Sunday, 25 May 2014

Vitória Basaia [Jornalista, Artista Plástica, Educadora e Produtora Cultural Brasileira]

revista biografia
http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2012/05/vitoria-basaia-jornalista-artista.html


Vitória Basaia [Jornalista, Artista Plástica, Educadora e Produtora Cultural Brasileira]

Vitória Basaia - Carioca, jornalista, artista plástica e animadora cultural, radicada desde 1981 em Mato Grosso. 

Inicia-se nas artes plásticas como autodidata. Além de pintora, gravurista, conceitualista e escultora, desenvolve pesquisas com pigmentos naturais e materiais recicláveis desde 1985. A partir de 1990 sua pesquisa tem sido difundida por programas da UFMT, em oficinas que visam a melhoria do ensino no interior. Ministra oficina de liberação criativa para artistas. Em 1992 inicia o projeto Galeria do Povo, fazendo interferências urbanas, com murais em caixa alta, em fachadas de casas, lojas, muros, feiras e clubes, com o propósito de levar a arte às ruas. Desenvolve ainda o projeto “Não dê o peixe, ensine a pescar” que se resume no ensino de crianças, trabalhadores da rua, em reciclar o lixo da cidade, resignificando-o. Começa em 1999 junto a UFMT, Horto-Florestal Tote Garcia e Instituto Pró Ambiência – Embaúba IPA, o Projeto Arte e Ambiência. Em 2000 assume o cargo de conselheira no Conselho de Cultura de Várzea Grande. Sua casa, com um acervo de mais de mil obras, é aberta ao público fazendo parte de vários roteiros para visitação. 


“Acho que tudo é passível de se tornar arte. É uma questão de aguçar o olhar, é o encontro que reside daí. Me fascina muito poder trazer beleza da desordem de todo caos.”
“O suporte não tem limite. Na verdade a minha arte acontece, ela não é pré-elaborada. De repente eu estou aqui fazendo, está acontecendo. Um material está ali, jogado há anos e de repente aparece outro, então rola um encontro, o lugar exato onde ele pode ser encaixado. Agradeço a Deus todo dia que eu possa ser esse canal, energético, de comunicação com as pessoas, de comunhão. Isso, pra mim, é criação.”


Sua casa é arte para todos os lados, esta é a sua recepção.
Faz parte do conselho de cultura de Várzea Grande e já escreveu um livro sobre técnicas e pesquisa em arte e educação.Também desenvolveu projetos de reciclagem de lixo junto à população carente.
Vitória Basaia é um das raras artistas "brut" do Brasil. Trabalhando com materiais da natureza (tintas feitas com terras da Chapada dos Guimarães, nos arredores de Cuiabá) ou reciclando rejeitos como madeiras achadas nas ruas, latas, plásticos. Basaia cria surpreendentes formas que testemunham seu imenso talento. Seus temas envolvem aspectos da poética feminina, como a maternidade, o senso de proteção e a sexualidade.(overmundo)

A casa da Basaia, por exemplo, é mais que uma casa, é suporte para suas criações também, é uma instalação em estado de mudança constante, é exposição permanente. A casa expõe sua vida, como ela é, como alimenta o cotidiano, que é totalmente entregue à arte como se tudo fizesse parte do divino. Parte dos seres que criam e recriam as coisas. Dá outras finalidades a objetos descartados. E por aí adiante. A cada passo nos corredores da casa, a cada transição de um ambiente para outro, um espanto! Em todos os recantos uma entidade surge como ser elemental – parece que ela só revela o que já está aí, como uma fotógrafa de almas – seres impressos nos suportes invisíveis que carregam marcas dos tempos.


“Na casa, nada escapa à sua interferência, que vai desde tapetes, sofás, móveis da cozinha, demais utensílios, até os lustres. Tudo tem o sabor, o odor, o bolor Basaia.”
                                 Serafim Bertoloto -artista plástico, historiador 
e doutor em Comunicação 
e Semiótica (PUC/SP)

Carregar a vitória no próprio nome há de imprimir uma certa responsabilidade em quem o leva, afinal nomes não são impunes, nomes mexem com as pessoas. Vitória Basaia é assim, vitoriosa, porque é uma artista que se entrega de corpo e alma.


