Apologia a uma ciência que supere o “achismo”

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Apologia a uma ciência que supere o “achismo”

por Giam C. C. Miceli
dezembro 21, 2018
Imagem por Kondo

O que é absolutamente paradoxal é o fato de conseguirmos visualizar um gráfico que mostra o aumento do conhecimento científico – e de um maior poder de difusão desse conhecimento – e, ao mesmo tempo, o aumento da estupidez humana


É bem provável que todos nós, sobretudo de alguns poucos anos até hoje, tenhamos escutado a seguinte frase: “É só minha opinião”. É provável, também, que o termo “só” seja acompanhado por um sorriso arrogante, sugerindo que o “só” não seja tão “só” assim. É um “só” que atropela evidências, anos de pesquisa e a própria ciência como um todo.
Evidências não nos faltam: Terra plana, a vacina como vilã e o “marxismo cultural”, expressão criada por alguém que nunca leu uma linha escrita por Karl Marx, além de ser uma expressão que até hoje carece de uma definição mais precisa. O que vem a ser isso?
Thomas Kuhn busca estruturar a evolução das ciências com base no conceito de paradigma, que, de modo simples, pode ser definido como um corpus científico aceito durante determinado período. Mas será que esses períodos podem ser fatiados? Seria possível afirmar que as rupturas ao longo do tempo excluem métodos e pensamentos antecedentes? O historiador Michel De Certeau, por sua vez, enfatiza a existência de uma comunidade científica que detém o poder de conceder o veredito às pesquisas tidas como adequadas e válidas em nossa sociedade. Em outras sociedades e grupos, os parâmetros para se definir o que é válido ou não perpassa outros processos, não esqueçamos. Enquanto o primeiro traça uma relação entre o conhecimento produzido e o tempo que esse conhecimento é considerado legítimo, o segundo destaca os rituais que concedem o estatuto de validade aos saberes produzidos.
Vale a pena mencionar o livro “A Condição Pós-Moderna”, do geógrafo David Harvey. O autor afirma que um dos pontos a marcar a transição da modernidade para a pós-modernidade é a dúvida diante de uma metanarrativa, ou seja, uma narrativa que daria conta do todo passa a ser questionada.
Temos, hoje, pesquisas que passam a valorizar aspectos antes desprezados pelas ciências: intuição, emoções diversas, fé, vínculos identitários, dentre outros. Isso não quer dizer que essas pesquisas são menos científicas, mas sim, que temos uma ciência mais abrangente (ou menos fechada) que vem acolhendo outras perspectivas, outros agentes e outras interpretações do mundo.

Uma ciência menos fechada, menos excludente e menos preconceituosa continua sendo ciência, na medida em que permanecem métodos, verificações, elaborações de enunciados e, como afirmou De Certeau, os rituais que determinam a aprovação ou a reprovação de uma determinada análise.
Algo que difere totalmente do que foi dito anteriormente reside em grupos que acham. “A Terra é plana” ou “vacina faz mal” são frases que estão totalmente fora de qualquer circuito são de pensamento. São simples devaneios, e o mais preocupante é que esses devaneios ganham adeptos. Temos um grupo de pessoas, e não é um grupo pequeno, realmente acreditando nessas coisas. E o mais estranho é a dificuldade que temos em localizar os autores desses enunciados. Como dito no artigo anterior, temos muitas pessoas que, diante de uma escolarização precária, buscam discursos fáceis. É uma paixão assassina por simplismos.
São discursos que pulam etapas e que sugerem um raciocínio (termo benevolente) quase infantil. “Meu filho tomou vacina – meu filho vomitou após tomar vacina – vacina faz mal à saúde” ou “Não sinto a curvatura do planeta Terra, logo o planeta é plano”. Vivenciamos, hoje, um misto de creche com mesa de bar, mesmo com todos os avanços.
O que é absolutamente paradoxal é o fato de conseguirmos visualizar um gráfico que mostra o aumento do conhecimento científico – e de um maior poder de difusão desse conhecimento – e, ao mesmo tempo, o aumento da estupidez humana. A proporção inversa seria a lógica da coisa: mais conhecimento, menos estupidez. O que tempos: mais conhecimento, mais estupidez.
Temos, ainda hoje, uma ciência excludente e que não está ao alcance de todas as pessoas. Infelizmente, esse é um dado da nossa realidade. Mas, mesmo décadas atrás, quando o acesso ao conhecimento era ainda mais restrito, as pessoas se vacinavam e todos, mesmo aqueles sem um grau elevado de escolarização, sabiam que a Terra não era plana. Poderiam não saber o que é um geoide, mas plana, sabiam que não era.
Então não podemos falar só que o problema se deve à escolarização precária. Trata-se de algo muito mais perverso que isso. Temos oportunistas que manipulam essas pessoas, já que a ideia de crítica como critério básico para o avanço do conhecimento e da ciência não existe. Quem são esses oportunistas?
Giam C. C. Miceli é professor da rede municipal de Itaboraí, licenciado em Geografia, com pós em Educação e mestrado em História da Educação.
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