagem, né? Eles já tinham conseguido as assinaturas [para criar o partido]. Você acha que o Partido Ecológico Nacional conseguiu as assinaturas? O Paulinho [da Força, para criação do Solidariedade]? Então acho que foi uma resposta dela a esse tipo de agressão. No meio, tem gente que gostou [da filiação ao PSB] porque acha que tem de ocupar espaço político. Outros não, como eu. E eu não acho que tem de ter um partido só de meio ambiente. Muito melhor é ter o assunto permeado em todos, PMDB, PSDB, PV, PSOL. O PT tinha um grupo muito bom, mas esvaziou. Mas eu não sei se ela terá tanto ganho quanto teve quando concorreu sozinha.
Quem é melhor parlamentar para tratar de meio ambiente em Brasília hoje?
Zequinha (Sarney Filho, PV). É o cara mais nota dez com quem eu já trabalhei. E vai se ferrar por causa disso, viu? Porque a base eleitoral dele no Maranhão é onde está o agronegócio hoje. E os caras estão jogando pesado contra ele lá. Pesado mesmo, detonando. Ele vai ter muito problema para se reeleger. O Zequinha... Fiz todas as campanhas contra o pai dele... E é uma coisa impressionante, ele é o meu melhor parceiro lá em Brasília. Desde ministro. Antes até. É o cara mais coerente de Brasília. Eu o conheci antes da Constituição. Na Constituição ele nos apoiou, participou daquele primeiro grupo pequeno, que diziam cabia numa Kombi (risos). E foi aquele grupo que escreveu o capítulo do meio ambiente na Constituição. O cara teve uma vida pautada nesse tema. É por isso que foi ministro, já tinha história.
E no Senado?
Tem gente boa. Você tem o senador de Brasília, o [Rodrigo] Rollemberg (PSB-DF), ele é muito bom. E tinha lá o [Jorge]Viana (PT-AC), né? Mas foi uma das maiores traições que a gente teve, um terror. [Viana foi um dos relatores das mudanças do Código Florestal e, na avaliação dos ambientalistas, atuou em desacordo com os interesses do meio ambiente]
Já acertaram as contas com ele?
Ah, não. Vai ser difícil. Foi terror. Eu mesmo nunca mais falei com ele. E olha que eu converso com todo mundo. Ele traiu. Traiu a Marina até.
E a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO, presidente da CNA), que aparece como porta-voz dos fazendeiros?
Ela é a amiga da presidente, né? Aparecem de mãos dadas. A Kátia é aquela coisa... É o problema pessoal dela. É tudo complicado. Essa mulher tem interesse particular, não é nem interesse corporativo. Eu acho que a bola lá está dividida por lá. Acho que o Roberto Rodrigues, por exemplo, tem uma visão totalmente diferente da dessa mulher. É possível conversar com o Roberto. Com ela, nem pensar, é impossível. E ela tem bala, tem 20 e tantos assessores parlamentares, os melhores jornalistas estão com ela agora, cada dia produzem uma nota. E ela está bem. Bancou o Brasil no Fórum Mundial de Água. Ela tentou colocar aquela tese de que se o Brasil tem APP então todos os países tinham que ter. Nós fomos lá e demos o "Troféu Copo Vazio" para ela (risos). Aí eles ficaram bravos, "quem banca esse estande somos nós". É desse jeito, é ridículo. Então ela está fazendo confronto, não faz diálogo. Todos os posicionamentos dela são agredindo. Muito do que foi o Aldo Rebelo no fim. Aquela conversa "as ONG internacionais", "os que querem impedir o Brasil". Ora, eu não sou ONG internacional.