“Observamos os seres misteriosos de Vitória e podemos pensar em uma tela de Braque como o “Grande nu”, guardada no Centre Pompidou, em Paris. A aparência primitiva é a mesma. O esforço para se limitar ao essencial e ao mais antigo, também. O gosto solar, a falta de medo do infantil, a liberdade extrema de quem faz o que quer.”
                                                 José Castello 
Crítico, Ensaísta e Escritor 



“Basaia está entre aqueles que se lançam no projeto de inventar o mundo, do começo ao fim. Como máquina de criar universo (o único paralelo que temos é o divino), concebe seus elementos, forja criaturas, constrói-lhes moradas e, ao fim de tudo, sopra-lhes no rosto, instintos e narrativas. É assim que compreendemos o projeto poético de Vitória Basaia.”
                                              Ludmila Brandão
arquiteta e historiadora, 
doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP



 Trabalho muito, sou muito disciplinada. É daí que vem o crescimento.(Basaia)


A arte de Vitória Basaia não é estranha ao colecionismo. Talvez seja um colecionismo mais exótico e que sofre intervenções mais densas por parte da artista, que parece ter ido residir tão longe para se articular melhor com as forças misteriosas da terra e com a magia interior com que reescreve seu próprio mundo e o sentido denso da vida. E da sua própria vida.
Tudo nela é enigma e mágica, até mesmo essa trajetória inesperada em seu percurso de vida, iniciado como jornalista na grande cidade e vindo a se instalar no extremo oeste brasileiro em busca de uma relação direta com a terra e com a cultura da terra, perto das aldeias indígenas e da essência da existência humana mais primitiva. Para realização de suas peças vale-se de tudo que encontra ao seu redor, unindo e cruzando significados para obter novos olhares e novas possibilidades visuais.

Dentro dessa perspectiva, pode-se observar que boa parte de sua produção artística decorre da atitude colecionista , seja de garrafas plásticas, seja de cabeças de bonecas, seja lá o que for e que esteja disponível para extrair da conjugação das peças a realização de sua obra.


O crítico Oscar D’Ambrosio conheceu sua casa e traçou um retrato profundo de admiração e respeito pelas soluções éticas e estéticas da artista, concluindo que “Vitória Basaia tem um compromiso de produzir sempre e de surpreender a si mesma e aos outros com suas soluções”.
A obra de Vitória Basaia guarda, inegavelmente, um certo paralelismo com esses casos de compulsão artística e também com o colecionismo como prática de trabalho. Mas seria incômodo classificá-la como uma artista do mosaico, coisa que ela não faz. Seu método de trabalho e sua obra parecem indicar a existência de uma certa conexão com o inconsciente que lhe permite traduzir em peças artísticas suas angústias e visão do mundo, de forma densa e surpreendente. O mosaico, neste caso, é ela própria, um mosaico vivo, resultado da multiplicidade de suas conexões emocionais com o universo, com a magia do espaço e das peças que extrai de suas próprias entranhas para decodificação do mundo.
"Existe uma base que sustenta todo processo de edificação. É preciso ter pilares para dar teto ao chão. Fazer arte não é so inspiração e transpiração. Arte doi, arde; não é manha nem artimanha, machuca. Tem que ter base para não desmoronar; guardiãs para proteger."


EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

2007 – III Tudo sobre mulheres – Festival de Cinema Feminino – Artista Homenageada - Chapada dos Guimarães/MT
2006 – Exposição Universo Inquieto – MACAP – UFMT – Cuiabá/MT
2005 – Salário dos Poetas - Teatro o Bando - Portugal
2004 – Projeto Arte Pública – Cuiabá - MT
2004 – Cosmogonia – Galeria Sesc Arsenal – Cuiabá
2003 – Panorama das Artes Plásticas em Mato Grosso no Século XX – Studio Centro Histórico, Cuiabá-MT
2002 – Belarmino, O guardador de ossos, Teatro Inquieto. Chapada dos Guimarães.
2002 –Instalação Urbana – Nossa Senhora do Mar de Xaraés.- Cuiabá- TV Centro América
2001 - Constrói a Praça de vivência da Fundação Júlio Campos Várzea Grande
2000 – Arte Ambiência – Pintando com a Poluição. Vários pontos de Cuiabá.
1999 – Frutos do Cerrado – Horto Florestal/UFMT
1998 – Instalação – Santo Cerrado – Praça Aquidaban, Várzea Grande-MT.
1997 – Espaço Moitará Sebrae Center – Cuiabá-MT.
1996 – Filhos da terra – MACAP/UFMT.
1995 – Processos e Utilização de materiais alternativos – SBPC – UFMT.
1994 – Tar-Ta-Ruga – Faculdade de Comunicações – Várzea Grande-MT.
1993 – Museu de Arte Contemporânea – Goiânia-GO.
1992– Cio da Terra – Chapada dos Guimarães-MT. / Casa das Artes – Lima-Peru / Alquimia da Terra – Exposição itinerante pelos Estados brasileiros.
1991 – Cultura Índia – Maranhão.
1990 – Na Barriga do Pantanal – Galeria Rodolfo Amoedo –AUDF – Brasília-DF / Chapadões – Hotel Eldorado-Cuiabá-MT.
1989 – Basaia se atreve – FCJC – Várzea Grande-MT

