Wednesday, 16 October 2013

IPCC regionaliza previsões para atrair engajamento social

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15/10/2013 - Copyleft

IPCC regionaliza previsões para atrair engajamento social


Mauricio Thuswohl
Divulgação


Rio de Janeiro - O Quinto Relatório do IPCC, apresentado pelo Grupo de Trabalho número um do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas, reafirma a constatação de que a influência humana é decisiva para as transformações em curso no sistema climático global, aumentando esta certeza para 95%. A grande novidade do documento, elaborado por 259 cientistas de 39 países, com base em cerca de nove mil estudos climáticos, é seu método de apresentação que, desta vez, optou pela regionalização das previsões e pela projeção de cenários distintos que sugerem os limites possíveis para as emissões de gases de efeito estufa. O objetivo da mudança é tornar mais próximas das pessoas as previsões, muitas vezes encaradas como genéricas e distantes da realidade local, e aumentar o engajamento social nas discussões e ações de combate às mudanças climáticas.
 
“Embora estes públicos possam não estar interessados em discussões científicas globais, eles podem se interessar pelas ameaças iminentes que as mudanças climáticas representam para sua própria segurança e para a segurança de seus lares, famílias e propriedades. Em uma época na qual muitos consideram as mudanças climáticas apenas como uma ameaça futura, a intenção deste sumário regional é torná-las reais, relevantes e urgentes”, diz o relatório, divulgado em 27 de setembro na cidade de Estocolmo, na Suécia. Os estudos elaborados pelo segundo GT e pelo terceiro GT do IPCC serão publicados em março e em outubro de 2014, respectivamente.
 
Em seu esforço para estabelecer limites às emissões e tornar mais tangíveis os números que envolvem as mudanças climáticas, o IPCC traçou quatro modelos de previsão para todo o planeta, denominados Representative Concentration Pathways, com caminhos possíveis, sempre associados à ação humana, para a concentração de gases de efeito estufa no planeta. Na previsão mais otimista, que fala na emissão de 270 bilhões de toneladas de carbono, a Terra sofrerá até 2100 um aumento de 0,3 a 1,7 grau Celsius em relação à média da temperatura terrestre observada entre 1986 e 2005.
 
Na previsão mais pessimista, o aumento da temperatura será de 2,6 a 4,8 graus Celsius, com a emissão de 1,69 trilhão de toneladas de carbono. Na prática, isso significará, entre outras coisas, o desaparecimento completo do gelo no Ártico durante o verão e o derretimento das grandes geleiras, das calotas polares e da Groenlândia. A conseqüência mais sentida desse derretimento, segundo o IPCC, será a elevação dos oceanos, que poderá ser de 26cm a 55cm no cenário mais otimista ou de 45cm a 82cm no cenário mais pessimista.
 
Para a brasileira Suzana Khan, que é vice-presidente do IPCC, o Quinto Relatório coloca também no debate sobre mudanças climáticas questões relativas a aspectos sócio-econômicos e demográficos: “Não é simplesmente uma questão da física ou química da atmosfera, nem tampouco simplesmente de se fazer os cálculos de quanto se está emitindo e quanto a atmosfera e o oceano sofrem. Tudo isso tem uma relação muito forte com a maneira que nós consumimos, com a maneira que nós pretendemos nos desenvolver. Então, quando você trabalha com diversos cenários possíveis, todos esses aspectos passam a ser também considerados. Não só como o clima vai reagir, mas como a sociedade de uma maneira geral vai reagir a mudanças de padrão de consumo, de cultura, à aceitação de novas tecnologias. Esses cenários representativos que o IPCC tem trabalhado incorporam todos esses aspectos que não são tão técnicos, mas algo muito mais comportamental da própria sociedade”, diz.
 
Brasil
 
No caso específico do Brasil, o relatório do IPCC indica um provável aumento médio de até 5 graus Celsius na temperatura – com aumento de até 7 graus nas máximas diárias – e redução de até 30% no volume médio de chuvas do país até 2100. O relatório traz também menção especial à formação de “ilhas de calor nas zonas urbanas”, sobretudo na Região Sudeste do Brasil, onde as principais metrópoles conviverão até o fim deste século com mais de cem dias com temperaturas acima de 20 graus a cada ano.
 
O relatório do IPCC afirma também que a ocorrência continuada do fenômeno climático conhecido como El Niño (aumento da temperatura da água na superfície do Oceano Pacífico) poderá provocar secas com meses de duração nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Por outro lado, o fenômeno inverso, conhecido como La Niña, poderá agravar as tempestades e inundações nas regiões Sul e Sudeste do país.
 
Como conseqüências imediatas do aquecimento, o relatório aponta a diminuição da produção agrícola, a acentuada perda da biodiversidade no Cerrado, a savanização do Leste da Amazônia, o aumento das precipitações no Oeste da Amazônia e o “fim do inverno”, com aumento médio de até quatro graus naquela estação e temperaturas elevadas o ano todo. O colapso no regime de chuvas, por sua vez, provocaria crise nas usinas hidrelétricas brasileiras e no fornecimento da energia por elas gerada.
 
Cidades
 
Suzana Khan ressalta ainda a importância dada pelo relatório do IPCC à organização do enfrentamento às mudanças climáticas nas principais metrópoles do planeta: “As cidades são grandes fontes de emissão de gases de efeito estufa. Se o setor energético é um dos que mais contribuem para o aumento da temperatura, quem demanda essa energia são as próprias cidades, seja para iluminação, mobilidade e transporte ou uso residencial. Então, a forma com que estão crescendo faz das cidades grandes demandadoras de recursos naturais. Isso as torna a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa”, diz.
 
A vice-presidente do IPCC afirma que, por outro lado, estão também nas cidades os principais danos provocados pelas mudanças climáticas: “Há o dano onde há população. A população que mora nas cidades será muito afetada por conta desses efeitos e impactos trazidos pelas mudanças climáticas. É preciso ter um olhar cuidadoso em relação às cidades. Os governantes municipais têm que ser chamados para atuar junto ao governo federal nos planos nacionais porque quem acaba tendo que agir na ponta, realmente, são as cidades. Por isso, elas não podem ficar à parte das discussões climáticas”, diz.
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