SALÕES E BIENAIS

2010 – Exposição do Acervo MACP – UFMT – Cuiabá - MT
2010 – Acervo:Iconografia das Águas – SESC Arsenal – Cuiabá/MT
2010 – Circuito Cultural Setembro Freire – Palácio da Instrução – Cuiabá - MT
2010 – Diálogo Contemporâneo-Quatro faces da Arte mato-grossense-SEC–Cuiabá-MT
2010 – Cores do Pantanal – Palácio Cabral – Lisboa - Portugal
2009 – ACERVO: Um grandeOlhar – Museu de arte e Cultura Popular da UFMT
2008 – Artistas do Centro Oeste – Secretaria de Estado de Cultura – Cuiabá-MT
2008 – Iconografia das Águas – 8th INTECOL – MACAP/UFMT – Cuiabá-MT
2008 – Elas por Elas – Galeria Brasiliana – São Paulo/SP
2007 – Caminho da Coluna Prestes – Casa de Guimarães – Chapada dos Guimarães/MT
2007 – Recebe o 1º prêmio do XXIV Salão Jovem Arte Mato-grossense – Cuiabá/MT
2007 – CIRCUITO – Panorâmico – Galeria Mato-grossense de Artes Visuais – Secretaria de Estado de Cultura
2006 – A Eco-reflexão sob o olhar da arte contemporânea
2006 – Recebe o 2º prêmio do XXIII Salão Jovem Arte Mato-grossense – Cuiabá/MT
2005 – Exposição Territórios MAC Ibirapuera – São Paulo/SP
2004 – Várias Paisagens – Coletiva – AmazonTech / Centro de Eventos Pantanal – 08/04 / Artistas do Centro Oeste – Coletiva – MARCO/MS – Agosto 2004 / Brasil Central – Coletiva - V Festival de Inverno Bonito / MS – 07/04
2003 – Coletiva – Secretaria de Cultura - Cuiabá
2002 – XIV Reunião Brasileira de Manejo, Conservação do Solo e da Água-Sebrae
2001 – Instalação Urbana – O Grande Olhar – Cuiabá-MT.
2000 – Artista do século – MACAP/UFMT – Cuiabá-MT.
1999 – Um olhar sobre Mimoso – UFMT- Coord. de Cultura –Mimoso-MT / Latinarte – Itinerante – América Latina.
1998 – Um espaço, duas junções – Centro Cultural do Liceu de Artes São Paulo-SP.
1997 – 17º Salão Jovem Arte Mato-grossense / Artista Convidada – Salão MECAB – PR / Salão de Arte Contemporânea – Campo Grande-MS.
1996 – 1ª Bienal de Arte Contemporânea de Cataguases- Sec.de Cultura-MG/Cores do Brasil–Galeria Virtual-São Paulo-SP.
1995 – Bienal de Santos – Santos-SP / Recebe o 2º Grande Prêmio - Salão Arte da Terra-FCJC-Várzea Grande-MT / Visualidade da Arte Mato-grossense para a Alemanha-MACAP/UFMT/ SBPC / XVI Salão Jovem Arte Mato-grossense-Cuiabá-MT / Artistas Mato-grossenses-Galeria Dalva de Barros-Cuiabá-MT.
1994 – XV Salão Jovem Arte Mato-Grossense-Cuiabá-MT / Recebe o Prêmio Painel Sebrae de Arte Contemporânea Brasileira-O Centro Oeste-Mostra em Brasília e SP / Recebe o Prêmio Participação e Menção Honrosa-90 Horas de Pintura Contemporânea -Brasília-DF / 10ª Mostra do Desenho Brasileiro – MAC-PR
1993 – 50º Salão Paranaense – MAC-PR / Coordena o Salão Jovem Arte Mato-grossense-Cuiabá-MT / Coordena o 1º Salão Paiaguás / Tudo é Um Mato Só – MAC-Campo Grande-MS / Tudo é Um Mato Só – FCMT – Cuiabá-MT / 1ª Bienal de Arte Incomum – MAC-Goiânia-GO / FIAT – Arte Brasileira – São Paulo-SP / 3ª Bienal de Goiás – MAC-Goiânia-GO / Recebe o Prêmio Participação – 90 Horas de Pintura Contemporânea-DF / Museu MACAP – UFMT.
1992 –Recebe o Prêmio Participação e Menção honrosa-90 horas de Pintura Contemporânea Galeria Casa Grande – Goiânia-GO / Barriga do Pantanal – Museu Conjunto Cultural da CEF – Rio de Janeiro-RJ / Participação da Eco 92-Conferencia das Nações Unidas-Rio de Janeiro-RJ / 1º Salão do Designer do Centro Oeste – Galeria Casa Grande-Goiânia-GO / Itinerante MT – UFMT/MT.
1991 – XII Salão Jovem arte Mato-grossense-FUNCETUR – Cuiabá-MT / 1ª Mostra de Artistas do Mato Grosso – Desembanco-Salvador-BA / Recebe o Prêmio Cultura Universidade – Artes – UFMT-Cuiabá-MT / Recebe o Prêmio de Participação 90 Horas Pintura Contemporânea-Brasilia.DF.
1990 – Recebe menção honrosa XI Salão Jovem Arte Mato-grossense – Cuiabá-MT / Artista Convidada – 5º Salão de Artes Zumbi – MECAB – PR / Arte Pantanal – Salão Negro do Congresso Nacional – Brasília-DF / Recebe o Prêmio Participação e Menção honrosa-90 Horas de Pintura Contemporânea – Brasília-DF / Arte Contemporânea – Banco do Brasil – Brasília-DF.
1989 – 1º Salão de Artes Mato-grossenses – Sala Martins Pena Brasília-DF.


A casa de guardados  
Uma casa é muito mais que uma moradia. Trata-se do espaço pelo qual um indivíduo se relaciona com o mundo, seja pela forma dessa casa ou pelos objetos que são nela colocados. Em síntese, conhecer a casa de alguns artistas é talvez um dos passos mais essenciais para desvendar a sua relação com as pessoas próximas, as distantes, a rua e a sociedade.

A casa de Vitória Basaia, nascida no Rio de Janeiro, em 1951, mas residente em Várzea Grande, Estado do Mato Grosso, exemplifica bem como uma artista pode expressar seu sentimento de viver por meio de trabalhos plásticos que vão progressivamente se acumulando dentro de uma lógica pessoal, em que cada peça e cada espaço ganham um significado próprio.

Vitória oferece uma diversidade que fascina. Nascida do hábito de desenhar desde criança, ela se aventura por diversos caminhos, com destaque para a pintura com pigmentos naturais, que realiza sem a intermediação de pincel. Surgem daí seres fantasmagóricos, metade bicho metade gente a indagar os limites razão/emoção e consciente/inconsciente que nos acompanham.      

No entanto, a produção de Vitória não pára nas pinturas que pendura nas paredes. É nas bonecas de pano pintadas dos dois lados, em que a ingenuidade da criança se mistura com o erotismo de mulheres fatais e nos diversos objetos feitos com sucata, em que a imaginação se abre, inclusive, para trabalhos em que a abstração ganha espaço, numa espécie de  arte conceitual muito particular, que a artista atinge seus melhores momentos.

Suas matérias-primas são as mais variadas. Incluem garrafas plásticas, fios, aparelhos eletrônicos, molas de colchões, enfim, tudo aquilo que muitas vezes é jogado fora inadvertidamente. Ela constrói o próprio mundo na casa e, nesse aspecto, as pinturas nos muros do jardim e as esculturas e rostos entre as folhagens ou em locais inesperados das paredes alertam para a possibilidade de conceber o espaço como a plenitude de uma proposta estética: a de que só existe a proibição do comodismo e da estaticidade.

Seja na criação de uma caixa com utensílios diversos ou em objetos cuja projeção de sombras nas paredes oferecem um verdadeiro fascínio visual, Vitória não conhece limites. Confessa, por exemplo, que já pintou e repintou paredes de sua casa, destruindo um trabalho para criar um novo.

A sua estética é a do fazer. Guardar aquilo que faz em sua casa é uma conseqüência. Arquiteta assim uma caixa de guardados, que tem, como marco a primeira exposição individual, 1989, já em Vargem Grande. O nome diz tudo: “Basaia se Atreve”, sendo um indício da ousadia que acompanha e caracteriza a artista até hoje.

Há em Vitória Basaia a estética do atrevimento, da inquietação e do não-conformismo. Sua casa é justamente o espelho que reflete isso. Ali, ela refrata o mundo à sua maneira, com especial felicidade quando se vale dos tons mais escuros, que brotam da sua relação não só com a terra, mas com aquilo de visceral que se evidencia em seu trabalho: uma certa ancestralidade arquetípica voltada para o poder de sedução da construção de formas agradáveis ao olhar.

A estética dela, embora trabalhe com elementos fálicos em boa parte das obras, não é agressiva, por paradoxal que isso possa parecer. Sua reflexão sobre a conservação da vida, a passagem do tempo e os limites entre o que vemos e o que imaginamos supera qualquer pensamento simplista.

A casa de Vitória Basaia guarda em seus baús reais e simbólicos o próprio tempo de criar e de existir. Sua poética é a de nada deixar estático ou não-aproveitado. Seu compromisso é o de produzir sempre e de surpreender a si mesma e aos outros com suas soluções. Cada parede, corredor e canto da casa exerce essa função com primor.

O cosmos da artista se estabelece pela maneira de re-criar o mundo e dar-lhe novas dimensões, marcadas pela poesia do ato de ver o novo no antigo e a possibilidade no descartado. O resultado é uma casa que vale pelo que guarda, em paredes, baús e cantos.

Ela amplifica ainda seu poder pelo que esconde em termos de idéias e conceitos, que saem da mente de Vitória para a visibilidade restrita do seu mundo privado e, no mundo público, embora ainda importantes, perdem seu caráter original, infinitamente mais significativo na casa de uma criadora que se movimenta intensa e incessantemente 24 horas sete vezes por semana, numa jornada de tempo integral devotada à arte e ao pensamento que tem como manifestação concreta a construção de uma casa fascinante e de uma arte de qualidade. 
Oscar D’Ambrosio mestre em Artes Visuais 
pelo Instituto de Artes da UNESP, 
integra a Associação Internacional de Críticos de Artes 
(Aica – Seção Brasil).



Basaia faz parte de um time de artistas que abraça seu modo de vida como quem se agarra à última tábua de salvação: se é que existe salvação nesse mundo louco. 
Mas louco é quem me diz, que não é feliz, já cantou Arnaldo Baptista. 
Eduardo Fereira (overmundo)



De mulher aos homens que pari

Estamos em Março mês em que se comemora e rememora o ser mulher, me penso a procura do que me faz diferente, poderosa em ser feminino ser. Me descubro útero de desova de um grande tesouro... Filhos! E a eles que vou me dizer.

No guardo da barriga éramos um só gestando o tempo; na morna espera do seu sair para a vida. Já ali, compartilhávamos sonhos de eu ser você e você ser eu. De quando em vez você mudava de posição; como que de birra batia os pés contra meu ventre avisando: Ei!  Eu sou eu apenas eu!

Eis que em parto me parto por ti que se fez luz para iluminar caminhos. Na rosada bochecha um sorriso carente de dentes e mordes apenas um rasgo de boca luz para dizer, sou o amor.

Hoje quando me aconchego em posição fetal, te vejo e me revejo no útero de mim exposto na barriga do mundo fazendo da vida o aprendizado do ser amor, no dar e receber. Procriastes crias e em suas crias vejo o reflexo do seu ser. Quanto a mim, ensinou-me que do parto que me parti me multipliquei em ti. No afago de tuas crias, não minhas, não tuas: Do mundo. Me rendo a graça divina de ser mulher e poder mãe ser.

Alguns dirão – que texto piegas, ultrapassado, banal, chinfrim – mas não tem nada não, pois esta é a minha verdade; nunca queimei o sutian que aparou os peitos que amamentaram as vidas de minha vida.

Sou uma mulher atuante politicamente; uma profissional respeitada e realizada nas áreas em que atuo, mas nada me é mais gratificante do ser mulher do que ter tido a oportunidade de gerar, criar e participar da vida dos homens que pari. E a eles peço: Quando a memória nossa for apenas o silencio da lembrança, façam um pacto com a vida de que tudo que vivemos adube as próximas gerações de mim, de ti e, do amor pela humanidade.

Inté mais ver
(Vitória Basia)

Cora Coralina de mim

Hoje eu vi Cora Coralina a velha eterna menina de Goiás, ao som de serenata “minh’alma esperava por ti”, como um relicário; em um Doc lá estava ela “levaram o ouro, deixaram as pedras e entre elas eu renasci”.

Me recordo como se fosse hoje, na época trabalhava no Correio Várzea Grandense, que até então era um semanário; o que nos dava  oportunidade de elaborar pautas com tempo de escrever folgadamente e com mais cuidado o tema a ser dissertado.

Na primeira semana de Março de 1985 havia eu comprado o livro de Cora para presentear minha sogra que adorava declamar seus poemas. Li o livro, fiquei fascinada. Ali decidi que esta seria minha pauta para o dia da Mulher. Me adentrei na pesquisa, quanto mais conhecia Cora me sentia incapaz de escrever fazendo jus a ela; tudo que escrevia pensava que estava aquém do que era merecido dizer de tamanha Mulher. Fui enrolando até que se passou o Dia da Mulher. Enfim na primeira semana de Abril de 1985 o texto ficou pronto. No dia 10 de Abril ele foi publicado. Coincidentemente no dia em que ela faleceu. Chorei de emoção pela perca e frustração porque tinha desejo que ela o lesse. Não sabia se ela se recordava de mim, mas eu a conheci quando criança, meu pai adorava os doces que ela fazia.

Todas as vezes que íamos a Goiás Velho, nós a visitávamos para o doce e uma mão de prosa. Hoje vendo o Doc me deu uma saudade danada de mim, a quanto tempo não escrevo, não me digo à alguém. Me repenso, a arte se diz por mim. Hoje penso entender o que Cora queria dizer “levaram o ouro” (sua juventude) deixaram as pedras” (a maturidade) e entre elas eu renasci “a arte”.

Inté mais ver.
(Vitória Basia)

 


Vitória, uma grande artista! Sua obra é tão intensa quanto Gandhi ou Picasso, a mesma volúpia e amor a arte.
                 Ana Miranda é escritora
autora do romance Boca do Inferno, 
entre outros livros.

 
Vitória, que universo fantástico! O que me comove, de fato, é sentir em toda essa diversidade plástica, uma artista coerente e forte, mergulhada na noite do mundo. Obrigado por essa co-moção, Um abraço forte! 
Mariza Bertoli é produtora, 
crítica de artes e doutora em Estudos Latino Americanos 
Fundamentos e Crítica pela Universidade de São Paulo. 
Atua principalmente nos temas relacionadas à Arte 
Latino-Americana Contemporânea, Nível Mítico, 
Tema dos Contrários, Modo Simbólico, Imaginário e Regimes de Imagem.



“...em Vitória Basaia a paisagem “é” a obra: a natureza aqui se revela em seu lado ancestral através das lendas, dos mitos da fecundidade e da transformação onde todo material é apropriado e acrescido de um forte valor poético e confessional que faz da arte e da vida parceiras inseparáveis”

 Marcus de Lontra Costa 
é crítico de arte, curador independente 
e Secretário Municipal de Cultura de Nova Iguaçu – RJ.
Vitória, você me fez ver porque a ligação natureza-mulher-mãe permanece viva a 2.500 anos...não vou esquecer do que aqui vi. Um abraço carinhoso à esta genial família!

Maria Helena Kuhner 
é pesquisadora, escritora, criadora 
e organizadora do Catálogo brasileiro 
de dramaturgia


Recentemente, conheci um oráculo de sentidos polissêmicos, onde corredores, chão e paredes assimilavam contornos labirínticos de beleza sensível. O passeio pela casa, jardim e mundo, evoca a lembrança Shakespeariana da tragédia, pornografia, infernos e algumas expressões artísticas eram macabros. E simultaneamente havia comédia, erotismo, espiritualidade e leveza na estética da Vitória Basaia. Belo e Feio desfilavam imbricados, como se no contraforte do diverso, as cores, os relevos e os sentidos se misturassem numa tensiva proposição da ordem na desordem. Meu olhar fenomenológico assistia a dança dos contrários, mas ultrapassando o olhar, convidava a ressignificar meu próprio mundo. A linguagem filosófica ocorria através das pinturas e esculturas espalhadas em cada pedacinho do território Basaiano, como se fosse “um universo numa casca de noz”. A matéria bruta tornou-se viscosa, e se Manoel de Barros transforma a lesma em poesia, Vitória Basaia também tem talento em transformar o feio em belo em suas expressões da arte. Assim reconheci em Vitória Basaia, uma filósofa que emana seus pensamentos através da arte, tal qual o belga surrealista, René Magrite.

No holofote de suas luzes, guarda-chuvas avelhantados tornam-se aranhas, geladeiras velhas ganham roupas novas na pintura filosófica, as garrafas plásticas não se destinam aos lixões e nem os brinquedos antigos escapam da organização de formas e relevos, do prazer erótico desta leitura que acontecia no jardim, na voz da artista, nos cantos de seu oráculo e no prazer do momento. Talvez não fosse um texto institucional, mas emanava uma metalingüística que transcendia o ser, com liberdade para interpretar o trabalho subterrâneo da arte. As narrativas paralisam em alguns momentos, como se permitisse o invisível e o silêncio da transcendência de valores e não apenas de forma, assinalando o desejo impetuoso da revolução. Parecia que os bonecos sentados em cada parte da casa narravam seus testemunhos na esperança sem limites, e embora o prazer e a dor de Eros e Thanatos se evocassem conjugadas no ciclo inacabado da vida e morte, a transformação da matéria emitia uma energia grandiosa da beleza. 

Filosofia e arte lutam contra a satisfação carnal, sorvendo a flor e o orvalho, os tons e semitons do espírito ao milagre da transformação. O oráculo de Vitória soa como a revelação de Fernando Pessoa: “tanto a arte como a ciência, é uma confissão que a vida não basta”. A linguagem poética é metafórica, mágica e feiticeira. Convida-nos a submergir  e emergir no plano cotidiano e grandioso, e no limite do mundo, transcender o próprio sonho. A filosofia Basaiana é singular, pois nenhuma obra é igual a outra. Há sua marca indelével de olhar o mundo, que também se transmuda nas variações das temáticas, na interpretação orgástica dos símbolos, no voyeurismo obsessivo de sua esperança, ou na sensualidade de seu convite.

Na escuridão da noite, não há centros, nem periferias que resistam as vozes murmurantes da consciência – os fantasmas espreitam nos relâmpagos ad mediocridade, e juntamente com as luzes dos raios, conseguem denunciar a desventura planetária. Nem o erotismo noturno consegue escapar das armadilhas, pois a ironia do dualismo é mais inexaurível: as máquinas do mundo se contrapõe e se espelham no crepúsculo da aurora que auncia a claridade de um novo dia. Considerar a arte Basaia, é também reconhecer que situamo-nos no epicentro da filosofia que de novo nos leva á ambigüidade, pois toda a alteridade é dramática, porque chamada á comunhão para continuar sendo, nunca pode ser de entrega total.

No paradoxo de seu nome, Vitória não cria para ganhar, mas trabalha obsessivamente para a inclusão de todos, e não de si própria. Por alguns instantes, parece querer a solidão de seu isolamento etéreo, e simultaneamente transcende seu próprio oráculo para manter a distinção o o limite indelével de não poder nunca ser todos. Na solidão rumorosa de seu percurso, entre família, amigos e admiradores, a arte de Vitória Basaia revela uma linguagem filosófica que ressignifica o mundo.



Michéle Sato é educadora ambiental  
fascinada pelas expressões artísticas, com especial ênfase no surrealismo. Com 18 livros publicados, teve a honra de ser finalista do 
Prêmio Jabuti em 2006, na categoria educação e psicologia. 
É professora e pesquisadora da UFMT (Educação) e da UFSCar (Ecologia), tendo vivências em várias áreas do conhecimento. 
Um destaque no seu currículo revela a amizade com a família 
da Vitória Basaia, pois a aprendizagem constante com esta maravilhosa família é um saber infinito






Fonte:


Vitória Basaia
Todos os direitos autorais reservados a autora.
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